quarta-feira, 25 de março de 2009

O ACOSSADO

Nasceu algures numa aldeia. Visitava-a poucas vezes, apenas sabia que era medíocre, meia dúzia de casas de granito, um caminho de cabras a cortá-la em duas metades, um baldio que pegava fogo regularmente, um charco onde com os outros miúdos esmagava sapos à pedrada. Bom aluno na escola primária, atento, obsequioso para a professora, esperto mas não ladino. O padre António que dava a missa aos domingos vindo da vila num carro de praça, abençoou-o, «Meu filho, vais longe! Faz-te à vida!». E ele fez-se. Foi estudar para a vila, daí para a cidade, instalou-se numa residência universitária às custas de uma bolsita, poupava os tostões, pedia os cigarros aos colegas, emprestava-lhes os apontamentos, elegeu-se delegado de curso, carregava os livros do catedrático que lhe disse certa vez «Meu rapaz, vais longe, fia-te em ti e não te fies nos outros!». E ele assim fez. Arranjou um fiador e adquiriu um apartamento modesto com hipoteca. Amigou-se com a filha de um importante advogado e enfiou-se num ápice num grande consultório. Defendeu todas as causas, no entanto preferia as graúdas: licenciamentos, derrapagens, contra as Câmaras, a favor delas, contra o Estado, a favor dele, contra empresas, a favor delas. Ofereceram-lhe mordomias, começou por escusar pondo os olhos no céu. Insistiram, subiram a parada, aceitou com a cabeça a pensar no padre António. Temia que lhe tirassem o sono; pelo contrário, passou a dormir numa moradia em Cascais. Era ainda novo e o telemóvel não parava de tocar. - Mais um favor? Ora essa, paga-me depois! - Juntou favores, pagaram-lhos a seguir. Nomearam-no secretário de Estado. Competentíssimo. Mandava mais que o ministro. «Oiça, já me tratou daquilo?», «Daquilo? De quê?», «Ó homem, não se pode falar ao telefone, está uma pôrra!», «Ah, sim, já tratei! Fica-me a dever mais uma!». E o ministro ficou a dever. Nomeado administrador de uma poderosa empresa, tornou-se accionista do banco desta. Percebia de tudo, bem lhe dizia a professora da primária «Meu menino, tu és esperto, vais longe!». E ele foi. Meteu-se em negócios de um off-shore e viu dinheiros desaparecerem como um milagre e regressarem mais gordos com outro milagre. Lembrou-se do padre António «Meu filho, milagres só os santos os fazem!». Estivesse vivo e ele lhe explicaria como não é preciso ser santo. Mas aos olhos do bispo com quem jantou até se fez santinho. Grande homem! Fotografia nos jornais, nas revistas, menção nos telejornais, entrevistas. Empreendedor, investidor, administrador, gestor, político, coberto de adjectivos: zeloso, eficiente, talentoso, honrado, sagaz, audacioso.
Nomeado ministro, entrou na História. Fez-se lenda. Atirou-se aos incêndios que assolavam o país com um leão e uns aviões alugados, licenciou auto-estradas, mandou construir uma barragem que inundou meia província, a aldeia onde nascera incluída, o seu nome gravado no betão, reformou instituições limpando-as de parasitas, como ele dizia, apaziguou o chefe quando este se sobressaltava.
Braço-direito do primeiro-ministro substituiu-o quando este se exilou num ermitério. E voltou a dar que falar. Os meninos da Faculdade já aprendiam nas aulas os seus feitos. Um modelo. Os neo-liberais transformaram-no numa referência incontornável.
Veio a crise. O banco faliu, as empresas encerraram as portas para tomar fôlego, os milagres da bolsa e dos off-shores suspenderam-se por uns tempos, de repente tudo lhe caiu em cima, o mundo encolheu e o céu esbarrondou-se sobre a cabeça. Tornou-se cauteloso, discreto, olheiras fundas nalguma foto de jornal. Para uns a lenda esfarrapara-se, para outros, o exemplo perdurava como nas seitas que se agarram às crenças arruinadas. Não se atribuía ao homem a culpa, atribuía-se à crise, e a crise não tinha cara.
Morreu entalado por um camião TIR no seu carrito modesto que ele agora utilizava para não dar nas vistas.
Quem oficiou o funeral foi o padre António, velhíssimo, que se lembrava muito bem do moço da aldeia. E, baixinho, quase inaudível, falou para o caixão: «Meu filho, milagres só os santos!».

1 comentário:

António disse...

qualquer semelhança entre a ficção e a realidade é mera coincidência


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Roma - Castelo de S. Ângelo

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