"A natureza tem a solução"
Satish Kumar tem 75 anos e viajou de comboio de Londres até Lisboa para dizer que temos de ir mais devagar para chegar mais longe. A semana passada, este professor no Schumacher College, no Sul de Inglaterra, e director da revista Ressurgence esteve na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, para falar do livro Small is Beautiful, de E. F. Shumacher. Na mala trouxe a inspiração da Natureza e das palavras de Mahatma Ghandi e Martin Luther King.
Acredita que a solução para a crise no mundo está no respeito pela Natureza, no amor e na confiança. Caminhou 13 mil quilómetros, sem dinheiro, numa das maiores peregrinações de sempre pela paz mundial.
- Quantas vezes já o chamaram naif ou irrealista?
- Muitas, muitas vezes. Políticos, presidentes de empresas, estudiosos, até jornalistas... (risos). Dizem-me que as minhas palavras são impossíveis e que sou demasiado inocente e idealista. Mas a minha resposta é: o que têm feito os realistas? O mundo tem sido governado por eles e hoje temos crise económica, crise ambiental, guerras no Afeganistão, Iraque e Líbia, pobreza. O nosso realismo não é sustentável. Pusemos um preço em tudo. A floresta tem preço, os rios, a terra, tudo se tornou uma mercadoria. Talvez tenha chegado a altura de os idealistas fazerem alguma coisa. Esta é a minha resposta. Se sou idealista, não faz mal. A sustentabilidade exige um bocadinho de idealismo, de inocência.
- Então qual a resposta de um idealista à crise actual?
- Esta não é uma crise económica, é uma crise do dinheiro. E o dinheiro é apenas uma ideia, um número no computador. Os realistas criaram este problema artificial e estão preocupados com a crise, voam pelo mundo, vão a Bruxelas, reúnemse com banqueiros. Mas a terra continua a produzir alimentos, as oliveiras a dar azeite, as vacas a dar leite e os seres humanos não perderam as suas capacidades. Eu diria, regressemos à Natureza. A Natureza tem a solução, dá-nos tudo o que precisamos, alimentos, roupas, casas, sapatos, amor, poesia, arte.
- Como se põe essa ideia nas mãos dos líderes políticos?
- Por exemplo, Portugal devia ter mais dos seus próprios alimentos, roupas, sapatos, mobília, tecnologia. A globalização da economia é um problema. Estamos a importar tantos produtos da China... Tudo isso se traduz em combustíveis fósseis para o transporte, com efeitos no clima. Além do mais, estamos a chegar a um pico do petróleo. Quando se esgotar o que faremos? A economia local deveria ser a verdadeira economia; a economia global seria como a fina cobertura de açúcar em cima de um bolo, com entre dez a 20% da economia.
- Mas em muitos casos é mais barato importar...
- Sim, mais barato em termos de dinheiro, mas não em termos de Ambiente porque não adicionamos todos os custos. Este é um desafio que lanço aos políticos, empresas, cientistas e jornalistas: o valor deve ser colocado no solo, nos animais, árvores e rios, nas pessoas, não no dinheiro. Se não o fizermos, dentro de cem anos teremos uma crise ainda maior. O dinheiro é apenas um bocado de papel ou de cartão, uma conta no banco. É uma medida da riqueza, como quando usamos uma fita métrica e dizemos que esta mesa tem dois metros de comprimento por um de largura. É da mesa que precisamos, mas para nós a fita métrica é mais importante. O dinheiro é útil, claro, mas é só isso.
- Parece uma ideia difícil de concretizar. Por onde começar?
- Mudando a forma de pensar. Podemos imprimir notas, criar dinheiro criando mais dívida. Mas se poluirmos os nossos rios e envenenarmos as nossas terras, não os podemos substituir. Devemos viver como peregrinos, não como turistas. O turista é egocêntrico, quer algo para ele próprio, bons hotéis, restaurantes e lojas. A sua atitude é a exigência, quer sempre mais e melhor. O hotel, o táxi ou o serviço não era bom o suficiente. O peregrino é humilde, deixa uma pegada leve na Terra, respeita a árvore e agradece-lhe pela sombra e frutos. A mente egocêntrica tem de mudar para respeitarmos a Natureza.
- Hoje conhecemos melhor as marcas dos automóveis do que os nomes das árvores...
- Exactamente. Por isso, antes de mais, precisamos trazer a Natureza para a cidade, promover uma literacia ecológica. Não conhecemos a Natureza porque a exilámos, temos medo dela. Não saímos de casa porque está demasiado frio, neve ou chuva. Precisamos de estar confortáveis, civilizados. Na verdade, somos demasiado civilizados... (risos). As pessoas das cidades, como Lisboa, precisam abrir o coração à vida selvagem, caminhar na Natureza. O fim-desemana devia ter três dias para que, pelo menos, um dia pudéssemos andar a pé no campo. Mas não de carro porque assim não se vê nada. Quando caminhamos vemos as flores, a erva, as borboletas, as abelhas. Vemos e experienciamos tudo, não é um conhecimento dos livros.
- Mas podemos estar na Natureza e não reconhecer a importância de uma borboleta ou de uma abelha.
- Não chega observar a Natureza como um objecto de estudo. Isso é uma separação muito dualista. Só valorizamos a Natureza se a experienciarmos, se nos tornarmos parte dela. A Natureza não está só lá fora, nas árvores, montanhas, rios e animais. Nós somos Natureza. E ela tem valor intrínseco. Falamos de direitos humanos, mas também precisamos de falar dos direitos da Natureza. Os rios têm o direito de se manterem limpos, as florestas têm o direito a permanecer de pé.
- Quando tinha quatro ou cinco anos, a sua mãe disse-lhe para começar a andar e aprender com a Natureza. Para nós será demasiado tarde?
- Tal como a minha mãe me ensinou a andar na Natureza, gostaria que o mesmo acontecesse na nossa sociedade. Devemos educar as nossas crianças no amor pela Natureza, aprendendo na Natureza e não sobre a Natureza, com livros e computadores. Gostaria de ver os pais a levar os filhos para a Natureza e a deixá-los subir às árvores, escalar montanhas e nadar nos rios. Para as crianças não é tarde de mais, estão prontas para isso. Talvez para os adultos seja tarde, até porque têm medo da Natureza. Mas até eles podem descobrir que passariam a estar mais inspirados, teriam mais poesia, música e arte. A nossa sociedade está a tornar-se demasiado banal e prosaica.
- Toda a sua vida caminhou. Qual foi a viagem mais importante?
- A mais importante caminhada, da Índia para a América [de 1962 a 1965], foi inspirada pelo filósofo britânico Bertrand Russell, que protestou contra as armas nucleares. Quando tinha 90 anos foi preso por isso. Uma manhã, tinha eu 25 anos, estava a beber café numa esplanada com um amigo e disse-lhe: "Aqui está um homem que, aos 90 anos, vai para a prisão pela paz no mundo. O que estamos, nós, jovens, a fazer aqui sentados a beber café?". Isso foi a inspiração. Eu e o meu amigo fomos aconselhados a partir sem dinheiro porque a paz vem da confiança e a raiz da guerra é o medo. Se queremos paz temos de ter confiança nas pessoas, na Natureza, no universo. Durante dois anos e meio caminhei 13 mil quilómetros sem qualquer dinheiro.
- E como o conseguiu?
- Fiquei em casa de pessoas que ia conhecendo. Quando não tinha dinheiro dizia que era a minha oportunidade para fazer jejum. Se não tinha um tecto, era a oportunidade para dormir sob as estrelas. Antes de partir, na Índia, disseram-me: "Vais a pé, sem dinheiro, podes não regressar". E respondi: "Se morrer enquanto caminhar pela paz isso será a melhor morte que poderei ter". Assim caminhei pelo Paquistão, Afeganistão, Irão, Azerbaijão, Arménia, Geórgia, Rússia, Bielorrússia, Polónia, Alemanha, Bélgica. Em França apanhei um barco, apoiado pelos habitantes de uma pequena localidade, e fui até Inglaterra, onde conheci Bertrand Russell. Ele ajudou com os bilhetes de barco para Nova Iorque. Daí caminhámos até Washington, onde conhecemos Martin Luther King. Foi uma demonstração de que podemos viver sem dinheiro e fazer a paz connosco, com as pessoas e com a Natureza. Neste momento, a Humanidade está em guerra com a Natureza, estamos a destruí-la. E seremos perdedores se vencermos. A menos que façamos a paz com a Natureza não poderá haver paz na Humanidade.
- O que mais o preocupa?
- A minha maior preocupação é que a Humanidade não acorde a tempo de resolver os desafios. Talvez estejamos demasiado obcecados com os nossos padrões de vida, com a dívida, o dinheiro. A sociedade industrial tem lutado pelo crescimento económico a todo o custo. Mas também tenho esperança na Humanidade, num despertar de consciências. Cada vez mais jovens me dizem que temos de cuidar da Terra e que o crescimento económico não é suficiente, precisamos de bemestar. Se as pessoas não estão bem, de que serve o crescimento económico? É um bom começo. Até porque há abundância na Natureza. Quantas azeitonas dá uma oliveira? De uma única semente, lançada à terra centenas de anos antes, obtemos milhões de azeitonas. Isso é a abundância e generosidade da Natureza.
- O alerta para a crise do Ambiente tem mais de meio século. E hoje o problema está longe do fim. É uma mensagem difícil?
- As grandes mudanças constroem-se lentamente. Quanto tempo demorou o apartheid a acabar? Nelson Mandela esteve preso 27 anos. Mas o apartheid acabou. O mesmo se passa com os direitos humanos. Quando estive com Martin Luther King, em 1964, os negros não tinham direito ao voto. Hoje temos um homem negro na Casa Branca. E quanto tempo demorou o muro de Berlim a cair? Muito tempo, uma luta longa. Não sabíamos quando o muro iria cair, quando o apartheid iria acabar. Não precisamos de saber. Estamos a construir um movimento ambiental e o momento vai chegar.
- De que precisamos para ser felizes?
- Aprender uma única palavra: celebração. Temos de celebrar a vida, a Natureza, a abundância humana. As pessoas não são felizes porque não têm tempo para celebrar. Estão sempre ocupadas, vivem demasiado depressa. Os maridos não têm tempo para as mulheres e as mulheres não têm tempo para os maridos. Os pais não têm tempo para os filhos. As pessoas não têm tempo para celebrar a Natureza. É preciso abrandar para chegar mais longe, apreciar o que temos em vez de o ignorar e querer mais. Temos muita roupa no armário, mas ignoramo-la e vamos comprar mais. O mundo tem o suficiente para as necessidades das pessoas, mas não para a sua ganância, disse Mahatma Ghandi. O universo é um grande presente para nós todos.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Crescimento económico e trabalhadores sob o capitalismo
A questão do crescimento económico é crucial para a condição da classe trabalhadora. Sob o capitalismo os trabalhadores têm apenas duas condições em relação a empregos. Um trabalhador ou está a ser explorado por um patrão capitalista ou por alguma instituição do governo e portanto tem um emprego, ou um trabalhador está desempregado. Não há nada de intermediário.
O crescimento da produção capitalista significa que mais trabalhadores são necessários para serem explorados e os serviços precisam expandir-se. Portanto trabalhadores têm empregos, mesmo se cada vez mais destes empregos são de baixo salário, tempo parcial e/ou temporário.
A contradição do crescimento capitalista significa que trabalhadores não necessários para o patronato e são despedidos. As receitas do governo declinam mas os bancos continuam a exigir o seu juro e o principal destes governos e os gastos militares continuam aos milhões de milhões — assim trabalhadores do governo são despedidos.
A mais recente e mais perigosa ameaça para trabalhadores do governo vem do U.S. Postal Service, o qual está a ameaçar despedir 120 mil trabalhadores, encerrar mais de 3000 agência de correio e livrar-se de mais outros 100 mil trabalhadores pelo desgaste.
Superprodução e desemprego
Por que o crescimento do capitalismo estado-unidense está a desacelerar? O patronato está sentado em cima de US$2 milhões de milhões de cash. Por que não está a contratar e, ao invés disso, está a despedir? Não é por causa d incerteza, como afirmam seus apologistas. Não é por causa de regulamentações do governo, tão pouco.
É por causa da contradição fundamental do próprio capitalismo — a superprodução. A produção capitalista cresce cada vez mais rápido quando os patrões aplicam mais tecnologia, aceleram trabalhadores, terciarizam e deslocalizam produção em busca de lucro. Cada vez mais trabalhadores, não só nos Estados Unidos como no mundo todo, produzem cada vez mais em cada vez menos tempo por salários cada vez mais baixos.
O pagamento que os trabalhadores levam para casa não só não aumenta, ele está a diminuir enquanto a produção de mercadorias que devem ser vendidas com um lucro expande-se a um ritmo galopante. O poder consumidor do povo ou se leva a um ritmo de lesam ou realmente vem abaixo.
Quanto mais tecnologia o patronato utiliza, menos e menos trabalhadores ele precisa. Hoje há 131 milhões de trabalhadores em folha de pagamento, o que é menos do que o número de trabalhadores em folha de pagamento no ano 2000. Hoje a economia dos EUA está no mesmo nível de produção que estava em 2007, antes do estouro da bolha habitacional e da crise económica que atingiu o mundo.
Isso significa que os patrões precisam pelo menos 10 a 11 milhões de trabalhadores hoje do que precisavam há quatro anos atrás. Esta é a razão da eliminação de empregos com a tecnologia capitalista e a globalização do sistema de exploração com baixos salários.
Exigência de um maciço programa do governo para o emprego
Está previsto que o presidente Obama faça um discurso sobre "empregos" dentro de poucos dias (*). Este discurso não apresentará um programa que possa inverter o desastre do desemprego no país. O único meio de começar a tratar o desemprego em massa, o qual se tornará pior se houver um novo período de baixa, é lançar um maciço programa de empregos promovido pelo governo.
Tem ser à escala do Works Progress Administration (WPA) durante a Grande Depressão. Sete milhões de trabalhadores receberam empregos e construíram tudo, desde barragens e pontes a parques, escolas e rodovias; eles criaram arte, escreveram peça, plantaram árvores e fizeram trabalho socialmente útil.
Naquela época, tal como hoje, os patrões não contratavam porque numa depressão eles não podiam expandir os seus lucros vendendo o que era produzido. O povo estava sem dinheiro e não podia comprar. Mas, sob a pressão de manifestações em massa de desempregados, greves gerais e tomadas de fábricas, o governo federal foi forçado a tornar-se o empregador principal. Palácios do governo e municipalidades tornaram-se a antecâmara do emprego. Milhões que queriam trabalhar obtiveram trabalho.
Quando uma nova crise ameaça, a única possibilidade de minimizar uma nova onda de despedimentos e reverter o que aconteceu é lançar uma luta maciça por empregos ou rendimento e serviços a todos nível de governo — federal, estadual e local. Os republicanos estão abertamente contra a resolução da crise, enquanto o Partido Democrático também está ligado à Wall Street e nada avançou para o ataque à crise.
Ambos os partidos e governos, a todos os níveis, estão a afirmar que não têm dinheiro. Mas o chamado debate do défice é um debate falso. Trabalhadores, comunidades, juventude e estudantes vêm em primeiro lugar.
O direito dos trabalhadores a um emprego, alimentação, habitação, educação é um direito fundamental, superior aos direitos de milionários e bilionários, superior ao direito de banqueiros viverem à custa de fundos públicos, superior ao direito do complexo militar-industrial ficar rico com lucros de guerra quando expandem guerras de conquista e ocupação.
Uma luta de massa por uma classe trabalhadora mobilizada por toda a parte nas ruas e lugares de trabalho pode começar a sacudir o dinheiro solto nos sacos de dinheiro da classe dominante capitalista. Isto é o único meio de fazer esta crise recuar.
No longo prazo, mesmo um programa governamental de empregos sob o capitalismo pode ser apenas um remendo temporário. O WPA não ultrapassou a depressão; o desemprego em massa prevaleceu até a II Guerra Mundial.
A única solução permanente para a crise de empregos é livrarmo-nos juntos do sistema do lucro e colocar a economia a trabalhar para as necessidades humanas e não para a cobiça humana. A distribuição da riqueza criada pela classe trabalhadora deve ter lugar com base na necessidade social e económica. Isso chama-se socialismo e funciona melhor onde o nível de produtividade é alto — o que é exactamente onde o capitalismo fracassa.
(*) Já o fez.
Articles copyright 1995-2011 Workers World. Verbatim copying and distribution of this entire article is permitted in any medium without royalty provided this notice is preserved.
O original encontra-se em http://www.workers.org/2011/us/workers_crisis_0915/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
O crescimento da produção capitalista significa que mais trabalhadores são necessários para serem explorados e os serviços precisam expandir-se. Portanto trabalhadores têm empregos, mesmo se cada vez mais destes empregos são de baixo salário, tempo parcial e/ou temporário.
A contradição do crescimento capitalista significa que trabalhadores não necessários para o patronato e são despedidos. As receitas do governo declinam mas os bancos continuam a exigir o seu juro e o principal destes governos e os gastos militares continuam aos milhões de milhões — assim trabalhadores do governo são despedidos.
A mais recente e mais perigosa ameaça para trabalhadores do governo vem do U.S. Postal Service, o qual está a ameaçar despedir 120 mil trabalhadores, encerrar mais de 3000 agência de correio e livrar-se de mais outros 100 mil trabalhadores pelo desgaste.
Superprodução e desemprego
Por que o crescimento do capitalismo estado-unidense está a desacelerar? O patronato está sentado em cima de US$2 milhões de milhões de cash. Por que não está a contratar e, ao invés disso, está a despedir? Não é por causa d incerteza, como afirmam seus apologistas. Não é por causa de regulamentações do governo, tão pouco.
É por causa da contradição fundamental do próprio capitalismo — a superprodução. A produção capitalista cresce cada vez mais rápido quando os patrões aplicam mais tecnologia, aceleram trabalhadores, terciarizam e deslocalizam produção em busca de lucro. Cada vez mais trabalhadores, não só nos Estados Unidos como no mundo todo, produzem cada vez mais em cada vez menos tempo por salários cada vez mais baixos.
O pagamento que os trabalhadores levam para casa não só não aumenta, ele está a diminuir enquanto a produção de mercadorias que devem ser vendidas com um lucro expande-se a um ritmo galopante. O poder consumidor do povo ou se leva a um ritmo de lesam ou realmente vem abaixo.
Quanto mais tecnologia o patronato utiliza, menos e menos trabalhadores ele precisa. Hoje há 131 milhões de trabalhadores em folha de pagamento, o que é menos do que o número de trabalhadores em folha de pagamento no ano 2000. Hoje a economia dos EUA está no mesmo nível de produção que estava em 2007, antes do estouro da bolha habitacional e da crise económica que atingiu o mundo.
Isso significa que os patrões precisam pelo menos 10 a 11 milhões de trabalhadores hoje do que precisavam há quatro anos atrás. Esta é a razão da eliminação de empregos com a tecnologia capitalista e a globalização do sistema de exploração com baixos salários.
Exigência de um maciço programa do governo para o emprego
Está previsto que o presidente Obama faça um discurso sobre "empregos" dentro de poucos dias (*). Este discurso não apresentará um programa que possa inverter o desastre do desemprego no país. O único meio de começar a tratar o desemprego em massa, o qual se tornará pior se houver um novo período de baixa, é lançar um maciço programa de empregos promovido pelo governo.
Tem ser à escala do Works Progress Administration (WPA) durante a Grande Depressão. Sete milhões de trabalhadores receberam empregos e construíram tudo, desde barragens e pontes a parques, escolas e rodovias; eles criaram arte, escreveram peça, plantaram árvores e fizeram trabalho socialmente útil.
Naquela época, tal como hoje, os patrões não contratavam porque numa depressão eles não podiam expandir os seus lucros vendendo o que era produzido. O povo estava sem dinheiro e não podia comprar. Mas, sob a pressão de manifestações em massa de desempregados, greves gerais e tomadas de fábricas, o governo federal foi forçado a tornar-se o empregador principal. Palácios do governo e municipalidades tornaram-se a antecâmara do emprego. Milhões que queriam trabalhar obtiveram trabalho.
Quando uma nova crise ameaça, a única possibilidade de minimizar uma nova onda de despedimentos e reverter o que aconteceu é lançar uma luta maciça por empregos ou rendimento e serviços a todos nível de governo — federal, estadual e local. Os republicanos estão abertamente contra a resolução da crise, enquanto o Partido Democrático também está ligado à Wall Street e nada avançou para o ataque à crise.
Ambos os partidos e governos, a todos os níveis, estão a afirmar que não têm dinheiro. Mas o chamado debate do défice é um debate falso. Trabalhadores, comunidades, juventude e estudantes vêm em primeiro lugar.
O direito dos trabalhadores a um emprego, alimentação, habitação, educação é um direito fundamental, superior aos direitos de milionários e bilionários, superior ao direito de banqueiros viverem à custa de fundos públicos, superior ao direito do complexo militar-industrial ficar rico com lucros de guerra quando expandem guerras de conquista e ocupação.
Uma luta de massa por uma classe trabalhadora mobilizada por toda a parte nas ruas e lugares de trabalho pode começar a sacudir o dinheiro solto nos sacos de dinheiro da classe dominante capitalista. Isto é o único meio de fazer esta crise recuar.
No longo prazo, mesmo um programa governamental de empregos sob o capitalismo pode ser apenas um remendo temporário. O WPA não ultrapassou a depressão; o desemprego em massa prevaleceu até a II Guerra Mundial.
A única solução permanente para a crise de empregos é livrarmo-nos juntos do sistema do lucro e colocar a economia a trabalhar para as necessidades humanas e não para a cobiça humana. A distribuição da riqueza criada pela classe trabalhadora deve ter lugar com base na necessidade social e económica. Isso chama-se socialismo e funciona melhor onde o nível de produtividade é alto — o que é exactamente onde o capitalismo fracassa.
(*) Já o fez.
Articles copyright 1995-2011 Workers World. Verbatim copying and distribution of this entire article is permitted in any medium without royalty provided this notice is preserved.
O original encontra-se em http://www.workers.org/2011/us/workers_crisis_0915/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
domingo, 18 de setembro de 2011
O amor que sinto
O amor que sinto
é um labirinto.
Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.
Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".
E porque não minto
sou um labirinto.
José Gomes Ferreira
O amor que sinto
é um labirinto.
Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.
Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".
E porque não minto
sou um labirinto.
José Gomes Ferreira
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Somália, um desastre humano anunciado
1
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
__________________________________________________
Publicado por "Rebelión", em 2011/08/24: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=134533
Tradução do castelhano de MF
Colocado em linha em: 2011/09/11
Somália, um desastre humano anunciado
Edmundo Fayanas Escuer
Este país tem uma extensão de 638 000 km2, sendo um território muito árido e seco.
Tem uma população de quase dez milhões de habitantes, com um rendimento per
capita de 460 dólares anuais. Cerca de 70% dos seus habitantes não têm acesso a
água potável. A desnutrição afecta 17% das crianças e há mais de 400 000 deslocados
internos. Com a actual seca todo este desastre humano disparou. A pesca artesanal é
uma das poucas actividades económicas que permitem à população sobreviver neste
caos somali.
Foi um protectorado britânico e italiano até aos anos sessenta e viveu nos seus
últimos cinquenta anos em conflitos armados contínuos, propiciados pelos diferentes
senhores da guerra.
A Somália está situada no corno de África, ocupando uma posição estratégica de
grande valor, pois está muito perto do estreito de Bab el Mandeb, passagem
fundamental para o comércio mundial, sobretudo para o petrolífero. Além disso, liga
a Arábia Saudita e o mar Vermelho ao golfo de Aden.
Na Somália não se nasce somali, faz-se parte de um clã. Há cinco grandes clãs.
Os hawiya representam 25% da população e ocupam a parte norte e centro, zonas
do sudoeste da Etiópia e do norte do Quénia.
Os ishaak abrangem 23% da população e ocupam a antiga colónia da Somália
britânica, conhecida como Somalilândia. Este grupo actua como um Estado dentro do
Estado, ainda que não seja reconhecido internacionalmente.
Os darod representam 20%, estando situados em Puntland, local onde a lenda situa
o antigo reino de Shaba, e num pedaço da Somalilândia.
O clã dos rahanwein, que apenas abarca 18%, situa-se no centro e sul do país, nas
proximidades de Djibouti e ainda num pedaço da Somalilândia.
O último clã é o mais pequeno, o dos digil, que representam 3%, juntamente com os
bantúes, que são os descendentes dos escravos libertos durante o colonialismo
italiano, a quem chamam loona aaraan, que traduzido significa «ninguém está a
chorar por eles».
2
Em 1993, os Estados Unidos intervêm na Somália sob missão da ONU, com a
desculpa da ajuda humanitária, mas procurando unicamente defender os interesses
das multinacionais petrolíferas norte-americanas (Chevron, Mobil, Amoco…),
instaladas no país desde 1952. A missão «Restaurar a esperança» traduz-se pelo
confronto entre as tropas norte-americanas e os senhores da guerra. Em Outubro de
1993 deu-se a batalha de Mogadíscio, que se saldou pela saída das tropas norteamericanas,
sem terem conseguido nenhum dos objectivos propostos, deixando a
Somália submetida aos senhores da guerra.
Depois da queda do ditador Said Barre, em 1991, centenas de navios de pesca de todo
o mundo viram a possibilidade de pescar livremente nos ricos bancos de pesca
somalis e zonas próximas sem qualquer tipo de controlo (nem de redes, nem de
espécies, nem de custo económico para os armadores), o que propiciou o seu
enriquecimento, em detrimento dos interesses da Somália, saltando sobre os acordos
internacionais sobre águas jurisdicionais dos países. Quem são então os piratas?
Que diriam e fariam os norte-americanos se isto se passasse nas suas
costas?
Abdirahman Ibbi, vice-ministro da pesca do governo somali de transição, considera
que há cerca de 220 pesqueiros estrangeiros pescando nas suas águas e acrescenta:
«a frota pesqueira espanhola também está a pescar ilegalmente nos nossos bancos
de pesca».
Não bastando o escândalo da pesca em águas somalis, as grandes potências usam as
suas águas e o seu território como lixeira de substâncias que os seus países não
querem. Isto tornou-se claro no rescaldo do tsunami de 2005, no Oceano Índico. O
enviado das Nações Unidas na Somália comentou: «A Somália está a ser utilizada
como lixeira de resíduos perigosos desde o começo dos anos noventa e continua a
sê-lo com a guerra civil iniciada nesse país. O lixo é de géneros muito diversos. Há
resíduos radioactivos de urânio e metais pesados, como cádmio e mercúrio. Há
também lixo industrial, resíduos de hospitais, lixo de substâncias químicas e tudo o
que se possa imaginar».
A zona de Puntland, situada no noroeste do país – que foi uma antiga colónia italiana
e se declarou autónoma da Somália em 1998 –, converteu-se num santuário dos
piratas, apoiados maioritariamente pela sua população. Agora os piratas não só
atacam os pesqueiros mas também qualquer tipo de navio.
Depois da sua saída, os norte-americanos financiaram estes senhores da guerra
laicos, que fizeram uma aliança contra os islamitas. O catedrático de história pela
Universidade de Harvard, Niall Ferguson escreve no The Angeles Times: «pelo
menos durante a guerra fria podia dar-se de barato que o nosso filho da puta (o
nosso dirigente anticomunista) imporia uma modalidade brutal de ordem. Agora,
em plena guerra contra o terrorismo, os Estados Unidos preferem um país dividido
entre múltiplos filhos da puta a um país governado pela lei da sharia. Contudo,
quanto mais a política externa de Washington promover a anarquia em vez da
ordem, mais forte será o atractivo dos movimentos islamitas». Isto reforçou o
prestígio dos islamitas, que derrotam em Junho de 2006 os senhores da guerra,
unificando a capital pela primeira vez desde 2001. O seu avanço para o sul fez temer
um contágio ao Quénia e à Tanzânia.
3
Os Tribunais Islâmicos triunfantes puseram ordem no país, o que lhes granjeou
simpatia nos comerciantes e permitiu às ONG voltar a trabalhar.
Os norte-americanos empurraram um dos países mais pobres do mundo, a Etiópia, a
invadir a Somália. Com o apoio norte-americano, derrotaram rapidamente os
Tribunais Islâmicos que tinham conseguido pacificar o país desde 1991. Este
movimento islâmico era uma solução caseira para uma anarquia interminável, devida
em grande parte às intervenções estrangeiras, com origem no passado colonial.
O Pentágono impulsionou a intervenção da Etiópia cristã através de um programa de
ajuda militar desde 2002 e pôs ao seu serviço os meios de reconhecimento aéreo e de
escuta via satélite para a ofensiva somali.
Por que intervém a Etiópia na Somália?
Além de satisfazer os Estados Unidos, procura que a Somália continue instável de
forma a impedi-la de se tornar num país forte que possa reclamar a soberania sobre o
Ogaden, região etíope que se encontra habitada pelo clã dos Hawiya e que provocou
uma guerra entre os dois países (1977-1978).
Enquanto tudo isto sucede, os Estados Unidos, a União Europeia e a comunidade
internacional olham para o lado e permanecem indiferentes à grande dor e miséria
existentes na Somália e calam-se perante os desastres ambientais que provocam.
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
__________________________________________________
Publicado por "Rebelión", em 2011/08/24: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=134533
Tradução do castelhano de MF
Colocado em linha em: 2011/09/11
Somália, um desastre humano anunciado
Edmundo Fayanas Escuer
Este país tem uma extensão de 638 000 km2, sendo um território muito árido e seco.
Tem uma população de quase dez milhões de habitantes, com um rendimento per
capita de 460 dólares anuais. Cerca de 70% dos seus habitantes não têm acesso a
água potável. A desnutrição afecta 17% das crianças e há mais de 400 000 deslocados
internos. Com a actual seca todo este desastre humano disparou. A pesca artesanal é
uma das poucas actividades económicas que permitem à população sobreviver neste
caos somali.
Foi um protectorado britânico e italiano até aos anos sessenta e viveu nos seus
últimos cinquenta anos em conflitos armados contínuos, propiciados pelos diferentes
senhores da guerra.
A Somália está situada no corno de África, ocupando uma posição estratégica de
grande valor, pois está muito perto do estreito de Bab el Mandeb, passagem
fundamental para o comércio mundial, sobretudo para o petrolífero. Além disso, liga
a Arábia Saudita e o mar Vermelho ao golfo de Aden.
Na Somália não se nasce somali, faz-se parte de um clã. Há cinco grandes clãs.
Os hawiya representam 25% da população e ocupam a parte norte e centro, zonas
do sudoeste da Etiópia e do norte do Quénia.
Os ishaak abrangem 23% da população e ocupam a antiga colónia da Somália
britânica, conhecida como Somalilândia. Este grupo actua como um Estado dentro do
Estado, ainda que não seja reconhecido internacionalmente.
Os darod representam 20%, estando situados em Puntland, local onde a lenda situa
o antigo reino de Shaba, e num pedaço da Somalilândia.
O clã dos rahanwein, que apenas abarca 18%, situa-se no centro e sul do país, nas
proximidades de Djibouti e ainda num pedaço da Somalilândia.
O último clã é o mais pequeno, o dos digil, que representam 3%, juntamente com os
bantúes, que são os descendentes dos escravos libertos durante o colonialismo
italiano, a quem chamam loona aaraan, que traduzido significa «ninguém está a
chorar por eles».
2
Em 1993, os Estados Unidos intervêm na Somália sob missão da ONU, com a
desculpa da ajuda humanitária, mas procurando unicamente defender os interesses
das multinacionais petrolíferas norte-americanas (Chevron, Mobil, Amoco…),
instaladas no país desde 1952. A missão «Restaurar a esperança» traduz-se pelo
confronto entre as tropas norte-americanas e os senhores da guerra. Em Outubro de
1993 deu-se a batalha de Mogadíscio, que se saldou pela saída das tropas norteamericanas,
sem terem conseguido nenhum dos objectivos propostos, deixando a
Somália submetida aos senhores da guerra.
Depois da queda do ditador Said Barre, em 1991, centenas de navios de pesca de todo
o mundo viram a possibilidade de pescar livremente nos ricos bancos de pesca
somalis e zonas próximas sem qualquer tipo de controlo (nem de redes, nem de
espécies, nem de custo económico para os armadores), o que propiciou o seu
enriquecimento, em detrimento dos interesses da Somália, saltando sobre os acordos
internacionais sobre águas jurisdicionais dos países. Quem são então os piratas?
Que diriam e fariam os norte-americanos se isto se passasse nas suas
costas?
Abdirahman Ibbi, vice-ministro da pesca do governo somali de transição, considera
que há cerca de 220 pesqueiros estrangeiros pescando nas suas águas e acrescenta:
«a frota pesqueira espanhola também está a pescar ilegalmente nos nossos bancos
de pesca».
Não bastando o escândalo da pesca em águas somalis, as grandes potências usam as
suas águas e o seu território como lixeira de substâncias que os seus países não
querem. Isto tornou-se claro no rescaldo do tsunami de 2005, no Oceano Índico. O
enviado das Nações Unidas na Somália comentou: «A Somália está a ser utilizada
como lixeira de resíduos perigosos desde o começo dos anos noventa e continua a
sê-lo com a guerra civil iniciada nesse país. O lixo é de géneros muito diversos. Há
resíduos radioactivos de urânio e metais pesados, como cádmio e mercúrio. Há
também lixo industrial, resíduos de hospitais, lixo de substâncias químicas e tudo o
que se possa imaginar».
A zona de Puntland, situada no noroeste do país – que foi uma antiga colónia italiana
e se declarou autónoma da Somália em 1998 –, converteu-se num santuário dos
piratas, apoiados maioritariamente pela sua população. Agora os piratas não só
atacam os pesqueiros mas também qualquer tipo de navio.
Depois da sua saída, os norte-americanos financiaram estes senhores da guerra
laicos, que fizeram uma aliança contra os islamitas. O catedrático de história pela
Universidade de Harvard, Niall Ferguson escreve no The Angeles Times: «pelo
menos durante a guerra fria podia dar-se de barato que o nosso filho da puta (o
nosso dirigente anticomunista) imporia uma modalidade brutal de ordem. Agora,
em plena guerra contra o terrorismo, os Estados Unidos preferem um país dividido
entre múltiplos filhos da puta a um país governado pela lei da sharia. Contudo,
quanto mais a política externa de Washington promover a anarquia em vez da
ordem, mais forte será o atractivo dos movimentos islamitas». Isto reforçou o
prestígio dos islamitas, que derrotam em Junho de 2006 os senhores da guerra,
unificando a capital pela primeira vez desde 2001. O seu avanço para o sul fez temer
um contágio ao Quénia e à Tanzânia.
3
Os Tribunais Islâmicos triunfantes puseram ordem no país, o que lhes granjeou
simpatia nos comerciantes e permitiu às ONG voltar a trabalhar.
Os norte-americanos empurraram um dos países mais pobres do mundo, a Etiópia, a
invadir a Somália. Com o apoio norte-americano, derrotaram rapidamente os
Tribunais Islâmicos que tinham conseguido pacificar o país desde 1991. Este
movimento islâmico era uma solução caseira para uma anarquia interminável, devida
em grande parte às intervenções estrangeiras, com origem no passado colonial.
O Pentágono impulsionou a intervenção da Etiópia cristã através de um programa de
ajuda militar desde 2002 e pôs ao seu serviço os meios de reconhecimento aéreo e de
escuta via satélite para a ofensiva somali.
Por que intervém a Etiópia na Somália?
Além de satisfazer os Estados Unidos, procura que a Somália continue instável de
forma a impedi-la de se tornar num país forte que possa reclamar a soberania sobre o
Ogaden, região etíope que se encontra habitada pelo clã dos Hawiya e que provocou
uma guerra entre os dois países (1977-1978).
Enquanto tudo isto sucede, os Estados Unidos, a União Europeia e a comunidade
internacional olham para o lado e permanecem indiferentes à grande dor e miséria
existentes na Somália e calam-se perante os desastres ambientais que provocam.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Estratégias imperialistas
Aclamação para os verdadeiros vitoriosos da revolução de Rupert
por John Pilger
Em 13 de Setembro é inaugurada em Londres uma das maiores feiras de armas do mundo, com o apoio do governo britânico. Em 8 de Setembro, a Câmara de Comércio e Indústria de Londres apresentou uma antevisão intitulada "Médio Oriente: Um mercado vasto para companhias britânicas de defesa e segurança". O patrocinador foi o Royal Bank of Scotland, um grande investidor em bombas de estilhaçamento (cluster). Segundo a Amnistia Internacional, as vítimas de bombas de estilhaçamento são 98 por cento civis e 30 por cento crianças. O Royal Bank of Scotland recebeu £20 milhões de dinheiro público. No anúncio para a festa de armas do banco lê-se: "O Médio Oriente é uma das regiões com o maior número de oportunidades para companhias britânicas de defesa e segurança. A Arábia Saudita... é o principal importador de defesa do mundo, tendo gasto US$56 mil milhões em 2009... uma região muito valiosa a visar".
Tais são as prioridades do governo de Cameron depois da grande vitória "humanitária" na Líbia. Como declarou outrora Margaret Thatcher: "Alegrem-se!" E como os banqueiros e mercadores de armas aumentam a graduação dos seus óculos, não vamos esquecer os heróicos pilotos da RAF que tornaram a Líbia nossa outra vez pela incineração de incontáveis "elementos pró Kadafi" nos seus lares, camas e clínicas, nem os desconhecidos apoiantes da indústria britânica de drones em Menwith Hill , Yorkshire , que, antes e depois do almoço, providenciam a informação de alvos dos drones de modo a que mísseis Hellfire possam arrasar lares e sugar o ar para fora de pulmões, uma especialidade. E aclamações para o sítio de teste de drones da QuinetiQ , em Aberporth, e para a UAV Engines Limited, em Lichfield.
A missão humanitária do ocidente não está totalmente terminada. Cerca de seis meses depois de conseguir uma resolução das Nações Unidas autorizando "a [protecção] de civis e áreas populadas civis sob a ameaça de ataque", a NATO está a despejar bombas de fragmentação sobre Sirte populada por civis e outro "redutos de Kadafi" onde, diz um repórter do Channel 4 New, "até que cortem a cabeça da cobra, os líbios não se sentem seguros". Cito isto não pela sua qualidade Orwelliana mas como um exemplo do papel do jornalismo em justificar antecipadamente os "nossos" banhos de sangue.
Isto é a Revolução de Rupert, afinal de contas. Nestes dias a imprensa de Murdoch já não utiliza a palavra "insurgentes" como pejorativa, como fazia antes. A acção na Líbia, diz The Times, é "uma revolução... tal como as revoluções costumavam ser". Que isto é um golpe de uma ganga de ex-comparsas e espiões de Muammar Kadafi em conluio com a NATO dificilmente é notícia. O auto-designado "líder rebelde", Mustafa Abdul Jalil, era o temido ministro da Justiça de Kadafi. A CIA dirige ou financia a maior parte do resto, incluindo velhos amigos da América, os mujadeen islâmicos que desovaram a al-Qaeda.
Contam aos jornalistas só o que eles precisam saber: que Kadafi estava prestes a cometer "genocídio", do que não há evidência, ao contrário da abundante evidência de massacres "rebeldes" de trabalhadores negros africanos falsamente acusados de serem mercenários. A transferência secreta feita por banqueiros europeus do Banco Central da Líbia de Tripoli para a Bengazi "rebeldes" a fim de controlar os milhares de milhões do petróleo do país foi um roubo gigantesco de pouco interesse.
A totalmente previsível acusação a Kadafi perante o "tribunal internacional" em Haia evoca a charada do agonizante "bombista de Lockerbie", Abdelbaset Ali Mohmed al-Megrahi, cujo "crime odioso" foi posicionado para promover as ambições do ocidente na Líbia. Em 2009, Al-Megrahi foi devolvido à Líbia pela autoridades escocesas não por razões misericordiosas, como foi relatado, mas porque o seu há muito aguardado recurso teria confirmado a sua inocência e descrito como ele foi tramado pelo governo Thatcher, como revelou o memorável desmascaramento de Paul Foot. Como antídoto para a propaganda actual, insto-o a ler uma demolidora perícia forense da "culpa" de el-Melgrahi e seu significado político em Dispatches from the Dark Side: on torture and the death of justice (Verso) da eminente advogada de direitos humanos Gareth Peirce.
Não se deve minimizar a ditadura odiosa de Kadafi, um destino para as "rendições" do MI6 como ficamos agora a saber. Mas o seu ódio não tem relação com a violação do seu país por caricaturas imperiais tais como Nicholas Sarkozy, um islamófobo napoleónico cujos serviços de inteligência quase certamente montaram o golpe contra Kadafi. Telegramas diplomáticos dos EUA divulgados pelo WikiLeaks revelam o pânico do ocidente sobre a recusa de Kadafi a entregar a maior fonte de petróleo na África e as suas aberturas à China e à Rússia.
A propaganda confia não só em Murdoch como também em vozes aparentemente respeitáveis que induzem à amnésia histórica. The Observer, o qual ainda tem de pedir desculpas pela sua catastrófica promoção de não existentes armas de destruição em massa no Iraque, está sob o domínio da "honrosa intervenção" de Sarkozy e Cameron e dos seus motivos "humanitários e emotivos". Seu colunista político Andrew Rawnsley completa um impressionante feito duplo. Como nos recorda o Media Lens, em 2003 Rawnsley escreveu acerca do Iraque: "A portagem da morte não foi tão alta como fora amplamente receado". Um milhão de iraquianos mortos depois, Rawnsley insiste em que, na Líbia "a Grã-Bretanha actuou bem" e "o número de baixas civis infligidas pelos ataques aéreos parece ter sido misericordiosamente ligeiro". Conte isso aos líbios com seres amados aniquilados pelos Hellfires amigos das corporações.
A NATO atacou a Líbia para conter e manipular um levantamento geral árabe que apanhou os dominadores do mundo de surpresa. Ao contrário dos seus vizinhos, Kadafi chegou ao poder pela negação do controle ocidental das riquezas naturais do seu país. Por isto, ele nunca foi esquecido e a oportunidade para o seu fim foi agarrada da maneira habitual, como mostra a história. O historiador americano William Blum tem mantido o registo. Desde a segunda guerra mundial, os Estados Unidos esmagaram ou subverteram movimentos de libertação nacional em 20 países e tentaram derrubar mais de 50 governos, muitos deles democráticos, e lançaram bombas sobre 30 países, e tentaram assassinar mais de 50 líderes estrangeiros.
Alegrem-se! »
O original encontra-se em www.johnpilger.com/articles/hail-to-the-true-victors-of-rupert-s-revolution
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
por John Pilger
Em 13 de Setembro é inaugurada em Londres uma das maiores feiras de armas do mundo, com o apoio do governo britânico. Em 8 de Setembro, a Câmara de Comércio e Indústria de Londres apresentou uma antevisão intitulada "Médio Oriente: Um mercado vasto para companhias britânicas de defesa e segurança". O patrocinador foi o Royal Bank of Scotland, um grande investidor em bombas de estilhaçamento (cluster). Segundo a Amnistia Internacional, as vítimas de bombas de estilhaçamento são 98 por cento civis e 30 por cento crianças. O Royal Bank of Scotland recebeu £20 milhões de dinheiro público. No anúncio para a festa de armas do banco lê-se: "O Médio Oriente é uma das regiões com o maior número de oportunidades para companhias britânicas de defesa e segurança. A Arábia Saudita... é o principal importador de defesa do mundo, tendo gasto US$56 mil milhões em 2009... uma região muito valiosa a visar".
Tais são as prioridades do governo de Cameron depois da grande vitória "humanitária" na Líbia. Como declarou outrora Margaret Thatcher: "Alegrem-se!" E como os banqueiros e mercadores de armas aumentam a graduação dos seus óculos, não vamos esquecer os heróicos pilotos da RAF que tornaram a Líbia nossa outra vez pela incineração de incontáveis "elementos pró Kadafi" nos seus lares, camas e clínicas, nem os desconhecidos apoiantes da indústria britânica de drones em Menwith Hill , Yorkshire , que, antes e depois do almoço, providenciam a informação de alvos dos drones de modo a que mísseis Hellfire possam arrasar lares e sugar o ar para fora de pulmões, uma especialidade. E aclamações para o sítio de teste de drones da QuinetiQ , em Aberporth, e para a UAV Engines Limited, em Lichfield.
A missão humanitária do ocidente não está totalmente terminada. Cerca de seis meses depois de conseguir uma resolução das Nações Unidas autorizando "a [protecção] de civis e áreas populadas civis sob a ameaça de ataque", a NATO está a despejar bombas de fragmentação sobre Sirte populada por civis e outro "redutos de Kadafi" onde, diz um repórter do Channel 4 New, "até que cortem a cabeça da cobra, os líbios não se sentem seguros". Cito isto não pela sua qualidade Orwelliana mas como um exemplo do papel do jornalismo em justificar antecipadamente os "nossos" banhos de sangue.
Isto é a Revolução de Rupert, afinal de contas. Nestes dias a imprensa de Murdoch já não utiliza a palavra "insurgentes" como pejorativa, como fazia antes. A acção na Líbia, diz The Times, é "uma revolução... tal como as revoluções costumavam ser". Que isto é um golpe de uma ganga de ex-comparsas e espiões de Muammar Kadafi em conluio com a NATO dificilmente é notícia. O auto-designado "líder rebelde", Mustafa Abdul Jalil, era o temido ministro da Justiça de Kadafi. A CIA dirige ou financia a maior parte do resto, incluindo velhos amigos da América, os mujadeen islâmicos que desovaram a al-Qaeda.
Contam aos jornalistas só o que eles precisam saber: que Kadafi estava prestes a cometer "genocídio", do que não há evidência, ao contrário da abundante evidência de massacres "rebeldes" de trabalhadores negros africanos falsamente acusados de serem mercenários. A transferência secreta feita por banqueiros europeus do Banco Central da Líbia de Tripoli para a Bengazi "rebeldes" a fim de controlar os milhares de milhões do petróleo do país foi um roubo gigantesco de pouco interesse.
A totalmente previsível acusação a Kadafi perante o "tribunal internacional" em Haia evoca a charada do agonizante "bombista de Lockerbie", Abdelbaset Ali Mohmed al-Megrahi, cujo "crime odioso" foi posicionado para promover as ambições do ocidente na Líbia. Em 2009, Al-Megrahi foi devolvido à Líbia pela autoridades escocesas não por razões misericordiosas, como foi relatado, mas porque o seu há muito aguardado recurso teria confirmado a sua inocência e descrito como ele foi tramado pelo governo Thatcher, como revelou o memorável desmascaramento de Paul Foot. Como antídoto para a propaganda actual, insto-o a ler uma demolidora perícia forense da "culpa" de el-Melgrahi e seu significado político em Dispatches from the Dark Side: on torture and the death of justice (Verso) da eminente advogada de direitos humanos Gareth Peirce.
Não se deve minimizar a ditadura odiosa de Kadafi, um destino para as "rendições" do MI6 como ficamos agora a saber. Mas o seu ódio não tem relação com a violação do seu país por caricaturas imperiais tais como Nicholas Sarkozy, um islamófobo napoleónico cujos serviços de inteligência quase certamente montaram o golpe contra Kadafi. Telegramas diplomáticos dos EUA divulgados pelo WikiLeaks revelam o pânico do ocidente sobre a recusa de Kadafi a entregar a maior fonte de petróleo na África e as suas aberturas à China e à Rússia.
A propaganda confia não só em Murdoch como também em vozes aparentemente respeitáveis que induzem à amnésia histórica. The Observer, o qual ainda tem de pedir desculpas pela sua catastrófica promoção de não existentes armas de destruição em massa no Iraque, está sob o domínio da "honrosa intervenção" de Sarkozy e Cameron e dos seus motivos "humanitários e emotivos". Seu colunista político Andrew Rawnsley completa um impressionante feito duplo. Como nos recorda o Media Lens, em 2003 Rawnsley escreveu acerca do Iraque: "A portagem da morte não foi tão alta como fora amplamente receado". Um milhão de iraquianos mortos depois, Rawnsley insiste em que, na Líbia "a Grã-Bretanha actuou bem" e "o número de baixas civis infligidas pelos ataques aéreos parece ter sido misericordiosamente ligeiro". Conte isso aos líbios com seres amados aniquilados pelos Hellfires amigos das corporações.
A NATO atacou a Líbia para conter e manipular um levantamento geral árabe que apanhou os dominadores do mundo de surpresa. Ao contrário dos seus vizinhos, Kadafi chegou ao poder pela negação do controle ocidental das riquezas naturais do seu país. Por isto, ele nunca foi esquecido e a oportunidade para o seu fim foi agarrada da maneira habitual, como mostra a história. O historiador americano William Blum tem mantido o registo. Desde a segunda guerra mundial, os Estados Unidos esmagaram ou subverteram movimentos de libertação nacional em 20 países e tentaram derrubar mais de 50 governos, muitos deles democráticos, e lançaram bombas sobre 30 países, e tentaram assassinar mais de 50 líderes estrangeiros.
Alegrem-se! »
O original encontra-se em www.johnpilger.com/articles/hail-to-the-true-victors-of-rupert-s-revolution
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
DATAS
Surgiu há umas dezenas de anos atrás um movimento que designamos de "revisionismo histórico". Se bem me lembro as comemorações do bi-centenário da Revolução Francesa serviram de texto e pretexto. Os temas revistos iam desde a revisão da Revolução Francesa até à elaboração do "Livro Negro do Comunismo". A batuta era a mesma, assim com os membros da orquestra. Rever para repor a verdade? Uma dose de verdade sobre um monte de falsificações, à maneira da cereja em cima do bolo. Conheço muita boa gente, entre os historiadores e professores de história, que embarcaram e continuam a embarcados nessa falsificação monumental (todos os horrores do século vinte começaram no "Terror" da Revolução Francesa, ou, pelo menos, nos gulags da Revolução bolchevique. Aldrabam nos números, escamoteiam contextos, omitem os crimes dos seus "amigos".
Vem isto a propósito das comemorações do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. O Império, que controla os meios de comunicação, exportou para o mundo as suas cerimónias. Acontece que foi também num 11 de setembro que o presidente Allende foi assassinado no Chile e centenas de milhar de chilenos fusilados, torturados ou exilados. Desde logo se sabe o que está plenamente comprovado: o golpe que instaurou o Terror foi apadrinhado pelos yanques. Mas não se fala disso. E aquilo de que não se fala, esquece-se. É, pois, oportuno, rever-se este vídeo no youtub:http://www.youtube.com/watch?v=7vrSq4cievs&feature=player_embedded#!
Vem isto a propósito das comemorações do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. O Império, que controla os meios de comunicação, exportou para o mundo as suas cerimónias. Acontece que foi também num 11 de setembro que o presidente Allende foi assassinado no Chile e centenas de milhar de chilenos fusilados, torturados ou exilados. Desde logo se sabe o que está plenamente comprovado: o golpe que instaurou o Terror foi apadrinhado pelos yanques. Mas não se fala disso. E aquilo de que não se fala, esquece-se. É, pois, oportuno, rever-se este vídeo no youtub:http://www.youtube.com/watch?v=7vrSq4cievs&feature=player_embedded#!
domingo, 11 de setembro de 2011
11 de setembro
Hoje é o dia em que apanhamos pelas tvs com uma enxurrada de propaganda e de distracção mórbida. As cadeias da televisão controlada impingem, inoculam, injectam, os elementos que transformam as imagens em espectáculo doentio. As sociedades do espectáculo são isto mesmo: as imagens não são nunca inocentes.
Dez anos depois seria conveniente que todos conhecessemos os autores, os processos, os antecedentes. O acontecimento permanece envolto em mistério, a "caixa negra" não foi aberta. Nem será. Mas sabemos que, propositadamente ou não, foi o pretexto para dez anos de guerras. A vingança do Império? Mais do que isso: a ambição mundial do Império.
Dez anos depois seria conveniente que todos conhecessemos os autores, os processos, os antecedentes. O acontecimento permanece envolto em mistério, a "caixa negra" não foi aberta. Nem será. Mas sabemos que, propositadamente ou não, foi o pretexto para dez anos de guerras. A vingança do Império? Mais do que isso: a ambição mundial do Império.
Subscrever:
Mensagens (Atom)