Francis Bacon tossiu com força, assoou-se e puxou de uma cigarrilha. Cofiou as barbas enquanto fixava o olhar no ângulo direito do poster emoldurado que cobria boa parte da porta do largo gabinete, retracto aéreo de uma espessa floresta atravessada por um rio que se adivinhava ser de colossal largura.
Acabara de ler o relatório enviado pela nave Quimera, transmitido de uma zona celeste registada com o número de código XZ 2.018. Imprimiu três cópias e guardou a gravação no cofre-forte do Directório. O triunvirato responsável pelo Programa Quimera, cujo coordenador era ele próprio, será a única entidade a tomar conhecimento. Não havia maneira de localizar imediatamente o lugar exacto onde se encontraria o autor do relatório, apesar das coordenadas que este continha a cada passo, teria de esperar várias horas até que o potente computador do Instituto construísse o mapa celeste e o itinerário provável da nave. Emitiu a ordem, exigindo máxima prioridade na resposta e que esta lhe fosse destinada exclusivamente a si próprio. Não decidira ainda informar os restantes membros do Directório fosse do que fosse.
O Programa Quimera iniciara-se muitos anos antes, por volta de 2.050, com sondas não tripuladas e naves tão rudimentares que não regressaram nunca ; novos protótipos foram sendo fabricados, navios espaciais cada vez mais velozes e melhor equipados ; esta astronave pertence à penúltima geração, classificada como A, ou seja a primeira capaz de mover-se a uma velocidade próxima da velocidade da luz, e de utilizar pela primeira vez os túneis do tempo, “buracos de verme” na gíria antiga, fenómeno estudado apenas teoricamente, pelo qual se “atalhava” caminho, e até se poderia provavelmente “saltar” de uma galáxia para outra, ou mesmo deste universo para outro.
O Directório esperava saldar a vultosa dívida contraída com o investimento, mas lucrar sobretudo, dando como adquiridas as vantagens económicas das descobertas efectuadas. Os três directores que coordenavam o programa, haviam sido nomeados pela Organização dos Accionistas Unidos, que detinha o comando.
A Terra vivia, desde há décadas, num completo reboliço : dois terços dela encontrava-se libertada do domínio dos Accionistas Unidos ; a competição entre as partes era dura e tenaz, a ameaça de uma conflagração mundial mantinha o globo em estado de tensão permanente.
O tempo decorrido no nosso planeta multiplicara-se várias vezes, comparativamente com o tempo transcorrido no interior da nave; por conseguinte, Bacon é, agora, um homem muito idoso. Desde há cerca de vinte anos que a humanidade recebia notícias, de quando em vez, da soberba astronave Quimera. Já se conheciam algumas das extraordinárias descobertas que os seus tripulantes iam efectuando, mas não se conhecia tudo e, muito menos, o termo da viagem.
Bacon alisou as barbas brancas como a neve, e isso sempre assinalava nele profunda preocupação. Pela enorme janela que separava o gabinete do exterior, via como a cidade se ia iluminando ainda em pleno dia. O tecto denso de nuvens cinzentas, feias, obscurecia-a permanentemente. Nem uma ave, sequer solitária, passava nas alturas. Pôs-se a andar de um lado para o outro do compartimento, esfregando os olhos que lhe doíam. Sentia-se muito fatigado, mas perfeitamente lúcido e alerta.
O relatório recebido era muito estranho. Não que não fosse tudo sempre estranho, estes viajantes intrépidos informavam de coisas e acontecimentos os mais insólitos, muitos dos quais para além das previsões e dos cálculos de probabilidades , muito acima da compreensão do homem comum; apesar disso, o relatório, que ele acabara de ler, provocava-lhe profundas reflexões, como se um engenheiro, um “prático” como ele próprio gostava de dizer, visse abanadas de repente de alto a baixo as suas convicções e as suas expectativas.
O director tossiu novamente. A cigarrilha ainda ia a meio e já ele tirava outra. Sentia uma mistura intensa de incredulidade e pena, de fascínio e poderosa atracção, perante aquela visão fantástica de mundos contraditórios que coabitavam no mesmo espaço-tempo contínuo, mas, simultaneamente, colidiam como se fossem frutos díspares e desavindos da mesma árvore misteriosa. Como se na realidade não existisse um único espaço-tempo, mas vários. Ou ainda, quem sabe?, como se não existisse nenhum. Nem sequer a própria realidade.
O estilo em que vinha redigido o relatório, denotava não só as certezas factuais do seu autor, mas suscitava ao mesmo tempo perplexidade no leitor, pois, se não revelava dúvidas sobre os factos em si, transmitia, porém, semeando o texto de interrogações, uma notória inquietação que introduzia uma tonalidade dramática e enigmática. Eram, porém, as palavras finais que o perturbavam.
Recebeu a xícara de café que o robô confeccionara, reclinou-se confortavelmente, dirigiu a mão para o inter-comunicador com intenção de chamar o secretário e ordenar-lhe que enviasse imediatamente as cópias aos restantes directores, mas hesitou, reflectiu um instante e desistiu. Como teria de aguardar mais umas horas, colocou sobe os ombros o blusão standard que o identificava, cerrou o gabinete com o sinal de código pessoal, percorreu o longo corredor com passo lento mas tranquilo, respondeu com cordialidade formal aos cumprimentos que lhe faziam os seus subordinados, meteu-se no elevador que, em poucos segundos, desceu cinquenta andares, e saiu para a ampla praça que circundava o edifício.
A atmosfera pesava como chumbo. Árvores mirradas lutavam com dificuldade para se conservarem vivas. A relva, pelo contrário, reverdecia e reverberava com um brilho desagradavelmente metálico. Escassos transeuntes atravessavam a praça rapidamente, curvados e absortos.
Dirigiu-se para o café mais próximo, com uma esplanada triste, um empregado que parecia do outro mundo, e um enorme televisor que transmitia um concurso idiota. Deixou-se ficar no exterior, bebericando um martini e folheando os jornais e as revistas que ali mesmo se vendiam. Sentiu fome e pediu uma sanduiche com queijo, que sabia a plástico.
Por fim, consultou o relógio, pagou e regressou ao gabinete de trabalho.
Leu novamente o longo texto, agora com atenção redobrada, procurando quaisquer sinais que, à primeira leitura, lhe houvessem escapado, daquele tristemente famoso delírio dos espaços de que eram acometidas tantas vezes as tripulações submetidas a longas viagens. Tudo na biografia do comandante da nave lhe incutia confiança : John Dos Santos, de origem portuguesa e que tinha precisamente trinta anos quando fora escolhido para aquela missão, fora o mais brilhante dos jovens oficiais aviadores da sua geração. Além de qualidades indiscutíveis de comando, revelava uma razoável cultura em áreas diversas do conhecimento, e uma inteligência aberta que conciliava a auto disciplina com a liberdade de pensamento. Bacon não encontrava motivos para suspeitar da credibilidade do relatório : o seu subordinado participara evidentemente em tudo aquilo que descrevia. No entanto, a chegada já pouco provável da nave e a escassez de provas concludentes anexas ao relatório, tornavam muito difícil a tarefa de convencer também os outros membros do directório. Dos Santos não enviava nenhum pedido desesperado de socorro, contudo os sinais da estranha doença de que estava sendo acometido, ele e talvez os restantes membros da tripulação, e a imprevisibilidade associada à travessia dos "túneis do espaço-tempo”, suscitavam medidas urgentes. Por conseguinte, Bacon ordenou, por sua conta e risco, ao pessoal do cosmódromo, para preparar imediatamente a melhor das naves para uma missão de longo curso. Não sabia ainda o que iria fazer, mas, nesta altura, não congeminava outra atitude senão efectuar uma missão de resgate da nave Quimera.
Eis o relatório do comandante Dos Santos:
“ O que passo a relatar, o mais rigorosamente possível, irá constituir com toda a certeza uma dos mais prodigiosas revelações observadas pelas naves Quimera, se não mesmo a mais assombrosa. Informamos desde já que perdemos cerca de metade da tripulação (constituída por trinta e cinco, como sabeis, dos melhores especialistas): nove homens e cinco mulheres; quatro faleceram em acidentes ou por doenças para as quais não se encontravam imunizados e cujas causas não conseguimos sequer diagnosticar ; os restantes resolveram permanecer em alguns dos planetas visitados e não houve maneira de dissuadi-los ( tal atitude não é punível à face dos regulamentos, como sabe, quem decidir residir em qualquer local, não só não é punido como receberá todo o apoio disponível). Não saímos ainda do “túnel” que permitirá (permitiria?) atingir a Terra praticamente de um salto; verificaram-se consequências imprevistas, que eu classifico de dramáticas, passam-se ainda fenómenos insólitos e perturbadores, tanto no interior da nave como no espaço-tempo circundante ; apesar de não conhecer ainda as causas e ignorar quando e como as venceremos, julgo com certeza absoluta que estão relacionados com a travessia do “túnel”. Creio mesmo que ficámos “atolados” nele. Deixarei para o fim a descrição do que nos está sucedendo nesta altura. Entretanto, no termo do relato, alguma coisa já sucedeu. Estou a utilizar extensos extractos do diário de bordo. A parte que redijo pela primeira e última vez, cinge-se aos factos ocorridos aquando do encontro e no início da passagem. Se acaso nos salvarmos, não virá a ser por meios próprios, pois que, de certeza absoluta, não os possuímos. A salvação só poderá vir deles. Se eles o quiserem.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
domingo, 30 de agosto de 2009
As duas fontes
As duas fontes para filosofar a sério são: as experiências e os bons filósofos. A bem dizer é só uma: a experiência por nós e nossa, e a de outros por eles mesmos.Observação, controvérsia, acordo, diálogo. Assim é nas artes em geral. Quem despreza a arte dos outros ou é um génio ou um ingénuo.
Aniversário
Neste modestíssimo blog transmito, para que se registe, os meus agradecimentos a todos os amigos e amigas que se lembraram de mim (outros apenas não sabiam). Os anos não têm que ser um fardo; melhor serão se forem um cavalo bravo e dócil ao mesmo tempo. Cavalguemos!
TARANTINO
Os filmes de Tarantino apresentam-se como uma re-visitação de todos os géneros de cinema (ainda não foram todos, mas lá chegará). Por exemplo, o «cinema-noire»-os filmes «negros», ou «policiais» como os designamos entre nós, aquelas maravilhosas fitas dos anos trinta, quarenta, com histórias do D. Hammett e do Chandler, nas perfomances imortais do H. Boggart e outros, provavelmente os filmes que ele, Tarantino amou na juventude, como sucedeu connosco. A «brincadeira» com os filmes tão populares do extremo-oriente- Chineses, japoneses, com aquela violência ballética, os rituais de duelos infindáveis, porém mais mortíferos que os filmes de classe B de Hollywood. E, agora, a homenagem aos filmes «de guerra» (também assim por nós conhecidos). Quem conhece alguma filmografia (será preciso conhecer bastante) reconhece facilmente não apenas o género mas os grandes filmes que fizeram o género: neste «Sacanas sem lei» aquele que logo evoquei foi «Os onze patifes» (?), não recordo o título com exactidão, mas recordo a história de uns tantos «patifes» americanos prisioneiros de um campo de concentração nazi e que dele tudo fizeram para se escapulir (o tom de comédia estava presente, logo no título). Contra os verdadeiros sacanas – os nazis – sacanas e meio (sob a crueldade dos nazis não havia lei, contra eles não havia misericórdia, «olho por olho»). Ironia, muita ironia. Um pensador do pós-modernismo caracterizou este nosso período contemporâneo como sendo a governância da ironia, como se não houvesse razão e espaço para a seriedade solene, para a adesão crente dos crédulos, histórias sem doutrina e convicção, puro entretenimento. Distanciação, aquele estilo inaugurado e teorizado por Brecht e tantas vezes utilizado já no teatro. Contudo, entre o conteúdo e a intenção ética e política das obras de Brecht e as de Tarantino não há semelhanças. O «pós-modernismo» não tem nada para oferecer, excepto o gozo, o movimento, a acção pura, a magia do cinema.
Milan Kundera executa o mesmo artifício, noutros moldes evidentemente, na sua peça para teatro «Jacques e o seu amo» (Edições Asa), homenagem ao génio do Autor inaugural, Diderot. Uma «variação», como ele designa, jamais um plágio (no pós-modernismo só há plágio nos medíocres).
Milan Kundera executa o mesmo artifício, noutros moldes evidentemente, na sua peça para teatro «Jacques e o seu amo» (Edições Asa), homenagem ao génio do Autor inaugural, Diderot. Uma «variação», como ele designa, jamais um plágio (no pós-modernismo só há plágio nos medíocres).
sábado, 29 de agosto de 2009
As Duas Damas
Uma disse: "Anuncio mais um caso de gripe A em Alguidares de baixo"...E lavou as imaculadas mãos na torneirinha da escola.
Outra declamou:"Anuncio a descida drástica do insucesso escolar"...E lavou as puras mãos na torneirinha da escola.
Uma disse:"O Serviço Nacional de Saúde está na mesma, o que significa que está melhor"...e voltou a lavar as doces mãos na torneirinha da escola.
Outra decretou:"O concurso dos professores é mais um grande sucesso que a mim é devido, passo a imodéstia»...e lavou as translúcidas mãos na torneirinha da escola.
As funcionárias olhavam directamente para as câmaras das televisões. Os secretários de estado olhavam directamente para as damas com veneração e auto-estima. Os professores olhavam directamente para a senhora directora. A senhora directora olhava directamente para a torneirinha da escola.
As crianças olhavam para as pequeninas mãos.
O país olhava para o infinito, onde talvez uma grande torneira escoasse leite e mel em abundância.
Outra declamou:"Anuncio a descida drástica do insucesso escolar"...E lavou as puras mãos na torneirinha da escola.
Uma disse:"O Serviço Nacional de Saúde está na mesma, o que significa que está melhor"...e voltou a lavar as doces mãos na torneirinha da escola.
Outra decretou:"O concurso dos professores é mais um grande sucesso que a mim é devido, passo a imodéstia»...e lavou as translúcidas mãos na torneirinha da escola.
As funcionárias olhavam directamente para as câmaras das televisões. Os secretários de estado olhavam directamente para as damas com veneração e auto-estima. Os professores olhavam directamente para a senhora directora. A senhora directora olhava directamente para a torneirinha da escola.
As crianças olhavam para as pequeninas mãos.
O país olhava para o infinito, onde talvez uma grande torneira escoasse leite e mel em abundância.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Carta aberta sobre as eleições autárquicas
Revejo-me no projecto utópico do torreense José Félix de Henriques Nogueira, introdutor das ideias republicanas e socialistas em Portugal, que morreu cede, porque os deuses levam para si bem cedo alguns grandes espíritos, talvez por ciúme, talvez por serem seus filhos dilectos. Não me revejo em tudo, não creio que seja possível conciliar longamente e sem conflitos o capitalismo (ainda que médio e pequeno) com o socialismo (devemos conservar ambos numa etapa mais ou menos longa, mas sempre de modo a que o socialismo extinga o capitalismo que tende sempre para se transformar em grande capital). Mas revejo-me na utopia concreta de conservar as nossas aldeias com as grandes cidades (que não podemos eliminar, mas devemos reduzir, qualificar, fragmentá-las com largos espaços de verde e de lazer). Sou conservador e revolucionário. Sinto-me bem nas vilas alentejanas, com a sua praça ajardinada no centro, as laranjeiras nos passeios, os bancos de madeira, os velhos à sombra cavaqueando, as crianças no pequeno parque infantil chilreando ao desafio com os pardais. Admiro a escolinha primária, pese embora o seu estilo «Estado Novo», acolhedora, próxima, e sinto nostalgia. Imagino no meio do breve casario, nobre ou humilde, o posto de saúde, à beira-mão, o médico amigo já idoso, afável, recebendo-os sem esperas, chamando-os pelos seus nomes próprios. Imagino caminhos vicinais limpos, bucólicos, por onde passeávamos à noite, inventando sustos, o cemitério da aldeia que circulávamos com temor e respeito, o grande charco que as chuvadas enchiam regularmente, o nosso lago, oceano de piratas e ilhas imponderáveis. No interior da Região (estou falando de regionalização) uma universidade, um Hospital, uma via-rápida sem portagens, um moderno caminho-de-ferro… A modernidade, os benefícios da civilização, as tecnologias benfazejas, o conhecimento e a cultura.
Ser ambas as coisas, conservador e revolucionário, eis, em duas palavras, a minha utopia. Porque a utopia é a contradição supostamente, desejavelmente, re-conciliada. E que outra coisa é a ecologia? Por isso, na filosofia amo Espinosa e na poesia Alberto Caeiro.
Ser ambas as coisas, conservador e revolucionário, eis, em duas palavras, a minha utopia. Porque a utopia é a contradição supostamente, desejavelmente, re-conciliada. E que outra coisa é a ecologia? Por isso, na filosofia amo Espinosa e na poesia Alberto Caeiro.
ELOGIO DA POESIA
Ler poesia é difícil
mais difícil é fazê-la.
É mais fácil ouvir música,
mais fácil ainda ver escultura
mais do que ver teatro.
Aqueles que cantam bem a poesia
não são inferiores aos poetas que cantam.
Dizer bem a poesia também não é fácil.
Há muita poesia na rua,
mas os grandes poetas são raros.
A poesia pode chegar às massas,
devia chegar,
Neruda comoveu auditórios operários com a sua.
Nerudas, porém são muito escassos,
oiro ou diamante,
sem a ganância e a morte que estas pedras provocam.
Os poetas matam-se a si próprios, mas ninguém mata por eles.
Alguns não se matam nem sofrem mais que muitos,
vivem comodamente, burgueses, aristocratas,
e contudo criaram objectos de sublime sensibilidade.
Reaccionários, conservadores, revolucionários,
contrariando sistemas e regimes,
as suas mensagens são mais directas nos seus romances,
mais subtis nos seus poemas.
É no seu tom triste que se expõem,
nas suas metáforas,
na musicalidade dos seus versos.
Quando gostamos de um poema
sentimo-lo com a inteligência.
Perturba, encanta, ou desafia.
Os grandes poetas falam sempre do mesmo sentimento
(o mais complexo dos sentimentos): do amor.
Do amor por um ser amado, ou por todos seres,
pelas coisas amadas, perdidas ou maltratadas,
pelo pão, pelas cebolas -sim, pelas cebolas!-,
pelo vinho, pelas searas de trigo, pelo antiquíssimo
chiar das carroças puxadas pelos bois, pelo cheiro da bosta,
pelas vítimas inocentes de uma guerra,
de todas as guerras (por isso são mal compreendidos por uns e por outros!)
pelos que sofrem de injustiça e morrem de inanição,
ao pé de um poço que não lhes pertence ou de um celeiro.
Os piores poemas dos grandes poetas são os escritos panfletários,
cheios de doutrina, de propaganda, de moral edificante.
Neruda, que era comunista, não publicava os maus poemas.
Que existe de comum entre um Neruda e um Fernando Pessoa?
Tudo os diferenciava.
Que existe de comum?
O modo como fazem tanger as cordas da nossa sensibilidade.
Por isso preferimos um ou o outro conforme o que estamos sentindo,
conforme o apelo urgente dos acontecimentos.
Porque a grande poesia é um acontecimento,
desassossega, aviva o amor ou a decisão de agir,
mas ela mesma dá-nos uma viva sensibilidade
relativamente aos acontecimentos.
A matemática é dificílima? Que nada,
a poesia é bem mais.
Se o não fosse
não valia a pena.
Quanto mais fácil e escorreita pareça,
mais trabalhosa foi.
É admirável a poesia popular,
repentista ou sedimentada por longas gerações;
porém,não nos iludamos: confessar sentimentos apenas
sem trabalho algum sobre as palavras, as metáforas, os símbolos,os ritmos,
equivale a escrever cartas de amor,
que são todas ridículas.
mais difícil é fazê-la.
É mais fácil ouvir música,
mais fácil ainda ver escultura
mais do que ver teatro.
Aqueles que cantam bem a poesia
não são inferiores aos poetas que cantam.
Dizer bem a poesia também não é fácil.
Há muita poesia na rua,
mas os grandes poetas são raros.
A poesia pode chegar às massas,
devia chegar,
Neruda comoveu auditórios operários com a sua.
Nerudas, porém são muito escassos,
oiro ou diamante,
sem a ganância e a morte que estas pedras provocam.
Os poetas matam-se a si próprios, mas ninguém mata por eles.
Alguns não se matam nem sofrem mais que muitos,
vivem comodamente, burgueses, aristocratas,
e contudo criaram objectos de sublime sensibilidade.
Reaccionários, conservadores, revolucionários,
contrariando sistemas e regimes,
as suas mensagens são mais directas nos seus romances,
mais subtis nos seus poemas.
É no seu tom triste que se expõem,
nas suas metáforas,
na musicalidade dos seus versos.
Quando gostamos de um poema
sentimo-lo com a inteligência.
Perturba, encanta, ou desafia.
Os grandes poetas falam sempre do mesmo sentimento
(o mais complexo dos sentimentos): do amor.
Do amor por um ser amado, ou por todos seres,
pelas coisas amadas, perdidas ou maltratadas,
pelo pão, pelas cebolas -sim, pelas cebolas!-,
pelo vinho, pelas searas de trigo, pelo antiquíssimo
chiar das carroças puxadas pelos bois, pelo cheiro da bosta,
pelas vítimas inocentes de uma guerra,
de todas as guerras (por isso são mal compreendidos por uns e por outros!)
pelos que sofrem de injustiça e morrem de inanição,
ao pé de um poço que não lhes pertence ou de um celeiro.
Os piores poemas dos grandes poetas são os escritos panfletários,
cheios de doutrina, de propaganda, de moral edificante.
Neruda, que era comunista, não publicava os maus poemas.
Que existe de comum entre um Neruda e um Fernando Pessoa?
Tudo os diferenciava.
Que existe de comum?
O modo como fazem tanger as cordas da nossa sensibilidade.
Por isso preferimos um ou o outro conforme o que estamos sentindo,
conforme o apelo urgente dos acontecimentos.
Porque a grande poesia é um acontecimento,
desassossega, aviva o amor ou a decisão de agir,
mas ela mesma dá-nos uma viva sensibilidade
relativamente aos acontecimentos.
A matemática é dificílima? Que nada,
a poesia é bem mais.
Se o não fosse
não valia a pena.
Quanto mais fácil e escorreita pareça,
mais trabalhosa foi.
É admirável a poesia popular,
repentista ou sedimentada por longas gerações;
porém,não nos iludamos: confessar sentimentos apenas
sem trabalho algum sobre as palavras, as metáforas, os símbolos,os ritmos,
equivale a escrever cartas de amor,
que são todas ridículas.
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