quinta-feira, 2 de abril de 2009

A CABEÇA

O corpo lá estava, mas a cabeça não. Tenho trinta anos de trabalho na judiciária e nunca assisti a um caso assim. Onde pararia a cabeça do morto? Fora assassinado, decapitado? Se sim, porquê e por quem?
No gabinete da polícia organizei-me para a perseguição. Levei três dias a tentar reunir elementos, sem sucesso algum, sobre a identidade do cadáver; apenas o consegui quando, na Central, recebemos uma queixa sobre o desaparecimento de um indivíduo que fez acender alguma luz no meu espírito desorientado. Queixas dessas eram quase diárias, difícil distinguir o supérfluo do acessório. O cadáver havia sido encontrado num beco, sem qualquer identificação. Somente alguém que nos desse o sinal do seu desaparecimento da sua casa ou do seu trabalho, nos poderia ajudar. Foi tal e qual o que acabou por acontecer. Uma voz feminina participara à polícia de segurança pública o desaparecimento, que lhe parecia misterioso e suspeito, de um indivíduo do qual tracei o perfil: raça caucasiana, sexagenário, professor catedrático da Universidade de Coimbra. A voz feminina apresentou-se-nos imediatamente quando a chamámos. Era uma bonita mulher, longe ainda da meia idade, que, abrindo-se em lágrimas, mostrou-se convicta de que o desaparecido não se escapuliria de casa tanto tempo por vontade própria, pois nem zangados estavam, bem pelo contrário. Fora, de certeza, assassinado, assaltado e assassinado, embora admitisse a hipótese, por insistência minha, de haver caído morto, de morte natural, em qualquer rua esconsa nesses labirintos da cidade dos estudantes. A mulher falava para o gravador, à minha frente, os alvos joelhos nus bem apertados, as mãos finas arrepiando a saia, umas belíssimas mamas a espetarem-se na camiseta, e a sua vasta cabeleira e uns belos olhos azuis provocaram-me um assomo de erecção. Envergonhei-me comigo mesmo: ora essa, a mulher a banhar-se em lágrimas, nervosíssima e eu…Adiante. O desaparecido segundo ela, e a seguir confirmado por nós, era pessoa bem considerada nos meios letrados, dono de uma bonita cabeça, que irradiava inteligência e sabedoria, e cidadão acima de qualquer suspeita. Ora bolas, onde andaria a cabeça? Por este andar ainda eu perdia a minha, sem que se perdesse grande coisa, de tanto matutar.
Dois dias e duas noites em branco não dei tréguas à missão , que se tornou compulsiva, de descobrir a sapiente cabeça. Detive quatro indivíduos cujas cabeças pareciam corresponder à fotografia que a mulher nos entregara. Larguei-os com uma desculpa atabalhoada, ao fim de meia hora: um, era serralheiro mecânico; o outro, caixeiro-viajante; o terceiro, inválido a viver de uma pensão; o quarto, o mais parecido de todos eles, era assumidamente gay, gesticulando com uns modos tão exageradamente femininos que nos fez rir, se bem que não seja um comportamento próprio a uma autoridade.
Onde pararia a dita cabeça? Em que corpo estaria assentada, passeando-se, falando, comendo…?
Entretanto, e isto já eu deveria ter referido mais acima, verificara-se um milagre, se é que eu, autoridade de um Estado laico, poderia recorrer a tais expressões, mas, em boa verdade, não tenho outra para tamanho fenómeno: o morto não estava morto afinal, três horas depois de se encontrar morto e bem morto, erguera-se sozinho da mesa onde o médico legista o observava e quase matando este de susto procurou a porta às apalpadelas, esbarrou diversas vozes com paredes e pessoas e saiu para a rua com a ajuda de uma enfermeira de rosto duro a quem nada parecia surpreender. Soube-se que apanhou um táxi e se encafuou em casa. Telefonei imediatamente para a namorada, companheira ou lá o que fosse, que desatou aos gritos ao telefone num misto de alegria e de estupefacção. E algum medo, diria eu.
