terça-feira, 14 de agosto de 2012


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Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado em: http://www.hist-socialismo.com/docs/LudoMartensBalancocolapsoURSS.pdf
Colocado em linha em: 2012/08/12
Balanço do colapso da União Soviética
Sobre as causas de uma traição e as tarefas futuras dos comunistas1
Ludo Martens
2 de Abril de 1992
[Publica-se a primeira parte do artigo, que está integralmente publicado no sítio “Para a História do Socialismo”, no endereço eletrónico supra]
Na União Soviética, o primeiro Estado socialista do mundo, o país natal de Lénine e de Stáline, onde, após esforços heróicos e sacrifícios imensos, os trabalhadores criaram uma nova sociedade sem classes exploradoras, neste país, caro aos revolucionários do mundo inteiro, o capitalismo foi agora restaurado.
É dever de todos os revolucionários do mundo inteiro reflectir sobre as causas desta tragédia e fazer uma análise meticulosa dos factos em causa.
Obviamente, os capitalistas dos cinco continentes aproveitaram este acontecimento inesperado para propagar milhões de vezes a mensagem de que «o socialismo não funciona e o capitalismo cria prosperidade». E em todos os países, os oportunistas desertaram para o lado da democracia imperialista, fechando os olhos ao facto de o capitalismo, que «funciona tão bem», assentar em milhões de cadáveres, vítimas da opressão e da exploração do Terceiro Mundo.
Porém, ecoava ainda o clamor da vitória histórica do capitalismo, tivemos de concluir que o restabelecimento do capitalismo na Europa Oriental e na União Soviética havia agravado todas as contradições fundamentais no mundo, e que nos aguardavam grandes convulsões e agitações. Longe de testemunharmos o fim da história, como
1 Título original: Balance of the collapse of the Soviet Union, on the causes of a betrayal and the tasks ahead for communists (retirado em 15.06.2011 de: http:/wpb.be/doc/doc.htm). Este documento, encontrado na altura apenas em inglês, deixou entretanto de constar no referido site, podendo ser consultado em castelhano em: http://accioncomunista.jimdo.com/descargas/libros/
Com a publicação deste artigo queremos também assinalar a passagem do primeiro aniversário sobre a morte de Ludo Martens (24 de Março de 1946 - 5 de Junho de 2011), cuja obra precursora constitui um valioso contributo para a desmontagem das falsificações sobre a construção do socialismo na URSS, para a análise das causas da sua derrota e para o desmascaramento e combate ao revisionismo moderno (N. Ed.)
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havia declarado um membro do governo norte-americano, ou assistirmos ao fim da luta de classes, estávamos no início de uma nova fase da luta global dos oprimidos contra um sistema imperialista mundial que se tornara incompatível com a simples sobrevivência de centenas de milhões de seres humanos. Efectivamente, a revolução socialista transformara-se numa questão de sobrevivência para a vasta maioria da população mundial. A traição final do revisionismo não podia apresentar com maior clareza esta situação.
No entanto, se a parte oprimida da humanidade tem de avançar para a sua libertação, ela precisa da ajuda de organizações combativas que tenham uma compreensão clara das leis fundamentais da revolução. Os comunistas de todo o mundo têm de reavaliar o rumo tomado na União Soviética. Terão de distinguir claramente revolução de contrarrevolução e marxismo-leninismo de revisionismo. O resultado do curso oportunista tomado na União Soviética permite-nos colocar algumas questões fundamentais, que têm sido objecto de acaloradas discussões desde 1956. As experiências positivas bem como as negativas provam que a adopção de uma linha orientadora justa é decisiva para o futuro do Partido Comunista e da revolução.
Lénine, Stáline e a ditadura do proletariado
As primeiras fábricas, os gérmenes da sociedade industrial europeia, surgiram na sequência do genocídio dos povos da África negra e da América. Levando a «civilização» aos impérios asteca e inca, os exploradores europeus causaram cerca de 60 milhões de mortos entre a população nativa. Isto, é claro, além de terem saqueado enormes quantidades de ouro e prata. Desde princípios do século XVI, os comerciantes europeus capturaram e venderam entre 100 milhões a 200 milhões de escravos africanos. Dezenas de milhões de homens e mulheres perderam a suas vidas na Ásia e na África à medida que as conquistas coloniais do século XIX lançavam as sociedades locais no caos, provocando a fome, transmitindo doenças desconhecidas, difundindo o abuso do álcool e do ópio. Durante os séculos XVIII e XIX, a revolução industrial na Europa causou, entre outras convulsões, a expulsão violenta de milhões de camponeses das suas terras e o trabalho forçado de mulheres e crianças de 12 a 15 horas por dia. Na I Guerra Mundial, os estados burgueses europeus lançaram-se às gargantas uns dos outros, com o fim de uma nova partilha dos domínios coloniais. Dez milhões de trabalhadores pagaram com as suas vidas esta rivalidade colonial.
Perante estas realidades, o socialismo não podia desenvolver-se e sobreviver senão através da organização da ditadura do proletariado, para unir todas as classes populares contra a burguesia. Esta experiência fundamental de Lénine e de Stáline adquiriu um importante significado no recente contexto dos povos que aspiram a libertar-se da «democracia» imperialista. A derrota da via reformista no Chile em 1973 e a eliminação do poder sandinista na Nicarágua, depois de amplas concessões à burguesia, mostram a importância destes princípios revolucionários defendidos por Lénine e Stáline.
Os operários e camponeses russos já sofriam a opressão tsarista há séculos quando pagaram um preço excessivamente alto durante a I Guerra Mundial: quase três milhões de mortos. Deste sofrimento insuportável, os bolcheviques extraíram a
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energia, a coragem e a determinação necessárias para organizar a revolução socialista e quebrar a ditadura burguesa pela força. A terra e os meios de produção tornaram-se propriedade pública, a máquina opressiva do Estado do regime tsarista foi sistematicamente desmantelada e substituída por um Estado de operários e camponeses.
Apoiados pelos exércitos intervencionistas britânicos, franceses e checos e outras tropas estrangeiras, as classes reaccionárias e as forças tsaristas desencadearam o Terror Branco contra o socialismo. Praticamente sozinhos contra o resto do mundo, os bolcheviques conseguiram trazer para o lado da classe operária as amplas massas de camponeses e organizaram o terror em massa contra os seus inimigos. Neste baptismo de fogo, o bolchevismo criou raízes firmes nas classes do campesinato e entre os pobres. Sem este decidido Terror Vermelho, o socialismo não teria triunfado na Rússia e o Terror Branco teria restabelecido o aparelho opressivo, que mantém os operários e povos inteiros sob o seu jugo. Teria reinstalado esse baluarte da reacção mundial, que constituía o tsarismo.
Foi Lénine que elaborou os princípios essenciais do desenvolvimento socialista sob a ditadura do proletariado. Todavia, quando morreu em 1924, o seu trabalho tinha apenas começado.
Entre 1924 e 1953, o Partido Bolchevique, sob a liderança do camarada Stáline, levou a cabo a parte essencial dos planos de Lénine. Com um heroísmo popular sem precedentes, a União Soviética construiu o sistema socialista e defendeu-o da agressão fascista. Em geral, o Partido Bolchevique e o povo soviético, sob a liderança de Stáline, conseguiram realizar as tarefas colocadas por Lénine.
O Partido Bolchevique realizou a industrialização socialista entre 1921 e 1941, o que permitiu responder às necessidades básicas dos trabalhadores e adiar o ataque dos exércitos fascistas.
A colectivização da agricultura contrariou eficazmente a tendência espontânea para a diferenciação de classes no campo, em particular o desenvolvimento dos kulaques, a classe dos proprietários fundiários ricos, que seriam uma ameaça fatal para o desenvolvimento do socialismo na URSS. Graças à colectivização, o sistema foi capaz de alimentar a população urbana em rápida expansão.
Com a organização da revolução cultural, a União Soviética conseguiu, em apenas 15 anos, que dezenas de milhões de camponeses analfabetos, que viviam em condições medievais, entrassem no século XX. Este esforço produziu um exército de técnicos e especialistas bem qualificados e politicamente conscientes, que desempenharam um importante papel na guerra antifascista.
Desde os anos 20 até aos anos 50, o Partido Bolchevique contribuiu decisivamente para o reforço do movimento comunista internacional. A simples existência da União Soviética tornou possíveis revoluções socialistas na Europa Oriental e a revolução na China, que foi uma vitória com ressonância mundial. O êxito da reconstrução socialista na União Soviética, combinado com uma política externa que promovia a
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independência e a paz, deu um forte impulso ao movimento de descolonização na África e na Ásia.
Aqui chegados é importante reflectir um pouco sobre certos aspectos da luta liderada por Stáline, que continua a provocar intensa controvérsia. Referimo-nos à colectivização e às purgas.
Na União Soviética, em 1928, sete por cento dos camponeses não tinham terra, 35 por cento eram camponeses pobres, 53 por cento podiam classificar-se como relativamente abastados e cinco por cento eram agricultores ricos, os chamados kulaques, que controlavam 20 por cento dos cereais comercializados. O curso natural da situação reforçou esta classe de ricos agricultores, dado que, através do seu crescente controlo sobre os stocks de cereais colocados no mercado, podiam privar de alimentos as cidades e sabotar a industrialização socialista. A modernização da agricultura medieval, em que predominavam ainda os arados de madeira e a tracção animal, era uma necessidade absoluta para o êxito da industrialização. Se a mecanização fosse introduzida no campo, mediante os meios de capital fornecidos pela classe rica dos kulaques, a exploração, a miséria e a fome teriam sido uma consequência inevitável para a maioria dos camponeses. Além disso, uma classe burguesa agrária revigorada teria indubitavelmente atacado o socialismo, assim que se sentisse capaz disso. Para defender o poder dos trabalhadores não havia outra via senão a colectivização. Neste processo libertou-se o ódio reprimido durante anos pelos camponeses pobres contra a classe rica dos kulaques. Esta luta de classes organizada pelos camponeses pobres e médios demonstrou ser o facto decisivo na colectivização. Como o Partido Bolchevique não dispunha mais do que 200 mil membros no campo, o seu impacto permaneceu limitado naqueles primeiros anos. O processo de colectivização decorreu à medida que a guerra civil eclodia de novo no campo. Os ricos proprietários fundiários assassinaram um grande número de quadros e líderes camponeses e abateram parte do gado para sabotar a economia colectiva. A repressão conduzida pelos camponeses pobres contra os kulaques foi em grande parte uma reacção a séculos de opressão e de humilhação que se tornou incontrolável.
As purgas organizadas pelo Partido Bolchevique, entre 1937 e 1938, justificavam-se tendo em conta a aproximação da guerra. No entanto, estas purgas foram acompanhadas de graves erros, na sua maior parte inevitáveis dada a complexidade da luta. Stáline sabia bem que a deterioração da situação internacional e a possibilidade crescente de uma guerra de agressão contra a União Soviética lançava uma luz particular sobre a luta política no interior do Partido. Tendo em conta a aproximação do conflito mundial, suspeitou justamente que a Alemanha nazi e outras potências imperialistas estavam a enviar espiões, sabotadores e outros agentes para o país. Entre as classes burguesas derrotadas, dentro e fora da União Soviética, havia bastantes candidatos ciosos de vingança para ajudar a causa imperialista. Oportunistas e derrotistas no interior do Partido, impressionados pela «superioridade» do sistema imperialista, podiam tentar estabelecer contacto com o inimigo. Stáline organizou uma vasta mobilização do povo em apoio à purga. A depuração do movimento visava dois tipos de adversários do socialismo.
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O primeiro tipo eram elementos das antigas classes opressoras, que desejavam vingar-se da sua derrota, capitulacionistas e elementos pró-germânicos, que esperavam que o ataque nazi os viesse «libertar». O segundo tipo de inimigos que o poder popular combateu eram burocratas e tecnocratas, que se tinham afastado das massas e se estavam rapidamente a transformar numa nova burguesia, pronta a submeter-se ao mais poderoso, ou seja, à Alemanha de Hitler, com vista a defender as suas posições. Assim, a purga do movimento socialista era uma necessidade política absoluta. Nas condições da época, isso também significava que muitos erros seriam seguramente cometidos. Por vezes os burocratas conseguiam desviar o escrutínio para pessoas inocentes, com o fim de defenderem as suas posições. Oportunistas faziam acusações falsas para subirem nas suas carreiras partidárias. Agentes inimigos infiltrados no Partido fabricavam «provas» para incriminar comunistas leais, e comunistas honestos cometeram excessos esquerdistas. Em geral, no entanto, as purgas atingiram os seus objectivos. Isto ficou demonstrado na guerra antifascista, quando, contrariamente à situação de outros países, houve muito poucos colaboracionistas que apoiaram os nazis na União Soviética. Na Europa Ocidental, como Stáline previra, muitos oportunistas juntaram-se às fileiras das forças nazis ocupantes. Proeminentes figuras dos sociais-democratas belgas aclamaram publicamente Hitler como um libertador. Em França, a maioria dos sociais-democratas votou a favor da atribuição de plenos poderes ao regime colaboracionista de Pétain. Se tivermos em mente estes factos, não surpreende que as facções burguesas denunciem unanimemente as «purgas criminosas» organizadas pelo Partido Bolchevique. O poder estabelecido, a maior parte dos barões da indústria, os banqueiros, quadros de partidos nacionalistas, partidos cristãos, liberais e sociais-democratas, todos colaboraram com os nazis enquanto a sua vitória parecia assegurada.
Perante a recente restauração completa do capitalismo na URSS sob Gorbatchov, podemos agora compreender melhor alguns aspectos das purgas de 1937-38. Stáline afirmou que os trotskistas, os partidários de Bukhárine e os nacionalistas burgueses defendiam uma política burguesa e, de facto, os interesses das classes opressoras derrotadas. Com as suas acções ajudaram estas classes e outros grupos anti-socialistas a reagrupar forças. Khruchov iniciou o processo afirmando que esta análise era errónea e tinha levado a actos arbitrários. As teses nacionalistas e as ideias de Trótski e de Bukhárine começaram a reaparecer nas políticas do PCUS. Finalmente, Gorbatchov reabilitou os trotskistas, os bukharinistas e os nacionalistas burgueses como «gente boa» e «vítimas do stalinismo». Dois anos mais tarde, a restauração do capitalismo tornou-se um facto. A história provou que visão de Stáline sobre esta questão estava inteiramente correcta.
Khruchov: a primeira ruptura com a revolução socialista
Recordemos agora quatro teses essenciais apresentadas há 30 anos por Khruchov, que nos permitirão compreender melhor os acontecimentos recentes na URSS.
Primeira tese: Na União Soviética o poder deixou de ser da classe operária. O Estado da classe operária foi substituído pelo Estado de todo o povo, um Estado para todas as classes. «Assegurada a vitória total e definitiva do socialismo – a primeira fase
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do comunismo – e a transição da sociedade para a construção em grande escala do comunismo, a ditadura do proletariado cumpriu a sua missão histórica e do ponto de vista dos objectivos do desenvolvimento interno deixou de ser necessária na URSS. O Estado, que surgiu como Estado da ditadura do proletariado, transformou-se na actual nova etapa no Estado de todo o povo, num órgão que expressa os interesses e a vontade de todo o povo.»2
Esta ideia conduziu ao abandono da luta contra as tendências burguesas e reaccionárias sob influência do imperialismo. Igualmente tornou possível uma espécie de tranquilidade para a burocracia que procurava separar-se dos trabalhadores. Num «Estado de todo o povo», esta burocracia podia instalar-se confortavelmente, adquirir privilégios e obter benefícios pessoais através dos cargos políticos e económicos. Afinal de contas, já não podiam desenvolver-se contradições de classe entre ela e as massas laboriosas, pelo menos assim foi declarado.
Segunda tese: Khruchov anunciou, em 1962, que a União Soviética alcançaria o comunismo em 1980 e que, nessa altura, teria ultrapassado os Estados Unidos. «Não demorará muito até que a União Soviética ultrapasse os Estados Unidos no campo económico. Na competição pacífica com os Estados Unidos, a União Soviética alcançará uma vitória histórica de importância universal (…) Teremos nós tudo o que é preciso para criar a base material e técnica do comunismo no espaço de duas décadas? Sim, camaradas, temos tudo o que precisamos.»3 Assim, actualmente, a União Soviética deveria estar a gozar a eterna felicidade do comunismo totalmente desenvolvido, a abundância para todos, e tudo isto desde 1980. Na realidade, estas promessas de um futuro ideal serviram para acalmar as massas, nas quais as ideias da revolução, do socialismo e do comunismo eram muito populares, e para consolidar as posições dos burocratas e tecnocratas no poder.
Terceira tese de Khruchov: Declarou que o capitalismo entraria em colapso em todo o mundo à medida que o socialismo marchava para a vitória final. O rápido progresso da União Soviética atrairia a simpatia dos trabalhadores em todo o mundo, enquanto o capitalismo, gravemente enfraquecido, não seria capaz de resistir. Explicava-se assim que seria possível tomar o poder na Europa e no resto do mundo por via pacífica e parlamentar. «Na sequência da vitória do socialismo na União Soviética, surgiram condições mais propícias para a vitória do socialismo noutros países. O vasto campo de países socialistas, cuja população já ultrapassa os 900 milhões de habitantes, continua a crescer e a reforçar-se. As ideias do socialismo criaram profundas raízes no espírito de toda a classe operária. O capitalismo tornou-se muito mais fraco. Os partidos burgueses de direita e os seus governos fracassam cada vez mais». Isto cria a possibilidade de «conquistar uma maioria sólida no parlamento e transformar este parlamento num instrumento de verdadeiro poder
2 XXII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, 17-31 de Outubro de 1961, relato estenográfico, Gossudárstvenoi Izdátelstvo Politítcheskoi Literaturi, Moscovo, 1962, t. 3, p. 303. [O autor não menciona referências bibliográficas neste artigo. A presente citação encontrámo-la por semelhança no Programa do PCUS aprovado no XXII Congresso. (N. Ed.)]
3 Idem, Discurso de Khruchov sobre o Programa do PCUS, ed. cit., t.1, p.169. Apenas a última frase constitui uma citação exacta deste discurso, estando a anterior presente em várias passagens, o que nos leva a concluir que se trata de uma síntese do autor. (N. Ed.)
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popular.»4 Estas posições, que embelezam a sociedade imperialista e a ditadura da burguesia, constituem uma mudança radical de política.
O quarto ponto de Khruchov refere-se à atitude para com os Estados Unidos. A superpotência imperialista havia sido até então considerada como o polícia mundial número um, intervindo e perseguindo agressivamente os seus interesses nos cinco continentes. Entretanto, Khruchov declarou: «Queremos ser amigos dos Estados Unidos e cooperar com eles na luta pela paz e segurança dos povos. Comprometemo-nos a alcançar este fim com boas intenções e sem propósitos ocultos». Isto foi dito num momento em que as nações do Terceiro Mundo, na sua maioria, seja na Ásia, África ou América do Sul, estavam envolvidas num luta terrível contra o imperialismo americano, que queria submetê-las ao domínio neocolonial.
Bréjnev: a degeneração acelera-se
Depois chegou Bréjnev. Alguns comunistas pensaram que ele se tinha distanciado pessoalmente dos erros mais flagrantes de Khruchov. A análise dos quatro congressos realizados sob a sua presidência não confirma esta opinião.
Nikita Khruchov tinha proclamado três temas chave: o fim da luta de classes, um Estado de todo o povo, a defesa da burocracia privilegiada.
Bréjnev continuou por este caminho. Apresentou ao público imagens brilhantes de uma sociedade sem classes, que ocultava uma crescente diferenciação de classes e estratos sociais. Aplaudiu «a eliminação do fosso entre classes e grupos sociais». «A nossa intelligentsia considera ser seu dever dedicar toda a sua energia criativa à construção da sociedade comunista.» Dizia isto apesar de nesse momento uma parte importante desta intelligentsia já estar completamente despolitizada e fascinada pelo Ocidente. Nos sonhos de Bréjnev, não eram só as diferenças de classe que desapareciam, mas também as distinções entre nacionalidades. Bréjnev inventou a noção de «povo soviético», segundo a qual as classes e as nacionalidades teriam desaparecido sem deixar rasto. «No nosso país temos sido testemunhas da formação
4 No programa do PCUS aprovado no XXII Congresso do PCUS, atrás citado, pode ler-se uma afirmação com conteúdo semelhante a esta citação não referenciada pelo autor: «Nas condições actuais, numa série de países capitalistas, a classe operária, dirigida pelo seu destacamento de vanguarda, tem a possibilidade, na base de uma frente operária e popular e de outras formas possíveis de acordos e de cooperação política com diferentes partidos e organizações sociais, de unir a maioria do povo, conquistar o poder de Estado sem guerra civil e assegurar a passagem dos principais meios de produção para as mãos do povo. Apoiando-se na maioria do povo e repudiando decididamente os elementos oportunistas, incapazes de recusar a política de conciliação com os capitalistas e latifundiários, a classe operária tem a possibilidade de derrotar as forças reaccionárias e antipopulares, conquistar uma sólida maioria no parlamento, transformá-lo em instrumento ao serviço do povo trabalhador, desenvolver fora do parlamento uma ampla luta de massas, quebrar a resistência das forças reaccionárias e criar as condições necessárias para a realização pacífica da revolução socialista». Programa do PCUS, XXII Congresso do Partido Comunista da União Soviética, 17-31 de Outubro de 1961, ed. cit., t. 3, pp. 256-257. (N. Ed.)
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de uma nova comunidade histórica: o povo soviético. Novas relações harmoniosas entre classes, grupos sociais e entre nações e nacionalidades surgiram do trabalho comum.» Com Bréjnev, o marxismo-leninismo transformou-se de ciência da luta de classes em ideologia. Por «ideologia» entendemos aqui a falsa consciência que representa os interesses de um grupo privilegiado separado dos trabalhadores. Nunca naqueles quatro congressos, Bréjnev abordou a realidade viva das diferentes classes, estratos sociais e forças políticas, com vista a definir algumas orientações de luta ou de mobilização.
Sob o regime de Bréjnev, a elite burocrática entrincheirou-se quase completamente. O brejnevismo assegurou o conforto à nova classe burguesa. Um dos partidários de Khruchov, Jaurés Medvédiev, escreveu: «Na época de Stáline, os dirigentes do Partido sentiam mais a potencial ameaça do aparelho de segurança do que os cidadãos comuns.» E acrescenta: «Bréjnev não era um verdadeiro líder em 1964. Era mais o representante da burocracia, que procurava uma vida fácil com privilégios crescentes e garantidos. O seu eleitorado era a elite burocrática. Neste aspecto, Bréjnev também mudou o sistema porque, mais do que qualquer outro, criou as condições propícias para a expansão de uma autêntica elite privilegiada, uma autêntica nomenklatura.»
Com uma vida confortável assegurada, os membros da elite não se contentaram com os seus rendimentos legais. «A estabilidade garantida à elite teve um outro efeito negativo. A corrupção dos funcionários desenvolveu-se rapidamente em todos os níveis. A disciplina do partido diminuiu, o nepotismo tornou-se uma prática corrente e o prestígio ideológico e administrativo do Partido foi conspurcado. A grande corrupção dos altos funcionários soviéticos tornou-se numa espécie de “doença profissional”. A distinção entre propriedade pública e privada deixou de ser respeitada.»
Longe de denunciar os erros de Khruchov, Bréjnev seguiu pelo mesmo caminho desastroso, tornando ainda pior o desvio revisionista.
Além disso, Bréjnev imprimiu uma orientação militarista a toda a política soviética. Contava quase exclusivamente com a expansão do poder militar soviético para defender e ampliar as posições da União Soviética. «O reforço do Estado soviético pressupõe a expansão máxima da capacidade de defesa da nossa pátria». Congratulou-se com «o equilíbrio militar e estratégico atingido pela URSS e pelos Estados Unidos.» O caminho para a «paridade militar e nuclear» com o complexo militar-industrial ocidental não era praticável e era destrutivo para um país socialista. Estando já no Museu da História a mobilização das massas, a continuação da luta de classes e a educação revolucionária, Bréjnev optou por um conceito militar digno dos seus adversários. Tudo aquilo que constituía a força de defesa do socialismo na época de Stáline desapareceu. O esforço militar desproporcionado minou por completo a economia civil da União Soviética.
Efectivamente, através dos efeitos combinados do revisionismo e do hegemonismo, Bréjnev arruinou o movimento comunista internacional. Em 1966 «excomungou» a China e a Albânia, acusando estes países de «stalinismo» e de «desvios esquerdistas»,
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porque tinham manifestado a sua desaprovação ao revisionismo de Khruchov. Três anos mais tarde, Bréjnev transformou a política de confrontação com a China num conflito armado.
Intoxicados com as «novas ideias» de Khruchov, numerosos partidos comunistas inclinaram-se para a reconciliação com a burguesia nos seus próprios países, provocando a ulterior desintegração do movimento comunista internacional.
Nos países socialistas da Europa de Leste, Dubcek e outros da sua laia propuseram a liquidação dos últimos vestígios da ditadura do proletariado e a introdução do sistema social-democrata burguês. Os partidos que recusaram aceitar o modelo soviético como a única referência e que se opuseram aos ditames e à intervenção soviética foram marginalizados por Bréjnev pelo seu «nacionalismo» e «anti-sovietismo». Finalmente só restaram aqueles que mostravam uma lealdade incondicional à URSS. Bréjnev chamou-lhes «autênticos marxistas-leninistas». Dado que o revisionismo corroía as bases do socialismo na Europa de Leste, Bréjnev teve de recorrer ao controlo militar para manter a aparência de unidade no seu campo. Proclamou então: «As fronteiras da comunidade socialista são invioláveis e inexpugnáveis. A irmandade dos países socialistas unidos é a melhor defesa contra as forças que tentam atacar e enfraquecer o campo socialista. Sob qualquer ponto de vista, a União Soviética demonstra deste modo a sua lealdade ao internacionalismo proletário.» Mas a sua interferência e tendência crescente para o controlo directo desgastaram este socialismo enfermo. A teoria de «defender a União Soviética como a melhor protecção do socialismo» era um fiasco. A melhor defesa do socialismo será sempre a mobilização dos trabalhadores, o desenvolvimento da sua consciência, o seu esforço independente para defender o seu poder. Nesta base, um país socialista pode pedir ajuda a outra nação amiga, mas apenas em circunstâncias excepcionais e por um período de tempo limitado. Assim fez por exemplo a República Democrática da Coreia quando foi atacada pelo exército norte-americano em 1950.
A «revolução mundial», tal como era vista por Bréjnev, consistia essencialmente no alargamento da influência soviética a todo o globo, seguindo o modelo da Europa de Leste. Bréjnev negou que o socialismo mundial nasceria da mistura de diferentes experiências revolucionárias nacionais. Não reconheceu o facto de que os partidos revolucionários têm de estar ancorados na realidade específica do seu país, que devem mobilizar as amplas massas para a luta revolucionária e que têm de esmagar o imperialismo e a reacção local. Bréjnev rejeitou a ideia de que só as massas populares armadas podem constituir um baluarte eficaz contra o imperialismo e a reacção. Continuou a enganar os povos do Terceiro Mundo apresentando o Exército Soviético como o garante da sua liberdade. Bréjnev: «O socialismo é a melhor defesa dos povos que lutam pela sua libertação e independência.» Sob a liderança de Bréjnev, a União Soviética apoiou reformistas (Chile), putchistas e aventureiros (Etiópia, Afeganistão), bem como militaristas (Egipto, Síria), os quais apresentava invariavelmente como artesãos da revolução socialista. Como a União Soviética estava do «seu lado» e o seu exército «constituía a melhor defesa da sua liberdade», Bréjnev interveio em vários países para manter as forças reformistas pró-soviéticas no poder. Esta política aventureira atingiu o auge com as invasões do Kampuchea e do Afeganistão.

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