quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
FELIZ ANO NOVO!
Para os meus «seguidores» a quem sigo com prazer e admiração, para os demais amigos que fazem o favor de me lerem, para aqueles que verifico que me visitam mas cujas identidades desconheço, para todos vós Um Grande, Muito Grande e muito Feliz Novo Ano!
NOVAS FÁBULAS - 1
O Optimista
Voava de ramo em ramo contente da vida. Era um macaco optimista. «O que está bem hoje, estará bem amanhã!», filosofava. «Se não está bem, vai melhorar!», rematava. Nem sempre estava bem, contudo o sol havia de nascer outra vez. A crença era tão genuína, natural e profunda, que até os gorilas o admiravam, entre duas sestas. Acreditava num Criador, Bom e Misericordioso. Acreditava de um modo tão sincero que até as girafas lhe tiravam o chapéu. Porém, habitava o mesmo território um macaco bem diferente. Ladino e astuto, divertia-se a trepar à porfia com ele pelos melhores frutos. Não era rara a vez em que chegava primeiro. «Quem vai ao mar, perde o lugar!», «Quem chega primeiro come melhor!», «Fia-te na virgem e não corras!», com provérbios como estes ia espicaçando o outro. Às fêmeas joviais arribava primeiro e ataviava-se. Enquanto o outro aos predadores exibia-se confiante, eclipsava-se num relâmpago ao primeiro sinal de aviso. Certo dia numa dessa correrias caiu desamparado e não fosse um monte de folhas fofas que o amparou logo ali teria entregue a alma ao Criador, na opinião oportuna do Optimista. «Não estava escrito que hoje esticasses o pernil!», alvitrou este lá do alto, sem um riso, sem uma blasfémia.
Quando, noite alta, um temporal varreu a região com ventos a 200km à hora, o macaco optimista foi lançado como uma bola de ténis pela estratosfera. Foi mergulhar num poço a 300km por segundo. «Que sorte, o Criador fez este poço para mim!». O outro macaco, que se anichara num abrigo à prova de bala, foi encontrá-lo, dois dias depois, enregelado, em cima de um pinheiro semi-esgalhado. «Se tudo de mau tinha de acontecer, porque não te precaveste?», disparou-lhe à queima-roupa. «Se adivinhasse o dia de amanhã não era optimista!», retorquiu o outro com enorme sabedoria.
Voava de ramo em ramo contente da vida. Era um macaco optimista. «O que está bem hoje, estará bem amanhã!», filosofava. «Se não está bem, vai melhorar!», rematava. Nem sempre estava bem, contudo o sol havia de nascer outra vez. A crença era tão genuína, natural e profunda, que até os gorilas o admiravam, entre duas sestas. Acreditava num Criador, Bom e Misericordioso. Acreditava de um modo tão sincero que até as girafas lhe tiravam o chapéu. Porém, habitava o mesmo território um macaco bem diferente. Ladino e astuto, divertia-se a trepar à porfia com ele pelos melhores frutos. Não era rara a vez em que chegava primeiro. «Quem vai ao mar, perde o lugar!», «Quem chega primeiro come melhor!», «Fia-te na virgem e não corras!», com provérbios como estes ia espicaçando o outro. Às fêmeas joviais arribava primeiro e ataviava-se. Enquanto o outro aos predadores exibia-se confiante, eclipsava-se num relâmpago ao primeiro sinal de aviso. Certo dia numa dessa correrias caiu desamparado e não fosse um monte de folhas fofas que o amparou logo ali teria entregue a alma ao Criador, na opinião oportuna do Optimista. «Não estava escrito que hoje esticasses o pernil!», alvitrou este lá do alto, sem um riso, sem uma blasfémia.
Quando, noite alta, um temporal varreu a região com ventos a 200km à hora, o macaco optimista foi lançado como uma bola de ténis pela estratosfera. Foi mergulhar num poço a 300km por segundo. «Que sorte, o Criador fez este poço para mim!». O outro macaco, que se anichara num abrigo à prova de bala, foi encontrá-lo, dois dias depois, enregelado, em cima de um pinheiro semi-esgalhado. «Se tudo de mau tinha de acontecer, porque não te precaveste?», disparou-lhe à queima-roupa. «Se adivinhasse o dia de amanhã não era optimista!», retorquiu o outro com enorme sabedoria.
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Novas Fábulas-1
AVISO
Com o novo ano inicio uma nova série de FÁBULAS que espero colocar com regularidade. A esta nova experiência junta-se a continuação da Novela «Na Hora Da Nossa Morte» e a série de estudos sobre «Filosofias Materialistas». A quem apreciar os meus agradecimentos; aos outros, os meus lamentos.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Na Hora da Nossa Morte (novela, cont.)
Diário de Marta -10
Sim, procuro sair mais, seguir o conselho da minha mãe. Aliás, uma solução óbvia. Desde sempre que a soube, a dificuldade foi encontrar vontade, iniciativa. Somente seguimos os conselhos para os quais já estávamos preparados. Ontem percorri a pé a cidade. Se excluirmos a zona norte que cresce rapidamente, a cidade de Torres Vedras percorre-se sem qualquer esforço. Observei com uma atenção que nunca lhe prestei a Igreja e Convento da Graça. Ao que dizem foi convento dos Eremitas Calçados (curiosa esta classificação! Andariam de facto descalços os outros?). É austero mas adornado com uma elevada e bela torre sineira. Pouco mais posso descrever com termos técnicos que a minha ignorância nestes assuntos não é pequena (admiro os médicos que arranjam tempo para serem cultos). O que posso afirmar como leiga é que o retábulo da igreja é bem bonito. As esculturas são delicadas nos tons e nas roupagens. O claustro é a parte de que mais gostei: um sorriso breve do sol de inverno adoçava-lhe as colunas e fazia apetecer a tranquilidade dos bancos. Visitei o Museu Municipal, a documentação sobre as invasões francesas, esse período histórico do qual todos julgam saber muito e na realidade não sabem nada.
Não pude visitar a Igreja da Misericórdia, ali ao pé do café Havanesa, por estar encerrada, foi pena porque me disseram que era bastante bonita. Aproveitei para visitar a igreja de São Pedro, pequena e confortável, com uma torre sineira que me informaram ser quinhentista mas reconstruída depois do terramoto de 1755, e um portal manuelino ao qual tirei algumas fotos (a fotografia poderia ser o meu entretenimento preferido se tivesse tempo e aquele à vontade que faz de um fotógrafo um autêntico caçador). Atravessei depois a pequena praceta que se situa nas traseiras, pejada de carros e dirigi-me para o Chafariz dos Canos, monstruosamente enquadrado por uns prédios horrorosos. Um monumento de que nunca vi igual. Merecia uma área condigna e um restauro que o tornasse vivo e atractivo. Regressei à praça da igreja de São Pedro, enfiei pela ruela agradável que desemboca nos Paços do Concelho, com um bonita fachada, virei à esquerda para descansar um pouco num banco aprazível da praça de Machado Santos, que é para mim talvez a praça mais bonita da cidade, ao lado a igreja de Santiago que já visitara antes. A vontade de comer invadiu-me sem aviso, mesmo assim decidi-me a subir o Centro histórico, recuperado recentemente, a guardar respeito e silêncio no interior da Igreja de Santa Maria do Castelo, a mais hospitaleira das igrejas de Torres Vedras, com uma luz diáfana e um belo púlpito. Não sou de rezas, contudo apeteceu-me rezar. Não são as catedrais faustosas que os soberanos mandavam construir para garantir a imortalidade deles, como os faraós, que me comovem, mas as capelas, as igrejinhas modestas, às vezes perdidas e solitárias no ventre das grandes metrópoles, outras vezes peregrinas no alto dos montes.
Não sei se Deus existe, se não. Se existir que tenha em paz ao lado dele a minha filha morta para este mundo.
Amanhã vou visitar o professor Ramos, meu mestre nos tempos já longínquos do Liceu. Não sei o que me deu, que pressentimento, que vontade, que fui descobri-lo na Net, provavelmente por causa de um dossiê de grupo que descobri por acaso, numas arrumações, em casa. E-mail enviado, e-mail respondido de pronto. Vi a fotografia dele num blog, a cabeça encanecida, os olhos com aquele brilho peculiar que o tornava interessante. Vou visitá-lo, não é longe. Vou seguir o conselho de minha mãe.
Sim, procuro sair mais, seguir o conselho da minha mãe. Aliás, uma solução óbvia. Desde sempre que a soube, a dificuldade foi encontrar vontade, iniciativa. Somente seguimos os conselhos para os quais já estávamos preparados. Ontem percorri a pé a cidade. Se excluirmos a zona norte que cresce rapidamente, a cidade de Torres Vedras percorre-se sem qualquer esforço. Observei com uma atenção que nunca lhe prestei a Igreja e Convento da Graça. Ao que dizem foi convento dos Eremitas Calçados (curiosa esta classificação! Andariam de facto descalços os outros?). É austero mas adornado com uma elevada e bela torre sineira. Pouco mais posso descrever com termos técnicos que a minha ignorância nestes assuntos não é pequena (admiro os médicos que arranjam tempo para serem cultos). O que posso afirmar como leiga é que o retábulo da igreja é bem bonito. As esculturas são delicadas nos tons e nas roupagens. O claustro é a parte de que mais gostei: um sorriso breve do sol de inverno adoçava-lhe as colunas e fazia apetecer a tranquilidade dos bancos. Visitei o Museu Municipal, a documentação sobre as invasões francesas, esse período histórico do qual todos julgam saber muito e na realidade não sabem nada.
Não pude visitar a Igreja da Misericórdia, ali ao pé do café Havanesa, por estar encerrada, foi pena porque me disseram que era bastante bonita. Aproveitei para visitar a igreja de São Pedro, pequena e confortável, com uma torre sineira que me informaram ser quinhentista mas reconstruída depois do terramoto de 1755, e um portal manuelino ao qual tirei algumas fotos (a fotografia poderia ser o meu entretenimento preferido se tivesse tempo e aquele à vontade que faz de um fotógrafo um autêntico caçador). Atravessei depois a pequena praceta que se situa nas traseiras, pejada de carros e dirigi-me para o Chafariz dos Canos, monstruosamente enquadrado por uns prédios horrorosos. Um monumento de que nunca vi igual. Merecia uma área condigna e um restauro que o tornasse vivo e atractivo. Regressei à praça da igreja de São Pedro, enfiei pela ruela agradável que desemboca nos Paços do Concelho, com um bonita fachada, virei à esquerda para descansar um pouco num banco aprazível da praça de Machado Santos, que é para mim talvez a praça mais bonita da cidade, ao lado a igreja de Santiago que já visitara antes. A vontade de comer invadiu-me sem aviso, mesmo assim decidi-me a subir o Centro histórico, recuperado recentemente, a guardar respeito e silêncio no interior da Igreja de Santa Maria do Castelo, a mais hospitaleira das igrejas de Torres Vedras, com uma luz diáfana e um belo púlpito. Não sou de rezas, contudo apeteceu-me rezar. Não são as catedrais faustosas que os soberanos mandavam construir para garantir a imortalidade deles, como os faraós, que me comovem, mas as capelas, as igrejinhas modestas, às vezes perdidas e solitárias no ventre das grandes metrópoles, outras vezes peregrinas no alto dos montes.
Não sei se Deus existe, se não. Se existir que tenha em paz ao lado dele a minha filha morta para este mundo.
Amanhã vou visitar o professor Ramos, meu mestre nos tempos já longínquos do Liceu. Não sei o que me deu, que pressentimento, que vontade, que fui descobri-lo na Net, provavelmente por causa de um dossiê de grupo que descobri por acaso, numas arrumações, em casa. E-mail enviado, e-mail respondido de pronto. Vi a fotografia dele num blog, a cabeça encanecida, os olhos com aquele brilho peculiar que o tornava interessante. Vou visitá-lo, não é longe. Vou seguir o conselho de minha mãe.
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