Sou um homem comum.
Sento-me à beira do rio a ver as águas passar
E penso numa qualquer Lídia sentada ao pé de mim
“A morte é uma quimera, Lídia, quando ela vier eu já não sou”.
Surpreendo-me com a simplicidade das coisas pequenas,
Porque são elas que sustentam a vida.
Morrem no instante em que nascem.
Por isso, paro nos passeios a ver os calceteiros calcetar
E não me aborreço com os entardeceres de Setembro,
Caminho sobre a espuma e pegada alguma permanece.
Comum como as pedras e os bichos pequenos.
O aroma do café às sete da manhã desperta-me um sentimento largo
Que abraça o mundo que trabalha.
Depois sorrio com os trolhas que dizem piadas às raparigas que passam
e o mundo não desaba porque são eles que o erguem.
Sento-me num banco de jardim e penso
Que a vida é uma paródia
E em cada minuto a morte dá mais um passo sobre mim.
A pequena da sapataria, quase uma criança, arruma sapatos na montra,
A brasileira do quiosque sobe as grades e boceja,
Uma mãe apressada leva pela mão uma garotinha muito loira para a escola.
Durante dezenas de anos repeti os mesmos gestos, nas mesmas horas,
A pasta dos livros, o tema da aula a subir à superfície.
Fragmentos de sonhos a recuarem na neblina.
Sou um homem comum.
O que eu fiz fizeram-no incontáveis outros iguais antes de mim,
Farão o mesmo depois de mim.
Operários, camponeses, empregados de escritório, lojistas, professores,
Em vós me multiplico.
Sou um homem comum.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Tonino Guerra (n.1920)
O BANHO DOS POBRES
Os pobres da minha terra
tomam banho no rio
e estão de molho na água
um dia inteiro.
Ali há muito ar muito sol muitos borrifos.
Voltam quando é noite
Encontram outra vez as velhas casas
com as cabeças dos gatos aos janelos
e toda a água nos cântaros represa.
Os pobres da minha terra
tomam banho no rio
e estão de molho na água
um dia inteiro.
Ali há muito ar muito sol muitos borrifos.
Voltam quando é noite
Encontram outra vez as velhas casas
com as cabeças dos gatos aos janelos
e toda a água nos cântaros represa.
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Assírio e Alvim,
in «Rosa Do Mundo»,
Trad. Alexandre O´Neill
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Na Hora da Nossa Morte-novela-cont.
DIÁRIO DE CARLOS - 7
Há dias cruzei-me com uma mulher dentro de um automóvel que me pareceu conhecê-la. Foi apenas um instantâneo, não me permitiu observar os pormenores, um ápice, um relance, um olhar de esguelha, mas uma luz intensa, um pequeno foco de luz que colocou na sombra tudo o mais: o presente factual e os pensamentos, um rosto na escuridão que, pouco a pouco, se transfigurou num rosto muito antigo, juvenil. Podia não ser ela, quantas vezes confundimos caras. Podia ser, mas creio que não. E creio cada vez mais. Foi há dias e a recordação que emergiu de um passado distante torna-se cada vez mais nítida. Sempre tive dificuldade em recordar nomes, mas este nunca esqueci: Marta! Se acaso foi ela. Era bem estranho que fosse. Há trinta anos que não a vejo. Não foi o primeiro amor, mas foi, talvez, o mais genuíno. Porventura aquele que mais nostalgia me deixou. Talvez porque não guarde dele, ao contrário de alguns outros amores, amargura, ressentimento. Talvez porque me ficasse sempre a impressão de que eu seria feliz se a relação continuasse. Talvez porque nunca fosse capaz de explicar a mim mesmo qual o motivo do seu termo. Ainda por cima, desfecho abrupto. Apenas porque sentimos a certa altura necessidade premente de variarmos, de experimentarmos, de outras novidades e acontecimentos, e dissemo-lo um ao outro quase ao mesmo tempo. E rumámos cada um para o seu lado à procura. Preferi suspeitar que havia alguém próximo dela a fazer pressão, porém nunca quis confirmar, perguntar a outrem nunca, persegui-la para descobrir jamais. Nunca me inclinei para atitudes dessas. Se ela disse que não, ainda que me mentisse, pelo não fiquei. Até hoje, depois de ter casado, depois de ter enviuvado, depois de ter perdido a juventude. Gostaria de ter a certeza que era ela. Não tenho qualquer interesse normalmente em águas passadas; neste caso, contudo, faria uma excepção.
Ontem fui visitar o meu antigo professor. O sô Doutor Ramos, como é usual os estudantes abreviarem, não apreciava que lhe chamassem doutor, mas professor, embora possua mestrado e doutoramento, explicava sempre no início dos anos aos estudantes que doutores eram os médicos, ele era professor. E que professor! O ensino para ele era uma missão humanista, quase religiosa, e o ensino dele era um prazer, uma quase constante novidade, por vezes, quando inspirado, um acontecimento. Nessas ocasiões merecia um auditório enorme, de voluntários, e não uma sala modesta onde uma boa dúzia de ouvintes não entendia o que ouviam. Uma vez por outra visito-o na sua casa resguardada por um muro não muito alto, de pedras sem cimento ou reboco, construído por ele próprio, que em vez de afastar, atraía, pelo seu ar rústico e bravio. Um largo quintal nas traseiras e um espaço ajardinado na frente, ambos trabalhados a primor, fariam pensar a um passeante que havia ali um agricultor. A mim sempre me pareceu a vivenda de um inglês, onde não faltava sequer uma estufa envidraçada. Sinto-me bem quando lá vou. Não falamos quase nunca do passado, nem eu nem ele temos qualquer gosto nisso, ainda que o tempo passado com ele na escola, aluno e professor, tivesse sido dos mais felizes. Eu então ria com gosto e facilidade, adorava os desportos, mas tirava um grande prazer dos livros que lia, ou devorava, dos sempre novos conhecimentos que bebia com sofreguidão, e até dos exames não tinha receio, muito embora me enervassem bastante. Foi por esse tempo que namorei com a Marta.
“A solidão é um estado de espírito, sempre se pode mudar um estado de espírito!”, diz-me o professor. “Somos animais de hábitos, um hábito pode ser substituído por um hábito mais potente”. Potência é uma palavra que ele gosta de empregar, potências positivas, assim como as há negativas. “As primeiras produzem alegria, as últimas são a tristeza, o medo, a inveja, a esperança”. Gosta de citar os seus filósofos preferidos: Epicuro, Lucrécio, Séneca, Espinosa, e ensinou-me que todos eles, no fundo, são semelhantes, e que o que escreveram é sempre actual, muito embora somente mais velhos os entendamos bem.
Falei-lhe na Marta, fora aluna dele também. Aqui fizemos uma pequena excepção: falámos desse passado. Mas queria ouvi-lo dizer que a Marta fora uma excelente aluna e apesar de ser tímida e discreta, não participara menos por isso nas actividades. Conversámos sobre a possibilidade de ser ela mesma que eu vislumbrei na cidade onde eu resido. Talvez, afinal Lisboa onde estudámos não é longe, ela cursou medicina, portanto pode ter andado de hospital em hospital. Mas deve encontrar-se há pouco tempo onde a vi, porque de outro modo seria completamente estranho não me ter cruzado com ela. “Olha, meu caro, até pode lá andar há muito, só que nenhum de vós andaria então disponível para se reconhecerem…”. Andarei eu disponível, eu que enviuvei de uma mulher que já não amava há muito? Andará ela disponível para um encontro? “Pergunta-lhe e logo saberás!». É verdade, professor.
Há dias cruzei-me com uma mulher dentro de um automóvel que me pareceu conhecê-la. Foi apenas um instantâneo, não me permitiu observar os pormenores, um ápice, um relance, um olhar de esguelha, mas uma luz intensa, um pequeno foco de luz que colocou na sombra tudo o mais: o presente factual e os pensamentos, um rosto na escuridão que, pouco a pouco, se transfigurou num rosto muito antigo, juvenil. Podia não ser ela, quantas vezes confundimos caras. Podia ser, mas creio que não. E creio cada vez mais. Foi há dias e a recordação que emergiu de um passado distante torna-se cada vez mais nítida. Sempre tive dificuldade em recordar nomes, mas este nunca esqueci: Marta! Se acaso foi ela. Era bem estranho que fosse. Há trinta anos que não a vejo. Não foi o primeiro amor, mas foi, talvez, o mais genuíno. Porventura aquele que mais nostalgia me deixou. Talvez porque não guarde dele, ao contrário de alguns outros amores, amargura, ressentimento. Talvez porque me ficasse sempre a impressão de que eu seria feliz se a relação continuasse. Talvez porque nunca fosse capaz de explicar a mim mesmo qual o motivo do seu termo. Ainda por cima, desfecho abrupto. Apenas porque sentimos a certa altura necessidade premente de variarmos, de experimentarmos, de outras novidades e acontecimentos, e dissemo-lo um ao outro quase ao mesmo tempo. E rumámos cada um para o seu lado à procura. Preferi suspeitar que havia alguém próximo dela a fazer pressão, porém nunca quis confirmar, perguntar a outrem nunca, persegui-la para descobrir jamais. Nunca me inclinei para atitudes dessas. Se ela disse que não, ainda que me mentisse, pelo não fiquei. Até hoje, depois de ter casado, depois de ter enviuvado, depois de ter perdido a juventude. Gostaria de ter a certeza que era ela. Não tenho qualquer interesse normalmente em águas passadas; neste caso, contudo, faria uma excepção.
Ontem fui visitar o meu antigo professor. O sô Doutor Ramos, como é usual os estudantes abreviarem, não apreciava que lhe chamassem doutor, mas professor, embora possua mestrado e doutoramento, explicava sempre no início dos anos aos estudantes que doutores eram os médicos, ele era professor. E que professor! O ensino para ele era uma missão humanista, quase religiosa, e o ensino dele era um prazer, uma quase constante novidade, por vezes, quando inspirado, um acontecimento. Nessas ocasiões merecia um auditório enorme, de voluntários, e não uma sala modesta onde uma boa dúzia de ouvintes não entendia o que ouviam. Uma vez por outra visito-o na sua casa resguardada por um muro não muito alto, de pedras sem cimento ou reboco, construído por ele próprio, que em vez de afastar, atraía, pelo seu ar rústico e bravio. Um largo quintal nas traseiras e um espaço ajardinado na frente, ambos trabalhados a primor, fariam pensar a um passeante que havia ali um agricultor. A mim sempre me pareceu a vivenda de um inglês, onde não faltava sequer uma estufa envidraçada. Sinto-me bem quando lá vou. Não falamos quase nunca do passado, nem eu nem ele temos qualquer gosto nisso, ainda que o tempo passado com ele na escola, aluno e professor, tivesse sido dos mais felizes. Eu então ria com gosto e facilidade, adorava os desportos, mas tirava um grande prazer dos livros que lia, ou devorava, dos sempre novos conhecimentos que bebia com sofreguidão, e até dos exames não tinha receio, muito embora me enervassem bastante. Foi por esse tempo que namorei com a Marta.
“A solidão é um estado de espírito, sempre se pode mudar um estado de espírito!”, diz-me o professor. “Somos animais de hábitos, um hábito pode ser substituído por um hábito mais potente”. Potência é uma palavra que ele gosta de empregar, potências positivas, assim como as há negativas. “As primeiras produzem alegria, as últimas são a tristeza, o medo, a inveja, a esperança”. Gosta de citar os seus filósofos preferidos: Epicuro, Lucrécio, Séneca, Espinosa, e ensinou-me que todos eles, no fundo, são semelhantes, e que o que escreveram é sempre actual, muito embora somente mais velhos os entendamos bem.
Falei-lhe na Marta, fora aluna dele também. Aqui fizemos uma pequena excepção: falámos desse passado. Mas queria ouvi-lo dizer que a Marta fora uma excelente aluna e apesar de ser tímida e discreta, não participara menos por isso nas actividades. Conversámos sobre a possibilidade de ser ela mesma que eu vislumbrei na cidade onde eu resido. Talvez, afinal Lisboa onde estudámos não é longe, ela cursou medicina, portanto pode ter andado de hospital em hospital. Mas deve encontrar-se há pouco tempo onde a vi, porque de outro modo seria completamente estranho não me ter cruzado com ela. “Olha, meu caro, até pode lá andar há muito, só que nenhum de vós andaria então disponível para se reconhecerem…”. Andarei eu disponível, eu que enviuvei de uma mulher que já não amava há muito? Andará ela disponível para um encontro? “Pergunta-lhe e logo saberás!». É verdade, professor.
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
A ESCOLA PÚBLICA
A escolaridade obrigatória, universal, inclusiva e tendencialmente gratuita, foi um avanço civilizacional indiscutível na Europa, berço das democracias, e uma construção revolucionária depois de liquidado um Regime fascista (o mais longo da Europa) que nos legou milhões de analfabetos e escolas para uns mais afortunados (o esforço dos mais pobres que para nelas ingressarem mais acentua a discriminação em que assentava esse modelo) – os liceus- e escolas comerciais e industriais para outros (no ensino superior uma escassa minoria). Após o 25 de Abril, um único sistema de ensino ( que se foi prolongando justamente até ao 12ºano) o qual permitiria ou o acesso ao ensino superior ou a cursos profissionais, correspondeu ao que de mais avançado se perseguia. O que faltou foi respeitá-lo e cumpri-lo. O insucesso escolar deve-se certamente também aos professores, mas com um peso bem mais secundário do que as diferentes bagagens culturais que os alunos trazem de «fora». Os professores precisam de receber actualização continuada, mas a atmosfera cultural do país também. Os professores precisam de uma profissão garantida e protegida, mas os jovens e os portugueses em geral também precisam de empregos presentes e futuros, efectivos e bem remunerados. Há jovens que preferem ou possuem mais competências para profissões de média qualificação, mas é preciso que as encontrem.
É urgente reformar o ensino, mas sem ter como modelo as escolas privadas e, muito menos, fazer degradar as públicas para justificar o negócio das últimas. A avaliação externa das escolas públicas demonstra que estão em geral bem organizadas e geridas. O que faz falta é premiar o esforço e a competência, oferecer condições que promovam a progressão justificada numa carreira digna e bem gratificada, com um outro Estatuto que não o actual, que não presta. É preciso que a avaliação dos docentes se faça inspirando-nos no que se faz com mais justiça e resultados em muitos países da Europa. O profissional de uma actividade tão delicada e rigorosa como o é a de professor (desde o jardim de infância até ao topo) deve responder pelo seu profissionalismo através de um relatório ( de auto-avaliação) criteriosamente didáctico, pedagógico e científico, suportado por indicadores de assiduidade, participação activa no seu grupo de pares e na escola ou agrupamento, e cumprimento do seu código deontológico, documento sério que deverá ser analisado pelo Conselho Pedagógico, Directivo e pelo seu grupo ou departamento. Dever-se-á ter na devida conta o seu empenho efectivo na sua auto-promoção no conhecimento geral e específico, e nas pedagogias –(cursos de formação continuada, pós-graduações, etc.). O juízo a fazer sobre o docente não deve ignorar o meio em que se insere a sua escola (quão valioso é aquele que trabalha com dedicação numa zona social problemática!), nem as enormes distâncias que ele tem por vezes de percorrer (ou obrigar-se a alugar um pequeno quarto).
Os professores são uma pequena parte do problema mais geral, e são, seguramente, uma parte maior da sua solução. Cem mil professores conscientes de que é o país que precisa de profundas reformas, com democracia e justiça social, com desenvolvimento económico e cultural, podem constituir uma enorme força social de mudança. Não são eles quem mais e melhor ensinam?
É urgente reformar o ensino, mas sem ter como modelo as escolas privadas e, muito menos, fazer degradar as públicas para justificar o negócio das últimas. A avaliação externa das escolas públicas demonstra que estão em geral bem organizadas e geridas. O que faz falta é premiar o esforço e a competência, oferecer condições que promovam a progressão justificada numa carreira digna e bem gratificada, com um outro Estatuto que não o actual, que não presta. É preciso que a avaliação dos docentes se faça inspirando-nos no que se faz com mais justiça e resultados em muitos países da Europa. O profissional de uma actividade tão delicada e rigorosa como o é a de professor (desde o jardim de infância até ao topo) deve responder pelo seu profissionalismo através de um relatório ( de auto-avaliação) criteriosamente didáctico, pedagógico e científico, suportado por indicadores de assiduidade, participação activa no seu grupo de pares e na escola ou agrupamento, e cumprimento do seu código deontológico, documento sério que deverá ser analisado pelo Conselho Pedagógico, Directivo e pelo seu grupo ou departamento. Dever-se-á ter na devida conta o seu empenho efectivo na sua auto-promoção no conhecimento geral e específico, e nas pedagogias –(cursos de formação continuada, pós-graduações, etc.). O juízo a fazer sobre o docente não deve ignorar o meio em que se insere a sua escola (quão valioso é aquele que trabalha com dedicação numa zona social problemática!), nem as enormes distâncias que ele tem por vezes de percorrer (ou obrigar-se a alugar um pequeno quarto).
Os professores são uma pequena parte do problema mais geral, e são, seguramente, uma parte maior da sua solução. Cem mil professores conscientes de que é o país que precisa de profundas reformas, com democracia e justiça social, com desenvolvimento económico e cultural, podem constituir uma enorme força social de mudança. Não são eles quem mais e melhor ensinam?
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A Escola e avaliação
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
HÁBITOS
Quantas vezes Platão assoou o nariz,
e São Tomás de Aquino
tirou os sapatos,
quantas vezes Einstein escovou os dentes,
e Kafka ligou e desligou a luz,
antes de enfim chegarem
ao que lhes cabia fazer?
Semanas sem fim, feitas as contas,
levamos
abotoar e desabotoar camisas,
procurar os óculos
ou, tomada a decisão,
novamente descartá-la.
Como são efémeras as nossas opiniões
e as nossas obras, em comparação
com aquilo que nos é comum:
cozinhar, lavar a roupa, subir escadas –
repetições de pouco relevo,
pacíficas, corriqueiras
e mais indispensáveis que qualquer chef d'oeuvre.
Hans Magnus Enzensberger
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