quinta-feira, 29 de março de 2012

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Pelo Socialismo

Questões político-ideológicas com atualidade

http://www.pelosocialismo.net

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Publicado em: http://www.uniaonet.com/amcentral.htm

Colocado em linha em: 2012/03/25

DISCURSO DE ÍNDIO SURPREENDE CHEFES DE ESTADO NA REUNIÃO DA CÚPULA EUROPEIA1

Dívida externa de quem, cara pálida?

Um discurso feito por Guaicaípuro Cuatemoc embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Europeia. A conferência dos chefes de Estado da União Europeia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002, em Madrid, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irónico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc, cacique de uma nação indígena da América Central.

Eis o discurso:

"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a encontraram só há 500 anos. O irmão europeu da alfândega pediu-me um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financeiro europeu pede-me o pagamento – ao meu país –, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu explica-me que toda a dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem lhes pedir consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.

Consta no "Arquivo da Companhia das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Teria isso sido um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria

1 a) Consta no sítio http://flomana.wordpress.com/2008/08/20/carta-de-guaicaipuro-cuautemoc/ que este texto é uma ficção atribuída a Luís Britto Garcia (n. 1940), escritor venezuelano, publicada em 6 de outubro de 2003 – a propósito do Dia da Resistência Indígena (12 de outubro), sob o título “Guaicaípuro Cuatemoc cobra a dívida à Europa” – e na Revista “Renancer Indianista” n.º 7.

Aí se refere que o cacique Guaicaípuro existiu há menos de 500 anos, ainda que o seu nome real não incluísse Cuatemoc, que foi acrescentado. Aquele sítio também publica o texto em castelhano e em inglês, sob o título “Carta de Guaicaípuro Cuautemoc – Carta de um chefe índio aos governos da Europa”. No início da versão castelhana diz-se que Hugo Chávez recomendou a sua leitura ao rei de Espanha, na Cimeira Iberoamericana de 2007 e, no final da mesma, consta a data de maio de 2000. – [NE]

b) Não conseguimos confirmar a informação dada no sítio de onde retirámos o texto – que adaptámos à variante do português de Portugal – de que a carta terá sido lida na II Cimeira UE/Mercosul/Caribe, que se realizou em 17 e 18 de maio de 2002, ou se também se trata de ficção. Circula na Internet a versão de que o Embaixador mexicano, a que se atribui (erradamente) o nome do cacique índio, a teria aí lido. – [NE]

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sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas! Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas uma indemnização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.

Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano “MARSHALLTESUMA”, para garantir a reconstrução da bárbara Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho diário e de outras conquistas da civilização. Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo desses fundos? Não. No aspecto estratégico, delapidaram-nos nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias outras formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e juros, como de se tornarem independentes das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, o que nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos para cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram aos povos do Terceiro Mundo. Limitar-nos-emos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, concedendo-lhes 200 anos de bónus. Sobre esta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, concluímos, e disso informamos os nossos descobridores, que nos devem não os 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, mas aqueles valores elevados à potência de 300, número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra. Muito peso em ouro e prata… quanto pesariam se calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milénio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas. Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos a assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente na obrigação do pagamento da dívida, sob pena de privatização ou reconversão da Europa, de forma tal, que seja possível um processo de entrega de terras, como primeira prestação da dívida histórica..."

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Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Europeia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa. Agora resta que algum Governo Latino-Americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais internacionais. Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, e com juros civilizados.

domingo, 25 de março de 2012

Um mundo de petróleo cada vez mais difícil


por Michael T. Klare [*]

Os preços do petróleo agora estão mais altos do que alguma vez estiveram – excepto nuns poucos momentos frenéticos antes do colapso económico global de 2008. Muitos factores imediatos estão a contribuir para esta alta, incluindo ameaças do Irão de bloquear o trânsito de petróleo no Golfo Pérsico, temores de uma nova guerra no Médio Oriente e perturbações na Nigéria, rica em petróleo. Algumas destas pressões podem diminuir nos meses pela frente, proporcionando alívio temporário na bomba de gasolina. Mas a causa principal dos preços mais elevados – uma mudança fundamental na estrutura da indústria petrolífera – não pode ser revertida e, assim, os preços do petróleo estão destinados a permaneceram altos por um longo tempo daqui para a frente.



Em termos de energia, estamos agora a entrar num mundo cuja natureza implacável ainda tem de ser plenamente apreendida. Esta mutação essencial foi provocada pelo desaparecimento do petróleo relativamente acessível e barato – o "petróleo fácil", na linguagem dos analistas da indústria. Por outras palavras, a espécie de petróleo que impulsionou uma expansão vertiginosa da riqueza global ao longo dos últimos 65 anos, bem como a criação de infindáveis comunidades suburbanas orientadas para o carro. Este petróleo está agora quase acabado.



O mundo ainda dispõe de grandes reservas de petróleo, mas estas são difíceis de alcançar, difíceis de refinar, a variedade "petróleo árduo". A partir de agora, todo barril que consumirmos será mais custoso para extrair, mais custoso para refinar – e, assim, mais caro na bomba de gasolina.



