O "essencial" e é um pau
00h32m
A afirmação do actual ministro da Educação de que o "princípio geral" que presidirá à "sua" reforma curricular do ensino básico e secundário é o de que "é necessário concentrar nas disciplinas essenciais" constitui todo um programa ideológico.
Deixando de lado o obsessão de todo o bicho-careta que chega a ministro da Educação em Portugal em "reformar" mais uma vez os curricula escolares, tornando o ensino num laboratório de experiências educativas e os alunos em cobaias que se usam e deitam fora na próxima "reforma", tudo com os resultados que se conhecem, a opção por um ensino público limitado a "disciplinas essenciais" segue fielmente a rota ideológica do "saber ler, escrever e contar" de Salazar.
Falta apurar o que o ministro entenderá por "essencial", mas outras medidas que tem tomado, como triplicar o valor dos cortes na Educação pública previsto no acordo com a "troika" enquanto financiava generosamente os colégios privados, levam a crer que o programa de empobrecimento anunciado por Passos Coelho é mais vasto do que parece. E que, além do empobrecimento económico das classes médias e mais desfavorecidas, está simultaneamente em curso o seu empobrecimento educativo.
Para a imensa maioria que não tem meios para pôr os filhos em colégios privados (que, no entanto, financia com os seus impostos), o "essencial" basta. Mão-de-obra menos instruída é mão-de-obra mais barata. E menos problemática.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
Das guerras do ópio às guerras do petróleo
por Domenico Losurdo
"A morte de Kadafi é uma viragem histórica", proclamam em coro os dirigentes da NATO e do Ocidente, sem se incomodarem sequer em guardar distâncias em relação ao bárbaro assassinato do líder líbio e das mentiras desavergonhadas que proferiram os chefes dos "rebeldes". Sim, efectivamente trata-se de uma viragem. Mas para entender o significado da guerra contra a Líbia no âmbito do colonialismo é preciso partir de longe...
Quando em 1840 os navios de guerra ingleses surgem diante das costas e das cidades chinesas, os agressores dispõem de um poder de fogo de milhares de canhões e podem semear destruição e morte em grande escala sem temer a artilharia inimiga, cujo alcance é muito reduzido. É o triunfo da política das canhoneiras: o grande país asiático e sua civilização milenar são obrigados a render-se e começa o que a historiografia chinesa denomina acertadamente como "o século das humilhações", que termina em 1949 com a chegada ao poder do Partido Comunista e de Mao Zedong.
Nos nossos dias, a chamada Revolution in Military Affairs (RMA) criou em muitos países do Terceiro Mundo uma situação parecida com a que a China enfrentou no seu tempo. Durante a guerra contra a Líbia de Kadafi, a NATO pôde consumar tranquilamente milhares de bombardeamentos e não só não sofreu baixas como sequer correu o risco de sofre-las. Neste sentido a força militar da NATO, mais do que um exército tradicional, parece-se a um pelotão de execução. Assim, a execução final de Kadafi, mais do que um facto causal ou acidental, revela o sentido profundo da operação em conjunto.
É algo palpável: a renovada desproporção tecnológica e militar reaviva as ambições e as tentações colonialistas de um Ocidente que, a julgar pela exaltada auto-consciência e falsa consciência que continua a ostentar, nega-se a saldar contas com a sua história. E não se trata só de aviões, navios de guerra e satélites. Ainda é mais clara a vantagem com que Washington e seus aliados podem contar em capacidade de bombardeamento mediático. Também nisto a "intervenção humanitária" contra a Líbia é um exemplo de manual: a guerra civil (desencadeada, entre outras coisas, graças ao trabalho prolongado de agentes e unidades militares ocidentais e no decorrer da qual os chamados "rebeldes" podiam dispor desde o princípio até de aviões) apresentou-se como uma matança perpetrada pelo poder contra uma população civil indefesa. Em contrapartida, os bombardeamentos da NATO que até o fim assolaram a Sirte assediada, faminta, sem água nem medicamentos, foram apresentados como operações humanitárias a favor da população civil da Líbia!
Hoje em dia este trabalho de manipulação, além de contar com os meios de informação tradicionais de informação e desinformação, vale-se de uma revolução tecnológica que completa a Revolution in Military Affairs. Como expliquei em intervenções e artigos anteriores, são autores e órgãos de imprensa ocidentais próximos ao Departamento de Estado os que celebram que o arsenal dos EUA se enriqueceu com novos e formidáveis instrumentos de guerra. São jornais ocidentais e de comprovada fé ocidental que contam, sem nenhum sentido crítico, que no decorrer das "guerras internet" a manipulação e a mentira, assim como a instigação à violência de minorias étnicas e religiosas, também mediante a manipulação e a mentira, estão na ordem do dia. É o que está a acontecer na Síria contra um grupo dirigente mais acossado do que nunca por haver resistido às pressões e intimidações ocidentais e se ter negado a capitular diante de Israel e a trair a resistência palestina.
Mas voltemos à primeira guerra do ópio, que termina em 1842 com o Tratado de Nanquim. É o primeiro dos "tratados desiguais", ou seja, imposto com as canhoneiras. No ano seguinte chega a vez dos Estados Unidos. Também envia canhoneiras para arrancar o mesmo resultado que a Grã-Bretanha e inclusive algo mais. O tratado de Wahghia (nas proximidades de Macau) de 1843 sanciona o privilégio da extraterritorialidade para os cidadãos estado-unidenses residentes na China: mesmo que cometam delitos comuns, subtraem-se à jurisdição chinesa. O privilégio da extraterritorialidade, evidentemente, não é recíproco, não vale para os cidadãos chineses residentes nos Estados Unidos. Uma coisa são os povos colonizados e outra muito diferente a raça dos senhores. Nos anos e décadas posteriores, o privilégio da extraterritorialidade amplia-se aos chineses que "dissidem" da religião e da cultura do seu país e convertem-se ao cristianismo (com o que teoricamente passam a ser cidadãos honorários da república norte-americana e do Ocidente em geral).
Também nos nossos dias o duplo critério da legalidade e da jurisdição é um elementos essencial do colonialismo: os "dissidentes", ou seja, os que se convertem à religião dos direitos humanos tal como é proclamada de Washington a Bruxelas, os Quisling potenciais ao serviço dos agressores, são galardoados com o prémio Nobel e outros prémios parecidos depois de o Ocidente ter desencadeado uma campanha desaforada para subtrair os premiados à jurisdição do seu país de residência, campanha reforçada com embargos e ameaça de embargo e de "intervenção humanitária".
O duplo critério da legalidade e da jurisdição alcança suas cotas mais altas com a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI). Os cidadãos estado-unidenses e os soldados e mercenários de faixas e estrelas espalhados por todo o mundo ficam e devem ficar fora da sua jurisdição. Recentemente a imprensa internacional revelou que os Estados Unidos estão dispostos a vetar a admissão da Palestina na ONU, entre outras coisas, para impedir que a Palestina possa denunciar Israel perante o TPI: seja como for, na prática quando não na teoria, deve ficar claro para todo o mundo que só os povos colonizados podem ser processados e condenados. A sequência temporal é em si mesma eloquente. 1999: apesar de não haver obtido autorização da ONU, a NATO começa a bombardear a Jugoslávia; pouco depois, sem perda de tempo, o TPI tratar de incriminar não os agressores e responsáveis da ruptura da ordem jurídica internacional estabelecida após a II Guerra Mundial e sim Milosevic. 2011: violentando o mandato da ONU, longe de se preocupar com o destino dos civis, a NATO recorre a todos os meios para impor a mudança de regime e ganhar o controle da Líbia. Seguindo uma pauta já ensaiada, o TPI trata de incriminar Kadafi. O chamado Tribunal Penal Internacional é uma espécie de apêndice judicial do pelotão de execução da NATO. Poder-se-ia dizer inclusive que os magistrados de Haia são como padres que, sem perder tempo a consolar a vítima, esmeram-se directamente em legitimar e consagrar o verdugo.
Uma última observação. Com a guerra contra a Líbia, perfilou-se numa nova divisão do trabalho no âmbito do imperialismo. As grandes potências coloniais tradicionais, como a Inglaterra e a França, valendo-se do decisivo apoio político e militar de Washington, centram-se no Médio Oriente e na África, ao passo que os Estados Unidos deslocam cada vez mais seu dispositivo militar para a Ásia. E assim voltamos à China. Depois de haver deixado para trás o século de humilhações que começou com as guerras do ópio, os dirigentes comunistas sabem que seria insensato e criminoso faltar pela segunda vez ao encontro com a revolução tecnológica e militar: enquanto liberta centenas de milhões de chineses da miséria e da fome a que os havia condenado o colonialismo, o poderoso desenvolvimento económico do grande país asiático é também uma medida de defesa contra a agressividade permanente do imperialismo. Aqueles que, inclusive na "esquerda", se põem a reboque de Washington e Bruxelas na tarefa de difamação sistemática dos dirigentes chineses demonstram que não se preocupam nem com a melhoria das condições de vida das massas populares nem com a causa da paz e da democracia nas relações internacionais.
23/Outubro/2011
O original em italiano e as versões em francês e castelhano encontram-se em http://www.domenicolosurdo.blogspot.com/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
"A morte de Kadafi é uma viragem histórica", proclamam em coro os dirigentes da NATO e do Ocidente, sem se incomodarem sequer em guardar distâncias em relação ao bárbaro assassinato do líder líbio e das mentiras desavergonhadas que proferiram os chefes dos "rebeldes". Sim, efectivamente trata-se de uma viragem. Mas para entender o significado da guerra contra a Líbia no âmbito do colonialismo é preciso partir de longe...
Quando em 1840 os navios de guerra ingleses surgem diante das costas e das cidades chinesas, os agressores dispõem de um poder de fogo de milhares de canhões e podem semear destruição e morte em grande escala sem temer a artilharia inimiga, cujo alcance é muito reduzido. É o triunfo da política das canhoneiras: o grande país asiático e sua civilização milenar são obrigados a render-se e começa o que a historiografia chinesa denomina acertadamente como "o século das humilhações", que termina em 1949 com a chegada ao poder do Partido Comunista e de Mao Zedong.
Nos nossos dias, a chamada Revolution in Military Affairs (RMA) criou em muitos países do Terceiro Mundo uma situação parecida com a que a China enfrentou no seu tempo. Durante a guerra contra a Líbia de Kadafi, a NATO pôde consumar tranquilamente milhares de bombardeamentos e não só não sofreu baixas como sequer correu o risco de sofre-las. Neste sentido a força militar da NATO, mais do que um exército tradicional, parece-se a um pelotão de execução. Assim, a execução final de Kadafi, mais do que um facto causal ou acidental, revela o sentido profundo da operação em conjunto.
É algo palpável: a renovada desproporção tecnológica e militar reaviva as ambições e as tentações colonialistas de um Ocidente que, a julgar pela exaltada auto-consciência e falsa consciência que continua a ostentar, nega-se a saldar contas com a sua história. E não se trata só de aviões, navios de guerra e satélites. Ainda é mais clara a vantagem com que Washington e seus aliados podem contar em capacidade de bombardeamento mediático. Também nisto a "intervenção humanitária" contra a Líbia é um exemplo de manual: a guerra civil (desencadeada, entre outras coisas, graças ao trabalho prolongado de agentes e unidades militares ocidentais e no decorrer da qual os chamados "rebeldes" podiam dispor desde o princípio até de aviões) apresentou-se como uma matança perpetrada pelo poder contra uma população civil indefesa. Em contrapartida, os bombardeamentos da NATO que até o fim assolaram a Sirte assediada, faminta, sem água nem medicamentos, foram apresentados como operações humanitárias a favor da população civil da Líbia!
Hoje em dia este trabalho de manipulação, além de contar com os meios de informação tradicionais de informação e desinformação, vale-se de uma revolução tecnológica que completa a Revolution in Military Affairs. Como expliquei em intervenções e artigos anteriores, são autores e órgãos de imprensa ocidentais próximos ao Departamento de Estado os que celebram que o arsenal dos EUA se enriqueceu com novos e formidáveis instrumentos de guerra. São jornais ocidentais e de comprovada fé ocidental que contam, sem nenhum sentido crítico, que no decorrer das "guerras internet" a manipulação e a mentira, assim como a instigação à violência de minorias étnicas e religiosas, também mediante a manipulação e a mentira, estão na ordem do dia. É o que está a acontecer na Síria contra um grupo dirigente mais acossado do que nunca por haver resistido às pressões e intimidações ocidentais e se ter negado a capitular diante de Israel e a trair a resistência palestina.
Mas voltemos à primeira guerra do ópio, que termina em 1842 com o Tratado de Nanquim. É o primeiro dos "tratados desiguais", ou seja, imposto com as canhoneiras. No ano seguinte chega a vez dos Estados Unidos. Também envia canhoneiras para arrancar o mesmo resultado que a Grã-Bretanha e inclusive algo mais. O tratado de Wahghia (nas proximidades de Macau) de 1843 sanciona o privilégio da extraterritorialidade para os cidadãos estado-unidenses residentes na China: mesmo que cometam delitos comuns, subtraem-se à jurisdição chinesa. O privilégio da extraterritorialidade, evidentemente, não é recíproco, não vale para os cidadãos chineses residentes nos Estados Unidos. Uma coisa são os povos colonizados e outra muito diferente a raça dos senhores. Nos anos e décadas posteriores, o privilégio da extraterritorialidade amplia-se aos chineses que "dissidem" da religião e da cultura do seu país e convertem-se ao cristianismo (com o que teoricamente passam a ser cidadãos honorários da república norte-americana e do Ocidente em geral).
Também nos nossos dias o duplo critério da legalidade e da jurisdição é um elementos essencial do colonialismo: os "dissidentes", ou seja, os que se convertem à religião dos direitos humanos tal como é proclamada de Washington a Bruxelas, os Quisling potenciais ao serviço dos agressores, são galardoados com o prémio Nobel e outros prémios parecidos depois de o Ocidente ter desencadeado uma campanha desaforada para subtrair os premiados à jurisdição do seu país de residência, campanha reforçada com embargos e ameaça de embargo e de "intervenção humanitária".
O duplo critério da legalidade e da jurisdição alcança suas cotas mais altas com a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI). Os cidadãos estado-unidenses e os soldados e mercenários de faixas e estrelas espalhados por todo o mundo ficam e devem ficar fora da sua jurisdição. Recentemente a imprensa internacional revelou que os Estados Unidos estão dispostos a vetar a admissão da Palestina na ONU, entre outras coisas, para impedir que a Palestina possa denunciar Israel perante o TPI: seja como for, na prática quando não na teoria, deve ficar claro para todo o mundo que só os povos colonizados podem ser processados e condenados. A sequência temporal é em si mesma eloquente. 1999: apesar de não haver obtido autorização da ONU, a NATO começa a bombardear a Jugoslávia; pouco depois, sem perda de tempo, o TPI tratar de incriminar não os agressores e responsáveis da ruptura da ordem jurídica internacional estabelecida após a II Guerra Mundial e sim Milosevic. 2011: violentando o mandato da ONU, longe de se preocupar com o destino dos civis, a NATO recorre a todos os meios para impor a mudança de regime e ganhar o controle da Líbia. Seguindo uma pauta já ensaiada, o TPI trata de incriminar Kadafi. O chamado Tribunal Penal Internacional é uma espécie de apêndice judicial do pelotão de execução da NATO. Poder-se-ia dizer inclusive que os magistrados de Haia são como padres que, sem perder tempo a consolar a vítima, esmeram-se directamente em legitimar e consagrar o verdugo.
Uma última observação. Com a guerra contra a Líbia, perfilou-se numa nova divisão do trabalho no âmbito do imperialismo. As grandes potências coloniais tradicionais, como a Inglaterra e a França, valendo-se do decisivo apoio político e militar de Washington, centram-se no Médio Oriente e na África, ao passo que os Estados Unidos deslocam cada vez mais seu dispositivo militar para a Ásia. E assim voltamos à China. Depois de haver deixado para trás o século de humilhações que começou com as guerras do ópio, os dirigentes comunistas sabem que seria insensato e criminoso faltar pela segunda vez ao encontro com a revolução tecnológica e militar: enquanto liberta centenas de milhões de chineses da miséria e da fome a que os havia condenado o colonialismo, o poderoso desenvolvimento económico do grande país asiático é também uma medida de defesa contra a agressividade permanente do imperialismo. Aqueles que, inclusive na "esquerda", se põem a reboque de Washington e Bruxelas na tarefa de difamação sistemática dos dirigentes chineses demonstram que não se preocupam nem com a melhoria das condições de vida das massas populares nem com a causa da paz e da democracia nas relações internacionais.
23/Outubro/2011
O original em italiano e as versões em francês e castelhano encontram-se em http://www.domenicolosurdo.blogspot.com/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Uma carta da Síria
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
__________________________________________________
Publicado em: http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=3099:uma-cartaao-
mundo-comunista-e-aos-partidos-operarios&catid=42:comunistas
Colocado em linha em: 2011/10/16
Uma carta ao Mundo Comunista e aos Partidos Operários1
Partido Comunista Sírio (Unificado)
Saudações camaradas
Gostaríamos de apresentar-lhes uma breve análise dos sucessivos acontecimentos
recentes em nosso país, Síria, e, para tanto, devemos elucidar alguns fatos e
desvendar algumas mentiras fabricadas e publicadas pela propaganda imperialista
contra a Síria.
Desde o início dos eventos, em Março, estações de TV na América, Reino Unido e
França, algumas estações no mundo Árabe e centenas de sites da internet têm se
mobilizado para falsificar, da melhor maneira que puderem, a realidade e, na medida
em que a opinião pública se volta para essa causa, programas especiais são
transmitidos para servirem a esse propósito dia e noite.
O presidente norte-americano divulga, diariamente, notas que expressam seu
tratamento contra a Síria, assim como uma intervenção flagrante nas relações
internas do povo Sírio. Oficiais de alta patente da União Européia têm imitado o
presidente Americano.
Tais tratamentos e intervenções chegaram ao auge quando o presidente norteamericano
apontou a irrelevância e ilegitimidade do regime Sírio. Ásperas e injustas
sanções econômicas foram impostas contra o povo Sírio. Ainda mais perigosos são os
planos endossados pela OTAN de compartilhar ondas de ataques aéreos, por algumas
semanas, contra 30 áreas estratégicas na Síria, exatamente igual ao que aconteceu na
Iugoslávia.
Alguns oficiais europeus jamais hesitarão em comparar a situação na Síria, como se
fosse a cópia exata da crise Líbia, onde milhares de civis foram massacrados, dezenas
de áreas econômicas foram destruídas pelos ataques aéreos.
Estados membros da aliança imperialista têm tentado, de todas as maneiras
possíveis, aprovar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a
Síria para, em seguida, adotar sucessivas resoluções a respeito, para tornar “legal”
uma agressiva campanha contra nosso país. Agradecemos a oposição a esses planos
por parte da Rússia e da China, acompanhadas, até agora, pela África do Sul, Índia,
Brasil e Líbano. As tentativas imperialistas no Conselho de Segurança da ONU foram,
até agora, infrutíferas.
2
Todas essas movimentações acontecem sob dois pretextos:
1. Manifestantes na Síria estão sendo mortos, procedimentos de segurança estão
sendo empreendidos para lidar com os manifestantes;
2. Manipulações das deficiências do regime Sírio, assim como a falta de
democracia e o monopólio do poder por parte do partido no poder, com o
intuito de pressionar o regime para adotar algumas mudanças internas,
embora qualquer mudança interna deva ser considerada como parte da
soberania nacional do país.
Na realidade, diversas manifestações de protesto começaram em março pedindo
reformas social, econômica e democrática. A maioria dessas demandas foi apoiada
pelo nosso partido como uma forma de lidar com os efeitos nocivos da
implementação de um programa liberal na economia (de acordo com o Fundo
Monetário Internacional) e a transformação da Síria em um mercado econômico. Os
efeitos foram nocivos para o nível de vida das camadas pobre e média. Essas
manifestações eram pacíficas, mas cedo foram manipulados por fundamentalistas
religiosos e grupos radicais, cuja ideologia data de antes da idade média.
As manifestações se transformaram de pacíficas para armadas, buscando alcançar
propósitos que não têm nenhuma ligação com as reformas políticas e sociais. Ao
tratar com essas manifestações, as forças de segurança oficial cometeram diversos
erros injustificáveis; conseqüentemente, essas ações foram seguidas de reações.
Dezenas de civis e soldados foram mortos. Gangues armadas foram formadas
atacando propriedades públicas e privadas, criando barreiras dentro de algumas
cidades, contando com ajuda externa. Durante os últimos meses, essas gangues
estabeleceram áreas armadas nas regiões fronteiriças da Síria, do nosso lado, e da
Turquia, do Líbano, da Jordânia e Iraque, para garantir continuidade no suprimento
de suas armas e na ligação entre essas áreas.
De qualquer maneira, as gangues não obtiveram sucesso no estabelecimento de uma
base fronteiriça estável. Isso custa centenas de civis e soldados, ou seja, mais de 2000
vítimas. No meio tempo, diversos eventos foram exagerados. Fatos foram falsificados.
Os mais modernos equipamentos eletrônicos e de mídia foram empregados com o
intuito de mostrar que o exército Sírio é completamente responsável por esses atos e
que as gangues armadas não são responsáveis, e assim por diante.
Devido à pressão, o governo adotou diversas reformas sociais e democráticas que
incluem: anulação das leis e Tribunais de exceção e respeito às manifestações
pacíficas legais. Recentemente, uma nova lei eleitoral e uma lei permitindo o
estabelecimento de partidos políticos foram adotadas. Preparações para uma nova ou
modificada constituição estão a caminho. Novas leis a respeito da mídia e da
administração pública também foram adotadas.
Os objetivos dessas leis e procedimentos são: quebrar o monopólio de poder do
partido Ba’th, estabelecer uma sociedade plural e democrática, assegurar liberdades
privadas e públicas, garantir a liberdade de expressão e reconhecer o direito de
oposição para atividade política pacífica.
3
Apesar das nossas reservas no que diz respeito a alguns artigos, essas leis são muito
importantes. Por mais de quarenta anos nosso partido tem lutado para ter tais leis
adotadas. Essas leis devem ser implementadas e podem ser consideradas como um
importante passo em direção à transição da Síria para uma sociedade democrática e
plural.
Largos setores pacíficos da oposição nacional saudaram esses procedimentos, embora
as oposições fundamentalistas e armadas ainda estejam defendendo a derrubada do
regime, pressionando e agindo sectariamente.
Podemos resumir a situação como segue:
· Reduziu-se a tensão armada nas cidades Sírias. Gangues armadas sofreram
fortemente. De qualquer maneira, algumas delas têm condições de retomar
suas atividades;
· Manifestações pacíficas não desapareceram e não são confrontadas
violentamente, a não ser quando acompanhadas por atividades violentas;
· O governo chamou a oposição nacional a participar de diálogos políticos que
buscam ajudar a alcançar a transição para a democracia e o pluralismo de
forma pacífica. Tal diálogo encontra muitas dificuldades, mais importantes até
do que a pressão dos grupos armados que se opõem ao diálogo e à solução
pacífica, financiados por apoio externo;
· Ameaças imperialistas e colonialistas contra a Síria aumentaram. Embora
essas ameaças encontrem algumas dificuldades, precisamos estar prontos para
confrontá-las.
Enquanto a situação do nosso país está em pauta, ela aparece como
segue:
- Movimentos de protesto ainda existem em diferentes níveis. Eles diferem de uma
região para outra. Nota-se que alguns movimentos começam em mesquitas, áreas
rurais e favelas e segue em direção ao centro da cidade;
- Movimentos dentre as minorias étnicas e religiosas são raros. Nas fábricas,
universidades e sindicatos não existem movimentações;
- Dentro dos círculos da grande burguesia, independente de ser industrial ou
financeiro, especialmente nas grandes cidades de Aleppo, Lattakia e Damasco, não
existem movimentos;
- Não existem movimentações dentro dos clãs e das tribos;
- A oposição é composta de um amplo e variável espectro de partidos. Alguns são
patrióticos, se opõem à intervenção externa e às gangues armadas. Neste campo está
o Partido Muçulmano, considerado o mais ativo e bem organizado partido dentro e
fora do país.
4
Há, também, diversos grupos tradicionais com diferentes orientações, cuja influência
se tornou mais clara nas manifestações em diferentes áreas. Esses grupos não
escondem seus objetivos e propostas que são claramente reacionárias e sectárias.
Os grupos locais mais importantes e ativos, desde o inicio dos protestos, são as
coordenações locais que incluem diferentes grupos da juventude sem terem nenhum
plano e clareza ideológica comuns, ou orientações, exceto pelo slogan “Abaixo o
regime”. Eles estão expostos à pressão externa, assim como interna.
- Oposição no exterior é composta por intelectuais, tradicionalistas, pessoas que
romperam com o regime, com algumas conexões internas (Khadam e Refa ׳at Al
Assad).
Durante o ultimo período, essas forças promoveram diversas conferências no exterior
(exceto um encontro que aconteceu no hotel Samir Amis, em Damasco, organizado
pela oposição interna) objetivando mobilizar forças e coordenar posições. Diferenças
ideológicas e políticas, assim como diferenças nos interesses prevalecem. Algumas
forças de oposição no exterior trabalham duro para ganhar apoio internacional e de
forças colonialistas.
- Até agora, os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha estão liderando a
campanha internacional de ameaças e incitamento contra o regime Sírio, buscando
impor mais e mais pacotes e sanções, especialmente pelo Conselho de Segurança da
ONU e outros organismos internacionais; Rússia e China continuam se opondo à
imposição de tais sanções e procedimentos. A Turquia escolheu uma postura
oportunista que se move de acordo com as eleições internas e seus interesses
regionais. Há uma maioria internacional se opondo às medidas militares diretas
contra a Síria, como aconteceu na Líbia, para que a Liga Árabe e o Conselho de
Segurança da ONU não adotem resoluções que preparem o caminho para a agressão.
O conflito em torno desta questão é feroz.
- Exceto pelo Qatar, que tem um papel vital e importante nesta conspiração contra a
Síria, existem diferentes pontos de vista e posições no mundo árabe no que diz
respeito à situação no país.
- Dia a dia, a situação econômica se deteriora, a pressão nas condições de vida das
massas aumenta.
- O regime é coeso e tem grandes potencialidades de superar a crise. Cinco meses
antes do estouro dos eventos, nenhuma das instituições básicas (o partido, o exército,
a segurança, as instituições de estado, embaixadas, organizações populares,
sindicatos, a Frente Progressista Nacional...) haviam experimentado qualquer
divisão.
Certamente, o cenário não é estático e deve ser visto de acordo com suas dinâmicas,
variações e desenvolvimento diário.
Possíveis cenários:
5
- A crise deve continuar por um longo período, levando para mais calamidades e
derramamento de sangue;
- Uma movimentação que leve para uma anarquia geral, uma guerra civil ou algo
similar, pavimentando o caminho para uma intervenção externa;
- Uma aparente divisão na oposição pode acontecer, fazendo com que parte dela
queira iniciar um sério diálogo com o regime para alcançar um novo contrato social
no país;
- Colocar um fim nas diferentes abordagens e “imobilidade” no que diz respeito às
forças do regime.
Há dois possíveis resultados: mover-se em direção a uma solução política para o fim
da crise, factível e firme, ou continuar tratando a crise apenas como uma questão de
segurança a todo custo.
É difícil prever a maneira pela qual uma decisiva solução é possível.
- Alguns fatos inesperados podem acontecer, forçando todos os partidos a se
comprometerem, ou aceitarem, um acordo imposto por forças externas para ajudar o
país a encontrar um caminho para fora do túnel.
Onde está o partido agora?
Para começar, gostaríamos de sublinhar o fato de o nosso partido ter enviado uma
mensagem ao comando do partido Al-Baa’th, na véspera de sua décima Conferencia,
em 2005. Nosso partido reivindicava a separação entre o estado e o partido
governista, garantias de democracia e liberdades, regulamentos de emergência, a
adoção de uma lei democrática para partidos, liberdade de expressão e libertação de
prisioneiros políticos, o fim da hegemonia do partido Al-Baa’th em sindicatos,
combate à corrupção etc.
Mas gostaríamos de adicionar que o partido afirmou, em todos os documentos
divulgados nos últimos meses, que apoiamos a postura da Síria nas questões
internacionais.
Para materializar este desejo, as necessidades sociais, econômicas e democráticas das
massas populares devem ser inter-relacionadas. Nós discutimos essas questões
detalhadamente nas nossas conferências e documentos.
Nas suas análises da profunda e atual crise do nosso país, nosso partido esclareceu
que a principal contradição está entre a fórmula política usada para regular o país por
diversas décadas e as demandas pelo desenvolvimento democrático, social,
econômico e cultural, necessárias para a sociedade Síria.
O conteúdo do nosso ponto de vista é que a fórmula política está baseada no
monopólio da autoridade do partido Al-Baa ׳th, que administra o movimento popular
e suas organizações. Esta fórmula leva à decadência, à burocracia e à corrupção da
máquina de estado. Conseqüentemente, os planos de reforma econômica e social
precisam ser reconsiderados para serem atualizados com as exigências do progresso.
6
Nosso partido acredita que a essência da atual crise é a desproporção entre a
estrutura do regime e os objetivos da Síria. Ao mesmo tempo, o partido tem
enfatizado que o inimigo e as forças imperialistas têm se aproveitado destas
distorções internas para fomentar o nível da conspiração contra a Síria e usá-las
como um cavalo de Tróia para servir aos seus já conhecidos objetivos, como
mencionado anteriormente.
Conseqüentemente, o Partido Comunista Sírio (Unificado) não está neutro no que se
refere à alternativa necessária, por um lado, e os meios necessários para alcançar esse
objetivo, por outro lado.
Solução política e continuidade de uma reforma real e radical constituem o único
caminho para a saída da crise. Os procedimentos de repressão ajudam a aumentar os
componentes da crise e a esvaziar o conteúdo das reformas necessárias.
A atual situação, afirmamos, requer um diálogo construtivo e fiel com todas as forças
honestas e patrióticas, independente das diferenças de opinião ou pontos de vista,
com o propósito de alcançar um acordo ou uma reforma radical que sirva às
necessidades das massas populares e garanta a criação de um estado laico civil e
democrático que se oponha aos planos imperialistas e israelenses na região.
Mas o diálogo pressupõe um clima adequado; sem ele, a intransigência só poderá
levar a mais derramamento de sangue, mais destruição para o país e mais sofrimento
para a população.
Queridos camaradas:
Devido à fraqueza da imprensa popular de massa na Síria na confrontação com a
grande mídia do imperialismo, à mobilização das forças reacionárias por todo o
mundo contra a Síria, além de seus fantoches na região – incluindo a Turquia, que
adotou uma política pragmática para lutar pela hegemonia frente aos países orientais
– devido a tudo isso, nosso partido deseja que todos os partidos comunistas, de
trabalhadores e democráticos no mundo nos ajudem a divulgar amplamente esses
esclarecimentos junto à opinião pública de seus países.
Ainda mais, pedimos para que esses partidos se solidarizem com a Síria porque este é
o país mais importante do Mundo Árabe que resiste aos planos imperialistas de
dominar o Oriente Médio, se opondo firmemente ao plano americano-Israelense de
fragmentar a área em diversas entidades sectárias fáceis de serem controladas. A
Síria apóia, inclusive, a resistência nacional Palestina, Libanesa e Iraquiana. Ainda
mais, apóia o direito do povo Palestino de libertar seu território e estabelecer um
estado nacional com Jerusalém como sua capital.
Damasco: 17/9/2011
Hunein Nemer
Primeiro Secretário do Partido Comunista Síria (Unificado)
http://www.syrcomparty.org/index.php?nid=121
1 O texto é publicado tal como consta no sítio em referência, do PCB (Partido Comunista Brasileiro). [NE
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
__________________________________________________
Publicado em: http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=3099:uma-cartaao-
mundo-comunista-e-aos-partidos-operarios&catid=42:comunistas
Colocado em linha em: 2011/10/16
Uma carta ao Mundo Comunista e aos Partidos Operários1
Partido Comunista Sírio (Unificado)
Saudações camaradas
Gostaríamos de apresentar-lhes uma breve análise dos sucessivos acontecimentos
recentes em nosso país, Síria, e, para tanto, devemos elucidar alguns fatos e
desvendar algumas mentiras fabricadas e publicadas pela propaganda imperialista
contra a Síria.
Desde o início dos eventos, em Março, estações de TV na América, Reino Unido e
França, algumas estações no mundo Árabe e centenas de sites da internet têm se
mobilizado para falsificar, da melhor maneira que puderem, a realidade e, na medida
em que a opinião pública se volta para essa causa, programas especiais são
transmitidos para servirem a esse propósito dia e noite.
O presidente norte-americano divulga, diariamente, notas que expressam seu
tratamento contra a Síria, assim como uma intervenção flagrante nas relações
internas do povo Sírio. Oficiais de alta patente da União Européia têm imitado o
presidente Americano.
Tais tratamentos e intervenções chegaram ao auge quando o presidente norteamericano
apontou a irrelevância e ilegitimidade do regime Sírio. Ásperas e injustas
sanções econômicas foram impostas contra o povo Sírio. Ainda mais perigosos são os
planos endossados pela OTAN de compartilhar ondas de ataques aéreos, por algumas
semanas, contra 30 áreas estratégicas na Síria, exatamente igual ao que aconteceu na
Iugoslávia.
Alguns oficiais europeus jamais hesitarão em comparar a situação na Síria, como se
fosse a cópia exata da crise Líbia, onde milhares de civis foram massacrados, dezenas
de áreas econômicas foram destruídas pelos ataques aéreos.
Estados membros da aliança imperialista têm tentado, de todas as maneiras
possíveis, aprovar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a
Síria para, em seguida, adotar sucessivas resoluções a respeito, para tornar “legal”
uma agressiva campanha contra nosso país. Agradecemos a oposição a esses planos
por parte da Rússia e da China, acompanhadas, até agora, pela África do Sul, Índia,
Brasil e Líbano. As tentativas imperialistas no Conselho de Segurança da ONU foram,
até agora, infrutíferas.
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Todas essas movimentações acontecem sob dois pretextos:
1. Manifestantes na Síria estão sendo mortos, procedimentos de segurança estão
sendo empreendidos para lidar com os manifestantes;
2. Manipulações das deficiências do regime Sírio, assim como a falta de
democracia e o monopólio do poder por parte do partido no poder, com o
intuito de pressionar o regime para adotar algumas mudanças internas,
embora qualquer mudança interna deva ser considerada como parte da
soberania nacional do país.
Na realidade, diversas manifestações de protesto começaram em março pedindo
reformas social, econômica e democrática. A maioria dessas demandas foi apoiada
pelo nosso partido como uma forma de lidar com os efeitos nocivos da
implementação de um programa liberal na economia (de acordo com o Fundo
Monetário Internacional) e a transformação da Síria em um mercado econômico. Os
efeitos foram nocivos para o nível de vida das camadas pobre e média. Essas
manifestações eram pacíficas, mas cedo foram manipulados por fundamentalistas
religiosos e grupos radicais, cuja ideologia data de antes da idade média.
As manifestações se transformaram de pacíficas para armadas, buscando alcançar
propósitos que não têm nenhuma ligação com as reformas políticas e sociais. Ao
tratar com essas manifestações, as forças de segurança oficial cometeram diversos
erros injustificáveis; conseqüentemente, essas ações foram seguidas de reações.
Dezenas de civis e soldados foram mortos. Gangues armadas foram formadas
atacando propriedades públicas e privadas, criando barreiras dentro de algumas
cidades, contando com ajuda externa. Durante os últimos meses, essas gangues
estabeleceram áreas armadas nas regiões fronteiriças da Síria, do nosso lado, e da
Turquia, do Líbano, da Jordânia e Iraque, para garantir continuidade no suprimento
de suas armas e na ligação entre essas áreas.
De qualquer maneira, as gangues não obtiveram sucesso no estabelecimento de uma
base fronteiriça estável. Isso custa centenas de civis e soldados, ou seja, mais de 2000
vítimas. No meio tempo, diversos eventos foram exagerados. Fatos foram falsificados.
Os mais modernos equipamentos eletrônicos e de mídia foram empregados com o
intuito de mostrar que o exército Sírio é completamente responsável por esses atos e
que as gangues armadas não são responsáveis, e assim por diante.
Devido à pressão, o governo adotou diversas reformas sociais e democráticas que
incluem: anulação das leis e Tribunais de exceção e respeito às manifestações
pacíficas legais. Recentemente, uma nova lei eleitoral e uma lei permitindo o
estabelecimento de partidos políticos foram adotadas. Preparações para uma nova ou
modificada constituição estão a caminho. Novas leis a respeito da mídia e da
administração pública também foram adotadas.
Os objetivos dessas leis e procedimentos são: quebrar o monopólio de poder do
partido Ba’th, estabelecer uma sociedade plural e democrática, assegurar liberdades
privadas e públicas, garantir a liberdade de expressão e reconhecer o direito de
oposição para atividade política pacífica.
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Apesar das nossas reservas no que diz respeito a alguns artigos, essas leis são muito
importantes. Por mais de quarenta anos nosso partido tem lutado para ter tais leis
adotadas. Essas leis devem ser implementadas e podem ser consideradas como um
importante passo em direção à transição da Síria para uma sociedade democrática e
plural.
Largos setores pacíficos da oposição nacional saudaram esses procedimentos, embora
as oposições fundamentalistas e armadas ainda estejam defendendo a derrubada do
regime, pressionando e agindo sectariamente.
Podemos resumir a situação como segue:
· Reduziu-se a tensão armada nas cidades Sírias. Gangues armadas sofreram
fortemente. De qualquer maneira, algumas delas têm condições de retomar
suas atividades;
· Manifestações pacíficas não desapareceram e não são confrontadas
violentamente, a não ser quando acompanhadas por atividades violentas;
· O governo chamou a oposição nacional a participar de diálogos políticos que
buscam ajudar a alcançar a transição para a democracia e o pluralismo de
forma pacífica. Tal diálogo encontra muitas dificuldades, mais importantes até
do que a pressão dos grupos armados que se opõem ao diálogo e à solução
pacífica, financiados por apoio externo;
· Ameaças imperialistas e colonialistas contra a Síria aumentaram. Embora
essas ameaças encontrem algumas dificuldades, precisamos estar prontos para
confrontá-las.
Enquanto a situação do nosso país está em pauta, ela aparece como
segue:
- Movimentos de protesto ainda existem em diferentes níveis. Eles diferem de uma
região para outra. Nota-se que alguns movimentos começam em mesquitas, áreas
rurais e favelas e segue em direção ao centro da cidade;
- Movimentos dentre as minorias étnicas e religiosas são raros. Nas fábricas,
universidades e sindicatos não existem movimentações;
- Dentro dos círculos da grande burguesia, independente de ser industrial ou
financeiro, especialmente nas grandes cidades de Aleppo, Lattakia e Damasco, não
existem movimentos;
- Não existem movimentações dentro dos clãs e das tribos;
- A oposição é composta de um amplo e variável espectro de partidos. Alguns são
patrióticos, se opõem à intervenção externa e às gangues armadas. Neste campo está
o Partido Muçulmano, considerado o mais ativo e bem organizado partido dentro e
fora do país.
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Há, também, diversos grupos tradicionais com diferentes orientações, cuja influência
se tornou mais clara nas manifestações em diferentes áreas. Esses grupos não
escondem seus objetivos e propostas que são claramente reacionárias e sectárias.
Os grupos locais mais importantes e ativos, desde o inicio dos protestos, são as
coordenações locais que incluem diferentes grupos da juventude sem terem nenhum
plano e clareza ideológica comuns, ou orientações, exceto pelo slogan “Abaixo o
regime”. Eles estão expostos à pressão externa, assim como interna.
- Oposição no exterior é composta por intelectuais, tradicionalistas, pessoas que
romperam com o regime, com algumas conexões internas (Khadam e Refa ׳at Al
Assad).
Durante o ultimo período, essas forças promoveram diversas conferências no exterior
(exceto um encontro que aconteceu no hotel Samir Amis, em Damasco, organizado
pela oposição interna) objetivando mobilizar forças e coordenar posições. Diferenças
ideológicas e políticas, assim como diferenças nos interesses prevalecem. Algumas
forças de oposição no exterior trabalham duro para ganhar apoio internacional e de
forças colonialistas.
- Até agora, os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha estão liderando a
campanha internacional de ameaças e incitamento contra o regime Sírio, buscando
impor mais e mais pacotes e sanções, especialmente pelo Conselho de Segurança da
ONU e outros organismos internacionais; Rússia e China continuam se opondo à
imposição de tais sanções e procedimentos. A Turquia escolheu uma postura
oportunista que se move de acordo com as eleições internas e seus interesses
regionais. Há uma maioria internacional se opondo às medidas militares diretas
contra a Síria, como aconteceu na Líbia, para que a Liga Árabe e o Conselho de
Segurança da ONU não adotem resoluções que preparem o caminho para a agressão.
O conflito em torno desta questão é feroz.
- Exceto pelo Qatar, que tem um papel vital e importante nesta conspiração contra a
Síria, existem diferentes pontos de vista e posições no mundo árabe no que diz
respeito à situação no país.
- Dia a dia, a situação econômica se deteriora, a pressão nas condições de vida das
massas aumenta.
- O regime é coeso e tem grandes potencialidades de superar a crise. Cinco meses
antes do estouro dos eventos, nenhuma das instituições básicas (o partido, o exército,
a segurança, as instituições de estado, embaixadas, organizações populares,
sindicatos, a Frente Progressista Nacional...) haviam experimentado qualquer
divisão.
Certamente, o cenário não é estático e deve ser visto de acordo com suas dinâmicas,
variações e desenvolvimento diário.
Possíveis cenários:
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- A crise deve continuar por um longo período, levando para mais calamidades e
derramamento de sangue;
- Uma movimentação que leve para uma anarquia geral, uma guerra civil ou algo
similar, pavimentando o caminho para uma intervenção externa;
- Uma aparente divisão na oposição pode acontecer, fazendo com que parte dela
queira iniciar um sério diálogo com o regime para alcançar um novo contrato social
no país;
- Colocar um fim nas diferentes abordagens e “imobilidade” no que diz respeito às
forças do regime.
Há dois possíveis resultados: mover-se em direção a uma solução política para o fim
da crise, factível e firme, ou continuar tratando a crise apenas como uma questão de
segurança a todo custo.
É difícil prever a maneira pela qual uma decisiva solução é possível.
- Alguns fatos inesperados podem acontecer, forçando todos os partidos a se
comprometerem, ou aceitarem, um acordo imposto por forças externas para ajudar o
país a encontrar um caminho para fora do túnel.
Onde está o partido agora?
Para começar, gostaríamos de sublinhar o fato de o nosso partido ter enviado uma
mensagem ao comando do partido Al-Baa’th, na véspera de sua décima Conferencia,
em 2005. Nosso partido reivindicava a separação entre o estado e o partido
governista, garantias de democracia e liberdades, regulamentos de emergência, a
adoção de uma lei democrática para partidos, liberdade de expressão e libertação de
prisioneiros políticos, o fim da hegemonia do partido Al-Baa’th em sindicatos,
combate à corrupção etc.
Mas gostaríamos de adicionar que o partido afirmou, em todos os documentos
divulgados nos últimos meses, que apoiamos a postura da Síria nas questões
internacionais.
Para materializar este desejo, as necessidades sociais, econômicas e democráticas das
massas populares devem ser inter-relacionadas. Nós discutimos essas questões
detalhadamente nas nossas conferências e documentos.
Nas suas análises da profunda e atual crise do nosso país, nosso partido esclareceu
que a principal contradição está entre a fórmula política usada para regular o país por
diversas décadas e as demandas pelo desenvolvimento democrático, social,
econômico e cultural, necessárias para a sociedade Síria.
O conteúdo do nosso ponto de vista é que a fórmula política está baseada no
monopólio da autoridade do partido Al-Baa ׳th, que administra o movimento popular
e suas organizações. Esta fórmula leva à decadência, à burocracia e à corrupção da
máquina de estado. Conseqüentemente, os planos de reforma econômica e social
precisam ser reconsiderados para serem atualizados com as exigências do progresso.
6
Nosso partido acredita que a essência da atual crise é a desproporção entre a
estrutura do regime e os objetivos da Síria. Ao mesmo tempo, o partido tem
enfatizado que o inimigo e as forças imperialistas têm se aproveitado destas
distorções internas para fomentar o nível da conspiração contra a Síria e usá-las
como um cavalo de Tróia para servir aos seus já conhecidos objetivos, como
mencionado anteriormente.
Conseqüentemente, o Partido Comunista Sírio (Unificado) não está neutro no que se
refere à alternativa necessária, por um lado, e os meios necessários para alcançar esse
objetivo, por outro lado.
Solução política e continuidade de uma reforma real e radical constituem o único
caminho para a saída da crise. Os procedimentos de repressão ajudam a aumentar os
componentes da crise e a esvaziar o conteúdo das reformas necessárias.
A atual situação, afirmamos, requer um diálogo construtivo e fiel com todas as forças
honestas e patrióticas, independente das diferenças de opinião ou pontos de vista,
com o propósito de alcançar um acordo ou uma reforma radical que sirva às
necessidades das massas populares e garanta a criação de um estado laico civil e
democrático que se oponha aos planos imperialistas e israelenses na região.
Mas o diálogo pressupõe um clima adequado; sem ele, a intransigência só poderá
levar a mais derramamento de sangue, mais destruição para o país e mais sofrimento
para a população.
Queridos camaradas:
Devido à fraqueza da imprensa popular de massa na Síria na confrontação com a
grande mídia do imperialismo, à mobilização das forças reacionárias por todo o
mundo contra a Síria, além de seus fantoches na região – incluindo a Turquia, que
adotou uma política pragmática para lutar pela hegemonia frente aos países orientais
– devido a tudo isso, nosso partido deseja que todos os partidos comunistas, de
trabalhadores e democráticos no mundo nos ajudem a divulgar amplamente esses
esclarecimentos junto à opinião pública de seus países.
Ainda mais, pedimos para que esses partidos se solidarizem com a Síria porque este é
o país mais importante do Mundo Árabe que resiste aos planos imperialistas de
dominar o Oriente Médio, se opondo firmemente ao plano americano-Israelense de
fragmentar a área em diversas entidades sectárias fáceis de serem controladas. A
Síria apóia, inclusive, a resistência nacional Palestina, Libanesa e Iraquiana. Ainda
mais, apóia o direito do povo Palestino de libertar seu território e estabelecer um
estado nacional com Jerusalém como sua capital.
Damasco: 17/9/2011
Hunein Nemer
Primeiro Secretário do Partido Comunista Síria (Unificado)
http://www.syrcomparty.org/index.php?nid=121
1 O texto é publicado tal como consta no sítio em referência, do PCB (Partido Comunista Brasileiro). [NE
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Filósofos portugueses- Fernando Gil
Fernando Gil
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre
Fernando Gil (Muecate em Moçambique, 1937 - Paris, 2006) foi um filósofo português, autor de vários livros tanto na sua língua materna como em françês . Foi director de investigação na École des hautes études en sciences sociales e professor na Universidade Nova de Lisboa.
Obras
La logique du nom, edições L'Herne, Paris, 1972.
Mimesis e negação, edições INCM, Lisboa, 1984.
Preuves, edições Aubier, Paris, 1988.
Traité de l'évidence, edições Jérome Millon, 1993, ISBN 2905614838.
Prémios e condecorações: Prémios de Ensaio (1985) com a obra Mimesis e negação, atribuído pelo PEN Clube Português
Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1992)
Prémio Pessoa atribuído pelo jornal Expresso e pela empresa Unisys (1993)
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre
Fernando Gil (Muecate em Moçambique, 1937 - Paris, 2006) foi um filósofo português, autor de vários livros tanto na sua língua materna como em françês . Foi director de investigação na École des hautes études en sciences sociales e professor na Universidade Nova de Lisboa.
Obras
La logique du nom, edições L'Herne, Paris, 1972.
Mimesis e negação, edições INCM, Lisboa, 1984.
Preuves, edições Aubier, Paris, 1988.
Traité de l'évidence, edições Jérome Millon, 1993, ISBN 2905614838.
Prémios e condecorações: Prémios de Ensaio (1985) com a obra Mimesis e negação, atribuído pelo PEN Clube Português
Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1992)
Prémio Pessoa atribuído pelo jornal Expresso e pela empresa Unisys (1993)
sábado, 22 de outubro de 2011
O FIM DE UMA AGRESSÃO
in O Diário
Khadafi morreu combatendo com dignidade e coerência
Miguel Urbano Rodrigues
21.Out.11 :: Colaboradores
A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI. Mas, tal como fez surgir uma verdadeira resistência, fez emergir um Khadafi que recuperou a dignidade e morreu com honra.
A foto divulgada pelos contra-revolucionários do CNT elimina dúvidas: Muamar Khadafi morreu em Sirte.
Notícias contraditórias sobre as circunstâncias da sua morte correm o mundo, semeando confusão. Mas das próprias declarações daqueles que exibem o cadáver do líder líbio transparece uma evidência: Khadafi foi assassinado.
No momento em que escrevo, a Resistência líbia ainda não tornou pública uma nota sobre o combate final de Khadafi. Mas desde já se pode afirmar que caiu lutando.
Os media a serviço do imperialismo principiaram imediatamente a transformar o acontecimento numa vitória da democracia, e os governantes dos EUA e da União Europeia e a intelectualidade neoliberal festejam o crime, derramando insultos sobre o último chefe de Estado legitimo da Líbia.
Essa atitude não surpreende, mas o seu efeito é oposto ao pretendido: o imperialismo exibe para a humanidade o seu rosto medonho.
A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI.
Quando a NATO começou a bombardear as cidades e aldeias da Líbia, violando a Resolução aprovada sobre a chamada Zona de Exclusão aérea, Obama, Sarkozy e Cameron afirmaram que a guerra, mascarada de «intervenção humanitária», terminaria dentro de poucos dias. Mas a destruição do país e a matança de civis durou mais de sete meses.
Os senhores do capital foram desmentidos pela Resistência do povo da Líbia. Os «rebeldes», de Benghazi, treinados e armados por oficiais europeus e pela CIA, pela Mossad e pelos serviços secretos britânicos e franceses fugiam em debandada, como coelhos, sempre que enfrentavam aqueles que defendiam a Líbia da agressão estrangeira.
Foram os devastadores bombardeamentos da NATO que lhes permitiram entrar nas cidades que haviam sido incapazes de tomar. Mas, ocupada Tripoli, foram durante semanas derrotados em Bani Walid e Sirte, baluartes da Resistência.
Nesta hora em que o imperialismo discute já, com gula, a partilha do petróleo e do gás libios, é para Muamar Khadafi e não para os responsáveis pela sua morte que se dirige em todo o mundo o respeito de milhões de homens e mulheres que acreditam nos valores e princípios invocados, mas violados, pelos seus assassinos.
Khadafi afirmou desde o primeiro dia da agressão que resistiria e lutaria com o seu povo ate à morte.
Honrou a palavra empenhada. Caiu combatendo.
Que imagem dele ficará na Historia? Uma resposta breve à pergunta é hoje desaconselhável, precisamente porque Muamar Khadafi foi como homem e estadista uma personalidade complexa, cuja vida reflectiu as suas contradições.
Três Khadafis diferentes, quase incompatíveis, são identificáveis nos 42 anos em que dirigiu com mão de ferro a Líbia.
O jovem oficial que em 1969 derrubou a corrupta monarquia Senussita, inventada pelos ingleses, agiu durante anos como um revolucionário. Transformou uma sociedade tribal paupérrima, onde o analfabetismo superava os 90% e os recursos naturais estavam nas mãos de transnacionais americanas e britânicas, num dos países mais ricos do mundo muçulmano. Mas das monarquias do Golfo se diferenciou por uma política progressista. Nacionalizou os hidrocarbonetos, erradicou praticamente o analfabetismo, construiu universidades e hospitais; proporcionou habitação condigna aos trabalhadores e camponeses e recuperou para uma agricultura moderna milhões de hectares do deserto graças à captação de águas subterrâneas.
Essas conquistas valeram-lhe uma grande popularidade e a adesão da maioria dos líbios. Mas não foram acompanhadas de medidas que abrissem a porta à participação popular. O regime tornou-se, pelo contrário, cada vez mais autocrático. Exercendo um poder absoluto, o líder distanciou-se progressivamente nos últimos anos da política de independência que levara os EUA a incluir a Líbia na lista negra dos estados a abater porque não se submetiam. Bombardeada Tripoli numa agressão imperial, o país foi atingido por duras sanções e qualificado de «estado terrorista».
Numa estranha metamorfose surgiu então um segundo Khadafi. Negociou o levantamento das sanções, privatizou empresas, abriu sectores da economia ao imperialismo. Passou então a ser recebido como um amigo nas capitais europeias. Berlusconi, Blair, Sarkozy, Obama, Sócrates receberam-no com abraços hipócritas e muitos assinaram acordos milionários, enquanto ele multiplicava as excentricidades, acampando na sua tenda em capitais europeias.
Na última metamorfose emergiu com a agressão imperial o Khadafi que recuperou a dignidade.
Li algures que ele admirava Salvador Allende e desprezava os dirigentes que nas horas decisivas capitulam e fogem para o exílio.
Qualquer paralelo entre ele e Allende seria descabido. Mas tal como o presidente da Unidade Popular chilena, Khadafi, coerente com o compromisso assumido, morreu combatendo. Com coragem e dignidade.
Independentemente do julgamento futuro da Historia, Muamar Khadafi será pelo tempo afora recordado como um herói pelos líbios que amam a independência e liberdade. E também por muitos milhões de muçulmanos.
A Resistência, aliás, prossegue, estimulada pelo seu exemplo.
VN de GAIA, no dia da morte de Muamar Khadafi
Khadafi morreu combatendo com dignidade e coerência
Miguel Urbano Rodrigues
21.Out.11 :: Colaboradores
A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI. Mas, tal como fez surgir uma verdadeira resistência, fez emergir um Khadafi que recuperou a dignidade e morreu com honra.
A foto divulgada pelos contra-revolucionários do CNT elimina dúvidas: Muamar Khadafi morreu em Sirte.
Notícias contraditórias sobre as circunstâncias da sua morte correm o mundo, semeando confusão. Mas das próprias declarações daqueles que exibem o cadáver do líder líbio transparece uma evidência: Khadafi foi assassinado.
No momento em que escrevo, a Resistência líbia ainda não tornou pública uma nota sobre o combate final de Khadafi. Mas desde já se pode afirmar que caiu lutando.
Os media a serviço do imperialismo principiaram imediatamente a transformar o acontecimento numa vitória da democracia, e os governantes dos EUA e da União Europeia e a intelectualidade neoliberal festejam o crime, derramando insultos sobre o último chefe de Estado legitimo da Líbia.
Essa atitude não surpreende, mas o seu efeito é oposto ao pretendido: o imperialismo exibe para a humanidade o seu rosto medonho.
A agressão ao povo da Líbia, concebida e montada com muita antecedência, levada adiante com a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU e executada militarmente pelos EUA, a França e a Grã-Bretanha deixará na Historia a memoria de uma das mais abjectas guerras neocoloniais do inicio do século XXI.
Quando a NATO começou a bombardear as cidades e aldeias da Líbia, violando a Resolução aprovada sobre a chamada Zona de Exclusão aérea, Obama, Sarkozy e Cameron afirmaram que a guerra, mascarada de «intervenção humanitária», terminaria dentro de poucos dias. Mas a destruição do país e a matança de civis durou mais de sete meses.
Os senhores do capital foram desmentidos pela Resistência do povo da Líbia. Os «rebeldes», de Benghazi, treinados e armados por oficiais europeus e pela CIA, pela Mossad e pelos serviços secretos britânicos e franceses fugiam em debandada, como coelhos, sempre que enfrentavam aqueles que defendiam a Líbia da agressão estrangeira.
Foram os devastadores bombardeamentos da NATO que lhes permitiram entrar nas cidades que haviam sido incapazes de tomar. Mas, ocupada Tripoli, foram durante semanas derrotados em Bani Walid e Sirte, baluartes da Resistência.
Nesta hora em que o imperialismo discute já, com gula, a partilha do petróleo e do gás libios, é para Muamar Khadafi e não para os responsáveis pela sua morte que se dirige em todo o mundo o respeito de milhões de homens e mulheres que acreditam nos valores e princípios invocados, mas violados, pelos seus assassinos.
Khadafi afirmou desde o primeiro dia da agressão que resistiria e lutaria com o seu povo ate à morte.
Honrou a palavra empenhada. Caiu combatendo.
Que imagem dele ficará na Historia? Uma resposta breve à pergunta é hoje desaconselhável, precisamente porque Muamar Khadafi foi como homem e estadista uma personalidade complexa, cuja vida reflectiu as suas contradições.
Três Khadafis diferentes, quase incompatíveis, são identificáveis nos 42 anos em que dirigiu com mão de ferro a Líbia.
O jovem oficial que em 1969 derrubou a corrupta monarquia Senussita, inventada pelos ingleses, agiu durante anos como um revolucionário. Transformou uma sociedade tribal paupérrima, onde o analfabetismo superava os 90% e os recursos naturais estavam nas mãos de transnacionais americanas e britânicas, num dos países mais ricos do mundo muçulmano. Mas das monarquias do Golfo se diferenciou por uma política progressista. Nacionalizou os hidrocarbonetos, erradicou praticamente o analfabetismo, construiu universidades e hospitais; proporcionou habitação condigna aos trabalhadores e camponeses e recuperou para uma agricultura moderna milhões de hectares do deserto graças à captação de águas subterrâneas.
Essas conquistas valeram-lhe uma grande popularidade e a adesão da maioria dos líbios. Mas não foram acompanhadas de medidas que abrissem a porta à participação popular. O regime tornou-se, pelo contrário, cada vez mais autocrático. Exercendo um poder absoluto, o líder distanciou-se progressivamente nos últimos anos da política de independência que levara os EUA a incluir a Líbia na lista negra dos estados a abater porque não se submetiam. Bombardeada Tripoli numa agressão imperial, o país foi atingido por duras sanções e qualificado de «estado terrorista».
Numa estranha metamorfose surgiu então um segundo Khadafi. Negociou o levantamento das sanções, privatizou empresas, abriu sectores da economia ao imperialismo. Passou então a ser recebido como um amigo nas capitais europeias. Berlusconi, Blair, Sarkozy, Obama, Sócrates receberam-no com abraços hipócritas e muitos assinaram acordos milionários, enquanto ele multiplicava as excentricidades, acampando na sua tenda em capitais europeias.
Na última metamorfose emergiu com a agressão imperial o Khadafi que recuperou a dignidade.
Li algures que ele admirava Salvador Allende e desprezava os dirigentes que nas horas decisivas capitulam e fogem para o exílio.
Qualquer paralelo entre ele e Allende seria descabido. Mas tal como o presidente da Unidade Popular chilena, Khadafi, coerente com o compromisso assumido, morreu combatendo. Com coragem e dignidade.
Independentemente do julgamento futuro da Historia, Muamar Khadafi será pelo tempo afora recordado como um herói pelos líbios que amam a independência e liberdade. E também por muitos milhões de muçulmanos.
A Resistência, aliás, prossegue, estimulada pelo seu exemplo.
VN de GAIA, no dia da morte de Muamar Khadafi
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