terça-feira, 8 de setembro de 2009

Na Hora da Nossa Morte (novela)

Diário de Carlos. 1

Pensamos que as coisas sucedem porque assim as decidimos, escolhemos, por livre arbítrio. Porém, um dia sem darmos conta do porquê, olhamos à nossa volta e tudo que vemos nada nos pertence, a cidade em que vivemos, trabalhamos, respiramos, não é nossa, nem o país, nem o mundo. Estamos sós. Com a nossa memória.
Calcorreámos bem mais de trinta quilómetros, quarenta anos decorridos a memória atraiçoa, exagera ou minimiza, então, sobretudo, quando somos petizes os percursos parecem-nos incomensuráveis, intermináveis, na verdade, com toda a certeza, aquela viagem a pé por montes e mais montes desde a pequena aldeia portuguesa para o outro lado, a Espanha, Galiza, tornou-se emblemática, o meu pai e eu, só nós dois, a pisar o restolho, a esfolar os sapatos nas lascas aguçadas do granito transmontano, não recordo queixumes, a força que eu tomava como hercúlea do meu pai e a energia indomável do meu corpo e do meu carácter, a bater nos arbustos com uma giesta em flor, agora é sempre a descer, incitava-me a sua voz, severa para outros, doce para mim, agora sempre a subir, e lá íamos de peito feito à aragem seca daquelas terras que deus esquecera. Nunca te contei esta aventura, tantas foram as que não sabes, falávamos de tudo e ficou o mais íntimo por contar, fragmentos de uma vida, da nossa formação, tu contaste-me mais de ti do que eu, de repente a propósito ou sem propósito, relatavas um episódio da tua infância, desse período tinhas gosto em contar, da adolescência bem menos, aqui seleccionavas, racionalizavas, cautelosamente.
Se nos recordássemos de todos os dias, dias e horas e noites sonâmbulas, vigilantes, o filme das nossas vidas apresentava-se inteiro e contínuo, como se bastasse pressionar um telecomando e, mesmo assim, um filme ficcionado. Não possuímos tamanha capacidade. No meu caso esqueci uma boa parte da minha vida. Não apenas o que não me convém lembrar, mas o que me convinha de todo.
Recordo essa viagem de não sei quantas horas quando apertado pelo aguilhão da fome entrámos em Espanha e desembocámos na rua principal da vila galega, para comprar um par de calças, é verdade, para o meu pai me oferecer o meu primeiro par de calças compridas, usávamos sempre calções, fosse verão ou inverno, quando éramos garotinhos, com uma abertura na juntura das nádegas, acredita, é quase do teu tempo, mas tu vivias na grande cidade, ou muito provavelmente não recordas, és mais nova, digo: eras mais nova; pois, foi exactamente isso, umas calças cinzentas, o meu pai só me perguntou «Gostas?» sem que parecesse decidir-se por outras se a minha opinião fosse contrária. Bom homem, bom pai, mas decidido. Exibi-me com o par de calças novo, as primeiras, já o disse, no cinema da cidade de Chaves, todo pinoca, disfarçado de rapaz crescido, o mais sério semblante a condizer, com os meus sete anos a brilhar ingénuos nuns olhos castanhos, a devorar o primeiro filme, «Pinóquio», do Walt Disney e a sair para a rua com o coração a bater forte, a cabeça cheia de fantasias.
Era um embrião do que sou, do que me tornei, um rizoma, o esboço do meu temperamento simultaneamente fantasista e prático. Quando me conheceste o que viste em mim? Para além do físico, quero dizer. Falaste nisso muitas vezes. Disseste «Vi um rapaz decidido, todo prático, excelente nas matemáticas e que me oferecia uns versos inspirados», disseste tu. Dizias tu.
Diário de Carlos. 2

