segunda-feira, 6 de abril de 2009

EU VI



Eu vi crianças deitadas em modestos caixões. Eram pequeninas como eu era então. Condiscípulas da mesma escola estilo «Estado Novo», no topo da colina, a igrejinha ao pé, para lá chegar calcorreávamos quilómetros, servíamo-nos da linha de caminho-de-ferro como orientação. Sentavam-se ao fundo, ou à frente, de salas geladas, em secretárias duras como pedra, os tinteiros nos tampos, um humilde cadernito em cima, os pezinhos frios, a cabeça a tombar com o sono, o frio, a fome. Eu via-as depois em féretros de pinho. Morriam com o sarampo, pneumonia, meningite, de qualquer coisa. Ia vê-las com os demais companheiros, e ficava absorto, sem compreender. O que era a morte? não sabia.
Não recordo o funeral do meu irmãozinho, de quatro anos, nem das brincadeiras comuns que ambos certamente fazíamos. Guardo uma imagem vaga da minha mãe chorando silenciosamente. Guardo, porém, um sentimento agudo de injustiça, o sem-sentido de perda irreparável, da justiça não a compreendia ainda.
Vi, três anos depois da tragédia, o meu pai saindo porta fora, com lágrimas nos olhos, disseram-me mais tarde que estava preso muito longe, num forte com muros altos, castigado não soube porquê, e novamente senti uma profunda revolta, que foi a raiz, e a chama com que incendiei as minhas ideias.
Vi uma mulher, parecia jovem sob os farrapos, tombada numa rua da grande cidade, debaixo de um fardo de tábuas demasiado pesado para ela. Há quantas horas trabalhava nisso? que comera? Vi que ninguém a levantou, lhe deu a mão. Eu dei. E mais os vinte escudos que eram toda a minha fortuna. Faltavam poucos anos para o dia 25 de Abril de 1974.

Eu vi em África, no interior da mata, um grupo de homens brancos a tentar violar uns miúdos negros, fosse a gozar, fosse a sério, porque riam, gargalhavam, brutais, feios e porcos. E meteu-se em mim uma vontade de lhes bater, espancar, desfazer. Tirei o cinto mas não me atrevi. Era um miúdo. A chama que incendiava as minhas ideias ficou mais acesa.
Eu vi, passando na estrada, centenas, talvez milhares, de operários pedalando frágeis bicicletas a caminho das fábricas, pedalando, pedalando, pela aurora, pelo crepúsculo, com casacos mal talhados, de sarja pobre, sob a chuva, sob os ventos, com uma malga de caldo no estômago, talvez um bagaço. Ficou mais forte a minha chama. O que quer que fosse a justiça era assunto que me perseguia.
Eu vi como muitos fugiam e os coelhos eram mais bravos. Eu vi como a cobardia é coisa comum e a vergonha raramente a acompanha.
Eu vi como um companheiro, um estudante como eu, de origem social ainda mais modesta, companheiro do bilhar, se tornou delator, como chusmas de colegas de turma furaram uma greve na universidade, como um estudante engraxa um mestre, como a traição se insinua como um réptil numa relação, como um homem ou mulher têm um preço, não apenas quando trabalham, mas para que roubem, enganem, trepem mais uma tarimba, conquistem mais uns galões.
Eu vi um povo quase todo adormecido, estupidificado, silencioso, rude, maldoso, acobardado. Contudo, vi a valentia de camponeses do Alentejo e de operários fabris. E a minha chama ficou a arder.
E vi-te. Um pedaço de céu a andar dançando abrindo as águas, uma onda suave e branda, um sopro de brisa numa manhã de Abril, um riso dando música a uma tarde suavíssima de Setembro. Meu amor.

2 comentários:

Helena Caldeira disse...

Incendiário!
É interessante constatar, Nozes, como o fogo que nos movimenta é o mesmo que nos consome. E este alimenta-se dos retratos e imagens incólumes de grandes e pequenas injustiças que vamos testemunhando ao longo da vida.
Muitos mais e intensos anos de inspiração desta, é o que te desejo, depois de descobrir esta tua faceta de um verdadeiro contador de histórias!

FilosMadTorres disse...

Brilhante! Arrebatador!


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