Durante três dias, creio já ter dito, incluindo o fim-de-semana, procurei um corpo com a cabeça do indivíduo sem cabeça. Não li um jornal, não olhei para a televisão uma única vez, agarrado ao trabalho como um amante se agarra…à amante. Apesar disso, visitei o homem, para estudar e reunir todos os pormenores. A mulher abriu-me a porta e vi no rosto dela uma estranha serenidade. Encontrei-o sentado no sofá, de pernas cruzadas, roupão e chinelos. Mostrou-se, em contraste com a mulher, completamente furioso com a sua cabeça, passando várias vezes a mão direita sobre o plano absolutamente liso do pescoço onde, antes, lhe assentara uma cabeça invulgar. Não falava evidentemente: gesticulava e a mulher traduzia, escrevinhava incontinentemente num grosso bloco de apontamentos que a mulher decifrava. Denunciou nomes de numerosos indivíduos do seu meio que por inveja seriam capazes de lhe arrancar a cabeça. Porém, na verdade, a mulher já averiguara que todos conservavam as suas, isto é, deles. Dizendo melhor ainda: conservavam-se estúpidos, arrogantes, invejosos. Quem lhe roubaria a cabeça senão por inveja? Receber assim de bandeja, já pronta, uma cabeça que levara dezenas de anos a construir-se, a moldar-se, a encher-se de saber, a derramar luz sobre a cegueira dos outros, a esquartejar as asneiras alheias, a estultícia, as falácias, os sofismas? «Não temos saído de casa, não fazemos nada que ele não possa ver nem ouvir, alheámo-nos de tudo, é tanto o medo e a vergonha, esperamos apenas que o senhor resolva o enigma, confiamos tanto em si…», confessou a mulher. Não me atrevi sequer a dar-lhe conselhos, a ele, professor catedrático supra-sábio, a aquietar-se, a habituar-se a conviver com a falta, a brecha, a ruptura, o deslize, o espectro, em suma, de uma cabeça amada que o abandonara miseravelmente, metendo-se noutro corpo, enfiando-se na cama com ele, dando-lhe de comer e de beber…A bonita namorada como que percebeu os meus pensamentos: «Ele não fala, é certo, é horrível para ele, tão comunicativo, um grande conferencista, dezenas de estudantes nos seus seminários, agora refugia-se em casa, não ouve os telefonemas, nem lê na internet…aqui, em casa, utiliza muito bem os sentidos que lhe restam e a motricidade, tem um sentido muito apurado do tacto…». Aqui a beleza estacou e ruborizou-se. Não sou uma luminária mas sou suficientemente malandro para descortinar as fantasias que o sábio executaria sobre o estupendo corpo daquela mulher. Enfim, escapes para a sua falta. Se eu fosse sábio, diria «castração» ou «ferida narcísica», mas não sou.
Hoje, dia cinco de Maio, quando me dirigia para o meu gabinete na judiciária, o meu director esperava-me com uma cigarrilha na mão. «Oiça lá, ó Esteves, onde é que tem andado? Ao fim de tantos e tão bons anos de serviço a prender meliantes e o culpado à sua frente e não o topa??». Agarrei-me à porta envidraçada, um tremor percorreu-me o corpo até aos pés. «Não percebo o que me está a dizer!». «Pois não, como é que havia de perceber se não abriu um jornal nem viu um único telejornal?? A sua cabeça, desculpe lá, a cabeça que procura está aqui e ali escarrapachada, milhões de seres comuns já a viram, já a amam ou odeiam, e ninguém se acusa!». E atirou-me o Correio da Manhã para cima literalmente.
O que vi deixou-me estarrecido, mudo com os olhos arregalados como um mocho. A cabeça ocupava um quarto da primeira página. O cabeçalho intitulava-se: «O Primeiro-Ministro, com o seu novo look, inaugurou o TGV». Em baixo, relatava-se pormenorizadamente que o Primeiro-Ministro, abandonara o refúgio e o anonimato em que se recolhera três dias e três noites, para meditar, provavelmente recorrendo a técnicas do extremo-oriente, e apresentava-se ao povo, agora e subitamente, com uma nova cabeça, espectacular, emoldurada de uma bela e farta cabeleira branca, uma testa elevada que ressumava inteligência, um olhar penetrante que deixava os adversários completamente desarmados, as palavras escorriam como pérolas, cintilantes, embutidas em argumentos definitivos, sem falácias nem sofismas, frases inteiras em grego e latim, sentenças imortais de Aristóteles e de Séneca, citações oportuníssimas de Hegel (no mais perfeito alemão), de Nietzsche, Marcuse, Deleuze…O povo miúdo não entendia patavina, mas abria a boca de profunda e sincera admiração. Os seus correligionários encolhiam-se, vergados ao peso da grandeza, da autoridade sublime, das mordomias que ele, o chefe, doava em latim moderno.
Quando contei ao professor sem cabeça onde se encontrava, afinal, a cabeça dele, o homem caiu para o lado com uma síncope. Realmente, não era caso para menos: como é que eu, modesto funcionário, teria alguma vez poder para acusar tão grandiosa figura do roubo da sua cabeça? Dele, ou de outro?

2 comentários:

cid simoes disse...

belo texto!

Helena Caldeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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