«Chumbar» sempre evocou a pouco meritória actividade da caça. Sintoma mal disfarçado de «eliminar» a presa, pobre vítima desarmada. Indício de autoridade e poder quase absoluto. No professor deixava constrangimentos, mas é de admitir que em alguns se manifestassem personalidades perversas. No aluno desenvolvia-se o temor e o tremor, o ressentimento ou a tentação de comportamentos desviantes como saída para o sentimento de exclusão.
A actual ministra da educação lançou o repto de acabar de vez com os «chumbos». É possível que tal desafio seja mais que um desabafo, que se insira numa teoria completamente «desviante» relativamente à ideologia que tem imperado desde há décadas e que corporizou a contra revolução no ensino, um dos objectivos da contra-revolução em todas as esferas da vida nacional. A contra-revolução provocou a crise em quase todas as áreas, desde a destruição da produção de bens materiais até à concomitante destruição dos bens imateriais. Assistiu-se ao esvaziamento da avaliação contínua substituída pelos exames. Chegou-se ao cúmulo de se avaliar os professores pelos resultados dos seus alunos nos exames. O insucesso escolar é desastroso. A destruição do ensino das humanidades revelou-se um drama, o domínio dos conhecimentos e metotodologias científicas, uma tragédia.
A questão de se continuar ou não com o processo das repetências destapa problemas de fundo que envolvem filosofias da educação e filosofias políticas. Todo o sistema de ensino está contaminado pela ideologia dos «méritos», da «distinção» ou dos «dons», isto é, por uma ideologia de classe. Ainda que as repetências terminassem, não era por isso que se encerraria o ciclo vicioso das exclusões sociais. Desde há muito tempo que se realizam (sobretudo nas décadas de sessenta e setenta) estudos no estrangeiro (muitos poucos em Portugal) que vêm demonstrando o papel da Escola como reprodutora das desigualdades sociais. O insucesso escolar é apenas um sintoma (ou resultado) da crise social que corrompe a sociedade. Discutir se sim ou não aos «chumbos» de pouco vale se não se proceder a avaliações da natureza de classe da Escola Pública (a privada já se sabe que sim), seu conteúdo, curricula, competências dos professores (obcecados e amestrados para os exames), sua autonomia para aplicarem metodologias diversas, programas flexíveis, administração democrática das escolas, horários dos docentes, etc, etc. Mas, sobretudo, se não se desviar a economia do rumo liberal que tem conduzido ao desastre: dois milhões de pobres e outros tantos que gastam mais do que recebem. A «massificação» do ensino não corresponde de modo nenhum à democratização do ensino.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Quem mais controla?
Há nas estéticas e filosofias pós-modernistas uma pulsão anti-controlo. Disciplina? É controlo (disciplina só para os recrutas, professores e juízes). Responsabilidade política e pública? É controlo (os ex-ministros só escrevem auto-biografias laudatórias e vendem-nas como pãezinhos quentes). Contribuições e impostos?É controlo (excepto se forem aplicados aos trabalhadores). Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito? É controlo (nem sequer tendencial). Escola pública obrigatória? Nem pensar, é controlo totalitário (melhor seria que a privada fosse obrigatória). Estado intervencionista? querem um Estado autoritário, é? TV pública? Igual a controlo das mentes porque mente a favor do governo. Nunca. É com as privadas que se oferece o pluralismo e a informação verdadeira (insuspeitas só as grandes estações privadas norte-americanas). Controlar os mercados? Alto lá! Os mercados é que devem controlar.
O neo-liberalismo inflitrou-se no pós-modernismo, driblou Faucault, engoliu Deleuze e a seguir vomitou-o.
A deixar-se comer assim o pós-modernismo acabará como ideologia filosófica do neo-liberalismo.
O neo-liberalismo inflitrou-se no pós-modernismo, driblou Faucault, engoliu Deleuze e a seguir vomitou-o.
A deixar-se comer assim o pós-modernismo acabará como ideologia filosófica do neo-liberalismo.
Lev TOLSTÓI
A 20 de novembro passarão 100 anos sobre o falecimento de Leão Tolstói. Quatro mil pessoas assistiram ao seu funeral na aldeia onde vivera, e mais seriam não fosse a proibição das autoridades. Escritor de uma fecundidade extraordinária, de uma simplicidade singular, criador portentoso de personagens únicas e inesquecíveis (Natacha Rostovo e Andrei Bolkonsk da «Guerra e Paz», Ana Karénina, Ivan Ilitch), narrador minucioso de batalhas como nenhum outro o fez («Guerra e Paz»), arguto observador das tortuosidades da alma humana e, ao mesmo tempo, das energias inesperadas de que ela é capaz, das esperanças e da força das crenças que movem montanhas, que suportam os mais duros sacrifícios. Com quase quarenta anos de idade casou-se com Sofia Behrs, de 17 anos, com quem teve mais de uma dúzia de filhos e uma atribulada relação de muitos anos até aos fim dos seus dias.
Apaixonei-me pela «Guerra e Paz» na juventude e permanece como o romance mais poderoso que jamais li.
Apaixonei-me pela «Guerra e Paz» na juventude e permanece como o romance mais poderoso que jamais li.
Moçambique
Acabo de ler uma crónica do escritor moçambicano Mia Couto sobre os recentes tumultos populares no Maputo. Compreende-os e eu também os compreendo porque vivi toda a minha adolescência em Lourenço Marques. È verdade que saí de lá muito antes da independência e, portanto, muito mais ainda antes da chamada «guerra civil», esse terrorismo sem capote que a África do Sul do apartheid apoiou, armou e financiou, esse horror que, durante dezasseis anos (dezasseis anos!) devastou a pouca economia que haviam erguido, chacinou (decapitou!) milhares de homens, mulheres e crianças, horror. Deixei lá muitos amigos, que aida hoje o são, muitos condiscípulos dos antigos Liceus de António Enes e Salazar, alguns dos quais, negros, se tornaram figuras destacadas da Frelimo e dos sucessivos governos, não os nomeio, tão responsáveis dirigentes políticos eles são. Convivi com eles, discutimos política, reconheci em alguns uma certa arrogância (que bem caro custou a todos nos primeiros anos da independência), mas também uma rígida honestidade de princípios e de valores, aquela crença e militância política que os mais integros anti-fascistas e anti-colonialistas professavam com rigor e disciplina e sacrifício.
Há poucos dias as massas populares (de que eles tanto falavam noutros tempos) ocuparam as ruas, que são suas, e protestaram contra o custo de vida, os preços, os salários, provavelmente a escassez dos bens para uns e a abundância para outros.
Meus caros ex-condiscípulos, camaradas ou ex-camaradas das mesmas causas: onde guardais os ideais da nossa juventude?
Há poucos dias as massas populares (de que eles tanto falavam noutros tempos) ocuparam as ruas, que são suas, e protestaram contra o custo de vida, os preços, os salários, provavelmente a escassez dos bens para uns e a abundância para outros.
Meus caros ex-condiscípulos, camaradas ou ex-camaradas das mesmas causas: onde guardais os ideais da nossa juventude?
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Pablo NERUDA
POEMA XX
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo:«A noite tem estrelas,
e,azuis, os astros tiritam na distância.»
O vento nocturno gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e, por vezes, ela também me quis.
Em noites como esta tive-a nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela quis-me e por vezes eu também lhe queria.
Como não ter amado seus grandes olhos firmes?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. E sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma qual no prado o rocio.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la!
A noite tem estrelas e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se conforma com havê-la perdido.
Como para aproximá-la, o meu olhar procura-a.
Meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Porém, nós já não somos os mesmos desses dias.
Já não lhe quero, é certo, mas quanto amor lhe tive!
Minha voz buscava o vento para tocar seus ouvidos.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não lhe quero, é certo, mas talvez ainda lhe queira.
É tão breve o amor, é tão longo o olvido.
Porque em noites como esta tive-a nos meus braços,
minha alma não se conforma com havê-la perdido.
Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
(Vinte poemas de amor e uma canção desesperada (1923-1924)
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo:«A noite tem estrelas,
e,azuis, os astros tiritam na distância.»
O vento nocturno gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e, por vezes, ela também me quis.
Em noites como esta tive-a nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela quis-me e por vezes eu também lhe queria.
Como não ter amado seus grandes olhos firmes?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. E sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma qual no prado o rocio.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la!
A noite tem estrelas e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se conforma com havê-la perdido.
Como para aproximá-la, o meu olhar procura-a.
Meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Porém, nós já não somos os mesmos desses dias.
Já não lhe quero, é certo, mas quanto amor lhe tive!
Minha voz buscava o vento para tocar seus ouvidos.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não lhe quero, é certo, mas talvez ainda lhe queira.
É tão breve o amor, é tão longo o olvido.
Porque em noites como esta tive-a nos meus braços,
minha alma não se conforma com havê-la perdido.
Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
(Vinte poemas de amor e uma canção desesperada (1923-1924)
Etiquetas:
Antologia de Pablo Neruda,
Ed. Inova,
Porto,
trad. de José Bento
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
UTOPIA?
Sonhei que
o país consumia o que produzia e produzia o que consumia;
que, no vasto oceano, navegava uma frota pesqueira e o peixe chegava fresco e barato às lotas;
que os operários acorriam às novas fábricas com justos salários e direitos garantidos;
que os centros de emprego estavam às moscas;
que os campos, cultivados, resplandeciam de frutos maduros, sem incêndios, sem latifúndios, sem fome;
que, nas escolas públicas, os estudantes aprendiam e os professores ensinavam com um sorriso.
que, nos centros de saúde, os idosos não morriam da espera.
Acordei com um silêncio inquietante nas ruas. As pessoas haviam acorrido às praias e aos centros comerciais. Na tv uns senhores de gravatas de seda prometiam para amanhã o que em trinta anos não haviam feito.
o país consumia o que produzia e produzia o que consumia;
que, no vasto oceano, navegava uma frota pesqueira e o peixe chegava fresco e barato às lotas;
que os operários acorriam às novas fábricas com justos salários e direitos garantidos;
que os centros de emprego estavam às moscas;
que os campos, cultivados, resplandeciam de frutos maduros, sem incêndios, sem latifúndios, sem fome;
que, nas escolas públicas, os estudantes aprendiam e os professores ensinavam com um sorriso.
que, nos centros de saúde, os idosos não morriam da espera.
Acordei com um silêncio inquietante nas ruas. As pessoas haviam acorrido às praias e aos centros comerciais. Na tv uns senhores de gravatas de seda prometiam para amanhã o que em trinta anos não haviam feito.
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