terça-feira, 18 de novembro de 2014

O principal Estado terrorista

Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado em 2014/11/06, em: http://resistir.info/eua/chomsky_03nov14.html
Colocado em linha em: 2014/11/17

O principal Estado terrorista
Noam Chomsky*

"É oficial: Os EUA são o principal Estado terrorista do mundo, e orgulhosos disso".
Esta deveria ter sido a manchete da notícia principal no New York Times de 15 de
Outubro, a qual foi polidamente intitulada: "Estudo da CIA da ajuda encoberta
alimenta cepticismo acerca do apoio a rebeldes sírios".
O artigo informa sobre uma revisão da CIA das recentes operações encobertas dos
EUA a fim de determinar a sua eficácia. A Casa Branca concluiu que infelizmente os
êxitos foram tão raros que alguma reconsideração desta política era pertinente.
O artigo citava o presidente Barack Obama a dizer que pedira à CIA para efectuar a
revisão a fim de descobrir casos de "financiamento e fornecimento de armas a
insurgências num país que realmente tivesse funcionado bem. E eles não puderam
sugerir muito". Assim, Obama tem alguma relutância quanto à continuação de tais
esforços.
O primeiro parágrafo do artigo do Times menciona três grandes exemplos de "ajuda
encoberta": Angola, Nicarágua e Cuba. Cada caso foi de facto uma grande operação
terrorista dirigida pelos EUA.
Angola foi invadida pela África do Sul, a qual, segundo Washington, estava a
defender-se de um dos "mais notórios grupos terroristas" do mundo – o African
National Congress, de Nelson Mandela. Isso foi em 1988.
Nessa altura, a administração Reagan estava virtualmente isolada no seu apoio ao
regime do apartheid, violando mesmo sanções do Congresso quanto ao aumento do
comércio com o seu aliado sul-africano.
Enquanto isso, Washington somava-se à África do Sul ao proporcionar apoio crucial
ao exército terrorista de Jonas Savimbi, em Angola. Washington continuou a fazer
isso mesmo depois de Savimbi ter sido completamente derrotado numa eleição livre
cuidadosamente monitorada e de a África do Sul ter retirado seu apoio. Savimbi foi
um "monstro cuja sede de poder trouxe miséria espantosa ao seu povo", nas
palavras de Marrack Goulding, embaixador britânico em Angola.
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado em 2014/11/06, em: http://resistir.info/eua/chomsky_03nov14.html
Colocado em linha em: 2014/11/17
O principal Estado terrorista
Noam Chomsky*
"É oficial: Os EUA são o principal Estado terrorista do mundo, e orgulhosos disso".
Esta deveria ter sido a manchete da notícia principal no New York Times de 15 de
Outubro, a qual foi polidamente intitulada: "Estudo da CIA da ajuda encoberta
alimenta cepticismo acerca do apoio a rebeldes sírios".
O artigo informa sobre uma revisão da CIA das recentes operações encobertas dos
EUA a fim de determinar a sua eficácia. A Casa Branca concluiu que infelizmente os
êxitos foram tão raros que alguma reconsideração desta política era pertinente.
O artigo citava o presidente Barack Obama a dizer que pedira à CIA para efectuar a
revisão a fim de descobrir casos de "financiamento e fornecimento de armas a
insurgências num país que realmente tivesse funcionado bem. E eles não puderam
sugerir muito". Assim, Obama tem alguma relutância quanto à continuação de tais
esforços.
O primeiro parágrafo do artigo do Times menciona três grandes exemplos de "ajuda
encoberta": Angola, Nicarágua e Cuba. Cada caso foi de facto uma grande operação
terrorista dirigida pelos EUA.
Angola foi invadida pela África do Sul, a qual, segundo Washington, estava a
defender-se de um dos "mais notórios grupos terroristas" do mundo – o African
National Congress, de Nelson Mandela. Isso foi em 1988.
Nessa altura, a administração Reagan estava virtualmente isolada no seu apoio ao
regime do apartheid, violando mesmo sanções do Congresso quanto ao aumento do
comércio com o seu aliado sul-africano.
Enquanto isso, Washington somava-se à África do Sul ao proporcionar apoio crucial
ao exército terrorista de Jonas Savimbi, em Angola. Washington continuou a fazer
isso mesmo depois de Savimbi ter sido completamente derrotado numa eleição livre
cuidadosamente monitorada e de a África do Sul ter retirado seu apoio. Savimbi foi
um "monstro cuja sede de poder trouxe miséria espantosa ao seu povo", nas
palavras de Marrack Goulding, embaixador britânico em Angola.
As consequências foram horrendas. Em 1989, uma investigação da ONU estimava
que as depredações sul-africanas levaram a 1,5 milhão de mortes em países vizinhos,
sem falar no que estava a acontecer dentro da própria África do Sul. Forças cubanas
finalmente repeliram os agressores sul-africanos e obrigaram-nos a retirarem-se da
Namíbia ocupada ilegalmente. Os EUA sozinhos continuaram a apoiar o monstro
Savimbi.
Em Cuba, após a fracassa invasão da Baia dos Porcos, em 1961, o presidente John F.
Kennedy lançou uma campanha assassina e destrutiva para levar "os terroristas da
terra" para Cuba – palavras de um colaborador próximo de Kennedy, o historiador
Arthur Schlesinger, na sua biografia semi-oficial de Robert Kennedy, ao qual foi
atribuída responsabilidade pela guerra terrorista.
As atrocidades contra Cuba foram graves. Os planos eram para que o terrorismo
culminasse num levantamento em Outubro de 1962, o qual levaria a uma invasão dos
EUA. Nesta altura, meios académicos reconhecem que isto foi uma das razões porque
o primeiro-ministro russo Nikita Khruschev instalou mísseis em Cuba, iniciando uma
crise que esteve perigosamente próxima da guerra nuclear. O secretário da Defesa dos
EUA Robert McNamara posteriormente reconheceu que se tivesse estado no lugar de
um líder cubano "podia ter esperado uma invasão estado-unidense".
Ataques americanos contra Cuba continuaram durante mais de 30 anos. O custo para
os cubanos foi naturalmente rude. Os relatos das vítimas, que dificilmente alguma
vez são ouvidos nos EUA, foram relatados em pormenor pela primeira vez num
estudo de 2010 do académico canadiano Keith Bolender, "Voices From the Other
Side: an Oral History of Terrorism Against Cuba".
O custo da longa guerra terrorista foi ampliado por um embargo esmagador, o qual
continua ainda hoje em desafio ao mundo. Em 28 de Outubro, a ONU, pela 23ª vez,
endossou "a necessidade de acabar o bloqueio económico, comercial e financeiro
imposto pelos Estados Unidos contra Cuba". A votação foi de 188 contra 2 (EUA,
Israel), com abstenção de três ilhas do Pacífico dependentes dos EUA.
Há agora alguma oposição ao embargo em altos postos nos EUA, informa a ABC
News, porque "já não é mais útil" (citando o novo livro de Hillary Clinton, "Hard
Choices"). O académico francês Salim Lamrani analisou os custos amargos para os
cubanos no seu livro de 2013, "The Economic War Against Cuba".
A Nicarágua nem precisaria ser mencionada. A guerra terrorista do presidente
Ronald Reagan foi condenada pelo Tribunal Mundial, o qual ordenou aos EUA que
terminassem o seu "uso ilegal da força" e pagassem reparações substanciais.
Washington respondeu escalando a guerra e vetando uma resolução de 1986 do
Conselho de Segurança da ONU conclamando todos os estados – o que significava os
EUA – a cumprirem o direito internacional.
Outro exemplo de terrorismo será assinalado em 16 de Novembro, o 25º aniversário
do assassinato de seis padres jesuítas em San Salvador por uma unidade terrorista do
exército salvadorenho, armada e treinada pelos EUA. Por ordens do alto comando
3
militar, os soldados invadiram a universidade jesuíta para assassinar os padres e
quaisquer testemunhas – incluindo o caseiro do prédio e sua filha.
Este evento culminou nas guerras terroristas dos EUA na América Central na década
de 1980, embora os efeitos ainda estejam nas primeiras páginas de hoje em
reportagens sobre "imigrantes ilegais", a fugirem em não pequena medida das
consequências daquela carnificina e a serem deportados dos EUA para sobreviverem,
se puderem, nas ruínas dos seus países de origem.
Washington também emergiu como o campeão mundial na geração de terror. O
antigo analista da CIA Paul Pillar adverte do "impacto da geração de ressentimentos
devido aos ataques estado-unidenses" na Síria, os quais mais uma vez induzem as
organizações jihadistas Jabhat al-Nusra e Islamic State a "emendar” suas violações
do ano passado e fazerem campanha em conjunto contra a intervenção dos EUA,
retratando-a como uma guerra contra o Islão!
Isto agora é uma consequência habitual das operações dos EUA que ajudaram a
alastrar o jihadismo de um canto do Afeganistão para grande parte do mundo.
A actual manifestação mais temível de jihadismo é o Estado Islâmico, ou ISIS, o qual
estabeleceu seu califado assassino em grandes áreas do Iraque e da Síria.
"Penso que os Estados Unidos são um dos criadores chave desta organização",
relata o antigo analista da CIA Graham Fuller, um eminente comentador acerca da
região. "Os Estados Unidos não planearam a formação do ISIS", acrescenta, "mas
suas intervenções destrutivas no Médio Oriente e a Guerra do Iraque foram as
causas básicas do nascimento do ISIS".
A isto podemos acrescentar a maior campanha terrorista do mundo: o projecto global
de Obama de assassínio de "terroristas". Os "impactos da geração de
ressentimentos" com os ataques de drones e forças especiais são demasiado bem
conhecidos para exigirem comentários adicionais.
Isto é um recorde a ser contemplado com algum pavor.

03/Novembro/2014

* Professor emérito de linguística e filosofia no Massachusetts Institute of
Technology, in Cambridge. Seu livro mais recente é Power Systems:
Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to
U.S. Empire. Interviews with David Barsamian.
O original encontra-se em www.truth-out.org/opinion/item/27201-the-leading-terroriststate

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