domingo, 20 de março de 2011
O imperialismo
Em vez de intervir contra Israel para obrigar o regime sionista a não atacar brutalmente os palestinianos, a "comunidade internacional" (leia-se: o imperialismo) ataca a Líbia, onde não há quaisquer provas de genocídio, antes uma guerra civil que compete aos líbios resolver. Porque interessa a Líbia?
quinta-feira, 17 de março de 2011
O Bahrein foi invadido!
Conselho Português para a Paz e Cooperação
e-mail : conselhopaz@netcabo.pt
Comunicado:
Fez um mês que se iniciou um movimento de rebelião civil pacífica no Bahrein, monarquia Árabe no Golfo Pérsico, contra o regime oligárquico vigente.
O rei Hamad e o seu governo não abriu diálogo com a oposição, tendo antes recorrido à repressão por via das forças de segurança, enquanto a oposição manteve durante semanas a fio o seu protesto e a exigência de mudanças políticas, por progresso social e democracia.
Terça-feira, o monarca declarou o estado de emergência. Aparentemente terá também sido conivente à abertura da fronteira à entrada de tropas da Arábia Saudita e dos Emiratos Árabes que, Quarta-feira, ocuparam militarmente a capital, Manama, tendo já causado um número ainda indeterminado de mortes.
A situação no Bahrein, que se sucede no quadro de inquietação social e revolta política que abala os países Árabes do Magreb e Médio Oriente, tomou assim uma feição particularmente grave, ao incluir a intervenção estrangeira directa e violenta. O desenvolvimento da situação é agora ainda mais imprevisível, e passível de se alargar a mais estados na região, e até à intromissão aberta de grandes potências estrangeiras. Recorde-se que o Bahrein alberga a maior base militar norte-americana no Golfo Pérsico.
O CPPC condena vivamente a invasão do Bahrein por forças militares estrangeiras, apela à ONU para a sua intervenção diplomática nesta acção de guerra contrária à lei internacional, e espera do governo português a tomada de posição firme no Conselho de Segurança, na defesa da integridade deste país e da soberania do seu povo.
e-mail : conselhopaz@netcabo.pt
Comunicado:
Fez um mês que se iniciou um movimento de rebelião civil pacífica no Bahrein, monarquia Árabe no Golfo Pérsico, contra o regime oligárquico vigente.
O rei Hamad e o seu governo não abriu diálogo com a oposição, tendo antes recorrido à repressão por via das forças de segurança, enquanto a oposição manteve durante semanas a fio o seu protesto e a exigência de mudanças políticas, por progresso social e democracia.
Terça-feira, o monarca declarou o estado de emergência. Aparentemente terá também sido conivente à abertura da fronteira à entrada de tropas da Arábia Saudita e dos Emiratos Árabes que, Quarta-feira, ocuparam militarmente a capital, Manama, tendo já causado um número ainda indeterminado de mortes.
A situação no Bahrein, que se sucede no quadro de inquietação social e revolta política que abala os países Árabes do Magreb e Médio Oriente, tomou assim uma feição particularmente grave, ao incluir a intervenção estrangeira directa e violenta. O desenvolvimento da situação é agora ainda mais imprevisível, e passível de se alargar a mais estados na região, e até à intromissão aberta de grandes potências estrangeiras. Recorde-se que o Bahrein alberga a maior base militar norte-americana no Golfo Pérsico.
O CPPC condena vivamente a invasão do Bahrein por forças militares estrangeiras, apela à ONU para a sua intervenção diplomática nesta acção de guerra contrária à lei internacional, e espera do governo português a tomada de posição firme no Conselho de Segurança, na defesa da integridade deste país e da soberania do seu povo.
Comentários avulsos sobre a situação política
1. O país caíu numa depressão que é já recessão económica. A responsabilidade cabe por inteiro aos governos das últimas décadas, PS e Direita coligada ou não, que enveredaram pelo neo-liberalismo, doutrina monetarista do «mercado livre» que erradicou o "Estado de Bem-Estar" de Keynes e o Estado Social europeu. Tal doutrina e tais políticas provocaram um quase colapso do Sistema, agravaram as contradições que se tornaram insanáveis no mesmo quadro (economistas de renome e insuspeitos declaram a morte do Sistema a continuar-se este rumo). Políticas monetaristas (exclusivamente de combate ao déficit), sem o fomento do crescimento, conduziram ao país a um desastre sem controlo possível nas próximas décadas se não cessarem.
