“20.08.2010 – Noam Abraham Chomsky, intelectual estadunidense, pai da linguística e polêmico ativista por suas posturas contra o intervencionismo militar dos Estados Unidos, visitou a Colômbia para ser homenageado pelas comunidades indígenas do Departamento de Cauca. Falou com exclusividade para Luis Angel Murcia, do jornal Semana.com, em 21 de Julho de 2010.
O morro El Bosque, um pedaço de vida natural ameaçado pela riqueza aurífera que se esconde em suas entranhas, desde a semana passada tem uma importância de ordem internacional. Essa reserva, localizada no centro da cidade de Cauca, muito próxima ao Maciço colombiano, é o cordão umbilical que hoje mantêm aos indígenas da região conectados com um dos intelectuais e ativistas da esquerda democrática mais prestigiados do planeta.
Noam Abraham Chomsky. Quem o conhece assegura que é o ser humano vivo cujas obras, livros ou reflexões, são as mais lidas depois da Bíblia. Sem duvida, Chomsky, com 81 anos de idade, é uma autoridade em geopolítica e Direitos Humanos.
Sua condição de cidadão estadunidense lhe dá autoridade moral para ser considerado um dos mais recalcitrantes críticos da política expansionista e militar que os EUA aplica no hemisfério. No seu país e na Europa é ouvido e lido com muito respeito, já ganhou todos os prêmios e reconhecimentos como ativista político e suas obras, tanto em linguística como em análise política, foram premiadas.
Sua passagem discreta pela Colômbia não era para proferir as laureadas palestras, mas para receber uma homenagem especial da comunidade indígena que vive no Departamento de Cauca. O morro El Bosque foi rebatizado como Carolina, que é o mesmo nome de sua esposa, a mulher que durante quase toda sua vida o acompanhou. Ela faleceu em dezembro de 2008.
Em sua agenda, coordenada pela CUT e pela Defensoria do Povo do Vale, o Senhor Chomsky dedicou alguns minutos para responder exclusivamente a Semana.com e conversar sobre tudo.
Que significado tem para o senhor esta homenagem?
Estou muito emocionado; principalmente por ver que pessoas pobres que não possuem riquezas se prestem a fazer esse tipo de elogios, enquanto que pessoas mais ricas não dão atenção para esse tipo de coisa.
Seus três filhos sabem da homenagem?
Todos sabem disso e de El Bosque. Uma filha que trabalha na Colômbia contra as companhias internacionais de mineração também está sabendo.
Nesta etapa da sua vida o que o apaixona mais: a linguística ou seu ativismo político?
Tenho estado completamente esquizofrênico desde que eu era jovem e continuo assim. É por isso que temos dois hemisférios no cérebro.
Por conta desse ativismo teve problemas com alguns governos, um deles e o mais recente foi com Israel, que o impediu de entrar nas terras da palestina para dar uma palestra.
É verdade, não pude viajar, apesar de ter sido convidado por uma universidade palestina, mas me deparei com um bloqueio em toda a fronteira. Se a palestra fosse para Israel, teriam me deixado passar.
Essa censura tem a ver com um de seus livros intitulado ‘Guerra ou Paz no Oriente Médio?
É por causa dos meus 60 anos de trabalho pela paz entre Israel e a Palestina. Na verdade, eu vivi em Israel.
Como qualifica o que se passa no Oriente Médio?
Desde 1967, o território palestino foi ocupado e isso fez da Faixa de Gaza a maior prisão ao ar livre do mundo, onde a única coisa que resta a fazer é morrer.
Chegou a se iludir com as novas posturas do presidente Barack Obama?
Eu já tinha escrito que é muito semelhante a George Bush. Ele fez mais do que esperávamos em termos de expansionismo militar. A única coisa que mudou com Obama foi a retórica.
Quando Obama foi galardoado com o prêmio Nobel de Paz, o quê o senhor pensou?
Meia hora após a nomeação, a imprensa norueguesa me perguntou o que eu pensava do assunto e respondi: “Levando em conta o seu recorde, este não foi a pior nomeação”. O Nobel da Paz é uma piada.
Os EUA continuam a repetir seus erros de intervencionismo?
Eles tem tido muito êxito. Por exemplo, a Colômbia tem o pior histórico de violação dos Direitos Humanos desde o intervencionismo militar dos EUA.
Qual é a sua opinião sobre o conceito de guerra preventiva que os Estados Unidos apregoam?
Não existe esse conceito, é simplesmente uma forma de agressão. A guerra no Iraque foi tão agressiva e terrível que se assemelha ao que os nazistas fizeram. Se aplicarmos essa mesma regra, Bush, Blair e Aznar teriam de ser enforcados, mas a força é aplicada aos mais fracos.
O que acontecerá com o Irã?
Hoje existe uma grande força naval e aérea ameaçando o Irã e, somente a Europa e os EUA pensam que isso está certo. O resto do mundo acredita que o Irã tem o direito de enriquecer urânio. No Oriente Médio três países (Israel, Paquistão e Índia) desenvolveram armas nucleares com a ajuda dos EUA e não assinaram nenhum tratado.
O senhor acredita na guerra contra o terrorismo?
Os EUA são os maiores terroristas do mundo. Não consigo pensar em qualquer país que tenha feito mais mal do que eles. Para os EUA, terrorismo é o que você faz contra nós e não o que nós fazemos a você.
Há alguma guerra justa dos Estados Unidos?
A participação na Segunda Guerra Mundial foi legítima, entretanto eles entraram na guerra muito tarde.
Essa guerra por recursos naturais no Oriente Médio pode vir a se repetir na América Latina?
É diferente. O que os EUA tem feito na América Latina é, tradicionalmente, impor brutais ditaduras militares que não são contestados pelo poder da propaganda.
A América Latina é realmente importante para os Estados Unidos?
Nixon afirmou: “Se não podemos controlar a América Latina, como poderemos controlar o mundo”.
A Colômbia tem algum papel nessa geopolítica ianque?
Parte da Colômbia foi roubada por Theodore Roosevelt com o Canal do Panamá. A partir de 1990, este país tem sido o principal destinatário da ajuda militar estadunidense e, desde essa mesma data tem os maiores registros de violação dos Direitos Humanos no hemisfério. Antes o recorde pertencia a El Salvador que, curiosamente também recebia ajuda militar.
O senhor sugere que essas violações têm alguma relação com os Estados Unidos?
No mundo acadêmico, concluiu-se que existe uma correlação entre a ajuda militar dada pelos EUA e violência nos países que a recebem.
Qual é sua opinião sobre as bases militares gringas que há na Colômbia?
Não são nenhuma surpresa. Depois de El Salvador, é o único país da região disposto a permitir a sua instalação. Enquanto a Colômbia continuar fazendo o que os EUA pedir que faça, eles nunca vão derrubar o governo.
Está dizendo que os EUA derruba governos na América Latina?
Nesta década, eles apoiaram dois golpes. No fracassado golpe militar da Venezuela em 2002 e, em 2004, sequestraram o presidente eleito do Haiti e o enviaram para a África. Mas agora é mais difícil fazê-lo porque o mundo mudou. A Colômbia é o único país latinoamericano que apoiou o golpe em Honduras.
Tem algo a dizer sobre as tensões atuais entre Colômbia, Venezuela e Equador?
A Colômbia invadiu o Equador e não conheço nenhum país que tenha apoiado isso, salvo os EUA. E sobre as relações com a Venezuela, são muito complicadas, mas espero que melhorem.
A América Latina continua sendo uma região de caudilhos?
Tem sido uma tradição muito ruim, mas, nesse sentido, a América Latina progrediu e, pela primeira vez, o cone sul do continente está avançando rumo a uma integração para superar seus paradoxos, como, por exemplo, ser uma região muito rica, mas com uma grande pobreza.
O narcotráfico é um problema exclusivo da Colômbia?
É um problema dos Estados Unidos. Imagine que a Colômbia decida fumigar a Carolina do Norte e o Kentucky, onde se cultiva tabaco, o qual provoca mais mortes do que a cocaína.”
Fonte: Agência de Notícias Nova Colômbia. Original em http://www.semana.com/noticias-mundo/parte-colombia-robada-roosevelt/142043.aspx
Traduzido e publicado por IELA – Instituto de Estudos Latino-Americanos (http://www.iela.ufsc.br/)
Edição simultânea em http://www.oassaltoaoceu.blogspot.com/
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O homem da burra
Um homem foi condenado a pagar uma multa por conduzir uma burra embriagado. »O caso é muito grave», considerou a juíza, ameaçando-o com a cadeia se reincidir e aconselhando-o a vender a burra «por causa das tentações». O homem, um pobre agricultor semi-analfabeto pediu ao advogado oficioso que lhe redigisse e lesse no julgamento uma defesa com as suas próprias palavras. Resava assim a missiva:
«Doutora juíz, eu não sou culpado, é a situação do país que me levou aos copos, como mal sei ler disseram-me na tasca do Emílio que a agricultura vai boa mas é para os grandes agricultores que falam e até berram com o ministro e sacam-lhe montes de massa, que há muitos desempregados mas eu se não estou pouco falta com duas burras para sustentar, a dita e a minha patroa que me f...a môna, que o meu Portugal está a arder como o c...e ninguém nos acode só os bombeiros e é com carros mais escalavrados que a minha carroça, que a D. Rosalina foi assassinada por causa de uma bruta herança (quem ma dera a mim que fazia logo uma casinha e até comprava uma camioneta), que a Galp que faz o preço do gasóleo subir, tem 47 mil milhões de activos no Brasil (que eu não sei o que é isso de activos, mas o que sei é me farto de ser activo e não vejo a ponta d eum côrno), que os Bancos lucraram uma pipa de carcanhóis só este ano e o pessoal como eu anda com as algibeiras mais rôtas que as peúgas que a minha Ermelinda não arremedeia, p...que a p....; e disseram-me também, eu cá não percebo um c...de política, que o Sócrates e o Passos Coelho andam sempre a almoçar juntos e já os viram até na sauna (acho que é uma espécie de fogão para tirar as banhas), são tão diferentes um do outro como o são um chapéu branco e um chapéu preto, quero dizer sem bem me entendem que a diferença é só da cor, o Zé Povinho como eu e a minha patroa somos mais aldrabados que o cigano que nos aldrabou no ano passado com uma mala que nos vendeu cheia de jornáis velhos, f...da p...
Sem mais, desejo que me faça um julgamento justo, o melhor é deixá-lo arrastar como os do freeport ou que c...se chama, da casa pia, e muitos outros, que a justiça ou é igual para todos ou então que se f...Desculpe falar assim mas é o hábito de falar com burros»
«Doutora juíz, eu não sou culpado, é a situação do país que me levou aos copos, como mal sei ler disseram-me na tasca do Emílio que a agricultura vai boa mas é para os grandes agricultores que falam e até berram com o ministro e sacam-lhe montes de massa, que há muitos desempregados mas eu se não estou pouco falta com duas burras para sustentar, a dita e a minha patroa que me f...a môna, que o meu Portugal está a arder como o c...e ninguém nos acode só os bombeiros e é com carros mais escalavrados que a minha carroça, que a D. Rosalina foi assassinada por causa de uma bruta herança (quem ma dera a mim que fazia logo uma casinha e até comprava uma camioneta), que a Galp que faz o preço do gasóleo subir, tem 47 mil milhões de activos no Brasil (que eu não sei o que é isso de activos, mas o que sei é me farto de ser activo e não vejo a ponta d eum côrno), que os Bancos lucraram uma pipa de carcanhóis só este ano e o pessoal como eu anda com as algibeiras mais rôtas que as peúgas que a minha Ermelinda não arremedeia, p...que a p....; e disseram-me também, eu cá não percebo um c...de política, que o Sócrates e o Passos Coelho andam sempre a almoçar juntos e já os viram até na sauna (acho que é uma espécie de fogão para tirar as banhas), são tão diferentes um do outro como o são um chapéu branco e um chapéu preto, quero dizer sem bem me entendem que a diferença é só da cor, o Zé Povinho como eu e a minha patroa somos mais aldrabados que o cigano que nos aldrabou no ano passado com uma mala que nos vendeu cheia de jornáis velhos, f...da p...
Sem mais, desejo que me faça um julgamento justo, o melhor é deixá-lo arrastar como os do freeport ou que c...se chama, da casa pia, e muitos outros, que a justiça ou é igual para todos ou então que se f...Desculpe falar assim mas é o hábito de falar com burros»
Christina Rosseti (1830-1894)
LEMBRA-TE
(Remember)
Relembra-te de mim, quando eu entrar
No país do Além, na solidão;
Quando não possas dar-me a tua mão
Nem eu fingir que vou, querendo ficar.
Relembra-te de mim, quando já não
Possas nosso futuro arquitectar.
Lembra-me, só; para te aconselhar -
Tu compreendes - será tarde então.
Porém, se me esqueceres por um momento
e me lembrares depois, não te censures:
Se a noite e a corrupção deixar algures
Sombra do pensamento que me viste,
É bem melhor que rias desatento,
Do que me lembres muito e sejas triste.
(Remember)
Relembra-te de mim, quando eu entrar
No país do Além, na solidão;
Quando não possas dar-me a tua mão
Nem eu fingir que vou, querendo ficar.
Relembra-te de mim, quando já não
Possas nosso futuro arquitectar.
Lembra-me, só; para te aconselhar -
Tu compreendes - será tarde então.
Porém, se me esqueceres por um momento
e me lembrares depois, não te censures:
Se a noite e a corrupção deixar algures
Sombra do pensamento que me viste,
É bem melhor que rias desatento,
Do que me lembres muito e sejas triste.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
As utopias fracas
Parece mal falar de coisas sérias ou desagradáveis (as coisas sérias são quase sempre desagradáveis) em tempo de verão e férias. É assim que pensam bastantes. Pensam mal pois que o sério não colide necessariamente com a distracção; de resto, quando o sério é mal discutido é ele próprio mera distracção do que é realmente sério. No entanto, os assuntos sérios não exigem, ao contrário do que se diz, um semblante melancólico e misantropo. Podemos tratá-los com uma dose adequada de ironia, ou seja, de distanciamnto; a ironia converte uma aparência que se quer como verdade, em fantochada, máscara, embuste, distracção. A sociedade é um espectáculo permanente; visto de longe, é coisa estranha quando a realidade é impiedosa e cruel. Maais de 600 mil desempregados não se passeiam seguramente no Algarve que se mostra a abarrotar; 2 milhões de pobres não percorrem com certeza com os seus carros novos de alta cilindrada as autoestradas de norte a sul para assistir aos concertos musicais que transformam o país num alegre circo; bem mais de um milhão de assalariados precários não se instalam em hotéis e aldeamentos turísticos, evidentemente. Milhares de funcionários públicos com os seus salários congelados auferindo mil euros mensais com dois filhos para lhes custear as elevadas despesas do início do ano lectivo, mais os juros que sobem da hipoteca da casa, não estarão muito confortáveis nas praias do algarve, se é que lá estão. Certamente que o país sofre de uma apatia que não é somente sazonal, de uma despolitização que não é apenas solar e que não exclusivamente nas férias alegres que vota sempre nos dois partidos únicos. Essa cegueira é antiga e resistente. As classes médias ainda não desistiram, nem desistem facilmente, de exibir um estatuto que já perderam (há camadas intermédias que são ostensivamente arrogantes e ridiculamente egoístas). Os jovens, é claro, querem é curtir, com pouco ou muito dinheiro, depende da complacência laxista dos papás (ou da carteira deles), a estimulação exercida pelos media é fatal (se o medo faz acorrer multidões a Fátima, logo acorrerão em seguida às praias e espectáculos, neste vai-vém que faz um país parecer que anda mas não anda, parecer que sofre mas não sofre, parecer que lembra ma snão lembra, parecer que sabe mas não sabe coisa alguma. Os chefes políticos aproveitam. O Capital acumula tranquilamente. Nós pagamos a crise alegremente. Pelo menos parece, não é?
terça-feira, 17 de agosto de 2010
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Fala da princesa Branca
(Fragmento de «Die weisse Fürstin»)
Olha: a morte está na vida; ambas seguem
Tão entrançadas, como num tapete
os fios seguem; e daqui se forma
para nós, que passamos, uma imagem.
Quando se morre, nem só isto é morte.
Morte, é viver sem saber que se vive;
morte, é ainda não saber morrer.
Muitas coisas são morte; sem o enterro.
O morrer e o nascer andam connosco
e isto sentimos como a natureza,
que dura simplesmente, sem pesar
e sem partido. A dor ou a alegria
são cores para os estranhos que nos vêem.
Por isso nos importa mais que tudo
achar o espectador que ao contemplar-nos
bem fundo nos abrange em seu olhar
e apenas diz: vejo isto ou vejo aquilo,
onde outros adivinham só ou mentem.»
(Fragmento de «Die weisse Fürstin»)
Olha: a morte está na vida; ambas seguem
Tão entrançadas, como num tapete
os fios seguem; e daqui se forma
para nós, que passamos, uma imagem.
Quando se morre, nem só isto é morte.
Morte, é viver sem saber que se vive;
morte, é ainda não saber morrer.
Muitas coisas são morte; sem o enterro.
O morrer e o nascer andam connosco
e isto sentimos como a natureza,
que dura simplesmente, sem pesar
e sem partido. A dor ou a alegria
são cores para os estranhos que nos vêem.
Por isso nos importa mais que tudo
achar o espectador que ao contemplar-nos
bem fundo nos abrange em seu olhar
e apenas diz: vejo isto ou vejo aquilo,
onde outros adivinham só ou mentem.»
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