quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A revolução esquecida de 1383

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Neste dia, no ano de 1383, começava em Lisboa a primeira revolução burguesa do mundo. Revolução, pela mesma razão que ninguém ousaria chamar «interregno» à Revolução Francesa nem «crise» ao 25 de Abril. Burguesa, porque, ainda que pavorosa aos próprios netos, inaugurou definitivamente o poder dos «homens honrados pela fazenda». E, à semelhança da revolução francesa ou do 25 de Abril, a revolução portuguesa de 1383-1385 também foi condenada ao olvido e à mentira­­ – com a diferença, no entanto, de mais séculos de avanço.

Há 633 anos, a regente Leonor Teles, numa fuga desesperada para Alenquer, prometia esmagar a Revolução queimando Lisboa com «mau fogo», ará-la a carros de bois e encher tonéis com as línguas das mulheres revolucionárias. A redoma de silêncio que cobriu a Revolução quase faz crer que se cumpriu o vaticínio de Leonor. Porque se calaram as vozes de 1383? Quem mandou cortar as línguas dos sublevados de Lisboa?

Compreende-se o desconforto que a Revolução inspira na actual classe dominante: a geração de Soares dos Santos, Américo Amorim e Ricardo Salgado tem mais em comum com os senhores feudais parasitários que, em 1383 se passaram para o lado de Castela do que com a burguesia revolucionária de Álvaro Pais, Gil Fernandes e Álvaro Coitado, construtores conscientes do capitalismo embrionário a que Fernão Lopes chama a Sétima Idade do Mundo «na qual se levantou outro mundo novo e nova geração de gentes, porque filhos de homens de tão baixa condição».

Mas o ódio de morte que, ainda hoje, o capital tem à Revolução de 1383-1385 é mais profundo que a degradação histórica de uma burguesia avinagrada pelos séculos. O que mais assusta os novos senhores das novas glebas é esta inegável verdade histórica: a primeira revolução burguesa do mundo não foi feita pela burguesia, mas pelos trabalhadores. Sob a liderança de ricos mercadores e «homens de cabedal», quem derrubou a velha ordem foram os miseráveis cabaneiros e a «malta das vinhas» sem terra nem pão; foram os braceiros, cabreiros e ovelheiros enlouquecidos pela fome; foram os menestrais das cidades em luta contra os salários tabelados; foram os mancebos e pastores indignados com a Lei das Sesmarias. Foram, como escreve Fernão Lopes, os «ventres ao sol».

Mesmo passados seis séculos, os poderosos ainda engolem em seco ao recordar as imagens de Martinho, Bispo de Lisboa, a voar da torre da Sé e devorado pelos cães; do fidalgo Nuno Rodrigues de Vasconcelos, morto por mulheres lideradas por Margarida Anes, uma humilde adeleira; do senhor Pai Rodrigues, perseguido por fojos e brenhas por centenas de populares; do triste fim da Abadessa de Évora, nua no meio da praça, a suplicar pela vida aos antigos servos… De Norte a Sul, o povo respondia com formidável violência ao quotidiano das violências dos seus senhores: o trabalho até à inanição, as agulhas de albardeiro espetadas nas línguas dos que protestassem; os açoites no pelourinho por dá cá aquela palha; os infinitos serviços pessoais obrigatórios; a polé para os que fugiam à servidão.

De  quem for o reino levá-lo-á

Fernão Lopes escreveu que «Castela era contra Portugal e Portugal contra si mesmo», ou seja, estamos diante de uma revolução social que desencadeia uma intervenção militar externa. Contudo, muitos historiadores não quiseram nunca ver este «Portugal contra si mesmo», preferindo apresentar uma nação monolítica unida contra o inimigo castelhano. De acordo com esta a perspectiva idealista, na raiz da «crise sucessória» estão as circunstâncias da morte de D. Fernando. Já velho, sem descendência e tísico, o filho de D. Pedro, o Cru, é seduzido por uma mulher casada, de origem nobre, cujos «cabelos ruivos parecia que ardiam» e cuja beleza só era ultrapassada pela inteligência: D. Leonor Teles. Deste casamento, feito às escondidas em Leça da Palmeira enquanto a nova Rainha mandava matar quem protestava, nascerá uma única criança: Beatriz, logo prometida a D. Juan, rei de Castela, nos tratados de Salvaterra de Magos. Teria sido esta estúpida decisão que desencadeou a revolução. Nada mais equivocado