Quando a tua doença se declarou, quando todas as tentativas de cura se esgotavam, uma após outra, os teus cabelos a embranquecerem da noite para o dia, e depois a caírem em farrapos, tu encaraste a morte nos olhos e eu encarei a minha vida, passada e futura, como uma infinita tristeza. Não fui capaz de um único pensamento positivo. Durante a tua doença terminal e durante estes dois anos da tua ausência, nenhuma esperança, nenhuma alegria me visitou. Quase catorze anos de vida em comum, tornaram-nos cúmplices, tão próximos e às vezes tão previsíveis e semelhantes, que todas as minhas fugas hão de ter aí a sua explicação. E as tuas.
Estou aqui, à tua beira. Vejo-te definhar cada dia que passa, em cada visita diária. Abandono o trabalho a meio. Vale-me a antiguidade, que é um posto, e uma equipa solidária. Nos primeiros tempos da eclosão da tua doença choravas muito, comigo e sem mim, vulnerável, impotente para admitires o irremediável, por vezes a esperança nascia no teu ânimo como um clarão, um dia de sol, retomavas os teus projectos com uma vontade que me contagiava, cheguei a convencer-me de que a cura era possível, ter pensamentos positivos, esperança, dizem, cura mais do que os químicos, mas não, contigo não foi possível o milagre da mente.
Estou aqui e observo as pálpebras cerradas dos teus olhos que já foram bonitos, brilhantes, castanhos. Já foram quentes, iluminados pela tua inteligência arguta. Governavas a galeria de artes sem que o Bártolo conseguisse acompanhar a velocidade do teu raciocínio, dos teus argumentos a favor ou contra este ou aquele artista, esta ou aquela obra. Ele entrava com o capital, tu com a tua sagacidade. Gorducho, com rosto de bebé, mas fino e calculista, o Bártolo.
O Gonçalves ao telefone,” Quando é que começamos a pôrra da ponte?”. Um dia destes. Trago-a na cabeça toda acabadinha, mas não sai para o computador, os cálculos estão prontos. Falta a maqueta, pôrra!, pois, ok, está toda na cabeça, falta pouco. Pouco?? Achas pouco??
A palavra «merda» perfila-se prontinha para ser largada. Este gajo tem razão mas não deixa de ser o que é: um enorme chatarrão. Tudo pronto, a horas, é o prestígio da empresa, é o Tribunal de Contas, é o caraças. Tem razão o tipo. A ponte está prontinha, é só sair cá para fora, como Vénus do Oceano. Elegante como Vénus, apetecível como Vénus, provocante, desejosa de ser atravessada, penetrada, com os seus dois arcos inovadores, duas espirais, aparentemente frágil mas bem segura, ao mesmo tempo aberta e fechada, transparente e enigmática. As outras pontes que ajudei a desenhar ficarão no olvido, ultrapassadas por este projecto de uma vida, da minha, talvez eu morra, desapareça, perdurará como um testamento. Se o Gonçalves entretanto não correr comigo. A minha cabeça não consegue produzir outros projectos senão este. Cheia deste, vazia para tudo o mais. Vazia.

