terça-feira, 1 de setembro de 2009

Viagens Extraordinárias - 1º capítulo:"O planeta das Duas Metades"

O primeiro planeta que visitámos ( as suas coordenadas, deste e dos que lhe seguiram, já vos foram transmitidas oportunamente ), registámo-lo com o nome provisório de Duas Metades (talvez fosse mais apropriado o de O Mundo Cortado Ao Meio, mas a maioria inclinou-se para o outro nome). Detectámo-lo dois anos-luz antes da nossa aproximação, concluindo através dos dados recolhidos que haveria de ser o primeiro a escalar. Possui três vezes o diâmetro da Terra, um oceano apenas, embora de vastíssimo comprimento pois que divide este mundo em dois continentes, fechando um círculo completo. O continente “Ibéria” ( atribuímos este nome porque se assemelha em certos aspectos à nossa Península Ibérica) é acentuadamente menos povoado que o outro, o qual designámos por “Ameríndio” pelas suas semelhanças com as terras dos nossos antigos ameríndios – aproximadamente dez milhões de indivíduos no primeiro, sendo que o segundo é habitado por cerca de vinte milhões. O clima de “Ibéria” é mais seco do que o “Ameríndio” e, em nenhum deles, se conhece formação e queda acentuada de neve, excepto nos picos das mais elevadas montanhas. Quando, porém, nós fabricámos artificialmente gelo e neve, para os impressionar, eles riram-se, informando que há milénios que transportam neve para as cidades, pois adoram iguarias geladas! De facto, ambas as civilizações, da “Ibéria” e da “Ameríndia”, existem há um milhão e meio de anos. Corrigimos : o planeta é habitado por vida inteligente há dez milhões de anos e por duas etnias, que derivaram de uma única matriz, há nove milhões e meio de anos terrestres: a etnia azul que habita a “Ibéria” e a outra, roxa, que ocupa a “Ameríndia” ; sucederam-se, todavia, diversas civilizações, sempre muito semelhantes entre as duas margens (digamos assim) do oceano Kómos ( como é designado), tendo atingido há um milhão de anos aproximadamente um grau de desenvolvimento tal, que superava largamente o nosso em muitos aspectos! Poucos vestígios desse tempo restam, excepto ruínas cobertas de vegetação silvestre, pois que há quinhentos anos atrás quase todos os habitantes, de ambas as margens, foram dizimados por um cataclismo desconhecido. A seguir a uma profunda estagnação, recuperaram resignadamente uma indústria artesanal, limitada somente à produção do estritamente básico. Nos últimos tempos porém, e foi esta a situação que encontrámos, a vida de ambos os povos tem passado a pautar-se por regras diametralmente opostas.
O “iberos” não fabricam armas, sendo mesmo punido com escravatura todo aquele que as comercialize. Os “iberos” ( que na realidade se designam por Alkómos, o povo – do- mar) vivem em uma dúzia de cidades, e têm como capital uma importante urbe de um milhão de habitantes, Liskómos, ou seja “cidade do mar”; os “ameríndios” ( designados por AlKómor, que traduzimos por povo-do-monte-Kómor, o mais elevado, com cerca de quinze mil metros), pelo contrário, agrupam-se, ou amontoam-se, em miríades de aldeias miseráveis e em duas grandes urbes, com palácios sobre as colinas e bairros populosos e infectos em baixo; as habitações dos “iberos” são individuais, cada indivíduo possui a sua própria casa, não se constituindo em casais estáveis ou famílias; os segundos residem cada vez mais em enormes habitáculos comuns, abandonando gradualmente as suas residências individuais. Os “iberos” envergam indescritíveis vestuários, tal é a sua extrema variedade, no corte e na cor; os “ameríndios”, pelo contrário, tendem cada vez mais a vestir-se por igual, servindo-se em grandes armazéns públicos, onde em lugar de moeda utilizam uma espécie de fichas rudimentares, nas quais as despesas se vão abatendo do montante que elas comportam ( deste modo são perfeitamente vigiados); os “iberos”, pelo contrário, esbanjam dinheiro ( uma espécie de contas de vidro) sem qualquer apego e contabilidade. O povo da “Ameríndia” é profundamente religioso, praticando uma única religião, caracterizada pela crença num Deus que tomam como criador e Rei, do qual aguardam a todo o momento a chegada ao mundo para oferecer-lhes um milhão de anos de felicidade, mas após uma apocalíptica guerra santa; no outro continente, porém, todas as crenças são