Álvaro Cunhal, porventura o primeiro a compreender a Revolução de 1383, é taxativo: «Os historiadores burgueses têm apresentado sempre o casamento da filha única de D. Fernando com o rei de Castela, em 1383, como «erro» de um rei inconstante e imprevidente. A verdade é ter sido tal casamento uma manobra política da nobreza, manobra maduramente reflectida e de efeitos cuidadosamente previstos e desejados. (…) Sentindo o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, incapaz de suster com os seus recursos próprios o movimento revolucionário ascendente, a nobreza procura deliberadamente a entrada em acção contra a revolução ascendente, do aparelho militar da aristocracia territorial de além fronteiras. Nessa sua política, a nobreza de então seguiu o caminho que sempre têm seguido as classes dominantes quando sentem em perigo a sua existência. Ante a ameaça de serem desapossadas dos seus privilégios as classes parasitárias preferiram sempre a uma vitória das forças nacionais progressivas, a dominação do seu país por um estado estrangeiro que abafe a revolução e lhes mantenha esses privilégios».

Com efeito, a Revolução de 1383, como qualquer revolução, não foi concebida por acidente. É o resultado da pressão que, ao longo de toda a primeira dinastia, as classes laboriosas e a burguesia exerciam junto do poder central para aliviar a canga do feudalismo. A sociedade portuguesa vinha prenhe de revolução há séculos, só ainda ninguém tinha dado por isso. E ainda assim, durante todo o reinado de D. Fernando, a nova sociedade fremia, no ventre da antiga.

Ventres ao sol

O Portugal do séc. XIV é uma enorme gafaria de todas as pestes onde não entra a luz. É a idade do sebo humano em todas as coisas. É o tempo da magia e da superstição. Trata-se a dores de dentes com esterco de porco, leite de cadela, fígado de doninha, carne de cobra cozida depois de muito vergastada, raiz de aipo trazida ao pescoço, grão de sal envolvido numa teia de aranha… A sabedoria clássica é um vulto acoitado nas mourarias. Sucedem-se as ondas de loucura e de fome, cada uma pior que a anterior até se comer a sementeira e todos os animais e a hipoteca do futuro. É o fim do mundo que vem de Oriente nas patas de Tamerlão. Mas este é também o tempo de sonhos maiores que a vida, que vêem além de todas as fronteiras históricas. De Inglaterra chegam camponeses refugiados do exército camponês de Wat Tyler, que organizaram greves, puseram cerco à Torre de Londres e recitam de memória passagens de Jonh Ball «Quando Adão cavava e Eva fiava, quem era então o Senhor? Desde o início dos tempos todos os Homens foram criados iguais, e a nossa opressão e servidão veio pela opressão injusta de homens maus (…) Por isso exorto-vos! Chegou o tempo de sacudir o jugo da servidão e recuperar a liberdade». De França chegam ainda os rumores da Grande Jacquerie: com o Palais Royale cercado por dezenas de milhares de pobres; o rei a enfiar na tola o chapéu vermelho e azul dos revoltosos para pisgar-se disfarçado; Guillaume Cale traído e coroado «rei dos pobres» com uma coroa em brasa.
Este é também o tempo de todas as heresias. Begardos, beguinos, fraticelli, lolardos, cátaros, adamitas, taboritas, orebitas ou utraquistas, já vão sendo relaxados por apóstatas ou replaspos, cismáticos ou nefandos. E todos ardem da mesma forma no fogo do Senhor.

No contexto da Guerra dos Cem Anos, cada partido e cada classe escolhe o cisma que mais convém: a nobreza ultra-montana alinha com o anti-papa de Avinhão Clemente VII. A grande burguesia portuguesa alia-se aos seus principais parceiros comerciais: flamencos, prazentins e ingleses do papa Urbano VI.

