quarta-feira, 29 de junho de 2011

Escassez de recursos e crise imperialista- Rui Namorado Rosa

Imperialismo e Crise

A crise do capitalismo é também a subordinação à dinâmica do capital financeiro e a incapacidade de entender a natureza e as limitações impostas pelos factores naturais na produção económica. O choque do preço do petróleo, demais combustíveis fósseis e matérias-primas e alimentos com forte incorporação de energia, em 2008, e a subsequente quebra de produção e queda de preços, conduziu o sistema capitalista a adiar investimentos em novos projectos em vista de serem progressivamente mais dispendiosos, demorados e com período de retorno mais longo (Michel Mallet, 2009; Ed Crooks, 2009). Esta opção em subordinar a racionalidade económica ao paradigma financeiro, terá como consequência o agravamento das actuais circunstâncias económico-sociais e a indução de renovados estrangulamentos e choques, quando forem tentadas retomas futuras.

O lado geoestratégico do aprovisionamento de energia está enfatizado pela concentração (presentemente cerca de 2/3), que se vais acentuando, das reservas remanescentes quer de petróleo quer de gás numa “vasta” mas “estreita” faixa entre o Médio Oriente e a Sibéria Ocidental. Bem como pela concentração do controlo da produção e exportação num pequeno número de grandes monopólios estatais (NOC), sem prejuízo de parcerias com grandes companhias internacionais (IOC), o que confere ao “negócio dos hidrocarbonetos” uma importância e uma aproximação à dimensão de “negócios estrangeiros” dos respectivos países. A Agência Internacional de Energia admite que uma grande reestruturação prossegue na indústria de prospecção, extracção e comercialização internacional de hidrocarbonetos (“upstream”), com as NOC a desempenharem um papel de ainda maior destaque no futuro, em particular assegurando 80% da produção adicional futura (essencialmente a substituição da produção em declínio).

A produção de matérias-primas – minerais e orgânicas – por força do crescimento do seu volume e da degradação da qualidade da base de recursos tradicional e dispersa em que tem sido produzida, deslocaliza-se e concentra-se agora em algumas poucas áreas produtoras e dá suporte a “economias emergentes”.

Os solos e a água doce necessários às actividades agrícolas degradam-se e escasseiam, e aquisições ou investimentos em África e na América Latina procuram assegurar a expansão ou a mera renovação de recursos insuficientes, degradados ou exauridos.

A grande indústria mineira disputa recursos além fronteiras enquanto alguns países impõem medidas proteccionistas, à medida que reservas e teores declinam, minas encerram e stocks se esgotam. Uma dúzia de países detém o grosso da produção de dezenas de metais e outras substâncias escassas não substituíveis.

Pelo contrário, as economias industrializadas tradicionais vêem-se constrangidas pela relativa indisponibilidade de energia e de variadas matérias-primas essenciais às designadas “altas tecnologias” ou de importância “estratégica” através das quais afirmam a sua força política e militar e competem no comércio no plano internacional.

A grande crise financeira que se desenvolveu e eclodiu em 2008 enquadra-se ou converge com manifestações de crise de aprovisionamento de bens que estão nos alicerces da actividade económica e que como tal são essenciais à estabilidade e opulência das sociedades “desenvolvidas”, como são à sobrevivência de sociedades “sub-desenvolvidas”: energia (combustíveis líquidos em particular), água para irrigação e abastecimento, solos férteis e produtivos, fertilizantes, bens alimentares bastantes, e bens de consumo massivo (desde os supérfluos aos indispensáveis).

Esta crise, recessão económica prolongada com profundo impacto social potencialmente conducente a uma depressão global, é coincidente com una vaga de concentração de capital e acentuada sobreprodução. Porém, pela primeira vez, a sobreprodução coincide com a escassez não superável de um largo leque de produtos minerais insubstituíveis. Esta circunstância nova sugere que a saída desta crise capitalista não passará por soluções já experimentadas no passado ou antecipáveis, nem conduzirá a um período de expansão e ao retorno a um mundo já conhecido, como aconteceu em fenómenos anteriores.

Isto também significa que a “superação” da crise financeira não resolve os constrangimentos materiais em que o sistema económico se encontra, e que uma nova ordem de organização da produção e da sua repartição deverá ser instituída.

A evolução para um mundo policêntrico, dos pontos de vista económico e político, abre caminho à ascensão da competição inter-capitalista, e pode suscitar reacções de conflito e até agressão, se não directa entre os principais protagonistas, então interpostas, ou ainda pela cativação de áreas de influencia ou mesmo dominação militar. Os sinais de “guerra cambial” e de “guerra comercial” que se vêm registando ao longo de 2010 são sintomas preocupantes.

Em contraponto à difusão do progresso técnico, à ascensão económica e a ganhos sociais em várias partes do mundo, o imperialismo procura manter a velha ordem. Para o que carece de criar inimigos e de suscitar divisões para justificar a imposição forçada ou até a subjugação militar. Neste sentido, alianças político militares, designadamente a NATO, são uma ameaça à segurança dos povos e à paz no mundo. E tal como destroem, também distraem da atenção e esforço urgentemente necessários para a resolução dos problemas que afligem a humanidade.

in ODiario.info

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ah, a Família!

A Família é a grande preocupação deste Governo de Direita. A retórica de Direita sempre fez da Família uma trave-mestra. E sempre as oposições, ou a Esquerda, a classificou de pura hipocrisia. Vem a propósito do Programa de Governo, hoje conhecido, no qual ele -o Governo- se exige a si próprio monitorizar ou avaliar os "impactos sobre as famílias" de todas as medidas de austeridade (ou as "reformas" como eles gostam de apelidar). Iremos assistir diariamente a entrevistas, sondagens, referendos, filmes, documentários, sobre o impacto da semi-privatização do Serviço Nacional de Saúde, por exemplo, da reducção do subsídio de desemprego, de natalidade, por exemplo, e outros exemplos. Vamos?
As famílias irão ficar mais pobres, mas, pelo menos, ficarão a saber que estão mais pobres.

Memórias

Sempre achei que a memória era a minha ferramenta principal. Lamentavelmente nunca possui uma excelente memória para nomes (alguns é para datas, eu para nomes), nomes de pessoas, nomes de lugares: vejo as caras, não descortino os nomes. É claro que agora, com a idade, o caso vai piorando.
Contudo, lembro-me ainda bem que o Dr. Mário Soares, que agora defende a Grécia dos ataques especulativos, o Estado Social e outras "socializações", foi o mesmo que pediu auxílio à CIA para conspirar contra a Revolução de Abril, iniciou a seguir o ataque a todas as transformações revolucionárias (afinal, já inscritas na Constituição que ele aprovara) e chamou o FMI. Recordo bem igualmente que o Dr. Barreto, que preside a umas comemorações patrióticas e trata Portugal por "tu", foi o mesmo que exterminou a Reforma Agrária, da qual retenho a mais viva e saudosa memória.
É assim a memória: selectiva. Espero estar vivo daqui a uns anitos para quando ler ou ouvir o engenheiro Sócrates, que um panegírico apelidava de "menino de oiro", declarar o seu amor pelo "Estado Social", recordar que em seis anos se dedicou a destrui-lo.
Enquanto tiver memória, conheço.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Aterremos pois!

O novo ministro da Economia, que afeiçoa um rito histriónico que pretende exprimir alegria permanente, o que é assaz difícil numa situação em que reina a insanidade, declarou numa entrevista que o seu desejo (supõe-se que o seu maior desejo) é ver Porrtugal convertido numa Florida. Entro na sua mente e vejo as praias enxameadas de windsurf e outros surfs, jaguares nos passeios (refiro-me aos automóveis dessa e outras marcas similares, baratíssimos de resto), campos de golf a perder de vista nos vales, teleféricos nas serranias, resorts, habitações rurais de luxo, condomínios absolutamente privados e discretos com seguranças nos portões, e velhos, muitos velhos, todos estrangeiros, todos ricos ou semi-ricos, de calções e havaianas, fumando charutos nas esplanadas e petiscando umas petingas por curiosidade. E nós, o povo, el pueblo, desunido e vencido, abanando leques (ou abanicos) sobre suas reais cabeças.
Andou por aqui um economista e sua empresa especializada em profecias a aconselhar algo parecido para o Oeste. O ministro aconselha para o país todo.
O nosso futuro é servir às mesas, ó marinheiros audazes que Camões cantou!

domingo, 26 de junho de 2011

Memória

Há uma coisa que faz falta ao comum dos indivíduos: a memória histórica. A ausência de conhecimentos da história e a avalanche ruidosa de informações espartilhadas, descentextualizadas, somadas à desarumação da mente, impossibilita a análise racional dos factos (sejam eles construídos, sejam eles objectivos). Os factos são "coisas", ensinava Durkheim, externos, coercivos, relativos. Olhados, podem nem sequer verem-se. Necessitam de articulações, análises e sínteses como ensinava o racionalismo pioneiro de Descartes. As informações e notícias são produtos simplificados, os factos são complexos (relações de causa-efeito, relações dialécticas, associações e continuidades). A História ensinada é fragmentária, partes a que falta o todo. Ora, a totalidade é uma categoria fundamental do pensamento.
Nestas ausências desvelamos as debilidades do pensar comum e contemporâneo que, assim, aceita o que lhe dão sem pestanejar.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Donde vimos, onde estamos?

Opinião de Manuel Carvalho da Silva (Coordenador da CGTP) in Jornal de Notícias


Donde vimos, onde estamos?


2011-06-11


Bento de Jesus Caraça, nos nebulosos anos 30 do século passado, dizia que a resolução dos problemas que se colocavam à sua geração exigiam "um prévio esforço de pensamento" para "saber, por uma análise fria e raciocinada, quais são esses problemas, quais as soluções que importa dar-lhes - saber donde vimos, onde estamos, para onde vamos".

Como trabalhar as respostas às três dimensões da interrogação?

José Saramago disse um dia que "somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir". Ora, o neoliberalismo abjura o exercício de memória e não quer cidadãos livremente responsabilizados.

Só é possível vender velharias dos séculos XVIII e XIX como modernidades escondendo de que forma se construiu o progresso das sociedades. Por exemplo, o que significou passar a retribuição do trabalho da dimensão de subsídio de subsistência para a de partilha (mesmo que injusta) da riqueza produzida pelo trabalhador(a); o que significou atribuir direitos e factores de estabilidade e segurança ao trabalho e afirmar o direito do trabalho; o que significou universalizar direitos sociais e garanti-los através de valores solidários colectivamente assumidos; o que significou o controlo do tempo de trabalho, fazendo emergir dimensões do não trabalho que tornam o ser humano mais pleno e feliz; o que significou a conquista e a consagração da contratação colectiva, o mais eficaz instrumento de políticas de distribuição da riqueza na 2.ª metade do século XX; o que significou o investimento público em infra-estruturas e serviços básicos.

Vimos somando anos de fraco crescimento económico, de agravamento de desigualdades e do desemprego, mas sabemos com que interesses particulares se destruiu grande parte do sector produtivo, o que se passou com a apropriação indevida de fundos comunitários ou quem lucra escandalosamente com a especulação financeira, conhecemos a doença dos desvios dos orçamentos das obras públicas ou os privilégios dos atingidos pelos vírus do compadrio, da troca de favores e da corrupção, das promiscuidades entre interesses públicos e interesses privados.

Agora onde estamos?

Estamos atolados nos resultados daquelas políticas e práticas, nos impactos dos desastrosos caminhos que a União Europeia (UE) está prosseguindo e prisioneiros do processo de agiotagem que se vem impondo.

Estamos numa situação política delicada em que a Direita atingiu, pela 1.ª vez, o objectivo com que sonhou desde o rescaldo da contra-revolução de ter, simultaneamente, uma maioria, um governo e um presidente. Agora dispõe ainda do acrescento de sermos membros de uma UE sob o comando da Direita (e extrema-Direita), tendo como eurocrata-chefe um português da Direita portuguesa. É urgente que se tome consciência colectiva deste facto político!

Grandes desafios se colocam à Esquerda, ou às esquerdas portuguesas. É tempo de neste(s) campo(s) se encetar, também, uma "análise fria e raciocinada" que propicie aos portugueses identificarem sinais políticos que ajudem à construção da esperança e da confiança no futuro que hão-de sustentar necessárias alternativas. Alguns importantes confrontos a travar estão aí no imediato e é preciso pensar e agir para além do "contexto da crise".

No espaço deste artigo não cabem as necessárias reflexões e propostas responsabilizadoras para caminharmos em bom sentido. Hoje deixo apenas três considerações de partida: (i) a execução das políticas receitadas pela troika, que o futuro Governo se propõe executar com zelo, conduz-nos ao retrocesso, nomeadamente, económico, social e civilizacional; (ii) em democracia as maiorias políticas têm de se sustentar na identidade com os direitos e os anseios dos cidadãos, e as maiorias sociais são indispensáveis para que os projectos políticos tenham êxito; (iii) a insistência nas teses de que não há alternativas, para além de ajudarem ao prosseguimento do roubo, negam a própria democracia.

Em democracia, nunca existe a inevitabilidade de uma escolha única.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Crises

O Bloco de Esquerda (BE) sofreu um fortíssimo golpe nas últimas eleições. É mau para ele, é mau para a Esquerda. O eleitorado flutuante que dirigiu as suas expectativas para o BE em eleições passadas, deslocou-se ou para o voto útil no PS (eventualmente com receiio da Direita), absteve-se ou votou em branco (as redes sociais difundiram uma campanha a favor do voto em branco). O BE encontra-se numa encruzilhada: ou mantem-se coerente com as posições corajosamente assumidas contra a tróika e o memorando, ou inflecte para posições mais recuadas. Estas diferentes estratégias (ambas não excluem tácticas coerentes ou oportunistas) são de ora em diante inseparáveis da crise paralela que atravessa o PS. Pode-se dizer-se que ambos se olham para ver o que faz o outro. O PS necessita de uma base social de apoio (sindical em primeiro lugar) seja para controlar a reacção às medidas do memorando e aquelas que vão para além dele (aquela margem de "interpretação" que a tróika permite e deseja, "lavando as mãos"), seja para controlar o descontentamento orientando-o tacticamente contra o governo mas não contra o memorando (desgaste do governo de modo a capitalizar o descontentamento a favor de um governo alternativo com mais vocação "social"). O BE tem que escolher: ou aproximar-se de um PS combativo (embora nos limites estreitos da mera alternância), conservando o programa de combate às políticas impostas pela tróika (aproximação táctica e não estratégia para participar num futuro governo?), ou aproxima as suas posições com um PS demagógico, populista, inserido no "consenso" dos três partidos (consenso tão desejado e promovido pelas directórios do grande capital da UE), recua até se ver o fundilho das calças. Em qualquer dos casos o risco da estagnação é grande. Na certa o descontentamento social e popular vai emergir (veremos se vai explodir) e na massa dos descontentes estão, estarão, os eleitores do PCP e do BE. Porém os eleitores putativos do BE são também do PS...

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA