Ser
Em mim ser outro me vi
Sem ser onda, espuma.
Ao sentir-me não senti
Que a vida era só uma.
Olhar para trás, isso não!
Em sal me reduzia.
Ter o futuro na mão?
Em espuma me desfazia.
Outro em mim quer
Queira eu ou não queira
Seja eu mais um qualquer
Mas ter o horizonte à minha beira!
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quarta-feira, 8 de abril de 2009
10 Princípios para se tornar um crápula
1º - Lamber os sapatos a todos que algum poder tenham.
2º - Começar por pedir dinheiro emprestado e jogar na bolsa.
3º - Tirar um curso de advocacia apenas para enganar e extorquir dinheiro aos constituintes.
4º - Em alternativa, um curso de economia para entender e aplicar os mecanismos da roubalheira.
5º - Aceitar luvas e outros subornos e ser hábil a exigi-los.
6º - Nunca oferecer um almoço de graça: favores pagam-se com favores.
7º - Introduzir-se numa empresa do que quer que seja, não olhando a meios para subir a gestor, administrador e accionista, com o olho posto em ordenados principescos e dividendos.
8º - Participar no esbulho da mais-valia criada pelos trabalhadores, flexibilizando os contratos individuais, congelando os salários, aumentando a jornada de trabalho, despedindo, encerrando a empresa recorrendo ao lay-off.
9º - Declarar publicamente que o Estado deve racionalizar as despesas com os serviços públicos, ao mesmo tempo que exige dele que intervenha para salvar o mercado livre; que lhe pague sobretudo, para se salvar da crise.
10º - Ser muito hábil na defesa da democracia contra os inimigos desta, isto é os inimigos dele, propondo ou apoiando todas as medidas que ponham os seus inimigos na ordem; ou seja, a ordem democrática.
2º - Começar por pedir dinheiro emprestado e jogar na bolsa.
3º - Tirar um curso de advocacia apenas para enganar e extorquir dinheiro aos constituintes.
4º - Em alternativa, um curso de economia para entender e aplicar os mecanismos da roubalheira.
5º - Aceitar luvas e outros subornos e ser hábil a exigi-los.
6º - Nunca oferecer um almoço de graça: favores pagam-se com favores.
7º - Introduzir-se numa empresa do que quer que seja, não olhando a meios para subir a gestor, administrador e accionista, com o olho posto em ordenados principescos e dividendos.
8º - Participar no esbulho da mais-valia criada pelos trabalhadores, flexibilizando os contratos individuais, congelando os salários, aumentando a jornada de trabalho, despedindo, encerrando a empresa recorrendo ao lay-off.
9º - Declarar publicamente que o Estado deve racionalizar as despesas com os serviços públicos, ao mesmo tempo que exige dele que intervenha para salvar o mercado livre; que lhe pague sobretudo, para se salvar da crise.
10º - Ser muito hábil na defesa da democracia contra os inimigos desta, isto é os inimigos dele, propondo ou apoiando todas as medidas que ponham os seus inimigos na ordem; ou seja, a ordem democrática.
Princípios para se tornar um homem bem sucedido na política
1º - Apresentar-se sempre vestido e penteado à la mode. Nos partidos onde se cultiva a modéstia, vestir-se como os outros.
2º - Frequentar ginásios selectos. Noutros casos, frequentar uma colectividade popular ou uma associação qualquer.
3º - Aderir preferencialmente a um dos dois partidos iguais que se alternam no governo. Se for jovem inscrever-se numa juventude partidária.
4º - Estar de corpo presente em todas as cerimónias e outros actos públicos e esforçar-se por ficar bem visível.
5º - Propor-se e aceitar todas as tarefas que os chefes, superiores ou colectivos, lhe encomendem.
6º - Mostrar-se sempre voluntarioso, decidido, fiel e agradecido.
7º - Tecer louvores ao partido e elogios aos chefes ou dirigentes máximos ou medianos.
8º - Reafirmar sempre a propósito que os objectivos do partido, do povo ou do país, estão acima dos interesses individuais.
9º - Exibir um semblante carregado de seriedade nos actos públicos e nas reuniões partidárias.
10º - Repetir amiúde palavras-chave: seriedade, ética e sentido de responsabilidade.
1º - Apresentar-se sempre vestido e penteado à la mode. Nos partidos onde se cultiva a modéstia, vestir-se como os outros.
2º - Frequentar ginásios selectos. Noutros casos, frequentar uma colectividade popular ou uma associação qualquer.
3º - Aderir preferencialmente a um dos dois partidos iguais que se alternam no governo. Se for jovem inscrever-se numa juventude partidária.
4º - Estar de corpo presente em todas as cerimónias e outros actos públicos e esforçar-se por ficar bem visível.
5º - Propor-se e aceitar todas as tarefas que os chefes, superiores ou colectivos, lhe encomendem.
6º - Mostrar-se sempre voluntarioso, decidido, fiel e agradecido.
7º - Tecer louvores ao partido e elogios aos chefes ou dirigentes máximos ou medianos.
8º - Reafirmar sempre a propósito que os objectivos do partido, do povo ou do país, estão acima dos interesses individuais.
9º - Exibir um semblante carregado de seriedade nos actos públicos e nas reuniões partidárias.
10º - Repetir amiúde palavras-chave: seriedade, ética e sentido de responsabilidade.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
EU VI
Eu vi crianças deitadas em modestos caixões. Eram pequeninas como eu era então. Condiscípulas da mesma escola estilo «Estado Novo», no topo da colina, a igrejinha ao pé, para lá chegar calcorreávamos quilómetros, servíamo-nos da linha de caminho-de-ferro como orientação. Sentavam-se ao fundo, ou à frente, de salas geladas, em secretárias duras como pedra, os tinteiros nos tampos, um humilde cadernito em cima, os pezinhos frios, a cabeça a tombar com o sono, o frio, a fome. Eu via-as depois em féretros de pinho. Morriam com o sarampo, pneumonia, meningite, de qualquer coisa. Ia vê-las com os demais companheiros, e ficava absorto, sem compreender. O que era a morte? não sabia.
Não recordo o funeral do meu irmãozinho, de quatro anos, nem das brincadeiras comuns que ambos certamente fazíamos. Guardo uma imagem vaga da minha mãe chorando silenciosamente. Guardo, porém, um sentimento agudo de injustiça, o sem-sentido de perda irreparável, da justiça não a compreendia ainda.
Vi, três anos depois da tragédia, o meu pai saindo porta fora, com lágrimas nos olhos, disseram-me mais tarde que estava preso muito longe, num forte com muros altos, castigado não soube porquê, e novamente senti uma profunda revolta, que foi a raiz, e a chama com que incendiei as minhas ideias.
Vi uma mulher, parecia jovem sob os farrapos, tombada numa rua da grande cidade, debaixo de um fardo de tábuas demasiado pesado para ela. Há quantas horas trabalhava nisso? que comera? Vi que ninguém a levantou, lhe deu a mão. Eu dei. E mais os vinte escudos que eram toda a minha fortuna. Faltavam poucos anos para o dia 25 de Abril de 1974.
Eu vi em África, no interior da mata, um grupo de homens brancos a tentar violar uns miúdos negros, fosse a gozar, fosse a sério, porque riam, gargalhavam, brutais, feios e porcos. E meteu-se em mim uma vontade de lhes bater, espancar, desfazer. Tirei o cinto mas não me atrevi. Era um miúdo. A chama que incendiava as minhas ideias ficou mais acesa.
Eu vi, passando na estrada, centenas, talvez milhares, de operários pedalando frágeis bicicletas a caminho das fábricas, pedalando, pedalando, pela aurora, pelo crepúsculo, com casacos mal talhados, de sarja pobre, sob a chuva, sob os ventos, com uma malga de caldo no estômago, talvez um bagaço. Ficou mais forte a minha chama. O que quer que fosse a justiça era assunto que me perseguia.
Eu vi como muitos fugiam e os coelhos eram mais bravos. Eu vi como a cobardia é coisa comum e a vergonha raramente a acompanha.
Eu vi como um companheiro, um estudante como eu, de origem social ainda mais modesta, companheiro do bilhar, se tornou delator, como chusmas de colegas de turma furaram uma greve na universidade, como um estudante engraxa um mestre, como a traição se insinua como um réptil numa relação, como um homem ou mulher têm um preço, não apenas quando trabalham, mas para que roubem, enganem, trepem mais uma tarimba, conquistem mais uns galões.
Eu vi um povo quase todo adormecido, estupidificado, silencioso, rude, maldoso, acobardado. Contudo, vi a valentia de camponeses do Alentejo e de operários fabris. E a minha chama ficou a arder.
E vi-te. Um pedaço de céu a andar dançando abrindo as águas, uma onda suave e branda, um sopro de brisa numa manhã de Abril, um riso dando música a uma tarde suavíssima de Setembro. Meu amor.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
A CABEÇA
O corpo lá estava, mas a cabeça não. Tenho trinta anos de trabalho na judiciária e nunca assisti a um caso assim. Onde pararia a cabeça do morto? Fora assassinado, decapitado? Se sim, porquê e por quem?
No gabinete da polícia organizei-me para a perseguição. Levei três dias a tentar reunir elementos, sem sucesso algum, sobre a identidade do cadáver; apenas o consegui quando, na Central, recebemos uma queixa sobre o desaparecimento de um indivíduo que fez acender alguma luz no meu espírito desorientado. Queixas dessas eram quase diárias, difícil distinguir o supérfluo do acessório. O cadáver havia sido encontrado num beco, sem qualquer identificação. Somente alguém que nos desse o sinal do seu desaparecimento da sua casa ou do seu trabalho, nos poderia ajudar. Foi tal e qual o que acabou por acontecer. Uma voz feminina participara à polícia de segurança pública o desaparecimento, que lhe parecia misterioso e suspeito, de um indivíduo do qual tracei o perfil: raça caucasiana, sexagenário, professor catedrático da Universidade de Coimbra. A voz feminina apresentou-se-nos imediatamente quando a chamámos. Era uma bonita mulher, longe ainda da meia idade, que, abrindo-se em lágrimas, mostrou-se convicta de que o desaparecido não se escapuliria de casa tanto tempo por vontade própria, pois nem zangados estavam, bem pelo contrário. Fora, de certeza, assassinado, assaltado e assassinado, embora admitisse a hipótese, por insistência minha, de haver caído morto, de morte natural, em qualquer rua esconsa nesses labirintos da cidade dos estudantes. A mulher falava para o gravador, à minha frente, os alvos joelhos nus bem apertados, as mãos finas arrepiando a saia, umas belíssimas mamas a espetarem-se na camiseta, e a sua vasta cabeleira e uns belos olhos azuis provocaram-me um assomo de erecção. Envergonhei-me comigo mesmo: ora essa, a mulher a banhar-se em lágrimas, nervosíssima e eu…Adiante. O desaparecido segundo ela, e a seguir confirmado por nós, era pessoa bem considerada nos meios letrados, dono de uma bonita cabeça, que irradiava inteligência e sabedoria, e cidadão acima de qualquer suspeita. Ora bolas, onde andaria a cabeça? Por este andar ainda eu perdia a minha, sem que se perdesse grande coisa, de tanto matutar.
Dois dias e duas noites em branco não dei tréguas à missão , que se tornou compulsiva, de descobrir a sapiente cabeça. Detive quatro indivíduos cujas cabeças pareciam corresponder à fotografia que a mulher nos entregara. Larguei-os com uma desculpa atabalhoada, ao fim de meia hora: um, era serralheiro mecânico; o outro, caixeiro-viajante; o terceiro, inválido a viver de uma pensão; o quarto, o mais parecido de todos eles, era assumidamente gay, gesticulando com uns modos tão exageradamente femininos que nos fez rir, se bem que não seja um comportamento próprio a uma autoridade.
Onde pararia a dita cabeça? Em que corpo estaria assentada, passeando-se, falando, comendo…?
Entretanto, e isto já eu deveria ter referido mais acima, verificara-se um milagre, se é que eu, autoridade de um Estado laico, poderia recorrer a tais expressões, mas, em boa verdade, não tenho outra para tamanho fenómeno: o morto não estava morto afinal, três horas depois de se encontrar morto e bem morto, erguera-se sozinho da mesa onde o médico legista o observava e quase matando este de susto procurou a porta às apalpadelas, esbarrou diversas vozes com paredes e pessoas e saiu para a rua com a ajuda de uma enfermeira de rosto duro a quem nada parecia surpreender. Soube-se que apanhou um táxi e se encafuou em casa. Telefonei imediatamente para a namorada, companheira ou lá o que fosse, que desatou aos gritos ao telefone num misto de alegria e de estupefacção. E algum medo, diria eu.
Durante três dias, creio já ter dito, incluindo o fim-de-semana, procurei um corpo com a cabeça do indivíduo sem cabeça. Não li um jornal, não olhei para a televisão uma única vez, agarrado ao trabalho como um amante se agarra…à amante. Apesar disso, visitei o homem, para estudar e reunir todos os pormenores. A mulher abriu-me a porta e vi no rosto dela uma estranha serenidade. Encontrei-o sentado no sofá, de pernas cruzadas, roupão e chinelos. Mostrou-se, em contraste com a mulher, completamente furioso com a sua cabeça, passando várias vezes a mão direita sobre o plano absolutamente liso do pescoço onde, antes, lhe assentara uma cabeça invulgar. Não falava evidentemente: gesticulava e a mulher traduzia, escrevinhava incontinentemente num grosso bloco de apontamentos que a mulher decifrava. Denunciou nomes de numerosos indivíduos do seu meio que por inveja seriam capazes de lhe arrancar a cabeça. Porém, na verdade, a mulher já averiguara que todos conservavam as suas, isto é, deles. Dizendo melhor ainda: conservavam-se estúpidos, arrogantes, invejosos. Quem lhe roubaria a cabeça senão por inveja? Receber assim de bandeja, já pronta, uma cabeça que levara dezenas de anos a construir-se, a moldar-se, a encher-se de saber, a derramar luz sobre a cegueira dos outros, a esquartejar as asneiras alheias, a estultícia, as falácias, os sofismas? «Não temos saído de casa, não fazemos nada que ele não possa ver nem ouvir, alheámo-nos de tudo, é tanto o medo e a vergonha, esperamos apenas que o senhor resolva o enigma, confiamos tanto em si…», confessou a mulher. Não me atrevi sequer a dar-lhe conselhos, a ele, professor catedrático supra-sábio, a aquietar-se, a habituar-se a conviver com a falta, a brecha, a ruptura, o deslize, o espectro, em suma, de uma cabeça amada que o abandonara miseravelmente, metendo-se noutro corpo, enfiando-se na cama com ele, dando-lhe de comer e de beber…A bonita namorada como que percebeu os meus pensamentos: «Ele não fala, é certo, é horrível para ele, tão comunicativo, um grande conferencista, dezenas de estudantes nos seus seminários, agora refugia-se em casa, não ouve os telefonemas, nem lê na internet…aqui, em casa, utiliza muito bem os sentidos que lhe restam e a motricidade, tem um sentido muito apurado do tacto…». Aqui a beleza estacou e ruborizou-se. Não sou uma luminária mas sou suficientemente malandro para descortinar as fantasias que o sábio executaria sobre o estupendo corpo daquela mulher. Enfim, escapes para a sua falta. Se eu fosse sábio, diria «castração» ou «ferida narcísica», mas não sou.
Hoje, dia cinco de Maio, quando me dirigia para o meu gabinete na judiciária, o meu director esperava-me com uma cigarrilha na mão. «Oiça lá, ó Esteves, onde é que tem andado? Ao fim de tantos e tão bons anos de serviço a prender meliantes e o culpado à sua frente e não o topa??». Agarrei-me à porta envidraçada, um tremor percorreu-me o corpo até aos pés. «Não percebo o que me está a dizer!». «Pois não, como é que havia de perceber se não abriu um jornal nem viu um único telejornal?? A sua cabeça, desculpe lá, a cabeça que procura está aqui e ali escarrapachada, milhões de seres comuns já a viram, já a amam ou odeiam, e ninguém se acusa!». E atirou-me o Correio da Manhã para cima literalmente.
O que vi deixou-me estarrecido, mudo com os olhos arregalados como um mocho. A cabeça ocupava um quarto da primeira página. O cabeçalho intitulava-se: «O Primeiro-Ministro, com o seu novo look, inaugurou o TGV». Em baixo, relatava-se pormenorizadamente que o Primeiro-Ministro, abandonara o refúgio e o anonimato em que se recolhera três dias e três noites, para meditar, provavelmente recorrendo a técnicas do extremo-oriente, e apresentava-se ao povo, agora e subitamente, com uma nova cabeça, espectacular, emoldurada de uma bela e farta cabeleira branca, uma testa elevada que ressumava inteligência, um olhar penetrante que deixava os adversários completamente desarmados, as palavras escorriam como pérolas, cintilantes, embutidas em argumentos definitivos, sem falácias nem sofismas, frases inteiras em grego e latim, sentenças imortais de Aristóteles e de Séneca, citações oportuníssimas de Hegel (no mais perfeito alemão), de Nietzsche, Marcuse, Deleuze…O povo miúdo não entendia patavina, mas abria a boca de profunda e sincera admiração. Os seus correligionários encolhiam-se, vergados ao peso da grandeza, da autoridade sublime, das mordomias que ele, o chefe, doava em latim moderno.
Quando contei ao professor sem cabeça onde se encontrava, afinal, a cabeça dele, o homem caiu para o lado com uma síncope. Realmente, não era caso para menos: como é que eu, modesto funcionário, teria alguma vez poder para acusar tão grandiosa figura do roubo da sua cabeça? Dele, ou de outro?
No gabinete da polícia organizei-me para a perseguição. Levei três dias a tentar reunir elementos, sem sucesso algum, sobre a identidade do cadáver; apenas o consegui quando, na Central, recebemos uma queixa sobre o desaparecimento de um indivíduo que fez acender alguma luz no meu espírito desorientado. Queixas dessas eram quase diárias, difícil distinguir o supérfluo do acessório. O cadáver havia sido encontrado num beco, sem qualquer identificação. Somente alguém que nos desse o sinal do seu desaparecimento da sua casa ou do seu trabalho, nos poderia ajudar. Foi tal e qual o que acabou por acontecer. Uma voz feminina participara à polícia de segurança pública o desaparecimento, que lhe parecia misterioso e suspeito, de um indivíduo do qual tracei o perfil: raça caucasiana, sexagenário, professor catedrático da Universidade de Coimbra. A voz feminina apresentou-se-nos imediatamente quando a chamámos. Era uma bonita mulher, longe ainda da meia idade, que, abrindo-se em lágrimas, mostrou-se convicta de que o desaparecido não se escapuliria de casa tanto tempo por vontade própria, pois nem zangados estavam, bem pelo contrário. Fora, de certeza, assassinado, assaltado e assassinado, embora admitisse a hipótese, por insistência minha, de haver caído morto, de morte natural, em qualquer rua esconsa nesses labirintos da cidade dos estudantes. A mulher falava para o gravador, à minha frente, os alvos joelhos nus bem apertados, as mãos finas arrepiando a saia, umas belíssimas mamas a espetarem-se na camiseta, e a sua vasta cabeleira e uns belos olhos azuis provocaram-me um assomo de erecção. Envergonhei-me comigo mesmo: ora essa, a mulher a banhar-se em lágrimas, nervosíssima e eu…Adiante. O desaparecido segundo ela, e a seguir confirmado por nós, era pessoa bem considerada nos meios letrados, dono de uma bonita cabeça, que irradiava inteligência e sabedoria, e cidadão acima de qualquer suspeita. Ora bolas, onde andaria a cabeça? Por este andar ainda eu perdia a minha, sem que se perdesse grande coisa, de tanto matutar.
Dois dias e duas noites em branco não dei tréguas à missão , que se tornou compulsiva, de descobrir a sapiente cabeça. Detive quatro indivíduos cujas cabeças pareciam corresponder à fotografia que a mulher nos entregara. Larguei-os com uma desculpa atabalhoada, ao fim de meia hora: um, era serralheiro mecânico; o outro, caixeiro-viajante; o terceiro, inválido a viver de uma pensão; o quarto, o mais parecido de todos eles, era assumidamente gay, gesticulando com uns modos tão exageradamente femininos que nos fez rir, se bem que não seja um comportamento próprio a uma autoridade.
Onde pararia a dita cabeça? Em que corpo estaria assentada, passeando-se, falando, comendo…?
Entretanto, e isto já eu deveria ter referido mais acima, verificara-se um milagre, se é que eu, autoridade de um Estado laico, poderia recorrer a tais expressões, mas, em boa verdade, não tenho outra para tamanho fenómeno: o morto não estava morto afinal, três horas depois de se encontrar morto e bem morto, erguera-se sozinho da mesa onde o médico legista o observava e quase matando este de susto procurou a porta às apalpadelas, esbarrou diversas vozes com paredes e pessoas e saiu para a rua com a ajuda de uma enfermeira de rosto duro a quem nada parecia surpreender. Soube-se que apanhou um táxi e se encafuou em casa. Telefonei imediatamente para a namorada, companheira ou lá o que fosse, que desatou aos gritos ao telefone num misto de alegria e de estupefacção. E algum medo, diria eu.
Durante três dias, creio já ter dito, incluindo o fim-de-semana, procurei um corpo com a cabeça do indivíduo sem cabeça. Não li um jornal, não olhei para a televisão uma única vez, agarrado ao trabalho como um amante se agarra…à amante. Apesar disso, visitei o homem, para estudar e reunir todos os pormenores. A mulher abriu-me a porta e vi no rosto dela uma estranha serenidade. Encontrei-o sentado no sofá, de pernas cruzadas, roupão e chinelos. Mostrou-se, em contraste com a mulher, completamente furioso com a sua cabeça, passando várias vezes a mão direita sobre o plano absolutamente liso do pescoço onde, antes, lhe assentara uma cabeça invulgar. Não falava evidentemente: gesticulava e a mulher traduzia, escrevinhava incontinentemente num grosso bloco de apontamentos que a mulher decifrava. Denunciou nomes de numerosos indivíduos do seu meio que por inveja seriam capazes de lhe arrancar a cabeça. Porém, na verdade, a mulher já averiguara que todos conservavam as suas, isto é, deles. Dizendo melhor ainda: conservavam-se estúpidos, arrogantes, invejosos. Quem lhe roubaria a cabeça senão por inveja? Receber assim de bandeja, já pronta, uma cabeça que levara dezenas de anos a construir-se, a moldar-se, a encher-se de saber, a derramar luz sobre a cegueira dos outros, a esquartejar as asneiras alheias, a estultícia, as falácias, os sofismas? «Não temos saído de casa, não fazemos nada que ele não possa ver nem ouvir, alheámo-nos de tudo, é tanto o medo e a vergonha, esperamos apenas que o senhor resolva o enigma, confiamos tanto em si…», confessou a mulher. Não me atrevi sequer a dar-lhe conselhos, a ele, professor catedrático supra-sábio, a aquietar-se, a habituar-se a conviver com a falta, a brecha, a ruptura, o deslize, o espectro, em suma, de uma cabeça amada que o abandonara miseravelmente, metendo-se noutro corpo, enfiando-se na cama com ele, dando-lhe de comer e de beber…A bonita namorada como que percebeu os meus pensamentos: «Ele não fala, é certo, é horrível para ele, tão comunicativo, um grande conferencista, dezenas de estudantes nos seus seminários, agora refugia-se em casa, não ouve os telefonemas, nem lê na internet…aqui, em casa, utiliza muito bem os sentidos que lhe restam e a motricidade, tem um sentido muito apurado do tacto…». Aqui a beleza estacou e ruborizou-se. Não sou uma luminária mas sou suficientemente malandro para descortinar as fantasias que o sábio executaria sobre o estupendo corpo daquela mulher. Enfim, escapes para a sua falta. Se eu fosse sábio, diria «castração» ou «ferida narcísica», mas não sou.
Hoje, dia cinco de Maio, quando me dirigia para o meu gabinete na judiciária, o meu director esperava-me com uma cigarrilha na mão. «Oiça lá, ó Esteves, onde é que tem andado? Ao fim de tantos e tão bons anos de serviço a prender meliantes e o culpado à sua frente e não o topa??». Agarrei-me à porta envidraçada, um tremor percorreu-me o corpo até aos pés. «Não percebo o que me está a dizer!». «Pois não, como é que havia de perceber se não abriu um jornal nem viu um único telejornal?? A sua cabeça, desculpe lá, a cabeça que procura está aqui e ali escarrapachada, milhões de seres comuns já a viram, já a amam ou odeiam, e ninguém se acusa!». E atirou-me o Correio da Manhã para cima literalmente.
O que vi deixou-me estarrecido, mudo com os olhos arregalados como um mocho. A cabeça ocupava um quarto da primeira página. O cabeçalho intitulava-se: «O Primeiro-Ministro, com o seu novo look, inaugurou o TGV». Em baixo, relatava-se pormenorizadamente que o Primeiro-Ministro, abandonara o refúgio e o anonimato em que se recolhera três dias e três noites, para meditar, provavelmente recorrendo a técnicas do extremo-oriente, e apresentava-se ao povo, agora e subitamente, com uma nova cabeça, espectacular, emoldurada de uma bela e farta cabeleira branca, uma testa elevada que ressumava inteligência, um olhar penetrante que deixava os adversários completamente desarmados, as palavras escorriam como pérolas, cintilantes, embutidas em argumentos definitivos, sem falácias nem sofismas, frases inteiras em grego e latim, sentenças imortais de Aristóteles e de Séneca, citações oportuníssimas de Hegel (no mais perfeito alemão), de Nietzsche, Marcuse, Deleuze…O povo miúdo não entendia patavina, mas abria a boca de profunda e sincera admiração. Os seus correligionários encolhiam-se, vergados ao peso da grandeza, da autoridade sublime, das mordomias que ele, o chefe, doava em latim moderno.
Quando contei ao professor sem cabeça onde se encontrava, afinal, a cabeça dele, o homem caiu para o lado com uma síncope. Realmente, não era caso para menos: como é que eu, modesto funcionário, teria alguma vez poder para acusar tão grandiosa figura do roubo da sua cabeça? Dele, ou de outro?
Etiquetas:
Fábulas:« Non ridere,
neque detestari,
non lugere,
sed intelligere»
terça-feira, 31 de março de 2009
O POÇO
Existiu em tempos idos um homem que acreditava sinceramente que o mundo possuía um outro lado. O indivíduo não era nem analfabeto nem desinformado, bem pelo contrário, os livros eram tantos em casa dele que mal cabíamos, eu e a minha mulher, quando o visitávamos. Com pouca frequência de resto, pois que ele dissertava quase exclusivamente sobre o outro lado do mundo, o que tornava algo enfadonhos os serões.
Um belo dia desapareceu. Encontrámos a casa encerrada quando para lá nos dirigimos à pressa, depois de eu ler uma sms enviada por ele, do seu telemóvel, que dizia simplesmente: «Não me procurem».
A vida continuou e fui esquecendo o amigo, ou quase amigo. Vinte anos passaram, envelheci, agora reflectia mais vezes sobre a certeza elementar de que só tinha uma vida para viver.
Nos inícios de um Outono cada vez mais parecido com os outros, recebi uma carta remetida por alguém que já esquecera. Muito brevemente relatava a história seguinte:
«Sou aquele que ambicionava encontrar o outro lado do mundo. Tinha trinta anos então, tenho hoje cinquenta. Levei comigo apenas o que leva consigo um nómada: uma mochila. Dividi a viagem em etapas de quinhentos quilómetros. Durante a primeira encontrei gentes a fazerem o mesmo que aquelas que eu conhecera na minha terra natal, umas paupérrimas, outras riquíssimas. Na segunda, a diferença era mínima, se bem que melhor distribuída a riqueza e o conforto. Na terceira, fui assaltado. Na quarta, encarcerado. Na quinta, escravizado e sodomizado. Na sexta, receberam-me como mártir, converteram-me a uma religião e enviaram-me à força para uma missão suicida. Logo que pude libertei-me da carga explosiva e percorri mais quinhentos quilómetros. Para sobreviver ensinei cinco anos a fio matemática e literatura a rapazes e raparigas que não queriam saber disso para nada, as raparigas metiam-se comigo, os rapazes metiam-se com elas. Peguei na mochila e calcorreei mais quinhentos quilómetros. Como pouca gente se mostrava generosa e hospitaleira para com um desempregado vagabundo, tive de recorrer a pequenos biscates: aliciaram-me primeiro para um gang de narcotraficantes, a seguir para outro gang, este já internacional, que traficava «carne branca», na realidade, tanto branca como escura. Um ano depois evadi-me, tendo, para isso, de liquidar a tiro dois capangas. Percorri mais quinhentos quilómetros. Fiz-me cantor de jazz num bar de fraca reputação. Abandonei a via artística depois de uma linda mulher por quem me apaixonara me ter roubado o maço de dólares que eu guardava debaixo do colchão. Contudo, nunca desesperei.
Certo dia de primavera, deambulava eu num deserto, deparei-me com dois indivíduos e um poço. Um era muito idoso, o outro, muito jovem. Deixaram-me saciar a sede. Perguntaram-me para onde queria ir. Respondi-lhes: para o outro lado do mundo. Porquê? Questionaram sem surpresa nos rostos tisnados pelo sol. Porque é completamente diferente, para melhor evidentemente! Retorqui com aquela convicção que me conduzira durante anos e milhares de quilómetros. Pois então, disse o mais velho, basta subires aquela montanha e vê-lo-ás do outro lado! Eu nunca o fiz porque esperei demasiado e agora estou velho; este, aqui, ainda é novo demais… Então como sabeis que do outro lado é o outro lado do mundo? Porque acreditamos, dezenas de gerações sucessivas sempre nos garantiram tal facto, e o velho embrulhou umas tâmaras num lenço colorido e deu-mas.
Repousado e saciado, ataquei a montanha. No terceiro dia cheguei ao topo: Olhei para o outro lado. Vi ao longe, na base da montanha, uns pontos escuros sob o sol ardente. Desci quase a correr, um dia e uma noite bastaram-me para chegar quase ao sopé. A um quilómetro de distância os pontos pretos desenhavam-se nitidamente na paisagem.
Foi então que me vi a mim mesmo a conversar com um velho e um jovem, à sombra de um poço.
Eis a minha história. Já não possuo nem meios nem forças para regressar. Fico por aqui, deste lado do mundo, tanto vale aqui como acolá.»
Existiu em tempos idos um homem que acreditava sinceramente que o mundo possuía um outro lado. O indivíduo não era nem analfabeto nem desinformado, bem pelo contrário, os livros eram tantos em casa dele que mal cabíamos, eu e a minha mulher, quando o visitávamos. Com pouca frequência de resto, pois que ele dissertava quase exclusivamente sobre o outro lado do mundo, o que tornava algo enfadonhos os serões.
Um belo dia desapareceu. Encontrámos a casa encerrada quando para lá nos dirigimos à pressa, depois de eu ler uma sms enviada por ele, do seu telemóvel, que dizia simplesmente: «Não me procurem».
A vida continuou e fui esquecendo o amigo, ou quase amigo. Vinte anos passaram, envelheci, agora reflectia mais vezes sobre a certeza elementar de que só tinha uma vida para viver.
Nos inícios de um Outono cada vez mais parecido com os outros, recebi uma carta remetida por alguém que já esquecera. Muito brevemente relatava a história seguinte:
«Sou aquele que ambicionava encontrar o outro lado do mundo. Tinha trinta anos então, tenho hoje cinquenta. Levei comigo apenas o que leva consigo um nómada: uma mochila. Dividi a viagem em etapas de quinhentos quilómetros. Durante a primeira encontrei gentes a fazerem o mesmo que aquelas que eu conhecera na minha terra natal, umas paupérrimas, outras riquíssimas. Na segunda, a diferença era mínima, se bem que melhor distribuída a riqueza e o conforto. Na terceira, fui assaltado. Na quarta, encarcerado. Na quinta, escravizado e sodomizado. Na sexta, receberam-me como mártir, converteram-me a uma religião e enviaram-me à força para uma missão suicida. Logo que pude libertei-me da carga explosiva e percorri mais quinhentos quilómetros. Para sobreviver ensinei cinco anos a fio matemática e literatura a rapazes e raparigas que não queriam saber disso para nada, as raparigas metiam-se comigo, os rapazes metiam-se com elas. Peguei na mochila e calcorreei mais quinhentos quilómetros. Como pouca gente se mostrava generosa e hospitaleira para com um desempregado vagabundo, tive de recorrer a pequenos biscates: aliciaram-me primeiro para um gang de narcotraficantes, a seguir para outro gang, este já internacional, que traficava «carne branca», na realidade, tanto branca como escura. Um ano depois evadi-me, tendo, para isso, de liquidar a tiro dois capangas. Percorri mais quinhentos quilómetros. Fiz-me cantor de jazz num bar de fraca reputação. Abandonei a via artística depois de uma linda mulher por quem me apaixonara me ter roubado o maço de dólares que eu guardava debaixo do colchão. Contudo, nunca desesperei.
Certo dia de primavera, deambulava eu num deserto, deparei-me com dois indivíduos e um poço. Um era muito idoso, o outro, muito jovem. Deixaram-me saciar a sede. Perguntaram-me para onde queria ir. Respondi-lhes: para o outro lado do mundo. Porquê? Questionaram sem surpresa nos rostos tisnados pelo sol. Porque é completamente diferente, para melhor evidentemente! Retorqui com aquela convicção que me conduzira durante anos e milhares de quilómetros. Pois então, disse o mais velho, basta subires aquela montanha e vê-lo-ás do outro lado! Eu nunca o fiz porque esperei demasiado e agora estou velho; este, aqui, ainda é novo demais… Então como sabeis que do outro lado é o outro lado do mundo? Porque acreditamos, dezenas de gerações sucessivas sempre nos garantiram tal facto, e o velho embrulhou umas tâmaras num lenço colorido e deu-mas.
Repousado e saciado, ataquei a montanha. No terceiro dia cheguei ao topo: Olhei para o outro lado. Vi ao longe, na base da montanha, uns pontos escuros sob o sol ardente. Desci quase a correr, um dia e uma noite bastaram-me para chegar quase ao sopé. A um quilómetro de distância os pontos pretos desenhavam-se nitidamente na paisagem.
Foi então que me vi a mim mesmo a conversar com um velho e um jovem, à sombra de um poço.
Eis a minha história. Já não possuo nem meios nem forças para regressar. Fico por aqui, deste lado do mundo, tanto vale aqui como acolá.»
Etiquetas:
PARÁBOLAS
PERGUNTAS FRENTE AOS MUROS DE TEBAS- I
1. Que mecanismos económicos, políticos, ideológicos, explicam porque os regimes democráticos ocidentais possibilitam a manutenção das alavancas do poder das classes sociais possidentes?
2. Dentro dos processos que permitem a reprodução do poder dominante das classes dominantes, qual o papel que cabe às escolas?
3. Neste caso que finalidades e competências são atribuídas aos professores pelos poderes dominantes?
4. É possível aos professores moverem-se contra ou nas margens destas finalidades? Quais os meios para os controlar a que recorrem os poderes dominantes?
5. Qual é a ideologia dominante que os professores inoculam nos estudantes, tanto nas disciplinas de ciências da natureza como nas disciplinas de letras e ciências humanas? E em que grau e por que formas a comunidade escolar (pela sua organização e actividades) colabora nesta tarefa tutelada, vigiada e imposta?
6. Perante a organização e orientação tecnológica do mundo vale a pena reformar a escola, ou destrui-la?
7. De que modo as escolas reproduzem o sistema desigualitário das classes sociais?
1. Que mecanismos económicos, políticos, ideológicos, explicam porque os regimes democráticos ocidentais possibilitam a manutenção das alavancas do poder das classes sociais possidentes?
2. Dentro dos processos que permitem a reprodução do poder dominante das classes dominantes, qual o papel que cabe às escolas?
3. Neste caso que finalidades e competências são atribuídas aos professores pelos poderes dominantes?
4. É possível aos professores moverem-se contra ou nas margens destas finalidades? Quais os meios para os controlar a que recorrem os poderes dominantes?
5. Qual é a ideologia dominante que os professores inoculam nos estudantes, tanto nas disciplinas de ciências da natureza como nas disciplinas de letras e ciências humanas? E em que grau e por que formas a comunidade escolar (pela sua organização e actividades) colabora nesta tarefa tutelada, vigiada e imposta?
6. Perante a organização e orientação tecnológica do mundo vale a pena reformar a escola, ou destrui-la?
7. De que modo as escolas reproduzem o sistema desigualitário das classes sociais?
Subscrever:
Mensagens (Atom)