permitidas, encaradas mais como jogos de imaginação, visto que competem entre si, com grande entusiasmo, pela fábula mais bem conseguida; não é difícil agora perceber, ou começar a perceber, que os “ameríndios” desprezam e odeiam mesmo os indígenas da outra Margem, e durante as primeiras semanas depois que chegámos à terra dos segundos, fomos por estes informados de determinados actividades conspirativas por parte dos “roxos”, que indiciavam preparativos secretos para uma invasão através do oceano– já integrada neste propósito, assistimos à difusão de estranhas doenças ( segundo a opinião dos próprios “iberos”) que passamos a descrever : ataques de melancolia aguda, surtos de atitudes de contemplação apática ( cretinice, julgamos nós, com paragem do fluxo da consciência), indivíduos que, subitamente, pareciam adormecer com a cabeça sobre o umbigo, sem que nada os conseguisse fazer acordar de novo; outros, sem aviso, irrompiam a cantar com os olhos em alvo e as mãos abertas, ou então, rojavam-se no solo e beijavam o pó com aparente delícia, e esforçavam-se por lamber os sapatos dos transeuntes que os olhavam estupefactos; finalmente, e isto é encarado como um dos piores males, um número crescente de “iberos” recusava teimosamente praticar o coito, sob qualquer forma, deambulando completamente tapados; por enquanto, pelo menos no período em que lá estivemos, não se verificava diminuição na vontade e na capacidade de trabalho na generalidade, embora as reivindicações de alguns pela introdução de intervalos sucessivos para “meditar” ( nada que sugerisse rezas) começassem pouco a pouco a produzir prejuízos. Estas doenças, ainda sem carácter epidémico, são causadas por insectos que transportam substâncias tóxicas, de acordo com as últimas investigações conhecidas entre os “iberos” – moscas, abelhas e, sobretudo, mosquitos. As suspeitas conduziam claramente para a responsabilização dos “ameríndios”, na medida em que estes consideram sagrados estes animais, cuidando deles em locais reservados dos seus templos e andando sempre acompanhados por um enxame de moscas ( é claro que os suspeitos negam entretanto veementemente qualquer intenção criminosa, desculpando-se com o facto de os enxames poderem atravessar perfeitamente o oceano; os “iberos” argumentam que tal seria impossível por causa dos violentos ciclones que varrem o mar) ; pelo nosso lado, admitimos sem hesitação alguma que o ódio fanático dos “roxos” esteja a traduzir-se por ataques cada vez mais agressivos, não através de armas convencionais ( que eles não sabem produzir) mas por meio de animais treinados, por exemplo as tais famosas “abelhas de Deus”. Julgamos convictamente que estes insectos, tão bonitos e úteis na nossa terra, estão a ser inoculados com determinadas substâncias tóxicas que inseminam comportamentos anómalos tanto num povo como no outro.
Quando “aterrámos” no planeta ( que entretanto fomos investigando no decurso da aproximação) o que mais nos surpreendeu foi seguramente a organização anatómica dos indígenas: de elevadíssima estatura ( média: dois metros e meio), completamente calvos ( excepto as “fêmeas” que exibem umas trunfas no cocuruto dos belos crânios), dispondo, aliás, de mui rara pilosidade mesmo nos órgãos sexuais, que se localizam na zona do que é em nós o ânus ( este, por sua vez, situa-se na zona dos nossos órgãos genitais, em ambos os sexos, pois as “mulheres” não urinam pelo orifício vaginal mas, antes, pelo “ânus”); as nádegas são à frente, correspondendo ao nosso baixo ventre, os órgãos mamários por cima da vagina, o correspondente à parte superior das nossas nádegas e, embora sejam grandes e munidos de uns longos mamilos, são, todavia, encantadores segundo o nosso ponto de vista. Os aborígenes ( referimo-nos apenas aos Alkómos) praticam o coito deste modo: o “macho” senta-se literalmente sobre o baixo dorso da “fêmea”, a qual se coloca em posição completamente horizontal, e assim permanecem imenso tempo, grande parte do qual em imobilidade quase total, excepto no clímax. Este povo é muitíssimo liberal: amiúde, pelos jardins e parques públicos, ou no espaço relvado em frente das vivendas individuais, topam-se com casais nessas posturas, sem que os outros prestem a mínima atenção, excepto os garotos que desatam a rir sem malícia.
Tendo pousado na faixa litoral da “Ibéria”, fomos recebidos por uma pequena multidão que já nos aguardava ( comunicámos da nave-mãe em órbita e soubemos depois com surpresa natural que haviam recebido as nossas mensagens, não por meio de tecnologias semelhantes às nossas, mas, ó surpresa!, através de pura e simples telepatia!). Servimo-nos de uma das duas cápsulas de que dispomos, deixando em órbita a nave principal, como é de regra, pilotada pelo segundo imediato, John Huizinga. Uma delegação composta por dois “homens”, chefiados, segundo nos pareceu, por uma “mulher”, dirigiu-se-nos com gestos descontraídos e cordiais. Não entendendo a língua local, começámos por utilizar a “linguagem universal” fabricada, como se sabe, pelos nossos especialistas para estas eventualidades; entretanto, os nossos aparelhos “descodificadores” foram analisando a estrutura da linguagem indígena e, rapidamente, podemos passar à comunicação real. A delegação encaminhou-nos tranquilamente para uma esplêndida carruagem, um coche melhor dizendo, atrelada a um par de extraordinários animais apoiados em seis patas cada um, de caudas felpudas enormes e magníficas, ajaezados de ouro e prata. Aliás, o nosso espanto começara logo quando enfrentámos, no solo, a aparência física dos nossos hospedeiros : então a “mulher”, sobretudo esta, deixou-nos uma impressão assaz agradável, apesar da sua elevadíssima estatura, olhando-nos de cima com os seus três olhos imensos e rasgados, as íris muito negras, brilhantes como carvão incandescente, uma estreita faixa de tecido cor de ouro envolvendo-lhe os rins, os longos e rijos mamilos soerguendo-se a cada movimento, as coxas monumentais esbeltas como troncos que, em vez de se adelgaçarem para cima, ganhavam contornos cada vez mais largos, os orifícios anal e vaginal resguardados por uma espécie de biquini todo feito de rendas ( o estilo e a cor variam muito); a voz, que saía de uma boca relativamente pequena cujo lábio superior é mais grosso do que o outro, era deveras melodiosa, assemelhando-se a uma área de Verdi.
Atravessámos uma extensa avenida, ladeada de árvores, do género das faias, altíssimas, onde de quando em vez um casal de namorados nos acenava com tranquila confiança. Separaram-nos, à chegada, cada um numa vivenda ; não encarámos isso como uma ameaça. “Em Roma, sê romano”. Eram casas com tectos bastante altos, de tamanhos muito idênticos, embora de arquitecturas diversificadas ( consoante o gosto de cada um), dispondo de todo o conforto, desde longos divãs forrados a veludo a uma cama de dossel forrada a damasco. Aconselharam-nos a comer nos restaurantes públicos, tecendo destes os mais rasgados elogios; se preferíssemos cozinhar nada faltava naquelas cozinhas, sobretudo peixe, ovos e queijo. O oceano é rico em pescado, principalmente em determinadas espécies muito procuradas, muito semelhantes umas com os nossos polvos e chocos mas de dimensões avultadas e, outras, por exemplo, que lembram vagamente os nossos bacalhaus e atuns ( vimos “atuns” de cinco metros de envergadura!); o oceano é o reino de espécies extremamente agressivas, como iríamos ter oportunidade de verificar, mas igualmente doutras muito dóceis.
