domingo, 12 de abril de 2009

OS DOIS IRMÃOS

O reino estava de luto. Morrera o rei. Deixou dois filhos. Cabia ao primogénito a coroa, porém era ao mais novo que o pai dedicava toda a sua afeição. Aconselhou mesmo o Parlamento que a escolha recaísse sobre esse. Os parlamentares decidiram-se pelo outro, por maioria absoluta de votos, atendendo à razão ponderosa da legitimidade do primonato e às suas qualidades de guerreiro. De facto, o reino, sendo pequeno e encostado a um reino maior e poderoso, era alvo permanente da cobiça, havendo até uma facção interna que preferia a junção dos dois, em nome da segurança. Por conseguinte, a facção dominante, e não a anterior, votou naquele que mais confiança incutia. De facto, os dois irmãos eram completamente diferentes: o mais velho, um temperamental, aguerrido e destemido, ambicionando glórias, autoritário, devotado apenas às armas e às cerimónias pomposas em que ele próprio pudesse brilhar no esplendor do poder; o mais novo, uma criatura toda ela sensibilidade, doçura no trato, tolerante, animadverso a batalhas e heroísmos, meditativo e sonhador. O novo rei era casado, o segundo nem em tal coisa pensava. A primeira dama era uma mulher extraordinariamente bela, os embaixadores de todos os países que vieram cumprimentar o novo soberano regressaram aos seus reinos perdidos de concupiscência, desejosos de ocuparem o pequeno reino e a cama da mulher. O que ninguém sabia, o segredo mais bem guardado, era este: a rainha estava loucamente apaixonada pelo cunhado, sempre o preferira a ele, porém nunca recebera qualquer sinal de interesse.
Mesmo antes das longas cerimónias da coroação haverem terminado, já o irmão e cunhado desaparecera. A rainha, o próprio rei, ordenaram que o procurassem em todos os cantos e recantos do palácio, jardim real, ruas, praças, prédios e casebres da cidade. Muitos se aprestaram a fornecer informações sobre o seu paradeiro, mas nenhuma delas conduziu ao desaparecido. Muito mais tarde, a rainha, que não desistia, soube, apenas soube, que o cunhado deambulava pelas aldeias mais pobres do reino, habitava-as um momento e logo partia, deixando atrás de si um pedaço mais da lenda que o convertia num homem santo, que semeava sonhos nos pequeninos e esperanças nos mais idosos, isto é, ao mesmo tempo que brincava como uma criança, falava aos mais velhos na irremediável fugacidade de todas coisas, que este mundo rolava no espaço imperturbável às paixões inúteis dos homens. Sabendo isto, a cunhada mais o amava, dilacerada contudo pelo dilema de amar no marido a sua fogosidade viril, o seu corpo atlético, a autoridade que dele irradiava como uma força natural, o governante audaz que repelia à espada os vizinhos inimigos, e amar no cunhado a sua docilidade , delicadeza de corpo e alma, a poesia que irradiava dos seus belos castanhos.
Os anos passaram, como passam os invernos e as primaveras, e um certo dia uma comitiva chorosa transportou para o palácio o cadáver do rei, tombado na última batalha. A viúva chorou sinceramente e durante um ano encerrou-se em pesado luto. Por fim, ardendo de saudade pelo cunhado, atormentada pela solidão, ordenou que o fossem buscar para ocupar o trono a seu lado, ainda que à força fosse. Muito mundo tiveram de percorrer até que o encontraram sentado sob uma frondosa figueira-da-índia. Disseram-lhe ao que vinham. Souberam apimentar a conversa tecendo francos elogios à superlativa beleza da viúva. Recusou. Proferiu um curto sermão do qual apenas conseguiram resumir, perante a rainha viúva, o seguinte aforismo: «Torna-te no que és. Vive de tal modo que, quando retornares, queiras repetir a vida que escolheste!».
Reza a história que o reino foi governado muitos e bons anos por uma mulher que soube conjugar o verbo «governar» com o verbo «perdoar». A autoridade do marido de um lado, a doçura do cunhado do outro.

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