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quarta-feira, 30 de março de 2016

SEMANA CONTRA O RACISMO

 

O homem na jaula
- Uma estória contra a discriminação racial

António Santos*
30.Mar.16 :: Outros autores
«Os EUA eram então o epicentro mundial das teorias eugénicas sobre a «superioridade branca» que mais tarde inspirariam Hitler e a Expo de 1904 arrogava, orgulhosa, o «Império Americano» exibindo em jaulas dezenas de homens e mulheres de diferentes povos.»

No Verão de 1906, o número de visitantes do Jardim Zoológico do Bronx triplicou. Segundo os registos oficiais do Zoo nova-iorquino, durante o mês de Setembro, eram mais de 40 mil os curiosos que, diariamente, pagavam bilhete para ver a jaula com os próprios olhos. Numa placa junto às grades, podia ler-se: «O Pigmeu Africano Ota Benga. Idade, 23 anos. Altura, 1,25m. Trazido do rio Kasai, Estado Livre do Congo, pelo Dr. Samuel P. Verner».
Quando a história de Ota Benga começa, a escravatura já tinha sido abolida nos EUA há 40 anos, mas o grande capital tinha herdeiros promissores. Foi William John McGee, presidente da prestigiada Associação Antropológica Americana, que solicitou à comunidade científica «a captura de africanos pigmeus» para exibição na Exposição Mundial de St. Louis de 1904. Os EUA eram então o epicentro mundial das teorias eugénicas sobre a «superioridade branca» que mais tarde inspirariam Hitler e a Expo de 1904 arrogava, orgulhosa, o «Império Americano» exibindo em jaulas dezenas de homens e mulheres de diferentes povos. Ota Benga era um deles.
Segundo o relato do autoproclamado «explorador e etnólogo» Paul Verner, o jovem Ota Benga fora «salvo de uma tribo de canibais e ficou muito feliz por se poder juntar a nós». Mais tarde, Verner admitiria que o jovem fora comprado como escravo, por cinco dólares, ao governo belga. O Rei Leopoldo II, genocida responsável por mais de 10 milhões de mortos e amigo pessoal de Verner, confessou-se «tão entusiasmado com a caçada» que quis participar pessoalmente. Mas não foi necessário caçar: o governo belga conduziu Verner ao mercado de escravos de Bassongo e, entre centenas de prisioneiros mutilados, uns sem mãos, outros sem orelhas, o «etnólogo» escolheu e comprou nove jovens da tribo mbuti, o mais novo com apenas 12 anos. Ota Benga é, dos nove, o único cujo destino nos é conhecido.
A manchete do St. Louis Pot-Dispatch de 26 de Junho era «Africanos Pigmeus na Expo» e, no interior, podia ler-se «Pigmeus requerem dieta de macaco». Preso dentro de uma jaula, Ota Benga era o centro das atenções do «mundo civilizado»: os homens picavam-no com bengalas para forçá-lo a mexer-se, as crianças gritavam-lhe e atiram-lhe pedras, as senhoras riam. Mais tarde, no Jardim Zoológico do Bronx, onde a tortura continuou, vários visitantes descrevem como Ota Benga, fechado numa cela com um orangotango, se tornara apático e indiferente às provocações das multidões.
Foi então que James Gordon, um religioso afro-americano, declarou guerra ao espectáculo degradante. «A nossa raça já está deprimida o suficiente sem que nos exibam junto de símios. Somos dignos de sermos considerados seres humanos», escreveu o reverendo numa carta ao New York Times. O editor do jornal respondeu que «os pigmeus são muito inferiores na escala humana» acrescentando que «a sugestão de que Benga devia estar numa escola em vez de numa jaula ignora a alta probabilidade de que uma escola seria para ele um lugar de tortura. A ideia de que todos os homens são iguais em tudo excepto nas oportunidades é uma ideia extremamente anacrónica».
Mas à pressão exercida pelos afro-americanos somou-se a resistência de Ota Benga, que tinha aprendido inglês sozinho e usava a nova língua para denunciar a sua situação aos visitantes do jardim zoológico. A gota de água chegou, em 1906, quando Benga, usando uma faca roubada, se defendeu de um grupo de agressores. Finalmente, no dia 28 de Setembro de 1906, Ota Benga foi libertado e acolhido num orfanato para negros, onde teve acesso à educação básica. Depois, trabalhou numa fábrica de tabaco em Lynchburg, na Virgínia. Segundo os que o conheceram pessoalmente, era um homem bom que gostava de andar descalço e tinha nas crianças os melhores companheiros e amigos. Ensinava os rapazes a caçar e contava-lhes histórias sobre a vida no Congo. As crianças costumavam observá-lo a acender uma fogueira para cantar na sua língua e dançar conforme a sua cultura. Estava, contava aos vizinhos, a planear a viagem de regresso para África.
A I Guerra Mundial veio paralisar as viagens transatlânticas e travar os planos de Ota Benga. Dizem os relatos coevos que, lentamente, tornou-se taciturno e deixou de brincar com as crianças. Então, na noite de 20 de Março de 1916, há precisamente 100 anos, as crianças de Lynchburg viram-no acender uma fogueira cerimonial. Terá dançado e cantado toda a noite. Mas dessa vez, antes da manhã romper, suicidou-se com um tiro no coração.
Na semana em que se assinala o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, devemos lembrar-nos, que os captores de Ota Benga eram «civilizados», «democráticos», «desenvolvidos» e «cosmopolitas». E também que, «anacronicamente», poucos meses depois da morte de Benga, na Rússia czarista, uma das regiões mais atrasadas do mundo, começava a construção mais avançada da humanidade. E o princípio do fim do racismo.
Este texto foi publicado no Avante nº 2.208 de 24 de Março de 2016.

in O DIÁRIO info, com a devida vénia

31 de março, Mobilização Internacional pela democracia Brasileira


Há mais de 200 anos da independência, os povos Latinoamericanos, divididos por ditaduras militares e económicas, se reuniram para reviver um velho, e sempre novo, sonho de integração e soberania. Pessoas estranhas começaram a ocupar posições nas instituições públicas. Pessoas estranhas de um continente desconhecido, esquecido e desterrado da sua própria identidade. Trabalhadores, mulheres, camponeses, indígenas, negros, começaram a integrar os espaços mais importantes das decisões coletivas. Avanços sociais sem precedentes aconteceram na ultima década, e a integração regional avançou mais rápido do que a própria articulação da União Europeia. Mas, sem embargo, muitos erros tem sido feito e uma década não foi suficiente para transformar contradições históricas de dependência e desigualdade.
A democracia é o maior património social, e é o único caminho para estruturar garantias sólidas de justiçai, emancipação e igualdade.
O golpe contra a democracia brasileira, é o golpe contra a integração da América Latina, contra o nosso direito de sonhar, contra nosso direito de integrar, de construir juntos a possibilidade do impossível.
31 de março, Mobilização Internacional pela democracia Brasileira
Golpe Nunca Mais.
Vem para a Democracia.
Conexões em Luta.

A saída pela esquerda é a formação de um bloco anticapitalista

– Ver abaixo "Orientações políticas"

por PCB [*]
O PCB defende as liberdades democráticas, entendidas como espaços conquistados pela luta dos trabalhadores, contra a ofensiva da ordem burguesa que visa retirar direitos econômicos e sociais da classe trabalhadora e restringir as liberdades de organização e expressão, impondo um clima fascistizante de intolerância no debate político.

O PCB, coerente com sua tradição de 94 anos de luta, é contra este processo que visa o impedimento da Presidente, por compreender a natureza dos interesses de classe que o move. Desde o início, declaramos que, em qualquer hipótese, o resultado desse processo será contra os trabalhadores: ou a Presidente fica, cedendo mais ainda às exigências do capital, ou este impõe um novo governo, sem mediação, para aplicar mais rápida e profundamente as medidas contra os trabalhadores, para salvar o capital de mais uma de suas crises.

As diferentes frações da burguesia, que antes se dividiam entre o apoio ao governo do PT ou a sua derrubada, agora confluem para interromper o mandato presidencial.

Estamos diante de um processo marcado por casuísmos, contradições e oportunismos de todo tipo, orquestrado pela combinação de ofensivas jurídicas, legislativas e midiáticas que mal escondem os claros vínculos com as camadas mais poderosas e conservadoras que querem manter e aprofundar seus privilégios.

Os governos petistas e sua política de conciliação de classes facilitaram o caminho daqueles que agora querem derrubá-lo: mantiveram e criaram instrumentos para garantir a ordem burguesa (a manutenção da Lei de Segurança Nacional, a Portaria Normativa da Lei e da Ordem, de dezembro de 2013, e a Lei Antiterrorismo, recentemente iniciada e sancionada pela Presidente).

Além disso, promoveram ataques diretos aos trabalhadores, por meio de sua política econômica herdada dos governos FHC, da imposição dos chamados ajustes, dos cortes no orçamento, da prioridade dos superávits primários, da reforma da previdência, da opção pelo agronegócio contra a reforma agrária, do sucateamento da saúde e da educação públicas, da entrega da exploração de petróleo às multinacionais, da aprovação do código florestal e de mineração, do ataque aos povos indígenas, do favorecimento de grandes grupos econômicos, bancos, mineradoras, empreiteiras, indústria automobilística e vários setores do grande capital, em detrimento das demandas mais importantes da maioria da população e, principalmente, da classe trabalhadora.

Por isso, para o PCB, defender as liberdades democráticas implica enfrentar as ofensivas do capital, mantendo-se na oposição ao governo petista. Não há saída para a atual crise política pela via do aprofundamento da lógica da conciliação de classes. A saída é pela esquerda, com a formação de um bloco de lutas de caráter anticapitalista, com unidade de ação, sem hegemonismos, em torno de uma pauta mínima que possa expressar as necessidades da classe trabalhadora por emprego, terra, teto, direitos e liberdades.

Às ruas, para defender as liberdades democráticas contra as ofensivas do capital mas, principalmente, às fábricas, ao campo, às universidades, aos bairros pobres, às periferias e favelas, aos movimentos populares, para organizar os trabalhadores para nos defendermos agora e criarmos as condições para assumirmos o protagonismo de mudanças políticas profundas rumo à construção do Poder Popular, no caminho ao Socialismo.

Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central (28 de março de 2016)



Orientações políticas diante da conjuntura:

Diante deste quadro, o CC do PCB orienta seus militantes, amigos e simpatizantes e dialoga com seus aliados e organizações com as quais tem identidade estratégica, nos seguintes termos:

– o PCB não participará das manifestações convocadas para o dia 1º de abril com palavras de ordem onde se incluem Fora Dilma, Fora Todos e Eleições Gerais Já. Apesar de desejarmos unidade de ação com forças políticas e sociais que a convocam, consideramos que essas bandeiras objetivamente ajudam os planos do capital e alimentam ilusões de classe;

– o PCB só participará das manifestações convocadas para o dia 31 de março nos locais onde for possível nos articularmos com forças políticas e sociais que coloquem como centro a defesa dos interesses dos trabalhadores frente aos ataques do capital e não a defesa do governo petista de conciliação de classe;

– o PCB conclama todas as organizações da esquerda anticapitalista a iniciarmos um processo de aproximação, com vistas à unidade de ação em torno de lutas comuns, e a considerarmos como prioridade a realização de um PRIMEIRO DE MAIO UNITÁRIO desse campo político, como passo importante para a construção de um BLOCO DE LUTAS.

(Comitê Central do PCB)


O original encontra-se em http://pcb.org.br/portal2/10712

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 29 de março de 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

SICKO SOS Saude Michael Moore saude Cuba legendado1]

ANIVERSÁRIO


PCdoB, 94 anos: Ontem, hoje, na luta pela democracia, contra o golpe

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Neste 25 de março de 2016, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) comemora 94 anos de sua fundação conclamando todas as correntes democráticas e progressistas a combaterem o golpe em curso no Brasil. Em um ambiente político adverso, a legenda comunista reafirma a defesa das causas democráticas, patrióticas e populares. Assim afirma a presidenta nacional do Partido, deputada Luciana Santos, em mensagem aos comunistas.
Leia a íntegra da mensagem abaixo:

PCdoB, 94 anos: Ontem, hoje, na luta pela democracia, contra o golpe!