2. O afundamento do nosso país (juntamente com outros países periféricos e dependentes) é, em parte, provocado pelas economias mais fortes (Alemanha, França) e, em outra parte, devido ao descontrolo inerente ao neo-liberalismo.
3. A eliminação do Estado Social e dos códigos de trabalho atiram a Europa para o século XIX. É a regressão civilizacional. O "liberalismo" com ou sem "neo".
4. O grande capital germânico ou outro está interessado na regressão pois que assim julga competir com as economias emergentes da China, Índia, Brasil, etc. As potências imperialistas ocidentais (com os E.U.A. à cabeça) temem as novas potências, ao mesmo tempo que as cobiçam. Os mais visionários pintam o nosso século como aquele em que os E.U.A. entrarão em choque violento com a China (uma nova "Guerra Fria"?).
5. A proposta apregoada pelo Prof Marcelo R. de Sousa - um Governo de "Salvação Nacional" constituído pelo PS, PSD e CDS- traria as mesmas políticas com a vantagem, julga ele, dos "mercados" (da União Europeia ou de Bruxelas) se tranquilizarem, ou seja: o grande capital e os especuladores acreditariam, enfim, no aprofundamento das reformas neo-liberais. A submissão dos trabalhadores à sobre-exploração e à centralização e acumulação do capital.
6. Quem manda no país são os grandes grupos económicos. Pressionam o governo e já se posicionam por detrás do programa do PSD (que o ex-ministro e homem de mão do grande capital, sr. Catroga, superintende).
7. A esquerda parlamentar (PCP; BE e Verdes) têm consecutivamente apresentado propostas exequíveis que solucionariam muitos dos graves problemas do endividamento e da estagnação. Só ignora quem não quer ouvir nem ler. Certamente que se elas se unissem seria bem melhor.
8. Sair ou não da U.E. não é uma questão imediata. Acusar-se a Esquerda de querer isolar o país imediatamente, é agitar-se um papão contra ela, impedir-se de se fazer ouvir. É uma táctica da "Guerra Fria". Do que se trata é disto: a zona Euro encontra-se descontrolada e em profunda crise (não há união alguma entre os países da U.E.); as políticas ditadas por Bruxelas não estão a resolver os problemas dos povos; é preciso re-negociar e reformar os termos em que assentou ultimamente a U.E., afastando-se ou mesmo violando os princípios que estiveram na sua origem. Os países do Sul precisam de se unir contra os interesses egoístas dos países mais poderosos (que têm enriquecido também à custa dos mais pobres, isto é, que os empobrecem).
9. Que há de utópico (neste caso: de impossível) nas palavras-de-ordem de "Mais e Melhor Estado Social", "Mais impostos para os especuladores e para os grandes grupos económicos que têm lucrado com a crise"? «Mais investimento na economia através do papel-motor do Estado»? «Mais justiça social, isto é, distribuição da riqueza mais equitativamente»? »Melhorar, e não afundar, o poder de compra dos portugueses, para salvar as pequenas e médias empresas, os empregos, a produção nacional»? «Investir na produção nacional: agricultura, pescas, indústria»? Etc, etc. Não cabem aqui todas as propostas avançadas pelas esquerdas parlamentares...Na realidade, muitas destas propostas são tão revolucionárias como os programas antigos das sociais-democracias e do economista Keynes...Serão de novo exequíveis quando os povos (porque razão alguns têm medo da palavra «povo»?) o quiserem. Para isso, os partidos políticos e outras forças sociais existem e têm de existir se desejarmos mais democracia. Porque, no funo, bem no fundo, do que se trata é de democracia - política e social -, mais e melhor. A democracia que a Direita não quer, como se pode provar facilmente. A soberania, dizem as doutrinas, reside no povo, não num capitalismo de bandidos.
2. O afundamento do nosso país (juntamente com outros países periféricos e dependentes) é, em parte, provocado pelas economias mais fortes (Alemanha, França) e, em outra parte, devido ao descontrolo inerente ao neo-liberalismo.
3. A eliminação do Estado Social e dos códigos de trabalho atiram a Europa para o século XIX. É a regressão civilizacional. O "liberalismo" com ou sem "neo".
4. O grande capital germânico ou outro está interessado na regressão pois que assim julga competir com as economias emergentes da China, Índia, Brasil, etc. As potências imperialistas ocidentais (com os E.U.A. à cabeça) temem as novas potências, ao mesmo tempo que as cobiçam. Os mais visionários pintam o nosso século como aquele em que os E.U.A. entrarão em choque violento com a China (uma nova "Guerra Fria"?).
5. A proposta apregoada pelo Prof Marcelo R. de Sousa - um Governo de "Salvação Nacional" constituído pelo PS, PSD e CDS- traria as mesmas políticas com a vantagem, julga ele, dos "mercados" (da União Europeia ou de Bruxelas) se tranquilizarem, ou seja: o grande capital e os especuladores acreditariam, enfim, no aprofundamento das reformas neo-liberais. A submissão dos trabalhadores à sobre-exploração e à centralização e acumulação do capital.
6. Quem manda no país são os grandes grupos económicos. Pressionam o governo e já se posicionam por detrás do programa do PSD (que o ex-ministro e homem de mão do grande capital, sr. Catroga, superintende).
7. A esquerda parlamentar (PCP; BE e Verdes) têm consecutivamente apresentado propostas exequíveis que solucionariam muitos dos graves problemas do endividamento e da estagnação. Só ignora quem não quer ouvir nem ler. Certamente que se elas se unissem seria bem melhor.
8. Sair ou não da U.E. não é uma questão imediata. Acusar-se a Esquerda de querer isolar o país imediatamente, é agitar-se um papão contra ela, impedir-se de se fazer ouvir. É uma táctica da "Guerra Fria". Do que se trata é disto: a zona Euro encontra-se descontrolada e em profunda crise (não há união alguma entre os países da U.E.); as políticas ditadas por Bruxelas não estão a resolver os problemas dos povos; é preciso re-negociar e reformar os termos em que assentou ultimamente a U.E., afastando-se ou mesmo violando os princípios que estiveram na sua origem. Os países do Sul precisam de se unir contra os interesses egoístas dos países mais poderosos (que têm enriquecido também à custa dos mais pobres, isto é, que os empobrecem).
9. Que há de utópico (neste caso: de impossível) nas palavras-de-ordem de "Mais e Melhor Estado Social", "Mais impostos para os especuladores e para os grandes grupos económicos que têm lucrado com a crise"? «Mais investimento na economia através do papel-motor do Estado»? «Mais justiça social, isto é, distribuição da riqueza mais equitativamente»? »Melhorar, e não afundar, o poder de compra dos portugueses, para salvar as pequenas e médias empresas, os empregos, a produção nacional»? «Investir na produção nacional: agricultura, pescas, indústria»? Etc, etc. Não cabem aqui todas as propostas avançadas pelas esquerdas parlamentares...Na realidade, muitas destas propostas são tão revolucionárias como os programas antigos das sociais-democracias e do economista Keynes...Serão de novo exequíveis quando os povos (porque razão alguns têm medo da palavra «povo»?) o quiserem. Para isso, os partidos políticos e outras forças sociais existem e têm de existir se desejarmos mais democracia. Porque, no funo, bem no fundo, do que se trata é de democracia - política e social -, mais e melhor. A democracia que a Direita não quer, como se pode provar facilmente. A soberania, dizem as doutrinas, reside no povo, não num capitalismo de bandidos.
terça-feira, 15 de março de 2011
A Líbia e as esquerdas europeias
por Jean Bricmont [*]
Doze anos depois, é a história do Kosovo que se repete. Centenas de milhares de mortos iraquianos, a NATO colocada numa posição insustentável no Afeganistão, e eles nada aprenderam! A guerra do Kosovo foi lançada para travar um genocídio inexistente, a guerra afegã para proteger as mulheres (vá verificar a sua situação actualmente) e a guerra do Iraque para proteger os curdos. Quando é que eles vão compreender que sempre se afirmou que as guerras são justificadas por razões humanitárias? Mesmo Hitler "protegia as minorias" na Checoslováquia e na Polónia.
Todos eles estão lá: os "Verdes" com José Bové, agora aliado a Daniel Cohn-Bendit, que sempre apoiou as guerras da NATO e, naturalmente, Bernard-Henry Levy e Bernard Kouchner, apelando a uma espécie de "intervenção humanitária" na Líbia, mas também, por vezes, os partidos da esquerda europeia (que reagrupa os partidos comunistas europeus "moderados"); diferentes grupos "radicais" censuram a esquerda da América Latina, cujas posições são bem mais sensatas, por agirem como idiotas úteis do tirano líbio. Um artigo recente da Liga Comunista Revolucionária (belga), falando do "fracasso do chavismo", é um bom exemplo desta atitude. Embora os trotsquistas nunca tenha conhecido a responsabilidade do poder e nunca tenham tido a obrigação de responder ao povo que pretendem representar, lançam-se em críticas virulentas a Chavez, que é regularmente eleito à frente de um grande país (e os trotsquistas não adoram a democracia?) sem procurar compreender porque a esquerda latino-americano vê, com razão, a ingerência americana como "o inimigo principal" e, sem dúvida porque ela está mal informada, não confia nos trotsquistas europeus para travar a NATO.
Doze anos depois, é a história do Kosovo que se repete. Centenas de milhares de mortos iraquianos, a NATO colocada numa posição insustentável no Afeganistão, e eles nada aprenderam! A guerra do Kosovo foi lançada para travar um genocídio inexistente, a guerra afegã para proteger as mulheres (vá verificar a sua situação actualmente) e a guerra do Iraque para proteger os curdos. Quando é que eles vão compreender que sempre se afirmou que as guerras são justificadas por razões humanitárias? Mesmo Hitler "protegia as minorias" na Checoslováquia e na Polónia.
E, como no Kosovo, opõem-se à intervenção com todas as más razões possíveis e imagináveis: por exemplo, que uma intervenção vai reforçar Kadafi – mas também se disse isso para Milosevic e Saddam e não foi exactamente o que se passou. O que é preciso "apoiar a insurreição" mas opor-se à intervenção, quando é evidente que um apoio puramente verbal não tem efeito. Ou ainda que os insurrectos não nos pedem para intervir; primeiro, isso parece não ser mais verdadeiro e, se eles perdem, certamente não nos pedirão para intervir. Mas devemos nós intervir em toda a parte do mundo se nos for pedido? Isso é feito com os palestinos?
Em contrapartida, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Robert Gates, declarou que "deve-se examinar a cabeça" de todo futuro secretário de Estado que aconselhasse o presidente americano a enviar tropas à Ásia ou à África. O almirante McMullen igualmente aconselhou prudência. O grande paradoxo da nossa época é que o QG do movimento da paz encontra-se no Pentágono e no Departamento de Estado ao passo que o partido pró guerra é constituído por uma coligação de neo-conservadores e de intervencionistas de toda espécie, compreendendo a esquerda da ingerência humanitária assim como certos Verdes ou comunistas arrependidos. A mesma combinação encontra-se igualmente no caso do Irão. São os militares que aconselham a prudência e os "humanitários" que lançam gritos de guerra em nome dos direitos do homem (ou da mulher).
Evidentemente, os Estados Unidos farão ou não a guerra por razões que são independentes das opiniões da esquerda pró guerra. Ao contrário do quer é muitas vezes afirmados, o petróleo não é o factor principal que afecta a sua decisão pois qualquer futuro governo líbio deverá vender petróleo e a Líbia não produz bastante para pesar significativamente na cotação do petróleo. Naturalmente, o caos na Líbia leva à especulação que por si mesma afecta os preços, mas isso é outro problema. Toda ideia de "guerra pelo petróleo" sofre de simplismo. No Iraque, por exemplo, as companhias chinesas podem investir tanto quanto as outras e a China compra petróleo um pouco por toda a parte do mundo aos preços do mercado, sem gastar um cêntimo em intervenções militares. Se os Estados Unidos fizeram a guerra para "controlar o petróleo" e enfraquecer a China, eles realmente saíram-se mal! E mais: todo o dinheiro que eles gastam com as suas guerras é, na prática, tomado emprestado à China, o que contribui ainda mais para o seu declínio. Estranha maneira de manter a sua hegemonia.
O argumento principal em favor da guerra, do ponto de vista dos Estados Unidos, é que, se tudo ocorrer rápida e facilmente, isso reabilitará a NATO e a ingerência humanitária, cuja imagem foi empanada pelo Iraque e pelo Afeganistão. Uma nova Granada ou um novo Kosovo é exactamente o que é preciso. Um outro motivo de intervenção é controlar melhor os rebeldes vindo "salvá-los" na sua marcha para a vitória. Mas isso tem pouca probabilidade de êxito: Karzai no Afeganistão, os nacionalistas kosovares, os xiitas do Iraque e naturalmente Israel ficam perfeitamente satisfeitos por beneficiar da ajuda americana quando têm necessidade mas, depois disso, prosseguem a sua própria agenda. E uma ocupação militar total da Líbia após a "libertação" é pouco realista, o que, certamente, do ponto de vista dos Estados Unidos torna a intervenção menos atraente.
Mas se as coisas correrem mal, isso provavelmente será o começo do fim do Império americano, daí a prudência das pessoas que o gerem e que não se contentam e escrever artigos no Le Monde ou vituperar ditadores diante das câmaras.
É difícil para cidadãos comuns saber exactamente o que se passa na Líbia, pois os media ocidentais desacreditaram-se completamente no Iraque, no Afeganistão, no Líbano e na Palestina e as fontes de informação alternativas nem sempre são críveis. Isso não impede naturalmente a esquerda pró guerra de estar absolutamente convencida da verdade das piores informações sobre Kadafi, tal como há doze anos a propósito de Milosevic.
O papel negativo da Corte Penal Internacional é manifesto, como o foi o do Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia no caso do Kosovo. Uma das razões porque houve relativamente pouco sangue derramado na Tunísia e no Egipto é que havia uma porta de saída possível para Ben Ali e Mubarak. Mas a "justiça internacional" quer tornar impossível uma tal saída para Kadafi e provavelmente para as próximas dele, pressionando-as assim a combater até o fim.
Se "um outro mundo é possível", como proclama sem cessar a esquerda europeia, então um outro Ocidente também deveria ser possível e a esquerda europeia deveria começar a construí-lo. O encontro recente da Aliança Bolivariana poderia servir de exemplo: a esquerda da América Latina quer a paz e quer impedir a intervenção dos Estados Unidos pois sabe que está na sua linha de mira e que o seu processo de transformação social exige primeiro e antes de mais nada a paz e a soberania nacional. Portanto, ela sugeriu enviar uma delegação internacional dirigida eventualmente por Jimmy Carter ou Lula (que não se pode acusar de serem marionetes de Kadafi) para começar um processo de negociação entre o governo e os rebeldes. A Espanha diz-se interessada nesta ideia, que naturalmente é rejeitada por Sarkozy. Esta proposta pode parecer utópica, mas se a ONU nela pusesse todo o seu peso, talvez não fosse o caso. E seria um modo para a ONU de cumprir sua missão, o que actualmente é tornado impossível pela influência dos Estados Unidos e do Ocidente. Contudo, não é impensável que agora, ou aquando de uma próxima crise, uma coligação de países não intervencionistas, por exemplo, a Rússia, a China ou a América Latina e talvez outros possam trabalhar em conjunto para construir alternativas críveis ao intervencionismo ocidental.
Ao contrário da esquerda da América Latina, a esquerda europeia perdeu completamente o sentido do que quer dizer fazer política. Ela não tenta propor soluções concretas para os problemas e só é capaz de adoptar posições morais, em particular denunciar de modo grandiloquente os ditadores e as violações dos direitos do homem. A esquerda social-democrata segue a direita com alguns anos de atraso e não tem nenhuma ideia independente. A esquerda "radical" consegue muitas vezes denunciar ao mesmo tempo os governos ocidentais de todas as maneiras possíveis e pedir que estes mesmos governos intervenham militarmente por toda a parte do mundo para defender a democracia. Um dos argumentos mais ridículos avançados por esta esquerda é que Kadafi colaborou com os europeus para limitar a imigração africana e que, em consequência, há que "denunciá-lo" (um dos desportos favoritos da esquerda radical é "denunciar" todos aqueles que não lhe agradam, manobra puramente verbal e destituída de efeitos positivos). Mas são evidentemente estas viciosas potências europeias, ou americanas, que vão intervir na Líbia, não a esquerda radical que não tem qualquer força militar à sua disposição. E se, em vez de denunciar Kadafi, esta esquerda se fixasse a tarefa (um pouco mais árdua, é verdade) de convencer as opiniões públicas europeias da necessidade de abrir as suas fronteiras a alguns milhões de africanos?
A esquerda radical não tem qualquer programa coerente e não saberia o que fazer mesmo se um deus a pusesse no poder. Em vez de "apoiar" Chavez e a Revolução Venezuelana, uma afirmação despida de sentido que alguns se satisfazem em repetir, deveria humildemente seguir a sua escola e, acima de tudo, reaprender o que quer dizer fazer política.
[*] Professor de física na Bélgica e membro do Tribunal de Bruxelas. O seu livro "Humanitarian Imperialism" foi publicado pela Monthly Review Press, a versão francesa "Impérialisme Humanitaire" pelas edições Aden.
O original encontra-se em www.legrandsoir.info/...
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
Doze anos depois, é a história do Kosovo que se repete. Centenas de milhares de mortos iraquianos, a NATO colocada numa posição insustentável no Afeganistão, e eles nada aprenderam! A guerra do Kosovo foi lançada para travar um genocídio inexistente, a guerra afegã para proteger as mulheres (vá verificar a sua situação actualmente) e a guerra do Iraque para proteger os curdos. Quando é que eles vão compreender que sempre se afirmou que as guerras são justificadas por razões humanitárias? Mesmo Hitler "protegia as minorias" na Checoslováquia e na Polónia.
Todos eles estão lá: os "Verdes" com José Bové, agora aliado a Daniel Cohn-Bendit, que sempre apoiou as guerras da NATO e, naturalmente, Bernard-Henry Levy e Bernard Kouchner, apelando a uma espécie de "intervenção humanitária" na Líbia, mas também, por vezes, os partidos da esquerda europeia (que reagrupa os partidos comunistas europeus "moderados"); diferentes grupos "radicais" censuram a esquerda da América Latina, cujas posições são bem mais sensatas, por agirem como idiotas úteis do tirano líbio. Um artigo recente da Liga Comunista Revolucionária (belga), falando do "fracasso do chavismo", é um bom exemplo desta atitude. Embora os trotsquistas nunca tenha conhecido a responsabilidade do poder e nunca tenham tido a obrigação de responder ao povo que pretendem representar, lançam-se em críticas virulentas a Chavez, que é regularmente eleito à frente de um grande país (e os trotsquistas não adoram a democracia?) sem procurar compreender porque a esquerda latino-americano vê, com razão, a ingerência americana como "o inimigo principal" e, sem dúvida porque ela está mal informada, não confia nos trotsquistas europeus para travar a NATO.
Doze anos depois, é a história do Kosovo que se repete. Centenas de milhares de mortos iraquianos, a NATO colocada numa posição insustentável no Afeganistão, e eles nada aprenderam! A guerra do Kosovo foi lançada para travar um genocídio inexistente, a guerra afegã para proteger as mulheres (vá verificar a sua situação actualmente) e a guerra do Iraque para proteger os curdos. Quando é que eles vão compreender que sempre se afirmou que as guerras são justificadas por razões humanitárias? Mesmo Hitler "protegia as minorias" na Checoslováquia e na Polónia.
E, como no Kosovo, opõem-se à intervenção com todas as más razões possíveis e imagináveis: por exemplo, que uma intervenção vai reforçar Kadafi – mas também se disse isso para Milosevic e Saddam e não foi exactamente o que se passou. O que é preciso "apoiar a insurreição" mas opor-se à intervenção, quando é evidente que um apoio puramente verbal não tem efeito. Ou ainda que os insurrectos não nos pedem para intervir; primeiro, isso parece não ser mais verdadeiro e, se eles perdem, certamente não nos pedirão para intervir. Mas devemos nós intervir em toda a parte do mundo se nos for pedido? Isso é feito com os palestinos?
Em contrapartida, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Robert Gates, declarou que "deve-se examinar a cabeça" de todo futuro secretário de Estado que aconselhasse o presidente americano a enviar tropas à Ásia ou à África. O almirante McMullen igualmente aconselhou prudência. O grande paradoxo da nossa época é que o QG do movimento da paz encontra-se no Pentágono e no Departamento de Estado ao passo que o partido pró guerra é constituído por uma coligação de neo-conservadores e de intervencionistas de toda espécie, compreendendo a esquerda da ingerência humanitária assim como certos Verdes ou comunistas arrependidos. A mesma combinação encontra-se igualmente no caso do Irão. São os militares que aconselham a prudência e os "humanitários" que lançam gritos de guerra em nome dos direitos do homem (ou da mulher).
Evidentemente, os Estados Unidos farão ou não a guerra por razões que são independentes das opiniões da esquerda pró guerra. Ao contrário do quer é muitas vezes afirmados, o petróleo não é o factor principal que afecta a sua decisão pois qualquer futuro governo líbio deverá vender petróleo e a Líbia não produz bastante para pesar significativamente na cotação do petróleo. Naturalmente, o caos na Líbia leva à especulação que por si mesma afecta os preços, mas isso é outro problema. Toda ideia de "guerra pelo petróleo" sofre de simplismo. No Iraque, por exemplo, as companhias chinesas podem investir tanto quanto as outras e a China compra petróleo um pouco por toda a parte do mundo aos preços do mercado, sem gastar um cêntimo em intervenções militares. Se os Estados Unidos fizeram a guerra para "controlar o petróleo" e enfraquecer a China, eles realmente saíram-se mal! E mais: todo o dinheiro que eles gastam com as suas guerras é, na prática, tomado emprestado à China, o que contribui ainda mais para o seu declínio. Estranha maneira de manter a sua hegemonia.
O argumento principal em favor da guerra, do ponto de vista dos Estados Unidos, é que, se tudo ocorrer rápida e facilmente, isso reabilitará a NATO e a ingerência humanitária, cuja imagem foi empanada pelo Iraque e pelo Afeganistão. Uma nova Granada ou um novo Kosovo é exactamente o que é preciso. Um outro motivo de intervenção é controlar melhor os rebeldes vindo "salvá-los" na sua marcha para a vitória. Mas isso tem pouca probabilidade de êxito: Karzai no Afeganistão, os nacionalistas kosovares, os xiitas do Iraque e naturalmente Israel ficam perfeitamente satisfeitos por beneficiar da ajuda americana quando têm necessidade mas, depois disso, prosseguem a sua própria agenda. E uma ocupação militar total da Líbia após a "libertação" é pouco realista, o que, certamente, do ponto de vista dos Estados Unidos torna a intervenção menos atraente.
Mas se as coisas correrem mal, isso provavelmente será o começo do fim do Império americano, daí a prudência das pessoas que o gerem e que não se contentam e escrever artigos no Le Monde ou vituperar ditadores diante das câmaras.
É difícil para cidadãos comuns saber exactamente o que se passa na Líbia, pois os media ocidentais desacreditaram-se completamente no Iraque, no Afeganistão, no Líbano e na Palestina e as fontes de informação alternativas nem sempre são críveis. Isso não impede naturalmente a esquerda pró guerra de estar absolutamente convencida da verdade das piores informações sobre Kadafi, tal como há doze anos a propósito de Milosevic.
O papel negativo da Corte Penal Internacional é manifesto, como o foi o do Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia no caso do Kosovo. Uma das razões porque houve relativamente pouco sangue derramado na Tunísia e no Egipto é que havia uma porta de saída possível para Ben Ali e Mubarak. Mas a "justiça internacional" quer tornar impossível uma tal saída para Kadafi e provavelmente para as próximas dele, pressionando-as assim a combater até o fim.
Se "um outro mundo é possível", como proclama sem cessar a esquerda europeia, então um outro Ocidente também deveria ser possível e a esquerda europeia deveria começar a construí-lo. O encontro recente da Aliança Bolivariana poderia servir de exemplo: a esquerda da América Latina quer a paz e quer impedir a intervenção dos Estados Unidos pois sabe que está na sua linha de mira e que o seu processo de transformação social exige primeiro e antes de mais nada a paz e a soberania nacional. Portanto, ela sugeriu enviar uma delegação internacional dirigida eventualmente por Jimmy Carter ou Lula (que não se pode acusar de serem marionetes de Kadafi) para começar um processo de negociação entre o governo e os rebeldes. A Espanha diz-se interessada nesta ideia, que naturalmente é rejeitada por Sarkozy. Esta proposta pode parecer utópica, mas se a ONU nela pusesse todo o seu peso, talvez não fosse o caso. E seria um modo para a ONU de cumprir sua missão, o que actualmente é tornado impossível pela influência dos Estados Unidos e do Ocidente. Contudo, não é impensável que agora, ou aquando de uma próxima crise, uma coligação de países não intervencionistas, por exemplo, a Rússia, a China ou a América Latina e talvez outros possam trabalhar em conjunto para construir alternativas críveis ao intervencionismo ocidental.
