quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Uma carta da Síria

Pelo Socialismo


Questões político-ideológicas com atualidade

http://www.pelosocialismo.net

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mundo-comunista-e-aos-partidos-operarios&catid=42:comunistas

Colocado em linha em: 2011/10/16

Uma carta ao Mundo Comunista e aos Partidos Operários1

Partido Comunista Sírio (Unificado)

Saudações camaradas

Gostaríamos de apresentar-lhes uma breve análise dos sucessivos acontecimentos

recentes em nosso país, Síria, e, para tanto, devemos elucidar alguns fatos e

desvendar algumas mentiras fabricadas e publicadas pela propaganda imperialista

contra a Síria.

Desde o início dos eventos, em Março, estações de TV na América, Reino Unido e

França, algumas estações no mundo Árabe e centenas de sites da internet têm se

mobilizado para falsificar, da melhor maneira que puderem, a realidade e, na medida

em que a opinião pública se volta para essa causa, programas especiais são

transmitidos para servirem a esse propósito dia e noite.

O presidente norte-americano divulga, diariamente, notas que expressam seu

tratamento contra a Síria, assim como uma intervenção flagrante nas relações

internas do povo Sírio. Oficiais de alta patente da União Européia têm imitado o

presidente Americano.

Tais tratamentos e intervenções chegaram ao auge quando o presidente norteamericano

apontou a irrelevância e ilegitimidade do regime Sírio. Ásperas e injustas

sanções econômicas foram impostas contra o povo Sírio. Ainda mais perigosos são os

planos endossados pela OTAN de compartilhar ondas de ataques aéreos, por algumas

semanas, contra 30 áreas estratégicas na Síria, exatamente igual ao que aconteceu na

Iugoslávia.

Alguns oficiais europeus jamais hesitarão em comparar a situação na Síria, como se

fosse a cópia exata da crise Líbia, onde milhares de civis foram massacrados, dezenas

de áreas econômicas foram destruídas pelos ataques aéreos.

Estados membros da aliança imperialista têm tentado, de todas as maneiras

possíveis, aprovar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a

Síria para, em seguida, adotar sucessivas resoluções a respeito, para tornar “legal”

uma agressiva campanha contra nosso país. Agradecemos a oposição a esses planos

por parte da Rússia e da China, acompanhadas, até agora, pela África do Sul, Índia,

Brasil e Líbano. As tentativas imperialistas no Conselho de Segurança da ONU foram,

até agora, infrutíferas.

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Todas essas movimentações acontecem sob dois pretextos:

1. Manifestantes na Síria estão sendo mortos, procedimentos de segurança estão

sendo empreendidos para lidar com os manifestantes;

2. Manipulações das deficiências do regime Sírio, assim como a falta de

democracia e o monopólio do poder por parte do partido no poder, com o

intuito de pressionar o regime para adotar algumas mudanças internas,

embora qualquer mudança interna deva ser considerada como parte da

soberania nacional do país.

Na realidade, diversas manifestações de protesto começaram em março pedindo

reformas social, econômica e democrática. A maioria dessas demandas foi apoiada

pelo nosso partido como uma forma de lidar com os efeitos nocivos da

implementação de um programa liberal na economia (de acordo com o Fundo

Monetário Internacional) e a transformação da Síria em um mercado econômico. Os

efeitos foram nocivos para o nível de vida das camadas pobre e média. Essas

manifestações eram pacíficas, mas cedo foram manipulados por fundamentalistas

religiosos e grupos radicais, cuja ideologia data de antes da idade média.

As manifestações se transformaram de pacíficas para armadas, buscando alcançar

propósitos que não têm nenhuma ligação com as reformas políticas e sociais. Ao

tratar com essas manifestações, as forças de segurança oficial cometeram diversos

erros injustificáveis; conseqüentemente, essas ações foram seguidas de reações.

Dezenas de civis e soldados foram mortos. Gangues armadas foram formadas

atacando propriedades públicas e privadas, criando barreiras dentro de algumas

cidades, contando com ajuda externa. Durante os últimos meses, essas gangues

estabeleceram áreas armadas nas regiões fronteiriças da Síria, do nosso lado, e da

Turquia, do Líbano, da Jordânia e Iraque, para garantir continuidade no suprimento

de suas armas e na ligação entre essas áreas.

De qualquer maneira, as gangues não obtiveram sucesso no estabelecimento de uma

base fronteiriça estável. Isso custa centenas de civis e soldados, ou seja, mais de 2000

vítimas. No meio tempo, diversos eventos foram exagerados. Fatos foram falsificados.

Os mais modernos equipamentos eletrônicos e de mídia foram empregados com o

intuito de mostrar que o exército Sírio é completamente responsável por esses atos e

que as gangues armadas não são responsáveis, e assim por diante.

Devido à pressão, o governo adotou diversas reformas sociais e democráticas que

incluem: anulação das leis e Tribunais de exceção e respeito às manifestações

pacíficas legais. Recentemente, uma nova lei eleitoral e uma lei permitindo o

estabelecimento de partidos políticos foram adotadas. Preparações para uma nova ou

modificada constituição estão a caminho. Novas leis a respeito da mídia e da

administração pública também foram adotadas.

Os objetivos dessas leis e procedimentos são: quebrar o monopólio de poder do

partido Ba’th, estabelecer uma sociedade plural e democrática, assegurar liberdades

privadas e públicas, garantir a liberdade de expressão e reconhecer o direito de

oposição para atividade política pacífica.

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Apesar das nossas reservas no que diz respeito a alguns artigos, essas leis são muito

importantes. Por mais de quarenta anos nosso partido tem lutado para ter tais leis

adotadas. Essas leis devem ser implementadas e podem ser consideradas como um

importante passo em direção à transição da Síria para uma sociedade democrática e

plural.

Largos setores pacíficos da oposição nacional saudaram esses procedimentos, embora

as oposições fundamentalistas e armadas ainda estejam defendendo a derrubada do

regime, pressionando e agindo sectariamente.

Podemos resumir a situação como segue:

· Reduziu-se a tensão armada nas cidades Sírias. Gangues armadas sofreram

fortemente. De qualquer maneira, algumas delas têm condições de retomar

suas atividades;

· Manifestações pacíficas não desapareceram e não são confrontadas

violentamente, a não ser quando acompanhadas por atividades violentas;

· O governo chamou a oposição nacional a participar de diálogos políticos que

buscam ajudar a alcançar a transição para a democracia e o pluralismo de

forma pacífica. Tal diálogo encontra muitas dificuldades, mais importantes até

do que a pressão dos grupos armados que se opõem ao diálogo e à solução

pacífica, financiados por apoio externo;

· Ameaças imperialistas e colonialistas contra a Síria aumentaram. Embora

essas ameaças encontrem algumas dificuldades, precisamos estar prontos para

confrontá-las.

Enquanto a situação do nosso país está em pauta, ela aparece como

segue:

- Movimentos de protesto ainda existem em diferentes níveis. Eles diferem de uma

região para outra. Nota-se que alguns movimentos começam em mesquitas, áreas

rurais e favelas e segue em direção ao centro da cidade;

- Movimentos dentre as minorias étnicas e religiosas são raros. Nas fábricas,

universidades e sindicatos não existem movimentações;

- Dentro dos círculos da grande burguesia, independente de ser industrial ou

financeiro, especialmente nas grandes cidades de Aleppo, Lattakia e Damasco, não

existem movimentos;

- Não existem movimentações dentro dos clãs e das tribos;

- A oposição é composta de um amplo e variável espectro de partidos. Alguns são

patrióticos, se opõem à intervenção externa e às gangues armadas. Neste campo está

o Partido Muçulmano, considerado o mais ativo e bem organizado partido dentro e

fora do país.

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Há, também, diversos grupos tradicionais com diferentes orientações, cuja influência

se tornou mais clara nas manifestações em diferentes áreas. Esses grupos não

escondem seus objetivos e propostas que são claramente reacionárias e sectárias.

Os grupos locais mais importantes e ativos, desde o inicio dos protestos, são as

coordenações locais que incluem diferentes grupos da juventude sem terem nenhum

plano e clareza ideológica comuns, ou orientações, exceto pelo slogan “Abaixo o

regime”. Eles estão expostos à pressão externa, assim como interna.

- Oposição no exterior é composta por intelectuais, tradicionalistas, pessoas que

romperam com o regime, com algumas conexões internas (Khadam e Refa ׳at Al

Assad).

Durante o ultimo período, essas forças promoveram diversas conferências no exterior

(exceto um encontro que aconteceu no hotel Samir Amis, em Damasco, organizado

pela oposição interna) objetivando mobilizar forças e coordenar posições. Diferenças

ideológicas e políticas, assim como diferenças nos interesses prevalecem. Algumas

forças de oposição no exterior trabalham duro para ganhar apoio internacional e de

forças colonialistas.

- Até agora, os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha estão liderando a

campanha internacional de ameaças e incitamento contra o regime Sírio, buscando

impor mais e mais pacotes e sanções, especialmente pelo Conselho de Segurança da

ONU e outros organismos internacionais; Rússia e China continuam se opondo à

imposição de tais sanções e procedimentos. A Turquia escolheu uma postura

oportunista que se move de acordo com as eleições internas e seus interesses

regionais. Há uma maioria internacional se opondo às medidas militares diretas

contra a Síria, como aconteceu na Líbia, para que a Liga Árabe e o Conselho de

Segurança da ONU não adotem resoluções que preparem o caminho para a agressão.

O conflito em torno desta questão é feroz.

- Exceto pelo Qatar, que tem um papel vital e importante nesta conspiração contra a

Síria, existem diferentes pontos de vista e posições no mundo árabe no que diz

respeito à situação no país.

- Dia a dia, a situação econômica se deteriora, a pressão nas condições de vida das

massas aumenta.

- O regime é coeso e tem grandes potencialidades de superar a crise. Cinco meses

antes do estouro dos eventos, nenhuma das instituições básicas (o partido, o exército,

a segurança, as instituições de estado, embaixadas, organizações populares,

sindicatos, a Frente Progressista Nacional...) haviam experimentado qualquer

divisão.

Certamente, o cenário não é estático e deve ser visto de acordo com suas dinâmicas,

variações e desenvolvimento diário.

Possíveis cenários:

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- A crise deve continuar por um longo período, levando para mais calamidades e

derramamento de sangue;

- Uma movimentação que leve para uma anarquia geral, uma guerra civil ou algo

similar, pavimentando o caminho para uma intervenção externa;

- Uma aparente divisão na oposição pode acontecer, fazendo com que parte dela

queira iniciar um sério diálogo com o regime para alcançar um novo contrato social

no país;

- Colocar um fim nas diferentes abordagens e “imobilidade” no que diz respeito às

forças do regime.

Há dois possíveis resultados: mover-se em direção a uma solução política para o fim

da crise, factível e firme, ou continuar tratando a crise apenas como uma questão de

segurança a todo custo.

É difícil prever a maneira pela qual uma decisiva solução é possível.

- Alguns fatos inesperados podem acontecer, forçando todos os partidos a se

comprometerem, ou aceitarem, um acordo imposto por forças externas para ajudar o

país a encontrar um caminho para fora do túnel.

Onde está o partido agora?

Para começar, gostaríamos de sublinhar o fato de o nosso partido ter enviado uma

mensagem ao comando do partido Al-Baa’th, na véspera de sua décima Conferencia,

em 2005. Nosso partido reivindicava a separação entre o estado e o partido

governista, garantias de democracia e liberdades, regulamentos de emergência, a

adoção de uma lei democrática para partidos, liberdade de expressão e libertação de

prisioneiros políticos, o fim da hegemonia do partido Al-Baa’th em sindicatos,

combate à corrupção etc.

Mas gostaríamos de adicionar que o partido afirmou, em todos os documentos

divulgados nos últimos meses, que apoiamos a postura da Síria nas questões

internacionais.

Para materializar este desejo, as necessidades sociais, econômicas e democráticas das

massas populares devem ser inter-relacionadas. Nós discutimos essas questões

detalhadamente nas nossas conferências e documentos.

Nas suas análises da profunda e atual crise do nosso país, nosso partido esclareceu

que a principal contradição está entre a fórmula política usada para regular o país por

diversas décadas e as demandas pelo desenvolvimento democrático, social,

econômico e cultural, necessárias para a sociedade Síria.

O conteúdo do nosso ponto de vista é que a fórmula política está baseada no

monopólio da autoridade do partido Al-Baa ׳th, que administra o movimento popular

e suas organizações. Esta fórmula leva à decadência, à burocracia e à corrupção da

máquina de estado. Conseqüentemente, os planos de reforma econômica e social

precisam ser reconsiderados para serem atualizados com as exigências do progresso.

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Nosso partido acredita que a essência da atual crise é a desproporção entre a

estrutura do regime e os objetivos da Síria. Ao mesmo tempo, o partido tem

enfatizado que o inimigo e as forças imperialistas têm se aproveitado destas

distorções internas para fomentar o nível da conspiração contra a Síria e usá-las

como um cavalo de Tróia para servir aos seus já conhecidos objetivos, como

mencionado anteriormente.

Conseqüentemente, o Partido Comunista Sírio (Unificado) não está neutro no que se

refere à alternativa necessária, por um lado, e os meios necessários para alcançar esse

objetivo, por outro lado.

Solução política e continuidade de uma reforma real e radical constituem o único

caminho para a saída da crise. Os procedimentos de repressão ajudam a aumentar os

componentes da crise e a esvaziar o conteúdo das reformas necessárias.

A atual situação, afirmamos, requer um diálogo construtivo e fiel com todas as forças

honestas e patrióticas, independente das diferenças de opinião ou pontos de vista,

com o propósito de alcançar um acordo ou uma reforma radical que sirva às

necessidades das massas populares e garanta a criação de um estado laico civil e

democrático que se oponha aos planos imperialistas e israelenses na região.

Mas o diálogo pressupõe um clima adequado; sem ele, a intransigência só poderá

levar a mais derramamento de sangue, mais destruição para o país e mais sofrimento

para a população.

Queridos camaradas:

Devido à fraqueza da imprensa popular de massa na Síria na confrontação com a

grande mídia do imperialismo, à mobilização das forças reacionárias por todo o

mundo contra a Síria, além de seus fantoches na região – incluindo a Turquia, que

adotou uma política pragmática para lutar pela hegemonia frente aos países orientais

– devido a tudo isso, nosso partido deseja que todos os partidos comunistas, de

trabalhadores e democráticos no mundo nos ajudem a divulgar amplamente esses

esclarecimentos junto à opinião pública de seus países.

Ainda mais, pedimos para que esses partidos se solidarizem com a Síria porque este é

o país mais importante do Mundo Árabe que resiste aos planos imperialistas de

dominar o Oriente Médio, se opondo firmemente ao plano americano-Israelense de

fragmentar a área em diversas entidades sectárias fáceis de serem controladas. A

Síria apóia, inclusive, a resistência nacional Palestina, Libanesa e Iraquiana. Ainda

mais, apóia o direito do povo Palestino de libertar seu território e estabelecer um

estado nacional com Jerusalém como sua capital.

Damasco: 17/9/2011

Hunein Nemer

Primeiro Secretário do Partido Comunista Síria (Unificado)

http://www.syrcomparty.org/index.php?nid=121

1 O texto é publicado tal como consta no sítio em referência, do PCB (Partido Comunista Brasileiro). [NE

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Filósofos portugueses- Fernando Gil

Fernando Gil
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre


Fernando Gil (Muecate em Moçambique, 1937 - Paris, 2006) foi um filósofo português, autor de vários livros tanto na sua língua materna como em françês . Foi director de investigação na École des hautes études en sciences sociales e professor na Universidade Nova de Lisboa.

Obras
La logique du nom, edições L'Herne, Paris, 1972.

Mimesis e negação, edições INCM, Lisboa, 1984.

Preuves, edições Aubier, Paris, 1988.

Traité de l'évidence, edições Jérome Millon, 1993, ISBN 2905614838.

Prémios e condecorações:  Prémios de Ensaio (1985) com a obra Mimesis e negação, atribuído pelo PEN Clube Português

Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1992)

Prémio Pessoa atribuído pelo jornal Expresso e pela empresa Unisys (1993)

sábado, 22 de outubro de 2011

O FIM DE UMA AGRESSÃO

in O Diário
Khadafi morreu combatendo com dignidade e coerência

Miguel Urbano Rodrigues

21.Out.11 :: Colaboradores

A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI. Mas, tal como fez surgir uma verdadeira resistência, fez emergir um Khadafi que recuperou a dignidade e morreu com honra.







A foto divulgada pelos contra-revolucionários do CNT elimina dúvidas: Muamar Khadafi morreu em Sirte.

Notícias contraditórias sobre as circunstâncias da sua morte correm o mundo, semeando confusão. Mas das próprias declarações daqueles que exibem o cadáver do líder líbio transparece uma evidência: Khadafi foi assassinado.

No momento em que escrevo, a Resistência líbia ainda não tornou pública uma nota sobre o combate final de Khadafi. Mas desde já se pode afirmar que caiu lutando.

Os media a serviço do imperialismo principiaram imediatamente a transformar o acontecimento numa vitória da democracia, e os governantes dos EUA e da União Europeia e a intelectualidade neoliberal festejam o crime, derramando insultos sobre o último chefe de Estado legitimo da Líbia.

Essa atitude não surpreende, mas o seu efeito é oposto ao pretendido: o imperialismo exibe para a humanidade o seu rosto medonho.

A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI.

Quando a NATO começou a bombardear as cidades e aldeias da Líbia, violando a Resolução aprovada sobre a chamada Zona de Exclusão aérea, Obama, Sarkozy e Cameron afirmaram que a guerra, mascarada de «intervenção humanitária», terminaria dentro de poucos dias. Mas a destruição do país e a matança de civis durou mais de sete meses.

Os senhores do capital foram desmentidos pela Resistência do povo da Líbia. Os «rebeldes», de Benghazi, treinados e armados por oficiais europeus e pela CIA, pela Mossad e pelos serviços secretos britânicos e franceses fugiam em debandada, como coelhos, sempre que enfrentavam aqueles que defendiam a Líbia da agressão estrangeira.

Foram os devastadores bombardeamentos da NATO que lhes permitiram entrar nas cidades que haviam sido incapazes de tomar. Mas, ocupada Tripoli, foram durante semanas derrotados em Bani Walid e Sirte, baluartes da Resistência.

Nesta hora em que o imperialismo discute já, com gula, a partilha do petróleo e do gás libios, é para Muamar Khadafi e não para os responsáveis pela sua morte que se dirige em todo o mundo o respeito de milhões de homens e mulheres que acreditam nos valores e princípios invocados, mas violados, pelos seus assassinos.

Khadafi afirmou desde o primeiro dia da agressão que resistiria e lutaria com o seu povo ate à morte.

Honrou a palavra empenhada. Caiu combatendo.

Que imagem dele ficará na Historia? Uma resposta breve à pergunta é hoje desaconselhável, precisamente porque Muamar Khadafi foi como homem e estadista uma personalidade complexa, cuja vida reflectiu as suas contradições.

Três Khadafis diferentes, quase incompatíveis, são identificáveis nos 42 anos em que dirigiu com mão de ferro a Líbia.

O jovem oficial que em 1969 derrubou a corrupta monarquia Senussita, inventada pelos ingleses, agiu durante anos como um revolucionário. Transformou uma sociedade tribal paupérrima, onde o analfabetismo superava os 90% e os recursos naturais estavam nas mãos de transnacionais americanas e britânicas, num dos países mais ricos do mundo muçulmano. Mas das monarquias do Golfo se diferenciou por uma política progressista. Nacionalizou os hidrocarbonetos, erradicou praticamente o analfabetismo, construiu universidades e hospitais; proporcionou habitação condigna aos trabalhadores e camponeses e recuperou para uma agricultura moderna milhões de hectares do deserto graças à captação de águas subterrâneas.

Essas conquistas valeram-lhe uma grande popularidade e a adesão da maioria dos líbios. Mas não foram acompanhadas de medidas que abrissem a porta à participação popular. O regime tornou-se, pelo contrário, cada vez mais autocrático. Exercendo um poder absoluto, o líder distanciou-se progressivamente nos últimos anos da política de independência que levara os EUA a incluir a Líbia na lista negra dos estados a abater porque não se submetiam. Bombardeada Tripoli numa agressão imperial, o país foi atingido por duras sanções e qualificado de «estado terrorista».

Numa estranha metamorfose surgiu então um segundo Khadafi. Negociou o levantamento das sanções, privatizou empresas, abriu sectores da economia ao imperialismo. Passou então a ser recebido como um amigo nas capitais europeias. Berlusconi, Blair, Sarkozy, Obama, Sócrates receberam-no com abraços hipócritas e muitos assinaram acordos milionários, enquanto ele multiplicava as excentricidades, acampando na sua tenda em capitais europeias.

Na última metamorfose emergiu com a agressão imperial o Khadafi que recuperou a dignidade.

Li algures que ele admirava Salvador Allende e desprezava os dirigentes que nas horas decisivas capitulam e fogem para o exílio.

Qualquer paralelo entre ele e Allende seria descabido. Mas tal como o presidente da Unidade Popular chilena, Khadafi, coerente com o compromisso assumido, morreu combatendo. Com coragem e dignidade.

Independentemente do julgamento futuro da Historia, Muamar Khadafi será pelo tempo afora recordado como um herói pelos líbios que amam a independência e liberdade. E também por muitos milhões de muçulmanos.

A Resistência, aliás, prossegue, estimulada pelo seu exemplo.

VN de GAIA, no dia da morte de Muamar Khadafi

terça-feira, 18 de outubro de 2011

VOLTAIRE

Filho de abastada família burguesa, estudou com os jesuítas no colégio de Clermont onde revelou-se um aluno brilhante. Frequentou a Societé du Temple, de libertinos e livres pensadores. Por causa de versos irreverentes contra os governantes foi preso na Bastilha (1717-1718), onde iniciou a tragédia “Édipo” (1718) e o “Poema da Liga” (1723). Logo tornou-se rico e célebre, mas uma altercação com o príncipe de Rohan-Chabot valeu-lhe nova prisão e foi obrigado a exilar-se na Inglaterra (1726-1728). Ali, orientou definitivamente sua obra e seu pensamento para uma filosofia reformadora. Celebrou a liberdade em uma tragédia (Brutus, 1730), criticou a guerra (História de Carlos XII, 1731), os dogmas cristãos (Epístola a Urânio, 1733), as falsas glórias literárias (O templo do gosto, 1733) e escreveu um dos livros que mais o projetaram, as “Cartas Filosóficas” ou “Cartas sobre os ingleses”, que criticava o regime político francês, fazendo espirituosas comparações entre a liberdade inglesa e o atraso da França absolutista, clerical e obsoleta. Casou-se esse livro pelas suas autoridades, refugiou-se no castelo de Cirey, onde procurou rejuvenescer a tragédia (Zaire, 1732; A morte de César, 1735; Mérope, 1743). Logrou obter um lugar na Academia Francesa (1746) graças a algumas poesias (Poema de Fontenoy, 1745), e, no mesmo ano, foi para a corte, na condição de historiógrafo real. Convidado por Frederico II, o Grande, da Prússia, foi viver na corte de Potsdam, onde publicou inicialmente um conto “Zadig” (1747) e posteriormente “O século de Luís XIV” (1751) e “Micrômegas” (1752). Em 1753, depois de um conflito com o rei, retirou-se para uma casa perto de Genebra. Ali, chocou ao mesmo tempo os católicos (A donzela de Orléans, 1755), os protestantes (Ensaio sobre os costumes, 1756) e criticou o pensamento de Rousseau (Poema sobre os desastres de Lisboa, 1756). Replicando seus opositores com um conto “Cândido” (1759), refugiou-se em seguida em Fernay. Prosseguiu sua obra escrevendo tragédias (Tancredo, 1760), contos filosóficos dirigidos contra os aproveitadores (Jeannot e Colin, 1764), os abusos políticos (O ingênuo, 1767), a corrupção e a desigualdade das riquezas (O homem de quarenta escudos, 1768), denunciou o fanatismo clerical e as deficiências da justiça, celebrou o triunfo da razão (Tratado sobre a tolerância, 1763; Dicionário filosófico, 1764). Iniciado maçom no dia 7 de março de 1778, mesmo ano de sua morte, numa das cerimônias mais brilhantes da história da maçonaria mundial, a Loja Les Neuf Sœurs, Paris, inicia ao octogenário Voltaire, que ingressa no Templo apoiado no braço de Benjamin Franklin, embaixador dos EUA na França nessa data. A sessão foi dirigida pelo Venerável Mestre Lalande na presença de 250 irmãos. O venerável ancião, orgulho da Europa, foi revestido com o avental que pertenceu a Helvetius e que fora cedido, para a ocasião, pela sua viúva. Chamado a Paris em 1778, foi recebido em triunfo pela Academia e pela Comédie-Française, onde lhe ofereceram um busto. Esgotado, morreu a 30 de maio de 1778.




Voltaire foi um teórico sistemático, mas um propagandista e polemista, que atacou com veemência alguns abusos praticados pelo Antigo Regime. Tinha a visão de que não importava o tamanho de um monarca, deveria, antes de punir um servo, passar por todos os processos legais, e só então executar a pena, se assim consentido por lei. Se um príncipe simplesmente punisse e regesse de acordo com o seu bem-estar, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'".



As ideias presentes nos escritos de Voltaire estruturam uma teoria coerente, mas por vezes contraditória, que em muitos aspectos expressa a perspectiva do Iluminismo.



Defendia a submissão ao domínio da lei, baseava-se em sua convicção de que o poder devia ser exercido de maneira liberal e racional, sem levar em conta as tradições.



Por ter convivido com a liberdade inglesa, não acreditava que um governo e um Estado liberais, tolerantes fossem utópicos. Não era um democrata, e acreditava que as pessoas comuns estavam curvadas ao fanatismo e à superstição. Para ele, a sociedade deveria ser reformada mediante o progresso da razão e o incentivo à ciência e tecnologia. Assim, Voltaire transformou-se num perseguidor ácido dos dogmas, sobretudo os da Igreja Católica, que afirmava contradizer a ciência, no entanto, muitos dos cientistas de seu tempo eram padres jesuítas.



Sobre essa postura, o catedrático de filosofia Carlos Valverde escreve um surpreendente artigo, no qual documenta uma suposta mudança de comportamento do filósofo francês em relação à fé cristã, registrada no tomo XII da famosa revista francesa Correpondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793). Tal texto traz, no número de abril de 1778, páginas 87-88, o seguinte relato literal de Voltaire:



"Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vômito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo podido ir à igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu me confessei com ele, se Deus me perdoava, morro na Santa Religião Católica em que nasci esperando a misericórdia divina que se dignará a perdoar todas minhas faltas, e que se tenho escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela. Assinado: Voltaire, 2 de março de 1778 na casa do marqués de Villete, na presença do senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marqués de Villevielle. Meu amigo."



Este relato foi reconhecido como autêntico por alguns, pois seria confirmado por outros documentos que se encontram no número de junho da mesma revista, esta de cunho laico, decerto, uma vez que editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas. Já outros questionam a necessidade de alguém que já acredita em Deus ter que se converter a uma religião específica, como o catolicismo. No caso de Voltaire não teria ocorrido reconversão.



Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista lhe exalta como "o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição".



A família quis que seus restos repousassem na abadia de Scellieres. Em 2 de junho, o bispo de Troyes, em uma breve nota, proíbe severamente ao prior da abadia que enterre no Sagrado o corpo de Voltaire. Mas no dia seguinte, o prior responde ao bispo que seu aviso chegara tarde, porque - efetivamente - o corpo do filósofo já tinha sido enterrado na abadia. Livros históricos afirmam que ele tentou destruir a Igreja a favor da maçonaria.



A Revolução trouxe em triunfo os restos de Voltaire ao Panteão de Paris - antiga igreja de Santa Genoveva - , dedicada aos grandes homens. Na escura cripta, frente a de seu inimigo Rousseau, permanece até hoje a tumba de Voltaire com este epitáfio:



"Aos louros de Voltaire. A Assembléia Nacional decretou em 30 de maio de 1791 que havia merecido as honras dadas aos grandes homens".



Voltaire introduziu várias reformas na França, como a liberdade de imprensa, tolerância religiosa, tributação proporcional e redução dos privilégios da nobreza e do clero. Mas também foi precursor da Revolução Francesa, ela que instaurou a intolerância, a censura e o aumento dos impostos para financiar as guerras, tanto coloniais, quanto napoleônicas (Europa). Se, em uma obra tão diversificada, Voltaire dava preferência a sua produção épica e trágica, foi, entretanto nos contos e nas cartas que se impôs. Como filósofo, foi o porta voz dos iluministas. Não seria exagero dizer que Voltaire foi o homem mais influente do século XVIII. Seus livros foram lidos por toda a Europa e vários monarcas pediam seus conselhos.



[editar] Obras

Desenho do séc.XVIII que serviu de ilustração a uma das edições do livro Histoire de Charles XII.Édipo, 1718

Mariamne (ou Hérode et Mariamne), 1724

La Henriade, 1728

História de Charles XII, 1730

Brutus, 1730

Zaire, 1732

Le temple du goût, 1733

Cartas Filósoficas, 1734

Adélaïde du Guesclin, 1734

Le fanatisme ou Mahomet, (escrita em 1736, representada em 1741)

Mondain, 1736

Epître sur Newton, 1736

Tratado de Matafísica, 1736

L'Enfant prodigue, 1736

Essai sur la nature du feu, 1738

Elementos da Filosofia de Newton, 1738

Zulime, 1740

Mérope, 1743

Zadig ou o destino, 1748,

Sémiramis 1748

Le monde comme il va, 1748

Nanine, ou le Péjugé vaincu, 1749

Le Siècle de Louis XIV, 1751

Micrômegas, 1752, [ebook][1]

Rome sauvée, 1752

Poème sur le désastre de Lisbonne, 1756

Essai sur les mœurs et l'esprit des Nations, 1756

Histoire des voyages de Scarmentado écrite par lui-même, 1756

Cândido ou o otimismo, 1759, [ebook][2]

Le Caffé ou l'Ecossaise, 1760

Tancredo, 1760

Histoire d'un bon bramin, 1761

La Pucelle d'Orléans, 1762

Tratado sobre a tolerância, 1763

Ce qui plait aux dames, 1764

Dictionnaire philosophique portatif, 1764

Jeannot et Colin, 1764

De l'horrible danger de la lecture, 1765

Petite digression, 1766

Le Philosophe ignorant, 1766

L'ingénu, 1767

L'homme aux 40 écus, 1768

A princesa da Babilônia, 1768, [ebook][3]

Canonisation de saint Cucufin, 1769

Questions sur l'Encyclopédie, 1770

Les lettres de Memmius, 1771

Il faut prendre un parti, 1772

Le Cri du Sang Innocent, 1775

De l'âme, 1776

Dialogues d'Euhémère, 1777

Irene, 1778

Agathocle, 1779

Correspondance avec Vauvenargues, établie en 2006

in wikipédia

sábado, 15 de outubro de 2011

Tudo para o Capital, nada para o Trabalho

MAIS 7000 MILHÕES € DE RIQUEZA PARA OS PATRÕES, NADA PARA OS TRABALHADORES, CORTE DE 1.682 MILHÕES € NO RENDIMENTO DOS PENSIONISTAS E DE 952 MILHÕES € AOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PUBLICA, MAS OS RENDIMENTOS DO CAPITAL CONTINUAM A SER POUPADOS AOS SACRIFICIOS: eis o que Passos Coelho anunciou


Tal como sucedeu com o subsidio do Natal em que praticamente os atingidos pelo IRS extraordinário foram apenas os trabalhadores e pensionistas, que têm de pagar ainda este ano mais 800 milhões € de IRS segundo as contas do próprio governo, tendo sido poupado os rendimentos do capital (dividendos, juros, mais-valias), também agora Passos Coelho anunciou para 2012 mais medidas de austeridade em que os atingidos são outra vez os trabalhadores, os pensionistas e os aposentados. Novamente os rendimentos de capital (dividendos, juros e mais-valias) ficam imunes aos sacrifícios.


A sobretaxa de IRC a aplicar às empresas com lucros elevados e o novo escalão de IRS aos rendimentos mais elevados foi criada por este governo com o objectivo de enganar a opinião pública. Em primeiro lugar, os valores a obter com elas são irrisórios (menos de 100 milhões € em cada) quando comparamos com os sacrifícios que estão a ser impostos aos trabalhadores e pensionistas. Em segundo lugar, porque não atinge a principal fonte de enriquecimento dos grandes patrões, que são os rendimentos de capital, ou seja, dividendos, mais valias, juros, etc., E estes rendimentos ou continuam isentos (a maioria), ou então aqueles que pagam IRS (apenas uma pequena parcela) estão sujeitos a uma taxa liberatória de 21,5% ou ainda menos que não é aumentada.

Para os grandes patrões não são as remunerações sujeitas a IRS que, embora gigantescas quando comparadas com as recebidas pela generalidade dos trabalhadores, constituem a principal fonte da sua riqueza, já que elas representam apenas uma pequeníssima parcela quando as comparamos com os dividendos, juros, e mais valias que são recebidas através de sociedades gestoras de participações sociais (SGPS) ou de Fundos, ou que são transferidas para empresas que criaram no estrangeiro, como a Amorim Energia sediada na Holanda através da qual recebe os dividendos da GALP, e que, de acordo com a lei fiscal portuguesa (artº 14 e 51 do Código do IRS, e artº 22º, 23º, 27º e 32º do Estatuto dos Benefícios Fiscais), todos eles estão isentas de pagamento de impostos. Para além disso, os grandes patrões facilmente fogem ao escalão mais elevado de IRS: Para isso, basta que reduzam a sua remuneração (até dão um “ar” de que estão a fazer também sacrifícios) e depois recebem esse valor através de dividendos cuja esmagadora maioria continuarão isentos

É evidente que ao poupar novamente os rendimentos do capital, este governo, para além de mostrar o seu espírito de classe, e que interesses defende, vai aumentar ainda mais as desigualdades e a injustiça em Portugal, e as dificuldades das famílias das classes médias e de baixos rendimentos

Para que se possa ficar com uma ideia clara da dimensão desse ataque, e dos benefícios para os patrões, vamos quantificar apenas três das medidas anunciadas por Passos Coelho: o aumento de meia hora de trabalho por dia cuja produção reverte integralmente para os patrões, o corte no subsidio de férias e de Natal aos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€/mês e também aos trabalhadores da Função Pública.com remunerações superiores a 1000 euros/mês.

O AUMENTO DE MEIA HORA NO HORÁRIO DE TRABALHO DIÁRIO DÁ POR ANO AOS PATRÕES MAIS 7.002 MILHÕES € DE RIQUEZA


Se dividirmos o valor do PIB previsto pelo INE para 2011 (171.320,6 milhões €) pela população empregada (4.893.000 portugueses no 2º Trimestre de 2011 segundo o INE) obtém-se 35.013 €/ ano por empregado. Dividindo este valor pelo número médio anual de horas de trabalho obtém 19€/PIB/por hora. Se multiplicarmos este valor pelo número médio de dias de trabalho por ano, e depois por meia hora dia e seguidamente pelo numero de trabalhadores por conta de outrem (3.200.000 sem incluir os trabalhadores da Função Pública) obtém-se 7.002.681.382 de euros. E ainda mais que a redução prevista pelo governo na Taxa Social Única paga pelos patrões. É esta gigantesca riqueza que o governo PSD/CDS pretende dar de mão - beijada aos patrões. Tudo para os patrões, nada para os trabalhadores produtores de riqueza: - este é o lema do governo PSD/CDS.

O GOVERNO DO PSD/CDS PRETENDE FAZER MAIS UM CORTE DE 1.682 MILHÕES NOS RENDIMENTOS DOS PENSIONISTAS E DE 952 MILHÕES NOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PÚBLICA

Em 2011, as pensões de todos os reformados e aposentados foram congeladas. E os preços até Setembro deste ano já aumentaram 3,6%. Em 2012, o governo pretende congelar novamente a esmagadora maioria das pensões (apenas as inferiores ao limiar da pobreza é que poderão ser actualizadas). Como tudo isto já não fosse suficiente o governo pretende ficar com o subsidio de ferias e de Natal dos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€. Em 2012, na Segurança Social estimamos que sejam atingidos cerca de 200.000 reformados com uma pensão média ponderada que rondará os 1890€/mês, e na CGA 235.000 com uma pensão média ponderada de 1970€/mês. Dois meses de pensão para estes 435.000 pensionistas representarão um corte nos seus rendimentos que estimamos em 1.682 milhões euros por ano. Também é intenção do governo ficar com o subsidio férias e de Natal dos trabalhadores da Função Pública em 2012 com remunerações superiores a 1000€/mês. Se tal intenção se concretizar, estes trabalhadores, que nos últimos anos, já perderem cerca de 14% no seu poder de compra sofrerão mais um corte nos seus rendimentos que estimamos em 952,6 milhões € em 2012. Em 2011 estes trabalhadores tiveram suas remunerações congeladas, e em 2012 e em 2013 as suas remunerações continuarão congeladas. Para além disso, os trabalhadores da Função Pública e os pensionistas que recebem mais de 485€ e menos de 1000€ sofrerão um aumento da taxa de IRS igual a um subsidio.

Eugénio Rosa , Economista -14.10.2011, edr2@netcabo.pt

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

compras – um extremismo que nunca diz o seu nome

John Pilger

13.Out.11
Um gigantesco centro comercial será um dos lugares simbólicos da cidade olímpica construída para os Jogos Olímpicos de Londres. Construído numa antiga zona industrial desactivada, é a imagem de uma sociedade em que a sobreprodução coexiste com o sobreconsumo, cuja prioridade é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.

Procurando uma livraria que já lá não estava, entrei num labirinto desenhado como uma verdadeira armadilha. Sair dali tornou-se uma ilusão distante, tal como Alice quando passou para o outro lado do espelho. As paredes de vidro curvavam-se em círculos concêntricos enquanto uma “loja” se fundia com outra: a Armani tornava-se a Dinki Di Pies. As “saídas” desembocavam num sem número de novas “ofertas” e “oportunidades únicas”. Ao procurar direcções acabei por comprar um par de óculos de sol: qualquer coisa para sair dali. Era uma visão do inferno. Trata-se do mega centro comercial de Westfield.

Isto passou-se em Sidney – onde começou o império Westfield – num centro comercial que não tem nem a metade do tamanho daquele que abriram em Stratford, East London, em 13 de Setembro último. Ali podemos encontrar “Tudo”, como dizia Jonathan Glancey, um crítico de arquitectura: da Apple à Primark, do MacDonald’s ao KFC e ao Krispy Kreme. Há um cinema com 17 salas e com “luxuosos lugares vip” e uma gigantesca e não menos luxuosa sala de bowling. Tracey Emin e Mary Portas são os nomes de quem dirige a “equipa cultural” da Westfield. O maior casino lá do sítio olhará de cima uma rua “24-hour lifestyle ” a que chamam The Arcade. Essa mesma via será a única forma de acesso aos Jogos Olímpicos de 2012 por onde terão de passar 10 milhões de pessoas. A mensagem simples e grotesca do “compra, compra” foi aquela escolhida por Londres para acolher o mundo.

“Se virem o filme da Disney Wall-E”, escrevia Glancey em 2008, “certamente reconhecerão Westfield e centros comerciais do mesmo género. No filme os humanos, tendo abandonado o planeta terra que a sua própria ganância destruíra, vivem uma vida absolutamente sedentária que se resume a comer e consumir. Têm um corpo redondo e atarracado e perderam totalmente o uso das suas pernas. Será que é assim que vamos acabar? Ou será que vamos cair nas profundezas de uma recessão gigantesca… sem nada com que comprar nem onde comprar?” Numa imediaticidade menos apocalíptica, Westfield é “um passo rumo ao nosso desejo colectivo de destruir a vida e a cultura tradicional das nossas cidades, assim como a sua arquitectura, comprando cada vez mais.”

O plano inicial de desenvolvimento da cidade de Stratfor invocava Barcelona: uma grelha bem definida de ruas de lojas e habitações. Moderna, civilizada. Depois disso os Olímpicos impuseram-se e com eles a Westfield, uma grande corporação patrocinadora do evento. O mega centro comercial, o maior da Europa por sinal, foi construído no meio de um nevoeiro de grandes blocos de apartamentos não muito longe dos locais onde ocorreram os distúrbios recentes. Os seus produtos de “designer”, feitos à custa da mais barata e arregimentada mão-de-obra, são chamativos para os mais endividados. O facto de situar-se num local onde os trabalhadores londrinos costumavam produzir comboios – milhares de carruagens, locomotivas, vagões comerciais – naquilo a que outrora se chamou produzir, desperta-nos um interesse melancólico. Os empregos do mega centro comercial não produzem absolutamente nada e são muito mal pagos. É um símbolo destes nossos tempos extremos.

Frank Lowy é co-fundador da Westfield, bilionário israelense-australiano, está para o comércio como Robert Murdoch para os media. Westfield é proprietário ou tem participações em mais de 120 centros comerciais em todo o mundo. A torre de Sydney, a estrutura mais visível da cidade, tem estampado o seu nome: “Westfield”. Lowy, um antigo comando israelita, doa milhões ao estado de Israel e em 2003 fundou o “independente” Instituto Lowy para as Relações Internacionais (Lowy Institute for Foreing Affairs) que promove a política externa de Israel e dos Estados Unidos.

No mesmo dia em que abriu o centro comercial de Stratford, os investigadores de Unicef afirmavam em relatório que as crianças britânicas eram apanhadas numa “armadilha materialista” que consistia em “comprá-los” com produtos de marca. Os pais de rendimento reduzido sentiam “uma pressão tremenda da sociedade” para comprar “roupas de marca, sapatilhas de marca e tecnologia” para as suas crianças. À publicidade televisiva e outras formas de sedução da “cultura do consumo” juntam-se os baixos rendimentos e longas horas de trabalho, como responsáveis pela situação. As crianças contaram aos investigadores que prefeririam passar mais tempo com a sua família e ter mais actividades ao ar livre, mas isto na maior parte das vezes não era possível. Assim como “segurança social” se tornou numa palavra maldita, também o equipamento social para os jovens e as associações juvenis estão a ser progressivamente eliminadas pelas autoridades locais.

Há quatro anos atrás a Unicef publicou uma tabela relativa ao bem-estar das crianças em 21 países industrializados. O Reino Unido encontrava-se no fim da tabela. Um quinto das crianças britânicas vive na pobreza: um número que se prevê aumentar no ano das Olimpíadas. A prioridade da classe política britânica, independentemente do partido, é fazer o cidadão comum pagar o “défice”, termo cínico e capcioso usado para as dádivas gigantescas a bancos corruptos, e para travar sórdidas guerras coloniais que servem para roubar os recursos de outros países. Isto é o tipo de extremismo que nunca diz o seu nome.

É um extremismo que castra as sociais-democracias, que foram a redenção europeia do pós-guerra. O empobrecimento forçado da Grécia, com as exorbitantes contrapartidas exigidas pela banca alemã e francesa, levará provavelmente a outro golpe fascista. O empobrecimento forçado de milhões de britânicos levado a cabo pelo “antigo regime” de David Cameron, com o seu crescente estado policial e burguesia complacente, especialmente nos media, produzirá mais motins: nada é mais certo. Poderemos contar com o extremismo do apartheid para despoletar tal resultado, e pouco importará o lustro consumista hermeticamente fechado num gigantesco centro comercial. Perspectiva-se uma democracia para os ricos e totalitarismo para os pobres, e não só; e claro “intervenção liberal”, como lhe chamou num tom aprovador o The Guardian, para aquelas regiões demasiado frágeis para resistirem à “precisão” dos nossos mísseis Brimstone.

Fui noutro dia ao Parliament Square. O gráfico que mostrava os crimes estatais, da autoria do activista pela paz e justiça Brian Haw, fora finalmente retirado pela polícia metropolitana. Ela sabia que Brian já não lhes podia fazer frente, tanto física como legalmente, como o fizera durante uma década. Brian morreu em Junho passado. Ao visitá-lo durante um natal gélido, fiquei emocionado pela maneira como persuadia os mais simples transeuntes e com a força da sua coragem. Necessitamos agora de milhões como ele. Urgentemente.

22/Setembro/2011

O original encontra-se em www.johnpilger.com/ . Tradução de MQ.
in O Diário

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