sábado, 14 de maio de 2011

Manuel António Pina - Prémio Camões


O Medo

Ninguém me roubará algumas coisas,


nem acerca de elas saberei transigir;

um pequeno morto morre eternamente

em qualquer sítio de tudo isto.



É a sua morte que eu vivo eternamente

quem quer que eu seja e ele seja.

As minhas palavras voltam eternamente a essa morte

como, imóvel, ao coração de um fruto.



Serei capaz

de não ter medo de nada,

nem de algumas palavras juntas?



Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A Grécia pensa sair do euro?

A verdadeira agenda por trás da notícia da Der Spiegel de que a Grécia pensa sair do euro


por Yanis Varoufakis [*]

A notícia da revista Spiegel de que "Atenas considera retirar-se da eurozona" não é exactamente falsa – apenas económica com a verdade.

Sim, poucas semanas ou meses atrás o governo grego encomendou (como devia) vários estudos secretos das repercussões de vários cenários envolvendo diferentes formas de reestruturação da dívida, incluindo um cenário desesperado com a hipótese de uma improvável saída da eurozona. A questão real é: por que a Der Spiegel optou por isolar este cenário e centrar-se sobre ele muito embora os seus jornalistas soubessem muito bem que a Grécia nunca proporá uma saída real do euro?

É minha opinião meditada que a Der Spiegel, após consulta prévia com certos círculos dentro do governo alemão (em particular o Ministério das Finanças), estava a tentar enviar uma mensagem – não à chanceler alemã como também ao primeiro-ministro grego. Qual é esta mensagem? Que há coisas muito piores do que uma reestruturação da dívida, sendo a pior um desmantelamento passo-a-passo do euro que principiará quando um país como a Grécia é forçado a uma situação impossível. E que continuar a viver em negação, e espalhar mentiras flagrantes acerca da sustentabilidade do rumo actual, não será mais tolerado.



Negação



Vamos começar com a citação do dia da versão Internet da Der Spiegel:

«Os problemas económicos da Grécia são maciços, com protestos contra o governo efectuados quase diariamente. Agora o primeiro-ministro George Papandreu aparentemente sente que não tem outra opção: SPIEGEL ONLINE obteve informação de fontes do governo alemão conhecedoras da situação em Atenas indicando que o governo Papandreu está a considerar o abandono do euro e a reintrodução da sua própria divisa.
Alarmada pelas intenções de Atenas, a Comissão Europeia convocou uma reunião de crise no Luxemburgo na sexta-feira à noite. A reunião está a ter lugar no Château de Senningen, um local utilizado pelo governo do Luxemburgo para reuniões oficiais. Além da possível saída da Grécia da união monetária, uma reestruturação rápida da dívida do país também faz parte da agenda.»


Que o governo grego esteja a considera uma saída heróica da eurozona é falso: se bem que a saída é um dos muitos cenários que estudou, ele nunca foi um dos que contemplasse seguir. Contudo, o governo grego pode negar a notícia da Spiegel até o dia de são nunca mas ninguém o acreditará. É o preço que se pagar por não ter prestado atenção à moral da [fábula] O rapaz que gritava lobo. Pior ainda, ao acusar, bastante implausivelmente, a Der Spiegel de passar manteiga no pão dos especuladores, o grego está a sacrificar, em vão, os últimos restos de credibilidade que tem. Triste, muito triste. Pois toda a gente sabe que a Der Spiegel tem peixes muito maiores para fritar do que prestar-se aos jogos dos especuladores. Na verdade, a Der Spiegel faz parte da rede institucional da autoridade e poder político da Alemanha. Assim, porque haveria uma tal instituição de ser económica com a verdade desta maneira e neste momento?