Aqueles que afirmam que o mundo permanece "inundados" de petróleo estão tecnicamente correctos: o planeta ainda dispõe de vastas reservas. Mas os propagandistas da indústria petrolífera geralmente deixam de enfatizar que nem todos os reservatórios de petróleo são semelhantes: alguns estão localizados próximos à superfície ou próximos à costa e estão contidos em rocha porosa; outros estão localizados no subsolo profundo, no offshore distante, ou presos em formações rochosas inflexíveis. Os sítios anteriores são relativamente fáceis de explorar e proporcionam um combustível líquido que pode ser prontamente refinado em líquidos utilizáveis; os segundos só podem ser explorados através de técnicas custosas, ambientalmente arriscadas e muitas vezes resultam num produto que deve ser fortemente processado antes que a refinação possa sequer começar.



A simples verdade sobre o assunto é esta: a maior parte das reservas fáceis do mundo já foram esgotadas – excepto aquelas em países espinhosos como o Iraque. Virtualmente todo o petróleo que resta está contido em reservas mais difíceis de serem atingidas. Isto inclui o petróleo do offshore profundo, o petróleo do Árctico e o petróleo de xisto, juntamente com as "areias betuminosas" do Canadá – as quais não são compostas de petróleo de modo algum, mas sim de lama, areia e alcatrão semelhante a betume. As chamadas reservas não convencionais destes tipos podem ser exploradas, mas muitas vezes a um preço desconcertante, não apenas em dólares mas também em danos para o ambiente.



No negócio do petróleo, esta realidade foi reconhecida primeiramente pelo presidente e CEO da Chevron, David O'Reilly, numa carta de 2005 publicada em muitos jornais americanos. "Uma coisa é clara", escreveu ele, "a era do petróleo fácil está acabada". Não só muitos dos campos existentes estavam em declínio, observou ele, como "novas descobertas de energia estão a ocorrer principalmente em lugares onde os recursos são difíceis de extrair, fisicamente, economicamente e mesmo politicamente".



Nova prova desta mutação foi proporcionada pela Agência Internacional de Energia (IEA) numa revisão de 2010 das perspectivas do petróleo mundial. Na preparação deste relatório a agência examinou os rendimentos históricos dos maiores campos produtores do mundo – o "petróleo fácil" sobre o qual o mundo ainda repousa para o grosso da sua energia de forma esmagadora. Os resultados foram espantosos: esperava-se que aqueles campos perdessem três quartos da sua capacidade produtiva ao longo dos 25 anos seguintes, eliminando 52 milhões de barris de petróleo por dia da oferta mundial, ou cerca de 75% a actual produção mundial. As implicações eram estarrecedoras: ou descobrir petróleo novo para substituir aqueles 52 milhões de barris/dia a Era do Petróleo chegará logo a um fim e a economia mundial entraria em colapso.



Naturalmente, como a IEA tornou claro em 2010, haverá novo petróleo, mas só da variedade difícil que exigirá um preço de todos nós – e do planeta, também. Para apreender as implicações da nossa crescente dependência do petróleo difícil, vale a pena dar uma olhadela a alguns dos mais apavorantes pontos sobre a Terra. Assim, apertem os vossos cintos de segurança: primeiro estamos a ir para o mar para examinar o "prometedor" novo mundo do petróleo do século XXI.



Petróleo de águas profundas



As companhias de petróleo têm estado a perfurar em áreas offshore desde há algum tempo, especialmente no Golfo do México e no Mar Cáspio. Até recentemente, contudo, tais esforços verificavam-se invariavelmente em águas relativamente rasas – umas poucas centenas de metros, na maior parte – o que permitia às companhias utilizarem perfuradores convencionais montados sobre colunas extensas. A perfuração em águas profundas, em profundidades que ultrapassam os 300 metros, é um assunto inteiramente diferente. Ela requer plataformas de perfuração especializadas, refinadas e imensamente custosas que podem custar milhares de milhões de dólares para produzir.



A Deepwater Horizon, destruída no Golfo do México em Abril de 2010 devido a uma explosão catastrófica, é bastante típica deste fenómeno. O vaso foi construído em 2001 por uns US$500 milhões e custa cerca de US$1 milhão por dia conservar e manter. Parcialmente devido a estes altos custos, a BP estava com pressa de acabar o trabalho do seu malfadado furo Macondo e mover a Deepwater Horizon para outro local de perfuração. Tais considerações financeiras, acreditam muitos analistas, explicam a pressa com a qual a tripulação do vaso selou o furo – levando a uma fuga de gases explosivos dentro do povo e a explosão resultante. A BP agora terá de pagar algo para além de US$30 mil milhões para atender as todas as reclamações pelo dano feito com a sua fuga de petróleo maciça.



A seguir ao desastre, a administração Obama impôs uma proibição temporária à perfuração no offshore profundo. Mal se passaram dois anos, a perfuração nas águas profundas do Golfo está outra vez em níveis de pré desastre. O presidente Obama também assinou um acordo com o México que permitia perfurar na parte mais profunda do Golfo, ao longo da fronteira marítima estado-unidense-mexicana.



