segunda-feira, 21 de setembro de 2009
A DECISÂO
Vejo o gato repetir o mesmo comportamento que ficou registado e pronto para ser reactivado. Semelhante mecanismo noto-o no cão da minha vizinha, nas aves de gaiola e fora dela, nos macacos do zoo e nos outros animais que o National Geographique me mostra e me ensina; releio Darwin no duplo centenário do seu nascimento, na etologia e biologia contemporâneas. Vejo-o nos indivíduos humanos, com os nomes de condicionamento, hábito (ou esse habitus mais complexo e alargado, como queria Bourdieu). Vejo-o nos comportamentos colectivos do consumo e nas técnicas que o provocam. Vejo-o na influência dos meios de comunicação de massa, isto é nos noticiários, e nas sondagens. Vejo-o nas reacções dos populares aquando das campanhas eleitorais. A aptidão para o comportamento condicionado já lá está e sempre esteve, quando foi estudado cientificamente, converteu-se numa técnica mais eficiente e lucrativa do que jamais o fora. Esta indústria da política e da cultura é, assim, o traço mais forte dos séculos vinte e vinte e um.
O problema do livre arbítrio é um pseudo enigma.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Mário Benedetti
De que se ri?
(serei curioso?)
Numa perfeita
foto do jornal
senhor ministro
do impossível
vi enlevado
e eufórico
e perdido de riso
o seu rosto simples
serei curioso
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
da sua janela
vê-se a praia
mas ignoram-se
os bairros de lata
têm seus filhos
olhos de mando
mas outros têm
o olhar triste
aqui na rua
acontecem coisas
que nem sequer
se podem dizer
os estudantes
e os trabalhadores
põem os pontos
nos ís
por isso digo
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
O senhor conhece
melhor que ninguém
a lei amarga
de estes países
os senhores são duros
com a nossa gente
por quê com os outros
são todo servis?
porque alienam
o património
enquanto o gringo
nos cobra o triplo?
porque atraiçoam
os senhores e os outros
os bajuladores
e os senis?
por isso digo
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
aqui na rua
os seus guardas matam
e aqueles que morrem
são gente humilde
e os que ficam
chorando de raiva
por certo pensam
na desforra
algures na prisão
os seus homens fazem
sofrer o homem
e isso não serve
além do mais
o senhor é o mastro
principal de um barco
que vai a pique
serei curioso
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
(serei curioso?)
Numa perfeita
foto do jornal
senhor ministro
do impossível
vi enlevado
e eufórico
e perdido de riso
o seu rosto simples
serei curioso
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
da sua janela
vê-se a praia
mas ignoram-se
os bairros de lata
têm seus filhos
olhos de mando
mas outros têm
o olhar triste
aqui na rua
acontecem coisas
que nem sequer
se podem dizer
os estudantes
e os trabalhadores
põem os pontos
nos ís
por isso digo
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
O senhor conhece
melhor que ninguém
a lei amarga
de estes países
os senhores são duros
com a nossa gente
por quê com os outros
são todo servis?
porque alienam
o património
enquanto o gringo
nos cobra o triplo?
porque atraiçoam
os senhores e os outros
os bajuladores
e os senis?
por isso digo
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
aqui na rua
os seus guardas matam
e aqueles que morrem
são gente humilde
e os que ficam
chorando de raiva
por certo pensam
na desforra
algures na prisão
os seus homens fazem
sofrer o homem
e isso não serve
além do mais
o senhor é o mastro
principal de um barco
que vai a pique
serei curioso
senhor ministro
de que se ri?
de que se ri?
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Enviado por MEG,
trad. por CID SIMÕES
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
AS FILOSOFIAS DA DIFERENÇA
O conceito de «Diferença» é, porventura, o mais comum na filosofia continental, sobretudo de origem francesa, e, portanto, o mais nuclear. Deve-se particularmente a Foucault, Derrida, Deleuze, e não é de excluir Lyotard. Cada um destes filósfos trabalhou o conceito de maneiras diversas, garantindo a sua própria originalidade em um legado perseguido por legiões de adeptos que tanto se degladiam como se confundem. Tenho para mim que aquilo que mais me aproxima deles é o que tenho chamado «Crítica da Razão Consensual», ainda que a apoie em certos pressupostos bem diferentes. Onde me interrogo e julgo não encontrar resposta satisfatória nesses destacados filósofos (quase todos já falecidos) é sobre o problema incontornável da mudança, isto é, O que é o Novo? Qual a diferença entre determinadas mudanças, umas «superficiais», outras radicais ou substanciais? Se excluem o «negativo» (a negatividade), como, por ex. Gilles Deleuze, como se processa a transformação? Não será o estilo de vida «nómada», a singularidade, a multiplicidade (conceitos caros a Deleuze), uma reposição do anarquismo inconsequente, isto é, fatalmente aristocrático, elitista, individualista, egotista (restaurando o Eu que todos eles apostrofam), narcisista (muito do agrado dos pós-modernistas), numa palavra: «estético»? Que alternativas propõem, Deleuze p. ex. quando classifica a sociedade capitalista como limite de qualquer sociedade?
A Crítica da Razão Consensual (do senso comum, do pensamento único, da Identidade, do Mesmo, do Uno, enfim, do idealismo), segundo a minha fórmula, integra o papel da dialéctica objectiva e concreta, práxica, do negativo ou da Contradição, dessa «doninha» que escava o solo do capitalismo.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Homem que olha o céu
Enquanto passa a estrela fugaz
Junto neste desejo instantâneo
montões de desejos profundos e prioritários
por exemplo que a dor não me apague a raiva
que a alegria não desarme o amor
que os assassinos do povo devorem
seus molares caninos e incisivos
e mordam judiciosamente o próprio fígado
que as grades das prisões
se transformem em açúcar ou se curvem de piedade
e os meus irmãos possam fazer de novo
amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho
não o amaldiçoemos nem nos amaldiçoemos
que os justos avancem
ainda que imperfeitos e feridos
que avancem obstinados como castores
solidários como abelhas
aguerridos como jaguares
e empunhem todos os seus nãos
para instalar a grande afirmação
que a morte perca a sua asquerosa pontualidade
que quando o coração saia do peito
possa encontrar o caminho de regresso
que a morte perca a sua asquerosa
e brutal pontualidade
mas se chegar pontual não nos agarre
mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos
e que tu mocinha avances alegre e dolorida
pondo nos teus olhos a alma
e a tua mão na minha mão
e nada mais
porque o céu já está turvo novamente
e sem estrelas
com helicópteros e sem deus.
Junto neste desejo instantâneo
montões de desejos profundos e prioritários
por exemplo que a dor não me apague a raiva
que a alegria não desarme o amor
que os assassinos do povo devorem
seus molares caninos e incisivos
e mordam judiciosamente o próprio fígado
que as grades das prisões
se transformem em açúcar ou se curvem de piedade
e os meus irmãos possam fazer de novo
amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho
não o amaldiçoemos nem nos amaldiçoemos
que os justos avancem
ainda que imperfeitos e feridos
que avancem obstinados como castores
solidários como abelhas
aguerridos como jaguares
e empunhem todos os seus nãos
para instalar a grande afirmação
que a morte perca a sua asquerosa pontualidade
que quando o coração saia do peito
possa encontrar o caminho de regresso
que a morte perca a sua asquerosa
e brutal pontualidade
mas se chegar pontual não nos agarre
mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos
e que tu mocinha avances alegre e dolorida
pondo nos teus olhos a alma
e a tua mão na minha mão
e nada mais
porque o céu já está turvo novamente
e sem estrelas
com helicópteros e sem deus.
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Mário Benedetti (trad. de Cid Simões)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Mario Benedetti
HOMEM QUE OLHA O CÉU
Enquanto passa a estrela fugaz
Junto neste desejo instantâneo
montões de desejos profundos e prioritários
por exemplo que a dor não me apague a raiva
que a alegria não desarme o amor
que os assassinos do povo devorem
seus molares caninos e incisivos
e mordam judiciosamente o próprio fígado
que as grades das prisões
se transformem em açúcar ou se curvem de piedade
e os meus irmãos possam fazer de novo
amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho
não o amaldiçoemos nem nos amaldiçoemos
que os justos avancem
ainda que imperfeitos e feridos
que avancem obstinados como castores
solidários como abelhas
aguerridos como jaguares
e empunhem todos os seus nãos
para instalar a grande afirmação
que a morte perca a sua asquerosa pontualidade
que quando o coração saia do peito
possa encontrar o caminho de regresso
que a morte perca a sua asquerosa
e brutal pontualidade
mas se chegar pontual não nos agarre
mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos
e que tu mocinha avances alegre e dolorida
pondo nos teus olhos a alma
e a tua mão na minha mão
e nada mais
porque o céu já está turvo novamente
e sem estrelas
com helicópteros e sem deus.
Mário Benedetti
HOMBRE QUE MIRA EL CIELO
Mientras pasa la estrella fugaz
acopio en este deseo instantáneo
montones de deseos hondos y prioritarios
por ejemplo que el dolor no me apague la rabia
que la alegría no desarme mi amor
que los asesinos del pueblo se traguen
sus molares caninos e incisivos
y se muerdan juiciosamente el hígado
que los barrotes de las celdas
se vuelvan de azúcar o se curven de piedad
y mis hermanos puedan hacer de nuevo
el amor y revolución
que cuando enfrentemos el implacable espejo
no maldigamos ni nos maldigamos
que los justos avancen
aunque estén imperfectos y heridos
que avancen porfiados como castores
solidarios como abejas
aguerridos como jaguares
y empuñen todos sus noes
para instalar la gran afirmación
que la muerte pierda su asquerosa puntualidad
que cuando el corazón se salga del pecho
pueda encontrar el camino de regreso
que la muerte pierda su asquerosa
y brutal puntualidad
pero si llega puntual no nos agarre
muertos de vergüenza
que el aire vuelva a ser respirable y de todos
y que vos muchachita sigas alegre y dolorida
poniendo en tus ojos el alma
y tu mano en mi mano
y nada más
porque el cielo ya está de nuevo torvo
y sin estrellas
con helicóptero y sin dios.
Enquanto passa a estrela fugaz
Junto neste desejo instantâneo
montões de desejos profundos e prioritários
por exemplo que a dor não me apague a raiva
que a alegria não desarme o amor
que os assassinos do povo devorem
seus molares caninos e incisivos
e mordam judiciosamente o próprio fígado
que as grades das prisões
se transformem em açúcar ou se curvem de piedade
e os meus irmãos possam fazer de novo
amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho
não o amaldiçoemos nem nos amaldiçoemos
que os justos avancem
ainda que imperfeitos e feridos
que avancem obstinados como castores
solidários como abelhas
aguerridos como jaguares
e empunhem todos os seus nãos
para instalar a grande afirmação
que a morte perca a sua asquerosa pontualidade
que quando o coração saia do peito
possa encontrar o caminho de regresso
que a morte perca a sua asquerosa
e brutal pontualidade
mas se chegar pontual não nos agarre
mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos
e que tu mocinha avances alegre e dolorida
pondo nos teus olhos a alma
e a tua mão na minha mão
e nada mais
porque o céu já está turvo novamente
e sem estrelas
com helicópteros e sem deus.
Mário Benedetti
HOMBRE QUE MIRA EL CIELO
Mientras pasa la estrella fugaz
acopio en este deseo instantáneo
montones de deseos hondos y prioritarios
por ejemplo que el dolor no me apague la rabia
que la alegría no desarme mi amor
que los asesinos del pueblo se traguen
sus molares caninos e incisivos
y se muerdan juiciosamente el hígado
que los barrotes de las celdas
se vuelvan de azúcar o se curven de piedad
y mis hermanos puedan hacer de nuevo
el amor y revolución
que cuando enfrentemos el implacable espejo
no maldigamos ni nos maldigamos
que los justos avancen
aunque estén imperfectos y heridos
que avancen porfiados como castores
solidarios como abejas
aguerridos como jaguares
y empuñen todos sus noes
para instalar la gran afirmación
que la muerte pierda su asquerosa puntualidad
que cuando el corazón se salga del pecho
pueda encontrar el camino de regreso
que la muerte pierda su asquerosa
y brutal puntualidad
pero si llega puntual no nos agarre
muertos de vergüenza
que el aire vuelva a ser respirable y de todos
y que vos muchachita sigas alegre y dolorida
poniendo en tus ojos el alma
y tu mano en mi mano
y nada más
porque el cielo ya está de nuevo torvo
y sin estrellas
con helicóptero y sin dios.
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in «El amor,
las mujeres y la vida»,
trad.de Cid Simões
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
AS CEREJAS DA MENINA
«Só como cerejas quando a minha empregada tira os caroços por mim», Carolina Patrocínio, apresentadora de TV e mandatária para a juventude do Partido Socialista, em entrevista à SIC
A boca da empregada Rosália inicia o movimento de sucção. Rosália tem quarenta anos, empregada doméstica desde os quinze, tirou a 3ªclasse da primária que já esqueceu, guarda com uma memória de elefante todos os dias da sua vida, sempre muito parecidos, a governar casas alheias e a cuidar de meninos que não os seus, pois nunca os teve. Conserva os seios fartos, uma boca carnuda e,nos olhos, sob a docilidade obediente, uma indefinida e tenaz tristeza. Faz que engole a cereja, mas não engole: chupa, amolece-a com a língua habilmente de modo a que não amoleça demasiado, trinca-a com pequena mas rápida dentada, solta com a língua o caroço, cospe-o com um único sopro para a palma da mão, extrai da boca a cereja intacta com um guardanapo de papel na mão esquerda. Repete a operação as vezes necessárias até que uma mão cheia não baste. A menina Carolina é insaciável. Sentada em frente do computador, come da mão da empregada. No ecrâ alinha com dificuldade meia dúzia de frases retumbantes para um discurso de campanha.
A Rosália pensa na família que gostaria de ter, a sua, e que não tem: um marido a apalpar-lhe os peitos, a comer-lhe cerejas na sua pessoalíssima boca carnuda e infarta, uma menina no pátio a saltar à corda.
«Ai, credo! Esta estava chupada demais, ó Rosália!». A menina Carolina não quer estragar os dentes alvíssimos, os lábios sensualíssimos, a língua exigentíssima. Quando declamar o discurso de meia dúzia de elogios ao Engenheiro Sócrates e sua excelentíssima governação, sob os holofotes, sob as bandeirolas, desfrutará da glória, com a barriguinha cheia de cerejas cuspidas pela Rosália.
A boca da empregada Rosália inicia o movimento de sucção. Rosália tem quarenta anos, empregada doméstica desde os quinze, tirou a 3ªclasse da primária que já esqueceu, guarda com uma memória de elefante todos os dias da sua vida, sempre muito parecidos, a governar casas alheias e a cuidar de meninos que não os seus, pois nunca os teve. Conserva os seios fartos, uma boca carnuda e,nos olhos, sob a docilidade obediente, uma indefinida e tenaz tristeza. Faz que engole a cereja, mas não engole: chupa, amolece-a com a língua habilmente de modo a que não amoleça demasiado, trinca-a com pequena mas rápida dentada, solta com a língua o caroço, cospe-o com um único sopro para a palma da mão, extrai da boca a cereja intacta com um guardanapo de papel na mão esquerda. Repete a operação as vezes necessárias até que uma mão cheia não baste. A menina Carolina é insaciável. Sentada em frente do computador, come da mão da empregada. No ecrâ alinha com dificuldade meia dúzia de frases retumbantes para um discurso de campanha.
A Rosália pensa na família que gostaria de ter, a sua, e que não tem: um marido a apalpar-lhe os peitos, a comer-lhe cerejas na sua pessoalíssima boca carnuda e infarta, uma menina no pátio a saltar à corda.
«Ai, credo! Esta estava chupada demais, ó Rosália!». A menina Carolina não quer estragar os dentes alvíssimos, os lábios sensualíssimos, a língua exigentíssima. Quando declamar o discurso de meia dúzia de elogios ao Engenheiro Sócrates e sua excelentíssima governação, sob os holofotes, sob as bandeirolas, desfrutará da glória, com a barriguinha cheia de cerejas cuspidas pela Rosália.
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