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terça-feira, 2 de junho de 2015

Como combater a propaganda ocidental
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por Andre Vltchek
Primeiro eles fabricam mentiras monstruosas, depois dizem-nos que deveríamos ser objetivos!
Será o amor objetivo; será a paixão?
Serão os sonhos defensáveis logicamente e filosoficamente?
Quando uma casa é atacada por bandidos, quando uma aldeia é invadida por gangsters, quando fumo, fogo e gritos por ajuda estão a vir de cada esquina, deveríamos nós conceder-nos o luxo do tempo para calcular, analisar e definir objetivos com soluções completas, lógicas, holísticas e objetivas?
Acredito firmemente que não! Somos obrigados a combater aqueles que estão a incendiar nossos lares, atingir com toda a força aqueles que tentam violar nossas mulheres e enfrentar o fogo com o fogo quando seres inocentes estão a ser massacrados.
Quando a mais poderosa e mais destrutiva força sobre a terra emprega todo o seu poder persuasivo, utilizando tudo desde os media de referência a instrumentos educativos, a fim de justificar seus crimes, quando ela espalha sua propaganda venenosa e mentirosa a fim de oprimir o mundo e suprimir a esperança, devemos nós voltar atrás e começar um infindável e pormenorizado trabalho sobre narrativas precisas e objetivas? Ou devemos confrontar mentiras e propaganda com a nossa própria narrativa, apoiada pela nossa intuição, paixão e sonhos por um mundo melhor?
O Império mente continuamente. Mente pela manhã, durante o dia, à tarde, mesmo à noite, quando a maior parte das pessoas ressonam adormecidas. Ele fez isso durante décadas e séculos. Para grandes fraudes o Império confia em incontáveis propagandistas que posam como académicos, professores, jornalistas e "intelectuais públicos". A perfeição na arte da desinformação foi alcançada. A publicidade ocidental (tão admirada e usada pelos nazis alemães) tem algumas raízes comuns com a propaganda, embora a propaganda seja muito mais antiga e "completa".
Parece que agora mesmo alguns líderes da Europa acreditam na maior parte das suas falsificações – e a maior parte dos cidadãos certamente também. Do contrário, como poderiam dormir à noite?
Este aparelho de propaganda ocidental é enormemente eficiente e eficaz. É também brilhante para assegurar que suas invenções sejam canalizadas, distribuídas e aceites em todos os cantos do mundo. O sistema através do qual a desinformação se espalha é incrivelmente complexo. Os media locais e as academias servis em todos os continentes trabalham arduamente para garantir que apenas uma narrativa seja permitida penetrar nos cérebros de milhares de milhões de pessoas.
Os resultados são:  covardia intelectual e ignorância, por todo o mundo, mas especialmente no ocidente e nos seus estados clientes.
O que nós, os que nos opomos ao regime, devemos fazer?
Em primeiro lugar, as coisas não estão tão desesperadoras como antes.
Isto já não é o mórbido mundo unipolar que experimentámos no princípio da década de 90. Agora a Venezuela, Rússia, China e Irão apoiam grandes redes de media que se opõem ao Império. Emergiram estações televisão poderosas:  RT, Press TV, TeleSur e CCTV. Grandes revistas e sítios em inglês baseados na Internet nos EUA, Canadá e Rússia também estão a revelar as mentiras dos propagandistas oficiais do Ocidente:   Dissident Voice, Information Clearing House, Global Research, Veterans News, Strategic Culture, New Eastern Outlook vêm rapidamente à mente. E há centenas de importantes sítios a fazerem o mesmo em castelhano, chinês, russo e francês.
O combate está em andamento:  o combate por um mundo intelectualmente multi-polar. É um combate duro, mortal! É uma batalha crucial, simplesmente por causa das metástases que o cancro da propaganda ocidental espalhou por toda a parte, contaminando todos os continentes e mesmo alguns dos países e cérebros mais corajosos que combatem seriamente o imperialismo e fascismo ocidental! Ninguém está imune. Para ser franco, todos nós estamos contaminados.
A menos que ganhemos esta batalha, primeiro identificando claramente e demonstrando que a "sua narrativa" é fraudulenta e depois apresentando percepções humanistas e compassivas, não podemos sequer sonhar acerca da revolução, ou acerca de quaisquer mudanças significativas na organização do mundo.
Como alcançar a vitória? Como convencer as massas, aqueles milhares de milhões de pessoas? Como abrir seus olhos e fazê-las ver que o regime ocidental é desonesto, tóxico, venenoso e destrutivo? A maior parte da humanidade está enganchada na propaganda do Império. Esta propaganda é espalhada não só através dos media de referência como também pela pop music, novelas, media sociais, publicidade, consumismo, "tendências da moda" e por muitos outros meios encobertos, culturais, religiosos e os media lixo que levam aos estupor emocional e intelectual e são administrados como narcóticos altamente viciantes, de modo regular e persistente.
Será que contra-atacaremos as tácticas e estratégia do Império destrutivo e implacável com a nossa honestidade, com investigação, contando e escrevendo meticulosamente factos investigados?
O Império perverte os factos. Ele repete mentiras nos seus alto-falantes e TVs. Ele grita-lhes milhares e milhares de vezes, até que afundem no subconsciente das pessoas, penetre a pele, espalhem-se através dos seus cérebros.
Boa vontade, honestidade ingénua, "falar a verdade ao poder", poderia isto mudar o mundo e o próprio poder? Duvido muito.
O Império e seu poder são ilegítimos e criminosos. Haverá qualquer sentido em falar a verdade a um gangster? Dificilmente! A verdade deveria ser falada ao povo, às massas, não àqueles que estão a aterrorizar o mundo.
Ao conversar com vilões, ao implorar-lhe que parem de torturar os outros, estamos a legitimar seus crimes e a reconhecer seu poder. Ao tentar apaziguar gangsters, as pessoas colocam-se a si próprias à sua mercê.
Recuso absolutamente ficar em tal posição!
Para persuadir milhares de milhões de pessoas temos de inspirá-las, estimulá-las. Temos de ultrajá-las, abraçá-las, envergonhá-las, fazê-las rir e fazê-las chorar. Temos de assegurar que tenham arrepios quando vêm nossos filmes, lêem nossos livros e ensaios, ouvem nossos discursos.
Temos de desintoxicá-las, fazê-las sentir outra vez, reativar os instintos naturais dentro delas.
A simples verdade não funcionará como agente desintoxicante. O veneno dos nossos adversários penetrou demasiado profundamente. A maior parte das pessoas está demasiado letárgica e demasiado imune para verdades simples declaradas tranquilamente!
Já tentámos e outros também o fizeram. Meu conhecido (mas definitivamente não meu camarada) John Perkins, antigo quadro estado-unidense educado pelo Departamento de Estado, escreveu um relato pormenorizado dos seus horrendos feitos no Equador, na Indonésia e alhures – Confession of An Economic Hitman .  É um relato meticuloso, pormenorizado de como o Ocidente desestabilizou países pobres, utilizando corrupção, dinheiro, álcool e sexo. O livro vendeu milhões de exemplares, por todo o mundo. E ainda assim, nada mudou! Ele não disparou uma revolução popular nos Estados Unidos. Não houve protestos, nem exigências de mudança de regime em Washington.
No passado recente, escrevi e publiquei dois livros académicos, ou pelo menos semi-academicos, repleto de grandes minúcias, citações e toneladas de notas de rodapé:  um sobre a Indonésia, um país utilizado pelo Ocidente como cenário de horror modelo para o resto do mundo, após o golpe militar de 1965 patrocinado pelos EUA. O golpe matou 2 a 3 milhões de pessoas, assassinou todo o intelectualismo e lobotomizou o 4º mais populoso país da terra. O livro chama-se Indonesia – Archipelago of Fear . O segundo livro, único porque cobre uma enorme parte do mundo – Polinésia, Melanésia e Micronésia ( Oceania – Neocolonialism, Nukes and Bones ), mostrou como os EUA, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e França, literalmente dividiram e destruíram as grandes culturas insulares e povos do Pacífico Sul. Agora há cursos que utilizam meus livros, mas só um número muito limitado de pessoas é influenciado pelos factos neles expostos. As elites tanto na Indonésia como na Oceânia fazem com que os livros não sejam lidos por amplas camadas do povo.
Passei anos e anos a compilar factos, a pesquisar, a investigar. A eficácia revolucionária do meu trabalho académico é – tenho de admitir – aproximadamente zero.
É fácil ver o contraste:  quando escrevo um ensaio, um ensaio poderoso e emocional, pedindo justiça, acusando o Império de assassínio e roubo, obtenho milhões de leitores em todos os continentes, bem como traduções em dúzias de línguas!
Por que escrevo isto; por que partilho isto com meus leitores? Porque deveríamos todos ser realistas. Temos de ver, entender, o que o povo quer – o que ele pede. Os povos estão infelizes e assustados. A maior parte deles não sabe porque. Eles odeiam o sistema, estão abandonados, frustrados, sabem que são sujeitos à mentira e explorados. Mas não podem definir essas mentiras. Livros académicos revelando as mentiras são demasiado complexos para que leiam uma vez que as massas não têm tempo de ler milhares de páginas indigestas ou a educação necessária que lhes permita entender o que estão a ler.
É nosso dever dirigirmo-nos a esse povo, à maioria, do contrário que espécie de revolucionários somos nós? Afinal de contas, devemos criar para nossos irmãos e irmãs, não para uns poucos investigadores nas universidades, especialmente quando percebemos que a maior parte das universidades está a servir o Império ao regurgitar a nomenclatura oficial e apoiar demagogos.
O Império fala, escreve e repete algumas mentiras ultrajantes, acerca da sua benevolência e da excepcionalidade do seu domínio, ou acerca dos "maus" da União Soviética, China, Irão, Venezuela, Coreia do Norte ou Cuba. Isto é feito diariamente. De facto é concebido de modo a que quase todo ser humano obtenha a sua dose de toxina pelo menos várias vezes por dia.
Sentimos que temos de reagir – começamos a gastar anos das nossas vidas a provar meticulosamente, passo a passo, que a propaganda do Império é ou uma grossa mentira, ou um exagero, ou ambos. Depois de alinharmos nossos argumentos, publicamos os resultados em alguma pequena editora, mais provavelmente na forma de um livro magro, mas quase ninguém lê devido à sua pequeníssima circulação e porque as descobertas são geralmente demasiado complexas, demasiado difíceis de digerir e simplesmente porque os factos já não chocam ninguém. Um milhão mais de pessoas inocentes foram assassinadas em algum lugar na África, no Médio Oriente, na Ásia, qual a novidade?
Ao investigar e tentar contar a verdade, plenamente e honestamente, sentimos que estamos a fazer grande trabalho científico e profissional. Enquanto isso os propagandistas do Império estão a morrer de rir a observar-nos! Nós representamos pouco perigo para eles. Eles estão a vencer facilmente!
Por que é assim? A verdade minuciosa já não importa?
Ela importa – do ponto de vista de princípios mais elevados ela importa. Eticamente ela importa. Moralmente ela importa. Filosoficamente ela importa.
Mas estrategicamente, quando alguém está empenhado numa guerra ideológica, ela não importa muito! A verdade sim, sempre; a verdade importa! Mas simplificada, a verdade digerível, apresentada energicamente e emocionalmente!
Quando a imoralidade está a devastar o mundo, quando ela está a agredir impiedosamente, quando milhões de inocentes estão a morrer, o que importa é travar a carnificina, primeiro identificando as forças assassinas, a seguir contendo-as.
A linguagem tem de ser forte, emoções primárias.
Quando enfrentando hordas assassinas, canções emocionalmente carregadas e odes patrióticas sempre foram mais eficazes do que profundos estudos académicos. E assim foram romances e filmes políticos, documentários apaixonadas, mesmos cartoons e posters explícitos.
Alguns perguntarão:  "Só porque eles mentem, deveríamos nós mentir também?" Não! Deveríamos tentar ser tão verdadeiros quanto podemos. Mas a nossa mensagem deveria muitas vezes ser "abreviada", de modo a que milhares de milhões, não apenas aqueles poucos selectos, possam entendê-la.
Isso não significa que a qualidade do nosso trabalho deveria sofrer. A simplicidade é muitas vezes mais difícil de alcançar do que trabalhos enciclopédicos com milhares de notas de rodapé.
A Arte da Guerra , de Sun Tzu, é curto, apenas um panfleto, directo ao assunto. E assim é o Manifesto Comunista e o J'accuse!
Nosso trabalho revolucionário não tem necessariamente de ser breve, mas tem de ser apresentado de um modo que possa ser entendido por muitos. Estou constantemente a experimentar com a forma, se bem que nunca comprometendo na substância. Meu recente livro, Exposing Lies of the Empire , tem mais de 800 páginas, mas tenho a certeza de que está recheado de estórias fascinantes, com testemunhos de pessoas de todos os cantos do globo, com descrições vivas tanto das vítimas como dos tiranos. Não quero que os meus livros acumulem pó em bibliotecas universitárias. Quero que mobilizem o povo.
Acredito realmente que não há muito tempo para a "objectividade" em qualquer batalha, incluindo a ideológica, especialmente quando estas batalhas são para a sobrevivência da humanidade!
As mentiras do inimigo têm de ser confrontadas. Elas são tóxicas, mentiras monstruosas!
Uma vez travada a destruição, milhões de homens, mulheres e crianças inocentes deixarão de serem sacrificados e podemos retornar aos nossos complexos conceitos filosóficos, para pormenores e nuances.
Mas antes de vencermos nossas batalhas finais contra o imperialismo, niilismo, fascismo, excepcionalismo, egoísmo e cobiça, temos de utilizar plena e eficazmente nossas armas mais poderosas:  nossas visões de um mundo melhor, nosso amor pela humanidade, nossa paixão pela justiça. Nossa determinação e nossas crenças têm de ser apresentadas de uma maneira audível, potente, mesmo "dogmática", nossa voz deveria ser criativa, artística, poderosa!
A casa está em chamas, camaradas! Toda a cidade está a transformar-se em cinzas. O planeta inteiro é pilhado, devastado, lobotomizado.
Não podemos confrontar fanáticos com ogivas e navios de guerra. Mas nossos talentos, nossas musas e nossos corações estão aqui, connosco, prontos para juntarem-se à batalha.
Deixem-nos sobrepujar nossos inimigos; deixem-nos assegurar que o mundo começa a rir-se deles! Viram aqueles patéticos perdedores, os bufões – os directores gerais? Ouviram aqueles primeiros-ministros e presidentes, aqueles servos do "mercado"? Deixem-nos convencer as massas que os seus tiranos – os imperialistas, o neocolonialistas e todos os seus pregadores dogmáticos – não são nada mais do que loucos lamentáveis, cobiçosos, venenosos! Deixem-nos desacreditá-los! Vamos ridicularizá-los.
Eles estão a roubar e assassinar milhões. Deixem-nos começar a pelo menos urinar sobre eles!
Deixem-nos combater a propaganda ocidental revelando primeiro aqueles que estão realmente por trás. Vamos ao pessoal.
Vamos transformar esta revolução em algo criativo, hilariante, realmente divertido!
Ver também:
As cinco dificuldades para escrever a verdade , Bertolt Brecht
[*] Romancista, realizador de filmes e jornalista investigador.  Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro mais recente é Exposing Lies of the Empire.  Também escreveu, com Noam Chomsky, On Western Terrorism:  From Hiroshima to Drone Warfare .  Seu romance revolucionário Point of No Return foi reeditado e está disponível. Oceania é o seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul.  Seu livro provocador acerca da Indonésia pós Suharto e o fundamentalismo de mercado chama-se Indonesia:  The Archipelago of Fear .  Realizou o documentário Rwanda Gambit (2013) acerca da história de Rwanda e a pilhagem da República Democrática do Congo.  Seu sítio web é andrevltchek.weebly.com
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

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