sábado, 19 de julho de 2014

Uma perspectiva sobre o célebre livro "Da Alvorada à Decadência"


Best-seller nos EUA, "Da Alvorada à Decadência" traça um quadro parcial e conservador dos últimos 500 anos

O tempo morto da história

Marco Antonio Villa

especial para a Folha
Impressiona qualquer leitor a proposta de um livro que trate de 500 anos da cultura ocidental. Esse é o desafio enfrentado pelo historiador americano Jacques Barzun em "Da Alvorada à Decadência - A História da Cultura Ocidental de 1500 aos Nossos Dias". O livro é dividido em quatro partes e tem 928 páginas. Pretende dar um apanhado geral da cultura e, segundo a editora, fez parte da lista dos livros mais vendidos do "New York Times", o que é lembrado ao leitor na própria capa do livro. Logo na apresentação, o autor faz uma afirmação que causa perplexidade: diz que procurou "escrever como se estivesse falando, com apenas um toque de exibicionismo, aqui e ali, para mostrar que entendo e estou por dentro dos gostos modernos". O livro tem um enorme conjunto de informações nem sempre devidamente concatenadas e algumas vezes escolhidas a esmo. Logo na primeira linha, o autor afirma que a Reforma protestante dá início à era moderna, numa primeira manifestação de eurocentrismo, ignorando que os efeitos da conquista da América, em 1492, são muito mais relevantes. Porém, os capítulos que tratam dos séculos 16 e 17 têm lá seu interesse, mas, quando chega ao século 19, o autor comete uma série de equívocos que acabam prejudicando seriamente o livro.

"Atrativos sexuais"
Um deles é o desconhecimento do marxismo e da história do movimento operário. Barzun diz que o livro "A Guerra Civil na França", de Karl Marx, "era uma peça de propaganda deliberadamente mentirosa, à medida que os comunardos não eram nem proletários nem comunistas". De acordo com o autor, os comunardos realizaram uma matança indiscriminada quando tomaram Paris, em 1871, de tal forma que a retomada da cidade "só poderia terminar num selvático e mútuo banho de sangue". Convenhamos, as duas afirmações são absolutamente incorretas e a segunda justifica o massacre de 20 mil comunardos. Ao tratar do período entreguerras, afirma estranhamente que no Ocidente "Marx foi resumido e popularizado de novo, formaram-se "células" do Partido Comunista sob controle de gerentes treinados em Moscou, e os recrutas tomavam gosto pela disciplina com a ajuda de atrativos mentais ou sexuais, conforme as preferências". A frase sem sentido não foi precedida de nenhuma análise da Revolução Russa e de suas repercussões no mundo da cultura. Isso não mereceu nem sequer um parágrafo por parte de Barzun. Excetuando o século 16, quando Portugal mereceu uma página e a Espanha, um capítulo, a Península Ibérica vai desaparecendo do livro, chegando ao ponto de o autor comentar os atentados a chefes de Estado entre o final do século 19 e início do século 20, na Europa e Estados Unidos (Said Carnot, McKinley, o rei da Itália, o arquiduque Francisco Fernando), e não mencionar que em Portugal, em 1908, o rei d. Carlos foi assassinado por dois republicanos e que, em 1910, o presidente Sidônio Pais foi morto por um ex-sargento. O apagamento da cultura de alguns países da Europa Ocidental, especialmente no século 20, é tão acentuado que à cultura italiana é reservado somente um lugar para Marinetti, com míseras duas linhas. Antonio Gramsci (1891-1937), por exemplo, é ignorado. O autor centra a sua análise na Inglaterra e na França, especialmente nesta última. E, por incrível que pareça, defende o fascista e colaboracionista Pierre Laval, que foi fuzilado em 1945, considerando-o "um patriota num posto de duplo perigo". Laval foi um dos principais líderes da França de Vichy, que não só colaborou com os nazistas, desde 1940, mas também assassinou milhares de judeus. Os Estados Unidos mereceram dezenas e dezenas de páginas. A superestimação da sua importância chega ao ponto de considerar que, com a abolição da escravidão (1865), no final da Guerra Civil, a "paz e reconstrução puseram fim à escravatura na sociedade ocidental" -lembre-se o leitor que a escravidão seria extinta no Brasil mais de 20 anos depois. Ou ainda quando afirma que o americano Henri George, autor de "Progresso e Pobreza", teve uma influência mundial igual ou superior à de Marx! Como exemplo, diz que George inspirou uma reforma agrária na Áustria-Hungria. Mas, estranhamente, não faz nenhuma menção ao cinema americano, este sim um instrumento fundamental na conquista dos corações e mentes de todo o mundo.

Cultura ignorada
O Brasil não recebeu nem uma linha sequer, o que leva o leitor a algumas indagações: o Brasil faz parte do Ocidente? Tem cultura? Ou não tem cultura nem faz parte do Ocidente? Mas não é só o Brasil: toda a cultura da América Latina é absolutamente ignorada, como se fosse um povo sem história. A única menção a Jorge Luis Borges e Pablo Neruda é que seriam "vorazes consumidores de histórias de detetives". Sobre Diego Rivera, Gabriel García Marquez, Machado de Assis, Domingo Sarmiento, Sor Juana de la Cruz, Fernando Botero, Alejo Carpentier, Euclides da Cunha, Octavio Paz, entre dezenas de nomes, paira o silêncio. Paradoxalmente, reservou à escritora inglesa [de policiais" Dorothy Sayers cinco páginas.
Depois de mais de 900 páginas o leitor não sabe os significados, para Barzun, de cultura, Ocidente, alvorada e decadência (até se insinua uma simpatia em relação a Spengler [historiador alemão (1880-1936), autor de "A Decadência do Ocidente""), entre tantos outros conceitos, mas fica ciente do seu conservadorismo político.
Além disso, é evidente que a temporalidade como critério principal para estudar a cultura é um equívoco. O movimento da cultura não segue a linha cronológica do tempo nem pode ser apresado em décadas ou séculos. Resta mais uma pergunta: traduzir um livro de quase mil páginas para quê? Simplesmente porque fez parte da lista dos mais vendidos do "New York Times"?

Marco Antonio Villa é professor de história da Universidade Federal de São Carlos e autor de, entre outros, "Vida e Morte no Sertão - História das Secas no Nordeste nos Séculos 19 e 20" (Ática).

Da Alvorada à Decadência
928 págs., R$ 119,00 de Jacques Barzun. Trad. Álvaro Cabral. Editora Campus (r. Sete de Setembro, 111, 16º andar, CEP 20050-002, RJ, tel. 0/xx/ 21/ 3970-9300)


Existe edição da GRADIVA.

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