Diário de Marta.1

O cheiro da doença e da morte enjoa, como o aroma fétido de um mar morto. Combate aquele veneno insidioso que a invade nestas noites na Urgência. Gisela não anda aqui. Gisela não pode andar aqui. As crianças dormem, ou choram, noutra sala. Gisela esteve lá, não está mais. Não quero deixar-me prender pelas algemas da memória. O turno nunca mais chega ao fim. Os velhos chamam a toda a hora, cheiram mal e queixam-se de tudo. Chegam à beira da morte, trazem o odor da morte, acabam aqui ou noutro lado. Resmungam, tossem, tossem de propósito, arfam como leões solitários e moribundos. Quando pela manhã regressar a casa, Gisela não estará à minha espera. Tem – porque disse tem?-, de ir para a creche, às vezes não a levo, não a levava, saia do turno, ficávamos as duas aconchegadas na cama, a empregada doméstica é que a fazia levantar, a contragosto, ‘Vamos menina! Até lhe faz mal tanta cama! Deixe a mamã descansar, vá!’
Não tenho sono. No tempo da Gisela andava sempre cheia de sono. Agora que precisava de dormir, não durmo. Dormir dois, três dias, sem parar. Reabrir os olhos e escutar a minha filha na sala a fazer traquinices, a meter-se com a empregada, ‘Menina, então? Deixe a Ermelinda trabalhar!’
Não quero pensar nisso, mas penso, o meu corpo pensa, a sua mente não quer. Cerro os olhos, mal recostada numa cadeira de ferro pintada de branco não durmo um minuto sequer. Deixo-me vaguear, evitando fixar-me em imagens dolorosas. Os turnos são intermináveis, um espaço e um tempo de tortura. Quando batem à porta «Doutora, mais um!», levanto-me mecanicamente, observo o paciente, dou as ordens correctas, examino, prescrevo, mas sem vontade própria, como se andasse e agisse por instinto. Esqueço os nomes dos doentes. Escuto as queixas, mas evito as respostas. Não me aproximo. Aproximar-me é envolver-me demasiado. Do corredor, atravancado de camas, vem um choro quase murmurado. Sei de quem é, não atenderei, o que eu tinha de cumprir, já cumpri, não quero que aqueles olhos sofridos a clamar por socorro me acompanhem quando eu regressar a casa, não quero que a morte tenha um rosto.
Pela manhã executo os procedimentos habituais para entregar a vez ao médico que entra ao serviço, coloco o casaco sobre os ombros, não me despeço de ninguém, ouço vagamente despedirem-se de mim, intuo vagamente afecto e respeito nos cumprimentos, aconchegou mais a mim o casaco na manhã fria, dirijo-me ao automóvel e parto.
Não encontro a empregada em casa. É claro, despedi-a há um mês. Não a queria ouvir constantemente a falar na Gisela. Um apartamento vazio é como uma cova. Estendo-me no sofá, já não é o mesmo do tempo em que tinha uma família normal, marido, uma filha, levei tempos infindos a decidir-me permanecer naquela casa, mas como era bem perto do hospital, acabei por resolver-me a remodelá-la, consegui que uma empresa me ficasse com quase tudo em troca de mobílias novas. Tento adormecer. Pensar em coisas boas. Não consigo.
O telemóvel acordou-me. Atendi enquanto olhava para as horas. Dormira sete horas, uma ligeira sensação de fome lembrava-me que não comia uma refeição quente há doze horas pelo menos. «Sim, como é que está, mãe? Diga!». Escutei o discurso incessante dela a admoestar-me por não me alimentar suficientemente, “Assim, a trabalhar tanto e sem comer, que almoçaste? nada, claro, não tinhas nada no frigorífico? Não sabias fornecer-te? Queres uma pizza que eu encomendo? Olha, vem jantar cá, vem!”
Um duche frio para apagar o sonho que o telefonema interrompera. A Gisela na caminha dela a chamar por mim com um sorriso e a boneca preferida na mão… o peito manchado de sangue…

Diário de Carlos.3

Sinto um mau cheiro, a atmosfera está carregada de maus-cheiros. Esta cidade, este país, apodrece. De tanto adiado apodrece. Na indefinição, na indiferença, na estupidez. Cupidez. Pobreza. Avanço e paro, neste trânsito caótico, avanço e paro. Sou um país que avança, faz que avança, e pára. Disfarça-se de rico, desenvolvido, europeu. Sempre adiado. E é o sacana do Gonçalves que não me larga o telemóvel, «O projecto? Quando é que o trazes? Pôrra!». Vai-te lixar, Gonçalves. A minha ponte não se fará às três pancadas. Quero uma ponte tão alvacenta ao sol que irradie a luz como uma tela impressionista, que à noite se ilumine de mil estrelas artificiais. Uma ponte com pés de granito, braços de mármores, cabeça de aço. Quero uma ponte com um jardim suspenso, como na Babilónia. Canteiros com flores de ambos os lados. Com sonoridades: a música de Brukner para quem entra, a de Verdi para quem sai. Não quero apenas pedra e aço: quero madeira, arquivoltas de madeira de carvalho. Uma mistura sábia de passado e de futuro. Tenho tudo na cabeça.
As multidões acotovelam-se como se tivessem um destino. Mas não têm. Ninguém tem aqui, nas ruas, um emprego certo. Dia aos dia os desempregados acumulam-se nas esquinas, nos passeios. A pobreza perdeu a vergonha. Os antigos funcionários de fato e gravata são agora indigentes. Os operários de fato de macaco são agora pedintes. As lojas encerram as portas. Aqui e ali sobram ainda algumas, com a empregada à porta, a fumar com o telemóvel na orelha, a fingir que são muito cortejadas.
As notícias são aterradoras, os esforços do Governo para acalmar são infrutíferos, a propaganda já não resulta, a realidade está nas ruas e nos ecrãs, virtual e real identificam-se, para os jornalistas as más notícias são as boas notícias. Por mais que alguns disfarcem, a soldo do Governo, o alarme está instalado, os pobres são milhões, os quase-pobres são incontáveis. A ameaça do caos e da anarquia insinua-se por entre os interstícios dos poderes difusos, as oposições e os contra-poderes disseminam-se. Revoltas surdas, revoltas ruidosas, manifestações públicas constantes, greves, os empresários - pequenos, médios, grandes - recorrem generalizadamente ao mecanismo do chamado ‘lay-off’, acentuando as contradições do capitalismo: se a regra do Capital é aumentar a jornada de trabalho, agora é diminui-la quando precisam. As encomendas não chegam, as encomendas não se escoam, as dívidas aos fornecedores acumulam-se, os bancos ficam de mãos a abanar.
E quer o Gonçalves a ponte com urgência…antes que o caos o afogue. A fé dele é que o Governo cumpra com as soluções que apregoa para amansar a crise: obras públicas. A verdade é que anda a pedinchar os dinheiros à União. Até para uma ponte de modestas dimensões. Candidata-se a tudo que é programa, mas nem o que lhe dão gasta. A Europa? As notícias do dia são as piores para ela (ou para eles): atentados terroristas abalaram hoje vários países, amanhã chegarão aqui. Atentados sem assinatura, para os quais se inventa imediatamente uma ‘Al-kaida’ que já não existe, se alguma vez existiu, o terrorismo é já interior, europeu, começou nos países mais pobres, do Leste, e já irrompe nas potências do Ocidente, nas praças-fortes, e dos discípulos de Ossama Bin Laden não há vestígios. Que forças estão por detrás não se sabe, provavelmente as polícias, os militares, os grupos da extrema-direita. Não se sabe. Talvez a extrema-direita com a extrema-esquerda, já não seria a primeira vez, é da História.
O lixo amontoa-se. Os trabalhadores estão em greve há dois dias. Cães e gatos vadios esgravatam nos caixotes, de certeza que muitos deles se escapam à fome que os donos lhes dão. Ao cair da noite competem ferozmente com seres humanos, de faces lívidas e esquálidas, fantasmas, monstros de um filme de zombies.
Sim, o sacana do Gonçalves tem razão: é preciso construir a ponte quando antes, que isto está para explodir. Não acredito em paraísos, muito menos naqueles que brotam das ruínas de uma sociedade devastada pela guerra, pela fome, pelo terror. Contudo, a minha ponte é uma utopia. É assim mesmo que eu a quero. Que digam dela que é um sinal de esperança, que, para mim, é um sinal da vontade teimosa que tenho de sobreviver. Altifalantes difundirão permanentemente óperas e sinfonias, palhaços e acrobatas entusiasmarão as crianças que a atravessarem, nos automóveis dos papás ou a pé pela mão deles. Largos passeios permitirão que se passe a pé, para desfrutar do ambiente. A ribeira (porque nem chega a ser rio) há-de correr límpida e cristalina, bandos de patos escolherão aquele habitat acolhedor, nas margens floridas crescerão choupos e olmos.
Sim, é preciso que a ponte se eleve, alvacenta e azul, como a pele e os olhos de uma bela mulher. Com os seus braços sensuais, as suas coxas sedosas, o seu ventre ondulado…A minha ponte é a utopia, e a utopia disfarça-se de mulher.
Depois dela virá o dilúvio. Ela permanecerá.

(cont.)

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