Enquanto isso, a perfuração em águas profundas está a ganhar velocidade alhures. O Brasil, por exemplo, movimenta-se para explorar seus campos "pré sal" (assim chamados porque jazem abaixo de uma camada de sal) nas águas do Oceano Atlântico muito longe da costa do Rio de Janeiro. Novos campos offshore estão analogamente a ser desenvolvidos nas águas profundas do Gana, Serra Leoa e Libéria.



Em 2020, diz o analista de energia John Westwood, estes campos de águas profundas fornecerão 10% do petróleo mundial, quando eram apenas 1% em 1995. Mas este acréscimo de produção não sairá barato: a maior parte destes novos campos custará dezenas ou centenas de milhares de milhões de dólares para desenvolver e só se demonstrará lucrativo desde que o petróleo continue a ser vendido por US$90 ou mais por barril.



Os campos offshore do Brasil, considerados por alguns peritos como as mais prometedoras novas descobertas deste século, demonstrar-se-ão especialmente caras porque jazem sob 2400 metros de água e 4000 metros de areia, rocha e sal. Serão necessários os mais avançados e custosos equipamentos de perfuração do mundo – alguns deles ainda a serem desenvolvidos. A Petrobrás, a empresa de energia controlada pelo estado, já comprometeu US$53 mil milhões para o projecto em 2011-2015 e a maior parte do analistas acredita que isto será apenas um modesto pagamento inicial de um estarrecedor preço final.



Petróleo árctico



Espera-se que o Árctico proporcione uma fatia significativa da futura oferta mundial. Até recentemente, a produção no extremo Norte fora muito limitada. Excepto na área de Prudhoe Bay no Alasca e num certo número de campos na Sibéria, as grandes companhias tem geralmente evitado a região. Mas agora, ao verem poucas outras opções, elas estão a preparar-se para grandes investidas num Árctico em fusão.



De qualquer perspectiva, o Árctico é o último lugar para se querer ir a fim de furar por petróleo. As tempestades são frequentes e as temperaturas no Inverno mergulham muito abaixo do ponto de congelamento. A maior parte do equipamento comum não operará sob estas condições. São necessários substitutivos especializados (e custosos). As equipes de trabalho não podem viver na região por muito tempo. A maior parte dos abastecimentos – comida, combustível, materiais de construção – devem ser trazidos de milhares de quilómetros a um custo fenomenal.



Mas o Árctico tem os seus atractivos: milhares de milhões de barris de petróleo inexplorado. Segundo o U.S. Geological Survey (USGS), a área Norte do Círculo Árctico, com apenas 6% da superfície do planeta, contém uma estimativa de 13% do seu petróleo remanescente (e ainda maior fatia do seu gás natural não desenvolvido) – números com que nenhuma outra região pode competir.



Sobrando poucos lugares para ir, as grandes empresas de energia agora estão a preparar-se para uma corrida a fim de explorar as riquezas do Árctico. Neste Verão, espera-se que a Royal Dutch Shell comece furos de teste em porções dos Mares Beauforte Chukchi, ao Norte do Alasca (a administração Obama ainda conceder as autorizações finais de operação para estas actividades, mas espera-se a aprovação). Ao mesmo tempo, a Statoil e outras firmas planeiam perfurar no Mar de Barents, ao Norte da Noruega.



Com estes cenários energéticos extremos, o aumento da produção no Árctico impulsionará significativamente os custos operacionais das companhias de petróleo. A Shell, por exemplo, já gastou US$4 mil milhões só nos preparativos para furos de teste no offshore do Alasca, sem produzir um único barril de petróleo. O desenvolvimento em plena escala nesta região ecologicamente frágil, tenazmente contrariado por ambientalista e povos nativos locais, multiplicará este número muitas vezes mais.



Areias betuminosas e petróleo pesado



Espera-se que outra fatia significativa do futuro abastecimento mundial de petróleo venha das areias betuminosas do Canadá (também chamadas "areias petrolíferas) e do petróleo super-pesado da Venezuela. Nada disto é petróleo tal como é normalmente entendido. Não sendo líquidos nos seu estado natural, eles não podem ser extraídos pelos materiais de furação tradicionais, mas existem em grande abundância. Segundo o USGS, as areias betuminosas do Canadá contêm o equivalente a 1,7 milhão de milhões de barris de petróleo convencional (líquido), ao passo que os depósitos de petróleo pesado da Venezuela dizem abrigar outro milhão de milhões de petróleo equivalente – embora nem tudo seja considerado "recuperável" com a tecnologia existente.



Aqueles que afirmam que a Era do Petróleo está longe de ultrapassada apontam estas reservas como prova de que o mundo ainda pode extrair imensas quantidades de combustíveis fósseis inexplorados. E certamente é concebível que, com a aplicação de tecnologias avançadas e uma indiferença total para com as consequências ambientais, estes recursos na verdade serão colhidos. Mas não é petróleo fácil.



Até agora, as areias betuminosas do Canadá foram obtidas através de um processo análogo à mineração a céu aberto, utilizando pás monstruosas para arrancar uma mistura de areia e betume do solo. Mas a maior parte do betume próximo à superfície nas areias betuminosas ricas da província de Alberta foram exauridas, o que significa que toda extracção futura exigirá um processo muito mais complexo e custoso. Terá de ser injectado vapor nas concentrações mais profundas para fundir o betume e permitir a sua recuperação através de bombas maciças. Isto exige um investimento colossal em infraestrutura e energia, bem como a construção de instalações de tratamento para todos os resíduos tóxicos resultantes. Segundo o Canadian Energy Research Institute, o pleno desenvolvimento das areias petrolíferas de Alberta exigiria um investimento mínimo de US$218 mil milhões ao longo dos próximos 25 anos, não incluindo o custo de construir oleodutos para os Estados Unidos (tal como o proposto Keystone XL) para processamento em refinarias estado-unidenses.



O desenvolvimento do petróleo pesado da Venezuela exigirá investimento numa escala comparável. Acredita-se que o cinturão do Orenoco, uma concentração especialmente densa de petróleo pesado adjacente ao Rio Orenoco contenha reservas recuperáveis de 513 mil milhões de barris de petróleo – talvez a maior fonte de petróleo inexplorado do planeta. Mas converter esta forma de betume semelhante a melaço num combustível líquido excede em muito a capacidade técnica ou os recursos financeiros da companhia estatal, Petróleos de Venezuela SA. Consequentemente, ela está agora à procura de parceiros estrangeiros dispostos a investir os US$10 a 20 mil milhões necessários apenas para construir as instalações necessárias.



Os custos ocultos



Reservas difíceis como esta proporcionarão a maior parte do novo petróleo do mundo nos próximos anos. Uma coisa é clara: mesmo se puderem substituir o petróleo fácil nas nossas vidas, o custo de tudo o que está relacionado com petróleo – seja a gasolina na bomba, produtos com base no petróleo, fertilizantes, tudo por toda a parte das nossas vidas – está em vias de ascender. Habitue-se a isto. Se as coisas decorrerem como se planeia actualmente, estaremos pendurados no big oil nas próximas décadas.



E estes são apenas os custos mais óbvios numa situação em que abundam custos ocultos, especialmente para o ambiente. Tal como no desastre do Deepwater Horizon, a extracção em áreas do offshore profundo e em outras localizações geográficas extremas garantirá riscos ambientais sempre maiores. Afinal de contas, aproximadamente 22 milhões de litros de petróleo foram despejados no Golfo do México, graças à negligência da BP, provocando danos extensos a animais marinhos e ao habitat costeiro.



Recordar que, por mais catastrófico que fosse, ele ocorreu no Golfo do México, onde podiam ser mobilizadas forças amplas para a limpeza e a capacidade de recuperação do ecosistema era relativamente robusta. O Árctico e a Gronelândia representam um risco diferente, dado a sua distância das capacidades de recuperação estabelecidas e a extrema vulnerabilidade dos seus ecosistemas. Os esforços para restaurar tais áreas na sequência de fugas de petróleo maciças custariam muitas vezes os US$30 a 40 mil milhões que a BP pretende pagar pelo danos do Deepwater Horizon e serão muito menos eficazes.



Além de tudo isto, muitos dos campos de petróleo difícil mais prometedores estão na Rússia, na bacia do Mar Cáspio, e em áreas conflituosas da África. Para operar nestas áreas, companhias de petróleo serão confrontadas não só com os custos previsivelmente altos da extracção como também com custos adicionais envolvendo sistemas locais de suborno e extorsão, sabotagem por grupos de guerrilha e as consequências de conflitos civis.



E não esquecer o custo final: Se todos estes barris de petróleo e substâncias afins do petróleo forem realmente produzidos a partir dos menos convidativos lugares neste planeta, então nas próximas décadas continuaremos a queimar combustíveis fósseis maciçamente, criando sempre mais gases com efeito estufa [NR] como se não houvesse amanhã. E aqui está a triste verdade: se prosseguirmos no caminho do petróleo difícil ao invés de investirmos maciçamente em energias alternativas, podemos excluir qualquer esperança de impedir as mais catastróficas consequências de um planeta mais quente e mais turbulento.



De modo que, sim, há petróleo não convencional. Mas não, ele não será mais barato, não importa quanto haja. E, sim, as companhias de petróleo podem obtê-lo, mas olhando realistamente quem o desejaria?



[NR] Um falso problema. A situação energética mundial já é suficientemente má por si mesma, dispensando invencionices adicionais como o do mítico aquecimento global. Ver http://resistir.info/climatologia/impostura_global.html .



[*] Autor de The Race for What's Left: The Global Scramble for the World's Last Resources (Metropolitan Books).



O original encontr-se em www.tomdispatch.com/...



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 18 de março de 2012

Carta Para S

CARTA




Olá, como vais?

Que esta carta te encontre de boa saúde

É o que desejo,

Neste tempo obscuro

Em que uma linha curva é uma reta

Que vai para parte nenhuma.

Escrevo-te sem a alegria da chegada

Tão triste foi a partida.

Nem sei onde habitas

Fora do meu coração,

Dos meus nervos, da minha memória.

Somos parte daquela história

dos vencidos que se levantaram do chão.

Tive-te na cama, do lado esquerdo

Onde os achados e os perdidos

Desfraldam um cravo rubro na mão.

Não sei para onde foste,

Nem sei se deu fruto o teu ventre

Mulher madura, mãe, amante.

Sei que vives nos meus sonhos

E onde quer que eu grite: Avante!

É o teu corpo que vejo

Mais puro e inteiro o meu desejo

Que um mundo novo se levante.

Sopro, soluço, solar,

Essa sonoridade suave

Que invoca o teu nome, quantos?

De quantos a escutaste

Depois de mim?

Quantos te sussurraram promessas

Mentiras, amanhãs que não madrugaram?



Nesta vida às avessas

Quantos de ti, cravo, mulher,

Desertaram?



Nozes Pires

sábado, 17 de março de 2012

Crise global: no olho do furacão



por Alejandro Nadal [*]

Dizem que o tempo é um invento para evitar que tudo aconteça no mesmo instante. A frase original é do escritor Ray Cummings e aparece no seu romance de ficção científica A garota do átomo dourado (publicado em 1929). Parece assim que hoje o tempo colapsa sobre si próprio e, efectivamente, todas as economias do planeta acusam simultaneamente os sintomas e as feridas da crise.



Isto pode parecer uma opinião demasiado pessimista. Afinal de contas a imprensa de negócios esforça-se por fazer-nos acreditar que a crise global entrou numa fase de acalmia e até de recuperação. A violência da crise na Grécia passou momentaneamente para um segundo plano com reestruturação da sua dívida, há uma semana. O euro parece que melhorou a sua posição e surgem outras "boas notícias". Nos Estados Unidos, pelo terceiro mês consecutivo, anuncia-se que foram gerados empregos e fala-se de uma "tímida recuperação".



Assim, parece que os ventos em furacão amainaram e que lá longe poderia despontar um raio de sol e o anúncio de melhores tempos. Mas não se pode enganar.



Na Grécia, o acordo reduziu em mais de cem mil milhões de euros a dívida com credores privados. Mas isso não é senão uma moratória disfarçada da reestruturação da dívida. A prova é que até uma parte dos temidos seguros de não pagamento foi activada (o montante apenas ultrapassou os 3 mil milhões de dólares, o que pode ser absorvido pelas seguradoras sem grandes problemas).



Todo este acordo foi para ganhar tempo, não para encontrar uma solução real para o problema da economia grega. No fundo, a Grécia permanece sem capacidade de enfrentar o serviço da sua dívida e as condições de política económica que lhe foram impostas (em especial pelo programa de austeridade) conduzirá necessariamente ao aprofundamento da catástrofe. O PIB já acusa uma queda de 6% em 2011 e este ano o prognóstico é muito mau. O desemprego ultrapassa 22% e entre jovens chega a 50%. Já há mais de 22 mil pessoas sem tecto em Atenas.



Todos os componentes da procura agregada da economia grega estão em queda vertical: o salário mínimo reduziu-se em 22% (e para alguns sectores a perda será de 32%). O corte da despesa pública representa outro golpe duro na procura agregada. É evidente que a meta de reduzir a dívida grega a 160% do PIB em 2020 é irrisória. O país vai arrebentar muito antes.



O ritmo de actividade económica na Europa continua a diminuir e a região está a entrar numa recessão que pode ser duradoura. O desemprego na União Europeia atinge já os 10,7% e é o mais alto em mais de 13 anos. O "motores" económicos não vão bem: o prognóstico favorável para 2012 é que a Alemanha e França cresçam 1,2 e 1,3%, respectivamente. A Itália e a Espanha mantêm-se mais ou menos estáveis, se fizermos caso dos diferenciais de financiamento da sua dívida soberana, mas essas duas economias estão claramente no umbral da uma forte recessão e isso fará que os mercados financeiros voltem a "inquietar-se". O custo financeiro da sua dívida voltará a crescer.



Nos Estados Unidos, as boas notícias sobre o desempenho do mercado de trabalho devem ser manejadas com cautela. Muitos dos empregos gerados continuam a ser de muito má qualidade. É normal, os problemas estruturais da economia estado-unidense não foram reparados e a tendência à precarização do trabalho mantém-se. Por outro lado, todos os componentes da procura agregada estão a contrair-se: o consumo, o investimento residencial e não residencial e até as exportações. E tal como na Europa, a austeridade na política fiscal não augura nada de bom.



Na China as coisas tão pouco andam bem. A anemia mundial afecta as suas exportações e isso envia uma mensagem clara à hierarquia chinesa no sentido de transformar a economia, abandonando a política de exportações selvagens. Isso implicaria aumentar o consumo interno, o que requer aumentar o nível dos salários e remunerações. Os novos líderes em Pequim não parecem inclinar-se nessa direcção e já estão a apostar na desvalorização do renminbi.



Para fechar com chave de ouro, a retórica de guerra no Médio Oriente faz com que o preço do petróleo se mantenha alto, o afectará negativamente a economia mundial. Israel continua a insistir em que não permitirá ao Irão dotar-se de armas nucleares. Isso pode ser parte de uma campanha de distracção sobre o problema palestino, mas é algo que incide sobre as expectativas e a evolução do preço internacional do petróleo bruto.



No cronómetro da crise, o tempo deforma-se reconcentra-se num ponto: a crise é um monstro que respira e retomar as suas forças. A lei da mercadoria, tão certeiramente definida por Marx, levou a lógica do capital até os rincões mais afastados do planeta. Para esta longa viagem, na sua equipagem o capital levou também as suas contradições e a propensão à crise. É o pulso das economias capitalistas.



[*] Economista, mexicano, http://nadal.com.mx



O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2012/03/14/opinion/028a1eco



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 15 de março de 2012

Leão Trotski

Leão Trotski


1879-1940





Inicialmente próximo dos mencheviques e em seguida bolchevique. Como Comissário de Guerra dirigiu o Exército Vermelho à vitória na guerra civil russa e sobre a invasão imperialista da Russa Soviética. Ajudou a criar e dirigiu a Oposição de Esquerda a Stalin. Desenvolveu a teoria da Revolução Permanente e fundou a 4ª Internacional.



Atualmente estão disponíveis em Português as seguintes obras:



1907 A Revolução de 1905 (prefácio à edição russa)

1911 - Nov Por que os Marxistas se Opõem ao Terrorismo Individual

1916 - Mar Saudações a Franz Mehring e Rosa Luxemburgo

1921 Na Escala da História Universal

1922 - Mai Saber Militar e Marxismo

1922 - Set O Futurismo

1923 Questões do Modo de Vida

1924 - Abr Lenine

1924 - Set As Lições de Outubro

1925 - Dez A Proteção das Mães e a Luta Pela Elevação do Nível Cultural

1928 - Dez O Marxismo e a Relação entre Revolução Proletária e Revolução Camponesa

1929 - Fev O Triunfo de Estaline [Texto em Galego]

1929 - Mai A Revolução Desfigurada [Texto em Galego]

1929 - Jun Mais uma vez sobre Brandler e Thalheimer [Texto em Galego]

1929 - Nov A Revolução Permanente

1929 Retorno ao Partido?

1930 O Suicídio de Maiakovsky

1930 - Jan O “Terceiro Período” dos Erros da Internacional Comunista

1930 - Abr A Palavra de Ordem da Assembléia Nacional na China

1930 - Mai O Que É o Centrismo

1930 - Mai Tarefas e Perigos da Revolução na Índia

1930 - Set O Perigo Fascista Paira Sobre a Alemanha

1930 História da Revolução Russa

1931 O Que é Uma Situação Revolucionária

1931 - Mar A Questão da Unidade Sindical [Texto em Galego]

1931 - Nov Está na Alemanha a Chave da Situação Mundial

1931 - Nov O Ultimatismo Burocrático

1932 - Nov O Que Foi a Revolução de Outubro

1934 - Out Aonde Vai a França?

1935 As Frações e a Quarta Internacional

1935 - Abr O Problema Nacional e as Tarefas do Partido Proletário

1936 - Jan A Traição do "Partido Operário de Unificação Marxista" Espanhol

1936 - Mar A França na Encruzilhada

1936 - Jul Os Estados Unidos Após a Crise de 1929

1936 Revolução Traída - Capitulo 5

1936 Moral e Revolução

1936 Menchevismo e Bolchevismo na Espanha

1937 Estalinismo e Bolchevismo

1937 - Out 90 Anos do Manifesto Comunista

1937 - Nov Uma Vez Mais: A União Soviética e Sua Defesa

1937 - Nov Um Estado Não Operário e Não Burguês

1938 Carta à Juventude

1938 Discurso Gravado para Conferência de Fundação da IV Internacional

1938 - Set O Programa de Transição

1938 - Set Entrevista de Leon Trotsky a Mateo Fossa

1939 - Abr A Questom Ucraniana [Texto em Galego]

1939 - Abr O Marxismo em Nosso Tempo

1939 - Jun Moralistas e Sicofantas Contra o Marxismo

1939 - Jul Carta aos Trabalhadores da Índia

1939 - Set Carta a James P. Cannon

1939 - Set A URSS na Guerra

1939 - Out Carta a Sherman Stanley (08/10/1939)

1939 - Out Novamente e uma Vez Mais, Sobre a Natureza da URSS

1939 - Out O Referedum e o Centralismo Democrático

1939 - Out Carta a Sherman Stanley (22/10/1939)

1939 - Out Carta a James P. Cannon (28/10/1939)

1939 - Nov Carta a Max Shachtman

1939 - Dez Carta a James P. Cannon

1939 - Dez Uma Oposição Pequeno-Burguesa no Socialist Workers Party

1939 - Dez Carta a John G. Wright

1939 - Dez Carta a Max Shachtman

1939 - Dez Carta à Maioria do Comitê Nacional (primeira carta)

1939 - Dez Carta à Maioria do Comitê Nacional (segunda carta)

1940 - Jan Carta à Maioria do Comitê Nacional (terceira carta)

1940 - Jan Carta à Maioria do Comitê Nacional (quarta carta)

1940 - Jan Carta a Joseph Hansen

1940 - Jan Carta Aberta ao Camarada Burnham

1940 - Jan Carta a James P. Cannon

1940 - Jan Carta a Farrell Dobs

1940 - Jan Carta a John G. Wright

1940 - Jan Carta a James P. Cannon

1940 - Jan Carta a William F. Warde

1940 - Jan Carta a Joseph Hansen

1940 - Jan De um Arranhão, ao Perigo de Gangrena

1940 - Jan Carta a Martin Abern

1940 - Fev Carta a Albert Goldman - 10/02/1940

1940 - Fev Carta a Albert Goldman - 19/02/1940

1940 - Fev De Volta ao Partido!

1940 - Fev Ciência e Estilo

1940 - Fev Carta a James P. Cannon

1940 - Fev Testamento

1940 - Fev Carta a Joseph Hansen

1940 - Mar Carta a Farrell Dobbs - 04/03/1940

1940 - Abr Carta a Farrell Dobbs - 04/04/1940

1940 - Abr Carta a Farrell Dobbs - 16/04/1940

1940 - Abr Os Moralistas Pequeno-Burgueses e o Partido Proletário

1940 - Abr Balanço dos Acontecimentos Filandeses

1940 - Mai Carta a James P. Cannon

1940 - Mai Manifesto da IV Internacional Sobre a Guerra Imperialista e a Revolução Proletária Mundial

1940 - Jun Carta a Abert Goldman

1940 - Ago Sobre o Partido "Operário"

1940 - Ago Carta a Albert Goldman

1940 - Ago Carta a Chris Andrews

1940 - Ago Classe - Partido – Direção

1940 O Homem Não Vive Só de Política

1940 Os Sindicatos na Época da Decadência Imperialista



in Arquivo Marxista (Marxists internet Archive) secção portuguesa

segunda-feira, 12 de março de 2012

Lições do Sul para uma Europa em crise?



– Retomar a ofensiva, sair da zona euro, romper com a armadilha neoliberal


por Rémy Herrera [*]

A extrema gravidade da crise que atinge actualmente a Europa, em particular a zona euro por via das dívidas ditas "soberanas", da Grécia à Itália entre outras, leva a colocar a questão: os povos europeus não terão lições a retirar das experiências pelas quais certos países do Sul estão a passar e das estratégias anti-crise que aí foram adoptadas? Porque o que é facto é que, até ao momento, têm sido as receitas do Norte, que se supõe serem universalmente válidas, as que foram na generalidade administradas às economias do Sul – ainda que estas receitas não lhes tenham sido muito convenientes, salvo raras excepções. Mas os tempos mudaram…



A Europa em crise



As soluções neoliberais de austeridade generalizada e de destruição dos serviços públicos hoje propostas (ou melhor dizendo, impostas) para tentar salvar o capitalismo em crise e relançar o crescimento são absurdas; elas constituem a forma mais segura de agravar ainda mais esta crise e de precipitar mais rapidamente o sistema no abismo. E isto ao mesmo tempo que favorecem, por todo o lado, a subida em força das extremas-direitas, racistas, demagógicas e sempre cúmplices da ordem estabelecida.



Neste contexto, a crise que a zona euro atravessa actualmente deve ser entendida como em íntima ligação com as próprias bases do processo da construção europeia. Acreditou-se ser possível criar uma moeda única sem Estado, mesmo o de uma Europa política que na verdade não existe. Havia aqui um erro de base nesta Europa que pretendia fazer convergir à força economias extremamente diferentes sem o reforço de instituições políticas à escala regional nem a promoção de uma harmonização social nivelando por cima. É assim que, de forma lógica, esta "má Europa", voltada contra os povos, anti-social e anti-democrática, é cada vez mais abertamente rejeitada.



Continuar a acreditar num novo "compromisso keynesiano" constituiria, entretanto, alimentar ilusões. O anterior, formulado após a Segunda Guerra mundial, não foi concedido pelos grandes capitalistas, foi alcançado pelas lutas populares, múltiplas e convergentes. Hoje a alta finança, que retomou o poder, não está disposta a nenhuma concessão. O keynesianismo – que poderia de facto desejar-se – não possui nem realidade nem futuro. Doravante, são os oligopólios financeiros quem domina e quem dita a sua lei aos Estados, para fixar as taxas de juro, a criação de moeda ou, quando tal é necessário, para nacionalizar.



Ruptura?



Perante a crise sistémica e os perigos que ela comporta – incluindo o de ver chegar ao poder extremistas de direita – é tempo de as forças progressistas na Europa retomarem a ofensiva, formulando de novo propostas alternativas para uma esquerda radical e internacionalista, orientadas no sentido da reconstrução de projectos sociais e de solidariedades voltadas para o Sul em luta.



Entre os debates urgentes a iniciar figura o da saída da zona euro, nomeadamente para a Europa do Sul, sob certas condições e segundo diferentes modalidades. É evidente que uma tal decisão seria difícil de assumir pelos pequenos países como a Grécia. Constituiria uma falsidade afirmar que desta opção de ruptura não resultariam dificuldades. Mas constituiria igualmente uma falsidade afirmar-se que uma tal via conduziria à catástrofe.



E isto por três razões pelo menos. Em primeiro lugar, há importantes economias europeias que não estão na zona euro, como o Reino Unido. Depois, há países que foram violentamente atingidos pela crise e que estão em vias de recuperar, fora da zona euro, nomeadamente a Islândia. Por fim, e fora do continente europeu, há países do Sul que ousaram a decisão de romper com as regras do sistema monetário internacional actual sem que de tal decisão decorresse qualquer situação de caos. Muito pelo contrário, tem sido precisamente essa via de ruptura – temporária – com os dogmas neoliberais que lhes tem permitido autonomizar-se e recuperar.



Que lições retirar do Sul?



Numerosas experiências recentes a Sul mostraram que a reconquista de elementos de soberania nacional – monetária, entre outras – e o voluntarismo político perante os diktat dos mercados financeiros abriram margens de manobra que permitiram a esses países sair de situações económicas dramáticas provocadas em larga medida pelo próprio funcionamento – injusto e inaceitável – do sistema capitalista mundial. Pensamos aqui, por exemplo, no processo de "desdolarização" em Cuba; ou no distanciamento da Venezuela em relação ao Fundo Monetário Internacional; ou ainda na criação do Banco do Sul (Bancosur), envolvendo países da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) como a Bolívia e outros, incluindo o Brasil. Mas pode igualmente citar-se o caso de um país com um governo menos radical como a Argentina, que em finais de 2001 declarou a suspensão de pagamentos e que retomou com bastante rapidez o crescimento, sem que tenha ficado isolado em relação as ligações internacionais.



Suspensão de pagamentos, desvalorização da moeda e plano de reconversão da dívida foram as medidas que salvaram a Argentina do desastre neoliberal. Não há dúvida que uma saída do euro seria mais difícil para um país como a Grécia, que possui uma base produtiva e exportadora muito mais fraca do que a da Argentina (que assenta sobre a agro-indústria e a energia); mas certamente que daí não resultaria o "fim do mundo" para o seu povo, como insistem em anunciar os media dominantes. Uma tal decisão é difícil de tomar, tendo em conta as contas públicas deficitárias e o risco de fuga de capitais; mas ela parece doravante necessária como forma de saída da armadilha neoliberal – e isto antes que a Alemanha decida ela própria a exclusão desse país!



Pensemos igualmente no Equador, cujo governo realizou uma auditoria à sua dívida externa, anulou as dívidas "odiosas" (ou seja, ilegais e/ou ilegítimas), utilizou a suspensão dos reembolsos para reduzir o peso da dívida pública e libertou dessa forma recursos para as políticas sociais e para as infraestruturas. Em todas estas experiências, em que não se verificou qualquer catástrofe, a reapropriação por parte do Estado do seu poder de decisão política sobre a economia permitiu a cada país libertar-se do atoleiro em que estava mergulhado. Como foi o caso da Malásia, depois da crise asiática de 1998, quando o governo (que não era "de esquerda") colocou limites às imposições do FMI e conduziu a política anti-crise que lhe pareceu mais conveniente.



E porque não, então, na Europa? É certo que as situações diferem de continente para continente, mas as alternativas existem, sob a forma de transições pós-capitalistas, democráticas e sociais, solidárias com o Sul. O que é necessário não é a elaboração de soluções miraculosas ou prontas-a-usar, mas o reabrir dos espaços de debate à esquerda. É portanto mais do que tempo de falar, finalmente, sem tabus nem complexos, de soluções anti-crise colocadas ao serviço dos povos europeus: saída controlada da zona euro, desvalorização monetária (ou de uma eventual nova moeda comum), restabelecimento do controlo das variações dos fluxos financeiros, redefinição do papel político dos bancos centrais, nacionalização do sistema bancário e de certos sectores estratégicos da economia, anulação parcial das dívidas públicas, redistribuição acrescida da riqueza, reconstrução dos serviços públicos, desenvolvimento da participação popular, mas também o relançamento de uma regionalização europeia progressista e aberta ao Sul… Porque, na verdade, são os povos que são soberanos, não as dívidas.





29/Fevereiro/2012

[*] Economista, Investigador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)



Do mesmo autor:



Cuba e o projecto comunista

A propósito dos motins nos subúrbios franceses

Crise financeira ou... de superprodução?

As ideias feitas e a verdade escondida sobre Cuba

Depois do não francês

Os Fórums de Mumbai 2004: Que lições tirar?



O original encontra-se em http://www.granma.co.cu/2011/12/02/interna/artic01.html ,

a versão em português foi extraída de http://www.odiario.info/?p=2397



Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

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Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

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Pupis

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Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

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Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

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Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

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Roma-Fonte Trévis

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Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

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Grécia

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Acrópole

Grécia

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Viagem à Grécia

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NOSTALGIA

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CLAUSTROFOBIA

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