sábado, 12 de julho de 2014

Ainda o “caso Pavel”: comentário ao novo livro de Edmundo Pedro
09/07/2014 - 03:33 Público
Temos presente o livro Pavel – Um Homem não se Apaga, de Edmundo Pedro (E.P.). Neste IV volume das suas memórias, E.P. continua as críticas ao PCP (e a Álvaro Cunhal), desta vez através do fio condutor da vida de Pavel, um militante revolucionário empenhado.
Nesta fúria crítica arrasta o nosso pai, Ludgero Pinto Basto (L.P.B.), a quem ofende com acusações gratuitas de “inventar”, ”animosidade”, ”má vontade”, tratar “da saúde às burguesas ricas de Lisboa”, falta de “intervenção no plano social e cultural”, etc. Tudo isto a pretexto de comentários a um artigo de jornal de há 20 (!) anos, e nove (!) anos após L.P.B. ter morrido. Julgamos difícil classificar isto como coragem cívica ou intelectual.
O nosso pai costumava dizer sempre que se falava do “caso Pavel” que era necessário, previamente, esclarecer o “caso Magalhães”. Quem era Magalhães? O Magalhães era Armando Magalhães, agente provocador, infiltrado no PCP, ao serviço da PDVE.
Magalhães era um homem inteligente, ardiloso, insidioso e muito ambicioso, que em Maio de 1938, recém-chegado da URSS, onde frequentara a Escola Leninista de Quadros, era um responsável máximo do Partido, uma espécie de secretário-geral “interino”. O relatório da fuga de Pavel da cadeia do Aljube que chegou ao responsável da Internacional Comunista em Paris (e ao PC francês) foi da responsabilidade pessoal e exclusiva de Magalhães. Este relatório desonesto e traiçoeiro salienta, muito intencionalmente, não a extrema dificuldade de fugir de uma prisão tão segura como era o Aljube (dificuldade que nunca fora vencida anteriormente) [Nota: parece que nem isto era verdade, pois teria havido uma fuga coletiva em 1932 de que fez parte Emídio Guerreiro], mas também a particularidade de a fuga ter sido executada com a decisiva ajuda e mesmo com a comparticipação de um "elemento da Polícia", o enfermeiro da prisão.
Magalhães foi “presopouco tempo depois de ter enviado o seu relatório para Paris, o que veio dar mais verosimilhança às suspeitas que ele próprio havia sugerido acerca da fuga de Pavel e da grave infiltração policial na organização do partido. Magalhães passou a colaborar diligentemente com a PVDE na “prisão”, onde casou, pela igreja, com uma russa branca que trouxera consigo para a clandestinidade em Portugal. Como recompensa, a PVDE “libertou-o” ao fim de alguns meses, tendo-lhe facilitado a ida para o Brasil, onde, segundo consta, refez a sua vida.
L.P.B., que, na altura, pertencia ao secretariado nacional do PCP, desempenhou na fuga de Pavel um importante papel e atribuía todas as culpas individualizáveis neste caso ao Magalhães.
Os fugitivos (Pavel, o enfermeiro Augusto Rodrigues e o jovem António Gomes Pereira) foram viver para a casa clandestina onde vivia L.P.B. com a sua mulher, Brízida, e o seu (na altura único) filho Ernâni, a fim de serem tratados dos graves ferimentos que apresentavam e da afeção pulmonar de que Pavel padecia.
O tratamento dos evadidos e posteriormente o seu encaminhamento para França demorou vários meses e o relacionamento com eles foi sempre de grande amizade e respeito, pelo que L.P.B. considerava Pavel um militante revolucionário empenhado e um homem honrado.
No que respeita a Álvaro Cunhal, não teve qualquer interferência no processo porque estava preso e no período de 1940-1948 (data da nova prisão de Cunhal) seria difícil, para não dizer impossível, o contacto com Pavel, de quem se desconhecia o paradeiro.
Após o responsável em Paris da Internacional Comunista ter reportado o relatório do Magalhães, esta cortou relações com o PC Português e abandonou Pavel, em Paris. Pavel, como homem honesto que era, sofreu o enorme traumatismo ocasionado pela injustiça de se ver caluniado e repelido, reagiu à sua maneira, seguiu a sua vida, foi para o México.
No seu livro O Partido com Paredes de Vidro (Edições Avante!, 1985, pág. 252 da 6.ª edição de 2002) Cunhal, com a sua autoridade, critica a Internacional Comunista e denuncia, explicitamente, a “injusta suspeita criada”.
Depois da evasão de Peniche, e depois da retomada de funções de Cunhal (após 12 anos de cadeia), L.P.B. consegue fazer chegar ao PCP uma sugestão para que se ocupe do “assunto Pavel”. A sugestão é aceite e é o próprio Álvaro Cunhal que toma a iniciativa de convidar Pavel a regressar a Portugal e reocupar o lugar que de direito lhe pertencia na direção do partido. Pavel não aceitou, sentia-se mais mexicano que português, tinha mulher e filhos, tornara-se famoso como crítico de arte bem integrado nos meios intelectuais mexicanos, e... (segundo L.P.B.) não manteria as mesmas convicções político-ideológicas.

Este comentário é subscrito pelos filhos de (Ludgero Pinto Basto e de Brizida Barata Pinto Basto) Ludgero Barata Pinto Basto, Eugénio Barata Pinto Basto, Ernâni Barata Pinto Basto.

1 comentário:

Mar Arável disse...

A vida também é feita de pequenos nadas
ao invés de brotarem na boca das sementes


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