domingo, 27 de maio de 2012

FÁBULAS

FÁBULAS - A arte da guerra


Há muitos milhares de anos a China estava dividida em diversos senhores da guerra. Os conflitos eram permanentes e os consensos impossíveis. Os campos cultivados pelos camponeses eram devastados pelas constantes incursões guerreiras, saqueadas as colheitas, exterminados os jovens que, escondidos nas serranias, se recusavam a militar nos exércitos de bandidos, raptadas as mulheres em idade fértil, espezinhados pelas patas da cavalaria os anciãos que não queriam abandonar as suas choupanas. A luz que antes iluminava as planícies dera lugar às trevas. Sombrias veredas, lodosos os rios, arruinadas as fábricas, esventrados os barcos dos pescadores, cheios os templos de gentes que temiam que o futuro fosse ainda pior que o presente.

Ora, sucedeu que um pequeno Estado viu-se cercado por um poderoso exército coligado de senhores da guerra. O território não era rico de recursos naturais, perdera pelos sucessivos saques muitos dos melhores dos seus meios de subsistência e, mesmo assim, era cobiçado.

Os exércitos invasores acamparam na fronteira, montaram tendas de campanha, acenderam fogueiras e banquetearam-se três dias e três noites, com o propósito de provocar o desespero nos sitiados, o desânimo, a resignação. Entrementes, introduziram mensageiros disfarçados de autóctones que difundiram boatos, mentiras e ilusões. De facto, os chefes dos exércitos invasores, ao contrário do habitual, não quiseram perder um único homem em batalhas inúteis. Os habitantes haviam de se render pelo espectro do medo que rondava por toda a parte. Na realidade os senhores da guerra contavam com a conivência da corte do pequeno reino sitiado. A corte manteve-se reunida permanentemente para encontrar uma saída: encontravam-se cercados e somente uma aliança com os invasores se mostrava realista, ou, pelo menos, inevitável. Era assim que pensavam o rei e os seus acólitos. Pregavam a submissão voluntária, emitiam decretos que admitiam como verdadeiras as mentiras dos saqueadores que já se impacientavam.

Após acaloradas discussões a corte, ao arrepio dos mais resistentes, decidiu por fim lançar um engodo que abrisse o apetite dos sitiantes, planeando evitar uma guerra mortífera e ganhar o mais que possível fosse. Uma longa fila de carregadores, escoltados por guardas, foi recolher os tesouros dos palácios reais, aproveitou-se a calada da noite, o negrume das trevas, propagou-se que os tesouros não eram do povo mas da corte e que, portanto, não havia razão alguma para revoltas, e transportou-se o ouro e as pedras preciosas para uma praça ao pé da fronteira, donde se era visto pelos invasores, visto e ouvido. O que fizeram então o rei e os seus acólitos? Anunciaram que se iria realizar ali mesmo um leilão das maiores riquezas do reino, um leilão absolutamente livre, sem regras e sem regulamentações, sem taxas e alcavalas, do qual ficaria a ganhar quem fosse mais rápido. O que parecia uma tragédia, não era o que parecia. O que parecia um engodo, não era artimanha nenhuma. O pouco povo que assomou às janelas julgou-se a assistir a um espetáculo, com tambores e fogo de artifício. A mentira funcionava na perfeição, não do outro lado da fronteira, mas deste.

Evidentemente que quem chegou mais rapidamente foi a cavalaria poderosa dos exércitos invasores. Chegou arrogante e tranquila, arrematou por tuta e meia o grosso tesouro, recebeu os cumprimentos respeitosos do rei e o beija-mão dos acólitos e levantou as tendas de campanha, sem perder um único soldado.

Mais tarde escribas ao serviço da corte lavraram sábias sentenças sobre a arte da guerra desse rei que o povo rapidamente esqueceu. Ainda hoje podemos ler nesses velhíssimos pergaminhos como se pode ganhar uma guerra, perdendo-a.

Nozes Pires

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