A mensagem

O artigo da Spiegel foi pretendido como um disparo que disparasse campainhas de alarme muito retardadas. Tencionava criar uma pequena tempestade de pânico como meio de recordar à sra. Merkel que a crise até agora é semelhante a um chá da tarde em comparação com o que se seguirá se ela continuar a viver em mentiras.
Quem enviou esta mensagem? A Der Spiegel nunca actuaria por si mesma, sem coordenação com poderosos círculos políticos alemães. Minhas fontes contam-me que estes círculos estão localizados principalmente dentro do Ministério das Finanças e, em menor medida, em um ou dois dos maiores bancos da Alemanha. Em associação com a Der Spiegel eles têm estado a enviar mensagens enfadonhas com linhas semelhantes desde há algum tempo, nomeadamente que a dívida grega não é sustentável sob a presente composição política (ver relato do FT Alphaville daquela série de mensagens enviadas utilizando a Der Spiegel como seu principal transmissor).
Tendo perdido a paciência, uma vez que os seus sinais foram amplamente ignorados, pessoas do Ministério das Finanças alemão decidiram recorrer às armas grandes do sinal de ontem. Eles tomaram uma verdade parcial (de que o primeiro-ministro grego examinou os custos potenciais de uma saída grega do euro), ampliaram-na ao omitir a menção a todos os outros cenários que foram considerados e, pronto, foi desencadeada uma pequena tempestade sobre a liderança da Europa. Todo o que fizeram então foi observar o pânico efectuar o seu milagre. Qual milagre? Concentrar as mentes da sra. Merkel, do sr. Papandreu e de ministros variados na importância de viver, pelo menos dessa vez, com verdade.

Mais precisamente, a mensagem enviada pelo artigo incendiário da Der Spiegel era que a política de novos empréstimos caros a estados insolventes, combinada com austeridade selvagem num tempo de recessão profunda, não funciona e não funcionará. Que chegou o tempo da reestruturação da dívida para periferia sob tensão da eurozona, assim como o tempo para uma resolução racional da crise bancária da Europa. Para conduzir ao seu argumento, os círculos dentro da Alemanha que perceberam que a Spiegel publicou este artigo vivamente esclarecedor, em benefício da sra. Merkel e do sr. Papandreu, perceberam também que há algo muito, muito pior do que uma reestruturação da dívida: o começo de uma eliminação sucessiva de países da eurozona que provocará níveis impressionantes de especulação nos mercados monetários quanto ao que vem a seguir e quando.

Ao causar um moderado pânico prematuro nesta linha, eles enviaram a mensagem rematada de que o tempo das mentiras está ultrapassado, de que mais liquidez para estados insolventes e bancos em bancarrota tornarão as coisas piores, de que é tempo de ter na Europa o debate que devíamos ter tido há mais de um ano atrás.

A ideia central

Um ano atrás a Grécia estava falida e foi induzida a um programa estilo FMI cujo rigor foi agravado pela condição do país como membro de uma união monetária que efectivamente excluía, por definição, a desvalorização (e todos os efeitos estabilizadores automáticos decorrentes). As múltiplas crises que se verificaram dentro do sector estatal, da economia real e do sector bancário foram "obstruídas" com o lançamento de mais empréstimos caros dentro destes sectores insolventes. O artigo da Spiegel marca um ponto de viragem: Alguns poderosos decisores políticos alemães parecem não mais estarem dispostos a continuar nesse beco sem saída. Sem dúvida escolheram um meio estranho de declarar a sua decisão. Contudo, apesar da maneira covarde como tornaram pública a sua nova convicção, um novo capítulo está a começar para a Europa. Ele não será necessariamente bem escrito ou nos fará felizes ao lê-lo. Mas pelo menos abre a perspectiva de uma fuga a uma mentira sombria que proporcionou miséria em massa e que é a garantia de submergir a ideia de uma Europa Unida num mar de discórdia, xenofobia e rancor generalizado.

[*] Professor de Teoria Económica e Director do Departamento de Política Económica da Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Atenas. Seus livros incluem: The Global Minotaur: The True Origins of the Financial Crisis and the Future of the World Economy (Zed Books, 2011); (com S. Hargreaves-Heap) Game Theory: A Critical Text (Routledge, 2004); Foundations of Economics: A Beginner's Companion (Routledge, 1998); e Rational Conflict (Blackwell Publishers, 1991).

