sábado, 17 de março de 2012

Crise global: no olho do furacão



por Alejandro Nadal [*]

Dizem que o tempo é um invento para evitar que tudo aconteça no mesmo instante. A frase original é do escritor Ray Cummings e aparece no seu romance de ficção científica A garota do átomo dourado (publicado em 1929). Parece assim que hoje o tempo colapsa sobre si próprio e, efectivamente, todas as economias do planeta acusam simultaneamente os sintomas e as feridas da crise.



Isto pode parecer uma opinião demasiado pessimista. Afinal de contas a imprensa de negócios esforça-se por fazer-nos acreditar que a crise global entrou numa fase de acalmia e até de recuperação. A violência da crise na Grécia passou momentaneamente para um segundo plano com reestruturação da sua dívida, há uma semana. O euro parece que melhorou a sua posição e surgem outras "boas notícias". Nos Estados Unidos, pelo terceiro mês consecutivo, anuncia-se que foram gerados empregos e fala-se de uma "tímida recuperação".



Assim, parece que os ventos em furacão amainaram e que lá longe poderia despontar um raio de sol e o anúncio de melhores tempos. Mas não se pode enganar.



Na Grécia, o acordo reduziu em mais de cem mil milhões de euros a dívida com credores privados. Mas isso não é senão uma moratória disfarçada da reestruturação da dívida. A prova é que até uma parte dos temidos seguros de não pagamento foi activada (o montante apenas ultrapassou os 3 mil milhões de dólares, o que pode ser absorvido pelas seguradoras sem grandes problemas).



Todo este acordo foi para ganhar tempo, não para encontrar uma solução real para o problema da economia grega. No fundo, a Grécia permanece sem capacidade de enfrentar o serviço da sua dívida e as condições de política económica que lhe foram impostas (em especial pelo programa de austeridade) conduzirá necessariamente ao aprofundamento da catástrofe. O PIB já acusa uma queda de 6% em 2011 e este ano o prognóstico é muito mau. O desemprego ultrapassa 22% e entre jovens chega a 50%. Já há mais de 22 mil pessoas sem tecto em Atenas.



Todos os componentes da procura agregada da economia grega estão em queda vertical: o salário mínimo reduziu-se em 22% (e para alguns sectores a perda será de 32%). O corte da despesa pública representa outro golpe duro na procura agregada. É evidente que a meta de reduzir a dívida grega a 160% do PIB em 2020 é irrisória. O país vai arrebentar muito antes.



O ritmo de actividade económica na Europa continua a diminuir e a região está a entrar numa recessão que pode ser duradoura. O desemprego na União Europeia atinge já os 10,7% e é o mais alto em mais de 13 anos. O "motores" económicos não vão bem: o prognóstico favorável para 2012 é que a Alemanha e França cresçam 1,2 e 1,3%, respectivamente. A Itália e a Espanha mantêm-se mais ou menos estáveis, se fizermos caso dos diferenciais de financiamento da sua dívida soberana, mas essas duas economias estão claramente no umbral da uma forte recessão e isso fará que os mercados financeiros voltem a "inquietar-se". O custo financeiro da sua dívida voltará a crescer.



Nos Estados Unidos, as boas notícias sobre o desempenho do mercado de trabalho devem ser manejadas com cautela. Muitos dos empregos gerados continuam a ser de muito má qualidade. É normal, os problemas estruturais da economia estado-unidense não foram reparados e a tendência à precarização do trabalho mantém-se. Por outro lado, todos os componentes da procura agregada estão a contrair-se: o consumo, o investimento residencial e não residencial e até as exportações. E tal como na Europa, a austeridade na política fiscal não augura nada de bom.



Na China as coisas tão pouco andam bem. A anemia mundial afecta as suas exportações e isso envia uma mensagem clara à hierarquia chinesa no sentido de transformar a economia, abandonando a política de exportações selvagens. Isso implicaria aumentar o consumo interno, o que requer aumentar o nível dos salários e remunerações. Os novos líderes em Pequim não parecem inclinar-se nessa direcção e já estão a apostar na desvalorização do renminbi.



Para fechar com chave de ouro, a retórica de guerra no Médio Oriente faz com que o preço do petróleo se mantenha alto, o afectará negativamente a economia mundial. Israel continua a insistir em que não permitirá ao Irão dotar-se de armas nucleares. Isso pode ser parte de uma campanha de distracção sobre o problema palestino, mas é algo que incide sobre as expectativas e a evolução do preço internacional do petróleo bruto.



No cronómetro da crise, o tempo deforma-se reconcentra-se num ponto: a crise é um monstro que respira e retomar as suas forças. A lei da mercadoria, tão certeiramente definida por Marx, levou a lógica do capital até os rincões mais afastados do planeta. Para esta longa viagem, na sua equipagem o capital levou também as suas contradições e a propensão à crise. É o pulso das economias capitalistas.



[*] Economista, mexicano, http://nadal.com.mx



O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2012/03/14/opinion/028a1eco



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 15 de março de 2012

Leão Trotski

Leão Trotski


1879-1940





Inicialmente próximo dos mencheviques e em seguida bolchevique. Como Comissário de Guerra dirigiu o Exército Vermelho à vitória na guerra civil russa e sobre a invasão imperialista da Russa Soviética. Ajudou a criar e dirigiu a Oposição de Esquerda a Stalin. Desenvolveu a teoria da Revolução Permanente e fundou a 4ª Internacional.



Atualmente estão disponíveis em Português as seguintes obras:



1907 A Revolução de 1905 (prefácio à edição russa)

1911 - Nov Por que os Marxistas se Opõem ao Terrorismo Individual

1916 - Mar Saudações a Franz Mehring e Rosa Luxemburgo

1921 Na Escala da História Universal

1922 - Mai Saber Militar e Marxismo

1922 - Set O Futurismo

1923 Questões do Modo de Vida

1924 - Abr Lenine

1924 - Set As Lições de Outubro

1925 - Dez A Proteção das Mães e a Luta Pela Elevação do Nível Cultural

1928 - Dez O Marxismo e a Relação entre Revolução Proletária e Revolução Camponesa

1929 - Fev O Triunfo de Estaline [Texto em Galego]

1929 - Mai A Revolução Desfigurada [Texto em Galego]

1929 - Jun Mais uma vez sobre Brandler e Thalheimer [Texto em Galego]

1929 - Nov A Revolução Permanente

1929 Retorno ao Partido?

1930 O Suicídio de Maiakovsky

1930 - Jan O “Terceiro Período” dos Erros da Internacional Comunista

1930 - Abr A Palavra de Ordem da Assembléia Nacional na China

1930 - Mai O Que É o Centrismo

1930 - Mai Tarefas e Perigos da Revolução na Índia

1930 - Set O Perigo Fascista Paira Sobre a Alemanha

1930 História da Revolução Russa

1931 O Que é Uma Situação Revolucionária

1931 - Mar A Questão da Unidade Sindical [Texto em Galego]

1931 - Nov Está na Alemanha a Chave da Situação Mundial

1931 - Nov O Ultimatismo Burocrático

1932 - Nov O Que Foi a Revolução de Outubro

1934 - Out Aonde Vai a França?

