sábado, 2 de junho de 2012
A política da linguagem e a linguagem da regressão política
por James Petras
O capitalismo e os seus defensores mantêm a dominação através dos "recursos materiais" sob o seu comando, especialmente o aparelho de estado, e suas empresas produtivas, financeiras e comerciais, bem como através da manipulação da consciência popular via ideólogos, jornalistas, académicos e publicitários que fabricam os argumentos e a linguagem para enquadrar as questões do dia.
Hoje as condições materiais para a vasta maioria dos trabalhadores deterioram-se drasticamente pois a classe capitalista descarrega todo o fardo da crise e da recuperação dos seus lucros sobre as costas das classes assalariadas. Um dos aspectos gritantes deste contínuo rebaixamento de padrões de vida é a ausência até agora de um grande levantamento social. A Grécia e a Espanha, com mais de 50% de desemprego na faixa etária dos 16-24 anos e aproximadamente 25% de desemprego geral, experimentaram uma dúzia de greves gerais e numerosos protestos nacionais com muitos milhões de pessoas; mais não provocou qualquer mudança real de regime ou de políticas. Os despedimentos em massa, os salários penosos, os cortes em pensões e serviços sociais continuam. Em outros países, como a Itália, França e Inglaterra, protestos e descontentamento manifestam-se na arena eleitoral, com governantes afastados e substituídos pela oposição tradicional. Mas no decorrer da agitação social e da profunda erosão sócio-económica das condições económicas e de vida, a ideologia dominante que informa os movimentos, sindicatos e oposição política é reformista: Apelos para defender benefícios sociais existentes, aumentar despesas públicas e investimentos, pela expansão do papel do estado onde a actividade do sector privados deixou de investir ou empregar. Por outras palavras, a esquerda propõe conservar um passado em que o capitalismo estava arreado com o estado previdência.
O problema é que este "capitalismo do passado" foi-se e um novo capitalismo mais virulento e intransigente emergiu forjando uma nova estrutura mundial e um poderoso aparelho de estado obstinado e imune a todos os apelos por "reforma" e reorientação. A confusão, frustração e má direcção da oposição popular de massa é, em parte, devido à adopção por escritores, jornalistas e académicos de esquerda dos conceitos e linguagem adoptados pelos seus adversários capitalistas: linguagem concebida para obscurecer as verdadeiras relações sociais de exploração brutal, o papel central das classes dominantes na reversão de ganhos sociais e as ligações profundas entre a classe capitalista e o estado. Publicitários, académicos e jornalistas elaboraram toda uma litania de conceitos e termos que perpetuam o domínio capitalista e desviam seus críticos e suas vítimas dos que perpetram o seu drástico deslizamento rumo ao empobrecimento em massa.
Mesmo quando formulam suas críticas e denúncias, os críticos do capitalismo utilizam a linguagem e os conceitos dos seus apologistas. Na medida em que a linguagem do capitalismo entrou no linguajar geral da esquerda, a classe capitalista estabeleceu a hegemonia ou dominação sobre os seus antigos adversários. Pior, a esquerda, ao combinar alguns dos conceitos básicos do capitalismo com a crítica aguda, cria ilusões acerca da possibilidade de reformar "o mercado" para servir objectivos populares. Isto faz com que falhe a identificação das ideias mestras das forças sociais que devem ser expulsas dos comandos da economia e do imperativo de desmantelar o estado dominado pela classe. Enquanto a esquerda denuncia a crise capitalista e os salvamentos do estado, a sua própria pobreza de pensamento mina o desenvolvimento da acção política de massa. Neste contexto a "linguagem" da ocultação torna-se uma "força material" – um veículo do poder capitalista, cuja utilização primária é desorientar e desarmar seus críticos intelectuais através do uso de termos, estruturas conceptuais e linguagem que dominam a discussão da crise capitalista.
Eufemismos chave ao serviço da ofensiva capitalista
Os eufemismos têm um duplo significado: O que os termos implicam (connote) e o que eles realmente significam. Concepções eufemísticas sob o capitalismo implicam uma realidade favorável ou comportamento aceitável e actividade totalmente dissociada do engrandecimento da riqueza da elite e da concentração de poder e privilégio. Os eufemismos disfarçam o impulso das elites do poder para impor medidas específicas de classe e para reprimir sem serem adequadamente identificados, responsabilizados e opostos pela acção popular de massa.
O eufemismo mais comum é a palavra "mercado", a qual é dotada de características e poderes humanos. Como tal, dizem-nos que "o mercado exige cortar salários" desligado da classe capitalista. Mercados, intercâmbio de mercadorias ou compra e venda de bens, têm existido há milhares de anos em diferentes sistemas sociais em contextos altamente diferenciados. Eles têm sido globais, nacionais, regionais e local. Envolvem diferentes actores sócio-económicos e compreendem unidades económicas muito diferentes, as quais vão desde casas comerciais gigantes promovidas pelo Estado até ao nível de aldeias camponesas de semi-subsistência e praças de cidades. Existiram "mercados" em todas as sociedades complexas: escravocratas, feudais, mercantis e em primitivas ou tardias sociedades capitalistas competitivas, monopolistas industriais e financeiras.
Ao discutir e analisar "mercados" e compreender as transacções (quem beneficia e quem perde), deve-se claramente identificar as classes sociais que dominam as transacções económicas. Escrever na generalidade acerca de "mercados" é enganoso porque os mercados não existem independentemente das relações sociais que definem o que é produzido e vendido, como é produzido e que configurações de classe modelam o comportamento dos produtores, vendedores e do trabalho. A realidade do mercado de hoje é definida por corporações e bancos multinacionais gigantescos, os quais dominam o trabalho e os mercados de commodities. Escrever de "mercados" como se operassem numa esfera acima e para além das brutais desigualdades de classe é esconder a essência das relações de classe contemporâneas.
Fundamental para qualquer entendimento, mas ignorado pela discussão contemporânea, é o poder incontestado dos proprietários capitalistas dos meios de produção e de distribuição, a propriedade capitalista da publicidade, os banqueiros capitalistas que concedem ou negam crédito e os responsáveis do estado nomeados pelos capitalistas que "regulamentam" ou desregulamentam relações de troca. Os resultados das suas políticas são atribuídos às eufemísticas exigências do "mercado" as quais parecem estar divorciadas da realidade brutal. Portanto, como insinuam os propagandistas, ir contra "o mercado" é opor-se ao intercâmbio de bens. Isto é claramente absurdo. Em contraste, identificar exigências capitalistas sobre o trabalho, incluindo reduções em salários, bem-estar e segurança, é confrontar uma forma exploradora específica de comportamento de mercado onde capitalistas procuram ganhar lucros mais altos contra os interesses e o bem-estar da maioria dos trabalhadores assalariados.
Ao confundirem relações de mercado exploradoras sob o capitalismo com mercados em geral, os ideólogos alcançam vários resultados: Eles disfarçam o papel principal dos capitalistas quando evocam uma instituição com conotações positivas, isto é, um "mercado" onde pessoas compram bens de consumo e "socializam-se" com amigos e conhecidos. Por outras palavras, quando "o mercado", o qual é retratado como um amigo e benfeitor da sociedade, impõe políticas presumivelmente penosas é para o bem-estar da comunidade. Pelo é o que os propagandistas dos negócios querem que o público acredite ao mercadejarem sua virtuosa imagem do "mercado"; eles mascaram o comportamento predatório do capital na caça por maiores lucros.
Um dos eufemismos mais comuns lançado em meio a esta crise económica é "austeridade", um termo utilizado para encobrir as duras realidades de cortes draconianos em salários, pensões e bem-estar público e o aumento drástico de impostos regressivos (IVA). Medidas de "austeridade" significam políticas para proteger e mesmo aumentar subsídios do estado a negócios, criar lucros mais altos para o capital e maiores desigualdades entre os 10% do topo e os 90% da base. "Austeridade" implica auto-disciplina, simplicidade, parcimónia, poupança, responsabilidade, limites em luxos e gastos supérfluos, evitar a satisfação imediata em benefício da segurança futura – uma espécie de calvinismo colectivo. A conotação da palavra é o sacrifício compartilhado hoje para bem-estar futuro de todos.
Contudo, na prática "austeridade" descreve políticas que são concebidas pela elite financeira para implementar reduções no padrão de vida de uma classe específica e em serviços sociais (tais como saúde e educação) disponíveis para trabalhadores e empregados assalariados. Significa que fundos públicos podem ser desviados numa extensão ainda maior para pagar altos juros a possuidores de títulos ricos enquanto sujeitam a política pública aos ditames dos senhores do capital financeiro.
Ao invés de falar de "austeridade", com sua conotação de severa auto-disciplina, os críticos de esquerda deveriam descrever claramente as políticas da classe dominante contra o trabalho e as classes assalariadas, as quais aumentam desigualdades e concentram no topo ainda mais riqueza e poder. Políticas de "austeridade" são portanto uma expressão de como as classes dominantes utilizam o estado para comutar o fardo do custo da sua crise económica para cima do trabalho.
Os ideólogos das classes dominantes apropriaram-se de conceitos e termos, os quais a esquerda originalmente utilizou para o avanço de melhorias em padrões de vida e que se voltaram contra si. Dois destes eufemismos, tomados da esquerda, são "reforma" e "ajustamento estrutural". "Reforma, durante muitos séculos, referia-se a mudanças, as quais diminuíam desigualdades e aumentavam a representação popular. "Reformas" eram mudanças positivas que promoviam o bem-estar público e a restrição do abuso de poder por regimes oligárquicos ou plutocráticos. Ao longo das últimas três décadas, contudo, importantes académicos, economistas, jornalistas e responsáveis da banca internacional subverteram o significado de "reforma" transformando-o no seu oposto: agora refere-se à eliminação de direitos do trabalho, ao fim da regulamentação pública do capital e à redução de subsídios públicos que tornavam a alimentação e o combustível acessíveis aos pobres. No vocabulário capitalista de hoje "reforma" significa reverter mudanças progressistas e restaurar os privilégios de monopólios privados. "Reforma" significa acabar com a segurança de emprego e facilitar despedimentos maciços de trabalhadores pelo rebaixamento ou eliminação da indemnização por despedimento. "Reforma" já não significa mudanças sociais positivas; agora significa reverter aquelas mudanças arduamente conquistas e restaurar o poder irrestrito do capital. Significa um retorno à fase primitiva e mais brutal do capital, antes de existirem organizações de trabalhadores e quando a luta de classe era suprimida. Portanto "reforma" agora significa restaurar privilégios, poder e lucro para os ricos.
De um modo semelhante, os cortesãos linguísticos da profissão económica puseram o termo "estrutural", como em "ajustamento estrutural", ao serviço do poder desenfreado do capital. Ainda na década de 1970 a mudança "estrutural" referia-se à redistribuição da terra dos grandes latifundiários para os destituídos de terra; uma mudança de poder dos plutocratas para as classes populares. "Estruturas" referia-se à organização do poder privado concentrado no estado e na economia. Hoje, contudo, "estrutura" refere-se às instituições e políticas públicas, as quais tiveram origem nas lutas do trabalho e da cidadania para proporcionar segurança social, para proteger o bem-estar, saúde e aposentação de trabalhadores. "Mudanças estruturais" são agora o eufemismo para esmagar aquelas instituições públicas, acabar com os constrangimentos ao comportamento predatório do capital e destruir a capacidade do trabalho para negociar, lutar ou preservar seus avanços sociais.
O termo "ajustamento", como em "ajustamento estrutural" (AS), é em si próprio um eufemismo suave que implica sintonia fina, a modulação cuidadosa de instituições e políticas públicas que apoiam a saúde e o equilíbrio. Mas, na realidade, "ajustamento estrutural" representa um ataque frontal ao sector público e um desmantelamento geral de legislação protectora e de agências públicas organizadas para proteger o trabalho, o ambiente e os consumidores. "Ajustamento estrutural" mascara um assalto sistemático aos padrões de vida do povo em benefício da classe capitalista.
A classe capitalista tem cultivado uma safra de economistas e jornalistas que apregoam políticas brutais em linguagem suave, evasiva e enganosa a fim de neutralizar a oposição popular. Infelizmente, muito dos seus críticos "de esquerda" tendem a apoiar-se na mesma terminologia.
Dada a corrupção generalizada da linguagem, tão difusa nas discussões contemporâneas acerca da crise do capitalismo, a esquerda deveria cessar de se apoiar neste conjunto enganoso de eufemismos apropriados pela classe dominante. É frustrante ver quão facilmente as expressões seguintes entram no nosso discurso:
"Disciplina de mercado" – O eufemismo "disciplina" denota uma fortaleza de carácter séria e consciente em face de desafios em contraposição a comportamento irresponsável, escapista. Na realidade, quando vai a par com "mercado", refere-se a capitalistas a aproveitarem-se de trabalhadores desempregados e utilizarem sua influência política e o poder de despedirem massas de trabalhadores e intimidar os empregados remanescentes para maior exploração e excesso de trabalho, produzindo portanto mais lucro por menos pagamento. Ela também cobre a capacidade de grandes senhores capitalistas elevarem sua taxa de lucro cortando os custos sociais de produção, tais como protecção ambiental e do trabalhador, cobertura de saúde e pensões.