Ao contrário da esquerda da América Latina, a esquerda europeia perdeu completamente o sentido do que quer dizer fazer política. Ela não tenta propor soluções concretas para os problemas e só é capaz de adoptar posições morais, em particular denunciar de modo grandiloquente os ditadores e as violações dos direitos do homem. A esquerda social-democrata segue a direita com alguns anos de atraso e não tem nenhuma ideia independente. A esquerda "radical" consegue muitas vezes denunciar ao mesmo tempo os governos ocidentais de todas as maneiras possíveis e pedir que estes mesmos governos intervenham militarmente por toda a parte do mundo para defender a democracia. Um dos argumentos mais ridículos avançados por esta esquerda é que Kadafi colaborou com os europeus para limitar a imigração africana e que, em consequência, há que "denunciá-lo" (um dos desportos favoritos da esquerda radical é "denunciar" todos aqueles que não lhe agradam, manobra puramente verbal e destituída de efeitos positivos). Mas são evidentemente estas viciosas potências europeias, ou americanas, que vão intervir na Líbia, não a esquerda radical que não tem qualquer força militar à sua disposição. E se, em vez de denunciar Kadafi, esta esquerda se fixasse a tarefa (um pouco mais árdua, é verdade) de convencer as opiniões públicas europeias da necessidade de abrir as suas fronteiras a alguns milhões de africanos?
A esquerda radical não tem qualquer programa coerente e não saberia o que fazer mesmo se um deus a pusesse no poder. Em vez de "apoiar" Chavez e a Revolução Venezuelana, uma afirmação despida de sentido que alguns se satisfazem em repetir, deveria humildemente seguir a sua escola e, acima de tudo, reaprender o que quer dizer fazer política.
[*] Professor de física na Bélgica e membro do Tribunal de Bruxelas. O seu livro "Humanitarian Imperialism" foi publicado pela Monthly Review Press, a versão francesa "Impérialisme Humanitaire" pelas edições Aden.
O original encontra-se em www.legrandsoir.info/...
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
segunda-feira, 14 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
Este ano comemora-se o nascimento do escritor neo-realista Manuel da Fonseca
Manuel da Fonseca
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Manuel Lopes Fonseca, mais conhecido como Manuel da Fonseca (Santiago do Cacém, 15 de Outubro de 1911 — Lisboa, 11 de Março de 1993) foi um escritor (poeta, contista, romancista e cronista) português.
Após ter terminado o ensino básico, Manuel da Fonseca prosseguiu os seus estudos em Lisboa. Estudou no Colégio Vasco da Gama, Liceu Camões, Escola Lusitânia e Escola de Belas-Artes. Apesar de não ter sobressaído na área das Belas-Artes, deixou alguns registos do seu traço sobretudo nos retratos que fazia de alguns dos seus companheiros de tertúlias lisboetas como é o caso do de José Cardoso Pires. Durante os períodos de interregno escolar, aproveitava para regressar ao seu Alentejo de origem. Daí que o espaço de eleição dos seus primeiros textos seja o Alentejo. Só mais tarde e a partir de Um Anjo no Trapézio é que o espaço das suas obras passa a ser a cidade de Lisboa.
Membro do Partido Comunista Português (PCP), Manuel da Fonseca fez parte do grupo do Novo Cancioneiro e é considerado por muitos como um dos melhores escritores do neo-realismo português. Nas suas obras, carregadas de intervenção social e política, relata como poucos a vida dura do Alentejo e dos alentejanos.
A sua vida profissional foi muito díspar tendo exercido nos mais diferentes sectores: comércio, indústria, revistas, agências publicitárias, entre outras.
Era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores quando esta atribuiu o Grande Prémio da Novelística a José Luandino Vieira pela sua obra Luuanda, o que levou ao encerramento desta instituição.
Em sua homenagem, a escola secundária de Santiago do Cacém, chama-se "Escola Secundária Manuel da Fonseca".
[editar] Jornais e revistas onde colaborouAfinidades
Árvore
Vértice
Altitude
O Diabo
O Diário
O Pensamento
Sol Nascente
Seara Nova
[editar] Obras[editar] PoesiaRosa dos ventos – 1940 - Edição do autor
Planície – 1941
Poemas dispersos – 1958
Poemas completos – 1958
Obra poética
O Largo
[editar] ContosO Retrato - 1953
Aldeia Nova – 1942
O Fogo e as cinzas – 1953 - Edição Três Abelhas
Um anjo no trapézio – 1968
Tempo de solidão – 1973
Tempo de solidão - Edição especial dos Estúdios Cor (edição limitada e oferecida pela editora no Natal de 1973).
quinta-feira, 10 de março de 2011
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