Esperava ansiosamente as férias. Uma semana mais e estaria na aldeia natal, abancado à sombra da velha figueira, petiscando lascas de presunto, um cálice de vinho verde fresquinho abençoando a dança das abelhas sorvendo o pólen do roseiral, a erva suculenta que o vitelo estaria a manducar, o mugido das vacas no monte sobranceiro, o grasnido do milhafre sobrevoando os penedos de granito transmontano, e eu desatento ao colesterol, à gripe suína, ao buraco do deficit, ao Freeport e ao nariz do Pinóquio, à pensão a minguar da minha reforma anunciada, aos cortejos dos operários suspensos por enquanto que o despedimento há-de-lhes chegar, às fomes, às mortes e aos lutos…quando a ordem superior chegou:«Firmino, tens um caso bicudo para resolver, os factos estão no fax que vai a caminho!». Merda! Depois de ler o fax murmurei três vezes para me consolar «Merda!». Chamei o Baltazar que logo acorreu: «Ok, Senhor Inspector! Lixaram-lhe as férias não?».
O facto resumidamente era o seguinte: um cadáver desaparecera, ou fora roubado, do cemitério. Dirigimo-nos à morada indicada no fax, uma moradia espampanante em Azeitão. Gente rica. A viúva não estava, recebeu-nos o filho do morto, penteado à futebolista, olhos fugidios e mãos afeminadas. Enquanto respondia às nossas perguntas não lhe lobriguei sinal algum de choros recentes. Perguntado sobre a localização da mãe, meteu os pés pelas mãos, logo imaginei uma viúva gaiteira. Pouco saquei do maricas: que o funeral do pai havia sido há pouco mais de uma semana, tudo nas normas, o caixão depositado no túmulo da família, no dia anterior a esta conversa não se encontrava lá, no seu sítio, isto é, o féretro estava, mas aberto e vazio.
De regresso à Judiciária mandei recolher todas informações possíveis do morto e da respectiva família. Gente poderosa. Banqueiro ele, doméstica a mulher, o filho nada, ou seja, um estroina. Passei a noite, entre goladas de café a meditar, cruzando os fios da meada, roubar um cadáver para quê? Para transplantação de órgãos já não servia, não fora acompanhado para o inferno com oiro e pedrarias como os antigos faraós que despertassem apetite a ladrões, esquemas obscuros para ludibriar as Seguradoras também não via como nem para quê.
Sendo nada mais que um cadáver deixei arrastar o assunto, remeti-o para outro, fui gozar as férias antes que o verão terminasse. Chegou outro verão, outro e mais outro.
Estou sentado debaixo da figueira, uma brisa fresca leva-me as lembranças, as perdas e os lutos. Tenho sobre os joelhos o fax que acabo de ler (informado pelo telemóvel fui à cidade buscá-lo). Sucinto, reza o seguinte:
« O falecido banqueiro Norberto Rosado de Vasconcelos e Sá foi detectado nas Ilhas Caimão, paraíso fiscal como se sabe. Fotografias tiradas por um Director da Polícia que fazia parte de uma comitiva governamental, atestam a veracidade do facto. O cadáver está bem e recomenda-se.»
segunda-feira, 27 de julho de 2009
sábado, 25 de julho de 2009
Giuseppe VERDI
(1813-1901)
Ouvir na Festa do Avante!
Rigoletto, Ária «La donna é mobile»
Il Trovatore, Coro «Vedi! Le fosche notturne»
Aida, coro «Gloria all Egitto»
La Traviata, «Libiamo, ne'lieti calici (Brindisi)»
Ouvir na Festa do Avante!
Rigoletto, Ária «La donna é mobile»
Il Trovatore, Coro «Vedi! Le fosche notturne»
Aida, coro «Gloria all Egitto»
La Traviata, «Libiamo, ne'lieti calici (Brindisi)»
quinta-feira, 23 de julho de 2009
C.P. Cavafis
Ithaca, poema de C.P. Cavafis, recitado por Sir Sean Connery, música de VANGELIS.
Ver vídeo anexo.
Ver vídeo anexo.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
B. Brecht- Poemas
De que Serve a Bondade
1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela
1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela
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Louvor do esquecimento- B. Brecht
Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.
Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.
Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.
O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.
Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?
A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.
Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.
Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.
Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.
O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.
Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?
A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.
Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela
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