1935 As Frações e a Quarta Internacional

1935 - Abr O Problema Nacional e as Tarefas do Partido Proletário

1936 - Jan A Traição do "Partido Operário de Unificação Marxista" Espanhol

1936 - Mar A França na Encruzilhada

1936 - Jul Os Estados Unidos Após a Crise de 1929

1936 Revolução Traída - Capitulo 5

1936 Moral e Revolução

1936 Menchevismo e Bolchevismo na Espanha

1937 Estalinismo e Bolchevismo

1937 - Out 90 Anos do Manifesto Comunista

1937 - Nov Uma Vez Mais: A União Soviética e Sua Defesa

1937 - Nov Um Estado Não Operário e Não Burguês

1938 Carta à Juventude

1938 Discurso Gravado para Conferência de Fundação da IV Internacional

1938 - Set O Programa de Transição

1938 - Set Entrevista de Leon Trotsky a Mateo Fossa

1939 - Abr A Questom Ucraniana [Texto em Galego]

1939 - Abr O Marxismo em Nosso Tempo

1939 - Jun Moralistas e Sicofantas Contra o Marxismo

1939 - Jul Carta aos Trabalhadores da Índia

1939 - Set Carta a James P. Cannon

1939 - Set A URSS na Guerra

1939 - Out Carta a Sherman Stanley (08/10/1939)

1939 - Out Novamente e uma Vez Mais, Sobre a Natureza da URSS

1939 - Out O Referedum e o Centralismo Democrático

1939 - Out Carta a Sherman Stanley (22/10/1939)

1939 - Out Carta a James P. Cannon (28/10/1939)

1939 - Nov Carta a Max Shachtman

1939 - Dez Carta a James P. Cannon

1939 - Dez Uma Oposição Pequeno-Burguesa no Socialist Workers Party

1939 - Dez Carta a John G. Wright

1939 - Dez Carta a Max Shachtman

1939 - Dez Carta à Maioria do Comitê Nacional (primeira carta)

1939 - Dez Carta à Maioria do Comitê Nacional (segunda carta)

1940 - Jan Carta à Maioria do Comitê Nacional (terceira carta)

1940 - Jan Carta à Maioria do Comitê Nacional (quarta carta)

1940 - Jan Carta a Joseph Hansen

1940 - Jan Carta Aberta ao Camarada Burnham

1940 - Jan Carta a James P. Cannon

1940 - Jan Carta a Farrell Dobs

1940 - Jan Carta a John G. Wright

1940 - Jan Carta a James P. Cannon

1940 - Jan Carta a William F. Warde

1940 - Jan Carta a Joseph Hansen

1940 - Jan De um Arranhão, ao Perigo de Gangrena

1940 - Jan Carta a Martin Abern

1940 - Fev Carta a Albert Goldman - 10/02/1940

1940 - Fev Carta a Albert Goldman - 19/02/1940

1940 - Fev De Volta ao Partido!

1940 - Fev Ciência e Estilo

1940 - Fev Carta a James P. Cannon

1940 - Fev Testamento

1940 - Fev Carta a Joseph Hansen

1940 - Mar Carta a Farrell Dobbs - 04/03/1940

1940 - Abr Carta a Farrell Dobbs - 04/04/1940

1940 - Abr Carta a Farrell Dobbs - 16/04/1940

1940 - Abr Os Moralistas Pequeno-Burgueses e o Partido Proletário

1940 - Abr Balanço dos Acontecimentos Filandeses

1940 - Mai Carta a James P. Cannon

1940 - Mai Manifesto da IV Internacional Sobre a Guerra Imperialista e a Revolução Proletária Mundial

1940 - Jun Carta a Abert Goldman

1940 - Ago Sobre o Partido "Operário"

1940 - Ago Carta a Albert Goldman

1940 - Ago Carta a Chris Andrews

1940 - Ago Classe - Partido – Direção

1940 O Homem Não Vive Só de Política

1940 Os Sindicatos na Época da Decadência Imperialista



in Arquivo Marxista (Marxists internet Archive) secção portuguesa

segunda-feira, 12 de março de 2012

Lições do Sul para uma Europa em crise?



– Retomar a ofensiva, sair da zona euro, romper com a armadilha neoliberal


por Rémy Herrera [*]

A extrema gravidade da crise que atinge actualmente a Europa, em particular a zona euro por via das dívidas ditas "soberanas", da Grécia à Itália entre outras, leva a colocar a questão: os povos europeus não terão lições a retirar das experiências pelas quais certos países do Sul estão a passar e das estratégias anti-crise que aí foram adoptadas? Porque o que é facto é que, até ao momento, têm sido as receitas do Norte, que se supõe serem universalmente válidas, as que foram na generalidade administradas às economias do Sul – ainda que estas receitas não lhes tenham sido muito convenientes, salvo raras excepções. Mas os tempos mudaram…



A Europa em crise



As soluções neoliberais de austeridade generalizada e de destruição dos serviços públicos hoje propostas (ou melhor dizendo, impostas) para tentar salvar o capitalismo em crise e relançar o crescimento são absurdas; elas constituem a forma mais segura de agravar ainda mais esta crise e de precipitar mais rapidamente o sistema no abismo. E isto ao mesmo tempo que favorecem, por todo o lado, a subida em força das extremas-direitas, racistas, demagógicas e sempre cúmplices da ordem estabelecida.



Neste contexto, a crise que a zona euro atravessa actualmente deve ser entendida como em íntima ligação com as próprias bases do processo da construção europeia. Acreditou-se ser possível criar uma moeda única sem Estado, mesmo o de uma Europa política que na verdade não existe. Havia aqui um erro de base nesta Europa que pretendia fazer convergir à força economias extremamente diferentes sem o reforço de instituições políticas à escala regional nem a promoção de uma harmonização social nivelando por cima. É assim que, de forma lógica, esta "má Europa", voltada contra os povos, anti-social e anti-democrática, é cada vez mais abertamente rejeitada.