Após repousarmos uma noite e um dia reuniram-nos e fomos conduzidos a um dos muitos espaços cívicos de convívio : edifícios amplos de madeira envernizada, com cúpulas elevadas de vidros multicolores, aprazíveis e mui agradáveis à vista, recheados de conforto, divãs de diversos tamanhos, balcões compridíssimos onde os utentes se serviam de bebidas, quadros de cores muito fortes figurando o corpo e o oceano, esculturas por todo o lado. Aquela gente mostrava uma curiosa adoração pelo corpo, isto é, pelas representações do corpo, sendo o nu um tema muito recorrente. Não deparámos nunca, nesse tempo, com multidões compactas, excepto aquela que nos recebeu ou aquela outra que festejou o nosso ulterior e aventuroso regresso da terra dos “ameríndios”, um mês terrestre depois. Naqueles centros escutava-se música, tocada com instrumentos muito curiosos ( fabricados com madeiras preciosas, peles, ossos e tendões de animais, conchas e búzios marinhos, de tamanhos variados - alguns deles , parecidos com as nossas trompas, mediam vários metros de comprimento), toadas muito harmoniosas que provocavam neles e até em nós sensações, tanto de serena quietude como de apetite de dançar, canções alegres ( cujas letras, quando mais tarde as conseguimos entender, eram muito engraçadas, quero dizer pícaras, embora com estilo nem sempre cuidado), cantigas ao desafio que arrebatavam plateias entusiásticas, criação in locu e ao vivo de novas composições ( atracções muito procuradas naquele povo que tão alegre nos pareceu sempre). Apreciavam também muito o teatro satírico e burlesco, ao ar livre em largos anfiteatros.
Convidaram-nos sentar à volta de uma mesa redonda de mármore rosa, ofereceram-nos primeiramente una gelados divinais e, em seguida, fomos vendo e escutando as explicações dos nossos hospedeiros. Aqui e acolá conseguíamos entender que a população trabalhava apenas da parte da manhã todos os dias da semana ( evidentemente que o calendário deles é bem diferente do nosso! Desconhecem, por exemplo, os nossos fins-de-semana, sendo que os dias dividem-se em semanas “úteis” seguidas de semanas de lazer, sempre assim, ininterruptamente; um dia deles corresponde a dois dos nossos ; não fazem férias por ano), ocupando-se na agricultura, na pesca e no artesanato.
Após o nossos almoço ( eles, pelo contrário alimentam-se muitas vezes por dia, transportando sempre alimentos consigo ou servindo-se do que quer que encontrem pelos campos ou nos quintais individuais, onde cada um deseja que os vizinhos apreciem as suas culturas imaginativas) levaram-nos a visitar a província. Várias quadrigas bastante confortáveis rodavam em fila. As estradas não são alcatroadas mas de terra amarela e poeirenta ( nas cidades utilizam a pedra). As pontes são rústicas, de granito e madeira. Os terrenos são divididos por muros baixos de pedra cobertos de silvas, a propriedade é individual mas administrada cooperativamente, a produção é recolhida através de carroças gigantescas puxadas por mulas colossais. Digo que a propriedade é individual no sentido da palavra, ou seja, não é “familiar” como costumamos dizer, visto que aqui não se constituem famílias, nem nucleares nem muito menos alargadas, cada um, “homem” ou “mulher”, possui uma parcela, seja de terra, seja de uma oficina; a comunidade vigia para que esta distribuição, que remonta há um século atrás, se conserve intacta e obrigatória, nem mais nem menos. Determinadas terras aguçaram-me a atenção e tendo-os interrogado responderam-me que pertenciam às vilas, para nelas os seus habitantes pastorearem os seus gados em conjunto.
Não pude resistir ( a temperatura era tão amena, a estrada poeirenta trazia-me lembranças de tempos longínquos...) a observar de esguelha a bunda saliente da minha hospedeira-chefe, os seios mal disfarçados sob uma estreita faixa de seda, a pilosidade rala, as coxas esplêndidas, os pés muito longos mas muito finos, calçando sandálias de tiras, os lábios vermelhos grossos e tão sensuais que me faziam evocar a boca de certas mulheres africanas...Ela respondeu-me com os três olhos incandescentes, sorrindo, como se adivinhasse os meus pensamentos. Nesse instante esqueci-me, como haveria de suceder diversas vezes, que ela era telepata.
As culturas são muito variadas : pomares breves, nas traseiras das habitações, ou extensos campos de trigo, de milho, de arroz em zonas baixas e lacustres. Parámos mais do que uma vez, para admirarmos abóboras, melões e melancias rotundas, cerejas gostosas e pêras, pêssegos nas terras altas e, junto ao litoral, laranjas e limoeiros, enfim abrunhos, uma espécie de ananases minúsculos, aos molhos, saborosos. Via-se pouca gente àquela hora da tarde, labutavam de manhã muito cedo: então a água correndo festivamente pelos regos e canais trazia para as nossas narinas uma frescura bucólica que somente um poeta poderia reproduzir adequadamente. O gado muar pastava pacificamente e corpulentos felinos domésticos corriam atrás de perus do tamanho das nossas vitelos, incapazes de voar.
As estradas litorais ( refiro-me ao oceano, pois que existem também muitos e grandes rios e lagos ; este povo habita quase somente nas zonas ribeirinhas) são deslumbrantes: correndo sobre terra firme ou serpenteando entre as dunas mastodônticas, sem fim, percorrendo todo o círculo longitudinal do planeta, oferecendo constantemente praias espectaculares, providas de marinas e de portos repletos de gente e de mercadorias. Assustámo-nos um pouco quando assistimos, da praia, à emersão de autênticos gigantes do mar, da altura de um prédio de vinte andares, mamíferos de cabeças mui pequenas, quase pueris, num pescoço incrivelmente elevado, com uns tranquilos olhos bovinos fixados em nós... “ Temos de ter muito cuidado com os Brufos quando navegamos!”, disseram-nos, “ E com os Najos! Um pequeno barco pode ficar gravemente danificado se chocar com eles, além dos ferimentos que causa no pobre animal!” ( estes animais marinhos, ou melhor, anfíbios, são compostos de uma cabeça semelhante a um hipopótamo num corpo de cachalote com quatro patas com membranas; são também herbívoros e tanto pastam no fundo oceânico como nos pântanos do litoral; são tão pacíficos que os indígenas levam os seus filhos a passear sobre eles) .
Nos portos maiores recolhem-se navios colossais, embora primitivos comparados com os nossos, tanto de pesca e transporte, como de cruzeiro – os indígenas adoram fazer cruzeiros. São construídos de madeira com velame de tela grossa. Pelas manhãs bem cedo, a azáfama é intensa à chegada do pescado: gritam, barafustam, regateiam, protestam, mas acabam por comprar e todos ficam satisfeitos - há qualquer coisa de pueril naquele povo! E que risadas, que graça semeiam , contando anedotas cujo humor lamentavelmente não captávamos! As cenas que eles adoram representar no dia a dia superam as nossas melhores comédias.
Quase todo o mundo sai à noite. O costume deles de se deitarem tarde e levantarem cedo ia arrasando comigo. Regulavam-se por uma moral absolutamente hedonista. Pareciam haver descoberto o ponto de gravidade entre o código civil e o código natural. Todas as actividades iniciam-se pela madrugada nas semanas úteis- não possuem satélites, giram mais lentamente, e não dividem o tempo como nós: “ficcionam” um período que corresponde a dois anos dos nossos aproximadamente. Os invernos são curtos ( na outra “margem” em lugar deles existe uma época de chuvas abundantes). O divertimento nocturno que eles preferem é um género de ópera : sobre grandes palcos circulares ao ar livre, colocados no centro de uma vasta multidão, desenvolvem cenas do quotidiano, utilizando intercaladamente o canto e o recitativo como se faz em algumas óperas de Mozart. Escutei sopranos e tenores que em nada ficavam a dever aos nossos mais lendários, sendo apenas diferentes os libretos, pois que não abordavam temas como os nossos Rigoletto, Aida ou Otello, os assuntos das nossas óperas oitocentistas em geral eram-lhes completamente alheios. Quando dei a alguns oportunidade de escutarem gravações de óperas célebres, como a de Nabucco, ficaram autenticamente em êxtase, embora as grandes cenas nelas narradas não lhes tocassem particularmente a sensibilidade – não conheciam a escravatura ( em rigor já não se lembravam!), os abusos caprichosos de nobres ociosos ou os tormentos de uma Madame Buterfly...O mais característico naquele povo é uma espécie de adoração que manifestam pelos sentidos, o ouvido particularmente é cultivado com desvelo ( como costumam dizer: “As orelhas também aprendem!”).
Todos se passeiam pelas alamedas arborizadas, emolduradas de bancos de madeira, param aqui e acolá escutando as cantigas ao desafio, as prédicas de oradores inflamados que os admoestam pelos actos considerados mais nocivos à sociedade, ou apelam, com grandes doses de retórica, a produzirem mais filhos ou a diminui-los pelo contrário : não existe povo mais libérrimo, tudo se permite, quem discorda pode exprimi-se à vontade, ali ou nas casas de cultura. Os restaurantes enchem-se ( os indígenas parecem aborrecer-se de comerem sozinhos – embora sejam individualistas com a habitação - e cultivam pouco ou nada o nosso “ar de família”), bebe-se muito, sobretudo uma espécie de sumo ( de ananás, segundo soubemos) alcoólico que nos permite esquecer completamente uma emoção desagradável suscitada durante o dia. Nos relvados, por entre variedades exóticas de faias e ulmeiros, repousavam lavradores, artesãos, pescadores ou marinheiros, casais faziam amor, as “mulheres” com os ventres sobre mantas muito finas que lembravam capulanas, os “homens” como que sentados em cima...aves pululavam nos ramos, bebericando nos lagos artificiais, gatunando pedacinhos de biscoitos de arroz, pardais, pombas e rolas, toutinegras e melros...
As indígenas não pareciam mostrar especial interesse por nós humanos do sexo masculino, deviam achar-nos demasiado pequenos, demasiado frágeis nos nossos fatos militares de verão, demasiado feios com os nossos dois olhos e as nádegas traseiras, embora retribuíssem os cumprimentos e parecessem agradadas com a presença da nossa “ministra”. Ela era, de facto, a responsável principal pelos programas de cultura e lazer públicos, e era muito bela... As indígenas praticam o sexo indiferenciadamente com “eles” e “elas”; os “homens”, para além das suas conterrâneas femininas, namoram os adolescentes ( nos recantos dos jardins encontrávamos amiúde pares de adultos e de efebos, de mãos dadas), como na antiga Grécia.
Este povo possui os mais variados templos de culto para as mais variadas crenças, sejam pequenos edifícios de mármore circulares com cúpulas em forma de funil, de cujo orifício cimeiro sai constantemente um fumo de um azul celeste cheirando a flores silvestres, sejam imponentes construções cobertas cada uma por um terraço horizontal que servia para um jardim suspenso, numa rica paleta de cores e intensamente odorífero. Nestes terraços existam altares ao centro sobre os quais fazem libações e cantam odes muito brejeiras dedicadas aos sátiros. No interior dos primeiros as mulheres prestam culto à divindade do Perfume; nos últimos, homens e mulheres veneram e agradecem às divindades da Primavera. Existem ainda templos dedicados ao Amor, mais exactamente ao Prazer e menos à procriação; aí os amantes confessam o seu amor por alguém a uma matrona muito qualificada, que se esforça por orientá-los nos doces e dolorosos meandros desse sentimento. Apercebi-me, porém, que se praticam muitas outras religiões, digamos populares, nas quais a telepatia é utilizada como instrumento de adivinhação do futuro; nestes locais muito reservados o serviço é bem pago por quem dele necessitar.
Não sei se é pelo facto de serem extremamente individualistas em determinados aspectos, mas o certo é que recusam falar na morte, exorcizam-na de todos os modos, pelo silêncio, pelo esquecimento, ou por complexos mecanismos de sublimação. Os funerais são basto tristes, embora sem carpideiras e ladainhas e procura-se que passem completamente desapercebidos.
Reconduziram-nos às vivendas respectivas. Nessa noite, quando me preparava para me deitar, calmo e quase feliz, tive a grata surpresa de ver entrar pela porta dentro ( não existem fechaduras) a “ministra” da cultura! Tentei imediatamente oferecer-lhe uma bebida ou uma ceia se ela desejasse provar os nossos petiscos, mas ela recusou amavelmente, prometendo que prová-los-ia com certeza muito em breve ; não sou propriamente um ingénuo, por isso rapidamente apercebi-me que outro objectivo a conduzia aos meus aposentos...provavelmente movida pela curiosidade feminina, que parece ser universal. Suspeito que ela descobriu facilmente, por telepatia, que a minha companheira ainda não tinha regressado de uma tertúlia. Em suma, e para encurtar o relato de episódios deste género, mas para que sejam registados – nenhuma informação relevante deve ser omitida – digo que Thuulipa ( assim se chama, assemelhando-se no som à palavra portuguesa “túlipa” e que, na língua local, significa Thuul - o nome da estrela maior- e iipá, que se pode traduzir por “inteligente”)- me envolveu, após uma breve troca de gestos expressivos como se perguntasse se eu me encontrava “disponível”, nos seus longos braços de medusa, acariciou-me com os seis dedos de cada mão, fixou-me com a sua belíssima trindade de olhos negros e atirou-me literalmente, embora com suavidade ágil, para cima do seu dorso. A visão da sua peça de roupa íntima, de rendas sedutoras, foi mais forte do que qualquer resistência que eu pudesse oferecer ( é evidente que “em Roma sê romano”). Foi nessa altura, ou a seguir ao acto, que me espantei ao verificar que “elas” possuem um clitóris pelo qual sai uma substância licorosa e deliciosamente perfumada! Por outras palavras: elas são, quando querem, hermafroditas! Mais um elemento a juntar aos outros que revela como elas dispensam os “homens” sempre que querem, ou seja praticam o coito umas com as outras. Informaram-nos que, todavia, a esmagadora maioria dos filhos são feitos por meio de acasalamentos “normais”.
Para finalizar este episódio devo afirmar que a “ministra” era tão sexi como qualquer das mulheres, humanas ou não, que conheci: qualquer intervalo durante o trabalho servia-lhe para o efeito. Talvez isto explique porque razão elas são visivelmente tão serenas, suaves, autoconfiantes. É essa, pelo menos, a opinião da nossa psico-antropóloga, Sandra Thomas. Adianto a propósito ( apesar das informações detalhadas sobre a conduta da equipa sob o meu comando, seguirem em anexo a este relatório) que a Sandra mostrou-se à altura dos acontecimentos e daquilo que dela, eu e vós, esperaríamos. Aprendeu, por exemplo, os mecanismos da telepatia e a praticá-la com eficácia. Sujeitei-me, como é de norma, às suas sessões de empatia e terapia, aceitei docilmente ser a primeira “vítima” da sua manipulação telepática. Eu próprio exercitei com ela e tenho prosseguido sem ela os meus exercícios durante esta longa viagem de regresso. É perfeitamente possível “lermos” alguns pensamentos, no meu caso talvez os mais óbvios mas, no caso do povo que descrevo, é notavelmente fácil adivinhar os conteúdos das nossas motivações e atitudes. Registo, a título de exemplo, que, numa certa ocasião, podemos evitar uma atitude tresloucada por parte de um dos nossos tripulantes (omito o nome porque o caso foi ultrapassado), quando ele se preparava para ripostar a tiro contra um aborígene que pretendeu “violá-lo”; foi a nossa Sandra que lhe retirou imediatamente a arma. Só lamento que haja sido ela uma das que decidiu residir na “Ibéria”...tanto quanto adivinho julgo conhecer a razão.
(continua)

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