sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Recordando Harry Magdoff

The Rediscovery of Imperialism
Este artigo foi originalmente escrito como introdução para Essays on Imperialismo e Globalização  por Harry Magdoff, próximo de Cornerstone Publications na Índia.
«Este trabalho( A ERA DO IMPERIALISMO, de H. Magdoff) também foi notável por seus argumentos sobre a expansão financeira internacional de capitais dos Estados Unidos, com base na posição hegemônica do dólar na economia mundial e no crescimento de uma armadilha da dívida do terceiro mundo. Foi aqui que Magdoff desde sua primeira explicação do "processo de fluxo reverso" inerente à dependência contínua da dívida externa. "Se um país toma emprestado, digamos, US $ 1000 por ano", escreveu ele, "em pouco tempo os pagamentos do serviço da dívida será maior do que a entrada de dinheiro a cada ano." Supondo que o simples caso de um empréstimo anual de US $ 1000 a 5 por cento de juros ", a ser amortizado em parcelas iguais ao longo de 20 anos", segue-se que, no quinto ano quase cinqüenta por cento do empréstimo anual irá para o serviço da dívida; no décimo ano cerca de noventa por cento do empréstimo serão dedicados ao serviço da dívida; No décimo quinto ano, a saída de juros e amortização será maior do que o empréstimo propriamente dito; e no vigésimo ano "o tomador está pagando mais de 1,50 dólares em dívidas do passado para cada R $ 1,00 de dinheiro novo que toma emprestado."
Não seria possível, Magdoff perguntou, para um país para evitar essa armadilha não por empréstimo, ano após ano, mas em vez de usar o dinheiro emprestado para desenvolver a indústria para fornecer a receita para dispensar empréstimos e até mesmo pagar a dívida? Uma grande parte da resposta era para ser encontrada na realidade de que uma vez que o pagamento tem de ocorrer na moeda do país credor, a dívida só poderia ser reembolsado (independentemente da taxa de crescimento) se houvesse exportações suficiente para fornecer a moeda estrangeira necessária. Mesmo, já em 1969, muito antes de o problema da dívida do terceiro mundo foi considerado crítico, Magdoff observou que "o crescimento de pagamentos do serviço da dívida do mundo subdesenvolvido tem aumentado mais rapidamente do que tem o crescimento de suas exportações. Por isso, o peso da dívida tornou-se mais opressivo ea dependência financeira sobre as principais nações industrializadas e as suas organizações internacionais, como o Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional tem aumentado em conformidade. "
A essência do imperialismo como se manifestou no final do século XX, de acordo com Magdoff, foi a globalização do capital monopolista em condições de hegemonia dos EUA. As páginas finais da The Age of Imperialism declarou:  
A empresa comercial típica internacional já não se limita à petrolífera gigante. É tão provável que seja uma General Motors ou um Elétrico-Geral, com 15 a 20 por cento de suas operações envolvidas em negócios no estrangeiro, e exercitar todos os esforços para aumentar esta percentagem. É o objetivo declarado dessas empresas internacionais para obter os menores custos unitários de produção a nível mundial. É também seu objectivo, embora não necessariamente afirmou, para sair por cima no movimento de fusões no Mercado Comum Europeu e controlar tão grande uma parte do mercado mundial como eles fazem do mercado dos Estados Unidos.
A maioria dos ensaios de Magdoff livro de 1978, Imperialism: A partir da Era Colonial até o presente tratado equívocos sobre a história do imperialismo. De maior importância a este respeito foi a resposta de Magdoff à pergunta: "O imperialismo necessário?" Em resposta à alegação comum de que o capitalismo e do imperialismo foram categorias completamente distintas, e que este último não era necessariamente um atributo do primeiro, ele argumentou que capitalismo tivesse sido desde o início, um sistema mundial e que a expansão imperialista em sentido amplo foi tanto uma parte do sistema, como a busca de si lucros. Ele também argumentou contra aqueles à esquerda que procurou gerar uma análise do imperialismo moderno através de uma teoria particular de crise econômica ou a necessidade de a exportação de capital, em vez de reconhecer que o imperialismo era intrínseco ao tendências globalizantes do capitalismo desde o início. Apesar da importância das leis econômicas do movimento do capitalismo para gerar a realidade do imperialismo moderno, qualquer explicação simples, mecânica, estritamente econômico (separada da política, militar e fatores culturais) deveria ser evitado. Pelo contrário, as principais fontes vier a ser encontrada no desenvolvimento histórico do capitalismo desde o século XVI. "A eliminação do imperialismo", Magdoff concluiu, "exige a derrubada do capitalismo." 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

David Harvey: A crise da urbanização planetária

Na noite de 20 de Junho de 2013, mais de um milhão de pessoas em cerca de 388 cidades brasileiras tomaram as ruas em um enorme movimento de protesto. O maior desses protestos, reunindo mais de 100,000 pessoas, ocorreu no Rio de Janeiro e sofreu considerável violência policial. Por mais de um ano antes disso, manifestações esporádicas vinham acontecendo em diversas cidades brasileiras. Capitaneadas pelo MPL que há muito vinha se mobilizando entre estudantes pelo transporte gratuito, os protestos anteriores foram em larga medida ignorados.
Mas no começo de Junho de 2013, o aumento da tarifa sobre o transporte público desencadeou manifestações mais amplas. Muitos outros grupos, incluído black blocs anarquistas, saíram em defesa dos manifestantes do MPL e outros que estavam sofrendo repressão policial. No dia 13 de junho, o movimento já havia se transformado em um protesto generalizado contra a repressão policial, o fracasso dos serviços públicos perante as necessidades sociais, e a qualidade deteriorante da vida urbana. Os enormes gastos de recursos públicos para sediar mega- eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas – em detrimento do interesse público mas muito favoráveis, como amplamente se reconheceu, aos interesses de empreiteiras e incorporadoras corruptas – só aumentaram o descontentamento.
Manifestação_São Paulo_MPL
Os protestos no Brasil vieram menos de um mês depois de milhares de pessoas terem ido às ruas das principais cidades da Turquia. O que aparentemente começara como uma revolta com o projeto de reurbanização que transformaria em shopping center o precioso espaço verde do Parque Taskim Gezi, em Istambul, se alastrou em um protesto mais amplo contra a forma cada vez mais autocrática de governo e a violência da resposta policial. Um descontentamento generalizado sobre o ritmo e o estilo das transformações urbanas (incluindo aí enormes despejos de populações inteiras de terrenos valorizados no centro da cidade) também há muito vinha borbulhando e só jogou mais lenha na fogueira. A má qualidade de vida, para todos menos as classes mais abastadas, em Istambul e em outras cidades turcas era claramente uma questão importante.
O amplo paralelo entre o Brasil e a Turquia levou o articulista Bill Keller a escrever uma coluna de opinião no New York Times intitulada “The Revolt of the Rising Class” [A revolta da classe ascendente]. Os levantes não “nasceram do desespero”, ele escreveu. Tanto o Brasil quanto a Turquia haviam passado por um crescimento econômico notável em um período de crise global generalizada. Tratavam-se dos “mais recentes em uma série de revoltas brotando da classe média – as classes urbanas, educadas e não necessitadas, que são de certa forma as principais beneficiárias dos regimes que agora se põem a rejeitar” e que tinham algo a perder ao tomar as ruas em protesto. “Quando os movimentos atingiram uma massa crítica, eles já reivindicavam algo maior e mais incoeso como dignidade, os pré-requisitos da cidadania, as obrigações do poder.” As revoltas significavam “uma nova alienação, um novo anseio” que tinha de ser encarado.
A bem da verdade, as manifestações no Brasil e na Turquia diferiram dos protestos anti-austeridade e das greves que dominavam nas praças gregas e espanholas. Também diferiram das erupções de violência em Londres, Estocolmo, e nos subúrbios parisienses por parte das populações marginalizadas e imigrantes. E todos esses se mostraram diferentes dos movimentos “Occupy” em muitas cidades ocidentais e dos levantes pró-democracia que ecoaram de Túnis, Egito e Syria passando pela Bósnia e a Ucrânia.
Entretanto, há também pontos comuns que atravessam essas diferenças. Todas foram, por exemplo, centradas no espaço urbano, até certo ponto levemente supraclassistas, e ainda (ao menos inicialmente) inter-étnicas (embora isso tenha se desfeito na medida em que forças internas se deslocavam para dividir e controlar, e poderes externos exploravam os descontentamentos por vantagens geopolíticas, como na Síria e na Ucrânia). Desafeição e alienação urbana foram bastante proeminentes dentre os desencadeadores, bem como a indignação universal com a crescente desigualdade social, com a elevação nos custos de vida, e com repressões policiais gratuitamente violentas.
Nada disso deveria surpreender. A urbanização tem cada vez mais constituído um sítio primário de infindável acumulação de capital que administra suas próprias formas de barbárie e violência sobre populações inteiras em nome do lucro. A urbanização se tornou o centro de atividades econômicas avassaladores em escala planetária nunca antes vistas na história da humanidade. O Financial Times informa, por exemplo, que o “investimento imobiliário é o mais importante motor na economia chinesa”, que por sua vez tem sido o principal motor da economia global ao longo da crise mundial que começou em 2007. “A construção, venda e mobília de apartamentos representou 23% do PIB chinês em 2013.”1 Se somarmos os gastos com infraestruturas físicas de grande porte (estradas, ferrovias e obras públicas de todo tipo) então quase metade da economia chinesa está voltada para urbanização. A China consumiu mais de metade do aço e do cimento globais ao longo da última década. “Em apenas dois anos, de 2011 a 2012, a China produziu mais cimento que os Estados Unidos em todo o século XX”.2
Embora extremas, essas tendências não se encerram no território Chinês. Concreto vem sendo despejado por toda parte em um ritmo sem precedentes sobre a superfície terrestre. Estamos, em suma, em meio a uma enorme crise – ecológica, social e política – de urbanização planetária sem, ao que parece, nos dar conta ou mesmo marcando-a.
Nada desse novo desenvolvimento poderia ter ocorrido sem despejos e despossessões massivas, onda após onda de destruição criativa que tem cobrado não só um preço físico mas também destruído solidariedades sociais, varrido qualquer pretensões de governança urbana democrática, e tem cada vez mais recorrido ao terror e à vigilância policial militarizada  como seu modo primário de regulação social. A inquietação ligada à despossessão na China é difícil de medir, mas é certamente muito difundida. O sociólogo Cihan Tugal escreveu: “Bolhas imobiliárias, preços altíssimos de habitação, e a privatização-alienação generalizada de bens urbanos comuns constituem o chão comum de protestos em lugares tão diversos como Estados Unidos, Egito, Espanha, Turquia, Brasil, Israel e Grécia”.3 O crescente custo de vida – particularmente de alimentação, transporte e habitação – tem tornado a vida cotidiana cada vez mais difícil para populações urbanas. Revoltas em torno de alimentação em cidades do norte da África eram frequentes e difundidas mesmo antes dos levantes na Tunísia e na Praça Tahrir.
Esse boom de urbanização não tem tido muito a ver com atender às necessidades da população. Trata-se de uma estratégia para absorver capital excedente, sustentar taxas de lucro, e maximizar o retorno sobre valores de troca independentemente de quais forem as demandas por valores de uso. As consequências tem frequentemente se mostrado extremamente irracionais. Enquanto há uma escassez crônica de moradias financeiramente acessíveis em quase toda grande cidade, suas skylines são emporcalhadas com condomínios vazios para os ultra-ricos, cujos principais interesses são especular valores imobiliários ao invés de promover o bem-estar.
FOTO: Mídia Ninja
Em Nova York, onde metade da população tem de viver com menos de $30,000 dólares ao ano (em contraste com o 1%, que tinha uma renda anual média de $3.57 milhões de acordo com os relatórios tributários referentes a 2012), há uma crise de moradias financeiramente acessíveis porque em lugar algum é possível encontrar um apartamento de dois cômodos pelos $1,500 dólares ao mês que uma família de quatro deveria dedicar a habitação (dada a renda de $30,000). Em quase todas as principais cidades dos EUA, a porcentagem das despesas em habitação são muito superiores aos 30% da renda considerados razoáveis.4
O mesmo vale para Londres, onde há ruas inteiras de mansões desocupadas, mantidas por motivos puramente especulativos. Enquanto isso, o governo britânico busca aumentar a oferta de moradias acessíveis implementando uma taxa de sub-ocupação – que ficou conhecida como a bedroom tax –  sobre habitação social para o setor mais vulnerável da população, causando, por exemplo, o despejo de uma viúva morando sozinha em uma Council House de dois quartos. A taxa de sub-ocupação foi claramente implementada na classe errada, mas os governos esses dias parecem singularmente dedicados a bajular os mais abastados às custas dos pobres e desavantajados. A mesma irracionalidade de cômodos vazios em meio a carência de moradias a preços acessíveis pode ser encontrada no Brasil, na Turquia, em Dubai e no Chile, bem como em todas as cidades globais de altas finanças como Londres e Nova York. Enquanto isso, austeridades orçamentárias e relutância em taxar os mais ricos dado o poder esmagador de uma agora triunfante oligarquia significa um declínio de serviços públicos para as massas e ainda mais acumulação de riqueza para poucos.
É em condições desse tipo que a propensão a revolta política começa a inchar. Alienação universal de uma vida diária tolhante na cidade se evidencia por toda parte. Mas igualmente salientam-se as inúmeras tentativas por parte de indivíduos, grupos sociais, e movimentos políticos de encontrar formas de construir uma vida decente em um ambiente decente de vida. O tema de que deve haver alguma alternativa assume diversas formas e produz muitas quasi-soluções em aparentemente infinitas guisas.
É neste contexto que grupos de pensadores e ativistas estão explorando alternativas, por vezes em escalas pequenas mas em outras instâncias, no despertar de revoltas urbanas, para estimular a busca por melhores formas de vida urbana.5 O ethos faça-você-mesmo de muitos grupos sociais marginalizados da dinâmica prevalecente de acumulação de capital cria possibilidades de alianças entre pensadores e técnicos urbanos com movimentos sociais nascentes buscando uma vida boa ou, ao menos, melhor. Em nações andinas, o ideal do buen vivir está inscrito em constituições nacionais mesmo que na prática acabe entrando em conflito com políticas neoliberalizantes.6
Há possibilidades e potencialidade populares emergindo da crise da urbanização planetária e seus múltiplos mal-estares. Isso ocorre mesmo em face da aparentemente implacável força da acumulação infindável de capital, crescendo a uma taxa exponencial insustentável e apesar do poder que atravessa classes sociais sendo manejado por uma oligarquia global cada vez mais escancarada e intransigente.7
Uma escavadeira, posteriormente apelidada de de POMA, tomada por manifestantes e usada contra os veículos TOMA, carros-forte da polícia turca, em Istambul.
Então o que é que pode emergir das revoltas populares? Há signos e sinais confusos mas também algumas pistas importantes. No Parque Taskim Gezi, por exemplo, não era apenas o parque que importava. A “classe ascendente” construiu solidariedades sociais instantâneas, uma economia de compartilhamento e provisão social coletiva (alimentação, saúde, vestimentas), de zelar pelos outros (particularmente os feridos e amedrontados). Os participantes mostraram evidente prazer e disposição em debater interesses comuns através de assembleias democráticas, com discussões acaloradas que se estendiam noite adentro, e sobretudo encontraram um mundo possível de humor coletivo e liberação cultural que anteriormente parecia interditado. Eles abriram espaços alternativos, construíram um commons a partir de espaços públicos, e liberaram o poder do espaço a um propósito social e ambiental alternativo. Eles encontraram uns aos outros bem como o parque;8 eles identificaram uma ordem social nascente à espera.
Essas indicações nos permitem vislumbrar uma futura alternativa. O espírito de muitos (embora não todos) desses protestos e o espírito no interior dos movimentos pró-democracia e “Occupy” é de ir além da “nova alienação” que Keller percebe como sendo tão importante para construir uma experiência urbana menos alienante. Resistência visceral à proposta de despejar concreto sobre o Parque Taskim Gezi para construir uma imitação de um quartel otomano que funcionaria como mais um shopping center é nesse sentido emblemático do que é a crise da urbanização planetária. Despejar mais e mais concreto em uma busca sem sentido por crescimento infindável obviamente não é resposta alguma para nossos atuais males.
Aula pública convocada pelo MPL-São Paulo, com o urbanista Lucio Gregori, autor do projeto para o Passe Livre. Vale do Anhangabaú, 5 de janeiro de 2015.
Mas a “classe ascendente” também não representa a totalidade da população. Na Turquia, a massa das classes trabalhadoras islâmicas não se juntaram à revolta. Eles já possuíam suas próprias solidariedades culturais (frequentemente anti-modernistas) e relações sociais endurecidas (particularmente no que diz respeito à questão de gênero). Eles não se atraíram pela retórica emancipatória do movimento de protesto porque aquele movimento não abordou efetivamente sua condição de imensa privação material. Eles gostaram da combinação de shopping centers e mesquitas que o partido dominante, o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), estava construindo e não se importavam com a evidente corrupção em torno da explosão na construção civil contanto que representasse uma fonte de emprego. O movimento de protesto do Parque Taksim Gezi não era, como as eleições municipais subsequentes mostraram, supraclassista o suficiente para durar.
Não há resposta única aos nossos predicamentos. A experiência urbana sob o capitalismo está se tornando bárbara, bem como repressiva. Se as raízes dessa experiência alienante estão na infindável acumulação de capital, então essas raízes têm de ser definitivamente rompidas. As vidas e o bem estar têm de ser re-enraizados em outros modos de produzir e consumir, enquanto novas formas de socalidade precisam ser construídos. O ethos neoliberal de individualismo isolado e responsabilidade pessoal, ao invés de social tem de ser superado. Retomar as ruas em atos de protesto coletivo pode ser um começo. Mas é somente um começo e não pode ser um fim em si mesmo. Maximizar o buen vivir para todos na cidade ao invés do PIB, para o benefício de poucos é uma ótima ideia. Ela precisa ser fundamentada em práticas urbanas em toda parte.
f
Notas
1. Jamil Anderlini, “Property Sector Slowdown Adds to China Fears,” Financial Times, May 13, 2014
2. Keith Bradsher, “China’s Sizzling Real Estate Market Cools,” New York Times, May 13, 2014, B1.
3. Cihan Tugal, “Resistance Everywhere: The Gezi Revolt in Global Perspective,” New Perspectives on Turkey 49 (2013): 157–72.
4. Shaila Dewan, “In Many Cities Rent is Rising Out of Reach of Middle Class,” New York Times, April 14, 2014, A1.
5. Ver o capítulo 17 de meu livro Dezessete contradições e o fim do capitalismo (Boitempo, no prelo).
6. Republic of Ecuador National Planning Council, National Plan for Good Living: Building a Plurinational and Intercultural State (Quito: Senplades, 2010).
7. As tendências para uma maior desigualdade social foram recentemente documentadas de forma espetacular em Le capital ao xxi siécle, de Thomas Piketty.
8. Arzu Ozturkmen, “The  Park, the Penguin and the Gas: Experience and Performance in Progress of Gezi Events”, Mimeo (Bogazici University, Istanbul).
***
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David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna(Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes são O enigma do capitalPara entender O capital, livro I,Para entender O capital, livros II e III 17 contradições e o fim do capitalismo(Boitempo, no prelo).

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

The Globalization of War. America’s “Long War” against Humanity

Global Research, January 21, 2015

America’s hegemonic project in the post 9/11 era is the “Globalization of War” whereby the U.S.-NATO military machine –coupled with covert intelligence operations, economic sanctions and the thrust of “regime change”— is deployed in all major regions of the world. The threat of pre-emptive nuclear war is also used to black-mail countries into submission.
This “Long War against Humanity” is carried out at the height of the most serious economic crisis in modern history. It is intimately related to a process of global financial restructuring, which has resulted in the collapse of national economies and the impoverishment of large sectors of the World population.
The ultimate objective is World conquest under the cloak of “human rights” and “Western democracy”.
-

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The Globalization of War

America’s “Long War” against Humanity

Global Research Publishers, Montreal, 2015
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REVIEWS:
“Professor Michel Chossudovsky is the most realistic of all foreign policy commentators. He is a model of integrity in analysis, his book provides an honest appraisal of the extreme danger that U.S. hegemonic neoconservatism poses to life on earth.”
Dr. Paul Craig Roberts, former Assistant Secretary of the U.S. Treasury
““The Globalization of War” comprises war on two fronts: those countries that can either be “bought” or destabilized. In other cases, insurrection, riots and wars are used to solicit U.S. military intervention. Michel Chossudovsky’s book is a must read for anyone who prefers peace and hope to perpetual war, death, dislocation and despair.”
Hon. Paul Hellyer, former Canadian Minister of National Defence
“Michel Chossudovsky describes globalization as a hegemonic weapon that empowers the financial elites and enslaves 99 percent of the world’s population.
“The Globalization of War” is diplomatic dynamite – and the fuse is burning rapidly.”
Michael Carmichael, President, the Planetary Movement

The Globalization of War: America’s “Long War” against Humanity

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Documentos

Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
_____________________________________________
Publicado em: http://www.insurgente.org/index.php/2012-04-11-10-03-53/mundo/item/14938-china-unsocio-para-no-imitar
Tradução do castelhano de RG
Colocado em linha em: 2015/01/19

China, um parceiro a não imitar1

Claudio Katz*/Argenpress

A China tem passado por sucessivos períodos de transformação anticapitalista,
adaptação comercial e formação de uma classe dominante. A dinâmica da
acumulação, da desigualdade e do trabalho precário ilustra uma avançada etapa de
restauração capitalista. Mas esta regressão não é definitiva pelos desequilíbrios que
gera e pelas resistências sociais que enfrenta. Este factor introduz uma diferença
comparativamente ao que se passou na antiga URSS.
O entrelaçamento com capitais estrangeiros e a estratégia de livre comércio impedem
que a China forje um bloco cooperativo internacional. Mas a América Latina precisa
do contrapeso dessa potência como parceiro comercial e aliado geopolítico contra a
hegemonia dos Estados Unidos. Cuba introduz um importante antecedente de
estratégias revolucionárias autónomas.
As reformas económicas são discutidas em Cuba à luz da gigantesca transformação
registada na China. A nova potência asiática não é apenas um parceiro comercial de
primeira ordem. Devido à sua importância económica e relevância internacional
tornou-se um importante aliado geopolítico para contrabalançar as agressões norteamericanas.
Mas, numa análise de esquerda, interessa questionar a China por uma
questão adicional: mantém o seu modelo atual matrizes socialistas?2
Duas diferentes etapas
A China ocupa hoje um lugar tão significativo como o alcançado pela URSS no
passado. Não é somente uma economia em crescimento. A sua expansão introduziu
nas últimas décadas mudanças significativas na ordem internacional.
O país já faz parte das economias centrais após multiplicar por 13 vezes o seu PIB
(1978-2010). Conseguiu prosperar no meio de três grandes convulsões

1
 Publica-se este artigo por considerarmos que fornece importantes elementos de reflexão sobre a
evolução do processo chinês, mas não acompanhamos na íntegra as teses do seu autor,
nomeadamente a expressa no final do texto. – [NE]
2 Este texto continua a análise abordada em: Katz (2014).
contemporâneas. Não foi afetado pelas décadas perdidas que arrasaram os países
subdesenvolvidos nos anos 80-90, manteve-se à margem do colapso sofrido pelo
bloco soviético e agiu como um salvador de bancos internacionais na recente crise de
2008 (Lo, Zhang, 2011).

O seu crescimento não começou do zero, uma vez que já tinha nos anos 80 um PIB
superior a muitos dos países emergentes actuais. Mas, posteriormente, atingiu um
patamar histórico que aproxima, equipara ou situa a China acima de várias potências.
É evidente a importância do acervo acumulado durante as prévias transformações
anticapitalistas. Sem a industrialização, a alfabetização, a superação da fome, a
modernização produtiva e a acumulação extensiva tinha sido impossível a expansão
extraordinária posterior. Basta comparar estas mutações com o subdesenvolvimento
continuado que, por exemplo, afectou a Índia (Amin, 2012).
Mas a incógnita reside no que aconteceu depois. Esta nova trajetória reforçou ou
abandonou o projeto socialista? A tese oficial enfatiza a continuidade. O Partido
Comunista continua a dirigir os destinos do país e os seus líderes declaram
oficialmente a preeminência de um modelo de “socialismo de mercado”, compatível
com os princípios do marxismo. Esta visão destaca a presença de elementos póscapitalistas,
juntamente com as regras de acumulação e lucro vigentes na economia.
A abordagem oficial ressalta que os princípios socialistas introduzidos nos anos 50-
70 foram posteriormente ajustados às necessidades de modernização. Considera que
essa evolução se adapta à tradição milenar de uma civilização que tem seguido
caminhos de desenvolvimento muito diferentes dos do padrão ocidental.

O diagnóstico oposto sublinha a vigência de um processo de restauração capitalista,
assente na exploração do trabalho, na polarização social e na corrupção das elites
(Hart-Landeberg, 2011). Outras abordagens intermédias caracterizam o processo
atual como uma etapa de acumulação primitiva transitória, o que pode levar à
estabilização capitalista ou à renovação do socialismo (Yi, 2009). Quem tem razão?
Para clarificar este complexo problema importa reconhecer a existência das duas
diferentes situações. Entre 1978 e 1992 reintroduziu-se de forma limitada o mercado
dentro de um sistema de propriedade pública. Procurava-se com isto fomentar o
desenvolvimento agrícola, a expansão do consumo e a gravitação da pequena
empresa, num quadro de preços parcialmente livres.
Nessa fase, registou-se um crescimento equilibrado impulsionado pelo mercado
interno e a flexibilização dos preços agrícolas. Esta mudança aumentou o poder de
compra no setor rural e originou uma descompressão no setor urbano. A taxa de
crescimento subiu rapidamente e o investimento foi incentivado mediante uma
rigorosa seleção estatal dos setores prioritários.
Este modelo incluía alguma diferenciação social e zonas francas para as
multinacionais, mas mantinha restrições compatíveis com uma construção socialista.
Porém, no início dos anos 90 foi implementada uma orientação diferente.
Começaram as privatizações em grande escala, a generalização dos padrões de gestão
capitalista e a formação de uma classe de grandes empresários com representantes
diretos nos organismos dirigentes.

Este novo regime começou com investimentos destinados ao mercado interno e
fortaleceu-se privilegiando as exportações. Na última década e num cenário de
crescente desigualdade e insegurança no emprego, a apropriação privada das grandes
empresas cresceu.
A principal transformação social gerada por essa reconversão foi o surgimento de
uma classe capitalista local, associada às empresas multinacionais e promotora de
uma ideologia neoliberal. A gravitação deste setor nas altas esferas do regime político
verifica-se no pragmatismo desta condução. A tradição maoísta da revolução cultural
é rejeitada e os empresários são bem-vindos no partido. O pensamento de Marx e
Confúcio são combinados, consoante as necessidades políticas do momento (Xie,
2009).
Nesta segunda etapa, várias características clássicas do capitalismo foram
incorporadas na economia chinesa. Há competição, lucro, exploração e acumulação.
A desigualdade aumenta a um ritmo mais rápido do que no resto da região e os níveis
de exploração ultrapassam os da Coreia, Taiwan ou Singapura.
O alcance da restauração
Os teóricos do “socialismo de mercado” reivindicam a acelerada industrialização e o
desenvolvimento tecnológico autónomo, o que permitiu à China ter, em primeiro
lugar, os resguardos defensivos necessários para enfrentar a pressão imperialista. O
país construiu primeiro uma bomba atómica (1964), depois outra de hidrogênio
(1970) e, finalmente, colocou um satélite no espaço (1970). Sobre estes pilares
negociou a abertura ao Ocidente, a partir da icónica viagem de Nixon (1972).
Também consideram que esse período de economia planificada se esgotou e foi
secundado por mecanismos de gestão mercantil que revitalizaram o socialismo,
dando azo ao grande desenvolvimento das últimas décadas (Yang, 2009).

Mas este argumento confunde a extensão da gestão mercantil com a introdução de
normas capitalistas. Desde os anos 90, não só se flexibilizou a mexida nos preços,
mas também se afirmou a nova propriedade dos capitalistas sobre um setor
importante da economia. Esta mudança de propriedade das empresas estratégicas é
incompatível com qualquer perspetiva do socialismo.
Uma transição rumo à sociedade igualitária pode incluir formas de gestão
centralizadas ou descentralizadas, com formatos mais ou menos flexíveis de
planificação. Contudo, a manutenção de classes proprietárias e de classes despojadas
dos meios de produção só augura a vigência do capitalismo.
Os teóricos das misturas entre os dois sistemas afirmam que esta combinação é, de
facto, consumada através de mudanças paralelas no capitalismo mundial, que teria
incorporado formas do estado de bem-estar e valores de igualdade (Yang, 2009)
Porém, omitem que a tendência contemporânea predominante deste sistema tem
sido diametralmente oposta. O neoliberalismo, nas últimas décadas, tem enterrado as
conquistas sociais do pós-guerra, garantindo, assim, os lucros dos grandes bancos e
empresas. Em vez de uma adaptação do capitalismo ao ímpeto socialista da China,
ocorre um processo inverso: aumenta a gravitação dos padrões de rentabilidade e de
exploração na economia asiática.
Esta incidência é inegável, mesmo para os defensores do processo em curso.
Reconhecem a magnitude das diferenças de salário e esperam que seja a própria
dinâmica do mercado a nivelar essas desigualdades (Yang, 2009).
Mas nunca explicam como é que esse mecanismo lograria corrigir o defeito que
inseriu. A sua expetativa é inconsistente e desconhece que as brechas sociais têm
origem na existência de uma nova classe capitalista interessada em manter essas
diferenças.

Outras abordagens do mesmo tipo aceitam a existência de segmentos patronais mas
relativizam a sua influência. Apresentam a incorporação de empresários no Partido
Comunista como um sinal de patriotismo dos ricos e uma demonstração de
maturidade do serviço público (Ding, 2009).
Mas, de facto, os novos capitalistas consolidam a sua posição social ao ganhar
influência nas cúpulas do sistema político. Seja qual for o grau de veracidade das suas
intenções patrióticas, reforçam uma fratura de classes, o que contraria os enunciados
básicos do socialismo. Pode-se discutir qual o grau de intercâmbio mercantil que
deve prevalecer numa sociedade pós-capitalista avançada, mas seria insólito imaginar
que esse estádio incluísse a exploração, a mais-valia e altos níveis de desigualdade
social.

Essas incongruências foram destacadas por muitos críticos do atual rumo, que
apresentam contundentes indícios da rota da restauração. As mudanças no sistema
de fixação de preços planificados são disso um exemplo. O declínio nesses números
em benefício de cotações comerciais foi monumental.
O primeiro tipo de preços diminuiu de 97,8% (1978) para 2,6% (2003) para a
categoria de retalho e de 100% (1978) para 10% (2003), no sector industrial. Outra
evidência da mesma tendência verifica-se ao nível da perda da propriedade estatal na
indústria, que decresceu de 100% (1978) para 41,9% (2003). O Estado só mantém a
supremacia em cinco setores e perdeu peso nas 23 atividades mais dinâmicas (HartLandeberg,
2011).
Esta evolução pró-capitalista é confirmada com a erosão do tecido social gerada pelo
avanço da precarização e do declínio do emprego tradicional. Dos 30 milhões de
operários que foram demitidos entre 1998 e 2004, 21,8 milhões passaram a auferir o
salário mínimo.
Em muitas empresas praticam-se, aliás, horários de trabalho de 11 horas, durante
mais de 26 dias por mês. A superexploração afeta duramente 200 milhões de
trabalhadores rurais que migraram para as cidades nos últimos 25 anos, sem alcançar
autorização de residência (Hart-Landeberg, 2011).
A China colocou-se no topo dos índices de desigualdade medidos pelo coeficiente de
Gini. Na região – só é superada pelo Nepal e, logo após, os Estados Unidos – alberga
o maior número de bilionários do mundo. Por esta razão florescem os negócios de
luxo e os “Yacht clubs”. Toda a geração de afilhados da velha liderança comunista
gere as grandes empresas. É aí que a nova elite está concentrada. Basta notar que um
terço das 800 pessoas mais ricas do país são membros da PCC [Partido Comunista da
China – NT].
Estes dados económicos, sociais e políticos não deixam margem para dúvidas sobre a
tendência para a restauração do capitalismo que orienta a China. Os neoliberais
congratulam-se com esta mudança e os heterodoxos limitam-se a apresentá-lo
apenas como um momento necessário à acumulação.
Mas muitos teóricos do marxismo enfrentam este cenário com perplexidade. Alguns
recorrem a malabarismos para apresentar os dados da China como sinais de
modernização do socialismo. Além do desgastado argumento de sublinhar as
singularidades do país (“socialismo com características chinesas”), não conseguem
demonstrar como se conjuga esse sistema com a crescente hegemonia dos ricos.
A linguagem diplomática, as abstrações e a substituição do termo capitalismo por
mercado, não são suficientes para disfarçar uma rota evidente. O grau de
consolidação alcançado pela restauração capitalista é discutível, mas não a primazia
desta tendência (Weil, 2009).

As novas resistências
Ao caracterizar a existência de dois períodos distintos – introdução do mercado numa
economia planificada (1978-1992) e mudança pró-capitalista (1992-2014) – pode
entender-se a natureza da transformação em curso. A passagem do primeiro modelo
para o segundo marca uma rutura qualitativa, que bloqueou (ou enterrou) qualquer
transição socialista.
Esta mudança não implicou apenas uma outra política económica (de primazia do
consumo para o investimento) ou do entrelaçamento do setor financeiro com o
produtivo. Também não se resume a uma passagem das comunas rurais a unidades
agro-industriais ou à constituição de zonas francas no litoral para produzir bens
exportáveis através de investimento estrangeiro.
A modificação fulcral entre os dois períodos foi uma mudança nas regras de
propriedade, o que facilitou a conversão de funcionários de elite em donos de grandes
empresas. Esta mudança foi acompanhada pela concessão de mais poderes aos
gestores para reorganizar as unidades de produção. Embora o elevado crescimento
económico tenha reduzido a pobreza, o esquema de profunda desigualdade em vigor
impede as famílias operárias de suportar os gastos correntes de saúde e educação (Li,
Piovani, 2011).

A segunda fase económica da China foi marcada por um crescimento económico
explosivo e acompanhada por agudas manifestações de corrupção. Por esse meio, a
nova classe privilegiada apropria-se de uma fatia leonina do desenvolvimento atual.
Esses grupos da alta burocracia fizeram por tolerar – durante o longo período que
sucedeu à revolução – a supremacia de grandes conquistas populares, que obstruíam
o seu enriquecimento. Quando alcançaram poder bastante para arrebatar essas
conquistas, começou o assalto ao seu novo status capitalista. Atualmente detêm o seu
poder na gestão do Estado e contam com apoio social de uma uma classe média que
ascendeu socialmente, sonhando alcançar o modo de vida norte-americano (Li,
2009).
Entre os autores que destacam este nítido curso pró-capitalista muitos deixam em
aberto uma definição da maturidade desta regressão. Ter-se-á inteiramente
consumado a restauração, como aconteceu na Rússia ou nos países da Europa
Oriental?
O carácter irreversível desta mutação é posto em causa por aqueles que questionam a
solidez da nova classe capitalista. Alegam que o Estado mantém um grande poder de
intervenção e uma consequente capacidade para introduzir mudanças nas tendências
(Lin, 2009; Lo, Zhang, 2011).

Outros enfatizam a persistência do legado socialista na vida cotidiana e a
sensibilidade (ou medo) das autoridades perante qualquer expressão de
descontentamento popular. Apontam que a reacção destas elites é muito diferente do
comportamento das classes opressoras no Ocidente, que acumulam séculos de
experiência no exercício da sua dominação (Wang, 2009).
Finalmente, as novas resistências populares que brotaram nos últimos anos são vistas
como mais um sintoma de grandes reservas de oposição ao curso capitalista,
subjacentes à sociedade chinesa (Li, Li Xie, 2012).
Esta variedade de argumentos ilustra o quão complexo é definir o grau de
concretização da restauração capitalista. Este processo não envolve somente
transformações objetivas à escala da propriedade privada vigente, mas também
mudanças drásticas ao nível de aceitação subjetiva do capitalismo. A restauração
implica um processo dual de consolidação de ambos os componentes.
Na caracterização que fazemos destes processos estabelecemos cinco critérios para
medir esta restauração, destacando três aspetos económicos (preços livres,
planificação reduzida, crise por acumulação), um pilar político (modalidade
institucional) e um elemento social-subjetivo de resistência e defesa do ideal
socialista (Katz, 2006: 72-76).

No plano económico, as regras do capitalismo estão muito avançadas na China, tanto
na forma que assume o ciclo e a gestão macroeconómica, como na gestão das
empresas. Este facto é reconhecido pelos próprios defensores do modelo actual, que
descrevem o comportamento de uma classe capitalista com influência preponderante
sobre todas as instituições e meios de comunicação. Mas as elites mais neoliberais
não dominam o aparelho do Estado na sua totalidade e os grandes desequilíbrios
regionais, sociais e agrários, causados pela acumulação, põem em causa a
consistência do capitalismo nascente.
O culminar deste processo é incerto, uma vez que, ao contrário do que aconteceu na
URSS, a classe operária tem vindo a ganhar protagonismo. Ocorrem grandes greves
que impõem concessões aos governantes. O número de protestos cresceu de 58.000
(2003) para 87.000 (2005) e 94.000 (2006). Desde 2009, o aumento destas
resistências determinou uma mutação no comportamento dos líderes, que optaram
por substituir a reação repressiva inicial por negociações e concessões (Yu, 2012).
Esta mudança dá-se em simultâneo com a multiplicação de correntes críticas e
tomadas de posição anticapitalistas de tendências de esquerda, que exigem medidas
de renacionalização e reversão das privatizações. Exigem o restauro da educação e
saúde grátis e entram em choque com os que enriqueceram. (Zhu, Kotz, 2011).
Estas franjas militantes são mais influentes do que o se supõe no Ocidente.
Costumam combinar reivindicações básicas com reivindicações de mudanças nos
impostos e nos padrões de crescimento. Muitos mesclam a defesa do igualitarismo
com propostas de democratização política. Todas as referências a um “modelo chinês
de socialismo” deveriam ser identificadas com estas vertentes de resistência das bases
à restauração (Choi, 2009).

A política internacional
Alguns analistas registam linhas de continuidade da China com o seu passado antiimperialista.
Consideram que o país resgata os princípios de soberania e de
cooperação impulsionados durante a emblemática reunião de 1955 com o Egito
(Nasser) e com a Índia (Nehru) (Revista Bandung, 2011).
Mas é muito difícil corroborar algum resquício desses projetos. A China encetou um
caminho radicalmente oposto, de expansão dos investimentos no estrangeiro e de
fortalecimento dos tratados de livre-comércio.
Outros autores estimam que o país está a construir as bases do novo modelo global,
que substituirá a hegemonia dos Estados Unidos em declínio. Supõem que edificará
um esquema de cooperação favorável à maioria dos países periféricos. Este ponto de
vista foi difundido por Arrighi, ao contrapor o belicismo ianque em declínio, com um
ascendente “Consenso de Pequim”, baseado no pacifismo da potência asiática
(Arrighi, 2007: cap 5-6).
Esta mesma abordagem é apresentada por aqueles que assumem que este país vai
orientar a economia mundial em direcção ao igualitarismo, encabeçando o novo
bloco contrahegemónico dos BRICS.
Contudo, não é sensato conceber um futuro pós-capitalista sob a direção de uma
potência que emerge em termos capitalistas e com tanto de rivalidade como de
associação com os Estados Unidos. Os próprios dirigentes chineses enfatizam este
perfil em todas as iniciativas à escala global nas quais participam. Têm por hábito
ostentar uma ideologia mais próxima da idolatria mercantil-liberal do que exibirem
qualquer vestígio de mensagens socialistas.
A significativa associação das elites chinesas aos principais bancos e empresas do
Ocidente contradiz a almejada formação de um bloco de economia cooperativa global.
Esse entrelaçamento com o capital estrangeiro verifica-se, dentro da China, na
incidência desse setor nas vendas industriais. Também se expressa na fanática
adoção de princípios do livre-comércio logo após a adesão à OMC. O país sobe ao
palco mundial como um parceiro das grandes corporações e é um natural guardião do
status quo em vigor.
Este importante vínculo com a produção e com o comércio e a finança globalizados
impede que a nova potência cumpra um papel progressista. Tornou-se num dos
pilares da globalização neoliberal e não pode atuar simultaneamente como gestor de
modelos pós-capitalistas.
As próprias tendências geradas pela crise de 2008 desmentem essa possibilidade. Se
a China decide reforçar a sua posição no cenário mundial – transformando em
propriedades os seus enormes créditos em dólares – consolidará a sua parceria com
grandes empresas capitalistas. Os ativos adquiridos ao seu rival seriam reciclados sob
o mesmo esquema da globalização neoliberal, afetando assim todos os perdedores da
reorganização capitalista3.
Mas não é necessário analisar estas hipóteses para verificar qual é o comportamento
predominante das elites chinesas no plano internacional. Os acordos com os
fornecedores de matérias-primas são regulados por rigorosos critérios de livrecomércio.

A associação dos capitalistas chineses com os seus homólogos ocidentais obstruiu,
aliás, a esperada dissociação internacional e a consequente mudança chinesa para o
crescimento interno. Os efeitos desta limitação pesam severamente sobre uma
economia que reduziu significativamente o seu ritmo de crescimento. Os laços
transnacionais interditam as margens de manobra autónoma da nova potência.
Na própria direcção chinesa, os partidários de estreitar relações com o Ocidente (elite
da Costa) colidem com os críticos dessa associação (elite do Interior). Todavia
nenhuma das duas promove as matrizes de rutura anti-imperialista necessárias para
dar azo a um modelo de cooperação internacional.
Neste âmbito verifica-se uma significativa diferença com a estratégia defendida pelos
líderes da antiga URSS. Também aqui todos os sectores da burocracia governante
tinham posto de lado qualquer perspetiva de estratégia socialista. Mas a coexistência
pacífica que mantinham com o imperialismo baseava-se num princípio de divisão
territorial (“áreas de influência”), que recriava os conflitos permanentes da Guerra
Fria. Os campos de ação económica estavam inteiramente separados e as ligações
comerciais, financeiras ou comerciais entre os dois contendores eram mínimas.

3 Esta possibilidade é analisada com outras conclusões por Dos Santos (2011). 
Durante as últimas décadas a burocracia chinesa seguiu um caminho diferente de
plena integração no mercado mundial. Por esta razão, o programa da Nova Ordem
Internacional (NOEI) – que a URSS impulsionava para associar o Segundo e Terceiro
Mundo – não tem continuidade na liderança chinesa.
Esta direção concebe todas as suas ações internacionais baseada no entrelaçamento
estabelecido com as empresas e bancos do Primeiro Mundo. Por isso desenvolve uma
política externa mais cautelosa que os soviéticos, de low profile, alto realismo e
convivência com a economia estado-unidense.
Alianças sem imitação
Na sua configuração actual a China pode ser vista como um parceiro dos processos
transformadores da América Latina, mas nunca como o modelo a seguir para a
construção do socialismo. O gigante asiático distanciou-se estruturalmente desse
objetivo.
Como a União Soviética no passado, a China é hoje muito importante para Cuba e a
América Latina. A região precisa de aliados para qualquer batalha contra o
imperialismo estado-unidense. O gigante do Norte continua a tratar as nações a sul
do Rio Grande como parte do seu quintal. Os EUA nunca abandonaram as suas
pretensões de anexação da América Central e de custodiar a América do Sul.
Enviaram marines, organizaram golpes de estado e projetaram todos os massacres
necessários para perpetuar sua dominação.
Os Estados Unidos responderam ao surgimento de projetos socialistas no hemisfério
com sabotagens, invasões e conspirações. Encabeçaram uma rigorosa monitorização
anticomunista e levaram a cabo ações de intervenção explícita contra o Chile e a
Nicarágua. As décadas de bloqueio que Cuba suporta ou as conspirações que a
Venezuela enfrenta atestam essa ingerência.
É totalmente falsa a crença de que os EUA se esqueceram da América Latina e que
renunciaram ao intervencionismo. Basta atentar no protagonismo ianque no golpe de
Estado nas Honduras, na implantação geral da IV Frota ou nas novas bases na
Colômbia para dissipar estas ilusões. Há mudanças na linguagem (do anticomunismo
ao antiterrorismo) e uma maior delegação de ações nos militares locais. Mas o
Pentágono persiste como a principal barreira para qualquer perspetiva não só de
socialismo, mas de independência efetiva.
O alívio observado nos últimos anos (declínio da OEA, aparecimento da CELAC, o
regresso de Cuba à diplomacia regional) é um resultado temporário do cenário criado
pelas rebeliões populares. Há governos mais autónomos, mas a obstrução imperial a
qualquer projeto de emancipação da América Latina não mudou.
Portanto, é essencial sustentar alianças internacionais que permitam proteger os
processos anti-imperialistas na região do esmagador poderio do Pentágono. Pelo seu
peso geopolítico à escala global, a China pode atuar como um contrapeso a essa
ameaça. 
A trajectória seguida por Cuba desde os anos 60 constitui um interessante
antecedente de como implementar uma política externa revolucionária, sem
subordinação aos mandatos dos grandes jogadores mundiais. Che colocou em prática
uma estratégia de expansão internacional do socialismo, em oposição ao status quo
permanente com o imperialismo que os líderes da antiga União Soviética praticavam.
No seu discurso na Argélia foi particularmente crítico em relação à escassa
solidariedade destes dirigentes para com os levantamentos no Terceiro Mundo.
Guevara exortou a que se forjassem “um, dois, três, muitos Vietnames”, em oposição
à passividade do Kremlin. Impulsionava estes levantamentos contra a utopia de
restringir a construção do socialismo a um único país ou região. No Congo deu o
corpo e na Bolívia deu a sua vida por estes ideais (Katz, 2008; Sánchez Vázquez,
2007).
Além do resultado dessas acções, a experiência cubana ilustrou como a aliança com
uma potência para contrabalançar o peso do imperialismo não implica uma
submissão ou imitação do parceiro. Esse modelo fornece um importante ponto de
partida para conceber as relações da China com os processos radicais atuais e futuros
da América Latina.
* Claudio Katz é economista, investigador do CONICET4, professor da UBA5,
membro do EDI6.
Referências:
- Amin, Samir, (2012), “El mundo visto desde el Sur”, ALAI, 30-3.
- Arrighi Giovanni, (2007), Adam Smith en Pekín, Akal, Madrid.
- Choi, Wai Kit, (2009), “Toward a Communist immnent critique”, Science and Society, vol 73, April.
- Ding, Xiaoqin, (2009), “The socialist market world economy, china and the world”, Science and
Society, vol 73, April.
- Dos Santos, Theotonio, (2011), “Algunos comentarios a la entrevista de Wallerstein”, ALAI, 18/8.
- Hart-Landeberg Martin, (2011), “The Chinese Reform experience: A critical assessment”, Review of
Radical Political Economics, vol 43, n 1.
- Katz Claudio (2014), “La epopeya de Cuba”, www.lahaine.org/katz.
- Katz Claudio, (2008), “El legado del Che”, 2008, www.lahaine.org/katz.
- Katz, Claudio, (2006), El porvenir del socialismo, Edición venezolana: Monte Ávila, Caracas, 2006
- Li, An; Li, Zhongjin; Xie, Fuaheng, (2012), “Guojinmintui: China new public-private debate”, Science
and Society, vol 76, n 3, july.
- Li, Minqi, (2009), “A harmony of capitalism and socialism?, Science and Society, vol 73, April.
- Li, Minqui; Piovani, Chiara, (2011), “One hundred millón jobs for the chinese workers”, Review of
Radical Political Economics, vol 43, n 1.
- Lin, Chun, (2009), “The socialist market economy, Step forward or backward”, Science and Society,
vol 73, April.
- Lo, Dic; Zhang, Yu, (2011), “Making sense of China´s economic transformation”, Review of Radical
Political Economics, vol 43, n 1.
- Revista Bandung, (2011), Vol 1, setembro 2011, Cedebras, Belo Horizonte.

4 CONICET – Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas: é o principal organismo
dedicado à promoção da ciência e da tecnologia na Argentina. – [NT]
5 UBA – Universidade Bicentenária de Aragua, na Venzuela. – [NT]
6 EDI – Intercâmbio Eletrónico de Dados. [NT] 

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

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