"Choque de mercado" – Refere-se a capitalistas ocupados com maciços e abruptos despedimentos brutais, cortes em salários e eliminação de planos de saúde e pensões a fim de melhorar cotações de acções, aumentar lucros e assegurar maiores bónus para os patrões. Ao ligar o termo suave e neutro de "mercado" com "choque", os apologistas do capital disfarçam a identidade dos responsáveis por tais medidas, suas consequências brutais e os imensos benefícios desfrutados pela elite.
"Exigências do mercado" – Esta frase eufemística é destinada a antropomorfizar uma categoria económica, afastar a crítica de proprietários reais de carne e osso, dos seus interesses de classe e do seu despótico estrangulamento do trabalho. Ao invés de "exigências de mercado", a frase deveria ser lida: "a classe capitalista ordena aos trabalhadores que sacrifiquem seus próprios salários e saúde para assegurar mais lucro para as corporações multinacionais" – um conceito claro que provavelmente despertará a ira daqueles adversamente atingidos.
"Livre empresa" – Um eufemismo que é a combinação de dois conceitos reais: empresa privada para lucro privado e competição livre. Ao eliminar a imagem subjacente do ganho privado para os poucos contra o interesse dos muitos, os apologistas do capital inventaram um conceito que enfatiza as virtudes individuais de "empresa" e "liberdade" em oposição aos vícios económicos reais da cobiça e da exploração.
"Mercado livre" – Um eufemismo que implica competição livre, justa e igual em mercados não regulados encobrindo a realidade da dominação de mercado por monopólios e oligopólios dependentes de maciços salvamentos do estado em tempos de crise capitalista. "Livre" refere-se especificamente à ausência de regulamentações públicas e intervenção do estado para defender a segurança dos trabalhadores bem como a do consumidor e a protecção ambiental. Por outras palavras, "liberdade" mascara a destruição desumana da ordem cívica por capitalistas privados através do seu exercício desenfreado do poder económico e político. "Mercado livre" é o eufemismo para o domínio absoluto de capitalistas sobre os direitos e meios de vida de milhões de cidadãos, na essência uma verdadeira negação da liberdade.
"Recuperação económica" – Esta frase eufemística significa a recuperação de lucros pelas grandes corporações. Ela disfarça a ausência total de recuperação de padrões de vida para as classes trabalhadora e média, a reversão de benefícios sociais e as perdas económicas de detentores de hipotecas, devedores, os desempregados a longo prazo e proprietários de pequenos negócios em bancarrota. O que é encoberto na expressão "recuperação económica" é como a pauperização em massa se torna uma condição chave para a recuperação de lucros corporativos.
"Privatização" – O termo descreve a transferência de empresas públicas, habitualmente aquelas lucrativas, para capitalistas de grande escala privados, bem conectados, a preços bem abaixo do seu valor real, levando à perda de serviços públicos, emprego público estável e custos mais elevados para os consumidores pois os novos proprietários privados elevam preços e despedem trabalhadores – tudo em nome de outro eufemismo: "eficiência".
"Eficiência" – Eficiência aqui refere-se apenas ao balanço de uma empresa; não reflecte os custos pesados da "privatização" arcados por sectores relacionados da economia. Exemplo: "privatizações" dos transportes aumentam custos de negócios a montante a jusante tornando-os menos competitivos em comparação com competidores em outros países; "privatização" elimina serviços em regiões que são menos lucrativas, levando ao colapso económico local e ao isolamento dos mercados nacionais. Frequentemente, responsáveis públicos, que estão alinhados com capitalistas privados, desinvestem deliberadamente em empresas públicas e nomeiam compadres políticos incompetentes como parte da política clientelista, a fim de degradar serviços e fomentar descontentamento público. Isto cria uma opinião pública favorável a "privatização" da empresa. Por outras palavras, a "privatização" não é um resultado das ineficiências inerentes das empresas públicas, como os ideólogos do capital gostam de argumentar, mas um acto político deliberado destinado o ganho do capital privado à custa do bem-estar público.
Conclusão
Linguagem, conceitos e eufemismos são armas importantes na luta de classe "dos de cima" concebidos por jornalistas e economistas capitalistas para maximizar a riqueza e o poder do capital. Na medida em que críticos progressistas e de esquerda adoptam estes eufemismos e seu quadro de referência, as críticas e alternativas que propõem são limitadas pela retórica do capital. Colocar "aspas" em torno dos eufemismos pode ser um sinal de desaprovação mas isto não promove o quadro analítico diferente que é necessário para o êxito da luta de classe dos "de baixo". Igualmente importante, deixa de lado a necessidade de uma ruptura fundamental com o sistema capitalista incluindo sua linguagem corrompida e seus conceitos enganosos. Os capitalistas subverteram em grande medida ganhos fundamentais da classe trabalhadora e estamos a cair outra vez em direcção ao domínio absoluto do capital. Isto deve relançar a questão de uma transformação socialista do estado, da economia e da estrutura de classe. Uma parte integral desse processo deve a rejeição total dos eufemismos utilizados pelos ideólogos capitalistas e a sua substituição sistemática por termos e conceitos que verdadeiramente reflictam a implacável realidade, que claramente identifiquem os perpetradores deste declínio e que definam as agências sociais para a transformação política.
18/Maio/2012
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=1898
terça-feira, 29 de maio de 2012
Vergonha da Europa
por Günter Grass [*]
Tu te afastas do país que foi o teu berço,
próximo do caos, porque o mercado não é justo.
Ao procurar a alma, o que encontrou
é agora considerado sucata.
Como um devedor atado nu ao pelourinho, um país sofredor
deve agradecer o que tu dizes.
A pobreza condenou o país cujas riquezas
adornam museus: obtidas com o teu saqueio.
Com a força dos braços o bem-aventurado país das ilhas
devastado, usava o uniforme de Hölderlin na tua mochila.
Mal tolerado país cujos coronéis vossos
outrora foram tolerados como um aliado.
Perdem direito ao país no qual o teu poder de parceiro legal
apertava o teu cinto cada vez com mais força.
Antígona desafia-o ao vestir de negro e por todo o país
roupas de luto, o povo que tu hospedas.
No entanto, o país tem de despertar o respectivo Creso
de todos aqueles brilhos dourados acumulados na tuas arcas.
Saúde finalmente, bebam! clama a claque dos Comissários
mas irado está Sócrates cujo cálice está cheio até à borda.
A amaldiçoar no coro, o que é característico de vós, os deuses,
exigirão repudiar o Teu Olimpo.
Tu vais definhar privada de alma
sem o país que te concebeu, tu, Europa.
[*] http://pt.wikipedia.org/wiki/Günter_Grass
O original encontra-se em www.sueddeutsche.de/ . Tradução automática do Google, com correcções (resistir.info poderá substituí-la quando dispuser de uma melhor).
Este poema encontra-se em http://resistir.info/ .
domingo, 27 de maio de 2012
FÁBULAS
FÁBULAS - A arte da guerra
Há muitos milhares de anos a China estava dividida em diversos senhores da guerra. Os conflitos eram permanentes e os consensos impossíveis. Os campos cultivados pelos camponeses eram devastados pelas constantes incursões guerreiras, saqueadas as colheitas, exterminados os jovens que, escondidos nas serranias, se recusavam a militar nos exércitos de bandidos, raptadas as mulheres em idade fértil, espezinhados pelas patas da cavalaria os anciãos que não queriam abandonar as suas choupanas. A luz que antes iluminava as planícies dera lugar às trevas. Sombrias veredas, lodosos os rios, arruinadas as fábricas, esventrados os barcos dos pescadores, cheios os templos de gentes que temiam que o futuro fosse ainda pior que o presente.
Ora, sucedeu que um pequeno Estado viu-se cercado por um poderoso exército coligado de senhores da guerra. O território não era rico de recursos naturais, perdera pelos sucessivos saques muitos dos melhores dos seus meios de subsistência e, mesmo assim, era cobiçado.
Os exércitos invasores acamparam na fronteira, montaram tendas de campanha, acenderam fogueiras e banquetearam-se três dias e três noites, com o propósito de provocar o desespero nos sitiados, o desânimo, a resignação. Entrementes, introduziram mensageiros disfarçados de autóctones que difundiram boatos, mentiras e ilusões. De facto, os chefes dos exércitos invasores, ao contrário do habitual, não quiseram perder um único homem em batalhas inúteis. Os habitantes haviam de se render pelo espectro do medo que rondava por toda a parte. Na realidade os senhores da guerra contavam com a conivência da corte do pequeno reino sitiado. A corte manteve-se reunida permanentemente para encontrar uma saída: encontravam-se cercados e somente uma aliança com os invasores se mostrava realista, ou, pelo menos, inevitável. Era assim que pensavam o rei e os seus acólitos. Pregavam a submissão voluntária, emitiam decretos que admitiam como verdadeiras as mentiras dos saqueadores que já se impacientavam.
Após acaloradas discussões a corte, ao arrepio dos mais resistentes, decidiu por fim lançar um engodo que abrisse o apetite dos sitiantes, planeando evitar uma guerra mortífera e ganhar o mais que possível fosse. Uma longa fila de carregadores, escoltados por guardas, foi recolher os tesouros dos palácios reais, aproveitou-se a calada da noite, o negrume das trevas, propagou-se que os tesouros não eram do povo mas da corte e que, portanto, não havia razão alguma para revoltas, e transportou-se o ouro e as pedras preciosas para uma praça ao pé da fronteira, donde se era visto pelos invasores, visto e ouvido. O que fizeram então o rei e os seus acólitos? Anunciaram que se iria realizar ali mesmo um leilão das maiores riquezas do reino, um leilão absolutamente livre, sem regras e sem regulamentações, sem taxas e alcavalas, do qual ficaria a ganhar quem fosse mais rápido. O que parecia uma tragédia, não era o que parecia. O que parecia um engodo, não era artimanha nenhuma. O pouco povo que assomou às janelas julgou-se a assistir a um espetáculo, com tambores e fogo de artifício. A mentira funcionava na perfeição, não do outro lado da fronteira, mas deste.
Evidentemente que quem chegou mais rapidamente foi a cavalaria poderosa dos exércitos invasores. Chegou arrogante e tranquila, arrematou por tuta e meia o grosso tesouro, recebeu os cumprimentos respeitosos do rei e o beija-mão dos acólitos e levantou as tendas de campanha, sem perder um único soldado.
Mais tarde escribas ao serviço da corte lavraram sábias sentenças sobre a arte da guerra desse rei que o povo rapidamente esqueceu. Ainda hoje podemos ler nesses velhíssimos pergaminhos como se pode ganhar uma guerra, perdendo-a.
Nozes Pires
Há muitos milhares de anos a China estava dividida em diversos senhores da guerra. Os conflitos eram permanentes e os consensos impossíveis. Os campos cultivados pelos camponeses eram devastados pelas constantes incursões guerreiras, saqueadas as colheitas, exterminados os jovens que, escondidos nas serranias, se recusavam a militar nos exércitos de bandidos, raptadas as mulheres em idade fértil, espezinhados pelas patas da cavalaria os anciãos que não queriam abandonar as suas choupanas. A luz que antes iluminava as planícies dera lugar às trevas. Sombrias veredas, lodosos os rios, arruinadas as fábricas, esventrados os barcos dos pescadores, cheios os templos de gentes que temiam que o futuro fosse ainda pior que o presente.
Ora, sucedeu que um pequeno Estado viu-se cercado por um poderoso exército coligado de senhores da guerra. O território não era rico de recursos naturais, perdera pelos sucessivos saques muitos dos melhores dos seus meios de subsistência e, mesmo assim, era cobiçado.
Os exércitos invasores acamparam na fronteira, montaram tendas de campanha, acenderam fogueiras e banquetearam-se três dias e três noites, com o propósito de provocar o desespero nos sitiados, o desânimo, a resignação. Entrementes, introduziram mensageiros disfarçados de autóctones que difundiram boatos, mentiras e ilusões. De facto, os chefes dos exércitos invasores, ao contrário do habitual, não quiseram perder um único homem em batalhas inúteis. Os habitantes haviam de se render pelo espectro do medo que rondava por toda a parte. Na realidade os senhores da guerra contavam com a conivência da corte do pequeno reino sitiado. A corte manteve-se reunida permanentemente para encontrar uma saída: encontravam-se cercados e somente uma aliança com os invasores se mostrava realista, ou, pelo menos, inevitável. Era assim que pensavam o rei e os seus acólitos. Pregavam a submissão voluntária, emitiam decretos que admitiam como verdadeiras as mentiras dos saqueadores que já se impacientavam.
Após acaloradas discussões a corte, ao arrepio dos mais resistentes, decidiu por fim lançar um engodo que abrisse o apetite dos sitiantes, planeando evitar uma guerra mortífera e ganhar o mais que possível fosse. Uma longa fila de carregadores, escoltados por guardas, foi recolher os tesouros dos palácios reais, aproveitou-se a calada da noite, o negrume das trevas, propagou-se que os tesouros não eram do povo mas da corte e que, portanto, não havia razão alguma para revoltas, e transportou-se o ouro e as pedras preciosas para uma praça ao pé da fronteira, donde se era visto pelos invasores, visto e ouvido. O que fizeram então o rei e os seus acólitos? Anunciaram que se iria realizar ali mesmo um leilão das maiores riquezas do reino, um leilão absolutamente livre, sem regras e sem regulamentações, sem taxas e alcavalas, do qual ficaria a ganhar quem fosse mais rápido. O que parecia uma tragédia, não era o que parecia. O que parecia um engodo, não era artimanha nenhuma. O pouco povo que assomou às janelas julgou-se a assistir a um espetáculo, com tambores e fogo de artifício. A mentira funcionava na perfeição, não do outro lado da fronteira, mas deste.
Evidentemente que quem chegou mais rapidamente foi a cavalaria poderosa dos exércitos invasores. Chegou arrogante e tranquila, arrematou por tuta e meia o grosso tesouro, recebeu os cumprimentos respeitosos do rei e o beija-mão dos acólitos e levantou as tendas de campanha, sem perder um único soldado.
Mais tarde escribas ao serviço da corte lavraram sábias sentenças sobre a arte da guerra desse rei que o povo rapidamente esqueceu. Ainda hoje podemos ler nesses velhíssimos pergaminhos como se pode ganhar uma guerra, perdendo-a.
Nozes Pires
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Porquê o socialismo?
Para a História do Socialismo
Documentos
www.hist-socialismo.net
Tradução do inglês por Anabela Magalhães, revisão e edição por CN, 08.03.2012
(original inglês em: http://www.monthlyreview.org/598einstein.php)
_____________________________
Porquê o Socialismo?1
Albert Einstein
Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e
sociais exprimir opiniões a propósito do socialismo? Eu creio que sim, por várias
razões.
Consideremos primeiro a questão do ponto de vista do conhecimento científico.
Pode parecer que não há diferenças metodológicas fundamentais entre a
astronomia e a economia: em ambos os campos os cientistas procuram descobrir
leis com aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de modo a tornar
a interligação destes fenómenos tão claramente compreensível quanto possível.
Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis
gerais no campo da economia é complicada pela circunstância de que os fenómenos
económicos observados são com frequência influenciados por muitos outros
factores, que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência
acumulada desde o início do chamado período civilizado da história da humanidade
– como é bem conhecido – tem sido largamente influenciada e limitada por causas
que não são, de modo nenhum, exclusivamente económicas por natureza. Por
exemplo, a maior parte dos principais Estados ficou a dever a sua existência à
conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente,
como a classe privilegiada do país conquistado. Ficaram com o monopólio da
propriedade da terra e nomearam um clero entre as suas próprias fileiras. Os
sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade
numa instituição permanente e criaram um sistema de valores pelos quais, desde
então, o povo se tem guiado, em grande medida inconscientemente, no seu
comportamento social.
Mas a tradição histórica, digamos, faz parte do passado; em parte alguma se
superou verdadeiramente a fase do desenvolvimento humano, que Thorstein
Veblen2 chamou de «predatória». Os factos económicos observáveis pertencem a
essa fase e mesmo as leis que podemos determinar a partir deles não são aplicáveis
1 Artigo escrito por Albert Einstein especialmente para o primeiro número da revista norteamericana
Monthly Review, Nova Iorque, Maio de 1949. (Texto traduzido e publicado pelo
site resistir.info, em 4.07.2002: resistir.info/mreview/porque_o_socialismo.html. (N. Ed.)
2 Veblen, Thorstein Bunde (1857-1929), economista e sociólogo norte-americano,
segundo o qual as instituições da economia são influenciadas por dois instintos de base, o
instinto artesão e o instinto predador. Pelo primeiro, o homem enriquece-se pelo seu
trabalho, enquanto pelo segundo procura desapossar os outros dos seus bens e dos
resultados do seu trabalho. (N. Ed.).
2
a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente
superar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência
económica no seu estado actual pouca luz pode lançar sobre a sociedade socialista
do futuro.
Em segundo lugar, o socialismo orienta-se por um objectivo ético-social. A
ciência, contudo, não pode criar objectivo e, muito menos, incuti-los nos seres
humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir
determinados objectivos. Mas os próprios objectivos são concebidos por
personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não forem nadosmortos,
mas vitais e vigorosos – são adoptados e levados avante por aqueles muitos
seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da
sociedade.
Por estas razões devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os
métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos
presumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre
questões que afectam a organização da sociedade.
Inúmeras vozes têm afirmado desde há algum tempo que a sociedade humana
atravessa uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico
deste tipo de situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em
relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu
pensamento, permitam-me que refira aqui uma experiência pessoal. Falei
recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra,
que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e
observei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse
perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me:
«Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?»
Estou certo de que há um século ninguém teria feito tão ligeiramente uma
afirmação deste tipo. É uma afirmação de um homem que se esforçou em vão para
atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de o
conseguir. É a expressão de uma solidão e um isolamento penosos de que tanta
gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?
É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com algum grau de
segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente
do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e
obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.
O homem é simultaneamente um ser solitário e um ser social. Enquanto ser
solitário, tenta proteger a sua própria existência e dos que lhe são próximos,
satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas.
Enquanto ser social procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus
semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar
as suas condições de vida. É apenas a existência destes esforços diversos e
frequentemente conflituosos que explica o carácter especial do ser humano, e a sua
combinação específica determina em que medida um indivíduo pode alcançar um
equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente
possível que a força relativa destes dois impulsos seja, em grande parte,
determinada por hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emerge é
largamente formada pelo ambiente em que o indivíduo se encontra por acaso
durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela
3
tradição dessa sociedade, e pela apreciação que faz de determinados tipos de
comportamento. O conceito abstracto de «sociedade» significa para o ser humano
individual as soma total das suas relações directas e indirectas com os seus
contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indivíduo é capaz
de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na
sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou
compreendê-lo, fora do quadro da sociedade. É a «sociedade» que lhe fornece
comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, a linguagem, formas de pensamento
e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível pelo
labor e realizações de muitos milhões de indivíduos no passado e no presente, que
se escondem sob a pequena palavra «sociedade».
É evidente, por conseguinte, que a dependência do indivíduo em relação à
sociedade é um facto natural que não pode ser abolido – tal como no caso das
formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas
e abelhas é estabelecido, nos mais ínfimos pormenores, por instintos hereditários
rígidos, o padrão social e o relacionamento dos seres humanos são muito variáveis e
susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o
dom da comunicação oral tornaram possíveis desenvolvimentos entre os seres
humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos
manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras
científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica, num certo sentido, como
pode o homem influenciar a sua vida através da sua própria conduta e como, neste
processo, o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.
Através da hereditariedade, o homem adquire à nascença uma constituição
biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais
que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire
uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e
através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, no
decurso do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a
relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos,
através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o
comportamento social dos seres humanos pode apresentar grandes diferenças, em
função dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que
predominam na sociedade. É nisto que podem assentar as suas esperanças aqueles
que se esforçam para melhorar a sorte do homem: os seres humanos não estão
condenados, por causa da sua constituição biológica, a aniquilarem-se uns aos
outros ou à mercê de um destino cruel auto-infligido.
Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a
atitude cultural do homem para tornar a vida humana tão satisfatória quanto
possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há
determinadas condições que não podemos alterar. Como atrás mencionámos, a
natureza biológica do homem, para todos os fins práticos, não está sujeita à
mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos
últimos séculos criaram condições que se manterão. Em populações com uma
densidade relativamente elevada, que dispõem de bens indispensáveis à sua
existência, é absolutamente necessário haver uma divisão extrema do trabalho e um
aparelho produtivo altamente centralizado. O tempo em que os indivíduos ou
grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes – que
4
visto à distância parece tão idílico – pertence definitivamente ao passado. Não é
grande exagero dizer-se que a humanidade constitui já hoje uma comunidade
planetária de produção e consumo.
Chego agora ao ponto em que posso indicar sucintamente o que para mim
constitui a essência da crise do nosso tempo. Trata-se da relação do indivíduo com a
sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente que nunca da sua dependência
relativamente à sociedade. Mas não sente esta dependência como um bem positivo,
como um laço orgânico, como uma força protectora, mas antes como uma ameaça
aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua
posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas do seu ser estão constantemente
a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais
fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a
sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente
prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo
cândido, simples e não sofisticado da vida. O homem só pode encontrar sentido na
vida, curta e perigosa como é, através da sua devoção à sociedade.
A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como existe actualmente, é,
na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos diante de nós uma enorme
comunidade de produtores cujos membros procuraram incessantemente despojar
cada qual dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em
total conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é
importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade
produtiva necessária para produzir bens de consumo, bem como novos bens de
capital – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de
indivíduos.
Para simplificar, no debate que se segue, chamarei «operários» a todos aqueles
que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda
exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está
em posição de comprar a força de trabalho do operário. Ao utilizar os meios de
produção, o operário produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista.
O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o
que lhe é pago, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o
contrato de trabalho é «livre», o que o trabalhador recebe é determinado não pelo
valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pela
quantidade de força de trabalho de que o capitalista necessita em relação ao
número de operários que procuram emprego. É importante compreender que,
mesmo em teoria, o salário do operário não é determinado pelo valor do seu
produto.
O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da
concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico
e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção
maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é
uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente
controlado mesmo por uma sociedade que tem uma organização política
democrática. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são
escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados por
outras vias pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o
eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não
5
protegem suficientemente os interesses das camadas desfavorecidas da população.
Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam
inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação
(imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil para o cidadão, e na
maior parte dos casos completamente impossível, chegar a conclusões objectivas e
fazer uso inteligente dos seus direitos políticos.
A situação que prevalece numa economia baseada na propriedade privada do
capital caracteriza-se por dois princípios centrais: primeiro, os meios de produção
(capital) são privados e os detentores utilizam-nos da forma que lhes convém;
segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que neste sentido não existe uma
sociedade capitalista pura. Deve-se notar, em particular, que, através de longas e
duras lutas políticas, os trabalhadores conseguiram obter para certas categorias
deles formas melhoradas de «contrato de trabalho livre». Mas, vista no seu
conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo «puro».
A produção realiza-se tendo em vista o lucro e não o uso. Não há nenhuma
garantia de que todos aqueles que tenham capacidade e queiram trabalhar possam
encontrar emprego; existe quase sempre um «exército de desempregados». O
operário receia constantemente perder o seu emprego. E dado que os
desempregados e os operários mal pagos consomem pouco, a produção de bens de
consumo é restringida, e a consequência são grandes privações. O progresso
tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego em vez de um
aligeiramento da carga de trabalho para todos. O objectivo do lucro, em conjunto
com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na
acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A
concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e ao
estropiamento da consciência social dos indivíduos que mencionei atrás.
Considero este estropiamento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo.
Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. Uma atitude exageradamente
competitiva é incutida no aluno, que é educado para venerar o poder aquisitivo
como preparação para a sua futura carreira.
Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males,
nomeadamente através do estabelecimento de uma economia socialista,
acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta
economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados
de forma planificada. Uma economia planificada, que ajuste a produção às
necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que
podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A
educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas,
procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante
em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.
No entanto, é necessário lembrar que uma economia planificada não é ainda o
socialismo. Uma economia planificada pode ser acompanhada por uma completa
sujeição do indivíduo. A realização do socialismo exige a resolução de alguns
problemas políticos e sociais extremamente difíceis: como é possível, com uma
centralização em grande escala do poder económico e político, evitar que a
burocracia se torne omnipotente e arrogante? Como se pode proteger os direitos do
indivíduo e assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
6
A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância
na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre
e sem entraves destes problemas constitui um tabu poderoso, considero a fundação
desta revista como um serviço público importante.
Documentos
www.hist-socialismo.net
Tradução do inglês por Anabela Magalhães, revisão e edição por CN, 08.03.2012
(original inglês em: http://www.monthlyreview.org/598einstein.php)
_____________________________
Porquê o Socialismo?1
Albert Einstein
Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e
sociais exprimir opiniões a propósito do socialismo? Eu creio que sim, por várias
razões.
Consideremos primeiro a questão do ponto de vista do conhecimento científico.
Pode parecer que não há diferenças metodológicas fundamentais entre a
astronomia e a economia: em ambos os campos os cientistas procuram descobrir
leis com aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de modo a tornar
a interligação destes fenómenos tão claramente compreensível quanto possível.
Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis
gerais no campo da economia é complicada pela circunstância de que os fenómenos
económicos observados são com frequência influenciados por muitos outros
factores, que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência
acumulada desde o início do chamado período civilizado da história da humanidade
– como é bem conhecido – tem sido largamente influenciada e limitada por causas
que não são, de modo nenhum, exclusivamente económicas por natureza. Por
exemplo, a maior parte dos principais Estados ficou a dever a sua existência à
conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente,
como a classe privilegiada do país conquistado. Ficaram com o monopólio da
propriedade da terra e nomearam um clero entre as suas próprias fileiras. Os
sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade
numa instituição permanente e criaram um sistema de valores pelos quais, desde
então, o povo se tem guiado, em grande medida inconscientemente, no seu
comportamento social.
Mas a tradição histórica, digamos, faz parte do passado; em parte alguma se
superou verdadeiramente a fase do desenvolvimento humano, que Thorstein
Veblen2 chamou de «predatória». Os factos económicos observáveis pertencem a
essa fase e mesmo as leis que podemos determinar a partir deles não são aplicáveis
1 Artigo escrito por Albert Einstein especialmente para o primeiro número da revista norteamericana
Monthly Review, Nova Iorque, Maio de 1949. (Texto traduzido e publicado pelo
site resistir.info, em 4.07.2002: resistir.info/mreview/porque_o_socialismo.html. (N. Ed.)
2 Veblen, Thorstein Bunde (1857-1929), economista e sociólogo norte-americano,
segundo o qual as instituições da economia são influenciadas por dois instintos de base, o
instinto artesão e o instinto predador. Pelo primeiro, o homem enriquece-se pelo seu
trabalho, enquanto pelo segundo procura desapossar os outros dos seus bens e dos
resultados do seu trabalho. (N. Ed.).