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/2011/varoufakis070511.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 7 de maio de 2011

Matrix

Sobre as "ideias dominantes"

Alguns exemplos:
1. O tema do Amor é tão insistentemente cantado pelos artistas do espectáculo que exercem uma influência que não é de subestimar na exigência que os indivíduos exercem sobre o conteúdo das relações inter-subjectivas, ajudando a compreender as experiências antes do casamento, cada vez mais precoces e menos censuráveis. Os próprios casamentos (compromissos) tendem a apoiar-se nessa expectativa. Realizando-se sobre essa base tão fluida e volátil, os casamentos desmoronam-se com mais facilidade, tanto mais que as separações e divórcios são admitidos pela sociedade. Um facto está na proporção directa do outro. Noutros tempos passados o Amor era uma invenção dos poetas e trovadores, na realidade a censura era dura e os casamentos faziam-se por trocas e contratos. O marqueting apropriou-se dessas expectativas e contribui para aumentá-las.
2. O tema dos "direitos humanos" compõe uma das estratégias principais das propagandas políticas. No entanto, exprime uma formidável conquista civlizacional. Sendo que a sua origem se encontra já no Iluminismo e na Revolução Francesa, a sua disseminação é uma forte característica do pós-guerra e, sobretudo, dos anos sessenta até hoje. Foi utilizada como arma de "guerra" na "Guerra Fria", contudo é um instrumento actualmente poderosamente eficaz na propaganda dos regimes capitalistas, grosso modo pelo imperialismo (refiro-me em particular ao Império, isto é, aos EUA), contra regimes que deseja abater, começando por desacreditá-los, justificando a seguir o ataque em forma. A Opinião Pública é sensível a esse tema, portanto uma "ideia dominante" converte-se numa estratégia das classes sociais dominantes.

Matrix VIP

«Pois é, o capitalismo democrático dá-nos a ilusão de que temos poder, mas não temos, somos mais manipulados do que alguma vez o fomos. Os media não são o 5º Poder mas o 1º Poder. É através deles que pensamos, agimos, reagimos e actuamos... Se não temos um qualquer suporte (filosófico, cultural, religioso, espiritual) ficamos completamente vulneráveis à mercê daquilo que nos oferecem...»
(Enviado por e-mail, sem autor)

Pois é. Intelectuais de direita e esquerda têm declarado sistematicamente ao longo dos tempos a morte das "ideologias", ou porque assim o desejam ou porque julgam constatar um "facto". Ora, os "factos" são sempre construções nossas, ainda que possam conter uma certa dose de objectividade. O mais acertado é suspeitar que quanto mais o dizem mais o facto é criado, instilado. Suspeito, portanto, que muitos dos indivíduos, jovens ou menos jovens, que ora  nisso acreditam, foram influenciados pelo que vão lendo (a própria escolha do que se lê é já suspeita). Quer designemos a mentalidade dominante de "ideologia" (conjunto de percepções sociais) ou com outro nome qualquer, ela existe; existe uma "cognição social" colectiva e não exclusivamente individual, composta de "opiniões" mais ou menos esquemáticas e estereotipadas, nas quais assumem especial relevância as "ideias dominantes". Quais as fontes emissoras destas mensagens? Os meios de comunicação em primeiro lugar, as escolas, as famílias, os eventos culturais e recreativos. Trata-se, portanto, de compreender quem se apropria dos meios de comunicação, que interesses satisfazem essas "ideias dominantes" e porque se tornam elas dominantes. Esse é trabalho da Filosofia, mas também (ou devia ser) da Sociologia, Psicologia Social, etc. Não é coutada exlusiva dos académicos, os cidadãos podem alcançar a mesma compreensão distanciada e objectiva através da interpretação da Informação (ruidosa), suspeitando e aplicando critérios racionais.
Daí que para contradizer (ou denunciar) as mentiras e meias-verdades dominantes, é indispensável criar outras fontes de informação alternativas, uma espécie de contra-poder. No "capitalismo democrático" existe espaço para tal ( o capitalismo utiliza em seu proveito os regimes democráticos, por isso tem que admitir a oposição). Nestes espaços germina a mudança. Leve o tempo que levar.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

GONZALO ROJAS MORREU!

Poeta chileno, um dos melhores da actualidade.

El poeta maldice a su cadáver









Fuiste la libertad de salvarte o perderte.


Viste el mundo sin ver lo que era el mundo.


¿Por qué fué deformada en tus pupilas


la luz fundamental? ¿Perdiste la razón


antes de resolverse la raíz de tu origen?



Maldita sea tu naturaleza


que sopló por tu boca la hermosura


de la imaginación. Maldita sea


la belleza que hablaba por tu boca.


Maldito el yacimiento de todas tus palabras.



¿Por qué estás disfrazado bajo el vidrio,


como un libro sellado para siempre,


letra inútil, fatídica escritura?


¿Por qué tras de tus ojos ya no está el fuego eterno,


máscara del gusano?




Esta es tu boca. -¿Dónde están tus besos?


Esta es tu lengua. -¿Dónde tu palabra?


Estas, tus piernas. -¿Dónde están tus pasos?


Este tu pelo. -¿Dónde tu lujuria?


Este, tu cuerpo. ¿Dónde tu persona?


Estas, tus manos. -¿Dónde está tu fuerza?


Todo esto fuiste tú. -¿Dónde estás tú?


Dime: ¿dónde hubo un hombre?



Ya no puedes llorar como los árboles


cuando el viento trastorna sus sentidos.


Ya no eres animal, ni adivino del mundo.


Te estás secando poco a poco. Estás


quemando tus acciones, hasta ser


polvo del torbellino.

Programa de Agressão sem precedentes ao povo e ao país

Quarta 4 de Maio de 2011

Desmentindo a operação montada por PS, PSD e CDS, as medidas previstas são a maior agressão aos direitos do povo e aos interesses do país desde os tempos do fascismo. Trata-se de um programa ilegítimo de intervenção externa, construído para favorecer os grupos económicos e financeiros nacionais e estrangeiros, que aprofunda e desenvolve tudo o que foi rejeitado no PEC IV. Um ataque sem precedentes à soberania e independência, só possível pelo papel de abdicação dos interesses nacionais que PS, PSD e CDS estão a assumir.

Uma intervenção que, a concretizar-se, contribuiria para o agravamento da recessão económica, do desemprego e da pobreza – decorrente da quebra no investimento público, da redução dos salários e das pensões, do ataque às pequenas empresas – bem como para o agravamento da dependência externa. Uma intervenção e uma ingerência que o povo português não pode aceitar e que agravaria, a ser aplicada, todos os problemas nacionais, incluindo as condições para o pagamento da dívida externa.

Eis uma síntese de algumas das muitas medidas previstas.

Agravamento da exploração

- Facilitação e embaratecimento dos despedimentos, reduzindo a indemnização paga pelo patronato de 30 para 10 dias (por ano de trabalho) e alargando as possibilidades de despedimento por “justa causa”;

- Redução da duração máxima do subsídio de desemprego para um máximo de 18 meses e limitação do seu montante a 2,5 IAS, com redução sistemática do seu valor após seis meses;

- Flexibilização do horário de trabalho por via do “banco de horas”, redução do valor pago pelas horas extraordinárias;

- Ataque à contratação colectiva e ao papel dos sindicatos na negociação

Ataque aos rendimentos de trabalhadores e reformados

- Congelamento do salário mínimo nacional e desvalorização geral dos salários por via da alteração da legislação de trabalho e do subsídio de desemprego;

- Diminuição real de todas as pensões e reformas durante três anos, incluindo as pensões mínimas, e corte das de valor superior a 1500 euros;

- Aumento do IVA, designadamente nas taxas de bens e serviços essenciais, e de outros impostos indirectos;

- Aumento do IRS por via da redução/eliminação de deduções ficais (saúde, educação, habitação), incluindo o agravamento da tributação das reformas e pensões e introdução do pagamento de imposto sobre rendimentos de apoios sociais;

- Eliminação das isenções de IMI nos primeiros anos após a compra da casa, a par do aumento dos valores matriciais de referência e das taxas aplicadas;

- Aumento dos preços de energia eléctrica e do gás, por via da sua liberalização e do agravamento do IVA;

- Aumento do valor das rendas e facilitação dos despejos;

- Continuação dos cortes nas prestações sociais;

- Agravamento significativo das taxas moderadoras, diminuição das comparticipações dos medicamentos;

Ataque aos trabalhadores e às funções do Estado

- Cortes significativos na saúde, educação, justiça, administração local e regional;

- Encerramento e concentração de serviços (hospitais, centros de saúde, escolas, tribunais, finanças e outros serviços da administração central e regional);

- Congelamento durante três anos dos salários dos trabalhadores da administração pública; redução de dezenas de milhares de postos de trabalho na administração pública;

- Eliminação de freguesias e municípios em número significativo, afastando vastas zonas do território e largas camadas da população de serviços essenciais;

Privatizações

- Privatizações – aceleração da entrega de empresas e participações estratégicas ao capital privado;

- Já em 2011 privatização da participação do Estado na EDP, da REN e da TAP;

- Alienação dos direitos especiais do Estado (“golden shares”) em empresas estratégicas como a PT;

- Privatização da Caixa Geral de Depósitos no seu ramo segurador (mais de 30% da actividade financeira do grupo), bem como de outros sectores de actividade, designadamente no estrangeiro;

- Extensão do processo de privatizações às empresas municipais e regionais;

- Ofensiva contra o sector público de transportes de passageiros e mercadorias, designadamente com a privatização da ANA, CP Carga, Linhas ferroviárias suburbanas, gestão portuária, etc.;

- Venda generalizada de património público;

- Transferência para o sector privado, por via do encerramento e degradação de serviços públicos, de vastas áreas de intervenção até aqui asseguradas pelo Estado;

Mais apoios à banca e grupos económicos

- Banca e grupos económicos isentos de qualquer medida de penalização;

- Transferências de 12 mil milhões de euros para a banca, acrescida de garantias estatais no valor de 35 mil milhões de euros;

- Consumação da assunção pelo Estado dos prejuízos da gestão fraudulenta do BPN, através da sua privatização até Julho de 2011, sem preço mínimo e liberta de qualquer ónus para o comprador;

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Entrevista ao filósofo marxista Jean Salem

Entrevista com Jean Salem




Em direcção a que amanhãs?

Nicolas Dutent

04.Mai.11 :: Outros autoresNesta importante entrevista, Jean Salem faz uma reflexão de largo horizonte sobre as dificuldades e também as potencialidades do tempo presente, sobre a herança política, ideológica e filosófica que transporta. “Desesperado e determinado”, nas suas próprias palavras, Jean Salem é um dos indispensáveis no combate pela saída dos “anos de chumbo” que vêm pesando, em tantos lugares, sobre o movimento comunista.







Jean Salem é um filósofo francês, nascido a 16 de Novembro de 1952, professor de filosofia na Universidade de Paris 1 Panthéon Sorbonne e director do Centro de História dos Sistemas de Pensamento Moderno desde 1998. É filho do jornalista Henri Alleg.


http://www.marxau21.fr/


© Olivier Roller

Um comunista, em meu entender, parece-se um pouco com Diógenes que, tendo-lhe alguém perguntado: « Porque entras sempre no teatro pela porta das traseiras? » respondeu: « porque todos entram pelo outro lado».

Jean Salem, enquanto filósofo e observador crítico da sua época, parece-lhe ainda possível inflectir o curso da mundialização?

Todos estão de acordo num mesmo diagnóstico: em falar duma época de crise. E mesmo duma crise de civilização. A situação geral não se afigura nada entusiasmante, de facto. Um dos cenários mais plausíveis para o futuro próximo reside num ataque que o Império (que entendo como sendo a administração americana) poderia empreender contra o Irão e - porque não? - contra a China. Ao contrário do que se passou na época da crise de 1929, os povos não têm sequer uma esperança para a qual dirigir o olhar. Aquela época era a do primeiro impulso da União Soviética e de um movimento comunista mundial. E quando a catástrofe aconteceu, foi em Estalinegrado, cidade um tanto esquecida a meu ver, que a sorte das armas mudou de rumo. No bom sentido. Ao contrário, não se alude sequer hoje em dia, nos manuais de economia destinados aos jovens estudantes franceses, à possibilidade duma economia planificada. E no entanto, é difícil negar que outra economia que não a economia capitalista existiu efectivamente, com os seus insucessos e os seus êxitos, durante perto de 70 anos. É, aliás, toda a história do movimento operário, e não só a do «socialismo real», que fizeram provisoriamente passar ao rol do esquecimento. Este estado de coisas poderia incitar a um pessimismo absoluto, se resistências crescentemente massivas não vierem a eclodir por todo o mundo. O que falta cruelmente a estas resistências, são, nomeadamente na velha Europa, organizações sólidas, resolutas, comunistas, que não pensassem que pudéssemos ter vergonha do passado! A propósito, posso afirmar que inevitavelmente, em virtude da lei dita dos vasos comunicantes, se imporá uma revisão de todas as asneiras que foram ditas sobre o socialismo real. Constato por outro lado, com alegria, que os jovens - a quem o presente sistema não oferece mais que a precariedade, o desemprego e a guerra generalizada - não passam o tempo (ao contrário do que fazem ainda grande número de sexagenários) a dar literalmente tiros no pé: dito doutra forma, não confessam arrependimento, na volta de cada frase e antes de marcarem cada palavra com um dedo no ar, a respeito dos comprovados crimes de Estaline e do suposto horror do passado soviético no seu conjunto. De facto a «esquerda», em grande parte, virou à direita. Nos países ocidentais, o sistema mediático contribuiu para formatar duradouramente os cérebros, para aniquilar toda a faculdade de análise por pouco autónoma ou por pouco rebelde que seja, no que resta do cidadão. Tentei mostrar isso no meu ensaio intitulado Rideau de fer sur le Boul’Mich, que as edições Delga reeditaram recentemente. Em França, um destes numerosos países onde a abstenção progride cada dia que passa nas cabeças como nas urnas, jornalistas a soldo e sabichões debatem até ao infinito o tema das quotas de popularidade totalmente forjadas deste ou daquele manequim pretensamente «socialista». E puderam divertir o planeta inteiro, durante cerca de dois anos (2007-2008), a propósito da magna questão que consistia em saber se seria um homem de raça negra (Obama) ou antes uma mulher de raça branca (Hillary Clinton) que tomaria o lugar do sinistro Bush para assinar as ordens dos bombardeamentos aéreos visando afegãos, paquistaneses e agora os habitantes do Iémen (1) . Depois disto, alguns, mesmo nas nossas fileiras, falam amavelmente de «democracia», como se esta palavra pudesse designar exactamente as mesmas coisas para os que rejeitam o capitalismo e para os seus melhores promotores. Então, veja, estou simultaneamente desesperado e determinado. Desesperado pela falta cruel de perspectiva para as nossas lutas, e determinado porque confortado por mil sucessos mais ou menos locais. Assim, acolher centenas de pessoas na Sorbonne no quadro dum seminário dedicado a Marx, prova pelo menos que saímos dos anos de chumbo. A uma escala muito mais vasta, podemos constatar que 3 dos 12 milhões de habitantes que conta um país como Portugal se mobilizaram em 24 de Novembro passado, a fim de participar numa greve de protesto contra uma política que entende fazer pagar às populações as especulações a que se dedicam banqueiros, negociantes e outra gente bem. Podemos regozijar-nos, enfim, com o renascer das lutas – aqui em França, mas também na Grécia, na Espanha, em Itália, mesmo na Grã-Bretanha, etc. Eis o que é encorajador.

Vimos, precisamente com a crise financeira que atingiu duramente e sem dúvida duradouramente o nosso país, uma retoma do interesse por Marx a fim de pensar os problemas colocados na modernidade. Que sentido dá a esta reviravolta ?



Na Feira do Livro de Francfort, no ano passado, falou-se muito do grande sucesso de livraria dum certo… Karl Marx. Em França, deve ter notado que as Edições Gallimard reeditaram O Capital, na tradução de M. Rubel. Enorme sucesso de livraria, igualmente! Neste mundo em que a « cultura » é completamente dominada pela vulgaridade estúpida que as grandes cadeias de televisão destilam ou por passatempos frequentemente pouco « sociais », creio ser evidente que uma concepção geral do mundo, descrevendo o capitalismo tal como era no século XIX, um capitalismo cujos efeitos lembram cada vez mais furiosamente aquilo em que nossa sociedade se tornou, - creio que tal concepção é inevitavelmente interesante, atractiva, estimulante. A revolução não nascerá certamente apenas do estudo dos livros nem dum fórum de discussão. Mas a atração pela teoria poderá preceder de muito perto a necessidade de uma organização séria, estruturada, em que cada um não dirá o que lhe venha à cabeça diante da primeira cámara de TV que apareça, mas onde todos adoptariam como consigna o dar forma, dar seguimento, dar vida, às decisões e às palavras de ordem previamente decididas. Em resumo, o ABC, quereria dizer que a verdadeira «esquerda» precisa de se dotar muito rápidamente duma disciplina ao menos comparável à que pode reinar no mais débil dos partidos de direita ! – Muitos são os que consideram hoje em dia que não existe ainda um apoio à altura da sua cólera, da sua determinação, da sua vontade de ruptura - pacificamente, se puderem; pela força, se tiver de ser, como diziam os cartistas ingleses, no século XIX. Um tal apoio não parece verdadeiramente existir, nem nas direcções sindicais nem, na actual nebulosa que designam (com uma constância cada vez menos credível) a « esquerda» francesa.

Se então nos perguntarmos: para onde vai o marxismo? Seria tentado a dizer que o seu futuro filosófico está assegurado?

Direi mesmo que quando lia o Manifesto do Partido Comunista, aos 15 anos, me colocava algumas questões que hoje já não se põem! De tal maneira este livrinho é actual! Hoje em dia têm a ousadia, como sabe, de falar nos «trinta gloriosos», como sendo uma evidência, quando estes trinta anos de inegável expansão económica não foram, evidentemente, «gloriosos» (do ponto de vista económico) para todos! Nem para o planeta globalmente considerado, nem para os mais pobres no próprio seio das metrópoles do capitalismo. Acresce ainda que a ideia duma concorrência entre operários, por exemplo, num país de quase pleno emprego, dotado de sindicatos poderosos, como era a França dos anos 1970, me parecia bastante obscura. Agora, em período de desemprego e de recessão, todos sabem bem de que falavam os autores do Manifesto ao usarem esta expressão: ela significa que em tempo de crise, se tu não estás contente, dez outros poderão ocupar o teu lugar! Outro exemplo: a ideia que uma pauperização absoluta da classe operária fosse possível durante um longo período fazia rir os menos maldosos na época do automóvel para todos e do electrodoméstico para tudo. Mas actualmente, o amanhã parece vir a ser bem mais duro para os filhos do que foram os « trinta gloriosos » para os pais. E a ideia catastrofista do jovem Marx e do jovem Engels, segundo a qual a nossa sociedade tende para a constituição de dois polos, com um punhado de milionários num e, no polo oposto, inumeráveis legiões de pobres, já não pode fazer encolher os ombros a ninguém.

Concorda então com a frase de J. Derrida “será sempre um erro não ler e reler e discutir Marx. […] Não haverá futuro sem isso. Não sem Marx, não haverá futuro sem Marx.” ?

Certamente. Eu, como outros, escrevi a Derrida dizendo-lhe o quanto fiquei sensibilizado pelo facto de ele ter publicado um livro intitulado Espectros de Marx. Mandei-lhe a minha própria edição dos Manuscritos de 1844, assinando: « Um amigo dos espectros ». Devo dizer que naquela altura (1993) uma «extrema esquerda» perfeitamente desvairada uivava com os lobos e regozijava-se sem o menor disfarce com a destruição duma União Soviética correntemente apresentada como uma segunda Alemanha nazi. Por isso, não estava nada na moda pretender evocar a sombra desse grande morto. Bem poucos, na Universidade francesa, num contexto que Eric Hobsbawm caracterizou como sendo o de «anti-marxismo raivoso», teriam então ousado declarar-se amigos dum tal espectro.

O PCF festeja este fim-de-semana os seus 90 anos de existência. Que retém da acção e do papel do Partido Comunista Francês na história do nosso país no século XX?

Retenho duas coisas. Primeiro, já não temos um ar totalmente marciano, e atrai-se mesmo certa simpatia, se dissermos que é de lá que vimos, que nem sempre «comemos o nosso chapéu», e que não vendemos o nosso compromisso de juventude por um prato de lentilhas social-democratas (veja Bernard-Henri Lévy e outros marquesitos) ou por uma ligação à ideologia «neo-con» (veja Kouchner e os seus émulos). Segundo: uma história gloriosa. Quer se reescreva ou não a história, que a maquilhem ou que a falsifiquem, que se afadiguem a dar relevo a este ou àquele possível erro ou que se critique certa decisão contestável, é certo que o único Partido que, enquanto partido, se opôs com a constância dum metrónomo à injustiça, aos negocistas, aos gangsters da Finança e aos vendedores de armas, ao nazismo, ao racismo, às guerras coloniais e aos compromissos com o sistema, foi, pelo menos até 1975, o Partido Comunista Francês.

Em quê, exactamente, para si e para alguns dos seus camaradas, filosofar pode ser entendido como um acto de resistência?


Podemos filosofar ao serviço dos poderosos ou dos bem-pensantes. A coisa pode também ser praticada nos limbos, e pretendermos não nos movimentarmos senão num universo irreal e desencarnado. Em suma, existe uma certa filosofia espiritualista que pode não incomodar ninguém. Mas se quiser que eu seja «federador» e confraternal a toda a força, reconhecerei portanto isto de boa vontade: no nosso tempo é, sem dúvida, uma maneira de resistir, mesmo tímida, e de se opor à barbárie que vai chegando, ter a preocupação da cultura e pensar que a cultura vale por si mesma, de ser uma certeza que se falará ainda de Aristóteles e de Demócrito daqui a milhares de anos, enquanto os nomes de Sarkozy e de Berlusconi já nada dirão a ninguém. Porque o simples facto de colocar as mãos sobre os quadris e de dizer o que me dizia o reitor da Universidade de… Moscovo, em 2005 - «não podemos de forma alguma construir um país apenas com estudantes em Direito e estudantes em business ! » -, é suficiente para assinalar que as pessoas entendem opor-se ao desastre cultural que ameaça. Os homens, de resto, não poderiam suportar indefinidamente que tudo: a vida, a saúde, o humor, as artes, a beleza, até o amor e o conhecimento… que tudo isso venha depois das sacro-santas « leis » do mercado, dos golpes de bolsa, da publicidade e do marketing !

Entrevista realizada por Nicolas Dutent para a Revue du Projet

(1) Esta entrevista data de Janeiro deste ano, antes do início da agressão à Líbia, a mais recente agressão imperialista a um Estado soberano (NT).

in www. O Diário. info.

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA