quarta-feira, 31 de maio de 2017

Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
_____________________________________________ Do Livro “UM OUTRO OLHAR SOBRE STÁLINE”, de Ludo Martens, edição de “Para a História do Socialismo”, Documentos, agosto de 2009 (pp. 149 a 172), também postado em: http://www.hist-socialismo.com/docs/UmOutroOlharStaline.pdf
Colocado em linha em: 2017/03/10
A colectivização e o «holocausto ucraniano» [1]
Ludo Martens *
[A publicar em 2 partes; hoje, publica-se a primeira]
As mentiras debitadas sobre a colectivização foram sempre as armas predilectas da burguesia na guerra psicológica contra a União Soviética. Analisamos aqui o mecanismo de uma das mentiras mais «populares», a do holocausto cometido por Stáline contra o povo ucraniano. Esta calúnia brilhantemente elaborada devemo-la ao génio de Hitler. No seu Mein Kampf, escrito em 1926, já tinha indicado que a Ucrânia pertencia ao «lebensraum» [espaço vital] alemão. A campanha lançada pelos nazis, em 1934-1935, sobre o tema do «genocídio» bolchevique na Ucrânia, destinava-se a preparar os espíritos para a projectada «libertação» da Ucrânia. Veremos por que esta mentira sobreviveu aos seus criadores nazis para se tornar numa arma americana. Eis como nasceram as fábulas sobre os «milhões de vítimas do stalinismo».
Em 18 de Fevereiro de 1935, nos Estados Unidos, a imprensa de Hearst - o grande magnata da imprensa e simpatizante dos nazis - inicia a publicação de uma série de artigos de Thomas Walker, apresentado como grande viajante e jornalista, que viajou através da União Soviética durante vários anos. À cabeça da primeira página do Chicago American, de 25 de Fevereiro, surgiu um título enorme: «A fome na União Soviética faz seis milhões de mortos. Colheita dos camponeses confiscada, homens e animais rebentam». A meio da página, um outro título: «Jornalista arrisca a vida para obter fotos da carnificina». No rodapé: «Fome – crime contra a humanidade»1.
Na altura, Louis Fischer trabalhava em Moscovo para o jornal The Nation. A «cacha» do seu colega, um ilustre desconhecido, intriga-o profundamente. Por isso investiga o caso e apresenta as conclusões aos leitores do seu jornal.
«O senhor Walker informa-nos que entrou na Rússia na última Primavera, ou seja, a Primavera de 1934. Ele viu a fome. Fotografou as suas vítimas. Recolheu
1 Douglas Tottle, Fraud, Famine and Fascism, The Ukranian Genocide Mith From Hitler to Harvard, Progress Books, Toronto, 1987, pp. 5-6.
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testemunhos em primeira mão sobre a devastação da fome que vos despedaçaram o coração. A fome na Rússia tornou-se um tema muito quente. Por que razão teria o senhor Hearst guardado estes artigos sensacionais durante dez meses antes de publicá-los? Decidi consultar as autoridades soviéticas sobre o assunto. Thomas Walker esteve uma única vez na União Soviética. Recebeu um visto de trânsito no consulado soviético, em Londres, no dia 29 de Setembro de 1934. Entrou na URSS a partir da Polónia, de comboio, em Negoréloe, no dia 12 de Outubro de 1934. Não na Primavera, como afirmou. No dia 13 chegou a Moscovo. Permaneceu em Moscovo de sábado, 13, a quinta-feira, 18, e tomou em seguida o Transiberiano que o levou à fronteira entre a União Soviética e a Manchúria em 25 de Outubro de 1934 (...) Teria sido impossível a Mr. Walker, nos cinco dias compreendidos entre 13 e 18, percorrer um terço dos pontos que “descreve” por experiência própria. Minha hipótese é que permaneceu tempo suficiente em Moscovo para obter no azedume de terceiros a “cor local” ucraniana de que necessitava para dar a seus artigos a falsa verosimilhança que têm.»
Um amigo de Fisher, também americano, Lindsay Parrot, havia estado na Ucrânia no começo de 1934. Não viu qualquer sequela da fome de que fala a imprensa de Hearst. Pelo contrário, a colheita de 1933 tinha sido abundante. Fisher conclui: «A organização de Hearst e os nazis desenvolvem uma cooperação cada vez mais estreita. Não vi que a imprensa de Hearst tivesse publicado os relatos do Sr. Parrot sobre uma Ucrânia soviética próspera. O Sr. Parrot é o correspondente do Sr. Hearst em Moscovo...»2.
Na legenda da fotografia de uma pequena rapariga e uma criança esquelética, Walker escreveu: «Terrível! A Norte de Khárkov, uma rapariga muito magra e o seu irmão de dois anos e meio. Esta criança rastejava pelo chão como um sapo e seu pobre pequeno corpo estava tão deformado por falta de comida que não parecia humano.».
Douglas Tottle, sindicalista e jornalista canadiano, que consagrou um livro notavelmente bem documentado sobre o mito do «genocídio ucraniano», descobriu a fotografia da criança-sapo, supostamente datada da Primavera de 1934, numa publicação de 1922 sobre a fome na Rússia. Uma outra foto de Walker foi identificada como sendo a de um soldado da cavalaria austríaca, ao lado de um cavalo morto, tirada durante a I Guerra Mundial3.
Triste senhor Walker: a sua reportagem é falsa, as suas fotos são falsas, até ele próprio é falso. O verdadeiro nome deste homem é Robert Green. Evadiu-se da prisão do Estado de Colorado após ter cumprido dois anos de uma pena de oito. Depois foi inventar a sua reportagem para a União Soviética. No regresso aos Estados Unidos foi preso e reconheceu diante do Tribunal jamais ter posto os pés na Ucrânia.
2 Louis Fisher, «Hearst’s Russian Famine», The Nation, vol. 140, n.º 36, 13 de Março de 1935, citado em Tottle, op. cit., pp. 7-8.
3 Casey James, in Daily Worker, 21 de Fevereiro de 1935, citado em Tottle, op. cit, p. 9.
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O multimilionário Wiliam Randolph Hearst encontrou-se com Hitler no final do Verão de 1934 para concluir um acordo estipulando que a Alemanha passaria a comprar as suas notícias internacionais ao International New Service, uma agência que pertencia ao grupo Hearst. Nessa época, a imprensa nazi já tinha iniciado uma campanha sobre «a fome na Ucrânia». Hearst dará a sua contribuição graças à imaginação do seu grande explorador, o sr. Walker4.
Na imprensa de Hearst apareceram outros testemunhos do mesmo género sobre a fome. Um certo Fred Beal pô-los em letra de forma. Operário americano condenado a 20 anos de prisão na sequência de uma greve, Beal refugiou-se na União Soviética no ano de 1930, trabalhando durante dois anos na fábrica de tractores de Khárkov. Em 1933, publica um pequeno livro intitulado Foreign workers in a Soviete Tractor Plant, onde relata com simpatia os esforços do povo soviético. No final de 1933, regressa aos Estados Unidos. Encontra o desemprego, mas também a prisão. Em 1934, começa a escrever sobre a fome na Ucrânia, após o que as autoridades reduzem de forma significativa a sua pena. Quando o seu «testemunho» é publicado por Hearst, em Junho de 1935, J. Wolynec, um outro americano que tinha trabalhado cinco anos na mesma fábrica em Khárkov, apontará as mentiras que entremeavam o texto. Sobre as inúmeras conversas que Beal alegava ter registado, Wolynec nota que Beal não falava nem russo nem ucraniano. Em 1948, Beal ofereceu outra vez os seus serviços à extrema-direita como testemunha de acusação contra comunistas perante o Comité McCarthy5.
Um livro com a chancela de Hitler
Em 1935 é publicado em alemão o livro Muss Russland hungern?, do Dr. Ewald Ammende. Tem como fontes a imprensa nazi alemã, a imprensa fascista italiana, a imprensa dos emigrados ucranianos e «viajantes» e «especialistas», assim citados, sem qualquer outra precisão. Publica fotografias que afirma «constarem entre as fontes mais importantes sobre a realidade actual da Rússia». «A maior parte foi tirada por um especialista austríaco», explica laconicamente Ammende. Há também fotos pertencentes ao Dr. Ditloff, que foi, até Agosto de 1933, director da Concessão Agrícola do governo alemão no Cáucaso do Norte. Didoff afirma ter fotografado, no Verão de 1933, «nas regiões agrícolas da zona da fome». Ora sendo Ditloff funcionário do governo nazi, como teria podido deslocar-se do Cáucaso até à Ucrânia para caçar tais imagens? Das fotos de Ditloff, sete já tinham sido publicadas por Walker, entre as quais está a da «criança-sapo». A fotografia que mostra dois jovens esqueléticos, símbolos da fome ucraniana de 1933, pôde ser vista na série televisiva La Russie, de Peter Ustinov. Foi retirada de um filme-documentário sobre a fome na Rússia de 1922! Uma outra foto de Ammende, afinal também já tinha sido publicada pelo órgão nazi Volkischer Beobachter, em 18 de Agosto de 1933, e foi igualmente identificada em livros datados de 1922.
Ammende tinha trabalhado na região do Volga em 1913. Durante a Guerra Civil de 1917-1918, ocupou cargos nos governos contra-revolucionários germanófilos da
4 Tottle, op. cit., pp. 13 e 5.
5 Ibidem, pp. 19-21.
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Estónia e da Letónia. Depois trabalhou para o governo de Skoropádski, instalado pelo exército alemão na Ucrânia, em Março de 1918. Afirmou ter participado nas campanhas de ajuda humanitária durante a fome na Rússia de 1921-1922, o que explica a sua familiaridade com o material fotográfico dessa época. Durante anos, Ammende foi o secretário-geral do denominado «Congresso Europeu das Nacionalidades», próximo do Partido Nazi, que reunia emigrados da União Soviética. No final de 1933, Ammende torna-se secretário honorário do «Comité de Ajuda às regiões atingidas pela fome na Rússia», dirigido pelo cardeal pró-fascista Innitzer, em Viena. Ammende esteve portanto estreitamente ligado a toda a campanha anti-soviética dos nazis.
Quando Reagan lançou a sua cruzada anticomunista no começo dos anos 80, o professor James E. Mace, da Universidade de Harvard, julgou oportuno reeditar e prefaciar o livro de Ammende sob o título Human Life in Rússia. Estávamos no ano de 1984. Desta forma, todas as falsificações nazis, os falsos documentos fotográficos e a pseudo-reportagem de Walker na Ucrânia obtiveram a respeitabilidade académica associada ao nome de Harvard.
No ano anterior, emigrados de extrema-direita ucranianos haviam publicado, nos Estados Unidos, The Great Famine in Ukraine: The Unknow Holocaust. Douglas Tottle pôde verificar que todas as fotografias deste livro datam dos anos 1921-1922. Por exemplo, a foto da capa pertence ao doutor F. Nansen, do Comité Internacional de Ajuda à Rússia, e foi publicada em Information n.º 22, Génova, 30 de Abril de 1922, pág. 66.
O revisionismo dos neonazis «revê» a história para justificar, antes de tudo, os crimes bárbaros do fascismo contra a União Soviética. Os neonazis negam também os crimes cometidos pelos hitlerianos contra os judeus. Negam a existência dos campos de extermínio onde pereceram milhões de judeus. E inventam «holocaustos» pretensamente cometidos pelos comunistas e pelo camarada Stáline. Com esta mentira, fabricam uma justificação das matanças bestiais que os nazis cometeram na União Soviética. E para este revisionismo ao serviço da luta anticomunista, receberam o pleno apoio de Reagan, Bush, Thatcher e companhia.
Um livro com a chancela de MacCarthy
Milhares de nazis ucranianos conseguiram entrar nos Estados Unidos após a II Guerra Mundial. Durante o período MacCarthy, testemunharam na qualidade de vítimas da «barbárie comunista». Relançaram a fábula da fome-genocídio num livro em dois volumes, Black Deeds of the Kremlin, publicados em 1953 e 1955, sob edição da «Associação Ucraniana das Vítimas do Terror Comunista Russo» e da «Organização Democrática dos Ucranianos Perseguidos sob o Regime Soviético». Neste livro, caro a Robert Conquest que o cita abundantemente, encontramos a glorificação de Petliúra6, responsável pelo massacre de várias dezenas de milhares de
6 Símone Vassílievitch Petliúra (1879-1926), militar e político ucraniano, ocupa a chefia do país em Fevereiro de 1919 e resiste ao avanço do Exército Vermelho. Depois da derrota dos seus exércitos, em 1920, foge para a Polónia e acaba assassinado em Paris por um judeu ucraniano, que vingou a morte de 15 familiares, incluindo os pais, chacinados durante os pogroms de Petliúra (NT).
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judeus entre 1918-1920, e uma homenagem a Chukhévitch7, o comandante nazi do batalhão Rossignol e do Exército Insurreccional Ucraniano.
Black Deeds of the Kremlin contém também uma série de fotos da fome-genocídio de 1932-33. Todas falsas. Deliberadamente falsas. Uma imagem, intitulada «Pequeno canibal», provém do Information n.º 22, do Comité Internacional de Ajuda à Rússia, publicado em 1922, onde a foto tem como legenda «Canibal de Zaporóje: ele comeu a irmã». Na página 155, Black Deeds inclui uma foto de quatro soldados e um oficial que acabam de executar homens. Título: «A execução dos kulaques». Detalhe: os soldados vestem o uniforme tsarista! E assim nos mostram execuções tsaristas como prova dos «crimes de Stáline.»8.
Um dos autores do volume I é Alexandre Hay-Holowko, que foi ministro da Propaganda no governo da Organização dos Nacionalistas Ucranianos de Bandera9. Durante a sua breve existência, este governo matou vários milhares de judeus, polacos e bolcheviques em Lvov.
Entre as pessoas citadas como «apoiantes» deste livro está Bilotserkiwsky, aliás Anton Chpak, um antigo oficial da polícia nazi em Bila Tserkva, onde, segundo o testemunho do escrivão Skrybnyak, dirigiu o extermínio de dois mil civis10.
Entre 1 e 15 milhões de mortos
Em Janeiro de 1964, o professor Dana Dalrymple publicou o artigo «A fome soviética de 1932-34», no Soviet Studies, onde alega que houve 5,5 milhões de mortos, a média de 20 estimativas de diversos autores.
Uma questão coloca-se de imediato: em que fontes se baseiam as «estimativas» do professor?
A primeira fonte é Thomas Walker, o homem da falsa viagem à Ucrânia, o qual, segundo Dalrymple, «falava provavelmente o russo»! A segunda fonte: Nicholas Prychodko, um emigrado de extrema-direita, que foi ministro da Cultura e da Educação da Ucrânia durante a ocupação nazi! Cita o número de sete milhões de mortos.
Em seguida vem Otto Schiller, funcionário nazi, encarregado da reorganização da agricultura na Ucrânia, sob a ocupação dos hitlerianos. Dalrymple cita o seu texto publicado em Berlim, em 1943, onde estabelece o número de mortos em 7,5 milhões.
7 Románe Ióssifovitch Chukhévitch (1907-1950), contra-revolucionário ucraniano e colaborador nazi. Foi morto em 1950, no seu esconderijo perto de Lvov, quando tentava escapar ao cerco montado pelos órgãos de segurança soviéticos (NT).
8 Tottle, op. cit., pp. 38-44.
9 Stepan Andréievitch Bandera (1909-1959) contra-revolucionário ucraniano, líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos entre os anos 30 e 50 (NT).
10 Tottle, op. cit., p. 41.
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A quarta fonte é Ewald Ammende, o nazi que esteve pela última vez na Rússia em 1922. Em duas cartas publicadas em Julho e Agosto de 1934, no The New York Times, Ammende fala de 7,5 milhões de mortos e afirma que, em Julho, as pessoas morriam nas ruas de Kíev. Alguns dias mais tarde, o correspondente deste jornal nova-iorquino, Harold Denny, desmentiu as informações de Ammende.
«O vosso correspondente esteve em Kíev durante vários dias em Julho último, no momento em que supostamente as pessoas morriam, mas nem na cidade nem nos campos em redor havia fome.» Algumas semanas mais tarde Harold Denny regressou ao tema: «Em nenhuma parte reinava a fome. Em nenhuma parte havia o receio de fome. Havia comida, inclusive pão, nos mercados locais. Os camponeses sorriam e eram generosos com os alimentos.»11.
Segue-se Frederick Birchall, que refere mais de quatro milhões de mortos num artigo de 1933. Nessa altura, Birchall foi um dos primeiros jornalistas americanos em Berlim a exprimir a sua simpatia pelo regime hitleriano.
William H. Chamberlain é a sexta e a sétima fonte e Eugene Lyons a oitava. Chamberlain começa por falar em quatro milhões, mas mais à frente cita os 7,5 milhões de mortos determinados «segundo estimativas de residentes estrangeiros na Ucrânia», simplesmente. Os cinco milhões de mortos de Lyons são também fruto de boatos e rumores, «estimativas de estrangeiros e de russos em Moscovo»! Chamberlain e Lyons eram dois anticomunistas profissionais. Tornaram-se membros do comité de direcção do «Comité Americano para a Libertação do Bolchevismo», que era financiado em 90 por cento pela CIA. Este comité dirigia a Radio Liberty.
O número mais elevado, dez milhões, foi fornecido sem explicações por Richard Sallet na imprensa pró-nazi de Hearst. Em 1932, a população propriamente ucraniana era de 25 milhões de habitantes...12.
Entre as 20 fontes do trabalho «académico» do senhor Dalrymple, três tinham origem na imprensa pró-nazi e cinco em publicações de direita dos anos McCarthy (1949-1953). Dalrymple utiliza dois autores fascistas alemães, um antigo colaboracionista nazi ucraniano, um emigrado russo de direita, dois agentes da CIA e um jornalista simpatizante de Hitler. Um grande número de dados foi fornecido por vagos «residentes estrangeiros na União Soviética» não identificados.
As duas estimativas mais baixas datadas de 1933 vêm de jornalistas americanos colocados em Moscovo e conhecidos pelo seu rigor profissional, Ralph Barnes, do New York Herald Tribune, e Walter Duranty, do New York Times. O primeiro fala de um milhão, o segundo de dois milhões de mortos pela fome.
Dois professores em socorro dos nazis ucranianos
Para apoiar a sua nova cruzada anticomunista e justificar a corrida louca aos armamentos, Reagan estimulou uma grande campanha sobre o «50.º Aniversário da
11 Ibidem, p. 50.
12 Ibidem, p. 51.
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Fome-Genocídio na Ucrânia» em 1983. Era preciso provas de que o comunismo é o genocídio para tornar sensível a ameaça terrível que pesava sobre o Ocidente. Essas provas serão fornecidas pelos nazis e seus colaboradores. Dois professores norte-americanos deram-lhes cobertura com a sua autoridade académica: James E. Mace, de Harvard, co-autor de Famine in the Soviet Ukraine, e Walter Dushnyck, que escreveu Há 50 anos: O Holocausto pela Fome na Ucrânia. Terror e Miséria como Instrumento do Imperialismo Russo Soviético, prefaciado por Dana Dalrymple.
A obra de Mace inclui 44 fotografias «da fome-genocídio de 1932-1933». Vinte e quatro são extraídas de duas obras nazis escritas por Laubenheimer. Esse último atribui a maior parte das imagens a Ditloff e começa a exposição com uma citação do Mein Kampf: «Se o judeu, graças à sua religião marxista, conseguir vencer os outros povos deste mundo, a sua coroa será a coroa funerária da humanidade e o planeta evoluirá no universo, como há milhões de anos, sem seres humanos.» Todas as fotos de Laubenheimer-Ditloff são falsificações provenientes da I Guerra Mundial e da fome de 1921-1922!13. O segundo professor, Dushnyck, foi identificado como quadro da Organização Nacionalista Ucraniana, de obediência fascista, activo desde o final dos anos 30.
Cálculo científico...
Dushnyck inventou um método «científico» para calcular as mortes da «fome-genocídio» e Mace seguiu-o nesta linha. «Se compararmos os dados do recenseamento de 1926 (...) com os do recenseamento de 17 de Janeiro de 1939 (...) e levarmos em conta o aumento médio da população antes da colectivização (2,36 por cento), podemos calcular que a Ucrânia (...) perdeu 7,5 milhões de pessoas entre os dois recenseamentos.»14.
Estes cálculos não valem absolutamente nada. A I Guerra Mundial, as guerras civis e a grande fome 1920-1922 provocaram uma redução da natalidade; ora, a nova geração atingiu os 16 anos, a idade da procriação, precisamente a partir de 1930. A estrutura da população tinha assim necessariamente de conduzir a uma queda da natalidade durante os anos 30.
O aborto livre também provocou uma redução notória da natalidade nos 30, a ponto de o governo o ter suspendido em 1936 com o objectivo de aumentar a população.
Os anos 1929-1933 caracterizaram-se por grandes e violentas lutas no campo, que foram acompanhadas por momentos de fome. Tais condições económicas e sociais provocaram uma queda das taxas de natalidade. Também o número de pessoas registadas como ucranianas se alterou devido aos casamentos interétnicos, às mudanças de nacionalidade e às migrações.
Para além disso, as fronteiras da Ucrânia não eram as mesmas em 1929 e em 1926. Os cossacos do Kuban, entre dois a três milhões de pessoas, foram recenseados como
13 Ibidem, p. 61.
14 Ibidem, pp. 70-71.
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ucranianos em 1926 e reclassificados como russos no final da década de 20. Só por si, esta nova classificação explica 25 a 40 por cento das «vítimas da fome-genocídio» calculadas por Dushnyck-Mace15.
Acrescentemos que a população da Ucrânia, segundo os números oficiais, aumentou três milhões e 339 mil pessoas entre 1926 e 1939. Compare-se este crescimento com a evolução da população judaica que foi sujeita a um real genocídio organizado pelos nazis...16.
Para testar a validade do «método Dushnyck», Douglas Tottle fez um exercício sobre a província de Saskatchewan, no Canadá, onde decorreram grandes lutas camponesas nos anos 30. A repressão foi em geral sangrenta. Tottle propôs-se «calcular» as vítimas da «repressão-genocídio» praticada pelo exército burguês canadiano na província de Saskatchewan:
População em 1931: 921 785
Crescimento em 1921-1931: 22%
Projecção da população em 1941: 1 124 578
População real em 1941: 895 992
Vítimas da repressão-genocídio: 228 586
Vítimas em percentagem de 1931: 25%
Este «método científico» aplicado ao Canadá seria qualificado por qualquer homem razoável de farsa grotesca; no entanto, aplicado à União Soviética é largamente utilizado nas publicações da direita como uma «prova» do terror «stalinista».
O uso indevido do cinema
A campanha da «fome-genocídio», lançada pelos nazis em 1933, atingiu o seu auge meio século mais tarde, em 1983, com o filme Harvest of Despair [A Colheita do Desespero], destinado ao grande público, e com o livro Harvest of Sorrow [A Colheita da Dor], de Robert Conquest (1986), dirigido à intelectualidade.
Os filmes A Colheita do Desespero, sobre o «genocídio ucraniano», e The Killing Fields [Terra Sangrenta], sobre o «genocídio» no Cambodja, foram as duas obras mais importantes, criadas pelo séquito de Reagan, para convencer as pessoas de que o comunismo era sinónimo de genocídio.
Harvest of Despair obteve a medalha de ouro no 28.° Festival Internacional do Cinema e da TV de Nova Iorque, e em 1985. Os mais importantes testemunhos sobre o «genocídio» que aparecem neste filme são apresentados por nazis alemães e seus antigos colaboradores. A primeira testemunha, Stepan Skrípnik, foi redactor-chefe do jornal nazi Volin durante a ocupação alemã. Em três semanas, com o beneplácito das autoridades hitlerianas, este homem foi promovido de leigo à posição de bispo da
15 Ibidem, p. 71.
16 Ibidem, p. 74.
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Igreja ortodoxa ucraniana e, em nome da «moral cristã», fez uma ruidosa propaganda a favor da Nova Ordem. No final da guerra, refugiou-se nos Estados Unidos.
O alemão Hans Von Herwarth é outra testemunha. Trabalhou na União Soviética no serviço que recrutava homens para o exército do general Vlássov17 entre os prisioneiros soviéticos. O seu compatriota Andor Henke, que era um diplomata nazi, figura também no filme.
Para ilustrar a «fome-genocídio» de 1932-1933, os autores utilizaram sequências de notícias filmadas anteriores a 1917, fragmentos dos filmes A Fome do Tsar, de 1922, Arsenal, de 1929, e excertos de O Cerco de Leningrado, filmado durante a II Guerra Mundial.
Atacado publicamente em 1986 por tais falsificações, Marco Carynnik, que esteve na base deste filme e foi responsável pelas pesquisas, fez a seguinte declaração pública: «Nenhum dos fragmentos filmados de arquivo data da fome ucraniana e só em muito poucos casos foi possível confirmar a autenticidade das fotografias apresentadas de 1932-33. No final do filme, a sequência dramática de uma jovem macilenta, que também tem sido usada na promoção do filme, não data da fome de 1932-33.» (…) «Fiz questão de notar que este género de inexactidões é inadmissível, mas não me quiseram ouvir», disse Carynnik numa entrevista18.
(continua)
* Ludo Martens, nascido em 1946, na Bélgica, é um autor conhecido pelos seus livros e artigos sobre política africana e sobre a União Soviética. Participante no movimento pela flamenquização da Universidade de Louvain, em 1967, adere ao movimento maoísta e funda, em 1968, a organização Alle macht aan de arbeiders, AMADA (Todo o Poder aos Trabalhadores), que dá origem, em 1979, ao Partido do Trabalho da Bélgica, do qual foi Secretário-geral até 2007.
Para além de numerosos artigos e estudos sobre o socialismo, grande parte dos quais publicados na revista Études marxistes et auteurs, Ludo Martens publicou várias obras sobre África, designadamente: Argent du PSC-CVP (1984), Pierre Mulele ou la seconde vie de Patrice Lumumba (1985), Sankara, Compaoré et la revolution burkinabé (1989), Abo: une femme du Congo (1991), Kabila et la révolution congolaise: panafricanisme ou néocolonialisme? (2002).
Na sequência da derrota do socialismo na URSS e no leste europeu, publica o livro L’URSS et la contre-revolution de velours (1991), a que se sucedeu Un autre regard sur Stáline (1994), que agora é editado pela primeira vez no nosso país. Faleceu em 5 de junho de 2011.
17 Andréi Andréievitch Vlássov, (1901- 1946), membro do Partido desde 1930. Comandante de Divisão de Atiradores, esteve na China como conselheiro militar (1938-39). Major-general (1940) é nomeado em 1941 comandante do corpo mecanizado da região militar de Kíev. Em Março de 1942 é nomeado vice-comandante da Frente de Volkhovski e logo a seguir enviado como comandante do 2.º Exército de Choque, que estava envolvido em duros combates de defesa. Sitiadas pelos alemães, uma parte das suas tropas consegue furar o cerco e juntar-se a outras unidades. Vlássov abandona os seus homens e entrega-se aos nazis com quem passa a colaborar, vindo mais tarde a criar o Exército Libertador da Rússia (DIA), a organização militar dos colaboracionistas (NT).
18 Tottle, op. cit., pp. 78-79.

segunda-feira, 29 de maio de 2017


Domingos Abrantes, operário, funcionário do PCP e membro do Conselho de Estado, detido pela primeira vez em 1959 e um dos participantes da fuga de Caxias em 1961, foi um dos presos políticos enviado para a “solitária”. O seu testemunho é o quarto que estamos a publicar esta semana de oposicionistas enviados para os “curros”, ou “segredo”, como as celas de isolamento também eram conhecidas

las de isolamento também eram conhecidas

Por mais perigoso que tenha sido escapar-se do forte de Caxias no próprio carro de Salazar, debaixo dos narizes dos guardas e das suas armas, como Domingos Abrantes fez na companhia de sete prisioneiros (uma espetacular fuga, mais típica de um filme de Hollywood do que da realidade portuguesa dos anos 60), esse não foi o momento mais difícil na vida deste homem, operário, que cedo entrou para o Partido Comunista Português, e para a clandestinidade. De Caxias saiu incólume e vencedor, dono de uma vitória singular e simbólica, num carro a grande velocidade que derrubou um portão de ferro e madeira: “Foi uma derrota para a polícia e para ‘o senhor’, tendo em conta que se tratava do carro de estimação de Salazar.”
Domingos Abrantes, 81 anos, atualmente membro do Conselho de Estado, passou por vários estabelecimentos prisionais, ao longo de 11 anos de encarceramento. No Aljube, conheceu os seus curros, em Caxias os seus “segredos”, em Peniche casou-se com Conceição Matos, outra resistente antifascista.
António Pedro Ferreira
Preso pela primeira vez em 1959, depois de ter entrado para o PCP em 1954, e se ter transformado em quadro clandestino, Domingos Abrantes “tinha de estar preparado” para a prisão.
“Era uma questão do tempo...”, a prisão, o isolamento, a tortura, o não saber nada da família, nem do mundo, o não ter caneta, nem papel, nem relógio, nem luz... “Mas a teoria é a teoria e a prática a prática. Vi pessoas que se foram abaixo e não aguentaram.”
Da primeira vez que foi preso passou cinco meses nos curros do Aljube. Calhou-lhe uma cela virada para a rua, aonde chegavam os sons dela oriundos: os elétricos a deslocarem-se sobre os carris, o primeiro pregão da manhã...
Da segunda vez, porém, tudo seria diferente: “tinha um castigo especial à minha espera.” Foi preso a 21 de abril de 1965. Levaram-no para Caxias, depois dos interrogatórios e de 16 dias de tortura do sono sofridos na António Maria Cardoso, sede da PIDE, e colocaram-no numa cela, a que chamavam “segredo”, aonde não chegava luz nem som, nem noite nem dia.
António Pedro Ferreira
Entregue à cegueira absoluta, e com ordem de silêncio, o jovem, “com sangue na guelra”, insistia em cantar, ainda que o seu estado fosse lastimoso ou que se sentisse completamente enterrado: “O preso tem de mostrar que é mais forte que o carcereiro. Se quer enfrentar a polícia com dignidade, se não quer falar, tem de marcar o ritmo. Tem de se preparar para o embate com a polícia. Ali não se está só a decidir a questão do preso...Está-se a discutir a própria dignidade, a consciência e a ideologia.”
Até chegar a Caxias passou mal. Não foi só a tortura do sono, infligida sem interrupções, ao contrário do que lhe tinha acontecido em 1959, no Aljube. Foi aquilo que lhe disseram. Já o corpo, obrigado a estar de pé dia após dia, enfraquecia, as pernas se transformavam em trambolhos, os pés inchavam e a pele rasgava. “Entrou um cientista e disse: ‘você é uma inutilidade. Está a dar cabo da sua saúde. Nós comprámos uma máquina aos americanos que vai tirar aquilo que tem no cérebro.” A história até lhe poderia ter parecido uma anedota, como reconhece hoje, mas naquela altura, com aquele quadro psicológico e físico, diz que ainda se sentiu vacilar da primeira vez que lhe colocaram o capacete ligado por uns cabos elétricos a uma máquina. Foi à segunda que conseguiu ganhar algum discernimento para perceber que tudo aquilo não passava de uma encenação, ultrapassando aquele que considera ter sido o seu pior momento na prisão.
Hoje diz que não tem problemas em entrar de novo num “curro” ou num “segredo”. Já voltou várias vezes ao Aljube, e apenas uma a Caxias. Ganhou miopia e problemas de sono, mas lembra que a prisão não é só um lugar de sofrimento e de tortura. “É também uma escola de formação humana de valores.”

domingo, 28 de maio de 2017

Morreu Miguel Urbano Rodrigues, jornalista e histórico do PCP

Irmão do escritor Urbano Tavares Rodrigues tinha 91 anos. Deixa mais de uma dezena de livros publicados em Portugal e no Brasil.
Num artigo publicado no Avante! em Novembro de 2016, o antigo jornalista mostrava discordância com a forma como via o PCP a apoiar a solução de governo do PS
  

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Uma real ameaça ao império euro-atlântico…

Neste momento debatendo-se com múltiplas crises: económica, financeira, social, militar o império enfrenta o ”Belt and Road Initiative” liderado pela China e pela Rússia. A reunião em Pequim (claro que silenciada pelos media!) evidenciou a estratégia de Putin, claramente concertada com a direção chinesa.
O ”Belt and Road Initiative” tem o objetivo de ligar por cinco corredores, dois deles marítimos, a Ásia central, do sul e sudoeste ao Médio Oriente, Europa, África, Oceania. Os seus objetivos incluem a coordenação de facilidades de comércio e integração financeira. Setenta e sete países estão ou propõem-se estar ligados a esta iniciativa, aliás muito diferentes quanto a posicionamentos políticos e alianças, como a Austrália, e países da UE.
Se a liderança financeira e económica é chinesa, Putin no seu discurso pretende  uma ligação política mais aprofundada: uma colaboração económica, financeira, social e política à margem dos EUA e do FMI, com instituições financeiras de apoio como o Banco de Desenvolvimento dos BRICS e o Banco Asiático de investimento e de infraestruturas. A China anunciou o reforço do fundo para a “iniciativa” com mais 100 mil milhões de Yuan.
Uma ameaça ao dólar à qual os EUA atulhados em dívida, só têm como resposta a militar, ingerências e conspirações pagas a peso de ouro aos seus mercenários e fantoches como na Ucrânia, na Venezuela, Síria, etc., criando o caos por todo o lado, incluindo em países como a Argentina e o Brasil ou as intermináveis guerras no Médio Oriente e Afeganistão, saudadas pelos papagaios da TV como luta pela democracia.
Vladimir Putin declarou que o futuro pertence à Eurásia. Trata-se melhorar as relações entre Estados e o desenvolvimento económico e social. A Eurásia, disse, deve ser um exemplo de um futuro coletivo, inovador e construtivo, com base na justiça, igualdade e respeito pela soberania nacional, o direito internacional e os princípios inabaláveis das Nações Unidas.
Além dos elogios à China, Putin salientou que a Rússia não só está disposta a ser um parceiro comercial confiável mas também pretende investir na criação de joint-ventures e em parcerias com Estados, para investir em serviços, vendas e instalações industriais.  Com uma localização geográfica única, a Rússia está disposta a exercer esta atividade conjunta, estando a atualizar a marinha, as infraestruturas ferroviárias e rodoviárias com os países da União Econômica Eurasiática (Bielorrússia,  Cazaquistão, Rússia, Quirguistão, Tajiquistão).
A Eurásia, “não é um arranjo geopolítico abstrato mas um projeto de toda a civilização olhando para o futuro. Mantendo o espírito de cooperação, nós podemos alcançar esse futuro. Esta parceria deve mudar a paisagem política e económica dos continentes e trazer a paz, estabilidade, prosperidade e uma nova qualidade de vida para a Eurásia”.
Ver mais em: http://bit.ly/2qMTXU5
Este artigo encontra-se em: FOICEBOOK http://bit.ly/2qMQQvm

Consolidando o poder

Por AK Malabocas, via ROAR Magazine, traduzido por Daniel Alves Teixeira
David Harvey, um dos principais pensadores marxistas de nosso tempo, sentou-se com o coletivo ativista AK Malabocas para discutir as transformações no modo de acumulação do capital, a centralidade do terreno urbano na luta de classes contemporânea, e as implicações de tudo isto para o anti-capitalismo organizado.

AK Malabocas: Nos últimos quarenta nos, o modo de acumulação capitalista mudou globalmente. O que essas mudanças significam para a luta contra o capitalismo?
David Harvey: De uma perspectiva macro, qualquer modo de produção tende a gerar um tipo de oposição bastante distinto, que é uma curiosa imagem espelhada de si mesmo. Se você olhar de volta para os anos 1960 ou 1970, quando o capital era organizado em grandes corporações, formas hierárquicas, você tinha estruturas de oposição que eram aparatos políticos de tipo corporativistas, unistas. Em outras palavras, um sistema Fordista gerava um tipo de oposição fordista.
Com a queda desta forma de organização industrial, em particular nos países capitalistas avançados, você chegou a uma configuração do capital muito mais descentralizada: mais fluída no espaço e tempo do que pensado anteriormente. Ao mesmo tempo nós vimos a emergência de uma oposição fundamentada no trabalho em rede e descentralização e que não gosta da hierarquia e das formas anteriores de oposição fordista.
Então, de um jeito meio engraçado, os esquerdistas se reorganizaram da mesma maneira que a acumulação de capital está reorganizada. Se nós entendermos que a esquerda é a imagem espelhada do que nós estamos criticando, então talvez o que devemos fazer é quebrar o espelho e sair dessa relação simbiótica com o que nós estamos criticando.
AKM: Na era fordista, a fábrica era o principal lugar de resistência. Onde nós podemos encontrá-lo agora que o capital se mudou do chão de fábrica em direção ao terreno urbano?
DH: Primeiro de tudo, a forma-fábrica não desapareceu – você ainda encontra fábricas em Bangladesh ou na China. O que é interessante é como o modo de produção nas cidades centrais mudou. Por exemplo, o setor logístico passou por uma grande expansão: UPS, DHL, e todos esses trabalhadores de entrega estão produzindo valores enormes nos dias de hoje.
Nas últimas décadas, uma forte mudança ocorreu também no setor de serviços: os maiores empregadores de trabalho nos anos 1970 nos EUA eram a General Motors, Ford e US Steel. Os maiores empregadores de trabalho hoje são McDonald’s, Kentucky Fried Chicken and Walmart. Antes, a fábrica era o centro da classe trabalhadora, mas hoje nós encontramos a maior parte da classe trabalhadora no setor de serviços. E porque nós deveríamos dizer que produzir carros é mais importante do que produzir hambúrgueres?
Infelizmente a esquerda não está confortável com a ideia de organizar trabalhadores de fast-food. Sua imagem da classe trabalhadora clássica não se encaixa com produção de valor dos trabalhadores do serviço, de entrega, restaurante, supermercados.
O proletariado não desapareceu, mas existe um novo proletariado que tem características muito diferentes daquele tradicional que a esquerda usou para identificar a vanguarda da classe trabalhadora. Nesse sentido, os trabalhadores do McDonald’s se tornaram os trabalhadores do ferro do século XXI.
AKM: Se este é o novo proletariado, onde estão os lugares para organizar a resistência agora?
DH: É muito difícil se organizar nos lugares de trabalho. Por exemplo, entregadores estão se movendo para todos os lugares.  Então essa população talvez estivesse melhor organizada fora do lugar de trabalho, isso quer dizer nas estruturas de vizinhança.
Existe mesmo uma interessante frase no trabalho de Gramsci de 1919 dizendo que organizar-se e fazer conselhos no lugar de trabalho é muito bom, mas nós deveríamos ter conselhos de vizinhança também. E os conselhos de vizinhança, ele disse, tem um entendimento melhor de qual é a condição da classe trabalhadora como um todo comparado com o entendimento setorial da organização no lugar de trabalho.
Trabalhadores organizados no lugar de trabalho normalmente sabiam muito bem o que um trabalhador do ferro era, mas eles não entendiam o que o proletariado era como um todo. A organização de vizinhança poderia então incluir por exemplo os limpadores de rua, os trabalhadores de casa, os entregadores. Gramsci nunca realmente tomou isso e disse: “vamos, o Partido Comunista deve organizar assembleias na vizinhança!”
Nada obstante, existem umas poucas exceções no contexto Europeu onde Partidos Comunistas de fato organizaram conselhos de vizinhança – porque eles não podiam se organizar no lugar de trabalho, como na Espanha por exemplo. Nos anos ’60 esse era uma forma muito poderosa de organização. Por isso, – como eu tenho argumentado há muito tempo – nós devermos olhar para a organização da vizinhança como uma forma de organização de classe. Gramsci somente mencionou isso uma vez em seus escritos e ele nunca seguiu adiante.
Na Grã-Bretanha na década de 1980, houveram formas de organização do trabalho em plataformas por toda a cidade com base em conselhos comerciais, que estavam fazendo o que Gramsci sugeriu. Mas dentro do movimento sindical estes conselhos comerciais foram sempre considerados como formas inferiores de organização do trabalho. Eles nunca foram tratados como sendo fundamentais para a forma como o movimento sindical deve operar.
Na verdade, descobriu-se que os conselhos comerciais eram frequentemente muito mais radicais do que os sindicatos convencionais e isso porque eles estavam enraizados nas condições de toda a classe operária, não só nos setores muitas vezes privilegiados da classe trabalhadora. Então, na medida em que eles tinham uma definição muito mais ampla da classe operária, os conselhos comerciais tendem a ter políticas muito mais radicais. Mas isso nunca foi valorizado pelo movimento sindical em geral – sempre foi olhado como um espaço onde os radicais poderiam jogar.
As vantagens desta forma de organização são óbvias: ele supera a divisão entre a organização setorial, rla inclui todos os tipos de trabalho “desterritorializado”, e é muito adequada às novas formas de comunidade organizações baseadas em assembleias, como Murray Bookchin estava advogando, por exemplo.
AKM: Nas últimas ondas de protesto – na Espanha e na Grécia, por exemplo, ou no movimento Occupy – você pode encontrar esta ideia de “resistência localizada”. Parece que esses movimentos tendem a se organizar em torno de questões da vida cotidiana, em vez das grandes questões ideológicas que a esquerda tradicional costumava focar.
DH: Por que dizer que a organizar-se em torno da vida cotidiana não é uma das grandes questões? Eu acho que É uma das grandes questões. Mais de metade da população mundial vive em cidades, e a vida cotidiana nas cidades é ao que as pessoas estão expostas e que traz as suas dificuldades. Estas dificuldades residem tanto na esfera da realização do valor como na esfera da produção do valor.
Este é um dos meus argumentos teóricos mais importantes: todo mundo lê o Volume I de O Capital e ninguém lê o Volume II. O Volume I é sobre a produção do valor, o Volume II é sobre a realização do valor. Concentrando-se no Volume II, você vê claramente que as condições de realização são tão importantes como as condições de produção.
Marx fala frequentemente sobre a necessidade de ver o capital como a unidade contraditória entre produção e realização. Onde o valor é produzido e onde ele é realizado são duas coisas diferentes. Por exemplo, um monte de valor é produzido na China e é realmente realizado pela Apple ou pelo Walmart nos Estados Unidos. E, evidentemente, a realização do valor está envolvido na realização de valor por meio de um consumo caro da classe trabalhadora.
O capital pode conceder salários mais altos no ponto de produção, mas então recupera-o no ponto de realização pelo fato de que os trabalhadores têm de pagar rendas muito mais elevadas e custos de habitação, despesas de telefone, despesas de cartão de crédito e assim por diante. Assim, a luta de classes sobre a realização – habitação a preços mais acessíveis, por exemplo – são tão significativas para a classe trabalhadora como as lutas por salários e condições de trabalho. Qual é a vantagem de ter um salário maior se ele é imediatamente tomado de volta em termos de custos de habitação elevados?
Em sua relação com a classe trabalhadora, os capitalistas há muito tempo aprenderam que podem fazer um monte de dinheiro tomando de volta o que eles haviam dado. E, na medida em que – particularmente nas décadas de 1960 e 1970 – os trabalhadores se tornaram cada vez mais empoderados na esfera do consumo, o capital passa a concentrar muito mais puxando para baixo o valor através do consumo.
Então as lutas na esfera da realização, que não eram tão fortes nos tempos de Marx, e o fato de que ninguém lê o maldito livro (Volume II), é um problema para a esquerda convencional. Quando você me diz: ‘o que é o macro-problema aqui?’ – bem, isso é um macro-problema! O conceito de capital e a relação entre produção e realização. Se você não vê a unidade contraditória entre ambos, então você não vai obter toda a imagem. A luta de classes é escrita toda sobre ele e eu não consigo entender por que um monte de marxistas não podem colocar na cabeça como isso é importante.
O problema é como entendemos Marx em 2015. Nos tempos de Marx, a extensão da urbanização era relativamente conveniente e o consumismo da classe operária era quase inexistente, por isso tudo que Marx tinha que falar era que a classe trabalhadora conseguia sobreviver com um salário escasso e que eles eram muito sofisticados em fazer isso. O capital deixou eles a seus próprios planos para que eles fizessem o que quisessem.
Mas hoje em dia estamos em um mundo onde o consumismo é responsável por cerca de 30 por cento da dinâmica da economia global – nos EUA é ainda quase 70 por cento. Então por que estamos sentados aqui dizendo que o consumismo é algo irrelevante, fixando no Volume I e falando sobre a produção e não sobre o consumismo?
O que a urbanização faz é nos forçar a certos tipos de consumo, por exemplo: você tem que ter um automóvel. Portanto, o seu estilo de vida é ditado de muitas maneiras pela forma que a urbanização toma. E, novamente, nos dias de Marx isso não era significativo, mas em nossos dias, isto é crucial. Nós temos que perseguir formas de organização que realmente reconheçam essa mudança na dinâmica da luta de classes.
AKM: Dada esta mudança, a esquerda teria que definitivamente ajustar suas táticas e formas de organização, bem como a sua concepção do que é organizar.
DH: Os grupos que carimbaram os movimentos recentes com seu caráter, provenientes das tradições anarquistas e autonomistas, estão muito mais embebidos na política da vida cotidiana, muito mais do que os marxistas tradicionais.
Eu sou muito simpático com os anarquistas, eles têm uma linha muito melhor sobre isso, precisamente em lidar com a política de consumo e sua crítica do que o consumismo é. Parte do seu objetivo é mudar e reorganizar a vida cotidiana em torno de princípios novos e diferentes. Então eu acho que este é um ponto crucial para o qual muitas ações políticas têm de ser dirigida nestes dias. Mas eu discordo de você quando você que isto não é uma “grande questão”.
AKM: Então, olhando para os exemplos da Europa Ocidental – redes de solidariedade na Grécia, auto-organização na Espanha ou Turquia – estes parecem ser bastantes cruciais para construir movimentos sociais em torno da vida cotidiana e das necessidades básicas nos dias de hoje. Você vê isso como uma abordagem promissora?
DH: Eu acho que isso muito promissor, mas há uma clara auto-limitação, que é um problema para mim. A auto-limitação é a relutância em tomar o poder em algum ponto. Bookchin, em seu último livro, diz que o problema com os anarquistas é a sua negação da importância do poder e sua incapacidade de tomá-lo. Bookchin não vai tão longe, mas eu acho que isso é a recusa de ver o estado como um possível parceiro para a transformação radical.
Existe uma tendência de considerar o Estado como sendo o inimigo, o 100 por cento inimigo. E há uma abundância de exemplos de Estados repressivos fora do controle público onde este é o caso. Sem questão: o Estado capitalista tem de ser combatido, mas sem dominar o poder do Estado e sem tomá-lo você rapidamente entra na história do que aconteceu, por exemplo, em 1936 e 1937 em Barcelona e então em toda a Espanha. Ao se recusar a tomar o estado no momento em que tinha o poder de fazê-lo, os revolucionários da Espanha permitiram que o estado caísse de volta nas mãos da burguesia e da ala stalinista do movimento Comunista – e o estado se reorganizou e esmagou a resistência.
AKM:  Isso pode ser verdade para o Estado espanhol em 1930, mas se olharmos para o estado neoliberal contemporânea e o recuo do Estado social, o que resta do estado a ser conquistado, a ser aproveitado?
DH: Para começar, a esquerda não é muito boa em responder a questão de como podemos construir infra-estruturas maciças. Como é que a esquerda irá construir a ponte de Brooklyn, por exemplo? Qualquer sociedade depende de grandes infra-estruturas, infra-estruturas para uma cidade inteira – como o abastecimento de água, eletricidade e assim por diante. Eu acho que há uma grande relutância entre a esquerda para reconhecer que por isso precisamos de algumas formas diferentes de organização.
Existem partes do aparelho do Estado, até mesmo do aparelho de Estado neoliberal, que são ainda assim terrivelmente importantes – o centro de controle de doenças, por exemplo. Como podemos responder a epidemias globais como o Ebola e similares? Você não pode fazê-lo no caminho anarquista da DIY-organização. Há muitos casos em que você precisa de algumas formas de infra-estrutura similares ao estado. Não podemos enfrentar o problema do aquecimento global somente através de formas descentralizadas de confrontos e atividades.
Um exemplo que muitas vezes é mencionado, apesar de seus muitos problemas, é o Protocolo de Montreal que visa eliminar gradualmente a utilização de clorofluorcarbonetos em frigoríficos para limitar a degradação da camada de ozono. Ele foi aplicado com sucesso na década de 1990, mas precisava de algum tipo de organização que fosse muito diferente daquela que resulta da política baseada em assembleias.
AKM:  A partir de uma perspectiva anarquista, eu diria que é possível substituir até mesmo instituições supra-nacionais como a OMS com organizações confederadas que são construídas de baixo para cima e que, eventualmente, chegam a tomada de decisões em nível mundial.
DH: Talvez até um certo grau, mas temos de estar cientes de que sempre haverá algum tipo de hierarquia e vamos sempre enfrentar problemas como prestação de contas ou o direito de recurso. Haverá relações complicadas entre, por exemplo, pessoas que lidam com o problema do aquecimento global do ponto de vista do mundo como um todo e do ponto de vista de um grupo que está no terreno, digamos, em Hanover ou qualquer outro lugar, e que perguntará: ‘por que devemos ouvir o que eles estão dizendo?’
AKM:  Então você acredita que isso exigiria algum tipo de autoridade?
DH: Não, haverá estruturas de autoridade de qualquer maneira – sempre haverá. Eu nunca estive em uma reunião anarquista onde não havia nenhuma estrutura de autoridade secreta. Há sempre essa fantasia de tudo ser horizontal, mas eu sentava lá, assistia e pensava: ‘Oh, Deus, existe toda uma estrutura hierárquica aqui, mas ela é coberta.’
AKM:  Voltando aos recentes protestos em todo o Mediterrâneo: muitos movimentos concentraram-se em lutas locais. Qual é o próximo passo a tomar para a transformação social?
DH: Em algum momento temos que criar organizações que são capazes de reunir e forçar a mudança social em uma escala mais ampla. Por exemplo, o Podemos na Espanha será capaz de fazer isso? Em uma situação caótica como a crise económica dos últimos anos, é importante para a esquerda agir. Se a esquerda não fazê-lo, em seguida, então a direita é a próxima opção. Eu penso –  e eu odeio dizer isso – mas penso que a esquerda tem que ser mais pragmática em relação à dinâmica que está acontecendo agora.
AKM: Mais pragmática em que sentido?
DH: Bem, por que eu apoiei o SYRIZA mesmo sabendo que ele não é um partido revolucionário? Porque abriu um espaço no qual algo diferente poderia acontecer e, portanto, foi um movimento progressivo para mim.
É um pouco como Marx disse: o primeiro passo para a liberdade é a limitação da duração da jornada de trabalho. Exigências muito estreitas abrem espaço para resultados muito mais revolucionárias, e mesmo quando não há qualquer possibilidade de quaisquer resultados revolucionários, temos que procurar soluções de compromisso que ainda assim revertam a absurda austeridade neoliberal e abram o espaço onde novas formas de organização possam ter lugar.
Por exemplo, seria interessante se o Podemos procurasse organizar formas de confederalismo democrático – porque de certa forma o Podemos originou-se de muitas reuniões do tipo de assembleias ocorrendo em toda a Espanha, então eles são muito experientes com a estrutura de assembleia.
A questão é como eles conectam a forma-assembleia com algumas formas permanentes de organização relativos a sua ascensão à uma posição como um forte partido no Parlamento. Isso também vai volta para a questão da consolidação do poder: você tem que encontrar maneiras de fazer isso, porque sem ele a burguesia e capitalismo corporativo irão encontrar maneiras de se reafirmar e tomar o poder de volta.
AKM: O que você acha sobre o dilema das redes de solidariedade preencherem o vazio após a retirada do estado de bem-estar e indiretamente se tornarem um parceiro do neoliberalismo desta forma?
DH: Há duas formas de organização. Uma delas é o vasto crescimento do setor das ONG, mas um monte destas são financiadas externamente, não nas bases, e não abordam a questão dos grandes doadores que definem a agenda – que não será uma agenda radical. Aqui tocamos a privatização do estado de bem-estar.
Isto me parecer ser muito diferente politicamente com organizações de base, onde as pessoas estão por conta própria, dizendo:’. OK, o Estado não liga para nada, então vamos ter que cuidar dele por nós mesmos”. Isso me parece estar levando a formas de organização de base com um estatuto político muito diferente.
AKM: Mas como evitar a preencher essa lacuna, ajudando, por exemplo, os desempregados a não serem espremidos pelo Estado neoliberal?
DH: Bem, tem de haver uma agenda anti-capitalista, de modo que quando o grupo trabalha com pessoas todo mundo saiba que ele não é apenas sobre ajudar a lidar com o sistema, mas que há uma intenção organizada para mudá-lo politicamente na sua totalidade. Isto significa ter um projeto político muito claro, o que é problemático com tipos descentralizados e não homogéneos de movimentos onde um trabalha de uma maneira, outros de forma diferente e não há nenhum projeto coletivo ou comum.
Isto se conecta à primeira questão que você levantou: não existe uma coordenação de quais são os objetivos políticos. E o perigo é que você apenas ajude as pessoas a lidar com o problema e assim não qssim não haverá nenhuma política que saia disso. Por exemplo, Occupy Sandy ajudou as pessoas a voltar para suas casas e eles fizeram um trabalho fantástico, mas, no final, eles fizeram o que a Cruz Vermelha e os serviços federais de emergência deveriam ter feito.
AKM: O fim da história parece já ter passado. Olhando para as condições reais e exemplos concretos de luta anti-capitalista, você acha que “ganhar” é ainda uma opção?
DH: Definitivamente, e mais ainda, você tem fábricas ocupadas na Grécia, economias de solidariedade que atravessam as cadeias de produção sendo forjadas, as instituições democráticas radicais na Espanha e muitas belas coisas acontecendo em muitos outros lugares. Há um crescimento saudável do reconhecimento de que temos de ser muito mais amplos em matéria de política entre todas estas iniciativas.
A esquerda marxista tende a desconsiderar um pouco algumas dessas coisas e eu acho que eles estão errados. Mas ao mesmo tempo eu não acho que nada disso seja grande o suficiente por si só para realmente lidar com as estruturas fundamentais do poder que precisam ser desafiadas. Aqui falamos de nada menos do que um estado. Então a esquerda terá que repensar o seu aparato teórico e tático.

in LavraPalavra.blogspot.com

Entrevista com György Lukács por Perry Anderson

Por Perry Anderson, via New Left Review, traduzido por Leojorge Panegalli
Nesta entrevista concedida ao historiador Perry Anderson, publicada na revista New Left Review em 1971, ano de sua morte, György Lukács fala sobre sua visão da trajetória do pensamento de esquerda e da sua própria trajetória política e de pensamento.


Perry Anderson: Os eventos recentes na Europa colocaram novamente o problema da relação entre socialismo e democracia. Quais são, em sua opinião, as diferenças fundamentais entre democracia burguesa e a democracia socialista revolucionária?
György Lukács: A democracia burguesa foi estabelecida com a Constituição Francesa de 1793, sua maior e mais radical expressão. Seu ativo constituinte é a divisão do homem no cytoain da vida pública e no bourgeois da vida privada, o primeiro com direitos políticos universais, de acordo com a expressão de diferentes interesses econômicos particulares. A divisão é fundamental para a democracia burguesa que historicamente determinou o fenômeno. Sua reflexão filosófica é encontrada em Sade. É interessantes que escritores como Adorno tenham lidado com Sade como um reflexo da Constituição de 1793. A ideia chave, tanto para uma reflexão como para outra, é que o homem é objeto para o homem e a racionalidade egoísta é a essência da sociedade humana. Agora, e óbvio que qualquer tentativa de recriar no socialismo que historicamente excedeu esta forma de democracia é uma regressão e um anacronismo. Isto não quer dizer, contudo, que as aspirações a uma democracia socialista devem ser endereçadas em uma ótica administrativa. O problema da democracia socialista é um problema real que ainda não foi resolvido, como deve ser: material e idealmente. Deixe-me dar um exemplo. Guevara foi um homem como uma representação heroica dos ideais Jacobinos. Seus ideais impregnaram sua vida e a modelaram totalmente. Ele não foi o primeiro caso dentro do movimento revolucionário. Levine na Alemanha ou Otto Korvin aqui na Hungria viveram e agiram da mesma maneira. Nós devemos ter um grande respeito por nobreza humana deste tipo. Mas o idealismo deles não é socialismo do dia a dia, o qual deve ter uma base material e baseado na construção de uma nova economia. Mas eu devo adiantar que o desenvolvimento econômico por si só nunca produzirá socialismo. A doutrina de Khrushchev, para a qual o socialismo triunfaria globalmente quando os padrões de vida da URRS ultrapassassem aqueles dos EU, estava completamente enganada. O problema deveria ser colocado em um lugar radicalmente oposto. Você pode formular-se assim: O socialismo é o primeiro treinamento na história econômica que não produz espontaneamente o seu “homem econômico” correspondente. Isto é porque é um treinamento de transição, um interlúdio de transição do capitalismo para o comunismo. Agora, como uma economia socialista não produz e reproduz espontaneamente o homem correspondente a ela, como a sociedade capitalista gera seu homo economicus, que é a divisão citoyen/bourgeois de 1793 e de Sade, a principal função da democracia socialista é a educação dos seus membros para o socialismo. Esta função não tem precedente similar na democracia burguesa. Claramente, o que hoje seria necessário é reviver os sovietes, o sistema de democracia socialista que surge sempre que você tem uma revolução proletária: a Comuna de Paris em 1871, a Revolução Russa de 1905 e assim como a Revolução de Outubro. Mas pode acontecer do dia pra noite… O problema é que os trabalhadores aqui são indiferentes: inicialmente eles não acreditam em nada.
Uma problema a esse respeito concerne à emergência histórica de mudanças necessárias. No debate filosófico recente aqui temos tido muita discussão sobre a continuidade e descontinuidade na história. E tenho definitivamente me expressado pela descontinuidade. Você já conhece a tese conservadora de De Toqcqueville e Taine segundo os quais a Revolução Francesa de maneira alguma foi uma mudança na história francesa, porque deu continuidade à tradição de Estados franceses centralizados, a qual foi dominante sob o “antigo regime” com Luis XIV e foi acentuado por Napoleão e em seguida pelo Segundo Império. Esta visão da história, dentro do movimento revolucionário, foi decisivamente rejeitada por Lenin. Ele nunca apresentou qualquer mudança fundamental e novos inícios como uma simples continuação de tendências e antigos progressos. Por exemplo, quando ele anunciou a nova política econômica, nunca alegou que este era o desenvolvimento ou a coroação da guerra comunista. Lenin deixou claro que a economia de guerra comunista era um erro, contudo, compreensível  dadas as circunstâncias do momento e que a NEP era uma correção daquele erro e uma nova correção de curso. Este método leninista foi abandonado pelo stalinismo, o qual sempre tentou apresentar mudanças políticas – até mesmo as mais importantes  – como a consequência lógica de melhoramentos da linha precedente. Stalinismo é toda a história do socialismo como um contínuo e ordenado desenvolvimento; nunca admitindo descontinuidade. Hoje, este problema é vital como nunca, especialmente para endereçar a sobrevivência do stalinismo. A continuidade com o passado deve ser enfatizada dentro da perspectiva de melhoramentos ou, do contrário, o caminho do progresso deve consistir em um ruptura profunda com o stalinismo? Eu acredito que a ruptura completa é necessária. Para o problema da descontinuidade na história, para mim, parece importante.
PA: Aplica-se este ponto de vista também para seu o desenvolvimento filosófico? Como julgar seus escritos dos anos vinte? Eles se relacionam com seu trabalho hoje?
GL: Nos anos vinte, Korsch, Gramsci e eu tentamos, cada um à sua maneira, lidar com o problema da necessidade social e sua interpretação mecanicista, o legado da Segunda Internacional. Nós legamos o problema, mas nenhum de nós – nem mesmo Gramsci, que era, talvez, o melhor entre nós, conseguiu resolvê-la. Nós estávamos errados e seria um erro hoje nos alçar a reviver os trabalhos daquela época como se fossem válidos hoje. No ocidente existe uma tendência a erigir uma “heresia clássica”, mas nós não precisamos hoje. Os anos vinte são uma era pretérita; o que nos concerne são os problemas dos anos sessenta. Eu estou trabalhando em uma ontologia do ser social que, eu espero , resolverá o problema que eu enfrentei de maneira errada no meu trabalho preliminar, especialmente em História e Consciência de Classe. Meu novo trabalho foca na relação entre liberdade e necessidade, ou, como eu me expresso, entre casualidade e teleologia. Tradicionalmente, filósofos tem sempre baseado seus sistemas em um ou outro dos dois polos; ou tem negado a necessidade ou a liberdade humana. Minha intenção é de apresentar a inter-relação ontológica dos dois termos, e rejeitar o ultimato  – ao qual filósofos tem recorrido para representar o homem. O conceito de trabalho é a pedra angular da minha análise, porque o trabalho não é biologicamente determinado. Se um leão ataca um antílope, seu comportamento é determinado por uma necessidade biológica e apenas por isso. Mas o homem primitivo está em frente a uma pilha de pedras, ele precisa escolher entre uma dela, tendo como critério qual será mais adequada para ser usada como ferramenta; ele escolhe entre alternativas. O termo alternativas é fundamental para o conceito de trabalho humano, o qual é, então, sempre teleológico – ele emprega propósito, o qual é resultado de uma escolha. Desta maneira expressa-se a liberdade humana. Mas a liberdade existe apenas objetiva e fisicamente, nas forças motrizes que obedecem as leis da causalidade do universo material. A teleologia do trabalho é então sempre coordenada com a causalidade física, e de fato, o resultado de qualquer outro trabalho individual é um tempo da causalidade física para a posição teleológica (Setzung) do que qualquer outra individual. Fé na teleologia da natureza é teologia, e fé em uma teleologia na história é infundada. Mas existe uma teleologia em cada trabalho humano, intrinsecamente inserida na causalidade do mundo físico. Esta posição, que é o núcleo do qual se desenvolve meu trabalho atual, excede a oposição clássica entre necessidade e liberdade. Mas eu quero enfatizar que não estou tentando construir um sistema compreensivo. O título do meu trabalho – que já está pronto, apesar de eu estar revisando o primeiro capítulo – é para uma ontologia do ser social e não  A ontologia do ser social. Perceba a diferença. A tarefa na qual eles estão envolvidos vai requerer um esforço coletivo de muitos pensadores para seu real desenvolvimento. Mas eu espero que isto mostre os fundações ontológicas do socialismo da vida cotidiana que eu mencionei antes.
PA: A Inglaterra é o único grande país europeu sem uma tradição filosófica marxista nativa. Você tem escrito extensivamente sobre um dos momentos da sua história cultural, o trabalho de Walter Scott; mas como você vê o desenvolvimento amplo da história política e intelectual britânica e suas relações com a cultura europeia do Iluminismo?  
GL: A história britânica tem sido vítima do que Marx chamou de desenvolvimento desigual. O radicalismo da revolução de Cromwell e então a revolução de 1688, e seu sucesso em assegurar relações capitalistas entre cidade e país, tornou-se uma razão de atraso na Inglaterra. Eu penso que a sua revista tem sublinhado bastante a importância histórica da agricultura capitalista na Inglaterra e seus consequências paradoxais para o desenvolvimento inglês subsequente. Isto pode ser visto claramente em um desenvolvimento cultural inglês. O domínio do empirismo como uma ideologia da burguesia nasceu depois de 1688, mas alcançou extraordinário poder posteriormente, mudando a história da filosofia e da arte anteriores.  Peque Bacon, por exemplo, Ele foi um grande balizador, muito mais que Locke, que mais tarde deu à burguesia o que importa.  Mas sua importância foi completamente apagada do empirismo inglês, e hoje se você quer estudar o que Bacon foi para o empirismo , você deve antes estudar o que o empirismo incluiu de Bacon, o que é sensivelmente diferente.  Marx foi um grande admirador de Bacon, como é sabido.  A mesma coisa aconteceu com outro grande pensador inglês, Mandeville.  Ele foi o sucessor de Hobber, mas a burguesia inglesa negligenciou isto totalmente. Ao invés disso descobriu que Marx o cita  em Teorias do Mais-Valor. Esta cultura inglesa radical do passado foi obscurecida e ignorada. No seu lugar, Eliot e outros preferiram preferiram e exageraram a importância atribuída aos poetas metafísicos – Women, etc. – os quais são muito menos importantes para o desenvolvimento e a história da cultura humana. Outro episódio detector é o destina de Scott. Eu escrevi sobre a importância de Scott no meu livro O romance histórico, você notará que é o primeiro novelista que entendeu que o homem é modificado pela história. Esta foi uma descoberta extraordinária e foi imediatamente perseguida por grandes escritores europeus tais como Pushkin na Russia, Manzoni na Itália e Balzac na França. Todos perceberam a importância de Scott e aprenderam com ele. O curioso, contudo, é que na Inglaterra Scott não tem seguidores. Foi muito pouco entendido e foi  esquecido. Esta tem, portanto, sido uma fratura em todo o desenvolvimento da cultura inglesa, a qual é muito visível nos escritores radicais subsequentes como Shaw. Shaw não tem raízes na cultura inglesa do passado, porque a cultura inglesa do século dezenove foi amputada da sua história radical precedente. Esta é a grande fraqueza de Shaw.
Hoje, intelectuais britânicos não apenas tem de importar de importar do marxismo exterior, mas eles tem de construir uma nova história da sua cultura: esta é uma tarefa essencial que apenas eles podem realizar. Eu escrevi para Scott, e Ágnes Heller sobre Shakespeare, mas são os britânicos que essencialmente tem de descobrir a Inglaterra. Até mesmo na Hungria tem circulados vários boatos sobre nosso “caráter nacional”, como vocês na Inglaterra. A verdadeira história sobre a sua cultura destruirá estas interpretações enganosas. O que talvez seja ajudado pela profundidade da crise econômica e financeira inglesa, produzida por um desenvolvimento desigual que eu mencionei antes. Wilson é indubitavelmente um dos mais astutos políticos oportunistas burgueses, ainda assim seu governo tem sido um total e desastroso fracasso. Este também é um sinal da profundidade da crise e inextricabilidade inglesa.
PA: Como você vê hoje seus primeiros trabalhos e critica literária, especialmente Teoria do romance? Qual foi sua relevância histórica?
GL: Teoria do romance foi a expressão do meu desespero durante a primeira guerra mundial. Quando a guerra estourou, eu disse que  Alemanha e Austria-Hungria teriam provavelmente derrotado a Rússia e destruído o czarismo, o que seria bom. França e Inglaterra teriam provavelmente derrotado Alemanhã e Áustria-Hungria e derrotado os Hohenzollern e os Habsburg, o que seria bom. Mas quem defenderia a cultura inglesa  e francesa? Meu desespero não encontrou resposta para esta questão, e este era o pano de fundo da Teoria do Romance. Naturalmente outubro deu uma resposta. A revolução russa foi a resposta mundial-histórica para o dilema: prevenir o triunfo da burguesia francesa e inglesa, o que eu temia. Mas eu devo dizer que Teoria do romance, com todas suas falhas, ele previu o colapso de uma cultura que analisou. Ele entendeu a necessidade de uma mudança revolucionária.
PA: Na época você era você era amigo de Max Weber. Como julgá-lo agora? O colega dele, Sombart, eventualmente virou um nazista; as crenças de Weber, caso ele tivesse vivido, teriam feito ele se reconciliar com o Nacional Socialismo?
GL: Não, nunca. Deve-se entender que Weber foi uma pessoa absolutamente honesta. Ele tinha grande desprezo pelo imperador, por exemplo. Nós frequentemente dizíamos, em particular, que o grande azar da Alemanha era que, diferentemente dos Stuart ou os Bourbons, nenhum dos Hohenzollern foi decapitado. Pode imaginar o quão incomum era um professor alemão dizer coisas assim em 1912. Weber foi bastante diferente de Sombart; ele não fez concessões ao antissemitismo, por exemplo. Deixe-me lhe contar uma história típica do Weber. Uma Universidade alemã pediu para ele que enviasse recomendações para contratação de professores naquela Universidade – estávamos com um outro compromisso próximo. Weber disse, dando três nomes em ordem de mérito. Então ele acrescentou, cada uma das três indicações seria uma excelente escolha – são todos excelentes; mas vocês não escolherão nenhum deles, porque eles são todos judeus. Então eu acrescento uma lista de outros três nomes, nenhum sendo tão bom quanto os outros que mencionei e não há dúvida que você escolherá um deles, porque eles não são judeus.
Mas apesar disso, você deve lembrar que Weber foi um firme imperialista, cujo imperialismo era baseado somente na sua crença de acordo com a qual um imperialismo eficiente era necessário e que somente o liberalismo poderia assegurar tal eficiência. Ele era inimigo jurado da revolução de outubro e novembro. Era um acadêmico extraordinário assim como um profundo reacionário. O irracionalismo que começa com Schelling e Schopenhauer tem nele uma das suas maiores expressões.
PA: Como você reagiu à conversão dele em direção à Revolução de Outubro?
GL: Acho que ele falou que “para Lukács a mudança deveria ter sido uma profunda transformação de crenças e ideias, enquanto Toller apenas confunde sentimentos”. Mas eu não tive mais contato com ele desde então.
PA: Depois da guerra, você tomou parte na municipalidade húngara como comissário para a educação. Qual é a possível avaliação da experiência da cidade hoje, cinquenta anos depois?
GL: A causa essencial da comuna foi a “Nota Vyx” e a política da Entente dirigida à Hungria. Nesse sentido, a municipalidade  é comparável À Revolução Russa, onde a questão da guerra foi um peso decisivo no estouro da Revolução de Outubro. Uma vez entrega a Nota Vyx, sua consequência foi a municipalidade. Os social democratas mais tarde nos atacaram pela criação da municipalidade, mas no momento, depois da guerra, não havia chance de manter-se dentro do confinamento do esquema da política burguesa; aquela explosão foi necessária.   
PA: Depois da derrota da Comuna, você foi delegado do Terceiro Congresso do Comintern em Moscou. Você encontrou líderes bolcheviques? Que impressão teve?
GL: Veja, você tem que entender que eu era um pequeno membro de uma pequena delegação; eu não era nenhuma figura importante naquele momento, e claro que tive longas conversas com líderes do partido russo. Mesmo assim, eu fui apresentado a Lenin por Lunacharsky. Fascinou-me completamente. Eu também pude vê-lo trabalhando na comissão do congresso, claro. Eu devo dizer que achei obnóxios outros líderes bolcheviques. Trotsky de começo eu não gostei de; eu achei ele um poseur. Existe uma passagem nas memórias de Gorky sobre Lenin, encontrando-o após a revolução, reconheceu resultados organizacionais durante a Guerra Civil,  diz que Trotsky tem algo de Lassalle. Zinoviev, cujo papel no Comintern eu fui conhecer mais tarde, foi apenas um manipulador político. Minha opinião sobre Bukharin pode ser lida no meu artigo de 1925, a cerca do seu  marxismo crítico –  naquela época era, depois de Stalin, as perguntas teóricas das autoridades russas. Nem mesmo Stalin pode lembrar – como muitos outros comunistas estrangeiros eu não tinha ideia da sua importância para o partido russo. Eu conversei com Radek por um tempo. Ele me contou que o que eu havia escrito sobre as ações de março foi a melhor coisa que havia sido escrita sobre e aprovava totalmente. Depois, claro, mudou de ideia quando o partido condenou a ação de março e então me condenou em público. Diferentemente dos todos os outros, Lenin me causou um forte impressão.  
PA: Qual foi sua reação quando Lenin atacou seu artigo sobre a questão do parlamentarismo?
GL: Meu artigo estava completamente errado e eu desisti da minha tese sem hesitação. Mas eu devo acrescentar que eu li Esquerdismo: a doença infantil do comunismo de Lenin antes da crítica dele ao meu artigo e eu me tornei convicto das suas posições sobre o problema da participação parlamentar já lá: tanto que a minha critica ao meu artigo não mudou com o tempo. Eu sabia que estava errado. Lembro o que Lenin disse naquele trabalho, nomeadamente que a burguesia parlamentar era completamente desmantelada no sentido da história do mundo com o nascimento dos órgãos revolucionários do poder proletário, sovietes, mas que isso não significava de maneira alguma que houve um consenso político imediato, porque as massas do ocidente ainda não confiavam nos sovietes. Então os comunistas tiveram de trabalhar tanto dentro como fora dos parlamentos.
PA: Em 1928-29 você propôs o conceito de ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses como um objetivo estratégico do Partido Húngaro daquele momento, a famosa “Teses de Blum” para o terceiro congresso do PCU. As teses foram rejeitadas como oportunistas e você foi expulso do comitê central. Como vocês as julga agora?  
GL: As Teses de Blum foram minha retaguarda contra o sectarismo do “Terceiro Período”, que alega serem gêmeos democracia e fascismo. Esta linha foi um completo desastre, como você sabem o slogan “classe contra classe” e a expectativa do imediato estabelecimento da ditadura do proletariado. Restaurando e adaptando o slogan de Lenin de 1905 – ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses – eu tentei achar um ponto de apoio na linha do Sexto Congresso do Comintern, através do qual eu pudesse trazer o partido Húngaro para uma política realista. Eu não tive sucesso. As Teses de Blum foram condenadas pelo partido, e Béla Kun e sua facção arranjaram minha expulsão do Comitê Central. Eu estava completamente sozinho no partido; deve imaginar que não consegui convencer nem mesmo aqueles dentro do partido que compartilhavam minha posição na batalha contra o sectarismo de Kun. Então eu fiz uma autocrítica das teses. Isto foi absolutamente cínico: eu fui forçado pelas circunstâncias do momento. Eu não mudei de opinião e em verdade eu ainda acho que eu estava certo lá. O período de 1945-48 na Hungria foi a realização concreta da ditadura democrática dos trabalhadores e camponeses que apoiaram em 1929. Depois de 1948, é evidente, o stalinismo criou algo bastante diferente, mas esta é outra história.   
PA: Quais eram suas relações com Brecht no anos trinta e depois da guerra? Como você classificaria a figura dele?
GL: Brecth era um verdadeiro grande poeta, e suas últimas peças – Mãe Coragem, A Boa Pessoa de Szechwan  e outras – são excelentes. Evidente, a teoria estética e dramática dele eram bastante confusas e erradas. Eu expliquei isto em O significado corrente do realismo crítico. Mas elas não mudam a qualidade dos seus trabalhos posteriores. Em 1930-31 eu estava em Berlim e trabalhei na União dos Escritores. Na época – metade dos anos trinta, pra ser mais exato – Brecht escreveu um artigo contra mim, em defesa do expressionismo. Mas mais tarde, quando eu estava em Moscou, Brecht veio me visitar na sua jornada da Escandinávia para os Estados Unidos – viajou pela União Soviética naquela viagem – e disse: Existem algumas pessoas que estão tentando me colocar contra você, e algumas que estão tentando colocar você contra mim. Vamos fazer um acordo de não nos imiscuir na querela de outros. Por essa razão nós sempre tivemos boas relações, e depois da guerra eu ia para Berlim – frequentemente – e sempre encontrava Brecht, nós tínhamos longas conversas juntos. Eventualmente nossas posições eram bastante próximas. Você sabe, eu fui convidado pela esposa dele para falar no funeral dele. Uma coisa que eu me arrependo é de não ter escrito um ensaio sobre Brecht nos anos quarenta. Eu sempre tive grande respeito por Brecht. Ele era bastante inteligente e tinha uma grande senso de realidade. No que era realmente bastante diferente de Korsh, que sabia bem, é claro. Quando Korsh saiu do partido alemão, cortou todos os laços com o socialismo. Eu sei porque nunca foi possível colaborar no trabalho da União do Escritores na luta antifascista em Berlim no momento – o partido não permitiria isso. Brecht era bastante diferente. Ele sabia que nada poderia ser feito sem a União Soviética, a qual ele permaneceu leal por toda a vida.
PA: Você conheceu Walter Benjamin? Acredita que, se ele tivesse sobrevivido, ele teria tendido a um comprometimento revolucionário com o marxismo?
GL: Não, por um motivo ou outro eu nunca conheci Benjamin. Adorno, contudo eu conheci em Frankfurt em 1930 quando eu estava indo para a União Soviética. Benjamin era extremamente dotado, e penetrou fundo em muitos problemas novos. Ele os explorou de muitos jeitos, mas nunca os encerrava. Eu acredito que seu desenvolvimento, caso ele tivesse sobrevivido, teria sido bastante incerto, apesar da sua amizade com Brecht. Você tem de lembrar que aqueles eram tempo difíceis – os expurgos dos anos trinta e depois a Guerra Fria. Adorno naquele clima se tornou o expoente do “conformismo inconformado”.
PA: Depois da vitória do fascismo na Alemanha, você trabalhou no instituto Marx-Lenin na Rússia com Ryazanov. O que você fez lá?
GL: Quando eu estava em Mouscou em 1930 Ryazanov me mostrou os manuscritos que Marx escreveu em 1844 em Paris. Você pode imaginar minha empolgação: ler aqueles manuscritos mudou totalmente minha relação com o marxismo e transformou minhas perspectivas filosóficas. Um acadêmico alemão da União Soviética estava trabalhando nos manuscritos, arranjando para sua publicação. Os ratos haviam atacado os manuscritos e haviam várias partes nas quais letras e até palavras estavam faltando. Graças ao meu conhecimento filosófico, trabalhando com ele, estabelecendo quais eram as letras e as palavras que estavam faltando: frequentemente haviam palavras que começavam, digamos, com “g” e terminavam com “s” e ninguém sabia o que havia no meio. Acho que a elaboração que eventualmente saiu era bastante boa – posso dizer isso porque eu colaborei com a edição. Ryazanov era responsável por esse trabalho e era um ótimo filólogo, não um teórico, mas um grande filólogo. Após a sua remoção, o trabalho no instituto também desapareceu. Eu lembro de ele ter me dito que haviam dez volumes dos manuscritos de Marx para O Capital que nuca haviam sido publicados.; Engels, com certeza na sua introdução ao segundo e terceiro volumes disse que eram apenas uma seleção de manuscritos sobre os quais Marx estava trabalhando. Ryazanov organizou a publicação deste material. Mas até agora ainda não apareceu nada.  
No início dos anos trinta, é evidente que haviam debates filosóficos na URSS, mas eu compareci neles. Houve um debate no qual o trabalho de Deborin foi criticado, então eu pensei, corretamente, que o propósito daquele criticismo eram apenas para impor a preeminência de Stalin como um filósofo.
PA: Contudo, você participou de debates literários dos anos trinta na União Soviética.
GL: Eu colaborei com a revista Literaturnyj Kritik por seis ou sete anos e trouxe para frente uma luta consistente contra o dogmatismo daqueles anos. Fadeeyev e outros lutaram e ganharam a RAPP na Rússia, mas só porque Averbakh e outros na RAPP eram trotskistas. Depois da vitória deles, eles começaram de desenvolver a forma deles de “rappismo”. Literaturnyj Kritik tem sempre resistido tem sempre resistido a esta tendência. Eu escrevi muitos artigos para a revista, cada um dos quais tem duas ou três citações de Stalin – o que era uma necessidade intransponível na Rússia no momento – e cada uma das quais era direcionada contra a concepção stalinista de literatura. Seus conteúdos eram sempre dirigidos contra o dogmatismo de Stalin.  
PA: Por dez anos vocês foi bastante ativo politicamente, de 1919 a 1929 , então abandonou toda atividade política direta. Esta é uma enorme mudança para qualquer marxista convicto. Foi limitado (ou talvez liberto) pela súbita mudança na sua carreira em 1930? Como se liga essa parte da sua vida com a sua juventude? Quais eram suas influências então?
GL: Eu não tenho arrependimentos sobre o fim da minha carreira política. Veja você, eu estava completamente convencido de estar certo nas discussões do partido em 1928-29, nada me fazia mudar de ideia; contudo, eu falhava em convencer o partido da qualidade das minhas ideias. Então eu pensei, apesar de estar com a razão, eu havia sido totalmente derrotado, isso significa que eu não tenho nenhuma habilidade política. Então eu facilmente desisti da prática política, eu decidi que não estava absolutamente preparado. Minha expulsão do Comitê Central do partido húngaro alterou minha crença de que mesmo com a desastrosa e sectarista política do terceiro período, você poderia lutar contra o fascismo dentro das fileiras do movimento comunista. Eu nunca mudei de ideia quanto a isso. Eu sempre pensei que a pior forma de socialismo era melhor do que a melhor forma de capitalismo.
Mais tarde, minha participação no governo Nagy de 1956 não contradisse minha resignação com a atividade política. Não compartilhei a abordagem política geral de Nagy, e quando as pessoas jovens  tentaram nos reconciliar assim como antes de outubro, eu respondia: “A distância entre mim e Imre Nagy não é maior do que a distância entre Imre Nagy e mim”. Quando eu fui convidado para ser o Ministro da Cultura em outubro de 1956, isso foi uma questão moral pra mim, não uma questão política, e eu não podia recusar. Quando fomos presos e trancafiados na Romênia, os companheiros dos partidos húngaro e romeno vieram e pediram pra que eu expressasse minha opinião sobre as políticas de Nagy, já sabendo dos meus desacordos com elas. Eu falei pra eles: “Quando eu for um homem livre nas ruas de Budapeste e ele também, então eu ficarei feliz em dar minha opinião para vocês sobre ele de uma maneira franca e relaxada. Mas enquanto estivermos permanecermos aprisionados, minha única relação com ele é de solidariedade”.  
Você me perguntou onde estavam meus sentimentos quando eu abandonei a minha carreira política. Eu devi dizer que talvez eu não seja um homem verdadeiramente contemporâneo. Eu posso dizer que nunca experimentei nenhum tipo de complexo ou frustração na minha vida. Então o que isso quer dizer? Eu conheço a literatura do século vinte, e eu li Freud. Mas eu nunca experimentei pessoalmente. Sempre quando eu costumava cometer erros ou tomar direções falsas, eu sempre estive disposto a reconhecer isto, não me custou muito, então pego outros caminhos. Quando eu tinha 15 ou 16 anos eu escrevi romances à maneira de Ibsen e Hauptmann. Quando eu tinha 18 eu os li e os achei desesperançosamente feios. Eu decidi então que jamais seria um escritor e queimei aquelas peças. Não tenho arrependimentos. Aquelas primeiras experiências foram uteis para mim mais tarde, como um crítico; sempre que dizia de um texto que eu queria escrever, então eu percebia que essa era a prova conclusiva da sua feiura, era um critério bastante confiável. Esta foi minha primeira experiência literária. Minhas primeiras influências políticas foram lendo Marx enquanto estudante, e então, a mais importante de todas, a leitura do grande poeta húngaro: Ady. Eu era um menino bastante isolado entre meus contemporâneos, e ler Ady teve um grande impacto em mim. Ele era um revolucionário animado por Hegel, apesar de ele nunca ter aceitado aquele aspecto de Hegel que eu também, desde o começo, sempre recusei: sua Versöhnung mit der Wirklichkeit – que é a reconciliação coma realidade dada. É uma grande fraqueza da cultura inglesa o fato de não haver qualquer familiaridade com Hegel. Até agora tenho mantido minha admiração por ele, e acho que o trabalho que Marx começou – a “materialização” da filosofia de Hegel – deve ser perseguida até mesmo além de Marx. Eu tentei em algumas passagens da minha iminente ontologia. Quando tudo estiver dito e feito, haverão apenas três grandes pensadores no ocidente, incomparáveis com todos os outros: Aristóteles, Hegel e Marx.

in LavraPalavra.blogspot.com

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