sexta-feira, 21 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
VOLTAIRE
Filho de abastada família burguesa, estudou com os jesuítas no colégio de Clermont onde revelou-se um aluno brilhante. Frequentou a Societé du Temple, de libertinos e livres pensadores. Por causa de versos irreverentes contra os governantes foi preso na Bastilha (1717-1718), onde iniciou a tragédia “Édipo” (1718) e o “Poema da Liga” (1723). Logo tornou-se rico e célebre, mas uma altercação com o príncipe de Rohan-Chabot valeu-lhe nova prisão e foi obrigado a exilar-se na Inglaterra (1726-1728). Ali, orientou definitivamente sua obra e seu pensamento para uma filosofia reformadora. Celebrou a liberdade em uma tragédia (Brutus, 1730), criticou a guerra (História de Carlos XII, 1731), os dogmas cristãos (Epístola a Urânio, 1733), as falsas glórias literárias (O templo do gosto, 1733) e escreveu um dos livros que mais o projetaram, as “Cartas Filosóficas” ou “Cartas sobre os ingleses”, que criticava o regime político francês, fazendo espirituosas comparações entre a liberdade inglesa e o atraso da França absolutista, clerical e obsoleta. Casou-se esse livro pelas suas autoridades, refugiou-se no castelo de Cirey, onde procurou rejuvenescer a tragédia (Zaire, 1732; A morte de César, 1735; Mérope, 1743). Logrou obter um lugar na Academia Francesa (1746) graças a algumas poesias (Poema de Fontenoy, 1745), e, no mesmo ano, foi para a corte, na condição de historiógrafo real. Convidado por Frederico II, o Grande, da Prússia, foi viver na corte de Potsdam, onde publicou inicialmente um conto “Zadig” (1747) e posteriormente “O século de Luís XIV” (1751) e “Micrômegas” (1752). Em 1753, depois de um conflito com o rei, retirou-se para uma casa perto de Genebra. Ali, chocou ao mesmo tempo os católicos (A donzela de Orléans, 1755), os protestantes (Ensaio sobre os costumes, 1756) e criticou o pensamento de Rousseau (Poema sobre os desastres de Lisboa, 1756). Replicando seus opositores com um conto “Cândido” (1759), refugiou-se em seguida em Fernay. Prosseguiu sua obra escrevendo tragédias (Tancredo, 1760), contos filosóficos dirigidos contra os aproveitadores (Jeannot e Colin, 1764), os abusos políticos (O ingênuo, 1767), a corrupção e a desigualdade das riquezas (O homem de quarenta escudos, 1768), denunciou o fanatismo clerical e as deficiências da justiça, celebrou o triunfo da razão (Tratado sobre a tolerância, 1763; Dicionário filosófico, 1764). Iniciado maçom no dia 7 de março de 1778, mesmo ano de sua morte, numa das cerimônias mais brilhantes da história da maçonaria mundial, a Loja Les Neuf Sœurs, Paris, inicia ao octogenário Voltaire, que ingressa no Templo apoiado no braço de Benjamin Franklin, embaixador dos EUA na França nessa data. A sessão foi dirigida pelo Venerável Mestre Lalande na presença de 250 irmãos. O venerável ancião, orgulho da Europa, foi revestido com o avental que pertenceu a Helvetius e que fora cedido, para a ocasião, pela sua viúva. Chamado a Paris em 1778, foi recebido em triunfo pela Academia e pela Comédie-Française, onde lhe ofereceram um busto. Esgotado, morreu a 30 de maio de 1778.
Voltaire foi um teórico sistemático, mas um propagandista e polemista, que atacou com veemência alguns abusos praticados pelo Antigo Regime. Tinha a visão de que não importava o tamanho de um monarca, deveria, antes de punir um servo, passar por todos os processos legais, e só então executar a pena, se assim consentido por lei. Se um príncipe simplesmente punisse e regesse de acordo com o seu bem-estar, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'".
As ideias presentes nos escritos de Voltaire estruturam uma teoria coerente, mas por vezes contraditória, que em muitos aspectos expressa a perspectiva do Iluminismo.
Defendia a submissão ao domínio da lei, baseava-se em sua convicção de que o poder devia ser exercido de maneira liberal e racional, sem levar em conta as tradições.
Por ter convivido com a liberdade inglesa, não acreditava que um governo e um Estado liberais, tolerantes fossem utópicos. Não era um democrata, e acreditava que as pessoas comuns estavam curvadas ao fanatismo e à superstição. Para ele, a sociedade deveria ser reformada mediante o progresso da razão e o incentivo à ciência e tecnologia. Assim, Voltaire transformou-se num perseguidor ácido dos dogmas, sobretudo os da Igreja Católica, que afirmava contradizer a ciência, no entanto, muitos dos cientistas de seu tempo eram padres jesuítas.
Sobre essa postura, o catedrático de filosofia Carlos Valverde escreve um surpreendente artigo, no qual documenta uma suposta mudança de comportamento do filósofo francês em relação à fé cristã, registrada no tomo XII da famosa revista francesa Correpondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793). Tal texto traz, no número de abril de 1778, páginas 87-88, o seguinte relato literal de Voltaire:
"Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vômito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo podido ir à igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu me confessei com ele, se Deus me perdoava, morro na Santa Religião Católica em que nasci esperando a misericórdia divina que se dignará a perdoar todas minhas faltas, e que se tenho escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela. Assinado: Voltaire, 2 de março de 1778 na casa do marqués de Villete, na presença do senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marqués de Villevielle. Meu amigo."
Este relato foi reconhecido como autêntico por alguns, pois seria confirmado por outros documentos que se encontram no número de junho da mesma revista, esta de cunho laico, decerto, uma vez que editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas. Já outros questionam a necessidade de alguém que já acredita em Deus ter que se converter a uma religião específica, como o catolicismo. No caso de Voltaire não teria ocorrido reconversão.
Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista lhe exalta como "o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição".
A família quis que seus restos repousassem na abadia de Scellieres. Em 2 de junho, o bispo de Troyes, em uma breve nota, proíbe severamente ao prior da abadia que enterre no Sagrado o corpo de Voltaire. Mas no dia seguinte, o prior responde ao bispo que seu aviso chegara tarde, porque - efetivamente - o corpo do filósofo já tinha sido enterrado na abadia. Livros históricos afirmam que ele tentou destruir a Igreja a favor da maçonaria.
A Revolução trouxe em triunfo os restos de Voltaire ao Panteão de Paris - antiga igreja de Santa Genoveva - , dedicada aos grandes homens. Na escura cripta, frente a de seu inimigo Rousseau, permanece até hoje a tumba de Voltaire com este epitáfio:
"Aos louros de Voltaire. A Assembléia Nacional decretou em 30 de maio de 1791 que havia merecido as honras dadas aos grandes homens".
Voltaire introduziu várias reformas na França, como a liberdade de imprensa, tolerância religiosa, tributação proporcional e redução dos privilégios da nobreza e do clero. Mas também foi precursor da Revolução Francesa, ela que instaurou a intolerância, a censura e o aumento dos impostos para financiar as guerras, tanto coloniais, quanto napoleônicas (Europa). Se, em uma obra tão diversificada, Voltaire dava preferência a sua produção épica e trágica, foi, entretanto nos contos e nas cartas que se impôs. Como filósofo, foi o porta voz dos iluministas. Não seria exagero dizer que Voltaire foi o homem mais influente do século XVIII. Seus livros foram lidos por toda a Europa e vários monarcas pediam seus conselhos.
[editar] Obras
Desenho do séc.XVIII que serviu de ilustração a uma das edições do livro Histoire de Charles XII.Édipo, 1718
Mariamne (ou Hérode et Mariamne), 1724
La Henriade, 1728
História de Charles XII, 1730
Brutus, 1730
Zaire, 1732
Le temple du goût, 1733
Cartas Filósoficas, 1734
Adélaïde du Guesclin, 1734
Le fanatisme ou Mahomet, (escrita em 1736, representada em 1741)
Mondain, 1736
Epître sur Newton, 1736
Tratado de Matafísica, 1736
L'Enfant prodigue, 1736
Essai sur la nature du feu, 1738
Elementos da Filosofia de Newton, 1738
Zulime, 1740
Mérope, 1743
Zadig ou o destino, 1748,
Sémiramis 1748
Le monde comme il va, 1748
Nanine, ou le Péjugé vaincu, 1749
Le Siècle de Louis XIV, 1751
Micrômegas, 1752, [ebook][1]
Rome sauvée, 1752
Poème sur le désastre de Lisbonne, 1756
Essai sur les mœurs et l'esprit des Nations, 1756
Histoire des voyages de Scarmentado écrite par lui-même, 1756
Cândido ou o otimismo, 1759, [ebook][2]
Le Caffé ou l'Ecossaise, 1760
Tancredo, 1760
Histoire d'un bon bramin, 1761
La Pucelle d'Orléans, 1762
Tratado sobre a tolerância, 1763
Ce qui plait aux dames, 1764
Dictionnaire philosophique portatif, 1764
Jeannot et Colin, 1764
De l'horrible danger de la lecture, 1765
Petite digression, 1766
Le Philosophe ignorant, 1766
L'ingénu, 1767
L'homme aux 40 écus, 1768
A princesa da Babilônia, 1768, [ebook][3]
Canonisation de saint Cucufin, 1769
Questions sur l'Encyclopédie, 1770
Les lettres de Memmius, 1771
Il faut prendre un parti, 1772
Le Cri du Sang Innocent, 1775
De l'âme, 1776
Dialogues d'Euhémère, 1777
Irene, 1778
Agathocle, 1779
Correspondance avec Vauvenargues, établie en 2006
in wikipédia
Voltaire foi um teórico sistemático, mas um propagandista e polemista, que atacou com veemência alguns abusos praticados pelo Antigo Regime. Tinha a visão de que não importava o tamanho de um monarca, deveria, antes de punir um servo, passar por todos os processos legais, e só então executar a pena, se assim consentido por lei. Se um príncipe simplesmente punisse e regesse de acordo com o seu bem-estar, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'".
As ideias presentes nos escritos de Voltaire estruturam uma teoria coerente, mas por vezes contraditória, que em muitos aspectos expressa a perspectiva do Iluminismo.
Defendia a submissão ao domínio da lei, baseava-se em sua convicção de que o poder devia ser exercido de maneira liberal e racional, sem levar em conta as tradições.
Por ter convivido com a liberdade inglesa, não acreditava que um governo e um Estado liberais, tolerantes fossem utópicos. Não era um democrata, e acreditava que as pessoas comuns estavam curvadas ao fanatismo e à superstição. Para ele, a sociedade deveria ser reformada mediante o progresso da razão e o incentivo à ciência e tecnologia. Assim, Voltaire transformou-se num perseguidor ácido dos dogmas, sobretudo os da Igreja Católica, que afirmava contradizer a ciência, no entanto, muitos dos cientistas de seu tempo eram padres jesuítas.
Sobre essa postura, o catedrático de filosofia Carlos Valverde escreve um surpreendente artigo, no qual documenta uma suposta mudança de comportamento do filósofo francês em relação à fé cristã, registrada no tomo XII da famosa revista francesa Correpondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793). Tal texto traz, no número de abril de 1778, páginas 87-88, o seguinte relato literal de Voltaire:
"Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vômito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo podido ir à igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu me confessei com ele, se Deus me perdoava, morro na Santa Religião Católica em que nasci esperando a misericórdia divina que se dignará a perdoar todas minhas faltas, e que se tenho escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela. Assinado: Voltaire, 2 de março de 1778 na casa do marqués de Villete, na presença do senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marqués de Villevielle. Meu amigo."
Este relato foi reconhecido como autêntico por alguns, pois seria confirmado por outros documentos que se encontram no número de junho da mesma revista, esta de cunho laico, decerto, uma vez que editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas. Já outros questionam a necessidade de alguém que já acredita em Deus ter que se converter a uma religião específica, como o catolicismo. No caso de Voltaire não teria ocorrido reconversão.
Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista lhe exalta como "o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição".
A família quis que seus restos repousassem na abadia de Scellieres. Em 2 de junho, o bispo de Troyes, em uma breve nota, proíbe severamente ao prior da abadia que enterre no Sagrado o corpo de Voltaire. Mas no dia seguinte, o prior responde ao bispo que seu aviso chegara tarde, porque - efetivamente - o corpo do filósofo já tinha sido enterrado na abadia. Livros históricos afirmam que ele tentou destruir a Igreja a favor da maçonaria.
A Revolução trouxe em triunfo os restos de Voltaire ao Panteão de Paris - antiga igreja de Santa Genoveva - , dedicada aos grandes homens. Na escura cripta, frente a de seu inimigo Rousseau, permanece até hoje a tumba de Voltaire com este epitáfio:
"Aos louros de Voltaire. A Assembléia Nacional decretou em 30 de maio de 1791 que havia merecido as honras dadas aos grandes homens".
Voltaire introduziu várias reformas na França, como a liberdade de imprensa, tolerância religiosa, tributação proporcional e redução dos privilégios da nobreza e do clero. Mas também foi precursor da Revolução Francesa, ela que instaurou a intolerância, a censura e o aumento dos impostos para financiar as guerras, tanto coloniais, quanto napoleônicas (Europa). Se, em uma obra tão diversificada, Voltaire dava preferência a sua produção épica e trágica, foi, entretanto nos contos e nas cartas que se impôs. Como filósofo, foi o porta voz dos iluministas. Não seria exagero dizer que Voltaire foi o homem mais influente do século XVIII. Seus livros foram lidos por toda a Europa e vários monarcas pediam seus conselhos.
[editar] Obras
Desenho do séc.XVIII que serviu de ilustração a uma das edições do livro Histoire de Charles XII.Édipo, 1718
Mariamne (ou Hérode et Mariamne), 1724
La Henriade, 1728
História de Charles XII, 1730
Brutus, 1730
Zaire, 1732
Le temple du goût, 1733
Cartas Filósoficas, 1734
Adélaïde du Guesclin, 1734
Le fanatisme ou Mahomet, (escrita em 1736, representada em 1741)
Mondain, 1736
Epître sur Newton, 1736
Tratado de Matafísica, 1736
L'Enfant prodigue, 1736
Essai sur la nature du feu, 1738
Elementos da Filosofia de Newton, 1738
Zulime, 1740
Mérope, 1743
Zadig ou o destino, 1748,
Sémiramis 1748
Le monde comme il va, 1748
Nanine, ou le Péjugé vaincu, 1749
Le Siècle de Louis XIV, 1751
Micrômegas, 1752, [ebook][1]
Rome sauvée, 1752
Poème sur le désastre de Lisbonne, 1756
Essai sur les mœurs et l'esprit des Nations, 1756
Histoire des voyages de Scarmentado écrite par lui-même, 1756
Cândido ou o otimismo, 1759, [ebook][2]
Le Caffé ou l'Ecossaise, 1760
Tancredo, 1760
Histoire d'un bon bramin, 1761
La Pucelle d'Orléans, 1762
Tratado sobre a tolerância, 1763
Ce qui plait aux dames, 1764
Dictionnaire philosophique portatif, 1764
Jeannot et Colin, 1764
De l'horrible danger de la lecture, 1765
Petite digression, 1766
Le Philosophe ignorant, 1766
L'ingénu, 1767
L'homme aux 40 écus, 1768
A princesa da Babilônia, 1768, [ebook][3]
Canonisation de saint Cucufin, 1769
Questions sur l'Encyclopédie, 1770
Les lettres de Memmius, 1771
Il faut prendre un parti, 1772
Le Cri du Sang Innocent, 1775
De l'âme, 1776
Dialogues d'Euhémère, 1777
Irene, 1778
Agathocle, 1779
Correspondance avec Vauvenargues, établie en 2006
in wikipédia
sábado, 15 de outubro de 2011
Tudo para o Capital, nada para o Trabalho
MAIS 7000 MILHÕES € DE RIQUEZA PARA OS PATRÕES, NADA PARA OS TRABALHADORES, CORTE DE 1.682 MILHÕES € NO RENDIMENTO DOS PENSIONISTAS E DE 952 MILHÕES € AOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PUBLICA, MAS OS RENDIMENTOS DO CAPITAL CONTINUAM A SER POUPADOS AOS SACRIFICIOS: eis o que Passos Coelho anunciou
Tal como sucedeu com o subsidio do Natal em que praticamente os atingidos pelo IRS extraordinário foram apenas os trabalhadores e pensionistas, que têm de pagar ainda este ano mais 800 milhões € de IRS segundo as contas do próprio governo, tendo sido poupado os rendimentos do capital (dividendos, juros, mais-valias), também agora Passos Coelho anunciou para 2012 mais medidas de austeridade em que os atingidos são outra vez os trabalhadores, os pensionistas e os aposentados. Novamente os rendimentos de capital (dividendos, juros e mais-valias) ficam imunes aos sacrifícios.
A sobretaxa de IRC a aplicar às empresas com lucros elevados e o novo escalão de IRS aos rendimentos mais elevados foi criada por este governo com o objectivo de enganar a opinião pública. Em primeiro lugar, os valores a obter com elas são irrisórios (menos de 100 milhões € em cada) quando comparamos com os sacrifícios que estão a ser impostos aos trabalhadores e pensionistas. Em segundo lugar, porque não atinge a principal fonte de enriquecimento dos grandes patrões, que são os rendimentos de capital, ou seja, dividendos, mais valias, juros, etc., E estes rendimentos ou continuam isentos (a maioria), ou então aqueles que pagam IRS (apenas uma pequena parcela) estão sujeitos a uma taxa liberatória de 21,5% ou ainda menos que não é aumentada.
Para os grandes patrões não são as remunerações sujeitas a IRS que, embora gigantescas quando comparadas com as recebidas pela generalidade dos trabalhadores, constituem a principal fonte da sua riqueza, já que elas representam apenas uma pequeníssima parcela quando as comparamos com os dividendos, juros, e mais valias que são recebidas através de sociedades gestoras de participações sociais (SGPS) ou de Fundos, ou que são transferidas para empresas que criaram no estrangeiro, como a Amorim Energia sediada na Holanda através da qual recebe os dividendos da GALP, e que, de acordo com a lei fiscal portuguesa (artº 14 e 51 do Código do IRS, e artº 22º, 23º, 27º e 32º do Estatuto dos Benefícios Fiscais), todos eles estão isentas de pagamento de impostos. Para além disso, os grandes patrões facilmente fogem ao escalão mais elevado de IRS: Para isso, basta que reduzam a sua remuneração (até dão um “ar” de que estão a fazer também sacrifícios) e depois recebem esse valor através de dividendos cuja esmagadora maioria continuarão isentos
É evidente que ao poupar novamente os rendimentos do capital, este governo, para além de mostrar o seu espírito de classe, e que interesses defende, vai aumentar ainda mais as desigualdades e a injustiça em Portugal, e as dificuldades das famílias das classes médias e de baixos rendimentos
Para que se possa ficar com uma ideia clara da dimensão desse ataque, e dos benefícios para os patrões, vamos quantificar apenas três das medidas anunciadas por Passos Coelho: o aumento de meia hora de trabalho por dia cuja produção reverte integralmente para os patrões, o corte no subsidio de férias e de Natal aos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€/mês e também aos trabalhadores da Função Pública.com remunerações superiores a 1000 euros/mês.
O AUMENTO DE MEIA HORA NO HORÁRIO DE TRABALHO DIÁRIO DÁ POR ANO AOS PATRÕES MAIS 7.002 MILHÕES € DE RIQUEZA
Se dividirmos o valor do PIB previsto pelo INE para 2011 (171.320,6 milhões €) pela população empregada (4.893.000 portugueses no 2º Trimestre de 2011 segundo o INE) obtém-se 35.013 €/ ano por empregado. Dividindo este valor pelo número médio anual de horas de trabalho obtém 19€/PIB/por hora. Se multiplicarmos este valor pelo número médio de dias de trabalho por ano, e depois por meia hora dia e seguidamente pelo numero de trabalhadores por conta de outrem (3.200.000 sem incluir os trabalhadores da Função Pública) obtém-se 7.002.681.382 de euros. E ainda mais que a redução prevista pelo governo na Taxa Social Única paga pelos patrões. É esta gigantesca riqueza que o governo PSD/CDS pretende dar de mão - beijada aos patrões. Tudo para os patrões, nada para os trabalhadores produtores de riqueza: - este é o lema do governo PSD/CDS.
O GOVERNO DO PSD/CDS PRETENDE FAZER MAIS UM CORTE DE 1.682 MILHÕES NOS RENDIMENTOS DOS PENSIONISTAS E DE 952 MILHÕES NOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PÚBLICA
Em 2011, as pensões de todos os reformados e aposentados foram congeladas. E os preços até Setembro deste ano já aumentaram 3,6%. Em 2012, o governo pretende congelar novamente a esmagadora maioria das pensões (apenas as inferiores ao limiar da pobreza é que poderão ser actualizadas). Como tudo isto já não fosse suficiente o governo pretende ficar com o subsidio de ferias e de Natal dos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€. Em 2012, na Segurança Social estimamos que sejam atingidos cerca de 200.000 reformados com uma pensão média ponderada que rondará os 1890€/mês, e na CGA 235.000 com uma pensão média ponderada de 1970€/mês. Dois meses de pensão para estes 435.000 pensionistas representarão um corte nos seus rendimentos que estimamos em 1.682 milhões euros por ano. Também é intenção do governo ficar com o subsidio férias e de Natal dos trabalhadores da Função Pública em 2012 com remunerações superiores a 1000€/mês. Se tal intenção se concretizar, estes trabalhadores, que nos últimos anos, já perderem cerca de 14% no seu poder de compra sofrerão mais um corte nos seus rendimentos que estimamos em 952,6 milhões € em 2012. Em 2011 estes trabalhadores tiveram suas remunerações congeladas, e em 2012 e em 2013 as suas remunerações continuarão congeladas. Para além disso, os trabalhadores da Função Pública e os pensionistas que recebem mais de 485€ e menos de 1000€ sofrerão um aumento da taxa de IRS igual a um subsidio.
Eugénio Rosa , Economista -14.10.2011, edr2@netcabo.pt
Tal como sucedeu com o subsidio do Natal em que praticamente os atingidos pelo IRS extraordinário foram apenas os trabalhadores e pensionistas, que têm de pagar ainda este ano mais 800 milhões € de IRS segundo as contas do próprio governo, tendo sido poupado os rendimentos do capital (dividendos, juros, mais-valias), também agora Passos Coelho anunciou para 2012 mais medidas de austeridade em que os atingidos são outra vez os trabalhadores, os pensionistas e os aposentados. Novamente os rendimentos de capital (dividendos, juros e mais-valias) ficam imunes aos sacrifícios.
A sobretaxa de IRC a aplicar às empresas com lucros elevados e o novo escalão de IRS aos rendimentos mais elevados foi criada por este governo com o objectivo de enganar a opinião pública. Em primeiro lugar, os valores a obter com elas são irrisórios (menos de 100 milhões € em cada) quando comparamos com os sacrifícios que estão a ser impostos aos trabalhadores e pensionistas. Em segundo lugar, porque não atinge a principal fonte de enriquecimento dos grandes patrões, que são os rendimentos de capital, ou seja, dividendos, mais valias, juros, etc., E estes rendimentos ou continuam isentos (a maioria), ou então aqueles que pagam IRS (apenas uma pequena parcela) estão sujeitos a uma taxa liberatória de 21,5% ou ainda menos que não é aumentada.
Para os grandes patrões não são as remunerações sujeitas a IRS que, embora gigantescas quando comparadas com as recebidas pela generalidade dos trabalhadores, constituem a principal fonte da sua riqueza, já que elas representam apenas uma pequeníssima parcela quando as comparamos com os dividendos, juros, e mais valias que são recebidas através de sociedades gestoras de participações sociais (SGPS) ou de Fundos, ou que são transferidas para empresas que criaram no estrangeiro, como a Amorim Energia sediada na Holanda através da qual recebe os dividendos da GALP, e que, de acordo com a lei fiscal portuguesa (artº 14 e 51 do Código do IRS, e artº 22º, 23º, 27º e 32º do Estatuto dos Benefícios Fiscais), todos eles estão isentas de pagamento de impostos. Para além disso, os grandes patrões facilmente fogem ao escalão mais elevado de IRS: Para isso, basta que reduzam a sua remuneração (até dão um “ar” de que estão a fazer também sacrifícios) e depois recebem esse valor através de dividendos cuja esmagadora maioria continuarão isentos
É evidente que ao poupar novamente os rendimentos do capital, este governo, para além de mostrar o seu espírito de classe, e que interesses defende, vai aumentar ainda mais as desigualdades e a injustiça em Portugal, e as dificuldades das famílias das classes médias e de baixos rendimentos
Para que se possa ficar com uma ideia clara da dimensão desse ataque, e dos benefícios para os patrões, vamos quantificar apenas três das medidas anunciadas por Passos Coelho: o aumento de meia hora de trabalho por dia cuja produção reverte integralmente para os patrões, o corte no subsidio de férias e de Natal aos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€/mês e também aos trabalhadores da Função Pública.com remunerações superiores a 1000 euros/mês.
O AUMENTO DE MEIA HORA NO HORÁRIO DE TRABALHO DIÁRIO DÁ POR ANO AOS PATRÕES MAIS 7.002 MILHÕES € DE RIQUEZA
Se dividirmos o valor do PIB previsto pelo INE para 2011 (171.320,6 milhões €) pela população empregada (4.893.000 portugueses no 2º Trimestre de 2011 segundo o INE) obtém-se 35.013 €/ ano por empregado. Dividindo este valor pelo número médio anual de horas de trabalho obtém 19€/PIB/por hora. Se multiplicarmos este valor pelo número médio de dias de trabalho por ano, e depois por meia hora dia e seguidamente pelo numero de trabalhadores por conta de outrem (3.200.000 sem incluir os trabalhadores da Função Pública) obtém-se 7.002.681.382 de euros. E ainda mais que a redução prevista pelo governo na Taxa Social Única paga pelos patrões. É esta gigantesca riqueza que o governo PSD/CDS pretende dar de mão - beijada aos patrões. Tudo para os patrões, nada para os trabalhadores produtores de riqueza: - este é o lema do governo PSD/CDS.
O GOVERNO DO PSD/CDS PRETENDE FAZER MAIS UM CORTE DE 1.682 MILHÕES NOS RENDIMENTOS DOS PENSIONISTAS E DE 952 MILHÕES NOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PÚBLICA
Em 2011, as pensões de todos os reformados e aposentados foram congeladas. E os preços até Setembro deste ano já aumentaram 3,6%. Em 2012, o governo pretende congelar novamente a esmagadora maioria das pensões (apenas as inferiores ao limiar da pobreza é que poderão ser actualizadas). Como tudo isto já não fosse suficiente o governo pretende ficar com o subsidio de ferias e de Natal dos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€. Em 2012, na Segurança Social estimamos que sejam atingidos cerca de 200.000 reformados com uma pensão média ponderada que rondará os 1890€/mês, e na CGA 235.000 com uma pensão média ponderada de 1970€/mês. Dois meses de pensão para estes 435.000 pensionistas representarão um corte nos seus rendimentos que estimamos em 1.682 milhões euros por ano. Também é intenção do governo ficar com o subsidio férias e de Natal dos trabalhadores da Função Pública em 2012 com remunerações superiores a 1000€/mês. Se tal intenção se concretizar, estes trabalhadores, que nos últimos anos, já perderem cerca de 14% no seu poder de compra sofrerão mais um corte nos seus rendimentos que estimamos em 952,6 milhões € em 2012. Em 2011 estes trabalhadores tiveram suas remunerações congeladas, e em 2012 e em 2013 as suas remunerações continuarão congeladas. Para além disso, os trabalhadores da Função Pública e os pensionistas que recebem mais de 485€ e menos de 1000€ sofrerão um aumento da taxa de IRS igual a um subsidio.
Eugénio Rosa , Economista -14.10.2011, edr2@netcabo.pt
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
compras – um extremismo que nunca diz o seu nome
John Pilger
13.Out.11
Um gigantesco centro comercial será um dos lugares simbólicos da cidade olímpica construída para os Jogos Olímpicos de Londres. Construído numa antiga zona industrial desactivada, é a imagem de uma sociedade em que a sobreprodução coexiste com o sobreconsumo, cuja prioridade é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.
Procurando uma livraria que já lá não estava, entrei num labirinto desenhado como uma verdadeira armadilha. Sair dali tornou-se uma ilusão distante, tal como Alice quando passou para o outro lado do espelho. As paredes de vidro curvavam-se em círculos concêntricos enquanto uma “loja” se fundia com outra: a Armani tornava-se a Dinki Di Pies. As “saídas” desembocavam num sem número de novas “ofertas” e “oportunidades únicas”. Ao procurar direcções acabei por comprar um par de óculos de sol: qualquer coisa para sair dali. Era uma visão do inferno. Trata-se do mega centro comercial de Westfield.
Isto passou-se em Sidney – onde começou o império Westfield – num centro comercial que não tem nem a metade do tamanho daquele que abriram em Stratford, East London, em 13 de Setembro último. Ali podemos encontrar “Tudo”, como dizia Jonathan Glancey, um crítico de arquitectura: da Apple à Primark, do MacDonald’s ao KFC e ao Krispy Kreme. Há um cinema com 17 salas e com “luxuosos lugares vip” e uma gigantesca e não menos luxuosa sala de bowling. Tracey Emin e Mary Portas são os nomes de quem dirige a “equipa cultural” da Westfield. O maior casino lá do sítio olhará de cima uma rua “24-hour lifestyle ” a que chamam The Arcade. Essa mesma via será a única forma de acesso aos Jogos Olímpicos de 2012 por onde terão de passar 10 milhões de pessoas. A mensagem simples e grotesca do “compra, compra” foi aquela escolhida por Londres para acolher o mundo.
“Se virem o filme da Disney Wall-E”, escrevia Glancey em 2008, “certamente reconhecerão Westfield e centros comerciais do mesmo género. No filme os humanos, tendo abandonado o planeta terra que a sua própria ganância destruíra, vivem uma vida absolutamente sedentária que se resume a comer e consumir. Têm um corpo redondo e atarracado e perderam totalmente o uso das suas pernas. Será que é assim que vamos acabar? Ou será que vamos cair nas profundezas de uma recessão gigantesca… sem nada com que comprar nem onde comprar?” Numa imediaticidade menos apocalíptica, Westfield é “um passo rumo ao nosso desejo colectivo de destruir a vida e a cultura tradicional das nossas cidades, assim como a sua arquitectura, comprando cada vez mais.”
O plano inicial de desenvolvimento da cidade de Stratfor invocava Barcelona: uma grelha bem definida de ruas de lojas e habitações. Moderna, civilizada. Depois disso os Olímpicos impuseram-se e com eles a Westfield, uma grande corporação patrocinadora do evento. O mega centro comercial, o maior da Europa por sinal, foi construído no meio de um nevoeiro de grandes blocos de apartamentos não muito longe dos locais onde ocorreram os distúrbios recentes. Os seus produtos de “designer”, feitos à custa da mais barata e arregimentada mão-de-obra, são chamativos para os mais endividados. O facto de situar-se num local onde os trabalhadores londrinos costumavam produzir comboios – milhares de carruagens, locomotivas, vagões comerciais – naquilo a que outrora se chamou produzir, desperta-nos um interesse melancólico. Os empregos do mega centro comercial não produzem absolutamente nada e são muito mal pagos. É um símbolo destes nossos tempos extremos.
Frank Lowy é co-fundador da Westfield, bilionário israelense-australiano, está para o comércio como Robert Murdoch para os media. Westfield é proprietário ou tem participações em mais de 120 centros comerciais em todo o mundo. A torre de Sydney, a estrutura mais visível da cidade, tem estampado o seu nome: “Westfield”. Lowy, um antigo comando israelita, doa milhões ao estado de Israel e em 2003 fundou o “independente” Instituto Lowy para as Relações Internacionais (Lowy Institute for Foreing Affairs) que promove a política externa de Israel e dos Estados Unidos.
No mesmo dia em que abriu o centro comercial de Stratford, os investigadores de Unicef afirmavam em relatório que as crianças britânicas eram apanhadas numa “armadilha materialista” que consistia em “comprá-los” com produtos de marca. Os pais de rendimento reduzido sentiam “uma pressão tremenda da sociedade” para comprar “roupas de marca, sapatilhas de marca e tecnologia” para as suas crianças. À publicidade televisiva e outras formas de sedução da “cultura do consumo” juntam-se os baixos rendimentos e longas horas de trabalho, como responsáveis pela situação. As crianças contaram aos investigadores que prefeririam passar mais tempo com a sua família e ter mais actividades ao ar livre, mas isto na maior parte das vezes não era possível. Assim como “segurança social” se tornou numa palavra maldita, também o equipamento social para os jovens e as associações juvenis estão a ser progressivamente eliminadas pelas autoridades locais.
Há quatro anos atrás a Unicef publicou uma tabela relativa ao bem-estar das crianças em 21 países industrializados. O Reino Unido encontrava-se no fim da tabela. Um quinto das crianças britânicas vive na pobreza: um número que se prevê aumentar no ano das Olimpíadas. A prioridade da classe política britânica, independentemente do partido, é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.
É um extremismo que castra as sociais-democracias, que foram a redenção europeia do pós-guerra. O empobrecimento forçado da Grécia, com as exorbitantes contrapartidas exigidas pela banca alemã e francesa, levará provavelmente a outro golpe fascista. O empobrecimento forçado de milhões de britânicos levado a cabo pelo “antigo regime” de David Cameron, com o seu crescente estado policial e burguesia complacente, especialmente nos media, produzirá mais motins: nada é mais certo. Poderemos contar com o extremismo do apartheid para despoletar tal resultado, e pouco importará o lustro consumista hermeticamente fechado num gigantesco centro comercial. Perspectiva-se uma democracia para os ricos e totalitarismo para os pobres, e não só; e claro “intervenção liberal”, como lhe chamou num tom aprovador o The Guardian, para aquelas regiões demasiado frágeis para resistirem à “precisão” dos nossos mísseis Brimstone.
Fui noutro dia ao Parliament Square. O gráfico que mostrava os crimes estatais, da autoria do activista pela paz e justiça Brian Haw, fora finalmente retirado pela polícia metropolitana. Ela sabia que Brian já não lhes podia fazer frente, tanto física como legalmente, como o fizera durante uma década. Brian morreu em Junho passado. Ao visitá-lo durante um natal gélido, fiquei emocionado pela maneira como persuadia os mais simples transeuntes e com a força da sua coragem. Necessitamos agora de milhões como ele. Urgentemente.
22/Setembro/2011
O original encontra-se em www.johnpilger.com/ . Tradução de MQ.
in O Diário
13.Out.11
Um gigantesco centro comercial será um dos lugares simbólicos da cidade olímpica construída para os Jogos Olímpicos de Londres. Construído numa antiga zona industrial desactivada, é a imagem de uma sociedade em que a sobreprodução coexiste com o sobreconsumo, cuja prioridade é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.
Procurando uma livraria que já lá não estava, entrei num labirinto desenhado como uma verdadeira armadilha. Sair dali tornou-se uma ilusão distante, tal como Alice quando passou para o outro lado do espelho. As paredes de vidro curvavam-se em círculos concêntricos enquanto uma “loja” se fundia com outra: a Armani tornava-se a Dinki Di Pies. As “saídas” desembocavam num sem número de novas “ofertas” e “oportunidades únicas”. Ao procurar direcções acabei por comprar um par de óculos de sol: qualquer coisa para sair dali. Era uma visão do inferno. Trata-se do mega centro comercial de Westfield.
Isto passou-se em Sidney – onde começou o império Westfield – num centro comercial que não tem nem a metade do tamanho daquele que abriram em Stratford, East London, em 13 de Setembro último. Ali podemos encontrar “Tudo”, como dizia Jonathan Glancey, um crítico de arquitectura: da Apple à Primark, do MacDonald’s ao KFC e ao Krispy Kreme. Há um cinema com 17 salas e com “luxuosos lugares vip” e uma gigantesca e não menos luxuosa sala de bowling. Tracey Emin e Mary Portas são os nomes de quem dirige a “equipa cultural” da Westfield. O maior casino lá do sítio olhará de cima uma rua “24-hour lifestyle ” a que chamam The Arcade. Essa mesma via será a única forma de acesso aos Jogos Olímpicos de 2012 por onde terão de passar 10 milhões de pessoas. A mensagem simples e grotesca do “compra, compra” foi aquela escolhida por Londres para acolher o mundo.
“Se virem o filme da Disney Wall-E”, escrevia Glancey em 2008, “certamente reconhecerão Westfield e centros comerciais do mesmo género. No filme os humanos, tendo abandonado o planeta terra que a sua própria ganância destruíra, vivem uma vida absolutamente sedentária que se resume a comer e consumir. Têm um corpo redondo e atarracado e perderam totalmente o uso das suas pernas. Será que é assim que vamos acabar? Ou será que vamos cair nas profundezas de uma recessão gigantesca… sem nada com que comprar nem onde comprar?” Numa imediaticidade menos apocalíptica, Westfield é “um passo rumo ao nosso desejo colectivo de destruir a vida e a cultura tradicional das nossas cidades, assim como a sua arquitectura, comprando cada vez mais.”
O plano inicial de desenvolvimento da cidade de Stratfor invocava Barcelona: uma grelha bem definida de ruas de lojas e habitações. Moderna, civilizada. Depois disso os Olímpicos impuseram-se e com eles a Westfield, uma grande corporação patrocinadora do evento. O mega centro comercial, o maior da Europa por sinal, foi construído no meio de um nevoeiro de grandes blocos de apartamentos não muito longe dos locais onde ocorreram os distúrbios recentes. Os seus produtos de “designer”, feitos à custa da mais barata e arregimentada mão-de-obra, são chamativos para os mais endividados. O facto de situar-se num local onde os trabalhadores londrinos costumavam produzir comboios – milhares de carruagens, locomotivas, vagões comerciais – naquilo a que outrora se chamou produzir, desperta-nos um interesse melancólico. Os empregos do mega centro comercial não produzem absolutamente nada e são muito mal pagos. É um símbolo destes nossos tempos extremos.
Frank Lowy é co-fundador da Westfield, bilionário israelense-australiano, está para o comércio como Robert Murdoch para os media. Westfield é proprietário ou tem participações em mais de 120 centros comerciais em todo o mundo. A torre de Sydney, a estrutura mais visível da cidade, tem estampado o seu nome: “Westfield”. Lowy, um antigo comando israelita, doa milhões ao estado de Israel e em 2003 fundou o “independente” Instituto Lowy para as Relações Internacionais (Lowy Institute for Foreing Affairs) que promove a política externa de Israel e dos Estados Unidos.
No mesmo dia em que abriu o centro comercial de Stratford, os investigadores de Unicef afirmavam em relatório que as crianças britânicas eram apanhadas numa “armadilha materialista” que consistia em “comprá-los” com produtos de marca. Os pais de rendimento reduzido sentiam “uma pressão tremenda da sociedade” para comprar “roupas de marca, sapatilhas de marca e tecnologia” para as suas crianças. À publicidade televisiva e outras formas de sedução da “cultura do consumo” juntam-se os baixos rendimentos e longas horas de trabalho, como responsáveis pela situação. As crianças contaram aos investigadores que prefeririam passar mais tempo com a sua família e ter mais actividades ao ar livre, mas isto na maior parte das vezes não era possível. Assim como “segurança social” se tornou numa palavra maldita, também o equipamento social para os jovens e as associações juvenis estão a ser progressivamente eliminadas pelas autoridades locais.
Há quatro anos atrás a Unicef publicou uma tabela relativa ao bem-estar das crianças em 21 países industrializados. O Reino Unido encontrava-se no fim da tabela. Um quinto das crianças britânicas vive na pobreza: um número que se prevê aumentar no ano das Olimpíadas. A prioridade da classe política britânica, independentemente do partido, é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.
É um extremismo que castra as sociais-democracias, que foram a redenção europeia do pós-guerra. O empobrecimento forçado da Grécia, com as exorbitantes contrapartidas exigidas pela banca alemã e francesa, levará provavelmente a outro golpe fascista. O empobrecimento forçado de milhões de britânicos levado a cabo pelo “antigo regime” de David Cameron, com o seu crescente estado policial e burguesia complacente, especialmente nos media, produzirá mais motins: nada é mais certo. Poderemos contar com o extremismo do apartheid para despoletar tal resultado, e pouco importará o lustro consumista hermeticamente fechado num gigantesco centro comercial. Perspectiva-se uma democracia para os ricos e totalitarismo para os pobres, e não só; e claro “intervenção liberal”, como lhe chamou num tom aprovador o The Guardian, para aquelas regiões demasiado frágeis para resistirem à “precisão” dos nossos mísseis Brimstone.
Fui noutro dia ao Parliament Square. O gráfico que mostrava os crimes estatais, da autoria do activista pela paz e justiça Brian Haw, fora finalmente retirado pela polícia metropolitana. Ela sabia que Brian já não lhes podia fazer frente, tanto física como legalmente, como o fizera durante uma década. Brian morreu em Junho passado. Ao visitá-lo durante um natal gélido, fiquei emocionado pela maneira como persuadia os mais simples transeuntes e com a força da sua coragem. Necessitamos agora de milhões como ele. Urgentemente.
22/Setembro/2011
O original encontra-se em www.johnpilger.com/ . Tradução de MQ.
in O Diário
O Silva das vacas
Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com
vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e
seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por
vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redações
sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era,
assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que,
pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia,
o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero
vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava
no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu,
num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra
forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:
"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas
atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de
pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é
cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas
para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois
cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz
muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é
burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na
doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como
as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro,
embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto
o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em
que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do
boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai
o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O
meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não
entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao
boi."
Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a
brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada
a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.
Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria
"gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta
vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura
com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas,
estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar
verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que
viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente
produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada
metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu
necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem
seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João
Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito
presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a
fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em
que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este
homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo
"sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a
ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos
de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem
da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!
Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de
uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da
Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as
vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam
deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a
ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada
ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas !!!
Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação
freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de
uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há
meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento
personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente
"ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais
nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem
proveito.
A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr.
Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio
que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva
das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.
Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 05 de Outubro de 2011
vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e
seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por
vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redações
sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era,
assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que,
pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia,
o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero
vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava
no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu,
num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra
forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:
"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas
atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de
pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é
cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas
para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois
cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz
muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é
burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na
doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como
as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro,
embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto
o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em
que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do
boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai
o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O
meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não
entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao
boi."
Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a
brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada
a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.
Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria
"gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta
vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura
com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas,
estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar
verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que
viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente
produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada
metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu
necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem
seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João
Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito
presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a
fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em
que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este
homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo
"sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a
ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos
de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem
da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!
Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de
uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da
Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as
vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam
deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a
ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada
ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas !!!
Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação
freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de
uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há
meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento
personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente
"ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais
nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem
proveito.
A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr.
Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio
que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva
das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.
Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 05 de Outubro de 2011
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Guerras benditas
por Manlio Dinucci
"...Portugal é consciente da sua missão evangelizadora. E sofre ao ver que ela não é compreendida nem apreciada, e até tentam contestar-lha" (OP, VI, 388). Cardeal Cerejeira, em "Nota Pastoral sobre o Ultramar Português", de 13 de Janeiro de 1961
"O comunismo, com o qual nenhum católico pode colaborar, assesta contra a nossa Pátria todas as suas peças de assalto". "Nota Pastoral de Confiança e Exortação Nacional", 20 de Janeiro de 1962, redigida pelo Cardeal Cerejeira a seguir à ocupação de Goa pela Índia.
A conservação da herança colonial foi confiada a Portugal pela "Providência divina" (Cardeal Gonçalves Cerejeira, 1964, 387)
O padre Guilherme Guimarães Peixoto, de 35 anos, da paróquia de S. Dâmaso, em Guimarães, partiu para o Afeganistão a fim de integrar a Força de Reacção Rápida do Exército Português ao serviço da NATO (Quick Reaction Force/International Secutrity Assistance Force 2010 -QRF/FND/ISAF 2010).
"Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar", Aníbal Cavaco Silva, 15 de Março de 2011.
Monsenhor Vincenzo Pelvi, arcebispo ordinário militar e director da revista do Ordinariato [italiano] Bonus Miles Christi [O Bom Soldado de Cristo), experimenta "amargura e mal-estar" face "àqueles que invocam a dissolução das forças armadas e a objecção contra as despesas militares". Estes descrentes não compreendem que "o mundo militar contribui para a edificação de uma cultura de responsabilidade global, que se enraíza na lei natural e encontra o seu fundamento último na unidade do género humano". Do Afeganistão à Líbia, "a Itália, com os seus soldados, continua a desempenhar o seu papel para promover a estabilidade, o desarmamento, o desenvolvimento e sustentar por toda a parte a causa dos direitos humanos". O militar presta assim "um serviço em benefício de todo o homem, tornando-se o protagonista de um grande movimento de caridade tanto no seu país como em outras nações" ( Avvenire, 2/Junho/2010).
Monsenhor Pelvi perpetua assim a tradição histórica das hierarquias eclesiásticas de abençoar os exércitos e as guerras. Há um século, em 1911, na igreja de Santo Stefano dos Cavaleiros, em Pisa, decorado com bandeiras tomadas aos turcos no século XVI, o cardeal Maffi exortava os soldados de infantaria italianos, em partida para a guerra da Líbia, a "cruzar as baionetas com a cimitarras" para trazer à igreja "outras bandeiras irmãs" e assim "cobrir a Itália, nossa terra, com novas glórias". E a 2/Outubro/1935, quando Mussolini anunciava a guerra da Etiópia, Monsenhor Cazzani, bispo de Cremona, declarava na sua pastoral: "Verdadeiros cristãos, oremos por este pobre povo da Etiópia, para que ele se persuada a abrir suas portas ao progresso da humanidade e a conceder as terras, que ele não sabe e não pode fazer frutificar, aos braços exuberantes de um outro povo mais numeroso e mais avançado". A 28 de Outubro, celebrando no Domo de Milão o 13º aniversário da marcha sobre Roma, o cardeal Schuster exortava: "Cooperemos com Deus, nesta missão nacional e católica do bem, neste momento em que, sobre os campos da Etiópia, o estandarte da Itália leva em triunfo a Cruz de Cristo e rompe as cadeias dos escravos. Invoquemos a bênção e a protecção do Senhor sobre o nosso incomparável Condottiere". A 8 de Novembro, Monsenhor Valeri, arcebispo de Brindisi e Ostumi, explicava na sua pastoral: "A Itália não pedia senão um pouco de espaço para os seus filhos, em tamanho aumento que formavam uma grande Nação de mais de 45 milhões de habitante, e ela pedia a um povo cinco vezes menos numeroso que o nosso e que detém, não se sabe porque e com que direito, uma extensão de território quatro vezes maior que a Itália sem que saiba explorar os tesouros com que a enriqueceu a Providência em benefício do homem. Durante numerosos anos houve paciência, suportando agressões e abusos e, quando não se podia mais, tivemos de recorrer ao direito das armas, fomos julgados agressores".
Na trilha desta tradição, dom Vicenzo Caiazzo – que tem sua paróquia no porta-aviões Garibaldi, onde celebra a missa no hangar dos caças que bombardeiam a Líbia – assegura que "a Itália está em vias de proteger os direitos humanos e dos povos, é por isso que estamos no mar" ( Oggi, 29/Junho/2011). "Os valores militares – explica ele – vão lado a lado com os valores cristãos".
Pobre Cristo.
06/Outubro/2011
O original encontra-se em il manifesto, edição de 4/Outubro/2011 e a versão em francês em
http://www.legrandsoir.info/guerres-benies-il-manifesto.html
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
"...Portugal é consciente da sua missão evangelizadora. E sofre ao ver que ela não é compreendida nem apreciada, e até tentam contestar-lha" (OP, VI, 388). Cardeal Cerejeira, em "Nota Pastoral sobre o Ultramar Português", de 13 de Janeiro de 1961
"O comunismo, com o qual nenhum católico pode colaborar, assesta contra a nossa Pátria todas as suas peças de assalto". "Nota Pastoral de Confiança e Exortação Nacional", 20 de Janeiro de 1962, redigida pelo Cardeal Cerejeira a seguir à ocupação de Goa pela Índia.
A conservação da herança colonial foi confiada a Portugal pela "Providência divina" (Cardeal Gonçalves Cerejeira, 1964, 387)
O padre Guilherme Guimarães Peixoto, de 35 anos, da paróquia de S. Dâmaso, em Guimarães, partiu para o Afeganistão a fim de integrar a Força de Reacção Rápida do Exército Português ao serviço da NATO (Quick Reaction Force/International Secutrity Assistance Force 2010 -QRF/FND/ISAF 2010).
"Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar", Aníbal Cavaco Silva, 15 de Março de 2011.
Monsenhor Vincenzo Pelvi, arcebispo ordinário militar e director da revista do Ordinariato [italiano] Bonus Miles Christi [O Bom Soldado de Cristo), experimenta "amargura e mal-estar" face "àqueles que invocam a dissolução das forças armadas e a objecção contra as despesas militares". Estes descrentes não compreendem que "o mundo militar contribui para a edificação de uma cultura de responsabilidade global, que se enraíza na lei natural e encontra o seu fundamento último na unidade do género humano". Do Afeganistão à Líbia, "a Itália, com os seus soldados, continua a desempenhar o seu papel para promover a estabilidade, o desarmamento, o desenvolvimento e sustentar por toda a parte a causa dos direitos humanos". O militar presta assim "um serviço em benefício de todo o homem, tornando-se o protagonista de um grande movimento de caridade tanto no seu país como em outras nações" ( Avvenire, 2/Junho/2010).
Monsenhor Pelvi perpetua assim a tradição histórica das hierarquias eclesiásticas de abençoar os exércitos e as guerras. Há um século, em 1911, na igreja de Santo Stefano dos Cavaleiros, em Pisa, decorado com bandeiras tomadas aos turcos no século XVI, o cardeal Maffi exortava os soldados de infantaria italianos, em partida para a guerra da Líbia, a "cruzar as baionetas com a cimitarras" para trazer à igreja "outras bandeiras irmãs" e assim "cobrir a Itália, nossa terra, com novas glórias". E a 2/Outubro/1935, quando Mussolini anunciava a guerra da Etiópia, Monsenhor Cazzani, bispo de Cremona, declarava na sua pastoral: "Verdadeiros cristãos, oremos por este pobre povo da Etiópia, para que ele se persuada a abrir suas portas ao progresso da humanidade e a conceder as terras, que ele não sabe e não pode fazer frutificar, aos braços exuberantes de um outro povo mais numeroso e mais avançado". A 28 de Outubro, celebrando no Domo de Milão o 13º aniversário da marcha sobre Roma, o cardeal Schuster exortava: "Cooperemos com Deus, nesta missão nacional e católica do bem, neste momento em que, sobre os campos da Etiópia, o estandarte da Itália leva em triunfo a Cruz de Cristo e rompe as cadeias dos escravos. Invoquemos a bênção e a protecção do Senhor sobre o nosso incomparável Condottiere". A 8 de Novembro, Monsenhor Valeri, arcebispo de Brindisi e Ostumi, explicava na sua pastoral: "A Itália não pedia senão um pouco de espaço para os seus filhos, em tamanho aumento que formavam uma grande Nação de mais de 45 milhões de habitante, e ela pedia a um povo cinco vezes menos numeroso que o nosso e que detém, não se sabe porque e com que direito, uma extensão de território quatro vezes maior que a Itália sem que saiba explorar os tesouros com que a enriqueceu a Providência em benefício do homem. Durante numerosos anos houve paciência, suportando agressões e abusos e, quando não se podia mais, tivemos de recorrer ao direito das armas, fomos julgados agressores".
Na trilha desta tradição, dom Vicenzo Caiazzo – que tem sua paróquia no porta-aviões Garibaldi, onde celebra a missa no hangar dos caças que bombardeiam a Líbia – assegura que "a Itália está em vias de proteger os direitos humanos e dos povos, é por isso que estamos no mar" ( Oggi, 29/Junho/2011). "Os valores militares – explica ele – vão lado a lado com os valores cristãos".
Pobre Cristo.
06/Outubro/2011
O original encontra-se em il manifesto, edição de 4/Outubro/2011 e a versão em francês em
http://www.legrandsoir.info/guerres-benies-il-manifesto.html
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Opinião de Carvalho da Silva (CGTP)
Qual o caminho da Europa?
2011-10-08
Para onde caminha a União Europeia (UE) quando as suas políticas agravam aceleradamente as condições de vida da esmagadora maioria dos seus cidadãos, acentuam desigualdades, rompem solidariedades, amesquinham povos cuja história milenar constituiu alicerces do que se enuncia como cultura europeia?
Insisto na ideia de que só uma forte mobilização dos trabalhadores e dos povos (em particular das gerações mais jovens) pode travar o desastre e forçar o surgimento de políticas novas, libertar as sociedades do neoliberalismo e neoconservadorismo dominantes, que submeteram os partidos do chamado "arco do poder" e não têm deixado condições para projectos à esquerda se afirmarem.
É imperiosa a luta por um projecto europeu solidário, universalista, sólido em valores humanos e respeitador da história e cultura dos seus povos, quer numa perspectiva reformista quer na busca de sistemas políticos alternativos a este capitalismo que vai somando contradições e dimensões de crise.
Nos Estados Unidos da América cresce o movimento, particularmente jovem, que reivindica: "a Wall Street deve pagar pelos danos que fez à economia". O presidente da Federação Americana do Trabalho (AFL-CIO) - central sindical cujo percurso até tem algumas nódoas - perante as desigualdades que marcam o seu país, já veio a público, e bem, apoiar os manifestantes e afirmar: "O 1% dos mais ricos controla a economia, lucra à custa dos trabalhadores e domina o debate político. Wall Street simboliza esta verdade simples: um pequeno grupo de pessoas tem nas suas mãos as vidas e meios de subsistência dos trabalhadores americanos". Ali, como na Europa, é caso para perguntar: onde está a soberania dos povos?
Na UE é ignóbil a forma como estão a lidar com o problema das dívidas soberanas e designadamente com a situação da Grécia - país que vai na frente na queda para o precipício, mas acompanhado por outros.
Em nome da necessária estabilização da Banca, será que se prepara novo roubo aos orçamentos dos estados, continuando os accionistas a agir sem controlo público e sem garantir apoio ao investimento produtivo?
É um escândalo observarmos como, mesmo quando os cidadãos estão a ser violentamente sacrificados e a economia atrofiada, os grandes accionistas dos grupos financeiros e de certos sectores de actividade a que deitaram mão, continuem a distribuir entre si milhões e milhões de lucros.
Transformaram o sector financeiro numa espécie de "vaca leiteira", sempre produtiva porque bem alimentada pela exploração de quem trabalha e pelo corte nos direitos sociais. Assim não há resolução para as "dívidas soberanas"!
A Grécia pode ter alguma informalidade excessiva instalada em várias áreas, mas o buraco em que se encontra não resulta, no fundamental, daí! Ele resulta do processo de agiotagem que atacou o país, da destruição das actividades económicas, do empobrecimento do povo feito pela diminuição dos salários e das prestações sociais, pelo agravamento do custo de vida, pelo ataque aos direitos sociais.
Só haverá solução para a Grécia, como para Portugal, com políticas diametralmente opostas. A dívida tem de ser renegociada a sério - e posta de lado grande parte dela porque é resultado de roubo - as actividades económicas apoiadas com políticas de investimento justas. E é indispensável um forte plano de apoio à criação de emprego e de retoma de políticas sociais solidárias.
Em Portugal vai-se repetindo o que de pior foi feito na Grécia.
Repete-se até à exaustão a ideia das inevitabilidades. Agrava-se a "informalidade" na economia e no trabalho. A recessão económica e o desemprego são o grande denominador comum de todas as políticas seguidas. Está-se a criar uma conjugação de efeitos explosivos entre os ataques ao Estado Social, o agravamento da injusta distribuição de riqueza e a diminuição acelerada de garantias de formação para as jovens gerações.
Fala-se da necessidade de responsabilidade social das empresas, para camuflar um violento ataque aos direitos dos trabalhadores.
Por aqui também a nossa dívida será cada vez maior.
in Jornal de Notícias
2011-10-08
Para onde caminha a União Europeia (UE) quando as suas políticas agravam aceleradamente as condições de vida da esmagadora maioria dos seus cidadãos, acentuam desigualdades, rompem solidariedades, amesquinham povos cuja história milenar constituiu alicerces do que se enuncia como cultura europeia?
Insisto na ideia de que só uma forte mobilização dos trabalhadores e dos povos (em particular das gerações mais jovens) pode travar o desastre e forçar o surgimento de políticas novas, libertar as sociedades do neoliberalismo e neoconservadorismo dominantes, que submeteram os partidos do chamado "arco do poder" e não têm deixado condições para projectos à esquerda se afirmarem.
É imperiosa a luta por um projecto europeu solidário, universalista, sólido em valores humanos e respeitador da história e cultura dos seus povos, quer numa perspectiva reformista quer na busca de sistemas políticos alternativos a este capitalismo que vai somando contradições e dimensões de crise.
Nos Estados Unidos da América cresce o movimento, particularmente jovem, que reivindica: "a Wall Street deve pagar pelos danos que fez à economia". O presidente da Federação Americana do Trabalho (AFL-CIO) - central sindical cujo percurso até tem algumas nódoas - perante as desigualdades que marcam o seu país, já veio a público, e bem, apoiar os manifestantes e afirmar: "O 1% dos mais ricos controla a economia, lucra à custa dos trabalhadores e domina o debate político. Wall Street simboliza esta verdade simples: um pequeno grupo de pessoas tem nas suas mãos as vidas e meios de subsistência dos trabalhadores americanos". Ali, como na Europa, é caso para perguntar: onde está a soberania dos povos?
Na UE é ignóbil a forma como estão a lidar com o problema das dívidas soberanas e designadamente com a situação da Grécia - país que vai na frente na queda para o precipício, mas acompanhado por outros.
Em nome da necessária estabilização da Banca, será que se prepara novo roubo aos orçamentos dos estados, continuando os accionistas a agir sem controlo público e sem garantir apoio ao investimento produtivo?
É um escândalo observarmos como, mesmo quando os cidadãos estão a ser violentamente sacrificados e a economia atrofiada, os grandes accionistas dos grupos financeiros e de certos sectores de actividade a que deitaram mão, continuem a distribuir entre si milhões e milhões de lucros.
Transformaram o sector financeiro numa espécie de "vaca leiteira", sempre produtiva porque bem alimentada pela exploração de quem trabalha e pelo corte nos direitos sociais. Assim não há resolução para as "dívidas soberanas"!
A Grécia pode ter alguma informalidade excessiva instalada em várias áreas, mas o buraco em que se encontra não resulta, no fundamental, daí! Ele resulta do processo de agiotagem que atacou o país, da destruição das actividades económicas, do empobrecimento do povo feito pela diminuição dos salários e das prestações sociais, pelo agravamento do custo de vida, pelo ataque aos direitos sociais.
Só haverá solução para a Grécia, como para Portugal, com políticas diametralmente opostas. A dívida tem de ser renegociada a sério - e posta de lado grande parte dela porque é resultado de roubo - as actividades económicas apoiadas com políticas de investimento justas. E é indispensável um forte plano de apoio à criação de emprego e de retoma de políticas sociais solidárias.
Em Portugal vai-se repetindo o que de pior foi feito na Grécia.
Repete-se até à exaustão a ideia das inevitabilidades. Agrava-se a "informalidade" na economia e no trabalho. A recessão económica e o desemprego são o grande denominador comum de todas as políticas seguidas. Está-se a criar uma conjugação de efeitos explosivos entre os ataques ao Estado Social, o agravamento da injusta distribuição de riqueza e a diminuição acelerada de garantias de formação para as jovens gerações.
Fala-se da necessidade de responsabilidade social das empresas, para camuflar um violento ataque aos direitos dos trabalhadores.
Por aqui também a nossa dívida será cada vez maior.
in Jornal de Notícias
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