domingo, 9 de dezembro de 2012



Texto de Roger Waters, dos Pink Floyd, 
sobre as relações israelo-palestinianas.)Roger Waters na Palestina
Em 1980, uma canção que escrevi,
Another Brick in the Wall (Part 2),
 foi proibida pelo governo da África do Sul 
porque estava sendo usada por crianças negras
 sul-africanas para reivindicar o seu direito a uma
 educação igualitáriaEsse governo de
 apartheid impôs um bloqueio cultural,
 por assim dizersobre algumas canções,
 incluindo a minha.

Vinte e 
cinco anos mais tarde
em 2005, crianças palestinas
 que participavam num festival na
 Cisjordânia usaram a canção para protestar
 contra o muro do apartheid israelita
Elas cantavam: "Não precisamos da ocupação
Não precisamos do muro racista!" Nessa altura,
 eu não tinha ainda visto com os meus olhos aquilo
 sobre o que elas cantavam.Um ano mais tardeem 2006, fui contratado para actuar
 em Telavive.Palestinos do movimento de boicote académico
 e cultural a Israel exortaram-me a reconsiderar.
 Eu  tinha me manifestado contra o muro
mas não tinha a certeza de que um boicote cultural
 fosse a via certa. Os defensores palestinos 
de um boicote pediram-me que visitasse o
 território palestino ocupado para ver o muro
 com os meus olhos antes de tomar uma decisão.
 Eu concordei.Sob a protecção das Nações Unidas, 
visitei Jerusalém e Belém. Nada podia
 ter-me preparado para aquilo que vi 
nesse dia. O muro é um edifício revoltante.
 Ele é policiado por jovens soldados israelitas
 que me trataram, observador casual de
 um outro mundocom uma agressão
 cheia de desprezo. Se foi assim comigo,
 um estrangeiro, imaginem o que deve ser
 com os palestinoscom os sub-proletários, com os portadores de autorizações. Soube então que a minha consciência não me permitiria afastar-me desse muro, do destino
 dos palestinos que conheci, pessoas cujas
 vidas são esmagadas diariamente de 
mil e uma maneiras pela ocupação de Israel. 
Em solidariedade, e de alguma forma 
por impotência, escrevi no muro, naquele dia: "Não precisamos do controle das ideias".

Tomando nesse 
momento consciência 
que a minha presença num palco 
de Telavive iria legitimar involuntariamente
 a opressão que estava a testemunhar,
 cancelei o concerto no estádio de futebol 
de Telavive e mudei-o para Neve Shalom, uma comunidade
 agrícola dedicada a criar pintainhos e 
também, admiravelmente, à cooperação
 entre pessoas de crenças diferentesonde
 muçulmanos,cristãos e judeus vivem e trabalham lado a lado em harmonia.Contra todas as expectativasele 
tornou-se no maior evento musical 
da curta história de Israel. 
60.000 fãs lutaram contra engarrafamentos
 de trânsito para assistir. Foi 
extraordinariamente comovente 
para mim e para a minha banda 
e, no fim do concerto, fui levado 
exortar os jovens que ali estavam 
agrupados a exigirem ao seu governo 
que tentasse chegar à paz com os 
seus vizinhos e que respeitasse os 
direitos civis dos palestinos 
que vivem em Israel.Infelizmentenos anos que 
se seguiram, o governo israelita 
não fez nenhuma tentativa para implementar legislação que garanta aos árabes israelitas direitos civis
 iguais aos que têm os judeus israelitas,
 e o muro cresceu, inexoravelmente,
 anexando cada vez mais da faixa ocidental.

Aprendi nesse 
dia de 2006 em Belém 
alguma coisa do que significa viver 
sob ocupação, encarcerado 
por trás de um muro. Significa
 que um agricultor palestino 
tem de ver oliveiras centenárias 
ser arrancadas. Significa que 
um estudante palestino não pode
 ir para escola porque o 
checkpoint está fechado. Significa que
 uma mulher pode dar à luz num carro,
 porque o soldado não a deixará passar
 até ao hospital que está a dez minutos 
de estrada. Significa que um artista palestino
 não pode viajar ao estrangeiro para exibir 
seu trabalho ou para mostrar um filme 
num festival internacional.Para a população de Gaza, fechada numa
 prisão virtual por trás do muro do bloqueio
 ilegal de Israel, significa outra série de injustiças
Significa que as crianças vão para a cama com fome
muitas delas cronicamente mal nutridas. 
Significa que pais e mães, impedidos de 
trabalhar numa economia dizimada,
 não têm meios de sustentar as suas famílias
Significa que estudantes universitários 
com bolsas para estudar no estrangeiro
 têm de ver uma oportunidade escapar
 porque não são autorizados a viajar.

Na 
minha opinião, o controle repugnante
 e draconiano que Israel exerce sobre 
os palestinos de Gaza cercados e 
os palestinos da Cisjordânia ocupada
 (incluindo Jerusalém oriental), assim
 como a sua negação dos direitos 
dos refugiados de regressar às suas
 casas em Israel, exige que as pessoas
 com sentido de justiça em todo o mundo
 apoiem os palestinos na sua resistência civilnão violenta.Onde os governos se recusam a actuar
as pessoas devem fazê-lo, com os meios
 pacíficos que tiverem à sua disposição
Para algunsisto significou juntar-se 
à Marcha da Liberdade de Gaza;
 para outros, juntar-se à flotilha
 humanitária que tentou levar até Gaza 
muito necessitada ajuda humanitária.Para mimisso significa declarar a minha
 intenção de me manter solidárionão 
 com o povo da Palestinamas também com 
os muitos milhares de israelitas que 
discordam das políticas racistas e 
coloniais dos seus governos,
 juntando-me à campanha de 
Boicote, Desinvestimento e 
Sanções (BDS) contra Israel, 
até que este satisfaça três direitos
 humanos básicos exigidos na lei internacional.

1. Pondo 
fim à ocupação e à 
colonização de todas as terras árabes
 [ocupadas desde 1967] e desmantelando o muro;

2. Reconhecendo os 
direitos fundamentais 
dos cidadãos árabe-palestinos de Israel 
em plena igualdade; e

3. Respeitando, protegendo e promovendo

 os direitos dos refugiados palestinos 
de regressar às suas casas e propriedades 
como estipulado na resolução 194 da ONU.

minha convicção nasceu da ideia 
de que todas as pessoas merecem 
direitos humanos básicos. A minha posição
 não é anti-semitaIsto não é um ataque 
ao povo de Israel. Isto é, no entanto
um apelo aos meus colegas da indústria
 da música e também a artistas de outras áreas
 para que se juntem ao boicote cultural.

Os 
artistas tiveram razão de recusar-se 
a actuar na estação de Sun City na 
África do Sul até que o apartheid caísse
 e que brancos e negros gozassem dos
 mesmos direitos. E nós temos razão de
 recusar actuar em Israel até que venha 
dia - e esse dia virás eguramente - 
em que o muro da ocupação caia 
e os palestinos vivam ao lado dos
 israelitas em pazliberdadejustiça
 e dignidade,que todos eles merecem.

Roger Waters


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