Continuar a acreditar num novo "compromisso keynesiano" constituiria, entretanto, alimentar ilusões. O anterior, formulado após a Segunda Guerra mundial, não foi concedido pelos grandes capitalistas, foi alcançado pelas lutas populares, múltiplas e convergentes. Hoje a alta finança, que retomou o poder, não está disposta a nenhuma concessão. O keynesianismo – que poderia de facto desejar-se – não possui nem realidade nem futuro. Doravante, são os oligopólios financeiros quem domina e quem dita a sua lei aos Estados, para fixar as taxas de juro, a criação de moeda ou, quando tal é necessário, para nacionalizar.



Ruptura?



Perante a crise sistémica e os perigos que ela comporta – incluindo o de ver chegar ao poder extremistas de direita – é tempo de as forças progressistas na Europa retomarem a ofensiva, formulando de novo propostas alternativas para uma esquerda radical e internacionalista, orientadas no sentido da reconstrução de projectos sociais e de solidariedades voltadas para o Sul em luta.



Entre os debates urgentes a iniciar figura o da saída da zona euro, nomeadamente para a Europa do Sul, sob certas condições e segundo diferentes modalidades. É evidente que uma tal decisão seria difícil de assumir pelos pequenos países como a Grécia. Constituiria uma falsidade afirmar que desta opção de ruptura não resultariam dificuldades. Mas constituiria igualmente uma falsidade afirmar-se que uma tal via conduziria à catástrofe.



E isto por três razões pelo menos. Em primeiro lugar, há importantes economias europeias que não estão na zona euro, como o Reino Unido. Depois, há países que foram violentamente atingidos pela crise e que estão em vias de recuperar, fora da zona euro, nomeadamente a Islândia. Por fim, e fora do continente europeu, há países do Sul que ousaram a decisão de romper com as regras do sistema monetário internacional actual sem que de tal decisão decorresse qualquer situação de caos. Muito pelo contrário, tem sido precisamente essa via de ruptura – temporária – com os dogmas neoliberais que lhes tem permitido autonomizar-se e recuperar.



Que lições retirar do Sul?



Numerosas experiências recentes a Sul mostraram que a reconquista de elementos de soberania nacional – monetária, entre outras – e o voluntarismo político perante os diktat dos mercados financeiros abriram margens de manobra que permitiram a esses países sair de situações económicas dramáticas provocadas em larga medida pelo próprio funcionamento – injusto e inaceitável – do sistema capitalista mundial. Pensamos aqui, por exemplo, no processo de "desdolarização" em Cuba; ou no distanciamento da Venezuela em relação ao Fundo Monetário Internacional; ou ainda na criação do Banco do Sul (Bancosur), envolvendo países da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) como a Bolívia e outros, incluindo o Brasil. Mas pode igualmente citar-se o caso de um país com um governo menos radical como a Argentina, que em finais de 2001 declarou a suspensão de pagamentos e que retomou com bastante rapidez o crescimento, sem que tenha ficado isolado em relação as ligações internacionais.



Suspensão de pagamentos, desvalorização da moeda e plano de reconversão da dívida foram as medidas que salvaram a Argentina do desastre neoliberal. Não há dúvida que uma saída do euro seria mais difícil para um país como a Grécia, que possui uma base produtiva e exportadora muito mais fraca do que a da Argentina (que assenta sobre a agro-indústria e a energia); mas certamente que daí não resultaria o "fim do mundo" para o seu povo, como insistem em anunciar os media dominantes. Uma tal decisão é difícil de tomar, tendo em conta as contas públicas deficitárias e o risco de fuga de capitais; mas ela parece doravante necessária como forma de saída da armadilha neoliberal – e isto antes que a Alemanha decida ela própria a exclusão desse país!



Pensemos igualmente no Equador, cujo governo realizou uma auditoria à sua dívida externa, anulou as dívidas "odiosas" (ou seja, ilegais e/ou ilegítimas), utilizou a suspensão dos reembolsos para reduzir o peso da dívida pública e libertou dessa forma recursos para as políticas sociais e para as infraestruturas. Em todas estas experiências, em que não se verificou qualquer catástrofe, a reapropriação por parte do Estado do seu poder de decisão política sobre a economia permitiu a cada país libertar-se do atoleiro em que estava mergulhado. Como foi o caso da Malásia, depois da crise asiática de 1998, quando o governo (que não era "de esquerda") colocou limites às imposições do FMI e conduziu a política anti-crise que lhe pareceu mais conveniente.



E porque não, então, na Europa? É certo que as situações diferem de continente para continente, mas as alternativas existem, sob a forma de transições pós-capitalistas, democráticas e sociais, solidárias com o Sul. O que é necessário não é a elaboração de soluções miraculosas ou prontas-a-usar, mas o reabrir dos espaços de debate à esquerda. É portanto mais do que tempo de falar, finalmente, sem tabus nem complexos, de soluções anti-crise colocadas ao serviço dos povos europeus: saída controlada da zona euro, desvalorização monetária (ou de uma eventual nova moeda comum), restabelecimento do controlo das variações dos fluxos financeiros, redefinição do papel político dos bancos centrais, nacionalização do sistema bancário e de certos sectores estratégicos da economia, anulação parcial das dívidas públicas, redistribuição acrescida da riqueza, reconstrução dos serviços públicos, desenvolvimento da participação popular, mas também o relançamento de uma regionalização europeia progressista e aberta ao Sul… Porque, na verdade, são os povos que são soberanos, não as dívidas.





29/Fevereiro/2012

[*] Economista, Investigador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)



Do mesmo autor:



Cuba e o projecto comunista

A propósito dos motins nos subúrbios franceses

Crise financeira ou... de superprodução?

As ideias feitas e a verdade escondida sobre Cuba

Depois do não francês

Os Fórums de Mumbai 2004: Que lições tirar?



O original encontra-se em http://www.granma.co.cu/2011/12/02/interna/artic01.html ,

a versão em português foi extraída de http://www.odiario.info/?p=2397



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 9 de março de 2012

Lembrando Howard Zinn

Noam Chomsky

04.Mar.12 ::
“As notáveis vida e obra de Howard Zinn resumem-se melhor nas suas próprias palavras. Ele explicava que a sua preocupação fundamental eram “as inúmeras pequenas acções de pessoas desconhecidas” que estão na origem de “grandes momentos” que a história regista.”







