terça-feira, 19 de agosto de 2014

Eduardo Galeano

Pelo Socialismo 
Questões político-ideológicas com atualidade 
http://www.pelosocialismo.net 
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Publicado em 2012/11/26 em: http://www.aporrea.org/internacionales/a154906.html
Tradução do castelhano de PAT 
Colocado em linha em: 2014/08/18

Já pouca Palestina resta. Passo a passo, 
Israel está a apagá-la do mapa1

Eduardo Galeano*

Para se justificar, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe 
tempestades. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo os seus autores 
quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los. 
Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem 
nem respirar sem permissão. Perderam a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua 
liberdade, o seu tudo. Nem sequer têm o direito de eleger os seus governantes. 
Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está a ser castigada. 
Converteu-se numa armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpidamente 
as eleições no ano de 2006. Algo de semelhante havia ocorrido em 1932, quando o 
Partido Comunista ganhou as eleições de El Salvador. 
Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram a sua má conduta e, desde então, 
viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos 
merecem. São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, 
encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram 
palestinas e que a ocupação israelita usurpou. E o desespero, à beira da loucura 
suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem 
nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, há 
vários anos, o direito à existência da Palestina. Já pouca Palestina resta. Passo a 
passo, Israel está a apagá-la do mapa. 
Os colonos invadem e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas 
consagram o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não afirme ser 
guerra defensiva. Hitler invadiu a Polónia para evitar que a Polónia invadisse a 
Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em 
cada uma das suas guerras defensivas, Israel engoliu outro pedaço da Palestina, e os 
almoços continuam. Isso justifica-se pelos títulos de propriedade concedidos pela 
 Bíblia, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu e pelo pânico 
gerado pelos palestinos, à espreita. Israel é o país que nunca cumpre as 
recomendações e resoluções da Organização das Nações Unidas, que nunca acata as 
sentenças dos tribunais internacionais, que zomba das leis internacionais, e é 
também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros. 
Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com 
que Israel está a executar a matança de Gaza? 
O governo espanhol não poderia bombardear impunemente o País Basco para acabar 
com a ETA, nem o governo britânico poderia arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. 
Será que a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou 
essa luz verde vem da potência que mais manda e que tem em Israel o mais 
incondicional dos seus vassalos? 
O exército israelita, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não 
mata por engano. Mata por horror. Às vítimas civis chamam danos colaterais, 
segundo o dicionário de outras guerras imperiais. 
Em Gaza, em cada dez danos colaterais, três são crianças. E são milhares os 
mutilados, vítimas da tecnologia de esquartejamento humano, que a indústria militar 
está a ensaiar com sucesso nesta operação de limpeza étnica. E, como sempre, é 
sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinos mortos, um israelita. 
Gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos média de manipulação 
de massas, que nos convidam a acreditar que uma vida israelita vale tanto como cem 
vidas palestinas. E esses média também nos convidam a acreditar que são 
humanitárias as duzentas bombas atómicas de Israel, e que uma potência nuclear 
chamada Irão foi quem aniquilou Hiroshima e Nagasaki. 
Existe a chamada comunidade internacional? É algo mais do que um clube de 
negociantes, banqueiros e guerreiros? É algo mais do que o nome artístico que os 
Estados Unidos atribuem a si próprios quando fazem teatro? 
Perante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial brilha mais uma vez. Como sempre, 
a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, 
as posturas ambíguas prestam homenagem à sagrada impunidade. Perante a tragédia 
de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E, como sempre, os países 
europeus esfregam as mãos. 
A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra 
lágrima, enquanto secretamente celebra este golpe de mestre. Porque a caça aos 
judeus foi sempre um costume europeu, mas, desde há meio século, essa dívida 
histórica está a ser cobrada aos palestinos, que também são semitas e nunca foram 
nem são antissemitas. Eles estão a pagar, em sangue vivo e sonante, uma conta 
alheia. 
(Este artigo é dedicado aos meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras 
militares latino-americanas que Israel assessorou).3

*Eduardo Germán María Hughes Galeano, conhecido como Eduardo Galeano, é um 
jornalista e escritor uruguaio, célebre por ter escrito “As veias abertas da América”. Ganhou 
o prémio Stig Dagerman. É considerado um dos mais destacados escritores da literatura 
latino-americana. 
1
 Note-se que este artigo foi escrito há quase 2 anos. – [NE] 

1 comentário:

Mar Arável disse...

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