2
a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente
superar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência
económica no seu estado actual pouca luz pode lançar sobre a sociedade socialista
do futuro.
Em segundo lugar, o socialismo orienta-se por um objectivo ético-social. A
ciência, contudo, não pode criar objectivo e, muito menos, incuti-los nos seres
humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir
determinados objectivos. Mas os próprios objectivos são concebidos por
personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não forem nadosmortos,
mas vitais e vigorosos – são adoptados e levados avante por aqueles muitos
seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da
sociedade.
Por estas razões devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os
métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos
presumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre
questões que afectam a organização da sociedade.
Inúmeras vozes têm afirmado desde há algum tempo que a sociedade humana
atravessa uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico
deste tipo de situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em
relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu
pensamento, permitam-me que refira aqui uma experiência pessoal. Falei
recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra,
que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e
observei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse
perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me:
«Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?»
Estou certo de que há um século ninguém teria feito tão ligeiramente uma
afirmação deste tipo. É uma afirmação de um homem que se esforçou em vão para
atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de o
conseguir. É a expressão de uma solidão e um isolamento penosos de que tanta
gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?
É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com algum grau de
segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente
do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e
obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.
O homem é simultaneamente um ser solitário e um ser social. Enquanto ser
solitário, tenta proteger a sua própria existência e dos que lhe são próximos,
satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas.
Enquanto ser social procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus
semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar
as suas condições de vida. É apenas a existência destes esforços diversos e
frequentemente conflituosos que explica o carácter especial do ser humano, e a sua
combinação específica determina em que medida um indivíduo pode alcançar um
equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente
possível que a força relativa destes dois impulsos seja, em grande parte,
determinada por hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emerge é
largamente formada pelo ambiente em que o indivíduo se encontra por acaso
durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela
3
tradição dessa sociedade, e pela apreciação que faz de determinados tipos de
comportamento. O conceito abstracto de «sociedade» significa para o ser humano
individual as soma total das suas relações directas e indirectas com os seus
contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indivíduo é capaz
de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na
sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou
compreendê-lo, fora do quadro da sociedade. É a «sociedade» que lhe fornece
comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, a linguagem, formas de pensamento
e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível pelo
labor e realizações de muitos milhões de indivíduos no passado e no presente, que
se escondem sob a pequena palavra «sociedade».
É evidente, por conseguinte, que a dependência do indivíduo em relação à
sociedade é um facto natural que não pode ser abolido – tal como no caso das
formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas
e abelhas é estabelecido, nos mais ínfimos pormenores, por instintos hereditários
rígidos, o padrão social e o relacionamento dos seres humanos são muito variáveis e
susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o
dom da comunicação oral tornaram possíveis desenvolvimentos entre os seres
humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos
manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras
científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica, num certo sentido, como
pode o homem influenciar a sua vida através da sua própria conduta e como, neste
processo, o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.
Através da hereditariedade, o homem adquire à nascença uma constituição
biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais
que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire
uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e
através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, no
decurso do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a
relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos,
através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o
comportamento social dos seres humanos pode apresentar grandes diferenças, em
função dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que
predominam na sociedade. É nisto que podem assentar as suas esperanças aqueles
que se esforçam para melhorar a sorte do homem: os seres humanos não estão
condenados, por causa da sua constituição biológica, a aniquilarem-se uns aos
outros ou à mercê de um destino cruel auto-infligido.
Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a
atitude cultural do homem para tornar a vida humana tão satisfatória quanto
possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há
determinadas condições que não podemos alterar. Como atrás mencionámos, a
natureza biológica do homem, para todos os fins práticos, não está sujeita à
mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos
últimos séculos criaram condições que se manterão. Em populações com uma
densidade relativamente elevada, que dispõem de bens indispensáveis à sua
existência, é absolutamente necessário haver uma divisão extrema do trabalho e um
aparelho produtivo altamente centralizado. O tempo em que os indivíduos ou
grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes – que
4
visto à distância parece tão idílico – pertence definitivamente ao passado. Não é
grande exagero dizer-se que a humanidade constitui já hoje uma comunidade
planetária de produção e consumo.
Chego agora ao ponto em que posso indicar sucintamente o que para mim
constitui a essência da crise do nosso tempo. Trata-se da relação do indivíduo com a
sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente que nunca da sua dependência
relativamente à sociedade. Mas não sente esta dependência como um bem positivo,
como um laço orgânico, como uma força protectora, mas antes como uma ameaça
aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua
posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas do seu ser estão constantemente
a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais
fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a
sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente
prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo
cândido, simples e não sofisticado da vida. O homem só pode encontrar sentido na
vida, curta e perigosa como é, através da sua devoção à sociedade.
A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como existe actualmente, é,
na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos diante de nós uma enorme
comunidade de produtores cujos membros procuraram incessantemente despojar
cada qual dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em
total conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é
importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade
produtiva necessária para produzir bens de consumo, bem como novos bens de
capital – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de
indivíduos.
Para simplificar, no debate que se segue, chamarei «operários» a todos aqueles
que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda
exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está
em posição de comprar a força de trabalho do operário. Ao utilizar os meios de
produção, o operário produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista.
O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o
que lhe é pago, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o
contrato de trabalho é «livre», o que o trabalhador recebe é determinado não pelo
valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pela
quantidade de força de trabalho de que o capitalista necessita em relação ao
número de operários que procuram emprego. É importante compreender que,
mesmo em teoria, o salário do operário não é determinado pelo valor do seu
produto.
O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da
concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico
e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção
maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é
uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente
controlado mesmo por uma sociedade que tem uma organização política
democrática. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são
escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados por
outras vias pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o
eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não
5
protegem suficientemente os interesses das camadas desfavorecidas da população.
Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam
inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação
(imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil para o cidadão, e na
maior parte dos casos completamente impossível, chegar a conclusões objectivas e
fazer uso inteligente dos seus direitos políticos.
A situação que prevalece numa economia baseada na propriedade privada do
capital caracteriza-se por dois princípios centrais: primeiro, os meios de produção
(capital) são privados e os detentores utilizam-nos da forma que lhes convém;
segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que neste sentido não existe uma
sociedade capitalista pura. Deve-se notar, em particular, que, através de longas e
duras lutas políticas, os trabalhadores conseguiram obter para certas categorias
deles formas melhoradas de «contrato de trabalho livre». Mas, vista no seu
conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo «puro».