Cambridge, Mass. - Não é fácil para mim escrever sobre Howard Zinn, o activista e grande historiador dos E.U.A.. Foi um amigo muito próximo ao longo de 45 anos. As nossas famílias eram também muito chegadas. A sua esposa Roz, que morreu de cancro pouco tempo antes, era uma pessoa maravilhosa e uma grande amiga. É também triste dar conta de que toda uma geração parece estar a desaparecer, incluindo vários velhos amigos: Edward Said, Eqbal Ahmed e outros que não eram apenas perspicazes e produtivos eruditos, mas também militantes dedicados e corajosos, sempre disponíveis quando eram necessários, o que era uma constante. Uma combinação que é essencial quando se espera uma sobrevivência decente.

As notáveis vida e obra de Howard resumem-se melhor nas suas próprias palavras. Ele explicava que a sua preocupação fundamental eram “as inúmeras pequenas acções de pessoas desconhecidas” que estão na origem de “grandes momentos” que integram o registo histórico, um registo que será profundamente enganoso e carecerá de poder se separado destas raízes quando passa através dos filtros da doutrina e do dogma. A sua vida sempre esteve intimamente entrelaçada com os seus inúmeros escritos, discursos e entrevistas. Entregava-se desinteressadamente a outorgar poder às pessoas desconhecidas que provocaram grandes momentos. Isto era verdade quando era operário industrial e activista, e desde os dias, há 50 anos, em que era professor no Spelman College em Atlanta, Geórgia, uma faculdade negra que em grande parte estava aberta para a pequena elite branca.

Quando ensinava em Spelman, Howard apoiou os estudantes que estavam na vanguarda do movimento pelos direitos civis nos primeiros e mais perigosos dias, muitos dos quais chegaram a ser conhecidos anos mais tarde (Alice Walker, Julian Bond e outros) e que o amavam e veneravam, como acontecia com qualquer pessoa que o conhecesse bem. E, como sempre, não se limitou a apoiá-los, o que já era bastante raro, mas também se envolveu directamente com eles nas campanhas mais arriscadas, que não eram fáceis de empreender naquela época, antes que houvesse algum movimento popular organizado e perante a hostilidade do governo durante vários anos. Finalmente, o apoio popular inflamou-se, em grande parte graças às acções corajosas de jovens que se sentavam aos balcões onde se serviam os alimentos, dirigiam autocarros da liberdade, organizavam manifestações, enfrentavam o racismo amargo e a brutalidade, e às vezes a morte. **

Nos inícios da década de 1960 estava a tomar forma um movimento de massas com Martin Luther King num papel de liderança, e o governo teve de responder. Como recompensa pela sua coragem e honestidade, Howard foi imediatamente expulso da faculdade onde ensinava. Alguns anos mais tarde, escreveu regularmente no Comité de Coordenação dos Estudantes não Violentos, SNCC (sigla em Inglês), a principal organização daquelas ” “pessoas desconhecidas” ” cujas “inúmeras pequenas acções” desempenharam um papel tão importante na criação da corrente de opinião que permitiu a Martin Luther King ganhar uma influência significativa (como tenho certeza que ele teria sido o primeiro a dizer) e levar o país a cumprir com as emendas constitucionais de um século antes, que teoricamente concediam direitos civis básicos aos ex-escravos; pelo menos fazê-lo parcialmente, porque é desnecessário enfatizar que ainda há muito a fazer.

Uma influência civilizadora

A nível pessoal passei a conhecer bem Howard quando fomos juntos a uma manifestação pelos direitos civis em Jackson, Mississippi (acho eu) em 1964, a qual, mesmo numa data já tão tardia, foi cena de confronto público violento, brutalidade policial e indiferença, ou inclusive de cooperação com as forças de segurança por parte das autoridades federais, às vezes de um modo um pouco chocante.

Depois de ser expulso do college em Atlanta onde ensinava Howard veio para Boston e passou o resto de sua carreira académica na Universidade de Boston, onde foi, tenho a certeza, o membro do campus universitário mais admirado e amado, e também alvo de acerbo antagonismo e crueldade mesquinha por parte da administração. No entanto nos últimos anos, após a sua reforma, grangeou a honra e o respeito públicos, que sempre tinham sido esmagadores entre os estudantes, funcionários da universidade, grande parte do corpo docente e da comunidade em geral. Enquanto aí esteve, Howard escreveu os livros que lhe deram uma bem merecida fama. O seu livro “Logic of Withdrawal, ” de 1967, foi o primeiro a expressar, clara e firmemente, o que muitos apenas começavam a perceber: que os E.U.A. não tinham qualquer direito a pedir um acordo negociado no Vietname, acordo que teria deixado Washington com o poder e controlo substancial do país que havia invadido e, em seguida, em grande parte destruído.

Em vez disso os EUA tiveram que fazer o que todo o agressor deveria fazer, retirar e permitir que a população, em certa medida, pudesse reconstruir a partir das ruínas e, se possível, proceder com um mínimo de honestidade ao pagamento de reparações maciças pelos crimes que tinham cometido os exércitos invasores, neste caso vastos crimes. O livro teve uma enorme influência entre o público, ainda que os meios cultos de hoje dificilmente possam compreender a sua mensagem, o que mostra o trabalho tão necessário que temos adiante de nós.

É muito significativo que entre o público do tempo de final da guerra 70% considerasse a guerra “fundamentalmente errada e imoral” e não “um erro”, o que constitui um índice notável, considerando o facto de que esse pensamento apenas podia insinuar-se no meio da opinião dominante. Os escritos de Howard (e, como sempre, a sua destacada presença nos protestos e na resistência directa) foram um factor fundamental na educação de grande parte do país.

Nesses mesmos anos Howard tornou-se também um dos principais apoiantes do movimento de resistência que se estava a desenvolver. Estava entre os primeiros signatários da Apelo para Resistir à Autoridade Ilegítima (Call to Resist Illegitimate Authority) e estava muito próximo das actividades da organização Resistir, de que foi praticamente um dos organizadores. Participou também nas acções que tiveram um impacto significativo para promover o protesto contra a guerra. Howard estava sempre lá, onde era preciso (palestras, participação em desobediência civil, apoio a pessoas resistentes, prestar testemunhos em julgamentos).

“A história desde baixo”

Ainda mais influente no longo prazo do que os escritos e acções de Howard contra a guerra foi a sua obra-prima imortal, ” “ A outra história dos Estados Unidos”, ” um livro que literalmente mudou a consciência de uma geração. Nele desenvolveu com cuidado, lucidez e de forma exaustiva a sua mensagem sobre o papel crucial das pessoas que permanecem desconhecidos na prossecução da luta incessante pela paz e justiça, e sobre as vítimas do sistema de poder que cria a sua própria versão da história e tenta impô-la. Posteriormente, as suas “Vozes” da História do Povo, agora uma aclamada produção teatral e de televisão, levaram a muitas pessoas as palavras reais daqueles esquecidos ou ignorados que desempenharam um papel tão valioso na criação de um mundo melhor.

O feito único de Howard, sacando as acções e as vozes de pessoas desconhecidas das profundezas para onde tinham sido confinadas, gerou uma enorme pesquisa histórica que segue um caminho semelhante, centrada em períodos críticos da história americana, e se volta também para outros países, o que é muito bem-vindo. Não é algo totalmente novo (anteriormente houve pesquisa académica sobre temas eruditos), mas nada comparáveis à evocação, ampla e incisiva, que Howard faz da “história vista de baixo”, que compensa as omissões críticas em como tem sido interpretada e transmitida a história dos EUA.

O dedicado activismo de Howard prosseguiu literalmente sem parar até o fim, mesmo nos seus últimos anos, quando sofreu uma doença grave e uma perda pessoal (embora mal se soubesse, quando alguém se encontrava com ele ou era visto conversando incansavelmente com o público em todo o país). Onde havia uma luta pela paz e pela justiça, lá estava Howard, na frente, inesgotável com o seu entusiasmo e inspirador na sua integridade, compromisso, eloquência e decência pura. É difícil estimar quantas e até que ponto foram influenciadas vidas de jovens pelas suas realizações, tanto no seu trabalho como na sua vida.

Há lugares onde a vida e a obra de Howard tiveram uma ressonância especial. Um deles, que deveria ser muito melhor conhecido, é a Turquia. Não conheço outro país em que escritores proeminentes, artistas, jornalistas, académicos e outros intelectuais tenham reunido um registo tão impressionante de coragem e integridade para condenar crimes de Estado e de ir mais além para empreender a desobediência civil para acabar com a opressão e a violência, enfrentando uma forte repressão e por vezes sofrendo-a, para retomar imediatamente a sua tarefa.

É um registo honroso, único que eu saiba, um registo do qual o país deveria estar orgulhoso. E que deve ser um modelo para os outros, assim como a vida e a obra de Howard Zinn é um modelo inesquecível, que certamente deixa uma marca permanente na forma de entender a história e como se deveria viver uma vida decente e honrada.

* States , traduzido para o castelhano por Toni Strubel, História do Povo dos Estados Unidos, Hondarribia, Hiru, 2005, revista e corrigida pelo autor.

**Howard Zinn fala destes anos e essas lutas no seu livro” “Ninguém é neutro num comboio em movimento” “, Hondarribia, Hiru, 2001

“Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. Já escreveu vários livros políticos de grande sucesso, incluindo ”9-11: estava lá uma alternativa?” (Seven Stories Press), uma versão actualizada deste clássico, que só foi lançado esta semana com um novo ensaio (do qual este artigo foi adaptado) para comemorar o décimo aniversário dos ataques de 11 de Setembro.

Uma versão deste artigo foi publicada originalmente em TomDispatch.com. ”

Fonte: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/01/201212382259755885.html



Traduzido do Inglês para Rebelión por Beatriz Morales Bastos

Tradução do espanhol: Guilherme Coelho












segunda-feira, 5 de março de 2012

Princípios Elementares de Filosofia

Pelo Socialismo


Questões político-ideológicas com atualidade

http://www.pelosocialismo.net

_____________________________________

Obra editada pela “Prelo Editora, SARL”, em janeiro de 1975 (4.ª Edição)

Colocado em linha em: 2012/03/03

Princípios Elementares de Filosofia

Georges Politzer


[Esta importante obra publica-se por capítulos, semanalmente, iniciando-se com a

publicação do Índice das Matérias, Prefácio e Advertência dos editores franceses.]

Quarta parte – estudo da dialética

Capítulo IV e Capítulo V

CAPÍTULO IV – TERCEIRA LEI: A CONTRADIÇÃO

I. — A vida e a morte.

II. — As coisas transformam-se na sua contrária.

III. — Afirmação, negação e negação da negação.

IV. — Recapitulemos.

V. — A unidade das contrárias.

VI. — Erros a evitar.

VII. — Consequências práticas da dialéctica.

Vimos que a dialéctica considera as coisas como estando em perpétua mudança,

evoluindo continuamente, numa palavra, sofrendo um movimento dialéctico (1.ª lei).

Este movimento é possível, porque toda e qualquer coisa não é mais do que o

resultado, no momento em que a estudamos, de um encadeamento de processos, isto

é, de fases que saem umas das outras. E, levando o nosso estudo mais adiante, vimos

que esse encadeamento se desenvolve necessariamente no tempo num movimento

progressivo, «apesar dos retrocessos momentâneos».

Chamámos a esse desenvolvimento um «desenvolvimento histórico» ou «em espiral»,

e sabemos que se gera a si mesmo, por autodinamismo.

2

Mas, quais são, agora, as leis do autodinamismo? Quais as que permitem às fases sair

umas das outras? Chamam-se as «leis do movimento dialéctico».

A dialéctica ensina-nos que as coisas não são eternas: têm um começo, uma

maturidade, uma velhice, que termina num fim, a morte.

Todas as coisas passam por essas fases: nascimento, maturidade, velhice, fim. Por

que acontece assim? Por que não são as coisas eternas?

Eis uma velha pergunta que sempre apaixonou a humanidade. Por que é preciso

morrer? Não se compreende esta necessidade, e os homens, no decurso da história,

sonharam com a vida eterna, com os meios de mudar tal estado de coisas, na idade

média, por exemplo, inventando bebidas mágicas (elixires de juventude ou da vida).

Por que é que o que nasce é, portanto, obrigado a morrer? Eis uma grande lei da

dialéctica, que deveremos confrontar, para bem a compreender, com a metafísica.

I. — A vida e a morte.

Do ponto de vista metafísico, consideram-se as coisas de um modo isolado, tomadas

em si mesmas, e, porque a metafísica as estuda assim, considera-as de uma maneira

unilateral, isto é, de um só lado. É por isso que se pode dizer, dos que as vêem de um

só lado, que são metafísicos. Em poucas palavras, quando um metafísico examina o

fenómeno a que se chama vida, fá-lo sem o relacionar a qualquer outro. Vê a vida, por

si e em si, de uma maneira unilateral. Vê-a de um só lado. Se examinar a morte, fará a

mesma coisa; aplicará o seu ponto de vista unilateral, e concluirá dizendo: a vida é a

vida, a morte é a morte. Entre ambas, nada de comum; não se pode estar ao mesmo

tempo vivo e morto, porque são duas coisas opostas, inteiramente contrárias uma à

outra.

Ver assim as coisas, é fazê-lo de uma maneira superficial. Se as examinarmos um

pouco mais de perto, veremos, primeiro, que não as podemos opor uma à outra, não

podemos mesmo separá-las tão brutalmente, uma vez que a experiência e a realidade

nos mostram que a morte continua a vida, que a morte vem do vivo.

E a vida, pode sair da morte? Sim. Porque os elementos do corpo morto vão

transformar-se para dar origem a outras vidas e servir de adubo à terra, que será mais

fértil, por exemplo. A morte, em muitos casos, auxiliará a vida, permitirá a esta

nascer; e, nos próprios corpos vivos, a vida só é possível porque há uma contínua

substituição das células que morrem por outras que nascem1.

1 «Enquanto consideramos as coisas como em repouso e sem vida, cada uma por si, uma ao lado e após

a outra, não nos apercebemos, certamente, de qualquer contradição entre elas. Encontramos certas

propriedades que são, em parte, comuns, em parte, diversas, até contraditórias, mas que, neste caso,

são repartidas por coisas diferentes, não contendo, portanto, contradição em si mesmas. Nos limites

deste domínio de observação, ficamo-nos pelo modo de pensar corrente, o metafísico. Mas

procederemos de maneira diferente, se considerarmos as coisas nos seus movimento, mudança, vida,

acção recíproca uma sobre a outra. Aí, caímos imediatamente nas contradições.» (Friedrich ENGELS:

«Anti-Duhring», p. 52).

3

Portanto, a vida e a morte transformam-se continuamente uma na outra, e, em todas

as coisas, constatamos a constância desta grande lei: por toda a parte, as coisas

transformam-se na sua contrária.

II. — As coisas transformam-se na sua contrária.

Os metafísicos opõem as contrárias, mas, a realidade demonstra-nos que estas se

transformam uma na outra, que as coisas não permanecem elas próprias, se

transformam nas suas contrárias.

Se examinarmos a verdade e o erro, pensamos: não há nada de comum entre eles. A

verdade é a verdade, um erro é um erro. Este o ponto de vista unilateral, que opõe

brutalmente as duas contrárias, como se oporia a vida e a morte.

E, todavia, se dizemos: «Olha, chove!», acontece que, por vezes, ainda não acabámos

de o dizer e já não chove. Essa frase era exacta, quando a começámos, e transformouse

em erro. (Os Gregos já tinham constatado isso, e diziam que, para não errar, era

preciso não dizer nada!)

Do mesmo modo, retomemos o exemplo da maçã. Vê-se na terra uma maçã madura,

e diz-se: «Eis uma maçã madura». Contudo, estando na terra há um certo tempo, já

começa a decompor-se, de tal forma que a verdade se transforma em erro.

Também as ciências nos dão numerosos exemplos de leis consideradas, durante

muitos anos, como «verdades», que se revelaram, num dado momento, após os

progressos científicos, como «erros».

Vemos, portanto, que a verdade se transforma em erro. Mas, será que o erro se

transforma em verdade? No início da civilização, os homens imaginavam, sobretudo

no Egipto, combates entre os deuses, para explicar o nascer e o pôr do sol; era um

erro, na medida em que se dizia que os deuses empurravam ou puxavam o sol, para o

fazer mover. Mas, a ciência dá parcialmente razão a esse raciocínio, dizendo que há,

efectivamente, forças (puramente físicas, aliás) que fazem mover o sol. Veremos, pois,

que o erro não está nitidamente oposto à verdade.

Se, portanto, as coisas se transformam na sua contrária, como é isso possível? Como

se transforma a vida na morte?

Se houvesse apenas vida, a vida cem por cento, ela nunca poderia ser a morte, e se a

morte fosse totalmente ela própria, a morte cem por cento, seria impossível que uma

se transformasse na outra. Mas, já existe morte na vida e, por conseguinte, vida na

morte.

Observando de perto, veremos que um ser vivo é composto de células, que estas se

renovam, desaparecem e reaparecem no mesmo lugar. Vivem e morrem

continuamente num ser vivo, onde existe, portanto, vida e morte.

Sabemos, também, que a barba de um morto continua a crescer. O mesmo acontece

com as unhas e os cabelos. Eis fenómenos nitidamente caracterizados, que provam

que a vida continua na morte.

4

Na União Soviética, conserva-se, em condições especiais, sangue de cadáveres, que

serve para fazer transfusões: assim, com o sangue de um morto, refaz-se um vivo.

Podemos dizer que, por conseguinte, no seio da morte há a vida.

«A vida é, pois, igualmente uma contradição “existente nas coisas e nos fenómenos

em si”, uma contradição que, constantemente, se apresenta e resolve; logo que a

contradição cessa, a vida cessa também, intervém a morte»2.

Assim, as coisas não só se transformam umas nas outras, mas, ainda, uma coisa não é

apenas ela própria, mas outra que é a sua contrária, porque cada coisa contém a sua

contrária.

Toda a coisa é, ao mesmo tempo, ela própria e a sua contrária.

Se se representa uma coisa por um círculo, teremos uma força que a impelirá para a

vida, empurrando do centro para o exterior, por exemplo (expansão); mas teremos,

também, forças que a impelirão numa direcção oposta, forças de morte, empurrando

do exterior para o centro (compressão).

Assim, no interior de cada coisa, coexistem forças opostas, antagonismos.

Que se passa entre essas forças? Lutam. Por conseguinte, uma coisa não é apenas

movida por uma força agindo num só sentido, mas toda a coisa é, realmente, movida

por duas forças de direcções opostas. Para a afirmação e para a negação das coisas,

para a vida e para a morte. Que significa: afirmação e negação das coisas?

Existem, na vida, forças que a mantêm, que tendem para a sua afirmação. Além

dessas, também existem nos organismos outras que tendem para a negação. Em

todas as coisas, há forças que tendem para a afirmação e outras para a negação, e,

entre a afirmação e a negação, há contradição.

Portanto, a dialéctica constata a mudança; mas, por que mudam as coisas? Porque

não estão de acordo consigo próprias, porque há luta entre as forças, entre os

antagonismos internos, porque há contradição. Eis a terceira lei da dialéctica: As

coisas mudam, porque contêm em si mesmas a contradição.

(Se somos obrigados, por vezes, a empregar palavras mais ou menos complicadas

(como dialéctica, autodinamismo, etc.) ou termos que parecem contrários à lógica

tradicional e difíceis de compreender, não é pelo prazer de complicar às coisas, e,

nisso, imitar a burguesia3. Não. Mas, este estudo, embora elementar, pretende ser tão

completo quanto possível e permitir ler, em seguida, mais facilmente, as obras

filosóficas de Marx-Engels e Lenine, que empregam esses termos. Em todo o caso,

uma vez que devemos empregar uma linguagem que não é usual, procuraremos, no

âmbito deste estudo, torná-la compreensível a todos.)

III. — Afirmação, negação e negação da negação.

2 Friedrich ENGELS: «Anti-Duhring», p. 153.

3 Ver o artigo de René MAUBLANC em “A Vida operária”, de 14de outubro de 1937.

5

É

sexta-feira, 2 de março de 2012

"Inteligência tática de captação de informações" nos media sociais

Espionagem e propaganda utilizando o Facebook e o Twitter

por Julie Lévesque

Um novo estudo feito pelo Conselho Mediterrâneo de Estudos de Inteligência (MCIS) no Almanaque de Estudos de Inteligência de 2012 atenta para o uso dos medias sociais como "a inovação em inteligência tática de captação aberta de informações". Joseph Fitsanakis da IntelNews.org, co-autor do estudo, declara:



Sustentamos que o Facebook, o Twitter, o YouTube e uma série de outras plataformas de redes sociais são cada vez mais consultadas por agências de inteligência como inestimáveis canais de aquisição de informações. Baseamos nossos resultados em três estudos de caso recentes, os quais, acreditamos, destacam a função da inteligência em relação às redes sociais. (Joseph Fitsanakis, Pesquisa: Cada vez mais espiões usam Facebook e Twitter para coleta de informações, intelNews.org), 13 de fevereiro de 2012. [1]



Porém, o que o estudo não menciona é o uso dos medias sociais feito por agências de inteligência para outros fins. A investigação nos leva a acreditar que os media sociais são somente um instrumento de captação de informações da inteligência, quando na verdade, um número de declarações mostrou que é utilizada para promover propaganda, inclusive para criar perfis falsos para dar suporte a operações secretas. Estas práticas são discutidas no Exército de Fakes de Mídia Social para Promover Propaganda, Mídia Social: Força Aérea Encomenda Software para Monitorar Exército de Fakes Virtuais e Pentágono Busca Manipular Mídia Social para Fins de Propaganda [2] , publicados no Global Research em 2011.



O estudo do MCIS se baseia parcialmente no contexto da "Primavera Árabe", o qual supostamente instigou o governo americano a desenvolver diretrizes para inteligência de coleta de informações a partir de redes sociais" [3] .



Novamente, não se considera que o governo americano oferece "treinamento de liderança" para estrangeiros desestabilizarem seus países de origem. Esta tática está descrita em detalhes no último artigo de Tony Cartalucci, Egito: Ativistas Financiados pelos Estados Unidos sob Julgamento: "Promoção de Democracia" Americana = Sedição Internacional [4] .



A "cyber dissidência" é financiada, dentre outros, pela Freedom House, vinculada à CIA. O primeiro dos eventos da Human Freedom do Instituto Bush, co-financiado pela Freedom House, foi intitulado "Conferência sobre Cyber Dissidentes: Resultados e Desafios Globais".



A conferência sobre cyber dissidentes destacou o trabalho, métodos, coragem e conquistas dos oito palestrantes dissidentes convidados, de sete países. Cinco desses países são regiões onde a liberdade foi extinta (todos avaliados como "não livres" pela Freedom House: China, Cuba, Irã, Síria e Rússia). Os outros dois países são regiões onde a liberdade está em perigo (ambos avaliados como "parcialmente livres" pela Freedom House) por causa de um governo autoritário que acumula mais poder, como na Venezuela, ou por causa da ameaça de grupos terroristas internos, como na Colômbia. (Conferência sobre Cyber Dissidentes: Resultados e Desafios Globais, Centro Presidencial George W. Bush) [5]



Países onde a "liberdade foi extinta" e que são aliados americanos, tais como Barém ou Arábia Saudita, não são listados acima. O único aliado americano listado é a Colômbia e considera-se que sua liberdade está ameaçada por grupos terroristas, e não por seu governo. Vale dizer que o governo colombiano foi acusado de espionar seus jornalistas e que a Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos (IACHR) declara que a liberdade de expressão 'quase não existe' na Colômbia.



O objetivo do "treinamento de liderança" feito por ONGs americanas é o de desestabilizar os inimigos políticos da América em nome da liberdade. A "cyber dissidência" é, por sua vez, utilizada por agências de inteligência para operações secretas.



Notas

[1] Joseph Fitsanakis, Research: Spies increasingly using Facebook, Twitter to gather data , intelNews.org, 13/fevereiro/2012.

[2] Army of Fake Social Media Friends to Promote Propaganda , Social Media: Air Force ordered software to manage army of Fake Virtual People e Pentagon Seeks to Manipulate Social Media for Propaganda Purposes .

[3] (Ibid.)

[4] Egypt: US-funded Agitators on Trial: US "Democracy Promotion" = Foreign-funded Sedition .

[5] The Conference on Cyber Dissidents: Global Successes and Challenges, The George W. Bush Presidential Center .



O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=29288

Tradução de Sergio Oliveira.



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Eleições, armadilha para tolos

Jean Salem


O filósofo marxista Jean Salem publicou recentemente um novo livro: “Eléctions, piége à cons”. Publicamos a Introdução desse importante texto, que coloca uma questão central: nos dias de hoje, em tantos lugares da Europa, é através dos mecanismos eleitorais das democracias burguesas que forças fascistas e de extrema-direita vêm assumindo uma importante parcela do poder político.







Em criança, depois em adolescente, e talvez mesmo até ao início dos anos 1980, interrogávamo-nos como fora possível que povos amassados em cultura, como os alemães em especial, tenham sido incapazes de prever aquilo que veio a ser feito, aquilo que foi cometido em seu nome antes e durante o período da Segunda Guerra Mundial. De forma acessória, essa interrogação servia para moderar os ardores daqueles que estavam sempre disponíveis para se inclinar perante a mais insignificante emoção popular e, em particular, perante aquelas que pareciam indicar a insatisfação de tal ou tal fracção da população nos países do “socialismo real”. E, sobretudo, ela proporcionava aos mais argutos a oportunidade para relembrar em cada dia uma evidência que fere, ao que parece, o preconceito democrático: a de que os povos podem equivocar-se. E podem, consequentemente, votar mal… Hitler (podemos, naturalmente, lamentá-lo) não se apossou do poder por meio de um golpe de Estado! Na eleição presidencial de Março-Abril de 1932 tinha obtido 2,75 milhões de votos, o que representava 37,3% do eleitorado, mas tinha sido ultrapassado, em qualquer caso, pelo marechal Hindenburg. Num contexto marcado, entretanto, pelas terríveis acções violentas dos bandos nacional-socialistas (contavam-se às centenas os mortos que estes tinham provocado apenas no decurso do mês de Julho, em confrontos de rua desde a Prússia até Altona, a norte de Hamburgo), o NSDAP obteve igualmente 37,3% dos votos nas eleições de 31 de Julho de 1932.

De forma ainda mais genérica, o tão prosaico percurso dos regimes ditos “representativos” só pode levar as pessoas de bom-senso a pensar, com Alexis de Tocqueville, que “aqueles que encaram o sufrágio universal como uma garantia da qualidade das escolhas iludem-se completamente”. O “voto universal”, acrescentava Tocqueville, “possui outras vantagens, mas não essa” (De la démocratie en Amérique, II parte, cap. 5, Vrin, t. I, p 153). Porque ninguém pode afirmar que a maioria tem sempre razão. Sobretudo quando essa maioria é tão evidentemente fabricada como o é nos dias de hoje. Sem falar da imensa massa daqueles que deixaram de participar no jogo eleitoral, tão frequentemente enganador, frustrante, entorpecedor mesmo. A tradição filosófica em que me integro aliou constantemente, pelo menos até ao século XVIII, um muito grande optimismo naturalista a um carregado pessimismo em matéria de antropologia. Para o materialismo do Ancien Régime, para o epicurismo antigo como para os grandes senhores do libertinismo, não se trata em nenhuma circunstância de imaginar que, de progresso em progresso, todo o indivíduo acederá às luzes da razão, à sabedoria e à felicidade. Os “déniaisés” (“desparvecidos”), como se designavam a si próprios, sabem bem que a religião é um instrumento do poder de Estado; mas que o povo, têm eles o cuidado de acrescentar de imediato, não deixa de crer nela e de continuar a ignorar os seus truques. Em resumo, será apenas com as Luzes, e a fortiori com o comtismo, o marxismo e outras doutrinas racionalistas datando do séc. XIX que se formou, entre os adeptos do materialismo filosófico, a ideia de uma possível conversão dos humanos a opções políticas justas, morais, e susceptíveis de trazer a felicidade a todos.

E eis entretanto o estado em que estamos: os herdeiros do fascismo e do nacional-socialismo voltam a levantar a cabeça na Europa… Aqui, é um movimento fundado por um antigo torcionário que obtém, desde há mais de vinte anos, entre 10% e 18% dos votos expressos. Acolá, o NPD, o Partido nacional democrático alemão, obtém 9,2% dos votos nas eleições de 2004, no Saxe. Desde 1986 que os resultados obtidos pelo muito mal designado Partido austríaco da liberdade (FPO) não cessam de aumentar em eleições legislativas, chegando a atingir 27% dos votos expressos em 1999. Nessa altura o FPO era a segunda força política na Áustria. Depois de uma descida transitória ressurgiu em força nas legislativas de 2008 com um resultado de 18%, ao qual devem ser acrescentados os 11% recolhidos pela Aliança para o Futuro da Áustria (BZO) – ela própria resultante de uma cisão do FPO – o que dá um total acumulado de 29% dos votos expressos a favor da extrema-direita! Na Noruega também, o FrP, o Partido do progresso, impôs-se como a segunda força política do país ao alcançar 23% dos votos expressos quando das eleições legislativas de 2009. Nos Países-Baixos, finalmente, 17% dos votos foram para a extrema-direita nas eleições europeias de Junho de 2009. Por todo o lado, ou quase, há governos aos quais não só não repugna formar alianças com a extrema-direita ou mesmo a pedinchar o seu apoio (Dinamarca, Hungria); há governos – em geral eleitos, é certo, ou pelo menos que alcançaram o poder por meio de eleições – que entregam pastas de ministérios a racistas certificados ou a autênticos fascistas reconvertidos de fresca data em muito sinceros democratas (Itália). Por toda a parte, o perigo ainda-rastejante-mas-já-muito-pouco do regresso da peste negra ou da chegada das suas reencarnações pós-modernas (Bélgica, Suíça).

Para sintetizar, existe já um problema que pode legitimamente agitar os nossos neurónios: as campanhas eleitorais, as boas intenções e os escrutínios que aí vêm serão suficientes para evitar que aqueles que militam à esquerda, neste XXIº século que começa, não venham a acabar em campos (estilo antigo) ou em estádios (estilo chileno)? Tanto mais que, como me dizia um estudante no decurso de uma prova oral bastante frustrante, “o capitalismo tem um grande problema: foi demasiado longe”. Ou, dito por outras palavras, poderia culminar em apocalipse…E nem os votos “úteis” nem os pânicos sem grande futuro dos pequenos burgueses poderão constituir uma barreira eficaz contra o que aí vem! É pensando nisso sobretudo, ou seja, no estado vacilante da nossa civilização que eu gostaria aqui de falar:

1- Daquilo que eu chamarei de boa vontade o actual circo eleitoral;

2- Da confiscação do poder que este circo autoriza e realiza perante nós;

3- Do regime de eleição ininterrupta no qual se faz viver nos dias de hoje o cidadão das nossas esgotadas democracias, regime que é parte integrante de um período de crise sobreaguda do capitalismo, de um período de perturbações e de ansiedade, de um período em que se sente o odor que antecede a guerra.



















Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA