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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Sobre A. GRAMSCI (iremos publicar aqui alguns textos sobre A. Gramsci (democracia e parlamentarismo, sufrágio universal, hegemonia e consenso, intelectual orgânico, etc.)



Lincoln Secco

Assim como Max Weber, Gramsci amplia a noção de Estado. Portanto, para ambos o poder ultrapassa a mera coerção. Gramsci aceita os tipos ideais de Weber como um ponto de partida, ainda que procure lhes dar corpo histórico e empírico. O tipo carismático, por exemplo, apareceu entre os socialistas (lassallianos, broussistas, marxistas, guesdistas, jauresistas, blanquistas, etc.). Gramsci chega a se perguntar se não “exista analogia entre os partidos políticos e as seitas religiosas e as ordens monásticas” (CC, v. 3, p. 161).
Gramsci não só conhecia a obra de Weber, como a citou diversas vezes nos seus Cadernos. A crítica que faz da debilidade dos partidos na Itália compara-se à crítica que Weber faz no seu ensaio “Parlamentarismo e governo”, pois Gramsci acentua a ausência da elaboração intelectual de dirigentes políticos, a escassez de homens de governo, a miséria da vida parlamentar, a contínua cooptação pelo aparelho de Estado e a cultura mesquinha. Essas características do regime parlamentar italiano conduzem a burocracia a se forjar enquanto um “verdadeiro partido político”, substituindo a hierarquia intelectual por burocratas “apolíticos” com “formação mental puramente retórica, não-nacional” (Ib., p. 202).
Gramsci e Weber aproximam-se, portanto, na crítica de uma sociedade burocrática, particularmente quanto à necessidade de uma ação genuinamente política sobre esta burocracia (vista por Weber como inevitável). Gramsci chega a admitir a possibilidade de um bonapartismo progressista, quando o chefe carismático (ou a força política “carismática”) se coloca a favor das forças sociais historicamente progressistas, contra um equilíbrio estático de partidos dominantes, cristalizados em posições burocráticas, pois a burocracia pode se tornar, na vida moderna, o pior dos partidos (Ib.).
Gramsci afirma que o capo charismatico corresponde ao período de formação dos partidos de massa. O chefe carismático pode pertencer tanto a um partido autoritário quanto a um partido socialista ou um movimento anarquista e antiautoritário; essas combinações devem ser estudadas na história concreta, assim como o papel desses partidos na luta política. No que tange, entretanto, à burocratização dos partidos operários, Gramsci identifica um problema grave para o movimento socialista:
    “Os partidos socialistas, graças aos numerosos postos remunerados e honoríficos de que dispõem, oferecem aos operários (a certo número de operários, naturalmente!) uma possibilidade de fazer carreira, o que exerce sobre eles uma força considerável de atração (esta força se exerce, porém, mais sobre os intelectuais). “Complexidade progressiva da atividade política, em virtude da qual os líderes do partido se tornam cada vez mais profissionais e devem ter noções cada vez mais amplas, um tato, uma prática burocrática e, freqüentemente, uma esperteza cada vez mais ampla. Assim, os dirigentes se afastam cada vez mais da massa, dando margem à flagrante contradição que se manifesta nos partidos avançados entre as declarações e as intenções democráticas e a realidade oligárquica” (Ib., p. 166).
Mas a solução para esta burocratização do movimento socialista não reside, para Gramsci, na simples afirmação literária da necessidade de um chefe carismático, e sim na formação de um estrato médio de intelectuais orgânicos que façam a ligação entre os líderes e as massas, impedindo os líderes de se desviarem nos momentos de crise e, simultaneamente, elevando o nível político das massas. Além disso, o chefe carismático não é uma forma de governo, mas uma função, que pode até surgir em governos parlamentares de coalizão que assumam a função cesarista. Cesarismo não é um apenas um conceito sociológico ou de ciência política nem um cânone de interpretação histórica – diz Gramsci – mas uma fórmula política que deve ser identificada concretamente em cada contexto histórico (Ib., p. 76-7).

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