Burgueses que arroteiam uma courela e servos que a trabalham sobrevivem ambos apertados numa tenaz de humilhações, impostos e obrigações de todas as talhes e feições: são açougagens e brancagens, ajudadeiras e fossadeiras, mealharias e anadarias, montados e mordomados, foragens e portagens, jeiras e corveias, tostões e capitações, jugadas e talhadas, salaios, lombos, dízimos, alcavalas, censos, relegos, anudúvas, banalidades… É caso para se perguntar: ó terra jugadeira, ó terra reguengueira, quanto do teu sal é suor dos servos de Portugal?

Contra este mundo, a 6 de Dezembro de 1383, enquanto o complô burguês liquida o conde Andeiro nos passos da rainha, Álvaro Pais cavalga pela cidade aos brados, «Acorramos ao Mestre, amigos! Acorramos ao Mestre, ca filho é d'el-rei D. Pedro!». Do povo de Lisboa, a burguesia não pretendia mais que a legitimação do assassinato para depois encontrar uma solução moderada: casar o mestre com a rainha ou simplesmente esperar pela libertação de João de Portugal. Este filho de D. Pedro gozava de uma imensa popularidade e surgia como a alternativa óbvia ao rei de Castela mas estava a ferros em Castela desde que Leonor o convencera a matar a própria esposa e sua própria irmã, Maria Teles, prometendo-lhe a mão de D. Beatriz. Mas, consumado o crime, foi denunciado por D. Leonor e obrigado a fugir para Castela, onde acaba agrilhoado. Leonor vencera outra vez.

Mas o povo de Lisboa, mesmo que já houvesse rádios para mandá-lo ficar em casa, não se satisfaz com os planos da burguesia e força-a a transformar o golpe de Estado numa Revolução, forçando depois os homens bons a assumi-la e levá-la até às últimas consequências. É o povo que impede o Mestre de fugir para Inglaterra. É o povo que aclama o Mestre. É o povo que mata o alto burguês Álvaro da Veiga que, com medo das repercussões, se recusa a sair à rua para aclamar o Mestre. É o tanoeiro Afonso Eanes Penedo que, quando os burgueses têm medo de assumir a revolução desembainha a espada «Que estaes vós outros assim cuidando, e que não outorgaes o que outorgaram quantos aqui estão? E como? ainda vós duvidaes de tomar o Mestre por regedor destes reinos, e que tome cargo de defender esta cidade e a vós outros todos? Parece que não sois vós outros verdadeiros portuguezes! (…) Eu em esta cousa não tenho mais aventurado que esta garganta, e quem esto não ha mister que o pague pela sua, ante que d'aqui parta.» Ou seja, aqueles que não têm mais nada a perder que a garganta, descobrem que só assim, com lâminas contra gargantas, é que se convencem aqueles que tudo têm a perder».

Os trabalhadores sabiam que perdendo a aposta acabariam como acabam sempre os camponeses das revoltas falhadas: enforcados pelos chaparros até ao Algarve. É daí que vem a coragem de Aljubarrota e a ferocidade com que se perseguem os grandes fidalgos «e os meudos corriam apoz elles e buscavam-nos e prendiam-nos tão de vontade que parecia que lidavam pela fé». Como um rastilho, a revolução incendeia a terra. Por todas as partes ouvem-se palavras de ordem de «Arraial! Arraial! Mestre de Avis, Rei de Portugal»

Aquello que vosso nom he

Álvaro Pais, cérebro da Revolução, cedo compreende o que tem nas mãos, como demonstra o profético conselho que dá ao Mestre: «senhor, fazee per esa guisa: daae aquello que vosso nom he, e prometee o que nom teemdes, e perdoaae a quem vos nom errou». A revolução distribui entre burgueses, mesteirais e camponeses a terra dos senhores feudais (daae aquello que vosso nom he), promete uma sociedade completamente nova (prometee o que nom teemdes) e indulta todos os que queiram combater do seu lado (perdoaae a quem vos nom errou).

Mas o povo vai mais longe e, nalgumas partes do país, não espera pela revolução burguesa. Em Évora, o povo, liderado por Gonçalo Eanes, cabreiro, e Vicente Anes, alfaiate, massacra a nobreza e expulsa a burguesia sob o pretexto de obrigá-los a ir para Lisboa ajudar o Mestre. Quando o conde de Viana tenta «tomar mantimentos contra a vontade dos seus donos (…) juntaram-se contra ele os das aldeias e comarcas de redor. Emborilando-se eles com eles remessaram-lhe o cavalo e caiu com ele em terra; e foi um vilão rijamente que chamavam de alcunha Caspirre e cortou-lhe a cabeça e assim morreu». No Montenegro (Chaves) improvisa-se uma reforma agrária; em Rio de Onor o povo organiza-se numa comuna; nas Corvelinas institui-se que ali só entram trabalhadores; Em Elvas, os fidalgos entrincheirados no castelo fazem sair um camponês com as mãos decepadas ao pescoço. Em resposta, os revolucionários fazem o mesmo a dois fidalgos. Por todo o Alentejo a insurreição popular vai ganhando contornos de Jacquerie até o próprio Nuno Álvares Cabral ter de intervir militarmente e mostrar aos camponeses que ainda terão de esperar mais seiscentos anos. Ainda assim, quem disse que o povo é sereno não sabe quem foi Caspirre.

Desesperado, resta ao caquéctico Portugal feudal pedir ajuda a Castela, que entra pela Guarda aglutinando a alta nobreza portuguesa. Ficam temporariamente esquecidas as Guerras Fernandinas: esta é uma guerra de classe. A própria Leonor, contrariada, entrega o regimento ao rei de Castela, danando assim os Tratados de Salvaterra. Mas a Aleivosa tem uma última carta na manga: casar-se com Pedro de Trastamara (primo do rei de Castela), convencê-lo a matar o rei, fugir para Coimbra e governar Castela e Portugal. O plano, contudo, é descoberto e Leonor irá passar os seus últimos dias presa num convento em Tordesilhas.

A guerra intensifica-se. Lisboa é cercada duas vezes, uma das quais durante cinco meses sujeitando a cidade a uma brutal poliorcética de fome e terror. Mas o povo não cede. Na Batalha dos Atoleiros, em Abril de 84, as forças portuguesas, com apenas 1500 homens, derrubam um exército espanhol nutrido de 5000 soldados sem sofrer uma única baixa. No ano seguinte, Aljubarrota dará o golpe final.

Conta Fernão Lopes que «n'aquelle tempo Arraia meuda, os grandes escarnendo dos pequenos chamando-lhe povo do Messias de Lisboa que cuidavam que os haviam de remir da sujeição d'el-rei de Castella. Os pequenos aos grandes depois que cobraram coração, que se juntavam todos em um, chamavam-Ihe traidores scismaticos que tinham da parte dos castellãos por darem o reino a cujo não era. E nenhum por grande que fosse era ouzado de contradizer a estos nem falar por si nenhuma cousa, por que sabia que como falasse morte má tinha logo prestes, sem nenhum mais puder ser bom. E era maravilha de ver que tanto esforço dava Deus n'elles, e tanta cuvardice nos outros que os castellos que os antigos reis por longos tempos, jazendo sobre elles com força de armas, não podiam tomar, os povos meudos, mal armados e sem capitão, com os ventres ao sol, ante de meio dia os filhavam por força».

Voltemos a Lisboa, há tantos meses cercada pelas tropas de Castela que já não se sabe se ainda lá dentro há vivos. Então, do castelo de Palmela, os revolucionários acendem uma fogueira tão grande que pudesse ser vista pelos resistentes de Lisboa. É o povo que, em delírios de fome e aos gritos pelas ruelas, diz ver as chamas na lonjura. É o povo que, só vivo de comer cadáveres, e ervas daninhas, sobe ao castelo e São Jorge e, em resposta, acende outro fogo tão alto e luminoso que não chega só a Palmela lá na outra banda, mas tão imenso que, hoje mesmo e tantos anos depois, olhando da perspectiva certa pode-se ver como ainda arde.

Bibliografia:
Lopes, Fernão - Crónica de D. João I
Cunhal, Álvaro - As Lutas de Classes em Portugal nos fins da Idade Média,
Borges Coelho, António - A Revolução de 1383
Cortesão, Jaime - Os factores demográficos na formação de Portugal

Ilustrração principal:
Bep Boatella - What happened in the “Grande Jacquerie”
Outras pinturas:
Álvaro Cunhal - Óleo sobre tela
Jaime Martins Barata - Fresco no Palácio de Justiça de Fronteira
Jean Wavrin - Crónica de Inglaterra
Anónimos

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