quinta-feira, 27 de julho de 2017

Entrevista (fragmento) a Alexandra Lucas Coelho (autora do romance «Deus-dará»)

Portugal gosta de acreditar que lidou bem com a sua história, que foi um colonizador brando e que não é racista
No ‘Deus-dará’ escreve que “Portugal foi o maior esclavagista do Oceano Atântico” e que “o Império Português tirou 5,8 milhões de pessoas de África para usar como escravas”. Portugal já fez a reconciliação com o passado?
Portugal foi objectivamente o maior esclavagista do Atlântico. Com o tamanho minúsculo que tem tirou quase metade (47 por cento) dos escravizados de África, enquanto as outras potências europeias (Espanha, França, Inglaterra, Holanda), todas juntas, são responsáveis pelo restante. E Portugal inaugurou o tráfico atlântico, a triangulação Europa-África-América, que não existia. Os números variam um pouco consoante as fontes, mas se pecam será por defeito, porque nos faltam registos, porque havia tráfico clandestino, etc. Seja como for, apenas com o que já se sabe, é inquestionável que a escala foi gigantesca. E é a percepção desta escala, para começar, que até hoje não existe, em geral, em Portugal.
Académicos e artistas têm trabalhado sobre isto, mas desde o ensino básico aos discursos políticos continua a perpetuar-se um discurso sobre os “Descobrimentos” que ignora a escala do que aconteceu. A escravatura é transformada numa espécie de borrão em que todos estavam metidos, e era assim, e já foi muito tempo, e pronto. Mas esta história, esta corda de mortos, está em grande parte por desenterrar no espaço público, fora da academia. Primeiro, o horror do que aconteceu, a quantidade de gente de que estamos a falar — o mesmo número de pessoas do Holocausto —, o que passaram, como eram tratadas, como morreram. Depois, quem eram, como lutaram, como resistiram, como viviam, todas as narrativas que lhes foram negadas enquanto seres humanos. E como tudo isso se liga à discriminação, à repressão, ao racismo ao longo da história até hoje.
Dos manuais escolares aos discursos políticos, Portugal gosta de acreditar que lidou bem com a sua história, que foi um colonizador brando e que não é racista. Não foi um colonizador brando, tem inúmeras situações de racismo e a prova de que não lidou bem com a sua história é a violência que este tema evoca sempre que se debate, a resistência, o contra-ataque, e acima de tudo a ausência total em Lisboa de um memorial, museu ou espaço que reflicta tudo isto.
Lisboa foi a grande capital esclavagista do mundo, depois de pelo menos um milhão de ameríndios já terem morrido na sequência da chegada dos portugueses ao Brasil. Mas todos estes milhões de pessoas, ameríndios e escravizados africanos, não existem em Belém, o epicentro da memória imperial portuguesa, nem noutro ponto da cidade. Não existe o horror do que lhes aconteceu, tal como não existe quem eles eram: narrativas, artes, lutas. E esse vazio serve o racismo contemporâneo, mantém invisíveis os fios que ligam esses mortos aos afrodescendentes e ameríndios de hoje. É uma negação de toda a história, de que do lado deles também há uma história, da tal corda que liga passado e presente em contínuo, e que fará o futuro.
No último ano, parece-me que pessoas e movimentos em Portugal, uns há muito no terreno, outros recentes, de proveniências e formações várias, começam a confluir, a unirem esforços para que esta situação mude em vários sentidos. Não vejo como pode não mudar. Não podemos continuar a ter o Padrão dos Descobrimentos e o Mosteiro dos Jerónimos sem nada nas redondezas que amplie largamente as narrativas do que se passou, e continua a passar.
 No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheresNo livro denuncia o facto de “dos manuais escolares ao discurso público, a tónica portuguesa, hoje, é celebrar ‘Os Descobrimentos’ como se não tivesse acontecido o extermínio de pelo menos um milhão de ameríndios e o tráfico de quase seis milhões de africanos”. Como se perpetuaram, na sociedade portuguesa, as ideias de luso-tropicalismo e de uma suposta brandura dos portugueses durante o colonialismo?
O Estado Novo foi decisivo nisso. O Padrão dos Descobrimentos é feito para a Exposição do Mundo Português de 1940, em que Salazar se enfeita com o Império colonial, e o projecta para o futuro. Depois da Segunda Guerra precisou de novos argumentos, perante um mundo em mudança, que já não via com bons olhos impérios coloniais. E usou para esse objectivo a tese luso-tropicalista do brasileiro Gilberto Freyre, segundo a qual Portugal seria um colonizador de excepção, com uma propensão histórica para a mistura racial desde judeus e mouros, mais adaptativo, mais brando. Freyre é uma figura complexa, com extensa obra anterior, e não deve ser reduzido a isso, mas dispôs-se a ser passeado pelo Império colonial português, e carimbou-o intelectualmente em livros. As colónias passaram a ser chamadas “províncias” do Ultramar. Uma longa história de mistificação que o Estado Novo vendeu aos portugueses, à custa de todo o tipo de abusos e discriminações, e depois de uma guerra brutal em África até 1974, que custou mais de 8000 vidas a portugueses e talvez cem mil a africanos. E essa mistificação cultivada no Estado Novo, herdeira também do sonho de um Quinto Império, continua a moldar a visão de um Portugal de excepção, uma nação especial, destinada a grandes feitos, em que muitos até hoje acreditam. Sendo que isto convive com um gosto pelo fado e pelo lamento, com um cíclico sentimento de impotência ou injustiça. Uma bipolaridade entre o eleito e o desgraçado.
Quanto à miscigenação, em que assenta a tese do luso-tropicalismo, comecemos por pensar nisto: foi violação em massa. Os portugueses levaram menos mulheres do que outros europeus para o Novo Mundo e violaram muito mais, índias e negras. Mesmo quando não se tratava de uma relação sexual imposta pela força, tratava-se de uma relação de poder, domínio, subjugação, não de uma escolha livre. No vazio do que nunca enfrentámos historicamente há também o vazio das mulheres. As brancas que ficavam na metrópole, e as índias e negras, milhões, que foram violadas e violentadas ao longo de séculos, para povoar e embranquecer as colónias.
O que aconteceu desde o século XV foi enterrado como se não tivesse relação com o presente e o futuroHá uma relação direta entre o nosso passado colonial e os episódios de racismo existentes em Portugal?
Sim, por tudo o que acabo de dizer. Depois do 25 de Abril começámos lentamente a enfrentar os fantasmas mais recentes, relacionados com a guerra colonial nos anos 1960-70 em África. Mas o que aconteceu desde o século XV foi enterrado como se não tivesse relação com o presente e o futuro. Para muita gente, aliás, português é automaticamente branco, os negros são vistos como quem veio de fora, pertence a outra terra, quando há gerações de negros aqui há séculos. Em Portugal nunca houve uma descolonização do pensamento, de facto. E essa descolonização tem de começar lá atrás. Para que os fios sejam reconstituídos, as narrativas, os antepassados dos que agora estão vivos. Porque é que tantos portugueses acham normal orgulharem-se do [Vasco da] Gama e do [Pedro Álvares] Cabral, e visitarem os monumentos, e acham estranho que se queira falar do resto que aconteceu nessa altura? É como se índios e negros não contassem como gente igual aos brancos, lá atrás. O passado só serve para enfeitar a lapela? Não serve para pensar que as coisas foram mais complexas, que milhões de pessoas ficaram invisíveis, estão invisíveis até hoje? O facto de estarem invisíveis é racismo, preconceito, sobranceria eurocêntrica, para além de uma enorme cobardia histórica, de saber quem somos de facto, de nos olharmos ao espelho. E o facto de continuarem invisíveis perpetua o racismo e o abismo.
O facto de 18 agentes da PSP poderem ser responsabilizados nos termos duros em que estão a ser quebra um status quoAcredita que a acusação histórica do Ministério Público aos 18 agentes da PSP de Alfragide poderá mudar a forma como a questão do racismo é abordada em Portugal?
É uma acusação histórica, sim. Terá de se provar a culpa, não se trata de nos anteciparmos ao tribunal. Mas o facto de 18 agentes da PSP poderem ser responsabilizados nos termos duros em que estão a ser quebra um status quo, muda o prisma, sublinha o racismo como crime punível. Tudo isto contribui para uma outra percepção do que é aceitável e do que não é, para dissuadir comportamentos preconceituosos, para exigir da polícia uma outra consciência, e será uma oportunidade decisiva para a polícia se comprometer seriamente com isso.
Para além da sua paixão pelo Brasil, o Médio Oriente sempre assumiu um grande destaque na sua escrita, nomeadamente na reportagem e na crónica. Como olha para o estado atual da região?
Seriam muitas respostas, Síria, Iraque, Egitpo. Fico-me por Israel/Palestina, de onde acabo de voltar depois de um mês em reportagem. Tudo está pior do que nunca. Tudo quer dizer, a esperança dos palestinianos, a vida dos israelitas está ok, e por isso é que Israel não vai fazer absolutamente nada na direcção da paz. Gaza é um caso único no mundo, dois milhões de pessoas a enlouquecerem sem poderem sair de uma nesga de território, controlada por Israel a partir de ar, mar e terra. Um escândalo de que toda a gente é responsável, Israel à cabeça, depois o dito quarteto das negociações, EUA, UE, Rússia, ONU.

in Notícias aos Minuto

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