Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
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Publicado em: http://elpravda.blogspot.com/2011/08/50-anos-de-la-construccion-del-muro-de.html
Tradução do castelhano de TAM
Colocado em linha em: 2011/08/22
50 anos da construção do
Muro de Defesa Antifascista
Pravda (Estado espanhol) – Sábado, 13 de agosto de 2011
Em 13 de agosto de 1961, há já meio século, em consequência das medidas
aventureiras e das provocações da República Federal da Alemanha e dos seus aliados,
iniciou-se a construção do Muro de Contenção Antifascista, mais conhecido no
Estado espanhol como “Muro de Berlim”, depois de semanas de conversações na
República Democrática Alemã (RDA) e no campo socialista.
Correram rios de tinta sobre a dita separação. Frequentemente, alguns intelectuais e
os grandes meios de comunicação, fazendo alarde do seu servilismo em relação às
classes dominantes, criticaram ferozmente a construção do Muro, ignorando
completamente – além das inúmeras falsificações socioeconómicas – o contexto, isto
é, os movimentos realizados pela RFA nos meses anteriores e a agudização da
chamada guerra-fria.
O mínimo que podemos fazer é assinalar também a sua enorme hipocrisia, depois de
lhes ter caído a máscara ao fim de tantos anos (e, depois, para que as novas gerações
fiquem bem ensinadas, como nestes dias), enquanto muitos países que eles apoiam
(ou os seus estados-fantoches) levantavam muros sem que se ouvisse uma voz: os
quase 750 Km do muro israelita, os 1123 Km de muro norteamericano na sua
fronteira com o México, causando milhares de vítimas (calcula-se que mais de 6 000
pessoas), os milhares de quilómetros de muros e minas antipessoais construídos
pela monarquia totalitária de Marrocos no Sahara ocupado, as valas de Ceuta e
Melilla que causaram a morte a aproximadamente 4 000 pessoas, o muro
brasileiro no Rio de Janeiro para isolar as favelas, o muro eslovaco em
Ostravany para isolar a população cigana, etc.
Assim, pois, devemos assinalar os motivos da construção do Muro de Berlim para
uma maior compreensão do que aconteceu naquele famoso dia. Para isso, citaremos
abundantemente o Professor Heinz Heitzer na sua obra “RDA: Compêndio
histórico”, no capítulo “As Medidas de segurança tomadas em 13 de Agosto de 1961”,
assim como o camarada Herich Honecker nas suas “Notas da Prisão” para
terminar este escrito:
2
“O Governo da RFA rompeu as relações diplomáticas com a Jugoslávia, em
1957, e com Cuba, em 1960, porque estes países tinham estabelecido missões
diplomáticas na RDA, e vice-versa. Recusou a proposta da RDA de organizar
uma conferência alemã; recusou também as propostas apresentadas em
1958/59 pela União Soviética, no sentido de conceder a Berlim Ocidental o
estatuto de cidade livre e desmilitarizada e de preparar um tratado de paz com a
Alemanha. Além disso, o Governo da RFA insinuou aos seus aliados na NATO que
também se deveriam opor a estas ofertas. Ao mesmo tempo, políticos dirigentes da
CDU/CSU esforçaram-se febrilmente a equipar o exército federal com armas
nucleares.
[...] Com o propósito de preparar o “Dia X”, dia destinado a derrubar o
poder dos operários e camponeses, os monopólios e o Governo da RFA
intensificaram a guerra económica contra a RDA. No outono de 1960, o Governo da
RFA cancelou os acordos comerciais com a RDA e instigou outros
Estados a boicotar a Feira de Leipzig. Apesar de, em dezembro, o governo da
RFA ter tido de renunciar ao cancelamento, e apesar de a sugestão de boicote não
ter dado resultado, surgiram graves problemas para a economia nacional da RDA,
que estava sujeita a importantes importações procedentes da RFA. Houve que
fazer-se modificações do plano e introduzir alterações na produção, uma vez que
teve de contar com outro embargo comercial. A União Soviética e outros
países membros do CAME forneceram à RDA importantes mercadorias, matériasprimas
e alimentos em quantidades superiores às dos correspondentes convénios.
Desenvolveu-se um movimento orientado para libertar a economia da RDA de
perturbações: operários, técnicos e cientistas da RDA fabricaram, em prazos muito
curtos, produtos que dantes se importavam da RFA.”
A chantagem económica foi acompanhada pela calúnia anticomunista
veiculada por numerosos meios de comunicação na RFA e Berlim Ocidental. A
infâmia era parecida em muitos pormenores com as atrocidades fascistas divulgadas
contra a Checoslováquia e a Polónia, pouco antes de terem sido vítimas do assalto nos
anos 1938 e 1939. Esta falácia tinha o propósito de criar confusão e nervosismo nos
cidadãos da RDA, e fazer crer a nível mundial que na RDA se estaria a aproximar um
“levantamento popular”, que os países ocidentais tinham de apoiar por todos os
meios ao seu alcance.
Tanto assim foi que um jornal simpatizante da CDU escreveu “que o mundo
livre tinha de preparar-se para aplicar todos os meios da guerra-fria,
da guerra de nervos e da guerra com armas... Isto não inclui só as forças
armadas tradicionais e o seu armamento, mas também socavar, instigar a
resistência interna, as atividades clandestinas, a desagregação da ordem, a
sabotagem, a perturbação dos transportes e da economia, a desobediência, a
rebelião, a revolução”.
Com o objetivo publicamente proclamado de sangrar a RDA, intensificaram o
suborno de cidadãos da RDA, sobretudo de especialistas e jovens; estenderam a
rede das organizações criminosas, promovidas pelo Estado alemão ocidental,
dedicadas a este tráfico de pessoas. Berlim Ocidental com a sua fronteira aberta para
a RDA desempenhou o papel de canal de fuga.
3
Tudo isto ligado à preparação direta de uma agressão militar contra a
RDA. Nas manobras do Estado-maior e das tropas do exército federal, realizadas em
1960/61, ensaiaram-se algumas variantes da “guerra relâmpago” e da “guerra
limitada” contra a RDA e outros Estados socialistas. Alguns políticos e comentadores
deixaram entrever que, para o exército federal, poderia dar-se uma situação em que
tivesse de liquidar o “conflito interno” através de uma “ação policial local”. Esse
conflito poderia surgir como consequência de choques nas fronteiras de Berlim
Ocidental. […]
Em julho de 1961, o “Conselho de investigação de problemas da reunificação da
Alemanha” apresentou, em Bona, um plano detalhado para o “Dia X”. Este plano
considerava incorporar a RDA na RFA, repartir entre os monopólios da
RFA as empresas de propriedade do povo e os bancos, dissolver as
cooperativas agrícolas e entregar as terras e os bens de raiz sobretudo
entre os grandes proprietários agrícolas e os latifundiários. Na segunda
metade de julho, Franz Jossef Strauss – então Ministro da Defesa da RFA e chefe do
exército federal, e um dos políticos imperialistas mais belicosos de sempre – fez uma
visita aos EUA para se assegurar do seu apoio. No princípio de agosto foi
proclamado o estado de alerta para as unidades da NATO estacionadas na
Europa ocidental.
[…] No verão de 1961, as tensões surgidas tinham chegado a tal ponto que se tornou
imprescindível tomar medidas severas, orientadas para preservar a paz e proteger o
socialismo.
De 3 a 5 de agosto de 1961, os primeiros secretários dos partidos comunistas e
operários dos Estados membros do Pacto de Varsóvia discutiram em Moscovo as
medidas previstas pela RDA e a URSS. Esta reunião propôs à Assembleia do Povo, ao
Governo e a todos os trabalhadores da RDA “introduzir na fronteira com Berlim
Ocidental um sistema que fechasse, de maneira infalível, o caminho às atividades
subversivas contra os países do campo socialista, e garantisse uma vigilância
segura e um controlo eficiente em volta de todo o território de Berlim Ocidental,
incluindo a sua fronteira com Berlim democrático”.
Em 11 de agosto de 1961, a Assembleia do Povo, sob proposta do CC do PSUA
[Partido Socialista Unificado da Alemanha - NT], encarregou o Conselho de Ministros
de dar todos os passos necessários para esse fim. Na noite de 12 para 13 de agosto de
1961, tomaram-se as medidas acordadas, com rapidez, precisão e com surpresa
absoluta dos serviços secretos do imperialismo.
As medidas de segurança de 13 de agosto de 1961 foram uma ação política conjunta
dos Estados membros do Pacto de Varsóvia, para travar os círculos agressivos do
imperialismo da RFA e dos restantes Estados membros da NATO e para proteger a
paz na Europa. Estas medidas limitaram as atividades subversivas diretas do
imperialismo e da RFA e infligiram-lhe uma rotunda derrota. Fracassou por completo
a sua estratégia de anexar a RDA com um ataque frontal. Os próprios políticos e
historiadores burgueses tiveram de admitir que o 13 de agosto de 1961 deu início à
decadência da era Adenauer, na RFA. Um jornal burguês escreveu naquela
data que este dia demonstrou que tinha fracassado a política governamental da RFA “de pretender a reunificação através do armamento e da força”.
O camarada Erich Honecker, chefe de Estado da RDA entre os anos de 1976 e
1989, também escreveu umas breves reflexões sobre aqueles anos na sua obra “Notas
da prisão”, enquanto estava preso em Berlim em 1992-1993:
“Os sistemas de armamento do Pacto de Varsóvia e da NATO estavam amplamente
instalados no centro da Europa. Esta acumulação maciça de forças militares
requeria uma atenção permanente. Uma coincidência de acasos infelizes
teria podido, de facto, fazer estalar um conflito cuja dimensão poderia
ter sido a da Terceira Guerra Mundial. Para nos convencermos, basta
consultar os documentos oficiais da NATO e do Pacto de Varsóvia referentes a esta
questão.
No decurso dos últimos 35 anos, o perigo de um apocalipse nuclear pairou
demasiadas vezes sobre a Europa. Um tal conflito teria posto seriamente em causa
as possibilidades de sobrevivência da humanidade sobre a Terra.
Uma política ativa de razão e de boa vontade da parte da RDA
contribuiu para conjurar este perigo. Os cidadãos da RDA e, igualmente, os
da RFA, devem os dias que viveram em paz à ação deste primeiro país no seio da
aliança de Varsóvia.”
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
José Barata-Moura (Filósofo)
José Barata-Moura
Origem: Wikipédia
José Adriano Rodrigues Barata-Moura (Lisboa, 26 de Junho de 1948) é um filósofo e cantor português.
Fez os estudos pré-universitários em França e obteve na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a licenciatura (1970) e o doutoramento (1980) em Filosofia. Reitor da Universidade de Lisboa, entre 1998 e 2006, é professor catedrático da respectiva Faculdade de Letras, desde 1986, onde foi também presidente do Conselho Directivo, de 1981 a 1982. Membro de várias sociedades científicas, foi presidente da Internationale Gesellschaft für dialektische Philosophie, de 1996 a 2000. É membro do Conselho de Administração do Portal Universia Portugal, desde 2002. Foi eleito membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Letras), em 2008.
Barata-Moura deu-se a conhecer também como cantor de intervenção. Em 1970 cantou pela primeira vez na televisão, no programa Zip-Zip, apresentando a música Ballade du Bidonville, cuja tradução foi interdita pela censura. Popularizou-se como cantor infantil, sendo autor de músicas célebres como Joana come a papa, Olha a bola Manel e o Fungágá da Bicharada.
É militante do Partido Comunista Português, tendo sido mandatário nacional da candidatura presidencial de Francisco Lopes, em 2011.
Livros Publicados
Kant e o conceito de Filosofia, Lisboa, Sampedro, 1972.
Da redução das causas em Aristóteles, Lisboa, FUL, 1973.
Estética da canção política, Lisboa, Horizonte, 1977.
Totalidade e contradição, Lisboa, Horizonte, 1977.
Ideologia e Prática, Lisboa, Caminho, 1978.
EPISTEME. Perspectivas gregas sobre o saber. Heraclito-Platão-Aristóteles, Lisboa, ed. de autor (distrib. Cosmos), 1979.
Para uma crítica da "Filosofia dos valores", Lisboa, Horizonte, 1982.
Da representação à "práxis", Lisboa, Caminho, 1986.
Ontologias da "práxis", e idealismos, Lisboa, Caminho, 1986.
A "realização da razão" - um programa hegeliano?, Lisboa, Caminho, 1990.
Marx e a crítica da "Escola Histórica do Direito", Lisboa, Caminho, 1994.
Prática, Lisboa, Colibri, 1994.
Materialismo e subjectividade, Lisboa, Avante, 1998.
Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Caminho, 1999.
O Outro Kant, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2007.
Estudos sobre a Ontologia de Hegel. Ser, Verdade, Contradição, Edições «Avante!», Lisboa, 2010.
Sobre Lénine e a Filosofia. A Reivindicação de uma Ontologia Materialista Dialéctica com Projecto, Edições «Avante!», Lisboa, 2010.
Discografia(incompleta)
Vamos Brincar à Caridadezinha, LP, 1977
Balada do Bidonville, Single
Olha a Bola Manel, EP
Origem: Wikipédia
José Adriano Rodrigues Barata-Moura (Lisboa, 26 de Junho de 1948) é um filósofo e cantor português.
Fez os estudos pré-universitários em França e obteve na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a licenciatura (1970) e o doutoramento (1980) em Filosofia. Reitor da Universidade de Lisboa, entre 1998 e 2006, é professor catedrático da respectiva Faculdade de Letras, desde 1986, onde foi também presidente do Conselho Directivo, de 1981 a 1982. Membro de várias sociedades científicas, foi presidente da Internationale Gesellschaft für dialektische Philosophie, de 1996 a 2000. É membro do Conselho de Administração do Portal Universia Portugal, desde 2002. Foi eleito membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Letras), em 2008.
Barata-Moura deu-se a conhecer também como cantor de intervenção. Em 1970 cantou pela primeira vez na televisão, no programa Zip-Zip, apresentando a música Ballade du Bidonville, cuja tradução foi interdita pela censura. Popularizou-se como cantor infantil, sendo autor de músicas célebres como Joana come a papa, Olha a bola Manel e o Fungágá da Bicharada.
É militante do Partido Comunista Português, tendo sido mandatário nacional da candidatura presidencial de Francisco Lopes, em 2011.
Livros Publicados
Kant e o conceito de Filosofia, Lisboa, Sampedro, 1972.
Da redução das causas em Aristóteles, Lisboa, FUL, 1973.
Estética da canção política, Lisboa, Horizonte, 1977.
Totalidade e contradição, Lisboa, Horizonte, 1977.
Ideologia e Prática, Lisboa, Caminho, 1978.
EPISTEME. Perspectivas gregas sobre o saber. Heraclito-Platão-Aristóteles, Lisboa, ed. de autor (distrib. Cosmos), 1979.
Para uma crítica da "Filosofia dos valores", Lisboa, Horizonte, 1982.
Da representação à "práxis", Lisboa, Caminho, 1986.
Ontologias da "práxis", e idealismos, Lisboa, Caminho, 1986.
A "realização da razão" - um programa hegeliano?, Lisboa, Caminho, 1990.
Marx e a crítica da "Escola Histórica do Direito", Lisboa, Caminho, 1994.
Prática, Lisboa, Colibri, 1994.
Materialismo e subjectividade, Lisboa, Avante, 1998.
Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Caminho, 1999.
O Outro Kant, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2007.
Estudos sobre a Ontologia de Hegel. Ser, Verdade, Contradição, Edições «Avante!», Lisboa, 2010.
Sobre Lénine e a Filosofia. A Reivindicação de uma Ontologia Materialista Dialéctica com Projecto, Edições «Avante!», Lisboa, 2010.
Discografia(incompleta)
Vamos Brincar à Caridadezinha, LP, 1977
Balada do Bidonville, Single
Olha a Bola Manel, EP
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Onde está a verdade e a mentira?
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Publicado em: http://www.workers.org/2011/world/tiananmen_0707/
Tradução do inglês de TAM
Colocado em linha em: 2011/08/15
A WikiLeaks confirma
O “massacre” da Praça Tiananmen foi uma mistificação
Deirdre Griswold1
Publicado em 29 de junho de 2011, às 14.53h
Quantas vezes nos disseram que os EUA são uma sociedade “aberta” e que os média
são “livres”?
Normalmente estas exigências são feitas quando se critica outros países por não
serem “abertos”, especialmente os países que não seguem a agenda de Washington.
Quando se vive nos Estados Unidos e se depende dos supostamente “livres” e
“abertos” meios de comunicação comerciais para obter informação, acreditar-se-á
sem dúvida que o governo chinês massacrou “centenas, talvez milhares” de
estudantes na Praça Tiananmen, no dia 4 de Julho de 1989. A frase foi repetida
dezenas ou centenas de vezes pelos média deste país.
Mas isso é um logro. Mais, o governo dos EUA sabe que isso é um logro. E todos os
mais importantes meios de comunicação sabem que é um logro. Mas recusam-se a
corrigir o registo, por causa da hostilidade primária da classe dirigente imperialista
dos EUA em relação à China.
Em que é que baseamos esta afirmação? Em várias fontes.
A mais recente é a publicação pela WikiLeaks de telegramas enviados da Embaixada
dos EUA em Pequim para o Departamento de Estado, em junho de 1989, alguns dias
depois dos acontecimentos na China.
A segunda é uma declaração do chefe de redacção do New York Times em Pequim,
declaração que não voltou a ser referida por esse jornal.
E a terceira é o relato do que aconteceu feito pelo próprio governo chinês, que
corrobora as duas primeiras.
Um único jornal ocidental importante publicou os telegramas da WikiLeaks. Foi o
Telegraph of London, em 4 de junho deste ano, exactamente 22 anos depois de o
2
governo chinês ter chamado as tropas em Pequim.
Dois telegramas datados de 7 de julho de 1989 – mais de um mês depois do conflito –
relatavam o seguinte:
“Um diplomata chileno transmite um testemunho presencial dos soldados a entrar
na Praça Tiananmen: Ele observou a entrada dos militares na praça e não viu
nenhumas armas de destruição em massa serem utilizadas contra a multidão,
apesar de se ter ouvido alguns tiros. Ele disse que a maioria das tropas que
entraram na praça estava de facto armada apenas com material antimotim –
bastões e tacos de madeira; estavam apoiados por soldados armados.”
Um telegrama posterior dizia: “Um diplomata chileno transmite um testemunho
presencial dos soldados a entrar na Praça Tiananmen: Apesar de se ouvir tiros, ele
diz que para além de algumas agressões a estudantes, não houve fogo
indiscriminado sobre a multidão de estudantes no monumento.”
Deve-se recordar que o Chile, naquela altura, era governado pelo General Augusto
Pinochet, que tinha chegado ao poder através de um violento golpe antissocialista de
direita, apoiado pelos EUA, no qual foram mortas milhares de pessoas de esquerda,
incluindo o Presidente Salvador Allende. O referido “diplomata chileno” não seria
certamente amigo da China.
Nem um único jornal, televisão ou rádio nos EUA abordou ou comentou estes
telegramas divulgados pela WikiLeaks, nem o artigo do Telegraph sobre eles. Foi
como se caíssem num poço sem fundo.
Isso aconteceu porque os média aqui não acreditam que o documento é credível?
Dificilmente.
Eles sabiam a verdade em 1989
O New York Times sabe que é credível. O seu próprio redactor-chefe em Pequim na
altura, Nicholas Kristof, confirmou-o num extenso artigo intitulado “China hoje:
como ganharam os homens da linha dura”, publicado no magazine do Sunday
Times, em 12 de novembro de 1989, cinco meses depois do alegado massacre na
praça
Mesmo no fim deste longo artigo, que pretendia dar uma visão do debate na direção
do Partido Comunista Chinês, Kristof afirmava perentoriamente: “Baseado nas
minhas observações nas ruas, nem a versão oficial nem muitas das versões
estrangeiras são absolutamente corretas. Não há massacre na Praça Tiananmen,
por exemplo, apesar de haver muitas mortes noutros lugares.”
Apesar do artigo de Kristof ser duramente crítico em relação à China, a sua afirmação
de que “não houve massacre na Praça Tiananmen” desencadeou imediatamente um
coro de protestos dos inimigos da China nos EUA, como se viu pela coluna das cartas
do leitor do Times.
3
Houve conflitos em Pequim? Absolutamente. Mas não houve massacre de estudantes
desarmados na praça. Isso foi uma invenção do ocidente, com o objectivo de
demonizar o governo chinês e ganhar a simpatia pública para uma contrarrevolução.
A viragem para uma economia de mercado no tempo de Deng Xiaoping tinha
alienado muitos trabalhadores. Havia também um elemento contrarrevolucionário a
tentar tirar partido do descontentamento popular para restaurar completamente o
capitalismo.
Os imperialistas tinham esperança em que os conflitos em Pequim derrubassem o
Partido Comunista e destruíssem a economia planificada – à semelhança do que
aconteceria dois anos mais tarde na União Soviética. Queriam “abrir” a China não à
realidade, mas à pilhagem da propriedade do povo pelos bancos e corporações
imperialistas.
Depois de muitas hesitações no topo, o exército foi chamado e o levantamento
esmagado. A China não colapsou como a União Soviética; a sua economia não
implodiu nem o nível de vida baixou. Muito pelo contrário. Os salários e as condições
sociais têm estado a melhorar, ao mesmo tempo que os trabalhadores noutros países
estão a ser puxados para trás por uma severa crise económica capitalista.
Apesar das profundas concessões ao capitalismo, estrangeiras e nacionais, a China
continua a ter uma economia planificada baseada numa forte infraestrutura estatal.
1 Deirdre Griswold foi candidata a presidente dos Estados Unidos, nas eleições de 1980, em representação do
Workers World Party [Partido Mundial dos Trabalhadores], partido de ideologia comunista nos EUA [NT]
terça-feira, 16 de agosto de 2011
«Karl Marx, o visionário. "O capitalismo pode destruir-se", diz Roubini»
No início do século, Nouriel Roubini recebeu a alcunha de Dr. Doom, devido às previsões catastróficas que fazia para a economia mundial. A crise no imobiliário confirmou-se, tal como Roubini tinha alertado e o economista turco de origem judaica e naturalizado norte-americano passou a ser considerado como uma das vozes a ser ouvida.
Agora, em entrevista ao "Wall Street Journal", Roubini afirma que "os mercados não estão a fazer nada, não estão a ajudar a crise. Os riscos deixaram-nos nervosos e as empresas acabam por não contratar pessoas, porque dizem que não há tanta procura, mas chegámos a um paradoxo. Se não se contratam trabalhadores, não há verbas dos salários, não há confiança dos consumidores e não há consumo, logo não há a tal procura". O economista explica ainda que "nos últimos dois ou três anos estivemos ainda pior, porque tivemos uma redistribuição de rendimentos do trabalho para o capital, dos salários para os lucros e os desequilíbrios entre rendimentos e riqueza aumentaram. Karl Marx estava certo, em algum ponto, o capitalismo pode destruir-se a si próprio, porque não se pode continuar a transferir rendimentos dos salários para os lucros sem ter menor capacidade de trabalho e uma menor procura".
Ainda assim, Roubini não considera que a economia dos Estados Unidos esteja perto desse ponto, apesar de todo o risco que enfrenta. Mas não deixa de referir que as possibilidades de EUA, Europa e Japão entrarem numa segunda recessão conjunta são de 50%, o que pode colocar parte do sistema financeiro em insolvência.
Ontem, o multimilionário norte-americano Warren Buffett escreveu um artigo de opinião no "New York Times", em que enviou um recado a Barack Obama. Buffett entende que a partilha de sacrifícios pedidos à população é injusta para as classes mais pobres e não se dá ao trabalho de medir palavras: "Parem de mimar os super-ricos", defende. Para revelar que a austeridade o tem mimado: " Verifiquei junto dos meus amigos milionários para saber que sacrifícios lhes foram pedidos, mas também eles ficaram intactos. No último ano, a minha conta fiscal foi de 6 938 744 dólares, apenas 17,4% dos meus rendimentos tributáveis, o que é uma percentagem menor do que a que foi paga pelas outras 20 pessoas do meu escritório. As suas taxas de impostos estavam entre 33% e 41%", explica.
hoje, Jornal I
Agora, em entrevista ao "Wall Street Journal", Roubini afirma que "os mercados não estão a fazer nada, não estão a ajudar a crise. Os riscos deixaram-nos nervosos e as empresas acabam por não contratar pessoas, porque dizem que não há tanta procura, mas chegámos a um paradoxo. Se não se contratam trabalhadores, não há verbas dos salários, não há confiança dos consumidores e não há consumo, logo não há a tal procura". O economista explica ainda que "nos últimos dois ou três anos estivemos ainda pior, porque tivemos uma redistribuição de rendimentos do trabalho para o capital, dos salários para os lucros e os desequilíbrios entre rendimentos e riqueza aumentaram. Karl Marx estava certo, em algum ponto, o capitalismo pode destruir-se a si próprio, porque não se pode continuar a transferir rendimentos dos salários para os lucros sem ter menor capacidade de trabalho e uma menor procura".
Ainda assim, Roubini não considera que a economia dos Estados Unidos esteja perto desse ponto, apesar de todo o risco que enfrenta. Mas não deixa de referir que as possibilidades de EUA, Europa e Japão entrarem numa segunda recessão conjunta são de 50%, o que pode colocar parte do sistema financeiro em insolvência.
Ontem, o multimilionário norte-americano Warren Buffett escreveu um artigo de opinião no "New York Times", em que enviou um recado a Barack Obama. Buffett entende que a partilha de sacrifícios pedidos à população é injusta para as classes mais pobres e não se dá ao trabalho de medir palavras: "Parem de mimar os super-ricos", defende. Para revelar que a austeridade o tem mimado: " Verifiquei junto dos meus amigos milionários para saber que sacrifícios lhes foram pedidos, mas também eles ficaram intactos. No último ano, a minha conta fiscal foi de 6 938 744 dólares, apenas 17,4% dos meus rendimentos tributáveis, o que é uma percentagem menor do que a que foi paga pelas outras 20 pessoas do meu escritório. As suas taxas de impostos estavam entre 33% e 41%", explica.
hoje, Jornal I
Entrevista con Immanuel Wallerstein, académico e investigador en la Universidad de Yale
16-08-2011
"Se vienen años de incertidumbre y caos mundial"
Sally Burch
Alainet
El destacado académico de las ciencias sociales, Immanuel Wallerstein, es uno de los más connotados exponentes del pensamiento crítico contemporáneo, y durante su reciente visita a Ecuador ALAI conversó con él sobre la actual crisis de deuda que golpea duramente a Estados Unidos y sus consecuencias para los países emergentes y América Latina.
El investigador principal de la Universidad de Yale considera que el dólar ha entrado en un proceso grave e irreversible de pérdida de valor como moneda de reserva mundial, subrayando que era “el último poder serio que mantenía Estados Unidos”.
Wallerstein piensa que las diferentes medidas de emergencia que se están implementando en su país simplemente están retrasando la bancarrota mundial. “Los daños son hechos concretos, la situación de los Estados Unidos es grave y no es recuperable”, recalca.
Estima que el desenlace ocurrirá dentro de dos o tres años, con resultados caóticos para el sistema mundial porque “no habrá una moneda de reserva internacional” y tampoco existen condiciones para que otra moneda pueda ocupar ese rol. Entonces con el fin del dólar como reserva mundial “van a existir cinco, seis o siete monedas importantes, una situación caótica porque habrá fluctuaciones enormes continuas”.
“Ni los gobiernos ni las firmas transnacionales, ni los mega-bancos, ni los individuos sabrán qué hacer. Una incertidumbre enorme paralizará el mundo, especialmente a los inversionistas”, advierte el académico estadounidense.
Mientras esto ocurre en un nivel macro de la economía estadounidense, paralelamente también en un plano más local se vienen produciendo serios problemas económicos. “Comunidades urbanas pequeñas están entrando a la bancarrota y por ejemplo no pueden pagar las jubilaciones”, indica el científico social.
El investigador considera que en su país la clase media es la más afectada porque de un día a otro las familias pierden posición y los trabajadores que perdieron su empleo no pueden hallar otro puesto, especialmente las personas entre 40 y 60 años, llegando incluso a perder sus casas. Es una situación que actualmente no tiene solución y no se observa posibilidad de encontrar una válvula de escape.
Además, Wallerstein señala que “la situación en Estados Unidos va a empeorar porque se va a eliminar la posibilidad que el gobierno sostenga gastos necesarios en este momento, creándose una situación peor que la actual. La fantasía del Tea Party está llevando a Estados Unidos y por consecuencia a todo el mundo en dirección de un crac”.
Teniendo en cuenta estas consideraciones el pronóstico del teórico estadounidense para los próximos años es bastante pesimista. “Yo veo guerras civiles en múltiples países del norte, sobre todo en Estados Unidos donde la situación es mucho peor que en Europa occidental, aunque allá también hay posibilidades de guerra porque hay un límite hasta el cual la gente ordinaria acepta la degradación de sus posibilidades”.
China y países emergentes
Ante la crisis de Estados Unidos y Europa los países emergentes por el momento parecen vivir bien, sin embargo, desde el punto de vista de Wallerstein, esconden una falsa realidad porque todos estamos en una misma canasta.
Teniendo en cuenta que China es el principal tenedor de bonos estadounidenses, ese país afronta una disyuntiva muy delicada. Wallerstein considera que si por un lado “deja de comprar bonos de Estados Unidos va a perder la oportunidad de colocar productos chinos en ese mercado, un problema muy serio para la China. Al mismo tiempo, cuando el dólar pierda su posición relativa a las otras monedas sus bonos no van a valer mucho”.
Entonces, China se está arriesgando a perder enormemente tanto si se retira o si continúa en el mercado de bonos estadounidenses. Frente a esta situación considera que “lo más probable es que la China se vaya retirando poco a poco”. Justamente el problema está en determinar cuándo es el momento perfecto para detener las inversiones, lo cual es imposible de señalar porque si lo supiéramos seríamos todos ricos, agrega el investigador.
Además de este serio problema que afronta China, explica que el país asiático atraviesa por una situación muy frágil desde el punto de vista de su economía interna, “porque los bancos chinos están en la misma situación que los bancos estadounidenses hace dos o tres años”. Asimismo, la inflación limita posibilidades a China y a otros países emergentes como, por ejemplo, a Brasil.
En este contexto considera que los países emergentes, y en el caso de Suramérica la Unasur, deberán hallar los mecanismos de un “proteccionismo a corto plazo a fin de minimizar los daños que serán para todo el mundo. No habrá países que escaparán de los daños pero serán más grandes para unos que para otros”.
Preguntado sobre la construcción de una nueva arquitectura financiera regional, con iniciativas como el Banco del Sur o de una moneda regional como el Sucre, el académico valoró positivamente esas posibilidades para los pueblos de América del Sur. “La creación eventual de una moneda verdadera común será un elemento de fuerza económica en esta situación”. En ese sentido citó como ejemplo que a pesar de las dificultades en Europa con el euro, la decisión de salvaguardar la moneda común “va a permitirles una posición política importante”.
Finalmente, como un mensaje para América Latina invitó a continuar con la reflexión sobre la necesidad de garantizar alimentos suficientes para su pueblo, agua para su pueblo, energía para su pueblo, como cuestiones mínimas y esenciales que deben hacer todos los gobiernos del Sur.
Fuente: http://alainet.org/active/48721
"Se vienen años de incertidumbre y caos mundial"
Sally Burch
Alainet
El destacado académico de las ciencias sociales, Immanuel Wallerstein, es uno de los más connotados exponentes del pensamiento crítico contemporáneo, y durante su reciente visita a Ecuador ALAI conversó con él sobre la actual crisis de deuda que golpea duramente a Estados Unidos y sus consecuencias para los países emergentes y América Latina.
El investigador principal de la Universidad de Yale considera que el dólar ha entrado en un proceso grave e irreversible de pérdida de valor como moneda de reserva mundial, subrayando que era “el último poder serio que mantenía Estados Unidos”.
Wallerstein piensa que las diferentes medidas de emergencia que se están implementando en su país simplemente están retrasando la bancarrota mundial. “Los daños son hechos concretos, la situación de los Estados Unidos es grave y no es recuperable”, recalca.
Estima que el desenlace ocurrirá dentro de dos o tres años, con resultados caóticos para el sistema mundial porque “no habrá una moneda de reserva internacional” y tampoco existen condiciones para que otra moneda pueda ocupar ese rol. Entonces con el fin del dólar como reserva mundial “van a existir cinco, seis o siete monedas importantes, una situación caótica porque habrá fluctuaciones enormes continuas”.
“Ni los gobiernos ni las firmas transnacionales, ni los mega-bancos, ni los individuos sabrán qué hacer. Una incertidumbre enorme paralizará el mundo, especialmente a los inversionistas”, advierte el académico estadounidense.
Mientras esto ocurre en un nivel macro de la economía estadounidense, paralelamente también en un plano más local se vienen produciendo serios problemas económicos. “Comunidades urbanas pequeñas están entrando a la bancarrota y por ejemplo no pueden pagar las jubilaciones”, indica el científico social.
El investigador considera que en su país la clase media es la más afectada porque de un día a otro las familias pierden posición y los trabajadores que perdieron su empleo no pueden hallar otro puesto, especialmente las personas entre 40 y 60 años, llegando incluso a perder sus casas. Es una situación que actualmente no tiene solución y no se observa posibilidad de encontrar una válvula de escape.
Además, Wallerstein señala que “la situación en Estados Unidos va a empeorar porque se va a eliminar la posibilidad que el gobierno sostenga gastos necesarios en este momento, creándose una situación peor que la actual. La fantasía del Tea Party está llevando a Estados Unidos y por consecuencia a todo el mundo en dirección de un crac”.
Teniendo en cuenta estas consideraciones el pronóstico del teórico estadounidense para los próximos años es bastante pesimista. “Yo veo guerras civiles en múltiples países del norte, sobre todo en Estados Unidos donde la situación es mucho peor que en Europa occidental, aunque allá también hay posibilidades de guerra porque hay un límite hasta el cual la gente ordinaria acepta la degradación de sus posibilidades”.
China y países emergentes
Ante la crisis de Estados Unidos y Europa los países emergentes por el momento parecen vivir bien, sin embargo, desde el punto de vista de Wallerstein, esconden una falsa realidad porque todos estamos en una misma canasta.
Teniendo en cuenta que China es el principal tenedor de bonos estadounidenses, ese país afronta una disyuntiva muy delicada. Wallerstein considera que si por un lado “deja de comprar bonos de Estados Unidos va a perder la oportunidad de colocar productos chinos en ese mercado, un problema muy serio para la China. Al mismo tiempo, cuando el dólar pierda su posición relativa a las otras monedas sus bonos no van a valer mucho”.
Entonces, China se está arriesgando a perder enormemente tanto si se retira o si continúa en el mercado de bonos estadounidenses. Frente a esta situación considera que “lo más probable es que la China se vaya retirando poco a poco”. Justamente el problema está en determinar cuándo es el momento perfecto para detener las inversiones, lo cual es imposible de señalar porque si lo supiéramos seríamos todos ricos, agrega el investigador.
Además de este serio problema que afronta China, explica que el país asiático atraviesa por una situación muy frágil desde el punto de vista de su economía interna, “porque los bancos chinos están en la misma situación que los bancos estadounidenses hace dos o tres años”. Asimismo, la inflación limita posibilidades a China y a otros países emergentes como, por ejemplo, a Brasil.
En este contexto considera que los países emergentes, y en el caso de Suramérica la Unasur, deberán hallar los mecanismos de un “proteccionismo a corto plazo a fin de minimizar los daños que serán para todo el mundo. No habrá países que escaparán de los daños pero serán más grandes para unos que para otros”.
Preguntado sobre la construcción de una nueva arquitectura financiera regional, con iniciativas como el Banco del Sur o de una moneda regional como el Sucre, el académico valoró positivamente esas posibilidades para los pueblos de América del Sur. “La creación eventual de una moneda verdadera común será un elemento de fuerza económica en esta situación”. En ese sentido citó como ejemplo que a pesar de las dificultades en Europa con el euro, la decisión de salvaguardar la moneda común “va a permitirles una posición política importante”.
Finalmente, como un mensaje para América Latina invitó a continuar con la reflexión sobre la necesidad de garantizar alimentos suficientes para su pueblo, agua para su pueblo, energía para su pueblo, como cuestiones mínimas y esenciales que deben hacer todos los gobiernos del Sur.
Fuente: http://alainet.org/active/48721
domingo, 14 de agosto de 2011
Artigo de Noam Chomsky (excerto)
Constitui um tema generalizado que os Estados Unidos - que há apenas alguns anos era visto como um colosso que percorreria o mundo com um poder sem paralelo e um atractivo sem igual (…) - estão em decadência, enfrentando actualmente a perspectiva de uma deterioração definitiva, assinala Giacomo Chiozza, no número actual de Political Science Quarterly.
A crença neste tema está, efectivamente, muito difundida. Em com certa razão, se bem que seja necessário fazer algumas precisões. Para começar, a decadência tem sido constante desde o ponto culminante do poderio dos EUA logo após a Segunda Guerra Mundial, e o notável triunfalismo dos anos 90, depois da Guerra do Golfo, foi basicamente um auto engano.
Wall Street recebe regularmente generosos presentes. O Comité de Atribuições da Câmara de Representantes cortou o orçamento da Comissão de Títulos e Bolsa, a principal barreira contra a fraude financeira. E é pouco provável que sobreviva intacta a Agência de Protecção ao Consumidor.
O Congresso brande outras armas na sua batalha contra as gerações futuras. Apoiada pela oposição republicana à protecção ambiental, a importante companhia de electricidade American Electric Power arquivou o principal esforço do país para captar o dióxido de carbono de uma unidade que actualmente consome carvão, o que significou um forte golpe nas campanhas para reduzir as emissões causadoras do aquecimento global, informou o The New York Times.
Esses golpes auto-aplicados, ainda que sejam cada vez mais potentes, não são uma inovação recente. Datam dos anos 70, quando a política económica nacional sofreu importantes transformações que puseram fim ao que se costuma chamar “época de ouro” do capitalismo de Estado.
Dois importantes elementos desse processo foram a financeirização (o deslocamento das prioridades de investimento da produção industrial para as finanças, os seguros e os bens imobiliários) e a externalização da produção. O triunfo ideológico das doutrinas de livre mercado, muito selectivo como sempre, desferiu mais alguns golpes, que se traduziram em desregulação, regras de administração corporativa que condicionavam as enormes recompensas aos CEO’s com os benefícios de curto prazo e outras decisões políticas similares.
A concentração resultante da riqueza produz maior poder político, acelerando um círculo vicioso que concentrou uma riqueza extraordinária em 1% da população, basicamente CEO’s de grandes corporações, gerentes de fundos de garantia e similares, enquanto a maioria das receitas reais praticamente estancou.
Ao mesmo tempo, o custo das eleições disparou para as nuvens, fazendo com que os dois partidos tivessem que escavar mais fundo os bolsos das corporações. O que restava de democracia política foi solapado ainda mais quando ambos partidos recorreram ao leilão de postos directivos no Congresso, como apontou o economista Thomas Ferguson, no The Financial Times.
Os principais partidos políticos adoptaram uma prática das grandes empresas retalhistas, como Walmart, Best Buy e Target, escreve Ferguson. Caso único nas legislaturas do mundo desenvolvido, os partidos estado-unidenses no Congresso colocam preço em postos-chave no processo legislativo. Os legisladores que conseguem mais fundos para o partido são os que indicam os nomes para esses postos.
O resultado, segundo Ferguson, é que os debates se baseiam fortemente na repetição interminável de um punhado de consignas, aprovadas pelos blocos de investidores e grupos de interesse nacionais, dos quais depende a obtenção de recursos. E o país que se dane.
Antes do crack de 2007, do qual foram responsáveis em grande medida, as instituições financeiras posteriores à época de ouro tinham obtido um surpreendente poder económico, multiplicando por mais de três a sua participação nos lucros corporativos. Depois do crack, numerosos economistas começaram a investigar a sua função em termos puramente económicos. Robert Solow, prémio Nobel de Economia, concluiu que o seu efeito poderia ser negativo. O seu êxito contribui com muito pouco ou nada para a eficiência da economia real, enquanto os seus desastres transferem a riqueza dos contribuintes ricos para o sector financeiro.
Ao triturar os restos da democracia política, as instituições financeiras estão lançando as bases para fazer avançar ainda mais este processo letal…enquanto as suas vítimas parecem dispostas a sofrer em silêncio.
(*) Professor emérito de linguística e filosofia do Instituto Tecnológico de Massachusetts. Seu livro mais recente é 9-11: Tenth Anniversary.
in ODiário.info
A crença neste tema está, efectivamente, muito difundida. Em com certa razão, se bem que seja necessário fazer algumas precisões. Para começar, a decadência tem sido constante desde o ponto culminante do poderio dos EUA logo após a Segunda Guerra Mundial, e o notável triunfalismo dos anos 90, depois da Guerra do Golfo, foi basicamente um auto engano.
Wall Street recebe regularmente generosos presentes. O Comité de Atribuições da Câmara de Representantes cortou o orçamento da Comissão de Títulos e Bolsa, a principal barreira contra a fraude financeira. E é pouco provável que sobreviva intacta a Agência de Protecção ao Consumidor.
O Congresso brande outras armas na sua batalha contra as gerações futuras. Apoiada pela oposição republicana à protecção ambiental, a importante companhia de electricidade American Electric Power arquivou o principal esforço do país para captar o dióxido de carbono de uma unidade que actualmente consome carvão, o que significou um forte golpe nas campanhas para reduzir as emissões causadoras do aquecimento global, informou o The New York Times.
Esses golpes auto-aplicados, ainda que sejam cada vez mais potentes, não são uma inovação recente. Datam dos anos 70, quando a política económica nacional sofreu importantes transformações que puseram fim ao que se costuma chamar “época de ouro” do capitalismo de Estado.
Dois importantes elementos desse processo foram a financeirização (o deslocamento das prioridades de investimento da produção industrial para as finanças, os seguros e os bens imobiliários) e a externalização da produção. O triunfo ideológico das doutrinas de livre mercado, muito selectivo como sempre, desferiu mais alguns golpes, que se traduziram em desregulação, regras de administração corporativa que condicionavam as enormes recompensas aos CEO’s com os benefícios de curto prazo e outras decisões políticas similares.
A concentração resultante da riqueza produz maior poder político, acelerando um círculo vicioso que concentrou uma riqueza extraordinária em 1% da população, basicamente CEO’s de grandes corporações, gerentes de fundos de garantia e similares, enquanto a maioria das receitas reais praticamente estancou.
Ao mesmo tempo, o custo das eleições disparou para as nuvens, fazendo com que os dois partidos tivessem que escavar mais fundo os bolsos das corporações. O que restava de democracia política foi solapado ainda mais quando ambos partidos recorreram ao leilão de postos directivos no Congresso, como apontou o economista Thomas Ferguson, no The Financial Times.
Os principais partidos políticos adoptaram uma prática das grandes empresas retalhistas, como Walmart, Best Buy e Target, escreve Ferguson. Caso único nas legislaturas do mundo desenvolvido, os partidos estado-unidenses no Congresso colocam preço em postos-chave no processo legislativo. Os legisladores que conseguem mais fundos para o partido são os que indicam os nomes para esses postos.
O resultado, segundo Ferguson, é que os debates se baseiam fortemente na repetição interminável de um punhado de consignas, aprovadas pelos blocos de investidores e grupos de interesse nacionais, dos quais depende a obtenção de recursos. E o país que se dane.
Antes do crack de 2007, do qual foram responsáveis em grande medida, as instituições financeiras posteriores à época de ouro tinham obtido um surpreendente poder económico, multiplicando por mais de três a sua participação nos lucros corporativos. Depois do crack, numerosos economistas começaram a investigar a sua função em termos puramente económicos. Robert Solow, prémio Nobel de Economia, concluiu que o seu efeito poderia ser negativo. O seu êxito contribui com muito pouco ou nada para a eficiência da economia real, enquanto os seus desastres transferem a riqueza dos contribuintes ricos para o sector financeiro.
Ao triturar os restos da democracia política, as instituições financeiras estão lançando as bases para fazer avançar ainda mais este processo letal…enquanto as suas vítimas parecem dispostas a sofrer em silêncio.
(*) Professor emérito de linguística e filosofia do Instituto Tecnológico de Massachusetts. Seu livro mais recente é 9-11: Tenth Anniversary.
in ODiário.info
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Uma Frente De Luta
Os comentários a outros comentários exprimem não a Opinião Pública mas as opiniões públicas. Felizmente não existe uma única Opinião Pública. A Internet demonstra este facto. É ela um meio extraordinário que permite e estimula a participação civil e cívica, a discussão, a informação, a pluralidade. Neste sentido amplo é uma contra-informação relativamente às televisões (também à imprensa escrita). É, como se tem verificado, um poderoso meio de convocação. À letra: chamam-se e unem-se as vozes. Este século, este início de um novo milénio, demonstra a força e as potencialidades ainda latentes deste meio de contra-poder. Lembremos as revoltas e revoluções desde o Médio Oriente a outras partes do Mundo. Não esqueçamos de incluir a Europa. Os tiranos temem-na e os governos europeus também. Imagine-se só a sua utilidade se existisse no Portugal da ditadura fascista.
Por tudo isto é de prever que os mandantes deste mundo conspirem para travar, limitar e controlar este meio (as redes sociais, incluindo os blogues e outros dispositivos). Se pudessem, silenciavam-no (é tudo uma questão de poder). Contudo, tiram proveito desses dispositivos (a publicidade, as empresas na bolsa). “Eles” debatem-se com as suas contradições. As redes sociais são, em muitos casos, poderosas empresas e um dos negócios mais lucrativos, tanto mais quanto se interligam com os telemóveis e outras novíssimas tecnologias. Uma boa parte da riqueza de alguns países assenta na invenção, produção e exportação dessas tecnologias, num progresso técnico constante cujos limites não prevemos.
O capitalismo é mesmo assim: contraditório. E sempre foi. Karl Marx entendeu muito bem isso já na primeira metade do século XIX. Então explicou que o capitalismo é um modo de produção simultaneamente positivo e negativo. O que para ele era necessário, por consequência, era que as contradições se agudizassem (quanto mais de desenvolvia), sendo para isso indispensável que a consciência social –pública - não mais suportasse –ou acreditasse – na sociedade movida exclusivamente pelo lucro privado.
Por ora, a internet mostra ser um factor formidável (embora limitado e relativo) de fortalecimento dessa consciência. Defender sem cedências este factor –ou meio – é, hoje, uma importante frente da luta democrática mundial.
Por tudo isto é de prever que os mandantes deste mundo conspirem para travar, limitar e controlar este meio (as redes sociais, incluindo os blogues e outros dispositivos). Se pudessem, silenciavam-no (é tudo uma questão de poder). Contudo, tiram proveito desses dispositivos (a publicidade, as empresas na bolsa). “Eles” debatem-se com as suas contradições. As redes sociais são, em muitos casos, poderosas empresas e um dos negócios mais lucrativos, tanto mais quanto se interligam com os telemóveis e outras novíssimas tecnologias. Uma boa parte da riqueza de alguns países assenta na invenção, produção e exportação dessas tecnologias, num progresso técnico constante cujos limites não prevemos.
O capitalismo é mesmo assim: contraditório. E sempre foi. Karl Marx entendeu muito bem isso já na primeira metade do século XIX. Então explicou que o capitalismo é um modo de produção simultaneamente positivo e negativo. O que para ele era necessário, por consequência, era que as contradições se agudizassem (quanto mais de desenvolvia), sendo para isso indispensável que a consciência social –pública - não mais suportasse –ou acreditasse – na sociedade movida exclusivamente pelo lucro privado.
Por ora, a internet mostra ser um factor formidável (embora limitado e relativo) de fortalecimento dessa consciência. Defender sem cedências este factor –ou meio – é, hoje, uma importante frente da luta democrática mundial.
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