Os blogs (como escrever: blog ou blogue?) valem o que valem. Muito poucos, ou ninguém, procuram neles grandes e graves dissertações ou mesmo ensaios (no sentido convencional da palavra). Querem-se velozes, sucintos, divertidos. Não há tempo para mais, o tempo que sobra é para relaxar, abstrair-se do tempo real gasto ou para gastar, distrair-se dos compromissos de que se faz o tempo, medido pelos relógios, pelos toques de campainha ou pelo «picar o ponto». Os blogs não se inventaram para produzir ciência mas opinião (embora a ciência não dispense a opinião), isto é, doxa. E mesmo assim um comentário opinativo breve para não ser "chato", porque a "seca" aplica-se tudo que seja teórico (o convívio é que é bom). O blog é como o facebook ou qualquer dos outros meios de contacto: enviam-se mensagens, convites, trocam-se elogios mútuos (todos são "amigos" e, por isso, elogiam-se uns aos outros, mesmo que aquilo que lá escrevem ou "produzem" seja de uma mediocridade alarmante). Blogs, facebooks e outros meios semelhantes, são vastas feiras de vaidades, isto é, de narcisismos. Mas são também, paradoxalmente ou não, instrumentos incontornáveis e inegáveis de comunicação de afectos, que reforçam a função dos telemóveis e até lhe acrescentam alguma coisa. Constituem-se grupos, movimentos, agremiações, irmandades, tribos, num instante, permitindo as uniões (mais ou menos fugazes), as fusões e as efusões, substituindo os arqueológicos telegramas e as não menos arqueológicas cartas de amor. Os fiéis fortalecem a sua fé reafirmando incansavelmente a sua crença aos olhos dos seus «companheiros de estrada».
A diferença dos blogs é ligeira: são do mesmo modo mensagens, espaços de maior ou nenhuma criatividade pessoal, postais que se endereça a alguém ou a ninguém, formais e informais, pessoais e impessoais no destinatário, confissões, estados de alma, partilha de gostos. Positivamente podem alcançar um grau pedagógico supletivo da escola formal ou dos livros convencionais. Blogs muito visitados pertencem normalmente a individualidades, nome que se costuma dar a indivíduos mediáticos (alguns funcionam à maneira dos gurus, dos sacerdotes que detêm a informação privilegiada).
O meu blog não é mais do que, à semelhança de muitos outros, uma forma de enganar a morte.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
A educação sexual nas escolas
Aquelas embalagens a que agora chamam "kits" foram distribuídas aos estudantes com materiais informativos e formativos sobre «Educação Sexual». A Associação de Pais, creio que ainda presidida por um senhor direitista que foi apoiante da ministra da educação anterior a esta última, vem decretar que o material incentiva a masturbação, a promiscuidade e a homossexualidade. Pode ser o tal "kit" de valor discutível, podem ser as estratégias de educação sexual nas escolas de orientação e aplicação duvidosa, seja o que for que importa melhorar e avaliar não explica nem justifica a declaração ideológica da Associação que não se sabe se representa realmente os pais de Portugal. Porque é de ideologia que se trata. Uma ideologia reaccionária e obsoleta, sobretudo hipócrita, que alija para as escolas a responsabilidade da educação, da má educação e dos insucessos, das práticas dos costumes liberais, do laxismo e do facilitismo, da tirania dos meninos caprichosos, insolentes e que mentem aos pais sobre os professores, que induzem os paizinhos a agredir os professores com palavras, ameaças ou chantagens (métodos muito usados pelas elites). Uma ideologia que promoveu o egoísmo, o narcisismo, uma doutrina com direitos sem deveres, uma pseudo-moral sem responsabilidade e trabalho que inventiva ao gozo imediato dos prazeres, à banalização das obscenidades ditas e vistas, aos discursos mais paupérrimos que jamais se ouviram, ao consumismo urgente. Pais e meninos que nunca leram Platão e detestam a filosofia e, por isso, nunca os argumentos contra o hedonismo de segunda categoria lhes entrou na cabeça nem lhes entrará. A sexualidade é um dos redutos do controlo social. Vale mais dizer: era. O capitalismo tardio já pouco se importa com isso, desde que lhe traga bons negócios, mas acolhe com benevolência esses avatares de um moralismo hipócrita para manter as aparências. No fundo, trata-se de elites (económicas, não culturais) que consideram os professores como meros funcionários sem autoridade sobre os filhos delas. Trata-se de reaccionários que conservam a milenária ideia de que a sexualidade é um domínio completamente moral e, portanto, regida por tabus, dogmas e censuras. A lei sobre a «educação sexual nas escolas» demorou dezenas de anos, depois do 25 de Abril, para ser aprovada e anos a fio esperou para ser aplicada. Porquê? Esta é a questão que merece ser explicada.
terça-feira, 22 de junho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Esclarecimentos oportunos
Acusar o marxismo de ateísmo militante é incorrecto, recorrendo ao melhor dos termos para classificar essa acusação. Não existe uma «ideologia marxista», existem diversos marxismos. É certo que alguns regimes do Leste difundiram uma «ideologia marxista», mas esses regimes desapareceram; a ideologia da qual se quiseram únicos representantes era política, doutrina política e não religiosa ou anti; não proibiram as religiões nem encerraram as igrejas; a igreja ortodoxa acomodou-se perfeitamente com o regime que vigorava na URSS; na Polónia o catolicismo era praticado livremente e as suas igrejas bombardeadas pelos nazis foram reconstruídas pelo regime; nas Constituições políticas desses regimes, em nenhum deles, figurava a proibição das religiões. Marx e Engels não eram crentes, é certo, mas não fizeram da religião o seu inimigo político; dissertaram longamente sobre Economia, Política, Filosofia, mas não escreveram nenhum tratado ateísta. Para se aderir às teses de Marx não é indispensável abandonar qualquer crença religiosa, como o demonstra o facto de milhões de militantes de partidos marxistas terem sido crentes, assim como militantes de outros partidos que incluíam nos seus programas ou nos seus ideais algumas das teses de Marx sobre os malefícios do capitalismo e do colonialismo e os benefícios do socialismo e da revolução. Sacerdotes foram militantes e guerrilheiros e alguns bispos acharam boas e generosas as ideias comunistas de Marx; escreveram-se muitos textos filosóficos e outros mais panfletários que classificavam Jesus como o primeiro comunista; o Vaticano condenou vários padres e textos como heresias, mas as heresias podem ser modos de regressar ao cristianismo dos Evangelhos. O levantamento insurrecional de camponeses que se seguiu às Teses de Lutero foi em nome do verdadeiro cristianismo e na Inglaterra haveria de suceder o mesmo; a Reforma foi classificada pela Igreja de Roma como «Anti-Cristo» e, todavia, deu origem às muitas Igrejas Protestantes.
Bento Espinosa que foi o primeiro a analisar a Bíblia (Antigo Testamento), excomungado pela Igreja de Roma e pelos judeus ortodoxos, escreveu «Deus ou Natureza»: tanto pode ser interpretado como ateísmo como, pelo contrário, ter sido ele um «ébrio de Deus», conforma o disse um filósofo alemão.
Os que militaram mais contra as igrejas, os padres e a religião foram os anarquistas, assim sucedeu antes da guerra civil espanhola, mas os comunistas é que arcaram até hoje com as culpas. A Primeira República Portuguesa não perseguiu a Igreja; o que incomodou esta foi estabelecer-se a separação do Estado e da Igreja, como era e é normal nas Constituições republicanas e democráticas.
Bento Espinosa que foi o primeiro a analisar a Bíblia (Antigo Testamento), excomungado pela Igreja de Roma e pelos judeus ortodoxos, escreveu «Deus ou Natureza»: tanto pode ser interpretado como ateísmo como, pelo contrário, ter sido ele um «ébrio de Deus», conforma o disse um filósofo alemão.
Os que militaram mais contra as igrejas, os padres e a religião foram os anarquistas, assim sucedeu antes da guerra civil espanhola, mas os comunistas é que arcaram até hoje com as culpas. A Primeira República Portuguesa não perseguiu a Igreja; o que incomodou esta foi estabelecer-se a separação do Estado e da Igreja, como era e é normal nas Constituições republicanas e democráticas.
domingo, 20 de junho de 2010
Onde o diálogo acaba e começa a perseguição policial
Registo com agrado a posição oficial manifestada pela Igreja católica portuguesa sobre o valor e o lugar de José Saramago na cultura portuguesa e mundial e não esqueço os diálogos cordatos e cívicos que entabulou com o crítico da história da Igreja. Também não esqueço a história da igreja portuguesa no passado, mas não vem ao caso. No cristianismo em geral e no catolicismo em particular cabem tendências diversas (o actual Papa excomungou algumas, como se sabe); um senhorito que desempenhava altas funções no governo de Cavaco Silva proibiu a candidatura de Saramago a um galardão internacional; o senhorito, que hoje se recorda apenas por esse acto miserável, achava-se mais católico do que os outros. Tanto pecou ele como o seu chefe do Governo, que é agora Presidente de «todos os portugueses» e que decidiu faltar ao funeral do ilustre português escritor. Bem fiz eu que não votei nele nem votarei nunca.
O «Observatore Romano», órgão do Vaticano, dirige a Saramago as piores calúnias, movidas pelo ódio ao ateísmo, ao marxismo e ao comunismo; até aí ainda se compreende que não gostem dos ateus; o que não é moralmente admissível, nem no plano da argumentação filosófica, é que o acusem de cumplicidade (moral) nos actos criminosos praticados sob o estalinismo. Na argumentação é uma falácia da pior espécie. É tão estúpido como acusar um «liberal» dos crimes cometidos por regimes ditos «liberais», ou alcunhar a doutrina política do Liberalismo como «ideologia criminosa». Melhor dito: acusar a religião cristã da «ideologia» que cometeu a Matança de São Bartolomeu. Se enveredamos por esse tipo de falácia «ad hominem» não é possível o diálogo, seja ele político, seja ele metafísico.
O «Observatore Romano», órgão do Vaticano, dirige a Saramago as piores calúnias, movidas pelo ódio ao ateísmo, ao marxismo e ao comunismo; até aí ainda se compreende que não gostem dos ateus; o que não é moralmente admissível, nem no plano da argumentação filosófica, é que o acusem de cumplicidade (moral) nos actos criminosos praticados sob o estalinismo. Na argumentação é uma falácia da pior espécie. É tão estúpido como acusar um «liberal» dos crimes cometidos por regimes ditos «liberais», ou alcunhar a doutrina política do Liberalismo como «ideologia criminosa». Melhor dito: acusar a religião cristã da «ideologia» que cometeu a Matança de São Bartolomeu. Se enveredamos por esse tipo de falácia «ad hominem» não é possível o diálogo, seja ele político, seja ele metafísico.
O ódio
As igrejas são conservadoras sem excepção porque julgam que é dos seus dogmas que depende a sua sobrevivência. O jornal oficioso do Vaticano disparou o seu ódio contra Saramago, que já não está cá para o desprezar ou para lhe responder. A Igreja de Roma instauraria a censura pública se pudesse, visto que a censura privada já a instaurou há séculos. Na Itália de Mussolini e, na Espanha de Franco e no Portugal de Salazar a igreja conviveu perfeitamente com a censura. Na Universidade Católica Bento Espinosa não entra, esse «cão tinhoso» como lhe chamaram que se atreveu a analisar criticamente a Bíblia. A Igreja não é tolerante; por consequência não se pode ser tolerante com ela. Num regime de liberdades de expressão ela não permite a livre expressão e mostrando-se mansa em outras circunstâncias, morde com raiva quem ousar revelar os crimes que cometeu ou que calou. Quem se lembra da cumplicidade com a extradição dos judeus para os campos de concentração na Itália? Quem se lembra do seu silêncio cúmplice perante o campo do Tarrafal? Quem se lembra do cónego que organizava os atentados terroristas no período revolucionário em Portugal?Quem se lembra da colaboração da igreja na matança perpetrada pela besta franquista sobre os derrotados da guerra civil (não tiveram os golpistas fascistas a benção da Igreja?)? Agora parece mansa e liberal na Espanha...mas experimente-se falar nesses e noutros crimes ou tocar nos seus dogmas fundamentalistas e fanáticos.
Saramago não escreveu contra os cristãos, escreveu contra os déspotas, os dignatários, os chefes, os magnatas, os donos do dinheiro e das almas dos penitentes. Escreveu contra os senhores da guerra e aqueles que fazem caridade com ela. Escreveu contra a mentira e a hipocrisia. Por isso ele representa a consciência moral no sentido mais nobre da palavra. A igreja não possui o património da moral. Possui a sua moral, que não é, seguramente, a moral daquele presumível judeu pobre e esfarrapado que se deixou crucificar pela sua fé num Deus misericordioso.
Saramago não escreveu contra os cristãos, escreveu contra os déspotas, os dignatários, os chefes, os magnatas, os donos do dinheiro e das almas dos penitentes. Escreveu contra os senhores da guerra e aqueles que fazem caridade com ela. Escreveu contra a mentira e a hipocrisia. Por isso ele representa a consciência moral no sentido mais nobre da palavra. A igreja não possui o património da moral. Possui a sua moral, que não é, seguramente, a moral daquele presumível judeu pobre e esfarrapado que se deixou crucificar pela sua fé num Deus misericordioso.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
A espuma das palavras
O escritor José Saramago é indissociável do cidadão político que ele foi. Para muita gente é assim tal e qual. Uns porque não gostavam do cidadão e provavelmente da sua obra literária; outros, gostavam do cidadão e da obra. O que separa uns e outros é a política, nuns casos, no seu sentido mais clássico e nobre, noutros, no seu sentido mais ideológico, isto é, particular (a Igreja católica e a Direita). Na ideologia (no seu significado sociológico negativo) estão fixados preconceitos, sistemas dogmáticos de moral, representações classistas do mundo e da vida. Nos romances Saramago atacou a Bíblia e a Igreja católica, com a coragem rara de quem ataca tabus, mas sempre com a elevação filosófica e literária. A visada não lhe perdoa e nenhuma hipocrisia fúnebre esconderá esta verdade. Os dogmas não admitem a dúvida, por definição, e os tabus, por função, são sagrados. A Direita política (CDS e PSD), de modo geral ( permita-se a excepção para aqueles militantes de qualquer partido que fazem a diferença), não lhe perdoa a intervenção política no período revolucionário, mas também, como católica que diz ser, a sua obra literária (incluindo esse manifesto formidável que é o «Levantado do Chão»). Não se revê (claro que a hipocrisia agora dirá o contrário) na revisão da história de Portugal e nos caminhos que este anda a singrar (à deriva, n'A Jangada de Pedra), no retrato que o escritor traçou da época em que o fascismo assaltava o poder com o terror e os milagres de Fátima.
José Saramago representa toda a Nação? Não, porque esta é sempre um mito a menos que a vejamos tal como é: um conjunto mais ou menos conlituoso de classes sociais diferentes. Representa toda a Cultura portuguesa? também não, pois que na Cultura há elementos reaccionários que dificilmente teriam apreciado o nobelizado português. Saramago representa aqueles que o leram e amaram, com ele reflectiram e por causa dele encontraram um caminho de luta. Representa também aqueles que não o leram, por motivos que têm a ver com a ileteracia e o ausente gosto pela leitura, mas que o escritor neles falou nos seus livros, e até os pôs a falar como se lê no «Levantado do Chão» e na «Viagem do Elefante». Saramago veio do povo trabalhador e nunca dele e das suas origens se esqueceu. Saramago foi comunista. Eis tudo. Aqueles que não sabem o que significa a palavra, despida de preconceitos, podem aprendê-la na vida e obra de José Saramago. Alguns artistas, recentes e do passado, acham que os objectos artísticos não têm que possuir mensagem alguma. Se assim fosse não teríamos Camões, Eça, Flaubert, Roger Martin du Gard, Leão Tolstoi. Não teríamos seguramente Saramago, prémio Nobel da Literatura e um dos escritores mais lidos e comentados em todo o planeta.
José Saramago representa toda a Nação? Não, porque esta é sempre um mito a menos que a vejamos tal como é: um conjunto mais ou menos conlituoso de classes sociais diferentes. Representa toda a Cultura portuguesa? também não, pois que na Cultura há elementos reaccionários que dificilmente teriam apreciado o nobelizado português. Saramago representa aqueles que o leram e amaram, com ele reflectiram e por causa dele encontraram um caminho de luta. Representa também aqueles que não o leram, por motivos que têm a ver com a ileteracia e o ausente gosto pela leitura, mas que o escritor neles falou nos seus livros, e até os pôs a falar como se lê no «Levantado do Chão» e na «Viagem do Elefante». Saramago veio do povo trabalhador e nunca dele e das suas origens se esqueceu. Saramago foi comunista. Eis tudo. Aqueles que não sabem o que significa a palavra, despida de preconceitos, podem aprendê-la na vida e obra de José Saramago. Alguns artistas, recentes e do passado, acham que os objectos artísticos não têm que possuir mensagem alguma. Se assim fosse não teríamos Camões, Eça, Flaubert, Roger Martin du Gard, Leão Tolstoi. Não teríamos seguramente Saramago, prémio Nobel da Literatura e um dos escritores mais lidos e comentados em todo o planeta.
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