A defesa das liberdades democráticas e dos direitos do povo é uma das principais marcas do Partido Comunista do Brasil. Ao completar 94 anos de existência, neste dia 25 de março de 2016, o PCdoB encontra-se, mais uma vez, na linha de frente da resistência e do combate a um golpe que ameaça alvejar a democracia brasileira.
O Brasil vive hoje dias que valem por anos, décadas. O país se encontra polarizado, crivado por uma acirrada luta política. As forças reacionárias da sociedade e do Estado e a grande mídia tentam aprovar na Câmara dos Deputados um impeachment fraudulento, sem nenhum fundamento jurídico, contra a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita.
Um golpe contra o povo e a democracia está em marcha. É preciso enfrentá-lo, e de batalha em batalha derrotá-lo. Apesar da adversidade, o PCdoB tem a convicção de que a união e a luta de amplos setores democráticos, a mobilização do povo, que crescem e se elevam, poderão sim vencer o golpismo e preservar a democracia conquistada à custa de muitas lutas e vidas.
A história de nossa República é toda ela marcada por esse confronto que hoje se trava no país: Democracia versus ditadura, Estado Democrático de Direito versus Estado de Exceção, respeito à soberania do povo versus imposição da vontade e dos interesses das elites.
O PCdoB, ontem e hoje, sempre esteve até as últimas consequências comprometido com a democracia, base para a soberania nacional e para a garantia dos direitos do povo e dos trabalhadores.
PCdoB sempre do lado da democracia

Nos primeiros anos de existência do Partido, durante a República Oligárquica, os comunistas advogaram a anistia e o voto secreto, extensivo às mulheres e aos analfabetos. Lembramos que naquele momento a grande maioria do nosso povo estava excluída do direito democrático de eleger os seus governantes.
Nos anos 1930 foram pioneiros em alertar a nação sobre os perigos representados pelo crescimento do fascismo. Por isso, participaram com destaque da constituição da Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente antifascista que foi perseguida e banida pelo governo do presidente Getúlio Vargas.
Em novembro de 1937, um golpe de Estado instaurou a ditadura do Estado Novo. Os partidos políticos foram proibidos, o parlamento fechado e a imprensa censurada. Mesmo na clandestinidade, os comunistas continuaram lutando contra a fascistização do país. Foram força destacada no processo de mobilização popular que levou o Brasil a romper relações diplomáticas e declarar guerra às potências do Eixo nazi-fascista em 1942. Centenas de jovens comunistas se alistaram na Força Expedicionária (FEB) para combater nos campos da Itália.
A derrota da Alemanha hitlerista e de seus aliados – para a qual o Brasil deu sua contribuição – ajudou a acelerar o fim do Estado Novo. Os comunistas, as forças democráticas e patrióticas conquistaram a anistia e a convocação da Assembleia Constituinte que, acreditavam, conduziria o país no caminho da democracia.
O papel positivo desempenhado pelos comunistas nos sombrios anos do Estado Novo foi reconhecido por amplas parcelas do povo, especialmente os trabalhadores. O PC do Brasil obteve 10% dos votos para presidente da República na eleição de 1945, elegendo um senador e 14 deputados federais. Essa façanha foi obtida com apenas poucos dias de campanha.
Na Constituinte, foi a bancada que mais se empenhou em ampliar a democracia e defendeu com vigor a liberdade sindical e de greve. Novamente defendeu o voto dos analfabetos, que representava a maioria da população. Apresentou a emenda que garantia a liberdade religiosa, que beneficiou especialmente os cultos afro-brasileiros.
O início da Guerra Fria desencadeada pelo imperialismo acarretou mudanças na situação política. Aumentou a ofensiva conservadora contra o movimento democrático e popular. Começaram as provocações das forças reacionárias para isolar e golpear os comunistas. As manifestações públicas e greves eram reprimidas com violência insana. Sedes do partido eram invadidas e militantes presos.
Neste clima de caça às bruxas, em maio de 1947, o Tribunal Superior Eleitoral, por 3 votos contra 2, decidiu pela cassação do registro do PCB. Imediatamente suas sedes foram fechadas pela polícia. Alguns meses depois, em janeiro de 1948, o projeto de cassação dos mandatos foi aprovado na Câmara dos Deputados. A jovem democracia brasileira recebia os seus primeiros golpes.
Novamente na clandestinidade – tendo seus principais dirigentes ameaçados por mandados de prisão –, os comunistas mantiveram alto as bandeiras da democracia, da soberania nacional e dos direitos do povo, ameaçadas pelo governo autoritário e entreguista do general Dutra.
As correntes direitistas continuaram atuantes, constituindo-se um dos principais fatores de instabilidade política no Brasil. Inúmeras vezes, através de golpes de mão, elas buscaram interromper o processo democrático. Lembremos apenas da sórdida campanha que levou ao suicídio o presidente Getúlio Vargas (1954); as tentativas de impedir a posse e de derrubar o presidente Juscelino Kubitscheck (1956-1957); ou de impedir a posse de João Goulart e a imposição do parlamentarismo (1961). Por fim, o golpe militar de 31 de março de 1964 que implantou uma nefasta ditadura de 21 anos.
O regime militar perseguiu, exilou, prendeu, torturou e assassinou seus opositores. O arbítrio enfrentou obstinada resistência na qual o PC do Brasil jogou importante papel.
O Partido participou de todas as frentes de luta contra a ditadura militar: do parlamento, da mobilização do povo à luta armada na região do Araguaia. Esteve presente ao lado dos estudantes, dos operários e da intelectualidade progressista nas grandes campanhas pela liberdade. Levantou bem alto as bandeiras da anistia, da Constituinte e pelo fim das leis de exceção. Foi um ativo participante da Campanha pelas Diretas Já!, e contribuiu com todas as suas forças para a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, o que permitiu colocar um fim à ditadura e reconquistar a democracia que temos. Processo, em grande parte, concluído com a promulgação da Constituição cidadã de 1988.
Nos anos de obscurantismo ditatorial o PCdoB foi a organização política que mais heróis e mártires deu à causa da liberdade. Ainda hoje os corpos de mais de 60 militantes assassinados continuam desaparecidos.
Derrotar o golpe, preservar a democracia

Contudo, desde a reeleição da presidenta Dilma Rousseff, em outubro de 2014, o país vive grave crise política que agora chega ao seu estado crítico. A direita neoliberal não aceitou o resultado das urnas e desencadeou uma escalada reacionária e golpista para derrubar um governo legitimamente eleito.
O movimento golpista age em conluio com a grande mídia e setores do aparato jurídico-policial – a serviço da oposição conservadora e de interesses do imperialismo. Não se intimidam em colocar o país diante do perigo de grave conturbação social. Disseminam o ódio, a intolerância entre o povo e incentivam a violência sectária contra a esquerda. Sedes do PT e do PCdoB são alvos de atos criminosos de vandalismo. Movimentos sociais e entidades históricas como a União Nacional dos Estudantes (UNE), também, são agredidos.
A força motriz do atual golpismo é a “Operação Lava Jato”, comandada pelo juiz Sérgio Moro. São processos típicos de Estado de exceção, como os vazamentos seletivos de informações, desvirtuamento dos procedimentos da prisão provisória e da delação premiada. Chegou-se ao absurdo da ilegal condução coercitiva do ex-presidente Lula para prestar depoimento e das escutas ilegais evolvendo a atual presidenta Dilma e seu antecessor, tudo encoberto pelo falso manto do combate à corrupção.
Ainda que seja plenamente favorável a todas as iniciativas de combate aos desvios de dinheiro público, os comunistas do Brasil reafirmam que não se faz justiça afrontando o Estado Democrático de Direito, conquistado a duras penas pelo povo brasileiro. Tampouco solapando a soberania nacional e destruindo empresas essenciais ao projeto de desenvolvimento.
Que não haja dúvidas: além de mutilar a democracia, o golpe tem por objetivo acabar com as conquistas que o povo e a Nação obtiveram nos últimos 13 anos. A agenda política e econômica dos golpistas é um neoliberalismo selvagem de agressão aos direitos dos trabalhadores e à soberania do país.
Por isso, o PCdoB comemora mais um aniversário conclamando sua militância e todas as correntes democráticas e progressistas, mesmo aquelas que têm divergência com o governo, a combaterem decididamente o golpe em curso e a defenderem a democracia ameaçada.
Não vai ter golpe! Viva a democracia.

Recife, 24 de março de 2016
Deputada Federal Luciana Santos
Presidenta do Partido Comunista do Brasil – PCdoB

 

elcomunista.net

quinta-feira, 24 de março de 2016

“O Estado Islâmico sempre existiu, é a Arábia Saudita” por SOFIA LORENA

ENTREVISTA COM o britânico ZIAUDDIN SARDAR   Nasceu em 1951 no Paquistão, mas vive em Londres desde os nove anos. Estudioso da sua religião, mas também de Ciência Foto de João Fróis.Política ou Literatura, é autor de mais de 45 livros e de vários programas sobre o islão para a BBC ou o Channel 4. Hoje, o britânico Ziauddin Sardar é presidente do Muslim Institute, organização que promove o conhecimento e o debate, e editor do Critical Muslim, uma revista trimestral sobre ideias e pensamento islâmico contemporâneo. Diz que faz falta uma rede de reformistas no islão. “Estamos muito sozinhos no nosso trabalho”. A conversa aconteceu em Lisboa, na Fundação Champalimaud, onde participou na conferência “O Desconhecido: Daqui a 100 Anos”.
PÚBLICO: Há um centro que está a desenvolver uma aplicação para os estudantes de origem árabe conhecerem a herança muçulmana na Andaluzia. Por que é que sabemos tão pouco do contributo dos cientistas ou arquitetos muçulmanos?
Ziauddin Sardar: Parece que ninguém sabe nada dessa herança, é verdade. Isso acontece por duas razões. Por um lado, a tradição intelectual e racional do islão foi marginalizada nas sociedades muçulmanas por volta do século XIV, XV. Por exemplo, toda a ideia de teologia racional, que o dogma devia relacionar-se com a razão, que devemos justificar através do pensamento racional aquilo em que acreditamos, estas ideias foram mais ou menos abandonadas por uma técnica a que chamamos ‘fechar as portas da itjihad' [raciocínio independente]. Estas ‘portas’ não foram fechadas do dia para a noite, aconteceu ao longo de um par de séculos. Para além disso, houve muitos califas que não gostavam do pensamento racional, os estudiosos de então questionavam a autoridade, eram o que hoje chamamos dissidentes. Um califa muito conhecido, Al-Qhadir, do império Abássida, criou o “credo Qhadir’, que proibia que se colocassem perguntas racionais. Saber se o Corão foi criado, por exemplo, era muito debatido. Esta era uma pergunta muito racional, se foi criado, foi criado na História, e então tem um contexto histórico e precisa de ser interpretado à luz da História. Mas se não foi criado, tem de ser lido literalmente. Isto aconteceu mais ou menos quando a sharia, a lei islâmica, estava a ser formulado, certo? Exactamente. A maioria dos muçulmanos pensa que a sharia é divina, mas na verdade é uma construção humana na História. É uma lei construída no século IX, quase 250 anos depois da morte do Profeta. O que é interessante é que até aí havia racionalismo na cultura muçulmana, não havia sharia, não havia hadiths [conjunto de ditos de Maomé], eles estavam a reuni-los nessa altura. E nesse período clássico inicial, a sociedade islâmica fervilhava de ideias, pensamento e aprendizagem. Quando a sharia foi formulada, os teólogos inventaram uma espécie de truque para aumentar a confiança nestas regras, sugerindo que a sharia era divina. Mas a maior parte da sharia vem dos ditos do Profeta, que são fabricados. Aquilo que chama os hadiths manufaturados? Sim, são uma espécie de dogma manufaturado. Isso pode ser demonstrado muito claramente. Por exemplo, a sharia diz que um apóstata [alguém que abandona a religião] deve ser morto, mas o Corão diz que não há pertença compulsiva ao islão. A sharia diz que a mulher tem um estatuto inferior e deve cobrir-se, mas o Corão diz que homem e mulher são iguais. Há muitos aspetos da sharia que estão em completa contradição com o Corão. Afirmar que a sharia é divina é totalmente ridículo e grande parte do fundamentalismo vem de aceitar a sharia como lei divina.
Estas são as razões internas ao islão. Mas há razões externas? Sim, é a segunda razão. Quando os poderes coloniais chegaram também marginalizaram essa parte da História. Se olharmos para a História da Ciência, parece que começa com a Grécia e depois é como se não tivesse acontecido nada até ao Iluminismo. Mas o próprio Iluminismo nunca teria acontecido sem a Filosofia e o pensamento muçulmanos. Muitos dos componentes básicos do Iluminismo vêm do que chamamos literatura adab, a literatura da ética e do humanismo, que criou universidades, instituições académicas, professores, condutas para ser um bom ser humano, condutas de boa governação. O Iluminismo adaptou todas as partes da literatura adab, que se tornou na sua base. Por exemplo, na literatura adab era obrigatório aprender tudo na língua clássica, o árabe, o Iluminismo não tinha nenhuma e foi buscar o latim. Passou a ser preciso aprender latim para ser um bom estudioso. O colonialismo relegou toda a cultura anterior para as margens, renegando o conhecimento do islão. Para mim, a História da Europa é tanto islâmica como qualquer outra coisa, não haveria Europa sem islão. Os jovens crescem sem saberem nada desta História e acreditam no que os fundamentalistas dizem sobre o islão.
Continuamos a aprender versões diferentes da História, em Portugal, por exemplo, não aprendemos a História comum que temos com os muçulmanos, só as cruzadas, a Reconquista. Sim, e mesmo isso muitas vezes é ensinado com interpretações muito particulares. Dizem que os navios partiram daqui para descobrir o mundo novo, no Brasil e em África. Não dizem o que é que lhe fizeram quando o descobriram… Temos de ensinar essa História. Na Europa, ainda há uma versão romantizada do colonialismo, a verdade do colonialismo não é ensinada nas escolas e nas universidades, a sua brutalidade. É como se pensássemos que fizemos bem, que civilizámos esses países. Mas muito do sofrimento que ainda existe nalguns destes países é um produto do que os europeus lá fizeram. Os portugueses foram brutais em África, horrendos. Criando estes mitos e perpetuando-os só contribuímos para perpetuar a opressão e a injustiça. Temos de ensinar essa História para podermos ter um mundo mais harmonioso.
O fundamentalismo atual então não tem nada a ver com o início do islão nem com a sua herança racional. Não, vem de uma área muito específica, vem da Arábia Saudita e da ideologia wahhabita. Até 1925, 1930, havia diferentes tradições do islão e pessoas que concordavam com umas e com outras. Havia jihads, mas tinham princípios éticos, eram lutas contra o colonialismo e o imperialismo, com regras claras, era proibido atacar civis, matar mulheres e crianças, matar prisioneiros. Jihad [guerra santa] não significa declarar guerra a toda a gente. Mas quando a Arábia Saudita se tornou numa petro-monarquia e começou a exportar a sua ideologia, tudo mudou. Os sauditas foram muito espertos, foram a todo o mundo construir mesquitas e madrassas [escolas corânicas] e depois enviaram os seus imãs [quem lidera as orações], professores e livros. E incentivavam toda a gente a ir estudar em Meca e Medina. Conseguiram exportar o wahhabismo para todo o mundo muçulmano. Até aos anos 1920, os wahhabitas eram uma seita muito minoritária e as pessoas gozavam com eles, eram considerados fanáticos iletrados sem relevância. Mas esta seita tornou-se na ortodoxia muçulmana. E hoje, há duas questões fundamentais aqui. Por um lado, os muçulmanos aceitam esta ideologia porque reverenciam a Arábia Saudita de forma acrítica. Por ser lá que estão Meca e Medina, assume-se que como o Profeta nasceu em Meca estas pessoas teriam o melhor conhecimento do islão, quando têm o pior. Por outro, as potências ocidentais, a América, o Reino Unido, a França, a Alemanha, apoiaram a Arábia Saudita e os estados do Golfo por motivos económicos e militares, eles compram as armas que estes países produzem. Ao apoiar a Arábia Saudita, ignorando o seu fanatismo, dão-lhes liberdade de ação.
Wahhabismo e salafismo, a doutrina que se diz estar na base da ideologia da maioria dos grupos terroristas como a Al-Qaeda e o autodenominado Estado Islâmico, são quase iguais, certo? Sim, essencialmente ambos defendem a interpretação literal do Corão e a aceitação da sharia como divina. Há salafistas e outros, mas no fundo são diferentes tipos de wahhabismo.
Defende que a própria organização de grupos como o Estado Islâmico se inspira no modelo saudita. Sim, a ideia de um líder que não pode ser questionado e que é reverenciado. As pessoas perguntam-me muitas vezes ‘de onde vem o ISIS’ [Estado Islâmico do Iraque e de al-Shams, como o Estado Islâmico se chamava a si próprio antes de declarar um califado, no Verão de 2014] e ‘como é o que o ISIS apareceu assim, tão depressa’. A resposta às duas perguntas é muito simples. O ISIS não apareceu do nada, sempre existiu, o ISIS é a Arábia Saudita. Se olharmos para as leis que o ISIS pratica são exactamente as mesmas em vigor na Arábia Saudita [onde as mulheres têm de ter um guardião masculino e andar cobertas, e crimes como a blasfémia são sentenciados como chicotadas ou alguém que tenha cometido adultério pode ser condenado à morte]. Só há uma diferença entre o ISIS e a Arábia Saudita, a Arábia Saudita comete as suas atrocidades atrás de uma cortina enquanto o ISIS transforma as suas atrocidades em vídeos do YouTube. O ano passado, na verdade, mais pessoas foram executadas na Arábia Saudita [oficialmente, 151] do que pelo ISIS. Mas quando o rei [Abdullah] saudita morreu [em Janeiro], o primeiro-ministro britânico foi à Arábia Saudita e bandeira britânica foi colocada a meia haste.
Há pelo menos 15 anos que se discute a influência saudita e até o financiamento a movimentos extremistas. Por que é que continua tudo igual nas relações entre as potências ocidentais e Riad? O que sei é que dizer que se vai fazer alguma coisa para combater a radicalização e o fanatismo e o terrorismo e depois continuar a apoiar a Arábia Saudita não faz sentido. Se atacarmos e destruirmos o ISIS, vai aparecer outro ainda pior no seu lugar. Atacámos e quase destruímos a Al-Qaeda, que agora está a regressar, mas isso não foi o fim do fundamentalismo violento, o ISIS ocupou o seu lugar. Temos de atacar a Arábia Saudita. No filme Aliens, a protagonista, Ripley, vê o monstro extraterrestre que está a pôr ovos e estes tornam-se nos extraterrestres que vimos no primeiro filme. Os ovos são a Al-Qaeda e o ISIS, mas o monstro é a Arábia Saudita e o wahhabismo saudita. Para fazer alguma coisa, é preciso destruir o monstro, não os ovos.
Em vez disso, os países estão-se a organizar para bombardear cada vez mais o ISIS. Sim, bombardeiam-se estes países e, pelo meio, matam-se civis e perpetua-se este processo. Contribui-se para a radicalização. Alguns dos sírios que estão a ser bombardeados vão acabar por se juntar a grupos terroristas e aumentar o seu poder.
Falou dos imãs e das mesquitas construídas com dinheiro saudita. Até há alguns anos, a mesquita era o lugar de radicalização. Mas agora esse espaço foi ocupado pela Internet e por televisões. Sim, há 20 anos os pregadores extremistas só podiam chegar aos muçulmanos numa mesquita. Agora, as pessoas vão até eles, podem aceder a centenas de milhares de pessoas por canais de YouTube ou de televisão. No Reino Unido temos 56 canais digitais que são basicamente canais de oração com doidos fundamentalistas a pregar lixo. Depois ainda há o Facebook e o Twitter. Basicamente, os extremistas têm o mundo todo aberto. A radicalização acontece nos velhos e nos novos media. Mas a maioria desta pregadores ou são sauditas ou qataris ou foram educados pela Arábia Saudita, e quando não são, os sauditas encontram forma de os enquadrar, convidam-nos, premeia-nos, e financiam estes canais.
Por que é a Internet não é bombardeada com mensagens contrárias às dos fundamentalistas, de reformistas? Da minha experiência, os bons tendem a ser passivos, enquanto os maus são agressivos. Os bons não fazem nada que possa contribuir para o conflito, pensam, enquanto os maus tendem a levar as suas ideias à prática. Em parte, é a natureza humana. Nos últimos 20 anos, no Reino Unido, dizemos muito que os moderados não se notam nos media. Isso é precisamente por serem moderados, não denunciam pessoas, não fazem declarações bombásticas, têm reações tranquilas.
Acredita que o wahhabismo se tornou mainstream e dominante?
Tornou-se na ortodoxia muçulmana. Ser um muçulmano ortodoxo passou a significar ser um wahbabi, antes queria dizer ser um seguidor de uma escola particular, podia ser-se místico, por exemplo. Agora, ser ortodoxo é ser wahhabita

Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel denuncia tentativa de Golpe no Brasi

Abaixo segue o texto que Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz escreveu para portal internacional de notícias.
Adolfo-Pérez-Esquivel-wsf-2003A corrupção não se combate violando a Constituição. Se combate com transparência e mais democracia. Transparência não somente do poder executivo, mas também dos poderes Judiciais e suas estruturas.Temos que estar atentos nas articulações que estão presentes no continente. Durante décadas obscuras vivemos ditaduras impostas mediante a Golpes de Estado, seguido por governo constitucionais e as democracias frágeis   dos anos 80 e 90, que foram fortalecidas com grande esforço, tratando de encontrar caminhos de desenvolvimento e de resistência em sua luta contra a pobreza, a fome e marginalização.Após um período de grandes avanços no século XXI , hoje a região está passando por situações de conflito , com novas tentativas para desestabilizar as instituições democráticas em países com governos progressistas .Estamos preocupados com os ataques da oposição política , a mídia e setores do poder judiciário contra a Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esteve recentemente vítima de uma operação Policial para levá-lo preso. A ação política clara e injusta, que tem como objetivo a demoralização pública do ex-presidente, acusando-o de corrupção para parecer culpado sem nada for provado contra ele. A oposição política e seus aliados lançaram uma forte campanha para derrubar a Presidenta Dilma e destruir o PT, utilizando a metodologia de golpe suave , imposta no continente para derrubar o ex-presidente Manuel Zelaya em Honduras e Fernando Lugo no Paraguai, com o cumplicidade do poder judicial e / ou parlamentares , forças armadas , empresas e o apoio dos Estados Unidos . Golpes que se juntam às tentativas de golpes de Estado e ações violentas como aconteceu na Venezuela, em 2002, onde falhou por uma mobilização popular em defesa de Hugo Chávez. Ação policial contra o presidente Rafael Correa, do Equador , em 2010 , falhou devido à rápida intervenção da Unasul . E o presidente da Bolívia , Evo Morales , que sofreu várias envestidas e ações violentas para derrubá-lo Hoje, o governo da Venezuela, está cercado por uma guerra econômica para gerar desestabilização como no planejado golpe de Estado de 1973, no Chile. Enquanto a oposição continua tentando derrubar o presidente Nicolas Maduro , como no momento tentou e falhou com Chávez . Há grandes interesses económicos e políticos que procuram a desgastar e causar todos os esforços para desacreditar certos governos, e não prejudicar os outros que tentam tomar o apoio de seu povo. Quase todos os políticos que apoiam impeachment Dilma têm vários processos penais em curso para a corrupção. Isto indica que esta não é a variável determinante, mas o que está em jogo é a direção das políticas do Estado e quem deve realizar. A corrupção não se combate violando a Constituição. Se combate com transparência e mais democracia. A transparência não só do executivo, mas também do judiciário poderosa e os seus funcionários. Quero expressar a minha solidariedade e apoio para Dilma e Lula, para o seu serviço ao povo brasileiro e unidade continental. E também para chamar o povo brasileiro a avaliar criticamente as contribuições feitas, sem ser arrastado para baixo por aqueles que procuram desestabilizar o país causando golpes suaves. O Progressismo latino-americano sabe como perder as eleições porque é democrático. Os últimos ajustados eleições Argentina e Bolívia são outro exemplo claro e recente deste. Aqueles que não sabem como perder e pedir neogolpismo e apoio em nome da democracia, a sua vocação autoritária, ou sua moral ilibada, não são muito diferentes daqueles previamente suportado ou ficaram em silêncio com as ditaduras genocidas de nosso continente. Governos progressistas constantemente atacado por se atrever a tomar medidas contra os poderosos e em favor da redistribuição de renda, deve repensar suas estratégias de diálogo e construção de confiança e de consenso, a fim de evitar confrontos estéreis que se desviam o apoio popular. Eles devem ter a capacidade de iniciativa propor esperança na mudança das estruturas de dependência e desigualdade que nossas necessidades região, e também Papa Francis disse quando pediu para ” não falar das velhas e novas formas de colonialismo ” não “não há desabrigados família, não há camponês sem-terra, há trabalhadores sem direitos, sem soberania Ninguém, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem chances, sem ancião sem uma velhice venerável “. Nenhuma democracia é perfeita, mas é perfectível , se a vontade política do povo e seus governantes democraticamente eleitos. Esperamos que o povo irmão do Brasil para refazer desta forma não abandonar as boas políticas de Estado que conseguiu conquistar e pertencem , e não tem que viver um avançado políticas anti- populares, como os que hoje vivem na Argentina

domingo, 20 de março de 2016

Opinião

Sua excelência, o kitsch


O jornalismo de celebração que triunfou ao longo de mais de uma semana, tendo como motivo as palavras e os actos inaugurais do Presidente empossado, exige uma análise que revela muito mais os efeitos sedutores da emoção estética do que uma racional adesão política. A chegada do novo Presidente proporcionou um investimento emotivo que subsume dois conceitos do domínio estético: a empatia (um importante conceito da Estética pós-hegeliana) e o Kitsch.
A empatia foi a grande referência de Marcelo Rebelo de Sousa, traduzida em actos e palavras. Perguntar-se-á: que mal há nisso, se o efeito é uma fugaz felicidade? Toda a gente tem a liberdade — e certas circunstâncias tornam compreensível o seu uso pleno — de procurar uma gratificação e recorrer a um imaginário público que é uma fábrica de mentiras, como é sempre toda a solução estética do Kitsch; mas outra coisa é uma operação realizada pelos media que consiste em suspender completamente o espaço de elaboração crítica e amplificar a  adesão sentimental, chamada “política dos afectos”. Aí, os media estão a promover a empatia da massa consigo mesma, cujo resultado é uma estetização da política que, nos seus desenvolvimentos extremos, foi uma forma dos regimes totalitários (com esta evocação não pretendo estabelecer falsas equivalências ). Kitsch, no mais alto grau, foi de facto o discurso inaugural do Presidente (Diogo Ramada Curto, numa análise lúcida e bem formulada chamou-lhe um “discurso bacoco”).
E dizer isto não significa estar já a retirar qualquer consequência de ordem política e a fazer projecções. Podemos acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa vai ser um óptimo Presidente, mas é de uma enorme irresponsabilidade estético-cultural (mais do que política) poupá-lo a esta evidência: o seu discurso e os prolongamentos que ele teve deram expressão ao que se pode chamar “Kitsch de massa”. Foi a ocasião para assistirmos ao Kitsch elevado a um nível olímpico. A empatia e a operação mimética que produz a emoção são os princípios fundamentais do Kitsch e no plano político sempre estiveram ligados aos rituais de aclamação e foram instrumentos de consolidação do poder constituído. Quem só conhecia as performances orais e teatrais de Marcelo Rebelo de Sousa, na televisão, este discurso escrito, mesmo analisado com a maior indulgência e tendo em conta a circunstância, revela uma elaboração escrita elementar, uma total ausência de densidade. E se não era a ocasião para satisfazer exigentes requisitos, ao menos que mostrasse as virtudes de uma prosa desenvolta, capaz de avançar sem ruído e com perícia. Durante anos, na televisão, o agora Presidente foi um exemplo para a configuração do nosso tempo: aquele em que o gosto das elites coincide com o gosto das massas. Descobrimos agora que o Kitsch é a sua última máscara — a máscara do banal. Não é altura de extrair conclusões sobre as suas qualidades políticas de Presidente. Mas percebemos que, afinal, a verdade do teor intelectual do Presidente pode muito bem ser a do “brilhante” Professor Marcelo tal como ele se exibia na televisão.
O homem que elevou o comentário político à condição de comédia pode então ser o mesmo que acaba de nos servir o espectáculo da catarse, a paródia da empatia, a expressão do Kitsch de massa. Demos um salto temerário para a “Felix Austria”: “Era a época do eclectismo, do fingido barroco, do fingido renascimento, do fingido gótico”. Assim definiu Hermann Broch o Kitsch vienense, quando o Imperador exorcizava o “alegre apocalipse”, dirigindo-se de maneira ecuménica “aos meus povos”.

sábado, 19 de março de 2016

Mais de 760 artistas e intelectuais assinaram manifesto contra o golpe

Um grupo de artistas e intelectuais organizou um manifesto contra o golpe que será encaminhado aos chefes do Executivo, Dilma Rousseff, do Legislativo, Renan Calheiros e do Judiciário, Ricardo Lewandowsky, bem como ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
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O manifesto intitulado “Carta ao Brasil” defende a democracia, a legalidade, e rechaça a tentativa de golpe impulsionada pela oposição, contra o governo da presidenta Dilma Rousseff. Até esta terça-feira (15), o documento já tinha recebido apoio de mais de 760 artistas e intelectuais brasileiros.
Entre os signatários estão o escritor Fernando Morais, o músico e escritor Chico Buarque, o ator e comediante Gregório Duvivier, a atriz e cantora Letícia Sabatella, a atriz Camila Pitanga, o intelectual Leonardo Boff, a atriz Betty Faria, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, e outros.
Portal Vermelho


Nota pública da Revista Margem Esquerda contra golpe

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“São esses os tempos que provam as almas dos homens…  A tirania, como o inferno, não é facilmente derrotada; no entanto, temos conosco a consolação de que quanto mais duro for o combate, mais glorioso será o triunfo”.
– THOMAS PAINE, “THE CRISIS”
Essas palavras, escritas há mais de 200 anos, continuam tão atuais como em sua época. Em tempos de autoritarismo, arbitrariedades, desrespeito às leis, desprezo pela Constituição, manipulações da grande imprensa e avanço de setores reacionários (representantes do latifúndio, dos meios de comunicações e do empresariado aliado ao imperialismo), quando as conquistas democráticas se veem ameaçadas pela truculência e agressividade de partidos e políticos de direita, a revista Margem Esquerda se manifesta contra toda e qualquer tentativa de retrocessos, contra a atual tentativa de golpe institucional e em favor da democracia em nosso país.
* * *
A revista Margem Esquerda – ensaios marxistas recupera o marxismo como método e arsenal teórico para a transformação social. Semestral, a publicação traz análises sobre o capitalismo e a situação brasileira e mundial, além de estudos a respeito de clássicos do marxismo e entrevistas com intelectuais marcantes.
Após décadas de hegemonia do neoliberalismo e do pensamento único, o marxismo ressurge como o horizonte teórico capaz de explicar as contradições do modo de produção capitalista e suas formas de reprodução, bem como de apontar caminhos para a sua necessária superação.
Em seus oito anos de intensa atividade, a Margem Esquerda vem contribuindo incisivamente para a difusão da teoria marxista, consolidando-se como um importante espaço de debate teórico e político da esquerda brasileira.
Saiba mais sobre a revista clicando aqui.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A União Europeia perante a encruzilhada:
Voltar-se para este ou para oeste?

Wim Dierckxsens*
17.Mar.16 :: Outros autores
Segundo o autor, Wim Dierckxsens, a crise estrutural do capitalismo e a forma como se confrontam os monopolistas europeus, particularmente os alemães, reflectem-se na luta que se trava entre os defensores de um Estado Global (EUA) e os apologistas de um mundo multipolar (China/Rússia).
É isto que explica as hesitações da Alemanha e o balancear entre continuar com os olhos nos EUA e na OTAN ou voltar-se para o crescente poder da Eurásia, dominada pela aliança China-Rússia, onde estão os seus melhores e maiores clientes.


Em 2016 está em jogo a sobrevivência do petrodólar. Para muitos autores a pergunta já não é se sobrevive ou se será substituído, mas quando acontecerá e o que o substituirá. A Rússia e a China sabem bem que o Ocidente, particularmente os EUA, está na bancarrota e sabem que está a ficar sem ouro para apoiar uma futura moeda internacional. O que há aqui de novo é que, desde Dezembro de 2015 com a subida das taxas de juro pela Reserva Federal, o próprio capital globalizado sediado em Wall Street está a procurar acabar com o próprio dólar. Há uma pirâmide invertida de crédito que conseguiu até à data manter à tona o esquema de Pizzi. Todos estes novos créditos mantêm o sistema a flutuar, ao mesmo tempo que a dívida parece incrementar-se. Os novos credores querem participar na riqueza supostamente produzida pela economia real. No entanto, os novos créditos desde 2008 que não são investidos na economia real. Os títulos para participarem nos lucros sociais, desta forma, vão vendo com o passar do tempo que, cada vez menos, os ditos lucros se geram na economia real.
Foi possível sustentar a pirâmide invertida do crédito até finais de 2015, com as taxas de lucro em baixa até chegarem a negativas. Desta forma a pirâmide invertida de crédito pôde crescer incessantemente até fins de 2015. É o cidadão comum que recebe juros cada vez mais baixos até chegarem a negativos. No entanto, ao continuar com taxas de juro mais negativas cada vez mais actores questionam esse sistema. E não têm interesse em receber juros negativos para os seus depósitos.
Além disso, continuar a baixar a taxa de juro tem um limite. Ao elevar a taxa de juro em Dezembro de 2015, as obrigações de pagamento que implicam a pirâmide invertida de crédito vão em crescendo e põem em perigo iminente a capacidade de pagamento de cada vez mais devedores, incluindo as grandes corporações, sobretudo naqueles sectores em que os preços estão em despique com a indústria petrolífera. A bancarrota do sistema financeiro não só está à vista, como ela é provocada pelos juros do capital financeiro globalizado melhor representado em Wall Street e na City de Londres.
O que Wall Street quer evitar a todo o custo é ser acusado de ter provocado o colapso financeiro e monetário, e por isso procuram afanosamente um culpado. Durante o Fórum Económico Mundial de Davos, em finais de Janeiro de 2016, George Soros, um especulador mundial por excelência e com o seu capital alinhado com os interesses de Wall Street, afirmou que a economia chinesa estava perante uma aterragem brusca, já que o seu crescimento económico estava a cair a pique e a dívida chinesa estaria já insustentável, facto que teria provocado a fuga para o exterior de quase um bilião de dólares, fuga que, provavelmente, ele mesmo teria provocado. (Ver Alessandro Bruno, Economic Collapse: This Is Keeping George Soros Up At Night, 28 de Janeiro de 2016, (http://www.profitconfidential.com/economy/economic-collapse-this-is-keeping-george-soros-up-at-night/).
É necessário recordar que, na primeira metade do ano 2015, a bolsa de valores chinesa teve uma enorme subida que revelava já uma acção do capital especulativo. Na segunda metade desse ano esta bolha esvaziou por acção das mesmas forças especulativas, mas o mercado bolsista revelava já números positivos se tomarmos em conta os 12 meses do ano. Apesar disso, Soros afirmou que a China recorreu à política de desvalorização do yuan para estimular as suas exportações, o que foi interpretado por aquele especulador como uma incapacidade da China em incrementar o crescimento doméstico do país. A baixa da taxa de crescimento da China seria a responsável pela contração económica no mundo inteiro. A leitura é que a China terá de aparecer como o país responsável pelo caos económico que aí vem.
Os próprios comentários de Soros revelam que ele está a especular contra o yuan e outras moedas asiáticas. O actual ataque de Soros ao yuan e às moedas asiáticas poderá ter como resultado o contrário. Depois do colapso do Baht da Tailândia em 1997, provocado pelo mesmo especulador bilionário, é muito provável que as manipulações de Soros não atinjam o objectivo desejado, mas perante as ameaças de desestabilização os países da Eurásia poder-se-ão ver empurrados para uma maior cooperação monetária em toda a região (Ver «Op-ed: Think twice before declaring war on Chinese currency», People’s Daily, Janeiro 27, 2016).
Com o colapso de uma pirâmide invertida em dívidas basicamente expressas em dólares dá-se também uma crise letal do dólar. É preciso para Wall Street que a alternativa ao dólar seja uma moeda manejada pelo Estado Global, dirigido pelos mesmos grandes banqueiros que, de facto, levaram o sistema ao colapso. Em termos económicos procura-se projectar a culpa na China e nos países emergentes, e em termos geopolíticos e militares já se pressente a projecção do caos que se aproxima da Rússia. A Rússia e a China são um obstáculo a este projecto por pretenderem a criação de um mundo multipolar sob a liderança da China e da Rússia tendo o yuan como moeda internacional de primeira linha.
A União Europeia é um jogador chave neste conflito geopolítico. Com o conflito da Ucrânia provocado pelos Estados Unidos, os interesses financeiros globalizados de Wall Street e da City de Londres procuram forçar o alinhamento da UE com o projecto de um Estado Global, e evitar que esta se identifique e comprometa com o projecto Euro-asiático, ampliado sob a liderança da Rússia e da China. A UE está cada vez mais inclinada a ser parte activa no Banco Asiático de Investimentos em Infra-estruturas (BAII), criado em 2015, com muita participação da banca europeia, como um projecto keynesiano da China para a construção da chamada «nova rota da seda», que integraria a Eurásia, incluindo aí a União Europeia. Ao mesmo tempo, observa-se na Europa uma maior reticência em assinar a Associação Transatlântica para o Comércio e a Inversão (TTIP na sua sigla inglesa). A cortina de fumo que rodeia estas negociações não consegue esconder os importantes confrontos relacionados com o status dos tribunais privados de arbitragem estadounidenses no sistema judicial europeu. Particularmente as transnacionais norte-americanas estão a pressionar para que os grandes consórcios possam interpor acções jurídicas contra os Estados europeus nos tribunais de arbitragem privados, no caso dos ditos Estados tomarem decisões que venham a afectar os seus interesses (lucros).Tudo isto não é diferente do que estabeleceu o Tratado Trans-Pacífico (TTP). No entanto, no caso do TTIP não são países periféricos que perdem a sua soberania, mas os próprios países europeus, inclusive a potência económica da União Europeia – a Alemanha. Isto representa para os Estados Europeus em geral, e para Alemanha em particular, um motivo de não alinhamento com o TTIP nem com a OTAN.
Desde Março de 2014, durante a reunificação entre a Rússia e a Crimeia após o golpe de estado na Ucrânia organizado pela OTAN que, como chanceler da Alemanha, Ángela Merkel se viu entalada entre a espada e a parede. Submetida a intensas pressões por Washington, teve de participar numa escalada de sanções contra a Rússia. O objectivo era, obviamente, evitar a todo o custo que a Alemanha e com ela a UE não virassem os olhos para a Eurásia. Aí, no entanto, estão os maiores interesses da Alemanha. Não é então estranho que os grandes industriais e as forças políticas alemãs se mostrem cada vez mais reticentes na manutenção das referidas sanções. As consequências desastrosas não são tanto para a Rússia mas sobretudo para a economia alemã. Não é de estranhar que até dois dos principais partidos políticos alemães, actualmente coligados no governo, protestem energicamente contra esse tipo de negociações sobre o TTIP. Inclusivamente, houve uma gigantesca manifestação pública contra o TTIP em Outubro de 2015, em Berlim.
A complicada decisão perante a encruzilhada (alinhar com os interesses de Wall Street ou antes com aos da Eurásia) provoca a indecisão, já que as duas opções são geopoliticamente opostas. As implicações geopolíticas não excluem o plano militar e não é por isso ocasional que os EUA estejam a colocar as suas ‘defesas’ militares cerca da fronteira da Rússia. Não é apenas para ‘se defender’ de uma ameaça russa, mas também para se defender da possibilidade de a Alemanha decidir vir a alinhar com o bloco Euro-asiático. A chancelaria alemã está a fazer um jogo muito delicado para manter a soberania europeia e só sobre temas secundários se submete formalmente às exigências dos Estados Unidos. O alinhamento da Alemanha e, provavelmente, o de toda a UE com o projecto euro-asiático significaria o fim das aspirações de poder criar um Estado Global. Tudo isto não deixa de ser a preocupação fundamental e de estar alinhado com as forças financeiras globalizantes, e inclusivamente com o capital financeiro mais nacionalista, ultraconservador e com fortes investimentos no complexo industrial e militar norte-americano.
É interessante que o próprio George Soros concedeu ao semanário económico Wirtschafts Woche uma entrevista em que criticava, explicitamente, a política europeia da senhora Merkel, sugerindo inclusive que «isso poderia custar-lhe o seu lugar de chanceler». Ao mesmo tempo apareceram no Twitter e circulavam de forma massiva a partir da costa ocidental dos EUA os slogans «Merkel para a Prisão» e «Merkel tem de sair». Num estudo de 19.000 tweetts originais realizado por Vladimir Shalak concluía que o grande êxodo para a Europa tinha sido organizado e concretizado por actores da costa ocidental dos EUA (Ver, Andrey Fomin, ¿Quem está interessado em desfazer-se de Ángela Merkel? www.voltairenet.org, 2 de Fevereiro de 2016)
Mais, a violência durante a Passagem do Ano provocada em numerosas cidades da Alemanha (como Colónia), pela última grande onda de imigrantes, alimentou uma intensa campanha via Twitter contra a senhora Merkel. O estudo indicado revela que a maior actividade destes militantes do Twitter corresponde ao horário diurno da costa Oeste dos Estados Unidos, ou seja, numa zona em que há 9 horas de diferença para a Alemanha. Toda a campanha política tendente a denegrir os refugiados estava e está organizada por agentes e robots com base na costa ocidental dos EUA. A campanha dirige-se contra Ángela Merkel com o objectivo político de a tirar do seu cargo de chanceler da Alemanha e impor o TTIP à Europa (Andrey Fomín, Ob. cit.).
Fevereiro de 2016

* Economista
Este texto foi publicado em http://mariwim.info/?p=45
Tradução de José Paulo Gascão
in O Diário info

Brasil: PCP condena "operação de destabilização" e de "cariz golpista"

O PCP apontou hoje a crise do capitalismo como uma das causas da situação no Brasil, condenando a operação de destabilização e de "cariz golpista" que diz estar a ser promovida e manifestando-se solidário com "as forças progressistas brasileiras".

© Lusa
Política Protesto Há 2 Horas POR Lusa
Numa nota divulgada no 'site' do partido, os comunistas acusam os setores "mais retrógrados e antidemocráticas" de promover uma "intensa operação de desestabilização e de cariz golpista" por forma a alcançar o que não conseguiram nas últimas eleições presidenciais.
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"A ação montada contra Lula da Silva insere-se neste processo mais geral de desestabilização", sublinha o PCP, considerando que o que sobressai nos recentes acontecimentos no Brasil não é a tentativa de combater a corrupção e um sistema político e eleitoral que a favorece, mas "uma ação protagonizada pelos setores mais retrógrados".
O objetivo, prossegue o PCP, é "a criação das condições para a reversão dos avanços nas condições de vida do povo brasileiro alcançados nos últimos 13 anos".
"O PCP é solidário com as forças progressistas brasileiras, com os trabalhadores e o povo brasileiro e a sua luta em defesa dos seus direitos, da democracia, da justiça e progresso social", sublinha o partido.

quinta-feira, 17 de março de 2016


É hora de barrar o golpe

É hora de focar no que é essencial, é hora de barrar o golpe.

Creio que estamos chegando aos momentos decisivos de uma trama que vem sendo urdida há muitos anos. O golpe que agora está em pleno curso é a culminação de um longo processo de preparação. Um de seus elementos centrais foi a geração de uma ampla massa de pessoas capazes de repudiar publicamente aquela que foi a marca dos governos petistas – o combate à pobreza. O consenso de que a miséria era uma chaga a ser superada foi destruído com a penetração, planejada e amplamente financiada, de um discurso de extrema direita, que permitiu que uma camada social minoritária, mas ainda assim numerosa, assumisse sem culpas a percepção de que a redução da pobreza não era uma conquista, mas uma ameaça.
Também estiveram presentes os movimentos de ampliação da autonomia do aparato repressivo de Estado e, é claro, as investigações seletivas sobre a corrupção endêmica no Brasil, com a triangulação entre judiciário, Ministério Público e mídia. Assim, estava montado o cenário de uma ampla base de apoio à cruzada antipetista, com agentes dentro do próprio Estado capazes de levá-la adiante e um trabalho permanente de ocultação, diante da opinião pública, do processo que estava em curso.
O golpe se beneficiou dos equívocos do PT no governo – que agiu para desmobilizar os movimentos sociais, despolitizou a discussão na sociedade e acreditou numa política de acomodação e conciliação; e que, quando começou a ser acuado, apostou que resolveria o problema fazendo mais e mais concessões. Como já está claro há algum tempo, uma resposta fadada ao fracasso.
Nisso tudo, o juiz Sérgio Moro, por mais que em seus sonhos vista a fantasia de Mussolini de Curitiba, é apenas uma engrenagem. É um pobre coitado que fica feliz de tirar fotos ao lado de João Doria Jr. Ele é tão útil, e por isso assumiu uma posição de protagonista, por causa de sua completa falta de limites, de sua amoralidade, de seu desprezo olímpico pelos direitos; em suma, por causa de sua falta de compostura. Os tempos mudaram, as práticas são outras, mas Moro cumpre hoje uma função similar à de um delegado Fleury durante a ditadura. É o mastim que faz alegremente, balançando o rabo, o trabalho mais sujo.
O escandaloso grampo que atingiu a presidente da República, com o compadrio escancarado com a mídia que também foi revelado de forma indiscutível, mostra a depreciação final da magistratura em benefício do golpe. Moro não age como juiz, age como golpista e desistiu de fingir que não é assim.
O diálogo ilegalmente gravado de Dilma com Lula não prova nada, exceto o desespero da direita com a nomeação do ex-presidente para a Casa Civil e sua vontade de acelerar o golpe. A mídia, sendo a mídia que é, não se dá ao trabalho de apresentar interpretações minimamente equilibradas. É a maquinaria do golpe em andamento. Polícia e judiciário de um lado, a mídia de outro, a massa dos novos direitistas tocando fogo nas ruas, tudo para forçar uma solução apressada, contrária à Constituição e antidemocrática para a crise.
O golpe já está na rua. É hora de ver qual será a resposta das mulheres e dos homens comprometidos com a democracia. Para a esquerda, vale o recado: é possível condenar o governo Dilma, é possível criticar Lula por todos seus vacilos e recuos. Mas se o governo cair e se Lula for vítima do cerco ignóbil armado contra ele, quem dança é a esquerda brasileira inteira, que será inviabilizada como projeto de poder por décadas. Quem dança é o horizonte de uma sociedade igualitária, é a ideia de democracia como poder do povo sem tutelas, é a noção de que as liberdades devem ser protegidas para todos. É hora de focar no que é essencial, é hora de barrar o golpe.
***
O MOMENTO NÃO ADMITE VACILAÇÃO
“A ofensiva de Sérgio Moro e de setores da mídia para derrubada do governo atingiu seu ápice. Estão levando às ruas gente raivosa não apenas contra o PT, mas contra o que quer que seja associado a movimentos sociais e à esquerda. Não são poucos os relatos de agressão e espancamento de pessoas apenas por estarem de vermelho ou por se recusarem a aderir às palavras de ordem. Não se trata de defender o Governo Dilma, aliás indefensável. Trata-se de barrar uma sanha antidemocrática que, se vitoriosa, arrastará com intolerância qualquer movimento crítico, num verdadeiro caça às bruxas. Não é momento de vacilação, mas de posicionamento e ação.” – Guilherme Boulos, MTST

quarta-feira, 16 de março de 2016

A "babá" acompanha (como o servo da gleba) os seus patrões à manif anti-Dilma...



A questão dos imperialismos

III ENCONTRO CIVILIZAÇÃO OU BARBÁRIE-- Serpa, 2010

A QUESTÃO DOS IMPERIALISMOS
 
Nesta altura dispomos de distância suficiente para procedermos a uma
avaliação do século vinte; aliás, nem outra coisa têm feito diversificados
investigadores desde os finais do milénio. Desenvolve-se mesmo uma
interminável querela à volta do que foi a Modernidade, se ainda perdura ou se
transitámos para uma pós-modernidade. Posta nestes termos é provavelmente
a controvérsia mais importante das últimas décadas no pensamento
contemporâneo. Ora, as teses que se opõem nesse debate internacional
passam, ou deveriam passar, pela seguinte questão: podemos ainda falar de
um imperialismo? O capitalismo é ainda um sistema continuadamente
imperialista ou a “pós-modernidade” caracteriza-se por revolucionários eventos
e efeitos de uma “globalização” que excluiu a vocação imperialista do capital
com a qual também a Modernidade se constituiu? Tendo eu escolhido este
desafio tão complexo, tentarei responder tão breve quanto possível,
respeitando as condições destes notabilíssimos Encontros intitulados
«Socialismo ou Barbárie».
A bem dizer, de uma certa perspectiva, o século bem pode ter terminado
mesmo antes do fim do milénio, Quero dizer, sem ironia, que não é uma data,
esta ou aquela, que importa, mas o Acontecimento, pois que se admitirmos que
a Revolução de 1917 inaugurou uma nova época histórica, então o colapso da
URSS e de outros regimes socialistas encerrou-a. Não terminou de vez a
possibilidade de revoluções, nada de equívocos no que estou dizendo, mas
findou a época do protagonismo mundial de uma determinada super-potência
socialista. Esse acontecimento, um autêntico terramoto, mudou a história
mundial, que até então se realizava em grande medida pelo confronto entre o
capitalismo e o socialismo. Não estou fazendo juízos de valor sobre a
qualidade desses regimes socialistas, de resto bem mais diversos do que pode
parecer. Estou abordando um facto evidente. O curso do século passado não
se entende sem esse referencial: a competição entre os chamados «dois
blocos». A vocação imperialista dos Estados Unidos que se manifestou na
última década de oitocentos saiu fortalecida com o desmoronamento sucessivo
dos impérios coloniais europeus; o desfecho da Segunda Guerra mundial que
lhes permitiu a liderança económica e política do hemisfério ocidental. Contudo,
a vitória da URSS sobre o nazismo e a sua espantosa recuperação económica,
o seu poderio militar e o seu peso determinante na relação de forças mundial,
estimularam movimentos revolucionários por todo o planeta. Essa contradição
marcou, mais do que qualquer outra, a história universal. Isto é, a luta de
classes nos espaços particulares dos territórios nacionais, encontrou na luta
entre os dois sistemas uma dimensão mundial. A Modernidade já não
representava mais a hegemonia ideológica do liberalismo, essa mutação nem
sempre a vemos sublinhada pelas filosofias políticas. Não há visão
compreensiva desse larguíssimo período – a Modernidade - que se iniciou
provavelmente no século XVI e que contém o Iluminismo sem com este se
encerrar, que não inclua as correntes do pensamento socialista, expressão dos
ideais e das utopias mais avançadas, e a sua oposição aos credos liberais. Por
conseguinte, se o liberalismo triunfa apesar de tudo das experiências
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socialistas mais ou menos utópicas do século XIX, ele perdeu a sua hegemonia
a partir do sucesso da Revolução Socialista na Rússia e, mais vincadamente
ainda, com o prestígio e o peso na cena mundial da União Soviética. O
socialismo alimentava paixões e provocava debates, aproximava a
intelectualidade do proletariado, estimulava a criação artística e filosófica,
cindia irremediavelmente a Esquerda em partidos comunistas e socialdemocratas.
Na acção política ninguém permanecia indiferente perante aquele
novo mundo que representava a grande alternativa, finalmente concreta e não
mais utópica, ou, então, pelo contrário, representava a ameaça mais temível
para o pensamento conservador. A competição entre dois sistemas que se
afirmavam tão antagónicos, a esperança de que o sistema socialista realizava
finalmente o sonho milenar das multidões exploradas e oprimidas, caracterizou
uma época que jamais a humanidade conhecera. Essa foi a característica mais
marcante do século, força motriz da história que provocou, ou condicionou pelo
menos, uma série sucessiva de acontecimentos. Creio que nada disto é
controverso. O que me importa lembrar é a emergência de uma força mundial
de oposição às sociedades capitalistas, uma terça parte do mundo que se regia
por critérios não capitalistas, os imensos territórios abrangidos pela União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), por diversos países da Europa
central e, no extremo oriente, por esse colosso potencial que era a China. No
decorrer dos anos do pós-guerra os movimentos independentistas das colónias
dos antigos impérios alcançaram êxitos extraordinários e muitos desses novos
regimes opuseram-se ao imperialismo norte-americano e refiro particularmente
o movimento dos países Não-Alinhados que constituiu um importante travão
nos planos norte-americanos de hegemonia. Esses anos da nossa juventude
ensombrados pela ameaça da guerra nuclear não devem colocar no olvido ou
numa simples nota de rodapé dos livros de história os formidáveis progressos
políticos, económicos e sociais que traziam a marca das ideias socialistas. O
mundo mudara profundamente: uma enorme área do globo colonizada e palco
de rapinas sangrentas (a história do colonialismo e da escravidão sob o
capitalismo é das mais negras da história mundial) emancipara-se, se bem que
à custa de pesados sacrifícios (a brutal resistência dos imperialismos
colonialistas pode preencher uma grande parte do Livro Negro do capitalismo),
e aqui basta lembrar a Indochina, a Argélia e as colónias do império português.
Também é verdade que nem sempre as admiráveis tentativas de libertação
democrática e nacional foram vitoriosas: na América Latina, essa imensa
coutada para as corporações norte-americanas, as tentativas revolucionárias
ou as mais moderadas reformas democráticas e nacionalistas, quer fossem
mesmo por via eleitoral e pacífica, acabaram quase sempre esmagadas sob o
terror de ditaduras militares. É evidente que a existência do mundo socialista
estimulava mas não facilitava as revoluções nem garantia o seu sucesso. O
que pretendemos enfatizar é o inegável o poder de atracção exercido pelas
sociedades esperançosas da URSS, da China ou de Cuba.
Dever-se-á concluir, como muitos o fizeram na altura, que os difíceis equilíbrios
da Guerra Fria, ou os chamados imperativos geoestratégicos, deixavam de
certo modo as mãos livres aos Estados Unidos? Existiam zonas estratégicas
distribuídas entre as super-potências através de acordos cinicamente realistas?
De modo nenhum, embora a realpolitike funcionasse, como, de resto, funciona
sempre entre Estados. O obstáculo que impedia o imperialismo norte3
americano de atacar mais ainda, de atacar os próprios países socialistas, foi a
arma nuclear. Atacaram Cuba, o Vietnam, serviram-se da Eritreia para derrubar
o socialismo da Etiópia, desestabilizaram a Somália, eliminaram o primeiro
presidente do Congo democrático, depuseram a República no Irão e colocaram
um rei fantoche, organizaram planos para tomar o Suez e liquidar o Presidente
Nasser do Egipto, organizaram o golpe contra Sukarno e ajudaram a
assassinar um milhão de comunistas e ficamos por estes exemplos, não
excluindo o Afeganistão e a Palestina e os países do golfo arábico. É claro que
as estratégias que pressupunham a Guerra Fria, isto é que serviam para evitar
um confronto directo entre as duas super-potências, não foram de modo
nenhum um Tratado de Tordesilhas que dividisse o mundo em Ocidente e
Oriente, essa tese retorcida de um compromisso geoestratégico entre as duas
super-potências servia sobretudo para justificar a política imperialista dos
Estados Unidos; se compromissos houve foram então violados
descaradamente na Coreia, no Vietnam, Camboja e Laos, isto é, nas “barbas”
da China. Os Estados Unidos e os seus aliados nunca cederam o passo ao
progresso dos povos subjugados e quando não convinha intervir directamente,
intervinham indirectamente através de estratégias desestabilizadoras
terroristas, do golpismo sangrento, dos bloqueios económicos, do suborno de
políticos corruptos, da instalação de bases militares por toda a parte. De resto,
a principal ameaça de guerra nuclear proveio dos próprios Estados Unidos, a
corrida aos armamentos que eles promoveram é bem a prova provada, assim
como a criação da NATO que é anterior ao Pacto de Varsóvia. O real conteúdo
da Guerra Fria era a ambição dos EU e seus aliados em conquistar o máximo
de territórios do planeta, impedir a propagação das ideias e dos regimes
socialistas, ou até e apenas anti-imperialistas, e estes propósitos constituem
um só evidentemente. Se mais não conseguiram foi por causa da presença
poderosa da URSS, sobretudo, e da China. Era a estas e a outras forças de
oposição que eu me referia no início. Factos são factos. O século passado
pode, assim, ser caracterizado pela existência de duas forças opostas
equivalentes ou quase. O que uma fazia incomodava a outra, fazia-a recuar ou
estimulava a competição. Como todos sabemos estivemos à beira mais que
uma vez de uma Terceira Guerra Mundial. Qualquer acto cometido por um dos
lados podia provocar no outro uma resposta catastrófica. Essa espada de
Tântalo esteve suspensa sobre a cabeça de várias gerações. Evito fazer juízos
de valor sobre a natureza dos regimes socialistas, qualidade e diversidade.
Particularmente sobre a reiterada afirmação de que tanto a URSS era
imperialista como os EU e que, portanto, o século teria sido a confrontação
prolongada de dois imperialismos, um dos quais saiu derrotado. Não creio que
convertendo a expressão «imperialismo» numa expressão ambígua se facilitem
as coisas. Declaro já, sem equívocos, que reservo o termo e o conceito de
“imperialismo” para os Estados Unidos e seus aliados. Há duas interrogações
principais que justificam um esclarecimento tão preciso quanto possível do
termo e conceito de “imperialismo”: Primeira – A URSS era uma super-potência
imperialista ou não? Segunda – Existe um imperialismo hoje? No caso
afirmativo de que tipo é?
Não podemos em rigor caracterizar a URSS como “imperialista”, nem os factos,
nem os documentos comprovam tal designação construída e promovida pela
propaganda do ocidente capitalista e explanada em teorias profusamente
4
vendidas. A utilização de noções vagas, arbitrárias, não enfraqueceu, porém, a
eficácia, bem pelo contrário, dessa propaganda, que provocava o medo e
justificava o verdadeiro imperialismo. Houve famosos intelectuais que
consideravam imperialistas ambos os lados e, por isso, se refugiavam em
neutralidades cómodas. É preciso que se diga que o consenso que permitiu o
Movimento dos Não-Alinhados não se baseava principalmente no pressuposto
de «entre dois imperialismos, não escolhemos nenhum», ainda que ele fosse
porventura real, mas em objectivos sobretudo económicos, isto é, um programa
de desenvolvimento não-capitalista autónomo e tratados de comércio comum e
multilateral. O projecto que justifica a designação «Não-Alinhados» explica-se
pela co-relação de forças interna desses países, pela maior ou menor força das
suas próprias burguesias.
Penso que a URSS não construiu um império. Foi evidentemente hegemónica
no Leste da Europa mas nunca o foi no resto do mundo. Não vale de nada
construirmos cenários improváveis do género: se o mundo capitalista fosse
demasiado fraco, a URSS ocuparia a Europa com os seus exércitos…Só de
uma coisa temos a certeza: o desejo e a esperança de uma revolução mundial
alimentou a mente de milhões de seres humanos, e não foi evacuada
definitivamente do horizonte. Com Lenine e com Estaline a Rússia soviética,
depois URSS, sempre afastou a estratégia de exportar a revolução, e sabe-se
como foi longa e crispada essa querela à volta do «socialismo num só país».
As intervenções externas da União Soviética, algumas muito controversas
(como no caso da Checoslováquia), não bastam para as caracterizar como
imperialistas, porque não resultavam de um modo de produção cujo processo
de acumulação exigia o imperialismo como necessidade intrínseca de exportar
o capital e aumentar os super-lucros. Devíamos concluir que, pelo contrário, a
URSS ou a China impediram, ou travaram pelo menos, a mundialização
capitalista. Mais claramente: se não fosse a existência de mundo não
capitalista (os países socialistas e outros regimes que se opuseram ao
imperialismo capitalista) a chamada “globalização” já estaria imposta desde as
ruínas legadas pela 2ªGuerra Mundial. De facto, em 1945, com a derrota da
Alemanha e do Japão, a União Soviética impedida de ser erguer das ruínas, os
Estados Unidos tornar-se-iam senhores absolutos do planeta, a Europa, o
extremo oriente a América Latina seus protectorados. Mas a história não lhes
correu de feição, apesar de tudo: a URSS ergueu-se rapidamente para
surpresa de todos, a China libertou-se e, sucessivamente, outros países
aproveitaram as circunstâncias e seguiram diversos rumos convergentes de
progresso e democracia. As grandes transformações e conquistas sociais dos
povos e dos trabalhadores devem-se principalmente, digo eu, à influência
positiva exercida em todo o mundo pela Revolução de Outubro e, mais tarde,
pela vitória da URSS sobre o nazismo e pelos progressos sociais que os
países socialistas realizavam, para inspiração dos sindicatos operários e dos
partidos políticos da Esquerda. O próprio New Deal e a prática das teorias do
economista Keynes nos Estados Unidos é impossível desligar tudo isso da
influência dos ideais progressistas que os progressos e os êxitos do mundo
socialista inflamavam. Algumas derrotas dos partidos comunistas logo no pósguerra,
como sucedeu nomeadamente na Itália, e sabe-se como para tal
contribuíram os Estados Unidos, os clérigos e as máfias, não colidem com a
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afirmação anterior, evidenciam, pelo contrário, os planos imperialistas dos
Estados Unidos já elaborados quando a derrota do Eixo nazi-fascista se
anunciava. Na verdade as hesitações e atrasos nos exércitos dos aliados
evidenciam o cálculo de permitir-se que a União Soviética ficasse de tal modo
destruída e desorganizada económica e politicamente, que tornassem
possíveis revoltas internas para acabar com o comunismo de vez. Pesem
embora todos os defeitos de Estaline e todas as críticas que lhe possam ser
assacadas, o seu papel na Conferência de Yalta foi absolutamente decisivo
para fazer frustrar os planos dos Aliados. O que queremos afirmar com clareza,
sem tibiezas, é que a Segunda Guerra Mundial foi provocada pelos
imperialismos nazi-fascistas, mas a entrada nela dos Estados Unidos visava
planos imperialistas bem conhecidos e apoiados pelos governos das nações
suas aliadas, planos de que o Partido Comunista da União Soviética teve
perfeito conhecimento e em boa parte frustrou. Insistimos nisto: o século vinte
não foi o século da estrada real do imperialismo, mas o século em que ele não
avançou tanto e tão depressa como desejava, em que sofreu derrotas e recuos
de formidável alcance. Foi simultaneamente o século do socialismo. Nele se
apresentou com foros de realidade aquela bela utopia concreta sobre a qual
tão bem escreveu Ernst Bloch, nele se depositaram as melhores esperanças,
se realizou um rol impressionante de grandiosas conquistas e de muitas outras
mais modestas que, somadas, exprimem profundas transformações no modo
de vida das populações, direitos que tornaram a liberdade mais livre e a
segurança mais duradoira, nos contractos de trabalho, nos tempos de trabalho
e de repouso, na protecção da saúde, na educação, na promoção da
emancipação das mulheres, no cuidado e importância atribuída às crianças e
jovens, etc. A história não caminhou apenas pelo lado mau. A civilização
avançou, as doutrinas contidas na ideologia progressista da Modernidade, do
Iluminismo, da Revolução Francesa, do vasto movimento operário que gerou
os partidos sociais-democratas e, a seguir, comunistas, não se baldaram de
todo. Nenhum historiador que se diga sério pode minimizar tantas e tamanhas
mudanças benéficas na vida dos seres humanos. Foi porque a civilização
avançou extraordinariamente mercê das lutas dos trabalhadores, que se
compreende porque é que hoje parece estender-se um cenário de luto por um
passado perdido. Mas sim, se a barbárie imperialista sob a ideologia nazifascista
ou sob a ideologia liberal-democrática devastou comunidades e vidas,
não o fez mais e pior porque se confrontou com a força das armas, fossem
estas as greves ou as espingardas. Se apenas o imperialismo dispusesse da
bomba, a história seria completamente outra.
A influência dos países socialistas e dos ideais comunistas explica também o
desenvolvimento das esquerdas alternativas, isto é, das sociais-democracias,
que desde o seu início nos alvores do século serviam sobretudo para satisfazer
algumas reivindicações operárias de modo a impedir as sublevações radicais.
O que é certo é que, apesar desse oportunismo, ou por causa da correlação de
forças, os trabalhadores alcançaram substanciais benefícios nas décadas
seguintes. Os teóricos anti-comunistas apressaram-se a afirmar que tais
progressos, o Estado-Providência como costumam designar (que é uma
expressão da doutrina social da Igreja), se deveram à vontade do capitalismo
mercê do surto de desenvolvimento que recebeu no pós-guerra, a começar
pelos Estados Unidos que beneficiaram amplamente com a Guerra Mundial.
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Ou seja, o Estado Social seria uma criação capitalista, efeito imanente do seu
modo de produção, produzindo a abundância e, portanto, os benefícios sociais.
Os factos não demonstram isso. Sem a força dos partidos e movimentos
sociais, sem a influência positiva do mundo socialista, sem a massiva atracção
pelos ideais socialistas, não existiria capitalismo algum tão bondoso que
oferecesse férias pagas aos trabalhadores, contratos colectivos e concertação
social, serviços de saúde e de educação gratuitos, etc. Foram conquistas e não
dádivas, e conquistas por vezes bem difíceis. Onde o capitalismo pôde
implantar ditaduras, implantou-as, como aquela que sofremos em Portugal
dezenas de anos, com pouco incómodo para os interesses ditos democráticos
dos Estados Unidos.
O que temos vindo a dizer sobre a dialéctica, se assim me posso exprimir,
entre os mundos capitalista e socialista ao longo do século passado, não exclui
de modo nenhum as tendências objectivas inerentes ao modo de produção
capitalista. As tendências para elevar a taxa de lucro, a acumulação,
concentração e centralização, constituem factores suficientemente constantes
para podermos falar numa lógica imanente do modo de produção capitalista
que o obriga a expandir e a diversificar os mercados, a aumentar o peso
relativo do capital constante e a “revolucionar”, digamos assim, as tecnologias,
a desencantar o mundo impregnando-o de novos encantos, a submeter todos
os indivíduos às necessidades artificiais e variáveis de consumo. O capitalismo
já possuía essas e outras tendências antes da existência do mundo socialista.
Queremos dizer, contudo, que é insuficiente, e até mesmo insustentável, uma
explicação dos rumos de desenvolvimento do capitalismo que não tenha em
conta a luta de classes no interior do modo de produção. A contradição entre
as relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas traduz
essa dialéctica imanente. Refiro-me particularmente à contradição entre duas
tendências: a tendência para a socialização da produção (talvez a tendência
principal se compreendo correctamente o pensamento de Marx) , isto é, a
concentração da produção e distribuição, organização e racionalização, a
constituição de grandes grupos em lugar de indivíduos isolados, as empresas
públicas ou tuteladas pelo estado, a generalização de mercadorias, serviços e
tecnologias para um número sempre crescente de indivíduos, povos e países)
e a tendência para a sobre-exploração, divisão social do trabalho e a alienação
e subjugação do trabalhador em relação ao processo de produção do início ao
fim, para a precariedade e fragilização dos contractos de compra e venda da
força de trabalho, manutenção de um exército de reserva de desempregados
ou excluídos do sistema por via da racionalização das forças de produção,
utilizados como arma de chantagem sobre os salários e as lutas dos
trabalhadores. A passagem da mais valia absoluta à mais valia relativa
evidencia precisamente a existência dessa oposição de forças, do lado da
capital e do lado dos trabalhadores, ou seja a resposta do capital à diminuição
da jornada de trabalho introduzindo novos métodos para manter e até
aumentar a produtividade e, portanto, o sobre-valor e os lucros.
O século passado conheceu progressos de vária ordem tanto no mundo
socialista, como no mundo capitalista. Todavia, muitos destes progressos
foram efeitos derivados, não constituíram um devir racional da História. Se
assim fosse o socialismo seria hoje o sistema dominante. Foram por vezes
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obras do acaso, acontecimentos não previstos, antagonismos, resultados da
luta de forças, da correlação de forças, do desenvolvimento de tendências
contraditórias. O progresso ideal para o capitalismo, a sua utopia, digamos
assim, é agora, como foi sempre, converter todos cidadãos, todos os indivíduos
de qualquer idade ou condição étnica, cultural ou geográfica, todos os
trabalhadores, em mercadoria e consumidores de mercadorias, submeter todos
os trabalhadores à obediência, empregados uns, desempregados outros,
qualificados uns, desqualificados outros, incluir uns, excluir outros, através de
um controlo absoluto, de uma regulação totalitária (e aqui cabe bem esta
expressão bastante ambígua, aliás) inculcando desejos e programando-os
segundo as necessidades do capital. Um só território do tamanho do planeta
para o capital, um só mercado mundial, um imenso exército de corpos e
cérebros completamente domesticados, um só pensamento, um desejo
condicionado. Mas esta distopia assustadora não é, felizmente, realizável. O
modo de produção não é somente constituído pelo capital, mas também pelos
trabalhadores. A relação das forças entre quem produz e quem lucra
condiciona o apetite pantagruélico do capitalista. A liberdade relativa do
trabalhador é uma condição para o mercado de compra e venda da força de
trabalho, a massificação universal do consumo não funciona com uma imensa
massa de consumidores sem um mínimo de poder de compra e de livre
arbítrio, ainda que este possa não ser mais que uma ficção útil, os
trabalhadores necessitam de repouso e outras condições necessárias à
reposição da sua força de trabalho, embora os seus tempos livres possam ser
cada vez mais absorvidos pelo negócio dos tempos livres, da saúde, dos
cuidados com o corpo, da imagem e do espectáculo. O capital ambicionaria um
trabalhador completamente passivo, contudo é a resistência do trabalhador que
impele o capital a transformar os métodos e as tecnologias, que se traduz
naquilo que é comum designar-se como o «progresso técnico». São, sem
dúvida, progressos na acumulação do capital, mas também um longo e sofrido
rol de conquistas sociais dos trabalhadores. Uma guerra incessante: conquistas
que se arrancam a ferros, conquistas que por vezes se virão a perder. Como se
constatou nenhuma conquista social era eterna. Não o foi o mundo socialista,
não o foram os Estados Providência. A relação de forças é que determina a
orientação do progresso ou do retrocesso.
O capitalismo ajusta-se às condições do mercado conforme a relação de
forças. No final do milénio e antes da erupção da actual crise o capitalismo
procurava seduzir os trabalhadores com a promoção de um cooperativismo no
interior das empresas, os ideólogos do regime apresentavam as novas
empresas de ponta como exemplos de cooperação, de empresas-família, de
assalariados transfigurados em “colaboradores”, de um taylorismo que dava
rapidamente lugar a um neo-taylorismo mais humano. Teóricos houve que,
constatando a socialização crescente da produção como tendência imanente
na qual a cooperação aumenta exponencialmente compensando os malefícios
da divisão e especialização do trabalho, acreditaram haverem-se criado, deste
modo, condições objectivas e subjectivas para se erguer um modo de produção
socialista, isto é, a conjunção das novas tecnologias com novas relações de
produção. Admitamos que sim, que o potencial está à superfície, mas o que
fazer com esse potencial é que é a questão mais complicada. A socialização
existe de facto, e é mesmo planetária ou tende a tal, a cooperação no novos
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processos de trabalho é realmente possível, Marx refere-se-lhe claramente nas
páginas de O Capital, tudo isso é indiscutivelmente verdadeiro e importante,
mas as teorias da convergência do socialismo e do capitalismo por osmose
reformista nunca se realizaram na prática. Tal potencial facilita a transição para
o socialismo de que forma: pela revolução ou por reformas? De uma maneira
geral as teorizações pós-modernistas de há uns anos atrás exprimiam
paradoxalmente uma visão conformista do mundo, as suas conclusões sobre a
capacidade infinita do capitalismo reconfigurar-se a si próprio a transformar
todos os lugares do mundo onde chegava, conduziam a uma capitulação,
viesse ela sob a fórmula de um pragmatismo sem outros horizontes senão o
presente, ou sob a fórmula reconhecida das utopias. Não é de todo exagerado
classificar determinadas teorias como uma subtil propaganda capitalista. Não é
verdade que se promove a descrença e a desistência relativamente a uma
alternativa radical quando grande parte dos propósitos de demolição
sistemática da Modernidade transmitem a rejeição completa e definitiva dos
regimes socialistas, passados e virtuais, e da dialéctica da luta de classes?
Não é verdade que quando Marx é referido é para dele se omitir, ou mesmo
criticar, a sua primeira e última intenção: o derrube do capitalismo? O
aproveitamento do declarado potencial libertador do capitalismo parece
apresentar-se como a utopia possível, que, ao contrário das anteriores,
rejeitadas e desacreditadas, já não ousa imaginar uma sociedade sem
capitalismo.
Entretanto sobreveio a crise, ou o seu brutal agravamento. Determinadas
utopias desfizeram-se subitamente em fumo. A realidade moveu-se mais
depressa que o pensamento que a queria conter nas suas margens.Com o
estoiro da economia dos Estados Unidos e da Europa a ideologia quase que
emudeceu à procura de novas fórmulas filosóficas que transfigurem os
retrocessos civilizacionais em putativos avanços. A propaganda dos testas-deferro
do capitalismo e os seus ideólogos de serviço apressam-se agora a
convencer toda a gente do dever de todos cooperarmos para sairmos da crise.
Enquanto se apela ao patriotismo torpedeia-se a soberania nacional. Enquanto
se pede com lágrimas de crocodilo a colaboração de todos na transcendente
tarefa de salvar a economia sem a qual não há empregos, despedem-se
trabalhadores, retrocedem as regras do trabalho, permite-se a chantagem dos
financeiros e especuladores e reforçam-se os poderes de organismos
internacionais que mais do que regular os capitais, impõem velhas receitas de
exploração e de acumulação do capital. O capitalismo mudou sim, mas para
pior, andou sim, mas para trás. O capitalismo retroage, impondo, pela força ou
pelos consensos, ou pela chantagem, políticas de austeridade, que procuram
de novo subjugar os trabalhadores, povos e países inteiros. A empresa-família
é novamente a empresa administrada e controlada até ao limite pelos
capitalistas e seus agentes. Um capitalismo sem rosto humano, já sem a treta e
o truque do combate anti-comunista da Guerra Fria. O “socialismo
democrático”, bandeira das sociais-democracias e da auto-intitulada “Nova
Esquerda”, faliu, a sua deriva para um capitalismo sem rebuço já se anunciava,
aliás, muito antes desta última crise. Porque, importa dizer que tomou o freio
nos dentes desde, pelo menos, a administração de Reagan e da senhora
Tatcher. Importa dizer que a sua arrancada em direcção a um controle absoluto
não se iniciou por causa da derrocada da União Soviética, foi ela mesma que
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funcionou como alavanca para derrubar o bastião adversário. Ora, o que é isto,
o que tem sido isto, senão um imperialismo? A expressão “neo-liberalismo”
com que se classifica o capitalismo contemporâneo é adequada para se
designar uma orientação dita “monetarista” também conhecida por teoria da
“Escola de Chicago”, que se opunha à escola que defendia as teorias
económicas de Keynes. Um papel maior do Estado, investimentos públicos,
uma distribuição da riqueza que se pretendia mais equitativa; um determinado
contrato social com os sindicatos e virada para a produção de bens e para o
consumo. Um modelo norte-americano que se associava ao seu melhor
período de prosperidade. Na Europa vigorava o Estado Social, cuja relativa
estabilidade e bem-estar constituiu uma barreira protectora contra os projectos
revolucionários e uma competição cada vez mais difícil de ser prosseguida com
sucesso pelas economias colectivistas do Leste. O neo-liberalismo é, portanto,
uma política exportada e imposta pelos Estados Unidos aos mais renitentes
dos seus aliados europeus. Foi porque a Europa entrou em decadência que se
viu obrigada a adoptar o neo-liberalismo? Não. Foi porque os Estados Unidos
impuseram as suas regras no comércio mundial e controlavam os processos de
financiarização das economias, a começar pela deles. Os Estados Unidos é
que entraram em decadência. O Estado Social depois é que começa a ser
desmantelado, os códigos do trabalho, os direitos, etc. As crises periódicas do
capitalismo foram aproveitadas para uma reordenação das forças na luta de
classes. Uma nova ordem mundial estava já na forja antes mesmo do 11 de
Setembro, esse singular acontecimento cujas causas são tão nebulosas que
admitem todas as suspeitas, mas cujas consequências vieram demonstrar com
toda a evidência os planos imperialistas do capitalismo. A história do
capitalismo, desde pelo menos a Revolução Industrial, esclarece-nos sobre o
seu insaciável apetite global pelas recursos energéticos que alimentam a
produção, o mercado e a rentabilidade do capital. O controlo dos meios de
produção desempenha um papel tão crucial como a exportação de capitais e a
multiplicação do dinheiro, associam-se e compõem a vocação imperialista do
Capital.
A minha comunicação intitula-se «A questão dos imperialismos». Terei saído
completamente do tema ou aquilo que descrevi são pedaços de um puzzle que,
dispostos nos seus devidos lugares, nos dariam o retrato do imperialismo?
Creio que sim, não falei eu de outra coisa senão do imperialismo.
Usualmente tomamos a expressão «imperialismo» no sentido da dominação
das grandes potências do Ocidente sobre os países pobres, do Norte sobre o
Sul, do Primeiro Mundo sobre o Terceiro Mundo. Dizer “ imperialismo” é uma
outra forma de dizer «colonialismo», «impérios coloniais», ou «neocolonialismo
» para o distinguir do colonialismo oitocentista, ou ainda, como era
usual há umas décadas atrás, o “imperialismo” é a exploração exercida pelo
mundo industrializado sobre o mundo camponês. Compreende-se que estes
significados, económicos e políticos, hajam sido enfatizados na segunda
metade do século passado mercê da importância especial das revoluções
operadas pelos novos países do Terceiro Mundo, que vinham substituir as
revoluções nos países desenvolvidos, consideradas já impossíveis. A influência
da China foi decisiva nesse contexto.
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No fundo esse significado deriva da teorização de Karl Kautsky (1854-1938),
figura de vanguarda do marxismo tradicional e da social-democracia, e não
creio que seja satisfatória; creio mesmo que faz tábua rasa da investigação que
Marx efectuou e expôs no Capital sobre a acumulação do capital, que culmina,
na maturidade, as teses muito antes expostas no Manifesto do Partido
Comunista, sobre a formação e expansão de um mercado mundial; atrevo-me
a afirmar que a base original da constituição do imperialismo, moderno e
contemporâneo, se encontra revelada nessa descrição visionária e genial do
processo de mundialização do capitalismo contida nesse livrinho pelo qual,
normalmente, os comunistas iniciavam a sua formação política. Certamente
que vários outros textos do punho de Marx poderiam ser citados relativamente
a este tema, mas o Manifesto e certos capítulos de O Capital bastam para
compor a teoria de Marx sobre a natureza imperialista do capitalismo. A
orientação expansionista deste, absolutamente inevitável quando nenhum outro
modo de produção com força equivalente se lhe opõe, é acompanhado pela
violência e pela guerra aberta e brutal, e tanto bastaria ler o texto de Engels «A
violência na história» que descreve com minúcia a constituição da grande
Alemanha sob o governo de Bismark e a competição entre as potências
europeias por territórios e recursos intra e extra europeus. O capital desde que
veio ao mundo transpira lama e sangue, Marx descreve a brutalidade da
exploração na parte de O Capital dedicada ao processo de acumulação do
capital (Livro Primeiro, Tomo III).
A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos
persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda
a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte. As
designadas sociedades-em-rede , a trama que entrelaça a circulação da
comunicação das actividades económicas, a circulação mundial de bens e de
dinheiro, confirmaram esta tendência e muito provavelmente o processo não
atingiu ainda o seu limite.
«A burguesia, pela sua exploração do mercado mundial, configurou de um
modo cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. Para grande
pesar dos reaccionários, tirou à indústria o solo nacional onde firmava os pés
(…) Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país,
entram (necessidades) novas que exigem para a sua satisfação os produtos
dos países e dos climas mais longínquos. Para o lugar da velha autosuficiência
e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio
omnilateral, uma dependência das nações umas das outras. E tal como na
produção material, assim também na produção espiritual.» Podemos ler estas
palavras no Manifesto, redigidas no ano longínquo de 1847! Nenhum outro
escrito, que não do punho de Marx ou Engels, que conheçamos, colocara até
então o problema nestes termos, mesmo aqueles que anunciavam os triunfos
do mercado e do modo de produção capitalista, nomeadamente Adam Smith e
David Ricardo. Na verdade, as teses expostas com clareza excepcional no
Manifesto, são absolutamente pioneiras e originais, sobretudo se não forem
desligadas do pensamento anterior e posterior de Marx. Anterior, porque
vemos delas prenúncios nos textos de A Ideologia Alemã (a tese da divisão
social do trabalho como fundamento dos diversos modos de produção) e nos
Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844; posterior, porque o imperialismo,
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com ou sem esse nome, é claramente dedutível da investigação científica
exposta por Marx na obra Para a Crítica da Economia Política , de 1859, onde
dedica dois capítulos ao comércio externo e ao mercado mundial e, sobretudo,
nas páginas de O Capital, por exemplo no subcapítulo que expõe a «tendência
histórica da acumulação capitalista» onde refere expressamente o “carácter
internacional do regime capitalista” e o “entrelaçamento de todos os povos na
rede do mercado mundial”. A natureza imperialista da burguesia e do capital,
tanto na economia como noutras áreas, é uma tese marxista, marxiana se
preferirmos esta expressão que atribui a Marx o que é de Marx e não de
vindouros. Se isto já for sabido tanto melhor. Mas objectar-me-ão: não se deve
a Lenine? Sim e não. Não se deve originalmente, como vimos: Lenine foi
provavelmente o melhor leitor de Marx (bem melhor do que Plekhanov e
Kautsky que traduziram e divulgaram algumas das suas obras). Lenine
compreendeu Marx e não omitiu teses deste muito provavelmente porque não
sofreu a deriva social-democrata , e essa compreensão leninista do
pensamento de Marx estará, creio eu, no plano teórico e no plano prático, na
origem da sua ruptura com a Segunda Internacional e nos ataques ao
oportunismo de Kautsky de quem fora amigo e admirador. As famosas teses de
Lenine sobre o imperialismo assentam, não tenho dúvidas, na teoria de Marx,
de quem, de resto, faz oportunas citações no seu pequeno mas substantivo
livro «O Imperialismo, Fase superior do Capitalismo». Não apenas porque
Lenine desenvolveu as teses de Marx ajustando-as ao capitalismo das
primeiras décadas do século vinte, e isso já seria bastante. A intenção
claramente exposta foi combater Kautsky e a deriva social-democrata. A
definição que Kautsky formulou de “imperialismo”, segundo a qual expressava
o domínio – exploração e opressão – dos países “agrários”, mais pobres e
atrasados, tornou-se tão usual no século passado que a sua origem foi
vulgarmente atribuída ao próprio Lenine, quando, na realidade, Lenine a
criticou duramente e sem contemplações no seu opúsculo. Kautsky afirmava
que se assistia apenas a uma das formas de evolução do capitalismo, que não
a suprema ou derradeira, «à exploração do mundo pelo capital financeiro,
unido internacionalmente», e, assim, a luta deveria ser orientada contra os
«trusts e carteis», os monopólios, conjecturando que essa fase poderia
transitar para uma outra, a que chamou “ultraimperialista”. As formulações de
kautsky sobre a nova fase mundialista do capitalismo apresentadas como uma
utopia pacifista constituíam um grave prejuízo para os objectivos das lutas que
as novas condições exigiam. Segundo Lenine a definição de Kautsky do
imperialismo era utópica na aparência e oportunista na essência. Lenine
procurou demonstrar que os anúncios pronunciados por Marx haviam-se
cumprido, manifestavam-se concretamente nas novas características do
capitalismo, novas não porque fossem acontecimentos singulares, aleatórios
ou casuais, sem passado e sem história, mas, pelo contrário, resultados
maduros de um processo, de uma tendência imanente que Marx descobrira: a
formação dos grandes grupos económicos (trusts, monopólios, multinacionais),
isto é a concentração e centralização do capital, a marcha para a formação de
um mercado mundial com um papel crescente e decisivo dos Bancos, isto é, o
entrosamento da grande indústria com a banca, o carácter cada vez mais
financeiro da economia, factor de enorme relevo para a internacionalização e
hegemonia dos oligopólios de ambição planetária. Mas também,
necessariamente complementar, a violência brutal, bárbara e desumana, que
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Marx já expressara nas páginas de O Capital, ou seja, a conquista do mundo
pela burguesia nunca se fez, nem se fazia na época em que Lenine criticou
Kaustsky, por via pacífica nem para aí se caminhava, muito pelo contrário, sim
pela destruição das economias locais, pela expropriação e proletarização
universal forçada, pela guerra entre nações ricas e não apenas destas contra
as mais pobres. A argumentação de Kautsky, que parecia irrefutável quando se
referia ao predomínio do capital financeiro (aliás, conclusões factuais já
avançadas por economistas de referência), escamoteava o potencial
agravamento da concorrência inter-capitalista, a competição por nova partilha
do mundo, e descolava o imperialismo do movimento imanente e objectivo da
totalidade do capitalismo. Não faz sentido descrever-se a concorrência intercapitalista
sem que se pressuponha a totalidade do capitalismo, isto é, o
capitalismo como um modo de produção, um sistema dotado de características
comuns em toda a parte, tendo nele inscrito as mesmas tendências, movendose
como uma máquina compressora sobre o globo. Não se tratava, para
Lenine, de um império à semelhança do império romano, política expansionista
de um país, ou vários, mais poderosos do que os demais, mas de uma
formação económica e social, atravessada por diferenças e contradições, cuja
base – a acumulação – criou um mercado mundial. O imperialismo vinha para
substituir os velhos impérios coloniais não superando a concorrência mas, ao
invés, conduzindo-a a extremos inauditos.
Todos conhecemos as teses defendidas por V.I. Lenine no seu famoso livrinho
«O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo». Contudo, talvez importe aqui
resumi-las para sustentar que elas correspondem ao pensamento de Marx e
constituem uma aplicação criadora a novas condições. A exposição assenta,
sobretudo, na análise demonstrativa da concentração da produção e na
formação dos monopólios. O aparecimento do monopólio devido à
concentração da produção é uma lei geral e fundamental da presente fase de
desenvolvimento do capitalismo, segundo Lenine. A concorrência transformase
em monopólio. Daí resulta um gigantesco progresso na socialização da
produção. Socializa-se também, em particular, o processo de inventos e
aperfeiçoamentos técnicos. «O capitalismo, na sua fase imperialista, conduz à
socialização integral da produção nos seus mais variados aspectos; arrasta,
por assim dizer, os capitalistas, contra a sua vontade e sem que disso tenham
consciência, para um novo regime social, de transição entre a absoluta
liberdade de concorrência e a socialização completa» (obra citada, p.31, edição
portuguesa). Esta tese, que persegue fielmente a teoria de Marx, é de enorme
importância. Ambivalência dialéctica: o capitalismo na fase imperialista dos
trusts, cartéis, monopólios, multinacionais, tanto impõe e administra a sua
liberdade absoluta ou quase, isto é, dominam o mercado mundial, partilham o
globo entre si «por contrato», como, simultaneamente, sem darem por isso e
sem o desejarem evidentemente, amadurecem as condições objectivas para a
sua socialização completa, na medida em que a produção é integralmente
social; social não já apenas porque abarca e serve um país inteiro, mas, numa
economia de colossal escala, abarca o globo. Reduz-se o particularismo,
dissolvem-se as economias locais e familiares. Em boa verdade já não fazem
sentido sequer economias regionais, porque estas servirão o mercado mundial
ou estão condenadas. Dialecticamente falando o mau contêm ao mesmo tempo
o bom, isto é, o aprofundamento do carácter social da produção. E Lenine
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subentende a tese marxiana de que quanto mais desenvolvidas forem os meios
e as relações de produção melhor se construirá o socialismo. Não será porém
neste livrinho que se responde à interrogação seguinte: nesse sentido,
tomando a tese à letra, será não somente possível mas mais fácil o socialismo
num só país? Ou seja, quanto mais as multinacionais se afirmam e o
capitalismo se converte numa força global é menos ou mais fácil o socialismo
num só país? Muito antes do debate sobre “o socialismo num só país” eclodir
entre Estaline e Trotsky, o oportunismo de Kaustky antevia na fase do
imperialismo a utopia de um capitalismo mais favorável à paz mundial, à
comunicação e ao consenso entre países, etc.
O outro elemento fundamental que Lenine explana para descrever a nova fase
como imperialista são os bancos; e uma vez mais desenvolve teses que Marx
expusera em O Capital. «(…) o desenvolvimento do capitalismo chegou a um
ponto tal que, ainda que a produção mercantil continue «reinando» como antes,
e seja considerada a base de toda a economia, na realidade encontra-se já
minada e os lucros principais vão parar aos «génios» das maquinações
financeiras. Estas maquinações e estas trapaças têm a sua base na
socialização da produção, mas o imenso progresso da humanidade, que
chegou a esta socialização, beneficia…os especuladores.» (obra citada, p. 32).
Palavras proféticas que melhor do que nunca se aplicam aos nossos tempos.
«A supressão das crises pelos cartéis é uma fábula dos economistas
burgueses, que põem todo o seu empenho em embelezar o capitalismo. Pelo
contrário, o monopólio que se cria em certos ramos da indústria aumenta e
agrava o caos próprio de todo o sistema da produção capitalista no seu
conjunto.» (obra citada, p.33).
O desenvolvimento das trocas a uma escala cada vez mais mundial, é uma
tendência inelutável do capitalismo entregue a si próprio. O desenvolvimento
desigual, por saltos, das diferentes empresas e ramos da indústria e dos
diferentes países é inevitável sob o capitalismo.
As afirmações de Lenine ganharam toda a actualidade nos tempos vindouros.
As crises económicas tornam-se cada vez mais profundas e mundiais, o
desemprego não só tem vindo a aumentar como adquiriu um carácter crónico.
Aumenta o domínio através do militarismo que ao mesmo tempo que revela a
decomposição e o parasitismo do capitalismo, é utilizado para oprimir e
intimidar. Daí os enormes gastos com as armas que tanto enriquecem os
monopólios que as produzem como debilitam as economias. Daí o contrabando
de armas, a corrupção e a militarização de regimes fantoches. A Guerra Fria,
causada e sempre alimentada pelo capitalismo, e que constituiu um factor de
monta para a estagnação da economia da União Soviética, prova sobremaneira
as teses leninistas. Aprisionado num ciclo vicioso o militarismo devora recursos
tanto das potências imperialistas como dos países dominados, empobrece e
arruína os povos e, numa escalada sem fim, prepara infindavelmente novas
guerras.
A violência política é, antes de mais, uma função económica. Desenvolve-se no
mesmo sentido que a evolução económica, contribuindo tanto para a acelerar,
como para a refrear. O Capital é incapaz de suprimir a violência e o militarismo,
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violência que começa na expropriação e consequente proletarização e culmina
na invasão de nações, ameaças e intimidações. A Conferência que a NATO
realiza em Novembro precisamente num país periférico e dominado como
Portugal, é prova bastante não de um “ultraimperialismo” de concórdia, um
novo “Império” auto-regulado que aprendeu finalmente a unir concorrentes
agressivos por meio de acordos pacíficos, mas, sim, do reforço e alargamento
de uma tremenda força militar liderada pelos Estados Unidos que prossegue as
suas finalidades originais de intimidação das nações que se lhe oponham, de
intimidação e de intervenção militar sempre sob a capa mentirosa da «defesa
do mundo livre», dos «direitos humanos» ou do «mercado livre». O
imperialismo é a tentativa de submeter totalmente o mundo, através de trocas
desiguais, da rapina de recursos, do controlo do mercado de capitais, da
hegemonia tecnológica e do controlo dos meios de comunicação de massas, e
tudo isto é inseparável da utilização dos meios militares quando necessário e
sempre que possível.
O propósito de Lenine é desenvolver a tese de Marx da formação do mercado
mundial relacionando-a com a teoria da acumulação. Quando esse
imperialismo já se expandia nos inícios do século, alguns outros viram nessa
transformação virtuais vantagens para a paz e para os consensos, como outros
voltam a vê-las com a chamada “globalização”. Ora, a fase superior do
Capitalismo foi e é, afinal, a fase do seu militarismo mais brutal, desde as duas
guerras mundiais à Guerra Fria, desde a Indochina ao Médio Oriente. É a fase
da sua decomposição e decadência, por mais fôlegos que tenha, e do seu
comportamento parasitário, como se demonstra pela rapina dos poços de
petróleo e pelo elevado grau de consumo nos Estados Unidos garantido pela
exploração dos países dominados. Já foi há tanto tempo que terminou a fase
“heróica” e “revolucionária “ da Burguesia que nos provoca um espanto triste
certos filósofos e pensadores contemporâneos que conseguem vislumbrar no
capitalismo ainda um potencial de revolucionamento permanente, talvez
iluminados até à cegueira pelos progressos tecnológicos. Todas as taras
estavam exacerbadas ao tempo em que Lenine redigiu a obra que temos vindo
a citar; se assim já o era, cem anos depois não temos mais adjectivos para as
classificar. As crises sucediam-se cada vez mais graves, foi Lenine que o
disse, e não podia sequer adivinhar a crise de 1929 e a crise que ora
atravessamos sem fim à vista…
A monopolização não trouxe o fim da concorrência, o fim da rivalidade intercapitalista,
como interpretou Kautsky. A tese de Marx e, portanto, de Lenine, é
esta: a monopolização junta-se à concorrência e nesta combinação
intensificam-se uma à outra. É esta dialéctica que introduz o imperialismo. As
rivalidades inter-capitalistas, a exportação de capital e a deslocalização das
empresas para os países subdesenvolvidos promoveram o desenvolvimento
das forças produtivas nessas áreas do globo, gerando um vasto proletariado
mundial e fazendo entrar essas regiões no palco das modernas lutas de
classes.
Não sabemos o que farão as famosas “multidões” enaltecidas por Michael
Hardt e Antonio Negri no seu livro intitulado «Império»… Promovido por esse
novo avatar em que se transfigurou o capitalismo, essa entidade abstracta,
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sem espaço e sem tempo, a que chamaram “Império”, a mobilidade e a
circulação dessas multidões “nómadas” é o traço novo do capitalismo
contemporâneo que teria deixado de ser imperialista. Segundo eles estas
multidões “nómadas” apropriam-se do espaço e constituem-se em “sujeito
activo”. Como é que “multidões” alcançam consciência de “sujeito activo”? Em
vez de “massas”, multidões; em vez de classes, multidões. Eles mesmos se
interrogam: «Como podemos reconhecer (e revelar) uma tendência política
constituinte dentro e mais além da espontaneidade dos movimentos da
multidão?» (Imperio, Paidós, Barcelona, 2002, p.361,) Realmente esse é o
calcanhar de Aquiles de um livro ambicioso que ganhou foros de notoriedade.
Os autores esforçam-se por demonstrar que a fase do imperialismo transitou
para a fase do Império, hegemonia global da qual, dizem, «os Estados Unidos
não constituem –e, em realidade, nenhum estado-nação pode hoje constituir –
o centro de um projecto imperialista. O imperialismo terminou. Nenhuma nação
será o líder mundial como o foram as nações europeias modernas». » (sic, p.
15). O Império é, assim, a nova forma global de soberania composta por uma
série de organismos nacionais e supra-nacionais…Bem, esta caracterização de
um putativo Império que viria encerrar a fase dos imperialismos, assemelha-se
de algum modo à tese de Kaustky sobre um “ultra-imperialismo” que viria
resolver a competição guerreira entre os imperialismos através da possibilidade
de uniões e acordos, o que facilitaria o desenvolvimento de reformas sem
necessidade de recorrer a rupturas radicais e violentas. Ou seja, um
capitalismo monopolista sem imperialismos, regulado por um supraimpério…
difuso e nebuloso.
Porquê tratar o tema do imperialismo? Porquê revisitar o célebre livro de V. I.
Lenine? Primeiro, porque a noção de «imperialismo» é de importância crucial,
sempre o foi mas hoje não menos do que antes, talvez mais importante hoje,
para descrevermos o mundo, os seus traços e as suas tendências da
economia, da política, das ideologias, para nos insurgirmos e acreditarmos na
necessidade e possibilidade de uma alternativa, para definirmos os fins e
construirmos os meios. Tudo isto em grande parte depende da definição que
atribuirmos ao conceito de imperialismo. Para situar a reflexão servi-me do livro
de Lenine, porque me pareceu oportuno expor a sua actualidade, apesar de
aqui e ali necessitar de correcções e readaptações que cem anos de história
exigem e justificam. Não se deve enterrar a cabeça na areia e fingir que nada
aconteceu entretanto, que o capitalismo não mudou absolutamente nada e que
a época das revoluções se abre prometedora para as nossas lutas, como
afirmara então Lenine. Contudo, na sua essência, o imperialismo não terminou,
os cinco traços fundamentais que Lenine viu no imperialismo não se
evaporaram neste capitalismo desregulado e neo-liberal. A acumulação criou
um mercado mundial, o capitalismo atravessou vários períodos até culminar no
imperialismo que é a sua fase monopolista, ou, se preferirmos, das
corporações multinacionais, que têm vindo a demolir as formações sociais nãocapitalistas
e a oprimir pela exploração aberta e pela violência descarada
sempre mais povos e populações do globo; as potências capitalistas continuam
a dividir o mundo em esferas de influência, neste caso um mundo apto a sofrer
um novo ordenamento após o colapso da União Soviética, a concorrência intercapitalista
agudiza-se com a relativa inércia e dependência da economia
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estado-unidense e com a entrada na arena do mercado mundial das pujantes
economias da Ásia, etc.
Finalmente, importa porventura reafirmar a actualidade e a incontornável
importância dos textos de Marx e de Lenine para nos ajudarem a compreender
já não digo o presente conjuntural, mas a história de prazos longos, como
exigia a boa historiografia da escola de Braudel. A periodização do
comportamento multicentenário do capitalismo revela-se, assim, de uma
importância evidente a todos os títulos, porquanto não pertenço ao número dos
que acreditam que o imperialismo transitou para uma nova fase, em que se
torna um movimento, um movimento difuso e algo virtual como aquelas noites
em todos os gatos são pardos. O neo-liberalismo não corresponde ao fim dos
imperialismos e a uma nova civilização, mas, pelo contrário, a um terrível
retrocesso civilizacional imposto por um capitalismo de bandidos. Nunca foi tão
premente falar de Lenine, de Marx, como agora, num tempo em que se tenta
criminalizar o «comunismo», se silencia o mais que se pode o marxismo e não
poucos intelectuais abandonaram a sua formação marxista. A ofensiva
agressiva do capitalismo é demasiado visível em múltiplas áreas do planeta
para nos permitirmos ignorar o debate sobre o que é o capitalismo hoje, qual o
grau e natureza da sua pulsão, digamos assim, imperialista. Há também
demasiadas utopias, algumas bem oportunistas, para que nos deixemos
embalar por elas ou calarmos a nossa crítica. Há derrotas, há lições a extrair,
há debilidades e contradições nos movimentos operários da Europa e não só,
nas organizações sindicais e nos partidos políticos, há desistências
desastrosas nas sociais-democracias. Mas há também resistências, às vezes
de tipos novos, inesperados, muito diferenciadas, que vão desde as de cariz
religioso a outras que parecem retomar os programas independentistas e
nacionalistas de décadas atrás. Há, em suma, a «globalização», nome que
conquistou a linguagem comum e que para a qual se encontram dúzias de
interpretações diferentes. “Globalização” é capitalismo, e sendo-o, é
imperialismo? Eis a questão.

José Augusto Nozes Pires
Outubro de 2010

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.