Leão Trotski
1879-1940
Inicialmente próximo dos mencheviques e em seguida bolchevique. Como Comissário de Guerra dirigiu o Exército Vermelho à vitória na guerra civil russa e sobre a invasão imperialista da Russa Soviética. Ajudou a criar e dirigiu a Oposição de Esquerda a Stalin. Desenvolveu a teoria da Revolução Permanente e fundou a 4ª Internacional.
Atualmente estão disponíveis em Português as seguintes obras:
1907 A Revolução de 1905 (prefácio à edição russa)
1911 - Nov Por que os Marxistas se Opõem ao Terrorismo Individual
1916 - Mar Saudações a Franz Mehring e Rosa Luxemburgo
1921 Na Escala da História Universal
1922 - Mai Saber Militar e Marxismo
1922 - Set O Futurismo
1923 Questões do Modo de Vida
1924 - Abr Lenine
1924 - Set As Lições de Outubro
1925 - Dez A Proteção das Mães e a Luta Pela Elevação do Nível Cultural
1928 - Dez O Marxismo e a Relação entre Revolução Proletária e Revolução Camponesa
1929 - Fev O Triunfo de Estaline [Texto em Galego]
1929 - Mai A Revolução Desfigurada [Texto em Galego]
1929 - Jun Mais uma vez sobre Brandler e Thalheimer [Texto em Galego]
1929 - Nov A Revolução Permanente
1929 Retorno ao Partido?
1930 O Suicídio de Maiakovsky
1930 - Jan O “Terceiro Período” dos Erros da Internacional Comunista
1930 - Abr A Palavra de Ordem da Assembléia Nacional na China
1930 - Mai O Que É o Centrismo
1930 - Mai Tarefas e Perigos da Revolução na Índia
1930 - Set O Perigo Fascista Paira Sobre a Alemanha
1930 História da Revolução Russa
1931 O Que é Uma Situação Revolucionária
1931 - Mar A Questão da Unidade Sindical [Texto em Galego]
1931 - Nov Está na Alemanha a Chave da Situação Mundial
1931 - Nov O Ultimatismo Burocrático
1932 - Nov O Que Foi a Revolução de Outubro
1934 - Out Aonde Vai a França?
1935 As Frações e a Quarta Internacional
1935 - Abr O Problema Nacional e as Tarefas do Partido Proletário
1936 - Jan A Traição do "Partido Operário de Unificação Marxista" Espanhol
1936 - Mar A França na Encruzilhada
1936 - Jul Os Estados Unidos Após a Crise de 1929
1936 Revolução Traída - Capitulo 5
1936 Moral e Revolução
1936 Menchevismo e Bolchevismo na Espanha
1937 Estalinismo e Bolchevismo
1937 - Out 90 Anos do Manifesto Comunista
1937 - Nov Uma Vez Mais: A União Soviética e Sua Defesa
1937 - Nov Um Estado Não Operário e Não Burguês
1938 Carta à Juventude
1938 Discurso Gravado para Conferência de Fundação da IV Internacional
1938 - Set O Programa de Transição
1938 - Set Entrevista de Leon Trotsky a Mateo Fossa
1939 - Abr A Questom Ucraniana [Texto em Galego]
1939 - Abr O Marxismo em Nosso Tempo
1939 - Jun Moralistas e Sicofantas Contra o Marxismo
1939 - Jul Carta aos Trabalhadores da Índia
1939 - Set Carta a James P. Cannon
1939 - Set A URSS na Guerra
1939 - Out Carta a Sherman Stanley (08/10/1939)
1939 - Out Novamente e uma Vez Mais, Sobre a Natureza da URSS
1939 - Out O Referedum e o Centralismo Democrático
1939 - Out Carta a Sherman Stanley (22/10/1939)
1939 - Out Carta a James P. Cannon (28/10/1939)
1939 - Nov Carta a Max Shachtman
1939 - Dez Carta a James P. Cannon
1939 - Dez Uma Oposição Pequeno-Burguesa no Socialist Workers Party
1939 - Dez Carta a John G. Wright
1939 - Dez Carta a Max Shachtman
1939 - Dez Carta à Maioria do Comitê Nacional (primeira carta)
1939 - Dez Carta à Maioria do Comitê Nacional (segunda carta)
1940 - Jan Carta à Maioria do Comitê Nacional (terceira carta)
1940 - Jan Carta à Maioria do Comitê Nacional (quarta carta)
1940 - Jan Carta a Joseph Hansen
1940 - Jan Carta Aberta ao Camarada Burnham
1940 - Jan Carta a James P. Cannon
1940 - Jan Carta a Farrell Dobs
1940 - Jan Carta a John G. Wright
1940 - Jan Carta a James P. Cannon
1940 - Jan Carta a William F. Warde
1940 - Jan Carta a Joseph Hansen
1940 - Jan De um Arranhão, ao Perigo de Gangrena
1940 - Jan Carta a Martin Abern
1940 - Fev Carta a Albert Goldman - 10/02/1940
1940 - Fev Carta a Albert Goldman - 19/02/1940
1940 - Fev De Volta ao Partido!
1940 - Fev Ciência e Estilo
1940 - Fev Carta a James P. Cannon
1940 - Fev Testamento
1940 - Fev Carta a Joseph Hansen
1940 - Mar Carta a Farrell Dobbs - 04/03/1940
1940 - Abr Carta a Farrell Dobbs - 04/04/1940
1940 - Abr Carta a Farrell Dobbs - 16/04/1940
1940 - Abr Os Moralistas Pequeno-Burgueses e o Partido Proletário
1940 - Abr Balanço dos Acontecimentos Filandeses
1940 - Mai Carta a James P. Cannon
1940 - Mai Manifesto da IV Internacional Sobre a Guerra Imperialista e a Revolução Proletária Mundial
1940 - Jun Carta a Abert Goldman
1940 - Ago Sobre o Partido "Operário"
1940 - Ago Carta a Albert Goldman
1940 - Ago Carta a Chris Andrews
1940 - Ago Classe - Partido – Direção
1940 O Homem Não Vive Só de Política
1940 Os Sindicatos na Época da Decadência Imperialista
in Arquivo Marxista (Marxists internet Archive) secção portuguesa
quinta-feira, 15 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Lições do Sul para uma Europa em crise?
– Retomar a ofensiva, sair da zona euro, romper com a armadilha neoliberal
por Rémy Herrera [*]
A extrema gravidade da crise que atinge actualmente a Europa, em particular a zona euro por via das dívidas ditas "soberanas", da Grécia à Itália entre outras, leva a colocar a questão: os povos europeus não terão lições a retirar das experiências pelas quais certos países do Sul estão a passar e das estratégias anti-crise que aí foram adoptadas? Porque o que é facto é que, até ao momento, têm sido as receitas do Norte, que se supõe serem universalmente válidas, as que foram na generalidade administradas às economias do Sul – ainda que estas receitas não lhes tenham sido muito convenientes, salvo raras excepções. Mas os tempos mudaram…
A Europa em crise
As soluções neoliberais de austeridade generalizada e de destruição dos serviços públicos hoje propostas (ou melhor dizendo, impostas) para tentar salvar o capitalismo em crise e relançar o crescimento são absurdas; elas constituem a forma mais segura de agravar ainda mais esta crise e de precipitar mais rapidamente o sistema no abismo. E isto ao mesmo tempo que favorecem, por todo o lado, a subida em força das extremas-direitas, racistas, demagógicas e sempre cúmplices da ordem estabelecida.
Neste contexto, a crise que a zona euro atravessa actualmente deve ser entendida como em íntima ligação com as próprias bases do processo da construção europeia. Acreditou-se ser possível criar uma moeda única sem Estado, mesmo o de uma Europa política que na verdade não existe. Havia aqui um erro de base nesta Europa que pretendia fazer convergir à força economias extremamente diferentes sem o reforço de instituições políticas à escala regional nem a promoção de uma harmonização social nivelando por cima. É assim que, de forma lógica, esta "má Europa", voltada contra os povos, anti-social e anti-democrática, é cada vez mais abertamente rejeitada.
Continuar a acreditar num novo "compromisso keynesiano" constituiria, entretanto, alimentar ilusões. O anterior, formulado após a Segunda Guerra mundial, não foi concedido pelos grandes capitalistas, foi alcançado pelas lutas populares, múltiplas e convergentes. Hoje a alta finança, que retomou o poder, não está disposta a nenhuma concessão. O keynesianismo – que poderia de facto desejar-se – não possui nem realidade nem futuro. Doravante, são os oligopólios financeiros quem domina e quem dita a sua lei aos Estados, para fixar as taxas de juro, a criação de moeda ou, quando tal é necessário, para nacionalizar.
Ruptura?
Perante a crise sistémica e os perigos que ela comporta – incluindo o de ver chegar ao poder extremistas de direita – é tempo de as forças progressistas na Europa retomarem a ofensiva, formulando de novo propostas alternativas para uma esquerda radical e internacionalista, orientadas no sentido da reconstrução de projectos sociais e de solidariedades voltadas para o Sul em luta.
Entre os debates urgentes a iniciar figura o da saída da zona euro, nomeadamente para a Europa do Sul, sob certas condições e segundo diferentes modalidades. É evidente que uma tal decisão seria difícil de assumir pelos pequenos países como a Grécia. Constituiria uma falsidade afirmar que desta opção de ruptura não resultariam dificuldades. Mas constituiria igualmente uma falsidade afirmar-se que uma tal via conduziria à catástrofe.
E isto por três razões pelo menos. Em primeiro lugar, há importantes economias europeias que não estão na zona euro, como o Reino Unido. Depois, há países que foram violentamente atingidos pela crise e que estão em vias de recuperar, fora da zona euro, nomeadamente a Islândia. Por fim, e fora do continente europeu, há países do Sul que ousaram a decisão de romper com as regras do sistema monetário internacional actual sem que de tal decisão decorresse qualquer situação de caos. Muito pelo contrário, tem sido precisamente essa via de ruptura – temporária – com os dogmas neoliberais que lhes tem permitido autonomizar-se e recuperar.
Que lições retirar do Sul?
Numerosas experiências recentes a Sul mostraram que a reconquista de elementos de soberania nacional – monetária, entre outras – e o voluntarismo político perante os diktat dos mercados financeiros abriram margens de manobra que permitiram a esses países sair de situações económicas dramáticas provocadas em larga medida pelo próprio funcionamento – injusto e inaceitável – do sistema capitalista mundial. Pensamos aqui, por exemplo, no processo de "desdolarização" em Cuba; ou no distanciamento da Venezuela em relação ao Fundo Monetário Internacional; ou ainda na criação do Banco do Sul (Bancosur), envolvendo países da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) como a Bolívia e outros, incluindo o Brasil. Mas pode igualmente citar-se o caso de um país com um governo menos radical como a Argentina, que em finais de 2001 declarou a suspensão de pagamentos e que retomou com bastante rapidez o crescimento, sem que tenha ficado isolado em relação as ligações internacionais.
Suspensão de pagamentos, desvalorização da moeda e plano de reconversão da dívida foram as medidas que salvaram a Argentina do desastre neoliberal. Não há dúvida que uma saída do euro seria mais difícil para um país como a Grécia, que possui uma base produtiva e exportadora muito mais fraca do que a da Argentina (que assenta sobre a agro-indústria e a energia); mas certamente que daí não resultaria o "fim do mundo" para o seu povo, como insistem em anunciar os media dominantes. Uma tal decisão é difícil de tomar, tendo em conta as contas públicas deficitárias e o risco de fuga de capitais; mas ela parece doravante necessária como forma de saída da armadilha neoliberal – e isto antes que a Alemanha decida ela própria a exclusão desse país!
Pensemos igualmente no Equador, cujo governo realizou uma auditoria à sua dívida externa, anulou as dívidas "odiosas" (ou seja, ilegais e/ou ilegítimas), utilizou a suspensão dos reembolsos para reduzir o peso da dívida pública e libertou dessa forma recursos para as políticas sociais e para as infraestruturas. Em todas estas experiências, em que não se verificou qualquer catástrofe, a reapropriação por parte do Estado do seu poder de decisão política sobre a economia permitiu a cada país libertar-se do atoleiro em que estava mergulhado. Como foi o caso da Malásia, depois da crise asiática de 1998, quando o governo (que não era "de esquerda") colocou limites às imposições do FMI e conduziu a política anti-crise que lhe pareceu mais conveniente.
E porque não, então, na Europa? É certo que as situações diferem de continente para continente, mas as alternativas existem, sob a forma de transições pós-capitalistas, democráticas e sociais, solidárias com o Sul. O que é necessário não é a elaboração de soluções miraculosas ou prontas-a-usar, mas o reabrir dos espaços de debate à esquerda. É portanto mais do que tempo de falar, finalmente, sem tabus nem complexos, de soluções anti-crise colocadas ao serviço dos povos europeus: saída controlada da zona euro, desvalorização monetária (ou de uma eventual nova moeda comum), restabelecimento do controlo das variações dos fluxos financeiros, redefinição do papel político dos bancos centrais, nacionalização do sistema bancário e de certos sectores estratégicos da economia, anulação parcial das dívidas públicas, redistribuição acrescida da riqueza, reconstrução dos serviços públicos, desenvolvimento da participação popular, mas também o relançamento de uma regionalização europeia progressista e aberta ao Sul… Porque, na verdade, são os povos que são soberanos, não as dívidas.
29/Fevereiro/2012
[*] Economista, Investigador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)
Do mesmo autor:
Cuba e o projecto comunista
A propósito dos motins nos subúrbios franceses
Crise financeira ou... de superprodução?
As ideias feitas e a verdade escondida sobre Cuba
Depois do não francês
Os Fórums de Mumbai 2004: Que lições tirar?
O original encontra-se em http://www.granma.co.cu/2011/12/02/interna/artic01.html ,
a versão em português foi extraída de http://www.odiario.info/?p=2397
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
sexta-feira, 9 de março de 2012
Lembrando Howard Zinn
Noam Chomsky
04.Mar.12 ::
“As notáveis vida e obra de Howard Zinn resumem-se melhor nas suas próprias palavras. Ele explicava que a sua preocupação fundamental eram “as inúmeras pequenas acções de pessoas desconhecidas” que estão na origem de “grandes momentos” que a história regista.”
Cambridge, Mass. - Não é fácil para mim escrever sobre Howard Zinn, o activista e grande historiador dos E.U.A.. Foi um amigo muito próximo ao longo de 45 anos. As nossas famílias eram também muito chegadas. A sua esposa Roz, que morreu de cancro pouco tempo antes, era uma pessoa maravilhosa e uma grande amiga. É também triste dar conta de que toda uma geração parece estar a desaparecer, incluindo vários velhos amigos: Edward Said, Eqbal Ahmed e outros que não eram apenas perspicazes e produtivos eruditos, mas também militantes dedicados e corajosos, sempre disponíveis quando eram necessários, o que era uma constante. Uma combinação que é essencial quando se espera uma sobrevivência decente.
As notáveis vida e obra de Howard resumem-se melhor nas suas próprias palavras. Ele explicava que a sua preocupação fundamental eram “as inúmeras pequenas acções de pessoas desconhecidas” que estão na origem de “grandes momentos” que integram o registo histórico, um registo que será profundamente enganoso e carecerá de poder se separado destas raízes quando passa através dos filtros da doutrina e do dogma. A sua vida sempre esteve intimamente entrelaçada com os seus inúmeros escritos, discursos e entrevistas. Entregava-se desinteressadamente a outorgar poder às pessoas desconhecidas que provocaram grandes momentos. Isto era verdade quando era operário industrial e activista, e desde os dias, há 50 anos, em que era professor no Spelman College em Atlanta, Geórgia, uma faculdade negra que em grande parte estava aberta para a pequena elite branca.
Quando ensinava em Spelman, Howard apoiou os estudantes que estavam na vanguarda do movimento pelos direitos civis nos primeiros e mais perigosos dias, muitos dos quais chegaram a ser conhecidos anos mais tarde (Alice Walker, Julian Bond e outros) e que o amavam e veneravam, como acontecia com qualquer pessoa que o conhecesse bem. E, como sempre, não se limitou a apoiá-los, o que já era bastante raro, mas também se envolveu directamente com eles nas campanhas mais arriscadas, que não eram fáceis de empreender naquela época, antes que houvesse algum movimento popular organizado e perante a hostilidade do governo durante vários anos. Finalmente, o apoio popular inflamou-se, em grande parte graças às acções corajosas de jovens que se sentavam aos balcões onde se serviam os alimentos, dirigiam autocarros da liberdade, organizavam manifestações, enfrentavam o racismo amargo e a brutalidade, e às vezes a morte. **
Nos inícios da década de 1960 estava a tomar forma um movimento de massas com Martin Luther King num papel de liderança, e o governo teve de responder. Como recompensa pela sua coragem e honestidade, Howard foi imediatamente expulso da faculdade onde ensinava. Alguns anos mais tarde, escreveu regularmente no Comité de Coordenação dos Estudantes não Violentos, SNCC (sigla em Inglês), a principal organização daquelas ” “pessoas desconhecidas” ” cujas “inúmeras pequenas acções” desempenharam um papel tão importante na criação da corrente de opinião que permitiu a Martin Luther King ganhar uma influência significativa (como tenho certeza que ele teria sido o primeiro a dizer) e levar o país a cumprir com as emendas constitucionais de um século antes, que teoricamente concediam direitos civis básicos aos ex-escravos; pelo menos fazê-lo parcialmente, porque é desnecessário enfatizar que ainda há muito a fazer.
Uma influência civilizadora
A nível pessoal passei a conhecer bem Howard quando fomos juntos a uma manifestação pelos direitos civis em Jackson, Mississippi (acho eu) em 1964, a qual, mesmo numa data já tão tardia, foi cena de confronto público violento, brutalidade policial e indiferença, ou inclusive de cooperação com as forças de segurança por parte das autoridades federais, às vezes de um modo um pouco chocante.
Depois de ser expulso do college em Atlanta onde ensinava Howard veio para Boston e passou o resto de sua carreira académica na Universidade de Boston, onde foi, tenho a certeza, o membro do campus universitário mais admirado e amado, e também alvo de acerbo antagonismo e crueldade mesquinha por parte da administração. No entanto nos últimos anos, após a sua reforma, grangeou a honra e o respeito públicos, que sempre tinham sido esmagadores entre os estudantes, funcionários da universidade, grande parte do corpo docente e da comunidade em geral. Enquanto aí esteve, Howard escreveu os livros que lhe deram uma bem merecida fama. O seu livro “Logic of Withdrawal, ” de 1967, foi o primeiro a expressar, clara e firmemente, o que muitos apenas começavam a perceber: que os E.U.A. não tinham qualquer direito a pedir um acordo negociado no Vietname, acordo que teria deixado Washington com o poder e controlo substancial do país que havia invadido e, em seguida, em grande parte destruído.
Em vez disso os EUA tiveram que fazer o que todo o agressor deveria fazer, retirar e permitir que a população, em certa medida, pudesse reconstruir a partir das ruínas e, se possível, proceder com um mínimo de honestidade ao pagamento de reparações maciças pelos crimes que tinham cometido os exércitos invasores, neste caso vastos crimes. O livro teve uma enorme influência entre o público, ainda que os meios cultos de hoje dificilmente possam compreender a sua mensagem, o que mostra o trabalho tão necessário que temos adiante de nós.
É muito significativo que entre o público do tempo de final da guerra 70% considerasse a guerra “fundamentalmente errada e imoral” e não “um erro”, o que constitui um índice notável, considerando o facto de que esse pensamento apenas podia insinuar-se no meio da opinião dominante. Os escritos de Howard (e, como sempre, a sua destacada presença nos protestos e na resistência directa) foram um factor fundamental na educação de grande parte do país.
Nesses mesmos anos Howard tornou-se também um dos principais apoiantes do movimento de resistência que se estava a desenvolver. Estava entre os primeiros signatários da Apelo para Resistir à Autoridade Ilegítima (Call to Resist Illegitimate Authority) e estava muito próximo das actividades da organização Resistir, de que foi praticamente um dos organizadores. Participou também nas acções que tiveram um impacto significativo para promover o protesto contra a guerra. Howard estava sempre lá, onde era preciso (palestras, participação em desobediência civil, apoio a pessoas resistentes, prestar testemunhos em julgamentos).
“A história desde baixo”
Ainda mais influente no longo prazo do que os escritos e acções de Howard contra a guerra foi a sua obra-prima imortal, ” “ A outra história dos Estados Unidos”, ” um livro que literalmente mudou a consciência de uma geração. Nele desenvolveu com cuidado, lucidez e de forma exaustiva a sua mensagem sobre o papel crucial das pessoas que permanecem desconhecidos na prossecução da luta incessante pela paz e justiça, e sobre as vítimas do sistema de poder que cria a sua própria versão da história e tenta impô-la. Posteriormente, as suas “Vozes” da História do Povo, agora uma aclamada produção teatral e de televisão, levaram a muitas pessoas as palavras reais daqueles esquecidos ou ignorados que desempenharam um papel tão valioso na criação de um mundo melhor.
O feito único de Howard, sacando as acções e as vozes de pessoas desconhecidas das profundezas para onde tinham sido confinadas, gerou uma enorme pesquisa histórica que segue um caminho semelhante, centrada em períodos críticos da história americana, e se volta também para outros países, o que é muito bem-vindo. Não é algo totalmente novo (anteriormente houve pesquisa académica sobre temas eruditos), mas nada comparáveis à evocação, ampla e incisiva, que Howard faz da “história vista de baixo”, que compensa as omissões críticas em como tem sido interpretada e transmitida a história dos EUA.
O dedicado activismo de Howard prosseguiu literalmente sem parar até o fim, mesmo nos seus últimos anos, quando sofreu uma doença grave e uma perda pessoal (embora mal se soubesse, quando alguém se encontrava com ele ou era visto conversando incansavelmente com o público em todo o país). Onde havia uma luta pela paz e pela justiça, lá estava Howard, na frente, inesgotável com o seu entusiasmo e inspirador na sua integridade, compromisso, eloquência e decência pura. É difícil estimar quantas e até que ponto foram influenciadas vidas de jovens pelas suas realizações, tanto no seu trabalho como na sua vida.
Há lugares onde a vida e a obra de Howard tiveram uma ressonância especial. Um deles, que deveria ser muito melhor conhecido, é a Turquia. Não conheço outro país em que escritores proeminentes, artistas, jornalistas, académicos e outros intelectuais tenham reunido um registo tão impressionante de coragem e integridade para condenar crimes de Estado e de ir mais além para empreender a desobediência civil para acabar com a opressão e a violência, enfrentando uma forte repressão e por vezes sofrendo-a, para retomar imediatamente a sua tarefa.
É um registo honroso, único que eu saiba, um registo do qual o país deveria estar orgulhoso. E que deve ser um modelo para os outros, assim como a vida e a obra de Howard Zinn é um modelo inesquecível, que certamente deixa uma marca permanente na forma de entender a história e como se deveria viver uma vida decente e honrada.
* States , traduzido para o castelhano por Toni Strubel, História do Povo dos Estados Unidos, Hondarribia, Hiru, 2005, revista e corrigida pelo autor.
**Howard Zinn fala destes anos e essas lutas no seu livro” “Ninguém é neutro num comboio em movimento” “, Hondarribia, Hiru, 2001
“Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. Já escreveu vários livros políticos de grande sucesso, incluindo ”9-11: estava lá uma alternativa?” (Seven Stories Press), uma versão actualizada deste clássico, que só foi lançado esta semana com um novo ensaio (do qual este artigo foi adaptado) para comemorar o décimo aniversário dos ataques de 11 de Setembro.
Uma versão deste artigo foi publicada originalmente em TomDispatch.com. ”
Fonte: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/01/201212382259755885.html
Traduzido do Inglês para Rebelión por Beatriz Morales Bastos
Tradução do espanhol: Guilherme Coelho
04.Mar.12 ::
“As notáveis vida e obra de Howard Zinn resumem-se melhor nas suas próprias palavras. Ele explicava que a sua preocupação fundamental eram “as inúmeras pequenas acções de pessoas desconhecidas” que estão na origem de “grandes momentos” que a história regista.”
Cambridge, Mass. - Não é fácil para mim escrever sobre Howard Zinn, o activista e grande historiador dos E.U.A.. Foi um amigo muito próximo ao longo de 45 anos. As nossas famílias eram também muito chegadas. A sua esposa Roz, que morreu de cancro pouco tempo antes, era uma pessoa maravilhosa e uma grande amiga. É também triste dar conta de que toda uma geração parece estar a desaparecer, incluindo vários velhos amigos: Edward Said, Eqbal Ahmed e outros que não eram apenas perspicazes e produtivos eruditos, mas também militantes dedicados e corajosos, sempre disponíveis quando eram necessários, o que era uma constante. Uma combinação que é essencial quando se espera uma sobrevivência decente.
As notáveis vida e obra de Howard resumem-se melhor nas suas próprias palavras. Ele explicava que a sua preocupação fundamental eram “as inúmeras pequenas acções de pessoas desconhecidas” que estão na origem de “grandes momentos” que integram o registo histórico, um registo que será profundamente enganoso e carecerá de poder se separado destas raízes quando passa através dos filtros da doutrina e do dogma. A sua vida sempre esteve intimamente entrelaçada com os seus inúmeros escritos, discursos e entrevistas. Entregava-se desinteressadamente a outorgar poder às pessoas desconhecidas que provocaram grandes momentos. Isto era verdade quando era operário industrial e activista, e desde os dias, há 50 anos, em que era professor no Spelman College em Atlanta, Geórgia, uma faculdade negra que em grande parte estava aberta para a pequena elite branca.
Quando ensinava em Spelman, Howard apoiou os estudantes que estavam na vanguarda do movimento pelos direitos civis nos primeiros e mais perigosos dias, muitos dos quais chegaram a ser conhecidos anos mais tarde (Alice Walker, Julian Bond e outros) e que o amavam e veneravam, como acontecia com qualquer pessoa que o conhecesse bem. E, como sempre, não se limitou a apoiá-los, o que já era bastante raro, mas também se envolveu directamente com eles nas campanhas mais arriscadas, que não eram fáceis de empreender naquela época, antes que houvesse algum movimento popular organizado e perante a hostilidade do governo durante vários anos. Finalmente, o apoio popular inflamou-se, em grande parte graças às acções corajosas de jovens que se sentavam aos balcões onde se serviam os alimentos, dirigiam autocarros da liberdade, organizavam manifestações, enfrentavam o racismo amargo e a brutalidade, e às vezes a morte. **
Nos inícios da década de 1960 estava a tomar forma um movimento de massas com Martin Luther King num papel de liderança, e o governo teve de responder. Como recompensa pela sua coragem e honestidade, Howard foi imediatamente expulso da faculdade onde ensinava. Alguns anos mais tarde, escreveu regularmente no Comité de Coordenação dos Estudantes não Violentos, SNCC (sigla em Inglês), a principal organização daquelas ” “pessoas desconhecidas” ” cujas “inúmeras pequenas acções” desempenharam um papel tão importante na criação da corrente de opinião que permitiu a Martin Luther King ganhar uma influência significativa (como tenho certeza que ele teria sido o primeiro a dizer) e levar o país a cumprir com as emendas constitucionais de um século antes, que teoricamente concediam direitos civis básicos aos ex-escravos; pelo menos fazê-lo parcialmente, porque é desnecessário enfatizar que ainda há muito a fazer.
Uma influência civilizadora
A nível pessoal passei a conhecer bem Howard quando fomos juntos a uma manifestação pelos direitos civis em Jackson, Mississippi (acho eu) em 1964, a qual, mesmo numa data já tão tardia, foi cena de confronto público violento, brutalidade policial e indiferença, ou inclusive de cooperação com as forças de segurança por parte das autoridades federais, às vezes de um modo um pouco chocante.
Depois de ser expulso do college em Atlanta onde ensinava Howard veio para Boston e passou o resto de sua carreira académica na Universidade de Boston, onde foi, tenho a certeza, o membro do campus universitário mais admirado e amado, e também alvo de acerbo antagonismo e crueldade mesquinha por parte da administração. No entanto nos últimos anos, após a sua reforma, grangeou a honra e o respeito públicos, que sempre tinham sido esmagadores entre os estudantes, funcionários da universidade, grande parte do corpo docente e da comunidade em geral. Enquanto aí esteve, Howard escreveu os livros que lhe deram uma bem merecida fama. O seu livro “Logic of Withdrawal, ” de 1967, foi o primeiro a expressar, clara e firmemente, o que muitos apenas começavam a perceber: que os E.U.A. não tinham qualquer direito a pedir um acordo negociado no Vietname, acordo que teria deixado Washington com o poder e controlo substancial do país que havia invadido e, em seguida, em grande parte destruído.
Em vez disso os EUA tiveram que fazer o que todo o agressor deveria fazer, retirar e permitir que a população, em certa medida, pudesse reconstruir a partir das ruínas e, se possível, proceder com um mínimo de honestidade ao pagamento de reparações maciças pelos crimes que tinham cometido os exércitos invasores, neste caso vastos crimes. O livro teve uma enorme influência entre o público, ainda que os meios cultos de hoje dificilmente possam compreender a sua mensagem, o que mostra o trabalho tão necessário que temos adiante de nós.
É muito significativo que entre o público do tempo de final da guerra 70% considerasse a guerra “fundamentalmente errada e imoral” e não “um erro”, o que constitui um índice notável, considerando o facto de que esse pensamento apenas podia insinuar-se no meio da opinião dominante. Os escritos de Howard (e, como sempre, a sua destacada presença nos protestos e na resistência directa) foram um factor fundamental na educação de grande parte do país.
Nesses mesmos anos Howard tornou-se também um dos principais apoiantes do movimento de resistência que se estava a desenvolver. Estava entre os primeiros signatários da Apelo para Resistir à Autoridade Ilegítima (Call to Resist Illegitimate Authority) e estava muito próximo das actividades da organização Resistir, de que foi praticamente um dos organizadores. Participou também nas acções que tiveram um impacto significativo para promover o protesto contra a guerra. Howard estava sempre lá, onde era preciso (palestras, participação em desobediência civil, apoio a pessoas resistentes, prestar testemunhos em julgamentos).
“A história desde baixo”
Ainda mais influente no longo prazo do que os escritos e acções de Howard contra a guerra foi a sua obra-prima imortal, ” “ A outra história dos Estados Unidos”, ” um livro que literalmente mudou a consciência de uma geração. Nele desenvolveu com cuidado, lucidez e de forma exaustiva a sua mensagem sobre o papel crucial das pessoas que permanecem desconhecidos na prossecução da luta incessante pela paz e justiça, e sobre as vítimas do sistema de poder que cria a sua própria versão da história e tenta impô-la. Posteriormente, as suas “Vozes” da História do Povo, agora uma aclamada produção teatral e de televisão, levaram a muitas pessoas as palavras reais daqueles esquecidos ou ignorados que desempenharam um papel tão valioso na criação de um mundo melhor.
O feito único de Howard, sacando as acções e as vozes de pessoas desconhecidas das profundezas para onde tinham sido confinadas, gerou uma enorme pesquisa histórica que segue um caminho semelhante, centrada em períodos críticos da história americana, e se volta também para outros países, o que é muito bem-vindo. Não é algo totalmente novo (anteriormente houve pesquisa académica sobre temas eruditos), mas nada comparáveis à evocação, ampla e incisiva, que Howard faz da “história vista de baixo”, que compensa as omissões críticas em como tem sido interpretada e transmitida a história dos EUA.
O dedicado activismo de Howard prosseguiu literalmente sem parar até o fim, mesmo nos seus últimos anos, quando sofreu uma doença grave e uma perda pessoal (embora mal se soubesse, quando alguém se encontrava com ele ou era visto conversando incansavelmente com o público em todo o país). Onde havia uma luta pela paz e pela justiça, lá estava Howard, na frente, inesgotável com o seu entusiasmo e inspirador na sua integridade, compromisso, eloquência e decência pura. É difícil estimar quantas e até que ponto foram influenciadas vidas de jovens pelas suas realizações, tanto no seu trabalho como na sua vida.
Há lugares onde a vida e a obra de Howard tiveram uma ressonância especial. Um deles, que deveria ser muito melhor conhecido, é a Turquia. Não conheço outro país em que escritores proeminentes, artistas, jornalistas, académicos e outros intelectuais tenham reunido um registo tão impressionante de coragem e integridade para condenar crimes de Estado e de ir mais além para empreender a desobediência civil para acabar com a opressão e a violência, enfrentando uma forte repressão e por vezes sofrendo-a, para retomar imediatamente a sua tarefa.
É um registo honroso, único que eu saiba, um registo do qual o país deveria estar orgulhoso. E que deve ser um modelo para os outros, assim como a vida e a obra de Howard Zinn é um modelo inesquecível, que certamente deixa uma marca permanente na forma de entender a história e como se deveria viver uma vida decente e honrada.
* States , traduzido para o castelhano por Toni Strubel, História do Povo dos Estados Unidos, Hondarribia, Hiru, 2005, revista e corrigida pelo autor.
**Howard Zinn fala destes anos e essas lutas no seu livro” “Ninguém é neutro num comboio em movimento” “, Hondarribia, Hiru, 2001
“Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. Já escreveu vários livros políticos de grande sucesso, incluindo ”9-11: estava lá uma alternativa?” (Seven Stories Press), uma versão actualizada deste clássico, que só foi lançado esta semana com um novo ensaio (do qual este artigo foi adaptado) para comemorar o décimo aniversário dos ataques de 11 de Setembro.
Uma versão deste artigo foi publicada originalmente em TomDispatch.com. ”
Fonte: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/01/201212382259755885.html
Traduzido do Inglês para Rebelión por Beatriz Morales Bastos
Tradução do espanhol: Guilherme Coelho
segunda-feira, 5 de março de 2012
Princípios Elementares de Filosofia
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
_____________________________________
Obra editada pela “Prelo Editora, SARL”, em janeiro de 1975 (4.ª Edição)
Colocado em linha em: 2012/03/03
Princípios Elementares de Filosofia
Georges Politzer
[Esta importante obra publica-se por capítulos, semanalmente, iniciando-se com a
publicação do Índice das Matérias, Prefácio e Advertência dos editores franceses.]
Quarta parte – estudo da dialética
Capítulo IV e Capítulo V
CAPÍTULO IV – TERCEIRA LEI: A CONTRADIÇÃO
I. — A vida e a morte.
II. — As coisas transformam-se na sua contrária.
III. — Afirmação, negação e negação da negação.
IV. — Recapitulemos.
V. — A unidade das contrárias.
VI. — Erros a evitar.
VII. — Consequências práticas da dialéctica.
Vimos que a dialéctica considera as coisas como estando em perpétua mudança,
evoluindo continuamente, numa palavra, sofrendo um movimento dialéctico (1.ª lei).
Este movimento é possível, porque toda e qualquer coisa não é mais do que o
resultado, no momento em que a estudamos, de um encadeamento de processos, isto
é, de fases que saem umas das outras. E, levando o nosso estudo mais adiante, vimos
que esse encadeamento se desenvolve necessariamente no tempo num movimento
progressivo, «apesar dos retrocessos momentâneos».
Chamámos a esse desenvolvimento um «desenvolvimento histórico» ou «em espiral»,
e sabemos que se gera a si mesmo, por autodinamismo.
2
Mas, quais são, agora, as leis do autodinamismo? Quais as que permitem às fases sair
umas das outras? Chamam-se as «leis do movimento dialéctico».
A dialéctica ensina-nos que as coisas não são eternas: têm um começo, uma
maturidade, uma velhice, que termina num fim, a morte.
Todas as coisas passam por essas fases: nascimento, maturidade, velhice, fim. Por
que acontece assim? Por que não são as coisas eternas?
Eis uma velha pergunta que sempre apaixonou a humanidade. Por que é preciso
morrer? Não se compreende esta necessidade, e os homens, no decurso da história,
sonharam com a vida eterna, com os meios de mudar tal estado de coisas, na idade
média, por exemplo, inventando bebidas mágicas (elixires de juventude ou da vida).
Por que é que o que nasce é, portanto, obrigado a morrer? Eis uma grande lei da
dialéctica, que deveremos confrontar, para bem a compreender, com a metafísica.
I. — A vida e a morte.
Do ponto de vista metafísico, consideram-se as coisas de um modo isolado, tomadas
em si mesmas, e, porque a metafísica as estuda assim, considera-as de uma maneira
unilateral, isto é, de um só lado. É por isso que se pode dizer, dos que as vêem de um
só lado, que são metafísicos. Em poucas palavras, quando um metafísico examina o
fenómeno a que se chama vida, fá-lo sem o relacionar a qualquer outro. Vê a vida, por
si e em si, de uma maneira unilateral. Vê-a de um só lado. Se examinar a morte, fará a
mesma coisa; aplicará o seu ponto de vista unilateral, e concluirá dizendo: a vida é a
vida, a morte é a morte. Entre ambas, nada de comum; não se pode estar ao mesmo
tempo vivo e morto, porque são duas coisas opostas, inteiramente contrárias uma à
outra.
Ver assim as coisas, é fazê-lo de uma maneira superficial. Se as examinarmos um
pouco mais de perto, veremos, primeiro, que não as podemos opor uma à outra, não
podemos mesmo separá-las tão brutalmente, uma vez que a experiência e a realidade
nos mostram que a morte continua a vida, que a morte vem do vivo.
E a vida, pode sair da morte? Sim. Porque os elementos do corpo morto vão
transformar-se para dar origem a outras vidas e servir de adubo à terra, que será mais
fértil, por exemplo. A morte, em muitos casos, auxiliará a vida, permitirá a esta
nascer; e, nos próprios corpos vivos, a vida só é possível porque há uma contínua
substituição das células que morrem por outras que nascem1.
1 «Enquanto consideramos as coisas como em repouso e sem vida, cada uma por si, uma ao lado e após
a outra, não nos apercebemos, certamente, de qualquer contradição entre elas. Encontramos certas
propriedades que são, em parte, comuns, em parte, diversas, até contraditórias, mas que, neste caso,
são repartidas por coisas diferentes, não contendo, portanto, contradição em si mesmas. Nos limites
deste domínio de observação, ficamo-nos pelo modo de pensar corrente, o metafísico. Mas
procederemos de maneira diferente, se considerarmos as coisas nos seus movimento, mudança, vida,
acção recíproca uma sobre a outra. Aí, caímos imediatamente nas contradições.» (Friedrich ENGELS:
«Anti-Duhring», p. 52).
3
Portanto, a vida e a morte transformam-se continuamente uma na outra, e, em todas
as coisas, constatamos a constância desta grande lei: por toda a parte, as coisas
transformam-se na sua contrária.
II. — As coisas transformam-se na sua contrária.
Os metafísicos opõem as contrárias, mas, a realidade demonstra-nos que estas se
transformam uma na outra, que as coisas não permanecem elas próprias, se
transformam nas suas contrárias.
Se examinarmos a verdade e o erro, pensamos: não há nada de comum entre eles. A
verdade é a verdade, um erro é um erro. Este o ponto de vista unilateral, que opõe
brutalmente as duas contrárias, como se oporia a vida e a morte.
E, todavia, se dizemos: «Olha, chove!», acontece que, por vezes, ainda não acabámos
de o dizer e já não chove. Essa frase era exacta, quando a começámos, e transformouse
em erro. (Os Gregos já tinham constatado isso, e diziam que, para não errar, era
preciso não dizer nada!)
Do mesmo modo, retomemos o exemplo da maçã. Vê-se na terra uma maçã madura,
e diz-se: «Eis uma maçã madura». Contudo, estando na terra há um certo tempo, já
começa a decompor-se, de tal forma que a verdade se transforma em erro.
Também as ciências nos dão numerosos exemplos de leis consideradas, durante
muitos anos, como «verdades», que se revelaram, num dado momento, após os
progressos científicos, como «erros».
Vemos, portanto, que a verdade se transforma em erro. Mas, será que o erro se
transforma em verdade? No início da civilização, os homens imaginavam, sobretudo
no Egipto, combates entre os deuses, para explicar o nascer e o pôr do sol; era um
erro, na medida em que se dizia que os deuses empurravam ou puxavam o sol, para o
fazer mover. Mas, a ciência dá parcialmente razão a esse raciocínio, dizendo que há,
efectivamente, forças (puramente físicas, aliás) que fazem mover o sol. Veremos, pois,
que o erro não está nitidamente oposto à verdade.
Se, portanto, as coisas se transformam na sua contrária, como é isso possível? Como
se transforma a vida na morte?
Se houvesse apenas vida, a vida cem por cento, ela nunca poderia ser a morte, e se a
morte fosse totalmente ela própria, a morte cem por cento, seria impossível que uma
se transformasse na outra. Mas, já existe morte na vida e, por conseguinte, vida na
morte.
Observando de perto, veremos que um ser vivo é composto de células, que estas se
renovam, desaparecem e reaparecem no mesmo lugar. Vivem e morrem
continuamente num ser vivo, onde existe, portanto, vida e morte.
Sabemos, também, que a barba de um morto continua a crescer. O mesmo acontece
com as unhas e os cabelos. Eis fenómenos nitidamente caracterizados, que provam
que a vida continua na morte.
4
Na União Soviética, conserva-se, em condições especiais, sangue de cadáveres, que
serve para fazer transfusões: assim, com o sangue de um morto, refaz-se um vivo.
Podemos dizer que, por conseguinte, no seio da morte há a vida.
«A vida é, pois, igualmente uma contradição “existente nas coisas e nos fenómenos
em si”, uma contradição que, constantemente, se apresenta e resolve; logo que a
contradição cessa, a vida cessa também, intervém a morte»2.
Assim, as coisas não só se transformam umas nas outras, mas, ainda, uma coisa não é
apenas ela própria, mas outra que é a sua contrária, porque cada coisa contém a sua
contrária.
Toda a coisa é, ao mesmo tempo, ela própria e a sua contrária.
Se se representa uma coisa por um círculo, teremos uma força que a impelirá para a
vida, empurrando do centro para o exterior, por exemplo (expansão); mas teremos,
também, forças que a impelirão numa direcção oposta, forças de morte, empurrando
do exterior para o centro (compressão).
Assim, no interior de cada coisa, coexistem forças opostas, antagonismos.
Que se passa entre essas forças? Lutam. Por conseguinte, uma coisa não é apenas
movida por uma força agindo num só sentido, mas toda a coisa é, realmente, movida
por duas forças de direcções opostas. Para a afirmação e para a negação das coisas,
para a vida e para a morte. Que significa: afirmação e negação das coisas?
Existem, na vida, forças que a mantêm, que tendem para a sua afirmação. Além
dessas, também existem nos organismos outras que tendem para a negação. Em
todas as coisas, há forças que tendem para a afirmação e outras para a negação, e,
entre a afirmação e a negação, há contradição.
Portanto, a dialéctica constata a mudança; mas, por que mudam as coisas? Porque
não estão de acordo consigo próprias, porque há luta entre as forças, entre os
antagonismos internos, porque há contradição. Eis a terceira lei da dialéctica: As
coisas mudam, porque contêm em si mesmas a contradição.
(Se somos obrigados, por vezes, a empregar palavras mais ou menos complicadas
(como dialéctica, autodinamismo, etc.) ou termos que parecem contrários à lógica
tradicional e difíceis de compreender, não é pelo prazer de complicar às coisas, e,
nisso, imitar a burguesia3. Não. Mas, este estudo, embora elementar, pretende ser tão
completo quanto possível e permitir ler, em seguida, mais facilmente, as obras
filosóficas de Marx-Engels e Lenine, que empregam esses termos. Em todo o caso,
uma vez que devemos empregar uma linguagem que não é usual, procuraremos, no
âmbito deste estudo, torná-la compreensível a todos.)
III. — Afirmação, negação e negação da negação.
2 Friedrich ENGELS: «Anti-Duhring», p. 153.
3 Ver o artigo de René MAUBLANC em “A Vida operária”, de 14de outubro de 1937.
5
É
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
_____________________________________
Obra editada pela “Prelo Editora, SARL”, em janeiro de 1975 (4.ª Edição)
Colocado em linha em: 2012/03/03
Princípios Elementares de Filosofia
Georges Politzer
[Esta importante obra publica-se por capítulos, semanalmente, iniciando-se com a
publicação do Índice das Matérias, Prefácio e Advertência dos editores franceses.]
Quarta parte – estudo da dialética
Capítulo IV e Capítulo V
CAPÍTULO IV – TERCEIRA LEI: A CONTRADIÇÃO
I. — A vida e a morte.
II. — As coisas transformam-se na sua contrária.
III. — Afirmação, negação e negação da negação.
IV. — Recapitulemos.
V. — A unidade das contrárias.
VI. — Erros a evitar.
VII. — Consequências práticas da dialéctica.
Vimos que a dialéctica considera as coisas como estando em perpétua mudança,
evoluindo continuamente, numa palavra, sofrendo um movimento dialéctico (1.ª lei).
Este movimento é possível, porque toda e qualquer coisa não é mais do que o
resultado, no momento em que a estudamos, de um encadeamento de processos, isto
é, de fases que saem umas das outras. E, levando o nosso estudo mais adiante, vimos
que esse encadeamento se desenvolve necessariamente no tempo num movimento
progressivo, «apesar dos retrocessos momentâneos».
Chamámos a esse desenvolvimento um «desenvolvimento histórico» ou «em espiral»,
e sabemos que se gera a si mesmo, por autodinamismo.
2
Mas, quais são, agora, as leis do autodinamismo? Quais as que permitem às fases sair
umas das outras? Chamam-se as «leis do movimento dialéctico».
A dialéctica ensina-nos que as coisas não são eternas: têm um começo, uma
maturidade, uma velhice, que termina num fim, a morte.
Todas as coisas passam por essas fases: nascimento, maturidade, velhice, fim. Por
que acontece assim? Por que não são as coisas eternas?
Eis uma velha pergunta que sempre apaixonou a humanidade. Por que é preciso
morrer? Não se compreende esta necessidade, e os homens, no decurso da história,
sonharam com a vida eterna, com os meios de mudar tal estado de coisas, na idade
média, por exemplo, inventando bebidas mágicas (elixires de juventude ou da vida).
Por que é que o que nasce é, portanto, obrigado a morrer? Eis uma grande lei da
dialéctica, que deveremos confrontar, para bem a compreender, com a metafísica.
I. — A vida e a morte.
Do ponto de vista metafísico, consideram-se as coisas de um modo isolado, tomadas
em si mesmas, e, porque a metafísica as estuda assim, considera-as de uma maneira
unilateral, isto é, de um só lado. É por isso que se pode dizer, dos que as vêem de um
só lado, que são metafísicos. Em poucas palavras, quando um metafísico examina o
fenómeno a que se chama vida, fá-lo sem o relacionar a qualquer outro. Vê a vida, por
si e em si, de uma maneira unilateral. Vê-a de um só lado. Se examinar a morte, fará a
mesma coisa; aplicará o seu ponto de vista unilateral, e concluirá dizendo: a vida é a
vida, a morte é a morte. Entre ambas, nada de comum; não se pode estar ao mesmo
tempo vivo e morto, porque são duas coisas opostas, inteiramente contrárias uma à
outra.
Ver assim as coisas, é fazê-lo de uma maneira superficial. Se as examinarmos um
pouco mais de perto, veremos, primeiro, que não as podemos opor uma à outra, não
podemos mesmo separá-las tão brutalmente, uma vez que a experiência e a realidade
nos mostram que a morte continua a vida, que a morte vem do vivo.
E a vida, pode sair da morte? Sim. Porque os elementos do corpo morto vão
transformar-se para dar origem a outras vidas e servir de adubo à terra, que será mais
fértil, por exemplo. A morte, em muitos casos, auxiliará a vida, permitirá a esta
nascer; e, nos próprios corpos vivos, a vida só é possível porque há uma contínua
substituição das células que morrem por outras que nascem1.
1 «Enquanto consideramos as coisas como em repouso e sem vida, cada uma por si, uma ao lado e após
a outra, não nos apercebemos, certamente, de qualquer contradição entre elas. Encontramos certas
propriedades que são, em parte, comuns, em parte, diversas, até contraditórias, mas que, neste caso,
são repartidas por coisas diferentes, não contendo, portanto, contradição em si mesmas. Nos limites
deste domínio de observação, ficamo-nos pelo modo de pensar corrente, o metafísico. Mas
procederemos de maneira diferente, se considerarmos as coisas nos seus movimento, mudança, vida,
acção recíproca uma sobre a outra. Aí, caímos imediatamente nas contradições.» (Friedrich ENGELS:
«Anti-Duhring», p. 52).
3
Portanto, a vida e a morte transformam-se continuamente uma na outra, e, em todas
as coisas, constatamos a constância desta grande lei: por toda a parte, as coisas
transformam-se na sua contrária.
II. — As coisas transformam-se na sua contrária.
Os metafísicos opõem as contrárias, mas, a realidade demonstra-nos que estas se
transformam uma na outra, que as coisas não permanecem elas próprias, se
transformam nas suas contrárias.
Se examinarmos a verdade e o erro, pensamos: não há nada de comum entre eles. A
verdade é a verdade, um erro é um erro. Este o ponto de vista unilateral, que opõe
brutalmente as duas contrárias, como se oporia a vida e a morte.
E, todavia, se dizemos: «Olha, chove!», acontece que, por vezes, ainda não acabámos
de o dizer e já não chove. Essa frase era exacta, quando a começámos, e transformouse
em erro. (Os Gregos já tinham constatado isso, e diziam que, para não errar, era
preciso não dizer nada!)
Do mesmo modo, retomemos o exemplo da maçã. Vê-se na terra uma maçã madura,
e diz-se: «Eis uma maçã madura». Contudo, estando na terra há um certo tempo, já
começa a decompor-se, de tal forma que a verdade se transforma em erro.
Também as ciências nos dão numerosos exemplos de leis consideradas, durante
muitos anos, como «verdades», que se revelaram, num dado momento, após os
progressos científicos, como «erros».
Vemos, portanto, que a verdade se transforma em erro. Mas, será que o erro se
transforma em verdade? No início da civilização, os homens imaginavam, sobretudo
no Egipto, combates entre os deuses, para explicar o nascer e o pôr do sol; era um
erro, na medida em que se dizia que os deuses empurravam ou puxavam o sol, para o
fazer mover. Mas, a ciência dá parcialmente razão a esse raciocínio, dizendo que há,
efectivamente, forças (puramente físicas, aliás) que fazem mover o sol. Veremos, pois,
que o erro não está nitidamente oposto à verdade.
Se, portanto, as coisas se transformam na sua contrária, como é isso possível? Como
se transforma a vida na morte?
Se houvesse apenas vida, a vida cem por cento, ela nunca poderia ser a morte, e se a
morte fosse totalmente ela própria, a morte cem por cento, seria impossível que uma
se transformasse na outra. Mas, já existe morte na vida e, por conseguinte, vida na
morte.
Observando de perto, veremos que um ser vivo é composto de células, que estas se
renovam, desaparecem e reaparecem no mesmo lugar. Vivem e morrem
continuamente num ser vivo, onde existe, portanto, vida e morte.
Sabemos, também, que a barba de um morto continua a crescer. O mesmo acontece
com as unhas e os cabelos. Eis fenómenos nitidamente caracterizados, que provam
que a vida continua na morte.
4
Na União Soviética, conserva-se, em condições especiais, sangue de cadáveres, que
serve para fazer transfusões: assim, com o sangue de um morto, refaz-se um vivo.
Podemos dizer que, por conseguinte, no seio da morte há a vida.
«A vida é, pois, igualmente uma contradição “existente nas coisas e nos fenómenos
em si”, uma contradição que, constantemente, se apresenta e resolve; logo que a
contradição cessa, a vida cessa também, intervém a morte»2.
Assim, as coisas não só se transformam umas nas outras, mas, ainda, uma coisa não é
apenas ela própria, mas outra que é a sua contrária, porque cada coisa contém a sua
contrária.
Toda a coisa é, ao mesmo tempo, ela própria e a sua contrária.
Se se representa uma coisa por um círculo, teremos uma força que a impelirá para a
vida, empurrando do centro para o exterior, por exemplo (expansão); mas teremos,
também, forças que a impelirão numa direcção oposta, forças de morte, empurrando
do exterior para o centro (compressão).
Assim, no interior de cada coisa, coexistem forças opostas, antagonismos.
Que se passa entre essas forças? Lutam. Por conseguinte, uma coisa não é apenas
movida por uma força agindo num só sentido, mas toda a coisa é, realmente, movida
por duas forças de direcções opostas. Para a afirmação e para a negação das coisas,
para a vida e para a morte. Que significa: afirmação e negação das coisas?
Existem, na vida, forças que a mantêm, que tendem para a sua afirmação. Além
dessas, também existem nos organismos outras que tendem para a negação. Em
todas as coisas, há forças que tendem para a afirmação e outras para a negação, e,
entre a afirmação e a negação, há contradição.
Portanto, a dialéctica constata a mudança; mas, por que mudam as coisas? Porque
não estão de acordo consigo próprias, porque há luta entre as forças, entre os
antagonismos internos, porque há contradição. Eis a terceira lei da dialéctica: As
coisas mudam, porque contêm em si mesmas a contradição.
(Se somos obrigados, por vezes, a empregar palavras mais ou menos complicadas
(como dialéctica, autodinamismo, etc.) ou termos que parecem contrários à lógica
tradicional e difíceis de compreender, não é pelo prazer de complicar às coisas, e,
nisso, imitar a burguesia3. Não. Mas, este estudo, embora elementar, pretende ser tão
completo quanto possível e permitir ler, em seguida, mais facilmente, as obras
filosóficas de Marx-Engels e Lenine, que empregam esses termos. Em todo o caso,
uma vez que devemos empregar uma linguagem que não é usual, procuraremos, no
âmbito deste estudo, torná-la compreensível a todos.)
III. — Afirmação, negação e negação da negação.
2 Friedrich ENGELS: «Anti-Duhring», p. 153.
3 Ver o artigo de René MAUBLANC em “A Vida operária”, de 14de outubro de 1937.
5
É
sexta-feira, 2 de março de 2012
"Inteligência tática de captação de informações" nos media sociais
Espionagem e propaganda utilizando o Facebook e o Twitter
por Julie Lévesque
Um novo estudo feito pelo Conselho Mediterrâneo de Estudos de Inteligência (MCIS) no Almanaque de Estudos de Inteligência de 2012 atenta para o uso dos medias sociais como "a inovação em inteligência tática de captação aberta de informações". Joseph Fitsanakis da IntelNews.org, co-autor do estudo, declara:
Sustentamos que o Facebook, o Twitter, o YouTube e uma série de outras plataformas de redes sociais são cada vez mais consultadas por agências de inteligência como inestimáveis canais de aquisição de informações. Baseamos nossos resultados em três estudos de caso recentes, os quais, acreditamos, destacam a função da inteligência em relação às redes sociais. (Joseph Fitsanakis, Pesquisa: Cada vez mais espiões usam Facebook e Twitter para coleta de informações, intelNews.org), 13 de fevereiro de 2012. [1]
Porém, o que o estudo não menciona é o uso dos medias sociais feito por agências de inteligência para outros fins. A investigação nos leva a acreditar que os media sociais são somente um instrumento de captação de informações da inteligência, quando na verdade, um número de declarações mostrou que é utilizada para promover propaganda, inclusive para criar perfis falsos para dar suporte a operações secretas. Estas práticas são discutidas no Exército de Fakes de Mídia Social para Promover Propaganda, Mídia Social: Força Aérea Encomenda Software para Monitorar Exército de Fakes Virtuais e Pentágono Busca Manipular Mídia Social para Fins de Propaganda [2] , publicados no Global Research em 2011.
O estudo do MCIS se baseia parcialmente no contexto da "Primavera Árabe", o qual supostamente instigou o governo americano a desenvolver diretrizes para inteligência de coleta de informações a partir de redes sociais" [3] .
Novamente, não se considera que o governo americano oferece "treinamento de liderança" para estrangeiros desestabilizarem seus países de origem. Esta tática está descrita em detalhes no último artigo de Tony Cartalucci, Egito: Ativistas Financiados pelos Estados Unidos sob Julgamento: "Promoção de Democracia" Americana = Sedição Internacional [4] .
A "cyber dissidência" é financiada, dentre outros, pela Freedom House, vinculada à CIA. O primeiro dos eventos da Human Freedom do Instituto Bush, co-financiado pela Freedom House, foi intitulado "Conferência sobre Cyber Dissidentes: Resultados e Desafios Globais".
A conferência sobre cyber dissidentes destacou o trabalho, métodos, coragem e conquistas dos oito palestrantes dissidentes convidados, de sete países. Cinco desses países são regiões onde a liberdade foi extinta (todos avaliados como "não livres" pela Freedom House: China, Cuba, Irã, Síria e Rússia). Os outros dois países são regiões onde a liberdade está em perigo (ambos avaliados como "parcialmente livres" pela Freedom House) por causa de um governo autoritário que acumula mais poder, como na Venezuela, ou por causa da ameaça de grupos terroristas internos, como na Colômbia. (Conferência sobre Cyber Dissidentes: Resultados e Desafios Globais, Centro Presidencial George W. Bush) [5]
Países onde a "liberdade foi extinta" e que são aliados americanos, tais como Barém ou Arábia Saudita, não são listados acima. O único aliado americano listado é a Colômbia e considera-se que sua liberdade está ameaçada por grupos terroristas, e não por seu governo. Vale dizer que o governo colombiano foi acusado de espionar seus jornalistas e que a Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos (IACHR) declara que a liberdade de expressão 'quase não existe' na Colômbia.
O objetivo do "treinamento de liderança" feito por ONGs americanas é o de desestabilizar os inimigos políticos da América em nome da liberdade. A "cyber dissidência" é, por sua vez, utilizada por agências de inteligência para operações secretas.
Notas
[1] Joseph Fitsanakis, Research: Spies increasingly using Facebook, Twitter to gather data , intelNews.org, 13/fevereiro/2012.
[2] Army of Fake Social Media Friends to Promote Propaganda , Social Media: Air Force ordered software to manage army of Fake Virtual People e Pentagon Seeks to Manipulate Social Media for Propaganda Purposes .
[3] (Ibid.)
[4] Egypt: US-funded Agitators on Trial: US "Democracy Promotion" = Foreign-funded Sedition .
[5] The Conference on Cyber Dissidents: Global Successes and Challenges, The George W. Bush Presidential Center .
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=29288
Tradução de Sergio Oliveira.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
por Julie Lévesque
Um novo estudo feito pelo Conselho Mediterrâneo de Estudos de Inteligência (MCIS) no Almanaque de Estudos de Inteligência de 2012 atenta para o uso dos medias sociais como "a inovação em inteligência tática de captação aberta de informações". Joseph Fitsanakis da IntelNews.org, co-autor do estudo, declara:
Sustentamos que o Facebook, o Twitter, o YouTube e uma série de outras plataformas de redes sociais são cada vez mais consultadas por agências de inteligência como inestimáveis canais de aquisição de informações. Baseamos nossos resultados em três estudos de caso recentes, os quais, acreditamos, destacam a função da inteligência em relação às redes sociais. (Joseph Fitsanakis, Pesquisa: Cada vez mais espiões usam Facebook e Twitter para coleta de informações, intelNews.org), 13 de fevereiro de 2012. [1]
Porém, o que o estudo não menciona é o uso dos medias sociais feito por agências de inteligência para outros fins. A investigação nos leva a acreditar que os media sociais são somente um instrumento de captação de informações da inteligência, quando na verdade, um número de declarações mostrou que é utilizada para promover propaganda, inclusive para criar perfis falsos para dar suporte a operações secretas. Estas práticas são discutidas no Exército de Fakes de Mídia Social para Promover Propaganda, Mídia Social: Força Aérea Encomenda Software para Monitorar Exército de Fakes Virtuais e Pentágono Busca Manipular Mídia Social para Fins de Propaganda [2] , publicados no Global Research em 2011.
O estudo do MCIS se baseia parcialmente no contexto da "Primavera Árabe", o qual supostamente instigou o governo americano a desenvolver diretrizes para inteligência de coleta de informações a partir de redes sociais" [3] .
Novamente, não se considera que o governo americano oferece "treinamento de liderança" para estrangeiros desestabilizarem seus países de origem. Esta tática está descrita em detalhes no último artigo de Tony Cartalucci, Egito: Ativistas Financiados pelos Estados Unidos sob Julgamento: "Promoção de Democracia" Americana = Sedição Internacional [4] .
A "cyber dissidência" é financiada, dentre outros, pela Freedom House, vinculada à CIA. O primeiro dos eventos da Human Freedom do Instituto Bush, co-financiado pela Freedom House, foi intitulado "Conferência sobre Cyber Dissidentes: Resultados e Desafios Globais".
A conferência sobre cyber dissidentes destacou o trabalho, métodos, coragem e conquistas dos oito palestrantes dissidentes convidados, de sete países. Cinco desses países são regiões onde a liberdade foi extinta (todos avaliados como "não livres" pela Freedom House: China, Cuba, Irã, Síria e Rússia). Os outros dois países são regiões onde a liberdade está em perigo (ambos avaliados como "parcialmente livres" pela Freedom House) por causa de um governo autoritário que acumula mais poder, como na Venezuela, ou por causa da ameaça de grupos terroristas internos, como na Colômbia. (Conferência sobre Cyber Dissidentes: Resultados e Desafios Globais, Centro Presidencial George W. Bush) [5]
Países onde a "liberdade foi extinta" e que são aliados americanos, tais como Barém ou Arábia Saudita, não são listados acima. O único aliado americano listado é a Colômbia e considera-se que sua liberdade está ameaçada por grupos terroristas, e não por seu governo. Vale dizer que o governo colombiano foi acusado de espionar seus jornalistas e que a Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos (IACHR) declara que a liberdade de expressão 'quase não existe' na Colômbia.
O objetivo do "treinamento de liderança" feito por ONGs americanas é o de desestabilizar os inimigos políticos da América em nome da liberdade. A "cyber dissidência" é, por sua vez, utilizada por agências de inteligência para operações secretas.
Notas
[1] Joseph Fitsanakis, Research: Spies increasingly using Facebook, Twitter to gather data , intelNews.org, 13/fevereiro/2012.
[2] Army of Fake Social Media Friends to Promote Propaganda , Social Media: Air Force ordered software to manage army of Fake Virtual People e Pentagon Seeks to Manipulate Social Media for Propaganda Purposes .
[3] (Ibid.)
[4] Egypt: US-funded Agitators on Trial: US "Democracy Promotion" = Foreign-funded Sedition .
[5] The Conference on Cyber Dissidents: Global Successes and Challenges, The George W. Bush Presidential Center .
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=29288
Tradução de Sergio Oliveira.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Eleições, armadilha para tolos
Jean Salem
O filósofo marxista Jean Salem publicou recentemente um novo livro: “Eléctions, piége à cons”. Publicamos a Introdução desse importante texto, que coloca uma questão central: nos dias de hoje, em tantos lugares da Europa, é através dos mecanismos eleitorais das democracias burguesas que forças fascistas e de extrema-direita vêm assumindo uma importante parcela do poder político.
Em criança, depois em adolescente, e talvez mesmo até ao início dos anos 1980, interrogávamo-nos como fora possível que povos amassados em cultura, como os alemães em especial, tenham sido incapazes de prever aquilo que veio a ser feito, aquilo que foi cometido em seu nome antes e durante o período da Segunda Guerra Mundial. De forma acessória, essa interrogação servia para moderar os ardores daqueles que estavam sempre disponíveis para se inclinar perante a mais insignificante emoção popular e, em particular, perante aquelas que pareciam indicar a insatisfação de tal ou tal fracção da população nos países do “socialismo real”. E, sobretudo, ela proporcionava aos mais argutos a oportunidade para relembrar em cada dia uma evidência que fere, ao que parece, o preconceito democrático: a de que os povos podem equivocar-se. E podem, consequentemente, votar mal… Hitler (podemos, naturalmente, lamentá-lo) não se apossou do poder por meio de um golpe de Estado! Na eleição presidencial de Março-Abril de 1932 tinha obtido 2,75 milhões de votos, o que representava 37,3% do eleitorado, mas tinha sido ultrapassado, em qualquer caso, pelo marechal Hindenburg. Num contexto marcado, entretanto, pelas terríveis acções violentas dos bandos nacional-socialistas (contavam-se às centenas os mortos que estes tinham provocado apenas no decurso do mês de Julho, em confrontos de rua desde a Prússia até Altona, a norte de Hamburgo), o NSDAP obteve igualmente 37,3% dos votos nas eleições de 31 de Julho de 1932.
De forma ainda mais genérica, o tão prosaico percurso dos regimes ditos “representativos” só pode levar as pessoas de bom-senso a pensar, com Alexis de Tocqueville, que “aqueles que encaram o sufrágio universal como uma garantia da qualidade das escolhas iludem-se completamente”. O “voto universal”, acrescentava Tocqueville, “possui outras vantagens, mas não essa” (De la démocratie en Amérique, II parte, cap. 5, Vrin, t. I, p 153). Porque ninguém pode afirmar que a maioria tem sempre razão. Sobretudo quando essa maioria é tão evidentemente fabricada como o é nos dias de hoje. Sem falar da imensa massa daqueles que deixaram de participar no jogo eleitoral, tão frequentemente enganador, frustrante, entorpecedor mesmo. A tradição filosófica em que me integro aliou constantemente, pelo menos até ao século XVIII, um muito grande optimismo naturalista a um carregado pessimismo em matéria de antropologia. Para o materialismo do Ancien Régime, para o epicurismo antigo como para os grandes senhores do libertinismo, não se trata em nenhuma circunstância de imaginar que, de progresso em progresso, todo o indivíduo acederá às luzes da razão, à sabedoria e à felicidade. Os “déniaisés” (“desparvecidos”), como se designavam a si próprios, sabem bem que a religião é um instrumento do poder de Estado; mas que o povo, têm eles o cuidado de acrescentar de imediato, não deixa de crer nela e de continuar a ignorar os seus truques. Em resumo, será apenas com as Luzes, e a fortiori com o comtismo, o marxismo e outras doutrinas racionalistas datando do séc. XIX que se formou, entre os adeptos do materialismo filosófico, a ideia de uma possível conversão dos humanos a opções políticas justas, morais, e susceptíveis de trazer a felicidade a todos.
E eis entretanto o estado em que estamos: os herdeiros do fascismo e do nacional-socialismo voltam a levantar a cabeça na Europa… Aqui, é um movimento fundado por um antigo torcionário que obtém, desde há mais de vinte anos, entre 10% e 18% dos votos expressos. Acolá, o NPD, o Partido nacional democrático alemão, obtém 9,2% dos votos nas eleições de 2004, no Saxe. Desde 1986 que os resultados obtidos pelo muito mal designado Partido austríaco da liberdade (FPO) não cessam de aumentar em eleições legislativas, chegando a atingir 27% dos votos expressos em 1999. Nessa altura o FPO era a segunda força política na Áustria. Depois de uma descida transitória ressurgiu em força nas legislativas de 2008 com um resultado de 18%, ao qual devem ser acrescentados os 11% recolhidos pela Aliança para o Futuro da Áustria (BZO) – ela própria resultante de uma cisão do FPO – o que dá um total acumulado de 29% dos votos expressos a favor da extrema-direita! Na Noruega também, o FrP, o Partido do progresso, impôs-se como a segunda força política do país ao alcançar 23% dos votos expressos quando das eleições legislativas de 2009. Nos Países-Baixos, finalmente, 17% dos votos foram para a extrema-direita nas eleições europeias de Junho de 2009. Por todo o lado, ou quase, há governos aos quais não só não repugna formar alianças com a extrema-direita ou mesmo a pedinchar o seu apoio (Dinamarca, Hungria); há governos – em geral eleitos, é certo, ou pelo menos que alcançaram o poder por meio de eleições – que entregam pastas de ministérios a racistas certificados ou a autênticos fascistas reconvertidos de fresca data em muito sinceros democratas (Itália). Por toda a parte, o perigo ainda-rastejante-mas-já-muito-pouco do regresso da peste negra ou da chegada das suas reencarnações pós-modernas (Bélgica, Suíça).
Para sintetizar, existe já um problema que pode legitimamente agitar os nossos neurónios: as campanhas eleitorais, as boas intenções e os escrutínios que aí vêm serão suficientes para evitar que aqueles que militam à esquerda, neste XXIº século que começa, não venham a acabar em campos (estilo antigo) ou em estádios (estilo chileno)? Tanto mais que, como me dizia um estudante no decurso de uma prova oral bastante frustrante, “o capitalismo tem um grande problema: foi demasiado longe”. Ou, dito por outras palavras, poderia culminar em apocalipse…E nem os votos “úteis” nem os pânicos sem grande futuro dos pequenos burgueses poderão constituir uma barreira eficaz contra o que aí vem! É pensando nisso sobretudo, ou seja, no estado vacilante da nossa civilização que eu gostaria aqui de falar:
1- Daquilo que eu chamarei de boa vontade o actual circo eleitoral;
2- Da confiscação do poder que este circo autoriza e realiza perante nós;
3- Do regime de eleição ininterrupta no qual se faz viver nos dias de hoje o cidadão das nossas esgotadas democracias, regime que é parte integrante de um período de crise sobreaguda do capitalismo, de um período de perturbações e de ansiedade, de um período em que se sente o odor que antecede a guerra.
O filósofo marxista Jean Salem publicou recentemente um novo livro: “Eléctions, piége à cons”. Publicamos a Introdução desse importante texto, que coloca uma questão central: nos dias de hoje, em tantos lugares da Europa, é através dos mecanismos eleitorais das democracias burguesas que forças fascistas e de extrema-direita vêm assumindo uma importante parcela do poder político.
Em criança, depois em adolescente, e talvez mesmo até ao início dos anos 1980, interrogávamo-nos como fora possível que povos amassados em cultura, como os alemães em especial, tenham sido incapazes de prever aquilo que veio a ser feito, aquilo que foi cometido em seu nome antes e durante o período da Segunda Guerra Mundial. De forma acessória, essa interrogação servia para moderar os ardores daqueles que estavam sempre disponíveis para se inclinar perante a mais insignificante emoção popular e, em particular, perante aquelas que pareciam indicar a insatisfação de tal ou tal fracção da população nos países do “socialismo real”. E, sobretudo, ela proporcionava aos mais argutos a oportunidade para relembrar em cada dia uma evidência que fere, ao que parece, o preconceito democrático: a de que os povos podem equivocar-se. E podem, consequentemente, votar mal… Hitler (podemos, naturalmente, lamentá-lo) não se apossou do poder por meio de um golpe de Estado! Na eleição presidencial de Março-Abril de 1932 tinha obtido 2,75 milhões de votos, o que representava 37,3% do eleitorado, mas tinha sido ultrapassado, em qualquer caso, pelo marechal Hindenburg. Num contexto marcado, entretanto, pelas terríveis acções violentas dos bandos nacional-socialistas (contavam-se às centenas os mortos que estes tinham provocado apenas no decurso do mês de Julho, em confrontos de rua desde a Prússia até Altona, a norte de Hamburgo), o NSDAP obteve igualmente 37,3% dos votos nas eleições de 31 de Julho de 1932.
De forma ainda mais genérica, o tão prosaico percurso dos regimes ditos “representativos” só pode levar as pessoas de bom-senso a pensar, com Alexis de Tocqueville, que “aqueles que encaram o sufrágio universal como uma garantia da qualidade das escolhas iludem-se completamente”. O “voto universal”, acrescentava Tocqueville, “possui outras vantagens, mas não essa” (De la démocratie en Amérique, II parte, cap. 5, Vrin, t. I, p 153). Porque ninguém pode afirmar que a maioria tem sempre razão. Sobretudo quando essa maioria é tão evidentemente fabricada como o é nos dias de hoje. Sem falar da imensa massa daqueles que deixaram de participar no jogo eleitoral, tão frequentemente enganador, frustrante, entorpecedor mesmo. A tradição filosófica em que me integro aliou constantemente, pelo menos até ao século XVIII, um muito grande optimismo naturalista a um carregado pessimismo em matéria de antropologia. Para o materialismo do Ancien Régime, para o epicurismo antigo como para os grandes senhores do libertinismo, não se trata em nenhuma circunstância de imaginar que, de progresso em progresso, todo o indivíduo acederá às luzes da razão, à sabedoria e à felicidade. Os “déniaisés” (“desparvecidos”), como se designavam a si próprios, sabem bem que a religião é um instrumento do poder de Estado; mas que o povo, têm eles o cuidado de acrescentar de imediato, não deixa de crer nela e de continuar a ignorar os seus truques. Em resumo, será apenas com as Luzes, e a fortiori com o comtismo, o marxismo e outras doutrinas racionalistas datando do séc. XIX que se formou, entre os adeptos do materialismo filosófico, a ideia de uma possível conversão dos humanos a opções políticas justas, morais, e susceptíveis de trazer a felicidade a todos.
E eis entretanto o estado em que estamos: os herdeiros do fascismo e do nacional-socialismo voltam a levantar a cabeça na Europa… Aqui, é um movimento fundado por um antigo torcionário que obtém, desde há mais de vinte anos, entre 10% e 18% dos votos expressos. Acolá, o NPD, o Partido nacional democrático alemão, obtém 9,2% dos votos nas eleições de 2004, no Saxe. Desde 1986 que os resultados obtidos pelo muito mal designado Partido austríaco da liberdade (FPO) não cessam de aumentar em eleições legislativas, chegando a atingir 27% dos votos expressos em 1999. Nessa altura o FPO era a segunda força política na Áustria. Depois de uma descida transitória ressurgiu em força nas legislativas de 2008 com um resultado de 18%, ao qual devem ser acrescentados os 11% recolhidos pela Aliança para o Futuro da Áustria (BZO) – ela própria resultante de uma cisão do FPO – o que dá um total acumulado de 29% dos votos expressos a favor da extrema-direita! Na Noruega também, o FrP, o Partido do progresso, impôs-se como a segunda força política do país ao alcançar 23% dos votos expressos quando das eleições legislativas de 2009. Nos Países-Baixos, finalmente, 17% dos votos foram para a extrema-direita nas eleições europeias de Junho de 2009. Por todo o lado, ou quase, há governos aos quais não só não repugna formar alianças com a extrema-direita ou mesmo a pedinchar o seu apoio (Dinamarca, Hungria); há governos – em geral eleitos, é certo, ou pelo menos que alcançaram o poder por meio de eleições – que entregam pastas de ministérios a racistas certificados ou a autênticos fascistas reconvertidos de fresca data em muito sinceros democratas (Itália). Por toda a parte, o perigo ainda-rastejante-mas-já-muito-pouco do regresso da peste negra ou da chegada das suas reencarnações pós-modernas (Bélgica, Suíça).
Para sintetizar, existe já um problema que pode legitimamente agitar os nossos neurónios: as campanhas eleitorais, as boas intenções e os escrutínios que aí vêm serão suficientes para evitar que aqueles que militam à esquerda, neste XXIº século que começa, não venham a acabar em campos (estilo antigo) ou em estádios (estilo chileno)? Tanto mais que, como me dizia um estudante no decurso de uma prova oral bastante frustrante, “o capitalismo tem um grande problema: foi demasiado longe”. Ou, dito por outras palavras, poderia culminar em apocalipse…E nem os votos “úteis” nem os pânicos sem grande futuro dos pequenos burgueses poderão constituir uma barreira eficaz contra o que aí vem! É pensando nisso sobretudo, ou seja, no estado vacilante da nossa civilização que eu gostaria aqui de falar:
1- Daquilo que eu chamarei de boa vontade o actual circo eleitoral;
2- Da confiscação do poder que este circo autoriza e realiza perante nós;
3- Do regime de eleição ininterrupta no qual se faz viver nos dias de hoje o cidadão das nossas esgotadas democracias, regime que é parte integrante de um período de crise sobreaguda do capitalismo, de um período de perturbações e de ansiedade, de um período em que se sente o odor que antecede a guerra.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
crise do capitalismo global"
– Crise de quem? Quem lucra?
por James Petras [*]
Desde o Financial Times até à extrema-esquerda, toneladas de tinta têm sido gastas a escrever acerca de alguma variante da "Crise do capitalismo global". Se bem que os autores divirjam quanto às causas, consequências e curas, de acordo com as suas luzes ideológicas, há um acordo comum em que "as crises" ameaçam acabar o sistema capitalista tal como o conhecemos.
Não há dúvida de que, entre 2008 e 2009, o sistema capitalista na Europa e nos Estados Unidos sofreu um choque severo que abalou os fundamentos do seu sistema financeiro e ameaçou levar à bancarrota seus "sectores principais".
Contudo, argumentarei que as "crises do capitalismo" foram transformadas em "crises do trabalho". O capital financeiro, o principal detonador do crash e da crise, recuperou-se, a classe capitalista como um todo foi fortalecida e, acima de tudo, ela utilizou as condições políticas, sociais e ideológicas criadas em resultado das "crises" para mais uma vez consolidar sua dominação e exploração sobre o resto da sociedade.
Por outras palavras, a "crise do capital" foi convertida numa vantagem estratégica para promover os interesses mais fundamentais do capital: a expansão de lucros, a consolidação do domínio capitalista, a maior concentração da propriedade, o aprofundamento de desigualdades entre capital e trabalho e a criação de enormes reservas de trabalho para promover o aumento dos seus lucros.
Além disso, a noção de um crise global homogénea do capitalismo passa por alto as profundas diferenças em desempenho e condições entre países, classes e grupos etários.
A tese da crise global: O argumento económico e social
Os advogados da crise global argumentam que começando em 2007 e continuando até o presente, o sistema capitalista mundial entrou em colapso e a recuperação é uma miragem. Eles mencionam a estagnação e a recessão contínua na América do Norte e na Eurozona. Eles apresentam dados do PIB que variam entre o crescimento negativo e o zero. A sua argumentação é apoiada por dados que mencionam dois dígitos de desemprego em ambas as regiões. Frequentemente corrigem os dados oficiais que minimizam a percentagem desempregada através da exclusão de trabalhadores desempregados em tempo parcial e a longo prazo. O argumento da "crise" é fortalecido com a citação dos milhões de proprietários de casas que foram despejados pelos bancos, pelo aumento agudo da pobreza e da penúria que acompanha perdas de emprego, reduções de salário e a eliminação ou redução de serviços sociais. A "crise" também é associada ao aumento maciço de bancarrotas, principal de pequenos e médios negócios e bancos regionais.
A crise global: A perda de legitimidade
Críticos, especialmente na imprensa financeira, escrevem acerca de uma "crise de legitimidade do capitalismo" citando inquéritos que mostram maiorias substanciais a questionarem a justiça do sistema capitalista, as vastas e crescentes desigualdades e as regras manipuladas pelas quais bancos exploram a sua dimensão ("demasiado grande para falir") a fim de atacar o Tesouro a expensas de programas sociais.
Em suma, os advogados da tese de uma "Crise global do capitalismo" apresentam uma argumentação convincente, demonstrando os efeitos profundos e generalizados do sistema capitalista sobre a vida da grande maioria da humanidade.
O problema é que uma "crise da humanidade" (mais especificamente dos trabalhadores assalariados) não é o mesmo que uma crise do sistema capitalista. De facto, como argumentaremos adiante, a adversidade social crescente, o declínio do rendimento e do emprego tem sido um factor importante que facilitou a recuperação rápida e maciça das margens de lucro da maior parte das corporações de grande dimensão.
Além disso, a tese de uma crise "global" do capitalismo combina economias, países, classes e grupos etários díspares com desempenhos agudamente divergentes em diferentes momentos históricos.
Crise global ou desenvolvimento irregular e desigual?
É absolutamente louco argumentar a existência de uma "crise global" quando várias das maiores economias na economia mundial não sofreram uma grande baixa de actividade e outras recuperaram-se e expandiram-se rapidamente. A China e a Índia não sofreram sequer uma recessão. Mesmo durante os piores anos do declínio europeu-estado-unidense, os gigantes asiáticos cresceram a uma média de cerca de 8%. As economias da América Latina, especialmente os maiores exportadores agro-minerais (Brasil, Argentina, Chile) com mercados diversificados, especialmente na Ásia, detiveram-se brevemente (em 2009) antes de assumirem crescimento moderado a rápido (entre 3% e 7%) entre 2010 e 2012.
Ao agregar dados económicos da eurozona como um todo os advogados da crise global ignoraram as enormes disparidades de desempenho dentro da zona. Enquanto a Europa do Sul afunda-se numa depressão profunda e constante, por qualquer medida, desde 2008 até o futuro previsível, as exportações alemãs em 2011 estabeleceram um recorde de um milhão de milhões (trillion) de euros; seu excedente comercial atingiu 158 mil milhões de euros, depois de excedentes de 155 mil milhões de euros em 2010. (BBC News, Feb. 8 2012).
Enquanto o desemprego agregado da eurozona atinge os 10,4%, as diferenças internas desafiam qualquer noção de uma "crise geral". O desemprego na Holanda é 4,9%, na Áustria 4,1% e na Alemanha 5,5% com reclamações do patronato de escassez de trabalho qualificado em sectores chave para o crescimento. Por outro lado, no explorado Sul da Europa o desemprego caminha para níveis de depressão, Grécia 21%, Espanha 22,9%, Irlanda 14,5% e Portugal 13,6% (FT 1/19/12, p.7). Por outras palavras, "a crise" não afecta adversamente algumas economias, que de facto lucram com a sua dominação de mercado e fortaleza tecno-financeira em relação a economias dependentes, devedoras e atrasadas. Falar de uma "crise global" obscurece as relações fundamentais dominantes e exploradoras que facilitam a "recuperação" e o crescimento das economias de elite sobre e contra os seus competidores e estados clientes. Além disso os teóricos da crise global erradamente amalgamam economias financeiras-especulativas cavalgadas pela crise (EUA, Inglaterra) com economias produtivas exportadoras (Alemanha, China).
O segundo problema com a tese de uma "crise global" é que ela ignora profundas diferenças internas entre grupos etários. Em vários países europeus a juventude desempregada (16-25) chega a estar entre 30 e 50% (Espanha 48,7%, Grécia 47,2%, Eslováquia 35,6%, Itália 31%, Portugal 30,8% e Irlanda 29%) ao passo que na Alemanha, Áustria e Holanda o desemprego juvenil vai dos 7,8% para a Alemanha, 8,2% para a Áustria e 8,6% para a Holanda ( Financial Times 2/1/12, p2). Estas diferenças fundamentam a razão porque não há um "movimento juvenil global" de "indignados" e "ocupantes". Diferenças de cinco vezes entre juventude desempregada não são propícias à solidariedade "internacional". A concentração dos números do alto desemprego juvenil explica o desenvolvimento desigual dos protestos de rua em massa centrados especialmente no Sul da Europa. Também explica porque o movimento "anti-globalização" no Norte euro-americano é em grande media um fórum sem vida que atrai explicações académicas pomposas sobre a "crise capitalista global" e a impotência dos "Fóruns sociais" que são incapazes de atrair milhões de jovens desempregados do Sul da Europa. Eles são mais atraídos para a acção directa. Teóricos globalistas ignoram o modo específico pelo qual a massa de jovens trabalhadores desempregados é explorada nos seus países dependentes cavalgados pela dívida. Eles ignoram o modo específico pelo qual são dominados e reprimidos por partidos capitalistas de centro-esquerda e de direita. O contraste é mais evidente no Inverno de 2012. Trabalhadores gregos são pressionados a aceitar um corte de 20% nos salários mínimos ao passo que trabalhadores da Alemanha estão a exigir um aumento de 6%.
Se a "crise" do capitalismo se manifesta em regiões específicas, ela igualmente afecta diferentes sectores etários/raciais das classes assalariadas. As taxas de desemprego da juventude aos trabalhadores mais velhos variam enormemente. Na Itália a proporção é 3,5/1, na Grécia 2,5/1, em Portugal 2,3/1, na Espanha 2,1/1 e na Bélgica 2,9/1. Na Alemanha é 1,5/1 (FT 2/1/12). Por outras palavras, devido aos níveis de desemprego mais altos entre os jovens eles têm maior propensão para a acção directa "contra o sistema", ao passo que trabalhadores mais velhos com níveis de emprego mais altos (e benefícios de desemprego) têm mostrado uma maior propensão para confiar na urna eleitoral e comprometer-se em greves limitadas sobre questões relacionadas com o emprego e o pagamento. A vasta concentração do desemprego entre jovens trabalhadores significa que eles constituem o "núcleo disponível" para a acção constante; mas também significa que só podem alcançar limitada unidade de acção com a classe trabalhadora mais velha que experimenta desemprego de um algarismo.
Contudo, também é verdadeiro que a grande massa da juventude desempregada proporciona uma arma formidável, nas mãos dos patrões, para ameaçar substituir trabalhadores empregados mais velhos. Hoje, os capitalistas recorrem constantemente à utilização dos desempregados para reduzir salários e benefícios e intensificar a exploração (baptizada como "aumento de produtividade") para aumentar margens de lucro. Longe de serem simplesmente um indicador da "crise capitalista", os altos níveis de desemprego têm servido juntamente com outros factores par aumentar a taxa de lucro, acumular rendimento, ampliar desigualdades de rendimento as quais aumentam o consumo de bens de luxo para a classe capitalista: as vendas de automóveis e relógios de luxo estão florescentes.
Crise de classe: A contra-tese
Contrariando os teóricos da "crise capitalista global", emergiu uma quantidade substancial de dados que refuta suas suposições. Um estudo recente informa "Lucros corporativos estado-unidenses estão mais altos em proporção do produto interno bruto do que em qualquer momento desde 1950" (FT 1/30/12). Os saldos de caixa de companhias dos EUA nunca foram maiores, graças à exploração intensificada dos trabalhadores e a um sistema de salários multi-estratificado no qual novos contratados trabalham por uma fracção do que os trabalhadores mais velhos recebiam (graças a acordos assinados por líderes sindicais capachos).
Os ideólogos da "crise do capitalismo" ignoraram os relatórios financeiros das principais corporações estado-unidenses. Segundo o relatório de 2011 da General Motors destinado aos seus accionistas, eles celebraram o maior lucro de sempre, revelando um lucro de US$7,6 mil milhões, o que ultrapassa o recorde anterior de US$6,7 mil milhões em 1997. Uma grande parte destes lucros resulta do congelamento dos seus fundos de pensão subfinanciados e da extracção de maior produtividade do menor número de trabalhadores – por outras palavras, da intensificação da exploração – e do corte pela metade dos salários horários dos novos contratados. (Earthlink News 2/16/12)
Além disso, a importância agravada da exploração imperialista é evidente pois a proporção de lucros das corporações estado-unidenses que é extraída além-mar mantém-se em ascensão a expensas do crescimento do rendimento dos empregados. Em 2011, a economia dos EUA cresceu em 1,7%, mas a mediana dos salários caiu em 2,7%. Segundo a imprensa financeira, "as margens de lucro das S&P 500 saltaram de 6% para 9% do PIB nos últimos três anos. A última vez que foi alcançada tal proporção foi há três gerações. Em linha gerais um terço, a fatia estrangeira destes lucros, mais do que duplicou desde 2000" (FT 2/13/12 P9. Se isto é uma "crise capitalista", então quem é que precisa de um boom capitalista?
Inquéritos a corporações de topo revelam que companhias estado-unidenses possuem US$1,73 milhão de milhões em cash, "os frutos do recorde de altas margens de lucro" (FT 1/30/12 p.6). Estas margens de lucro recorde resultam de despedimentos em massa os quais levaram à intensificação da exploração dos restantes trabalhadores. Taxas de juro federais desprezíveis e acesso fácil ao crédito também permitem aos capitalistas explorarem amplos diferenciais entre a contracção de empréstimos e a concessão dos mesmos e o investimento. Impostos mais baixos e cortes em programas sociais resultam numa crescente acumulação de cash das corporações. Dentro da estrutura corporativa, o rendimento vai para o topo onde executivos seniores pagam a si próprios bónus enormes. Dentre as principais corporações S&P 500 a proporção de rendimento que vai para dividendos de accionistas é a mais baixa desde 1900 (FT 1/30/12, p.6).
Uma crise capitalista real afectaria adversamente margens de lucro, ganhos brutos e a acumulação de cash. Lucros ascendentes estão a ser amontoados porque quando capitalistas se aproveitam da exploração intensa o consumo das massas estagna.
Os teóricos da crise confundem o que é claramente a degradação do trabalho, a degradação das condições de vida e de trabalho e mesmo a estagnação da economia, com uma "crise" do capital: quando a classe capitalista aumenta suas margens de lucros, arrecada milhões de milhões, ela não está em crise. O ponto-chave é que a "crise do trabalho" é um grande estímulo para a recuperação de lucros capitalistas. Não podemos generalizar de uma para a outra. Não há dúvida de que houve um momento de crise capitalista (2008-2009) mas graças à maciça transferência de riqueza, sem precedentes no estado capitalista, do tesouro público para a classe capitalista – bancos da Wall Street em primeiro lugar – o sector corporativo recuperou, ao passo que os trabalhadores e o resto da economia permaneceu em crise, foi à bancarrota e ficou sem trabalho.
Da crise à recuperação de lucros: 2008/9 a 2012
A chave para a "recuperação" de lucros corporativos tem pouco a ver com o ciclo de negócios e tudo com a tomada de poder em grande escala da Wall Street e a pilhagem do Tesouro dos EUA. Entre 2009-2012 centenas de antigos executivos da Wall Street, administradores e conselheiros de investimento apoderaram-se de todas as principais posições decisiva no Departamento do Tesouro e canalizaram milhões de milhões de dólares para os cofres das principais financeiras e corporações. Eles intervieram em corporações financeiramente perturbadas, como a General Motors, impondo grandes cortes salariais e demissões de milhares de trabalhadores.
Os homens da Wall Street no Tesouro elaboraram a doutrina do "Demasiado grande para falir" a fim de justificar a transferência maciça de riqueza. A totalidade do edifício especulativo construído em parte por um aumento de 234 vezes no volume de transacções cambiais entre 1977-2010 foi restaurado (FT 1/10/12, p.7). A nova doutrina argumentou que a primeira e principal prioridade do estado é devolver a lucratividade ao sistema financeiro a qualquer custo para a sociedade, os cidadãos, os contribuintes e os trabalhadores. O "Demasiado grande para falir" é um repúdio completo dos mais básicos princípios do sistema capitalista de "mercado livre": a ideia de que aqueles capitalistas que perdem arquem as consequências; que cada investidor ou presidente de empresa é responsável pela sua acção. Os capitalistas financeiros já não precisam justificar sua actividade em termos de qualquer contribuição para o crescimento da economia ou da "utilidade social". De acordo com os que agora dominam a Wall Street deve ser salva porque é a Wall Street, mesmo se o resto da economia e o povo afundarem (FT 1/20/12, p.11). Os salvamentos e financiamentos do estado são complementados por centenas de milhares de milhões em concessões fiscais, levando a défices fiscais sem precedentes e ao crescimento de desigualdades sociais maciças. O pagamento de um presidente de empresa (CEO) como um múltiplo do trabalhador médio passou de 24 para 1 em 1965 para 325:1 em 2010 (FT 1/9/12, p.5).
A classe dominante exibe a sua riqueza e poder com a ajuda conivente da Casa Branca e do Tesouro. Face à hostilidade popular à pilhagem do Tesouro pela Wall Street, Obama chegou ao fingimento de pedir ao Tesouro para impor um tecto aos bónus de muitos milhões de dólares que os presidentes de bancos salvos concediam-se a si próprios. Os homens da Wall Street no Tesouro recusaram-se a impor a ordem executiva, os CEOs obtiveram milhares de milhões em bónus em 2011. O presidente Obama continuou, pensando que enganava o público estado-unidense com o seu gesto falso, enquanto arrecadava milhões de fundos de campanha junto à Wall Street!
A razão porque o Tesouro foi capturado pela Wall Street é que nas décadas de 1990 e 2000 os bancos se tornaram uma força dominante nas economias ocidentais. Sua fatia do PIB subiu drasticamente (de 2% na década de 1950 para 8% em 2010" (FT 1/10/12, p.7).
Hoje é "procedimento operacional normal" para o presidente nomear homens da Wall Street para todas as posições económicas chave e é "normal" para estes mesmos responsáveis prosseguirem políticas que maximizam lucros da Wall Street e eliminam qualquer risco de fracasso, não importa quão aventurosos e corruptos sejam os seus praticantes.
A porta giratória: Da Wall Street para o Tesouro e retorno
A relação entre a Wall Street e o Tesouro tornou-se efectivamente uma "porta giratória": da Wall Street para o Departamento do Tesouro para a Wall Street. Banqueiros privados assumem compromissos no Tesouro (ou são recrutados) para assegurar que todos os recursos e políticas que a Wall Street são concedidas com o máximo esforço, com o mínimo obstáculo de cidadãos, trabalhadores ou contribuintes. Os homens da Wall Street no Tesouro dão a mais alta prioridade à sobrevivência, recuperação e expansão dos lucros da Wall Street. Eles bloqueiam quaisquer regulamentações ou restrições a bónus ou a repetições das fraudes do passado.
Os homens da Wall Street "ganham reputação" no Tesouro e então retornam ao sector privado em posições mais altas, como conselheiros sénior e sócios. Uma nomeação no Tesouro é uma escada para subir na hierarquia da Wall Street. O Tesouro é um posto de abastecimento para a Limusine da Wall Street: o ex homens da Wall Streets enchem o tanque, verificam o óleo e então salvam para o assento da frente e correm para um emprego lucrativo, deixando o posto de abastecimento (público) pagar a conta.
Aproximadamente 774 responsáveis saíram do Tesouro entre Janeiro de 2009 e Agosto de 2011 (FT 2/6/12, p. 7). Todos eles proporcionaram "serviços" lucrativos para os seus futuros patrões da Wall Street, descobrindo uma grande maneira de re-entrar nas finanças privadas numa posição lucrativa mais alta.
Uma notícia no Financial Times Fev. 6, 2012 (p. 7) adequadamente intitulada "Manhattan Transfer" proporcionava ilustrações típicas da "porta giratória" Tesouro-Wall Street.
Ron Bloom passou de banqueiro júnior no Lazard para o Tesouro, ajudando a engendrar um salvamento de um milhão de milhões de dólares da Wall Street e retornou ao Lazard como conselheiro sénior. Jake Siewert foi da Wall Street tornando-se ajudante principal do secretário do Tesouro Tim Geithner e então graduado na Goldman Sachs, tendo servido para solapar qualquer tecto nos bónus da Wall Street.
Michael Mundaca, o mais sénior responsável fiscal no regime Obama veio da Street e então passou par um posto altamente lucrativo na Ernst and Young, uma firma corporativa de contabilidade, tendo ajudado a reduzir impostos corporativos durante o seu período no "gabinete público".
Eric Solomon, um responsável fiscal sénior na infame isenção de impostos corporativos da administração Bush, fez a mesma comutação. Jeffrey Goldstein que Obama encarregou da regulação financeira e teve êxito em solapar exigências populares, retornou ao seu patrão anterior, Hellman and Friedman, com a adequada promoção pelos serviços prestados.
Stuart Levey que dirigiu as sanções da AIPAC contra políticas do Irão a partir da chamada "agência anti-terrorista" do Tesouro foi contratado como advogado geral pelo HSBC para defendê-lo de investigações de lavagem de dinheiro (FT 2/6/12, p. 7). Neste caso Levey passou da promoção dos objectivos de guerra de Israel para a defesa de um banco internacional acusados de lavar milhares de milhões do cartel mexicano. Levey, a propósito gastou tanto tempo a insistir na agenda iraniana de Israel que ignorou totalmente a lavagem de dinheiro dos carteis mexicanos da droga com operações transfronteiriças durante quase uma década.
Lew Alexander, conselheiro sénior de Geithner na concepção do salvamento de mil milhões de dólares, é agora responsável sénior no Nomura, o banco japonês. Lee Sachs passou do Tesouro para o Bank Alliance (sua própria "plataforma de concessão de empréstimos"). James Millstein foi do Lazard para o Tesouro, salvou a seguradora AIG dirigida abusivamente por Greenberg e então estabeleceu a sua própria firma privada de investimento tomando consigo um conjunto de responsáveis do Tesouro bem conectados.
A "porta giratória" Goldman Sachs-Tesouro continua ainda hoje. Além do passado e actual chefes do Tesouro, Paulson e Geithner, Mark Patterson, antigo sócio da Goldman, foi recentemente nomeado "chefe de equipe" de Geithner. Tim Bowler, antigo administrador director foi nomeado por Obama para chefe da divisão de mercados de capital.
Deveria ser perfeitamente claro que eleições, partidos e os mil milhões de dólares de campanhas eleitorais têm pouco a ver com "democracia" e mais a ver com a selecção dos presidente e dos legisladores que nomearão homens não eleitos da Wall Street para tomarem todas as decisões económicas estratégicas para 99% dos americanos. Os resultados da porta giratória Wall Street-Tesouro são claros e proporcionam-nos uma estrutura para entender porque a "crise do lucro" desvaneceu-se e a crise do trabalho aprofundou-se.
Os "alcances políticos" da porta giratória
O conluio Wall Street-Tesouro (CWST) tem desempenhado um trabalho hercúleo e audacioso para o capital financeiro e corporativo. Face à condenação universal da Wall Street pela vasta maioria do público pelas suas fraudes, bancarrotas, perdas de empregos e arrestos hipotecários, o CWST apoiou publicamente os trapaceiros com um salvamento de um milhão de milhões de dólares. Um movimento ousado face a isto, como se maiorias e eleições contassem para alguma coisa. Igualmente importante é que o CWTS lançou ao lixo toda a ideologia do "livre mercado" que justificava lucros dos capitalistas com base nos seus "riscos", pela imposição do novo dogma do "demasiado grande para falir" pelo qual o tesouro do estado garante lucros mesmo quando capitalistas enfrentam a bancarrota, desde que sejam firmas de milhares de milhões de dólares. O CWST também deitou ao lixo o principio capitalista da "responsabilidade fiscal" em favor de centenas de milhares de milhões de dólares de isenções fiscais para a classe dominante corporativo-financeira, provocando défices orçamentais recordes em tempo de paz e tendo então a audácia de culpar os programas sociais apoiados pelas maiorias populares. (Será de admirar que estes ex-responsáveis do Tesouro obtenham ofertas tão lucrativas no sector privado quando abandonam o gabinete público?)
Em terceiro lugar, o Tesouro e o Banco Central (Federal Reserve) proporcionam empréstimos a juro próximo de zero que garantem grandes lucros a instituições financeiras privadas as quais tomam emprestado a juro baixo do Fed e concedem empréstimos a juro alto (incluindo o Governo!) especialmente na compra de governos além mar e títulos corporativos. Eles recebem em qualquer lugar de quatro a dez vezes as taxas de juro que pagam. Por outras palavras, os contribuintes proporcionam um monstruoso subsídio à especulação da Wall Street. Com a condição acrescentada de que hoje estas actividades especulativas são agora assegurados pelo governo federal, sob a doutrina do "Demasiado grande para falir".
Sob a ideologia da "recuperação da competitividade" a equipe económica de Obama (desde o Tesouro até o Federal Reserve, o Departamento do Comércio e o do Trabalho) encorajaram o patronato a empenhar-se no mais agressivo despedimento acelerado (shedding) de trabalhadores da história moderna. A produtividade e a lucratividade aumentadas não é o resultado de " inovação" como proclamam Obama, Geithner e Bernache; é um produto de uma política de estado quanto ao trabalho que aprofunda a desigualdade pela manutenção de salários baixos e margens de lucro em ascensão. Menos trabalhadores a produzirem menos mercadorias. Crédito barato e salvamentos para os bancos de milhares de milhões de dólares e nenhum refinanciamento para casas e firmas de pequena e média dimensão que levam a bancarrotas, absorções (buyouts) e nomeadamente "consolidação", maior concentração de propriedade. Em resultado o mercado de massa estagna mas os lucros corporativos e dos bancos alcançam níveis recorde. Segundo peritos financeiros, sob a "nova ordem" do CWST "os banqueiros são uma classe protegida que desfruta de bónus sem relação com o desempenho, enquanto confia no contribuinte para socializar suas perdas" (FT 1/9/12, p.5).
Em contraste, o trabalho, sob a equipe económica de Obama, enfrenta a maior insegurança e a mais ameaçadora situação da história recente: "o que é inquestionavelmente novo é a ferocidade com que os negócios nos EUA sangra o trabalho agora que o pagamento dos executivos e os esquemas de incentivo estão ligados a objectivos de desempenho a curto prazo" (FT 1/9/2012, p. 5).
Consequências económicas de políticas de estado
Por causa da captura pela Wall Street das posições estratégicas no governo quanto à política económica podemos entender o paradoxo de margens de lucro recordes em meio à estagnação económica. Podemos compreender porque a crise capitalista, pelo menos a curto prazo, foi substituída por uma profunda crise do trabalho. Dentro da matriz de poder da Wall Street-Departamento do Tesouro retornaram todas as velhas e corruptas práticas de exploração que levaram ao crash de 2008-2009: bónus multi-bilionários para banqueiros de investimento que conduziram a economia ao crash; bancos "a apanharem rapidamente milhares de milhões de dólares de produtos hipotecários empacotados que recordam a dívida fatiada e jogada aos dados que alguns (sic) culpam pela crise financeira" (FT 2/8/12, p.1). A diferença hoje é que estes instrumentos especulativos são agora apoiados pelo contribuinte (Tesouro). A supremacia da estrutura financeira da economia estado-unidense anterior à crise está em vigor em próspera ... "só" a força de trabalho dos EUA afundou no maior desemprego, declínio de padrões de vida, insegurança generalizada e profundo descontentamento.
Conclusão: O processo contra o capitalismo e pelo socialismo
A crise profunda de 2008-2009 provocou um jorro de questionamentos do sistema capitalista, mesmo entre muitos dos seus mais ardentes advogados a crítica abunda (FT 1/8/12 a 1/30/12). "Reforma, regulamentação e redistribuição" eram o cardápio de colunistas financeiros. Mas a classe dominante na economia e no governo não lhe presta atenção. Os trabalhadores são controlados por líderes sindicais capachos e falta-lhe um instrumento político. Os pseudo populistas de direita abraçam uma agenda pró capitalista ainda mais virulenta, clamando pela eliminação total de programas sociais e impostos corporativos. Dentro do estado verificou-se uma grande transformação que efectivamente esmagou qualquer ligação entre capitalismo e estado previdência, entre a tomada de decisões pelo governo e o eleitorado. A democracia foi reatada por um estado corporativo, fundamentado na porta giratória entre o Tesouro e a Wall Street, a qual canaliza riqueza pública para cofres dos financeiros privados. A brecha entre o bem-estar da sociedade e as operações da arquitectura financeira é definitiva.
A actividade da Wall Street não tem utilidade social, seus praticantes enriquecem-se sem actividade que os redima. O capitalismo demonstrou conclusivamente que prospera através da degradação de dezenas de milhões de trabalhadores e rejeita as súplicas infindáveis por reforma e regulamentação. O capitalismo real existente não pode ser arreado para elevar padrões de vida ou assegurar emprego livre do medo de despedimentos em grande escala, súbitos e brutais. O capitalismo, como experimentámos ao longo da última década e no futuro previsível, está em oposição polar à igualdade social, à tomada de decisões democráticas e ao bem-estar colectivo.
Lucros capitalistas recordes são ampliados pela pilhagem do tesouro publico, negando pensões e prolongando "trabalho até que você morra", levando famílias à bancarrota com exorbitantes custos corporativos de medicina e educação.
Mais do que nunca na história recente, maiorias recordes rejeitam o domínio por e para os banqueiros e a classe dominante corporativa (FT 2/6/12, p. 6). Desigualdades entre os 1% do topo e a base dos 99% atingiram proporções recordes. Presidentes de empresas ganham 325 vezes mais do que um trabalhador médio (FT 1/9/12, p.5). Desde que o estado tornou-se um "fundamento" da economia dos predadores da Wall Street, e desde que a "reforma" e regulamentação fracassaram tristemente, é tempo de considerar uma transformação sistémica fundamental que abra caminho a uma revolução política a qual forçosamente expulsará as elites financeiras e corporativas não eleitas que dirigem o estado para os seus próprios exclusivos interesses. A totalidade do processo político, incluindo eleições, está profundamente corrompida: cada nível de gabinete tem o seu próprio preço inflacionado. A actual disputa presidencial custará US$2 a US$3 mil milhões de dólares para determinar qual dos servidores da Wall Street presidirá sobre a porta giratória.
O socialismo já não é a palavra assustadora do passado. O socialismo envolve a reorganização em grande escala da economia, a transferência de milhões de milhões dos cofres das classes predadoras de nenhuma utilidade social para o bem-estar público. Esta mudança pode financiar uma economia produtiva e inovadora baseada no trabalho e no lazer, no estudo e no desporto. O socialismo substitui o terror diário da demissão pela segurança que traz confiança, segurança e respeito ao lugar de trabalho. A democracia no lugar de trabalho está no cerne da visão de socialismo do século XXI. Começamos por nacionalizar os bancos e eliminar a Wall Street. As instituições financeiras são redesenhadas para criar emprego produtivo, servir o bem-estar social e preservar o ambiente. O socialismo começaria a transição, de uma economia capitalista dirigida por predadores e trapaceiros e um estado sob o seu comando, rumo a uma economia de propriedade pública sob controle democrático.
[*] O seu livro mais recente é The Arab Revolt and the Imperialist Counter Attack, Clarity Press, 2012, 2ª edição.
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=29388
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
Subscrever:
Mensagens (Atom)