Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.
Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.
Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.
O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.
Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?
A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.
Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela
quarta-feira, 22 de julho de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
Boca, Bocas- D. Mourão Ferreira
Apenas
uma boca. A tua boca
Apenas outra , a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca.
Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.
Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca
Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.
uma boca. A tua boca
Apenas outra , a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca.
Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.
Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca
Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.
David Mourão Ferreira-Poemas
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.
E por vezes sorrimos ou choramos.
E por vezes por vezes, ah! por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.
E por vezes sorrimos ou choramos.
E por vezes por vezes, ah! por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Pablo Neruda-Poemas de Amor
É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Da Filosofia
1.Como ensinar Filosofia a quem não quer?
2.Como ensinar mal a filosofia?
3.O ensino da filosofia é para contrariar aquilo que os ouvintes querem, e não para dizer aquilo que eles querem ouvir. Esta tarefa é dos políticos.
4.A tarefa de repetir somente aquilo que os ouvintes já acreditam, não é a do filósofo, mas do padre ou do agitador político.
5.O professor de filosofia não filosofa sozinho, convoca o filosofar dos outros.
6.Quando ensina claramente o filosofar, então ele filosofa.
7.Não é filósofo somente aquele que publica um livro de filosofia, mas igualmente aquele que sabe ler, interpretar e controverter.
8.Não é necessário possuir um sistema original para se ser filósofo. Isto compete aos grandes e apenas no caso em que o sistema é inovador. Aos demais compete compreender e refutar.
9.O método dos filósofos é a análise, a síntese, a argumentação. Quando se alheia das práticas sociais, perde o fio da meada.
10.Racionalizar tudo é a ambição da filosofia. Trazer tudo ao pensamento.
11.Os filósofos não se limitam a perguntar «O que é?»; respondem sobretudo. A boa filosofia avalia-se pelas boas respostas a boas perguntas. «O Ser é?», nem sequer é uma boa pergunta.
12.A filosofia não é uma tarefa inútil. Poucas coisas são mais úteis do que a filosofia. O que é próprio da filosofia é precisamente examinar o que quer que seja a utilidade.
13.A admiração contemplativa não gera a filosofia: a fonte mais fecunda é a contradição.
14.Quando uma ideologia é muito hegemónica, até os seus adversários pensam e falam a sua linguagem.
15.Na realidade, não são as «massas» que dominam, são determinadas minorias que as dominam e elas consentem ou não. Nesse caso cada indivíduo singular de uma grande «massa», personifica a maioria.
16.A filosofia é uma actividade intelectual. Contudo, não são unicamente os intelectuais que produzem ideias. O ideólogo trabalha com ideias, sem que isso o converta necessariamente num filósofo.
17.Um operário letrado interpreta o mundo à sua maneira e é provável que o queira transformar.
18.O filósofo mais sublime de todos foi Benedito Espinosa. Era polidor de lentes. Um outro formidável filósofo foi Aristóteles: achou natural e existência de escravos.
19.Filósofo algum escapa ao contexto da sua vida pessoal e do mundo em que vive. É de ambas as coisas que o seu pensamento se alimenta. Não lhe é proibido pensar para além do seu mundo (quantos o fizeram!) mas, ainda assim, é no seu mundo que pensa.
2.Como ensinar mal a filosofia?
3.O ensino da filosofia é para contrariar aquilo que os ouvintes querem, e não para dizer aquilo que eles querem ouvir. Esta tarefa é dos políticos.
4.A tarefa de repetir somente aquilo que os ouvintes já acreditam, não é a do filósofo, mas do padre ou do agitador político.
5.O professor de filosofia não filosofa sozinho, convoca o filosofar dos outros.
6.Quando ensina claramente o filosofar, então ele filosofa.
7.Não é filósofo somente aquele que publica um livro de filosofia, mas igualmente aquele que sabe ler, interpretar e controverter.
8.Não é necessário possuir um sistema original para se ser filósofo. Isto compete aos grandes e apenas no caso em que o sistema é inovador. Aos demais compete compreender e refutar.
9.O método dos filósofos é a análise, a síntese, a argumentação. Quando se alheia das práticas sociais, perde o fio da meada.
10.Racionalizar tudo é a ambição da filosofia. Trazer tudo ao pensamento.
11.Os filósofos não se limitam a perguntar «O que é?»; respondem sobretudo. A boa filosofia avalia-se pelas boas respostas a boas perguntas. «O Ser é?», nem sequer é uma boa pergunta.
12.A filosofia não é uma tarefa inútil. Poucas coisas são mais úteis do que a filosofia. O que é próprio da filosofia é precisamente examinar o que quer que seja a utilidade.
13.A admiração contemplativa não gera a filosofia: a fonte mais fecunda é a contradição.
14.Quando uma ideologia é muito hegemónica, até os seus adversários pensam e falam a sua linguagem.
15.Na realidade, não são as «massas» que dominam, são determinadas minorias que as dominam e elas consentem ou não. Nesse caso cada indivíduo singular de uma grande «massa», personifica a maioria.
16.A filosofia é uma actividade intelectual. Contudo, não são unicamente os intelectuais que produzem ideias. O ideólogo trabalha com ideias, sem que isso o converta necessariamente num filósofo.
17.Um operário letrado interpreta o mundo à sua maneira e é provável que o queira transformar.
18.O filósofo mais sublime de todos foi Benedito Espinosa. Era polidor de lentes. Um outro formidável filósofo foi Aristóteles: achou natural e existência de escravos.
19.Filósofo algum escapa ao contexto da sua vida pessoal e do mundo em que vive. É de ambas as coisas que o seu pensamento se alimenta. Não lhe é proibido pensar para além do seu mundo (quantos o fizeram!) mas, ainda assim, é no seu mundo que pensa.
sábado, 11 de julho de 2009
Reflexões sobre a pós-modernidade
Julgo observar uma inclinação nos autores e no público para percepcionarem e transmitirem uma representação da organização social em que esta se mostra desarmada, privada de mecanismos de defesa, sem controlo e sem regulamentação. Como se as regras não mais estivessem a ser respeitadas. Anda um espectro no ar, uma ameaça, um temor, um não-se-sabe-o-quê que pode atacar sem aviso cavalheiresco qualquer lugar. É das capitais, das grandes metrópoles que mais perpassa este sentimento. Os filmes mais premiados de Hollywood ou com mais sucesso constituem um exemplo de receptores e transmissores, simultaneamente, deste fenómeno («Este país não é para velhos»,«Batman, O cavaleiro das Trevas»). Pânico de multidões, ameaças, caos, eclipse dos heróis,estranheza, perda de controlo. Peças de teatro (ou encenações de textos recentes ou clássicos) sombrias, góticas, carregadas de agressividade, de destruição, sem catársis.Gritos,movimentos frenéticos, personagens esquizóides, identidades fragmentadas, à deriva, comportamentos anárquicos. Ataques de terroristas, quer sejam fanáticos quer sejam mafiosos,conspirações, envolvimento de políticos corruptos ou cujos remédios empregues são piores que os males que pretendem eliminar, personagens enlouquecidas pelo dinheiro ou por credos cujo conteúdo não se manifesta, sangue, dinheiro sujo, traficantes super-poderosos de drogas, de prostituição à escala global, ou de armas infinitamente letais. Efeitos especiais agredindo os espectadores com incêndios gigantescos, anti-heróis travestidos de samurais, corpos decapitados, membros decepados. Quanto maior for o talento do artista, maior o sucesso.Tarantino e Tim Burton, os Irmãos Cohen. Instalações e perfomances. Telas onde a beleza foi evacuada, somente o vazio, a perda, o luto, o horror.
Tempos do medo sem cólera. Mimésis de uma globalização destrutiva, de economias em ruptura, de multidões sem comunidades. Rasgões dilacerantes na coesão social.
Provavelmente estejam a verificar-se mudanças nesta ideologia pelo efeito esperançoso que o Presidente Obama parece trazer aos E.U., efeito que se propaga pelo planeta exaurido, violento e amedrontado.Porém, as consequências, as contradições, os males em marcha e os perigos são tão fundos e sistémicos que Obama poderá não ser mais que uma utopia.
Tempos do medo sem cólera. Mimésis de uma globalização destrutiva, de economias em ruptura, de multidões sem comunidades. Rasgões dilacerantes na coesão social.
Provavelmente estejam a verificar-se mudanças nesta ideologia pelo efeito esperançoso que o Presidente Obama parece trazer aos E.U., efeito que se propaga pelo planeta exaurido, violento e amedrontado.Porém, as consequências, as contradições, os males em marcha e os perigos são tão fundos e sistémicos que Obama poderá não ser mais que uma utopia.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Movimento «Não Apaguem a Memória»
“Sem memória não há futuro”
O Movimento «Não Apaguem a Memória» promoveu um encontro no Café Ceuta para ouvir relatos de protagonistas da luta contra a ditadura. Histórias de sofrimento contadas na primeira pessoa, num dos locais onde a liberdade era respirada, clandestinamente.
Victor Melo
Sexta-feira, 24 de Março de 1967. Um tiro cruza a estrada e rebenta um dos pneus do velho Mini Morris, arrastando o veículo e os seus quatro ocupantes por uma ribanceira de 30 metros. Após uma queda revoltosa, imobiliza-se, capotado e em chamas. Dois dos ocupantes conseguem sair e retirar um outro por uma das exíguas janelas do já por si exíguo automóvel. O quarto ocupante, preso por um dos bancos, morreu queimado.
José Augusto Nozes Pires recupera os sentidos deitado no alcatrão, com a visão de centenas de jornais a esvoaçar pela estrada. E foi precisamente com esses papéis e palavras proibidas a pairar à sua volta que seria algemado por dois agentes da PIDE, moribundo, ainda a ouvir os gritos de agonia do seu amigo a ser devorado pelas labaredas.
Com 21 anos, estudante do segundo ano da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e acabado de aderir ao partido comunista, tinha arrancado do Porto com destino a Lisboa. O carro foi interceptado na estrada nacional em Arrifana, perto de Santa Maria da Feira. Na bagageira seguia uma mala com centenas de jornais do Avante. “Na altura eram jornais clandestinos, proibidos. Bastava ser apanhado com um na mão para ser interrogado ou até preso”. As publicações eram impressas em tipografias sombrias, clandestinas, secretas. “Quando impressos no norte, eram distribuídos no sul ou vice-versa”.
O jovem estudante permaneceu hospitalizado durante quatro meses, sob ordem de prisão. “Era surreal, eu cheio de gesso dos pés à cabeça, a ser interrogado na enfermaria pelos agentes da PIDE, munidos de máquinas de escrever e ávidos por respostas”, recorda.
Em fins de Novembro é enclausurado nos calabouços da PIDE no Porto. Ali permanece, sem direito a visitas, tratamento hospitalar, ler ou escrever. Isolado do mundo sem nada mais do que a companhia omnipresente da luz acesa. Todos os dias descia da “tarimba” e caminhava, passos sem fim num espaço de três metros por dois. “Percorria aquilo de trás para a frente”, contando as vezes que fazia essa “viagem”. “Era a única forma de combater o stress”.
Recorda vividamente a espinha de bacalhau que lhe foi servida na cela na véspera de Natal, o balde dos dejectos, “as frias paredes de pedra, de branco sujo, com uma janela minúscula, gradeada, quase junto ao tecto”. Longe da vista, mas perto dos ouvidos. “Era angustiante. Ouvia o ruído dos carros, as pessoas a passarem na rua. Que dor era sentir o quotidiano das pessoas, indiferentes à minha presença naquela cela, à injustiça do meu cativeiro”.
A reminiscência é de José Augusto Nozes Pires, 62 anos, professor de Filosofia e Psicologia e membro da Assembleia Municipal de Torres Vedras. As suas palavras são ouvidas no Café Ceuta, “local de inúmeras conversas secretas até às tantas da manhã, sempre na mira dos bufos fascistas”, no âmbito da iniciativa «Encontros em lugares de Memória da Resistência», protagonizada pelo núcleo do Porto do movimento «Não Apaguem a Memória!». Trata-se de um movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promovendo encontros em lugares emblemáticos dessa resistência.
[ artigo publicado no jornal 1º de Janeiro ]
O Movimento «Não Apaguem a Memória» promoveu um encontro no Café Ceuta para ouvir relatos de protagonistas da luta contra a ditadura. Histórias de sofrimento contadas na primeira pessoa, num dos locais onde a liberdade era respirada, clandestinamente.
Victor Melo
Sexta-feira, 24 de Março de 1967. Um tiro cruza a estrada e rebenta um dos pneus do velho Mini Morris, arrastando o veículo e os seus quatro ocupantes por uma ribanceira de 30 metros. Após uma queda revoltosa, imobiliza-se, capotado e em chamas. Dois dos ocupantes conseguem sair e retirar um outro por uma das exíguas janelas do já por si exíguo automóvel. O quarto ocupante, preso por um dos bancos, morreu queimado.
José Augusto Nozes Pires recupera os sentidos deitado no alcatrão, com a visão de centenas de jornais a esvoaçar pela estrada. E foi precisamente com esses papéis e palavras proibidas a pairar à sua volta que seria algemado por dois agentes da PIDE, moribundo, ainda a ouvir os gritos de agonia do seu amigo a ser devorado pelas labaredas.
Com 21 anos, estudante do segundo ano da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e acabado de aderir ao partido comunista, tinha arrancado do Porto com destino a Lisboa. O carro foi interceptado na estrada nacional em Arrifana, perto de Santa Maria da Feira. Na bagageira seguia uma mala com centenas de jornais do Avante. “Na altura eram jornais clandestinos, proibidos. Bastava ser apanhado com um na mão para ser interrogado ou até preso”. As publicações eram impressas em tipografias sombrias, clandestinas, secretas. “Quando impressos no norte, eram distribuídos no sul ou vice-versa”.
O jovem estudante permaneceu hospitalizado durante quatro meses, sob ordem de prisão. “Era surreal, eu cheio de gesso dos pés à cabeça, a ser interrogado na enfermaria pelos agentes da PIDE, munidos de máquinas de escrever e ávidos por respostas”, recorda.
Em fins de Novembro é enclausurado nos calabouços da PIDE no Porto. Ali permanece, sem direito a visitas, tratamento hospitalar, ler ou escrever. Isolado do mundo sem nada mais do que a companhia omnipresente da luz acesa. Todos os dias descia da “tarimba” e caminhava, passos sem fim num espaço de três metros por dois. “Percorria aquilo de trás para a frente”, contando as vezes que fazia essa “viagem”. “Era a única forma de combater o stress”.
Recorda vividamente a espinha de bacalhau que lhe foi servida na cela na véspera de Natal, o balde dos dejectos, “as frias paredes de pedra, de branco sujo, com uma janela minúscula, gradeada, quase junto ao tecto”. Longe da vista, mas perto dos ouvidos. “Era angustiante. Ouvia o ruído dos carros, as pessoas a passarem na rua. Que dor era sentir o quotidiano das pessoas, indiferentes à minha presença naquela cela, à injustiça do meu cativeiro”.
A reminiscência é de José Augusto Nozes Pires, 62 anos, professor de Filosofia e Psicologia e membro da Assembleia Municipal de Torres Vedras. As suas palavras são ouvidas no Café Ceuta, “local de inúmeras conversas secretas até às tantas da manhã, sempre na mira dos bufos fascistas”, no âmbito da iniciativa «Encontros em lugares de Memória da Resistência», protagonizada pelo núcleo do Porto do movimento «Não Apaguem a Memória!». Trata-se de um movimento cívico que visa a preservação da memória histórica das lutas de resistência à ditadura, promovendo encontros em lugares emblemáticos dessa resistência.
[ artigo publicado no jornal 1º de Janeiro ]
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