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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O SINTOMA

O caso das «escutas» é um sintoma. Seja ou não prova de crime de corrupção, por um lado e, por outro, de atentado ao Estado Democrático. Provavelmente não serve judicalmente como matéria de prova. Permanece como sintoma (com todo o rol de jogadas jornalísticas e políticas). Como se dizia na Filosofia Antiga, é o fenómeno que oculta e desvenda, ao mesmo tempo, a essência. Ou, como diria Freud, é a manifestação de uma Coisa latente. Ou, como dirá a filosofia pós-heidegeriana e fenomenológica, não há essência por detrás, o fenómeno é a presença. Ou, como se diz em medicina, o sintoma é uma das manifestações da doença.
O sintoma apresenta-se como a luta entre fracções políticas que se degladiam pelo poder, oriundas da mesma família ideológica e económico-financeira. Vale o que vale. Ou seja, aí vale tudo, inclusive arrancar olhos. No quadro da alternância no poder mudam-se as tácticas, mas a estratégia é a mesma, já lá vão três dezenas de anos pelo menos.
Como doença, essência ou presença, o sintoma oculta (dissimula-se como o travesti dos sonhos) a dominação absoluta do grande capital. Não é a grande burguesia que está en crise, isto é, não está em perigo de morte a sua dominação absoluta. Quem está doente é a economia produtiva do país. O manifesto são as consequências de uma orientação política que a grande burguesia prossegue há dezenas de anos. A liberdade de expressão anda tão doente como doentes andam os direitos do Trabalho.
Como se diz em filosofia deixámos de ter sociedades «disciplinadas e burocráticas» para termos sociedades «controladas». É no controlo que se evidencia a novidade ameaçadora  do capital financeiro. Os novos modelos de avaliação dos trabalhadores constituem um exemplo paradigmático. Controlar as forças e as relações de produção, os aparelhos do Estado, as ideologias, é a suprema ambição do grande capital. Sem precisar de recorrer às ditaduras clássicas. Quando estiver realmente em perigo de morte, então recorre a elas.

6 comentários:

Joaquim Moedas Duarte disse...

Concordo com o essencial.
No entanto continuo sem entender um conceito que é usado recorrentemente: "o grande capital".
Sei que dá jeito. Mas explica muito pouco. Em qualidade e rigor vale tanto como "a alma lusa", "o sentir do povo", ou "os professores trabalham pouco"... etc.

O grande capital é uma expressão demasiado vaga. E tem o mesmo alcance do célebre "eixo do mal"...

Sei que isto não é coisa para discutir assim, em comentário casual...

Nozes Pires disse...

Colocas-me um óptimo desafio: um conceito que parecia óbvio e, afinal, requer actualização. O significado mais próprio é este: ter muito ou pouco capital. Porém, o termo «capital», que aqui significa dinheiro, contem algo mais: um valor. Como se acumula este «valor»?
Em Portugal há indivíduos e grupos que detêm uma capacidade para acumularem capital que a maior parte dos portugueses não possui. Cmo o adquiriram? Como se distribui a riqueza em Portugal?
A expressão tem um uso consensual nas ciências sociais. Algumas doutrinas (a Esquerda)é que lhe dão uma conotação política que não é consensual (a Direita).

Evandro L. Mezadri disse...

Gostei muito do artigo e do blog, Precisamos de mais espaços como esse para a divulgação de assuntos tão pertinentes a nossa realidade.
Grande abraço e sucesso!

cid simoes disse...

Grande parte da população ainda não sabe que a Terra se desloca à razão de 37 quilómetros por segundo e contudo nós viajamos a essa velocidade sem no entanto disso nos apercebermos.

Nozes Pires disse...

Tiráste-me as palavras da boca, ó camarada Cid!

Nozes Pires disse...

Muito gosto na tua visita, Evandro! Volta sempre. Qual é o teu blog?

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