A produção realiza-se tendo em vista o lucro e não o uso. Não há nenhuma
garantia de que todos aqueles que tenham capacidade e queiram trabalhar possam
encontrar emprego; existe quase sempre um «exército de desempregados». O
operário receia constantemente perder o seu emprego. E dado que os
desempregados e os operários mal pagos consomem pouco, a produção de bens de
consumo é restringida, e a consequência são grandes privações. O progresso
tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego em vez de um
aligeiramento da carga de trabalho para todos. O objectivo do lucro, em conjunto
com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na
acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A
concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e ao
estropiamento da consciência social dos indivíduos que mencionei atrás.
Considero este estropiamento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo.
Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. Uma atitude exageradamente
competitiva é incutida no aluno, que é educado para venerar o poder aquisitivo
como preparação para a sua futura carreira.
Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males,
nomeadamente através do estabelecimento de uma economia socialista,
acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta
economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados
de forma planificada. Uma economia planificada, que ajuste a produção às
necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que
podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A
educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas,
procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante
em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.
No entanto, é necessário lembrar que uma economia planificada não é ainda o
socialismo. Uma economia planificada pode ser acompanhada por uma completa
sujeição do indivíduo. A realização do socialismo exige a resolução de alguns
problemas políticos e sociais extremamente difíceis: como é possível, com uma
centralização em grande escala do poder económico e político, evitar que a
burocracia se torne omnipotente e arrogante? Como se pode proteger os direitos do
indivíduo e assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
6
A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância
na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre
e sem entraves destes problemas constitui um tabu poderoso, considero a fundação
desta revista como um serviço público importante.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Das guerras do ópio às guerras do petróleo
por Domenico Losurdo
"A morte de Kadafi é uma viragem histórica", proclamam em coro os dirigentes da NATO e do Ocidente, sem se incomodarem sequer em guardar distâncias em relação ao bárbaro assassinato do líder líbio e das mentiras desavergonhadas que proferiram os chefes dos "rebeldes". Sim, efectivamente trata-se de uma viragem. Mas para entender o significado da guerra contra a Líbia no âmbito do colonialismo é preciso partir de longe...
Quando em 1840 os navios de guerra ingleses surgem diante das costas e das cidades chinesas, os agressores dispõem de um poder de fogo de milhares de canhões e podem semear destruição e morte em grande escala sem temer a artilharia inimiga, cujo alcance é muito reduzido. É o triunfo da política das canhoneiras: o grande país asiático e sua civilização milenar são obrigados a render-se e começa o que a historiografia chinesa denomina acertadamente como "o século das humilhações", que termina em 1949 com a chegada ao poder do Partido Comunista e de Mao Zedong.
Nos nossos dias, a chamada Revolution in Military Affairs (RMA) criou em muitos países do Terceiro Mundo uma situação parecida com a que a China enfrentou no seu tempo. Durante a guerra contra a Líbia de Kadafi, a NATO pôde consumar tranquilamente milhares de bombardeamentos e não só não sofreu baixas como sequer correu o risco de sofre-las. Neste sentido a força militar da NATO, mais do que um exército tradicional, parece-se a um pelotão de execução. Assim, a execução final de Kadafi, mais do que um facto causal ou acidental, revela o sentido profundo da operação em conjunto.
É algo palpável: a renovada desproporção tecnológica e militar reaviva as ambições e as tentações colonialistas de um Ocidente que, a julgar pela exaltada auto-consciência e falsa consciência que continua a ostentar, nega-se a saldar contas com a sua história. E não se trata só de aviões, navios de guerra e satélites. Ainda é mais clara a vantagem com que Washington e seus aliados podem contar em capacidade de bombardeamento mediático. Também nisto a "intervenção humanitária" contra a Líbia é um exemplo de manual: a guerra civil (desencadeada, entre outras coisas, graças ao trabalho prolongado de agentes e unidades militares ocidentais e no decorrer da qual os chamados "rebeldes" podiam dispor desde o princípio até de aviões) apresentou-se como uma matança perpetrada pelo poder contra uma população civil indefesa. Em contrapartida, os bombardeamentos da NATO que até o fim assolaram a Sirte assediada, faminta, sem água nem medicamentos, foram apresentados como operações humanitárias a favor da população civil da Líbia!
Hoje em dia este trabalho de manipulação, além de contar com os meios de informação tradicionais de informação e desinformação, vale-se de uma revolução tecnológica que completa a Revolution in Military Affairs. Como expliquei em intervenções e artigos anteriores, são autores e órgãos de imprensa ocidentais próximos ao Departamento de Estado os que celebram que o arsenal dos EUA se enriqueceu com novos e formidáveis instrumentos de guerra. São jornais ocidentais e de comprovada fé ocidental que contam, sem nenhum sentido crítico, que no decorrer das "guerras internet" a manipulação e a mentira, assim como a instigação à violência de minorias étnicas e religiosas, também mediante a manipulação e a mentira, estão na ordem do dia. É o que está a acontecer na Síria contra um grupo dirigente mais acossado do que nunca por haver resistido às pressões e intimidações ocidentais e se ter negado a capitular diante de Israel e a trair a resistência palestina.
Mas voltemos à primeira guerra do ópio, que termina em 1842 com o Tratado de Nanquim. É o primeiro dos "tratados desiguais", ou seja, imposto com as canhoneiras. No ano seguinte chega a vez dos Estados Unidos. Também envia canhoneiras para arrancar o mesmo resultado que a Grã-Bretanha e inclusive algo mais. O tratado de Wahghia (nas proximidades de Macau) de 1843 sanciona o privilégio da extraterritorialidade para os cidadãos estado-unidenses residentes na China: mesmo que cometam delitos comuns, subtraem-se à jurisdição chinesa. O privilégio da extraterritorialidade, evidentemente, não é recíproco, não vale para os cidadãos chineses residentes nos Estados Unidos. Uma coisa são os povos colonizados e outra muito diferente a raça dos senhores. Nos anos e décadas posteriores, o privilégio da extraterritorialidade amplia-se aos chineses que "dissidem" da religião e da cultura do seu país e convertem-se ao cristianismo (com o que teoricamente passam a ser cidadãos honorários da república norte-americana e do Ocidente em geral).
Também nos nossos dias o duplo critério da legalidade e da jurisdição é um elementos essencial do colonialismo: os "dissidentes", ou seja, os que se convertem à religião dos direitos humanos tal como é proclamada de Washington a Bruxelas, os Quisling potenciais ao serviço dos agressores, são galardoados com o prémio Nobel e outros prémios parecidos depois de o Ocidente ter desencadeado uma campanha desaforada para subtrair os premiados à jurisdição do seu país de residência, campanha reforçada com embargos e ameaça de embargo e de "intervenção humanitária".
O duplo critério da legalidade e da jurisdição alcança suas cotas mais altas com a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI). Os cidadãos estado-unidenses e os soldados e mercenários de faixas e estrelas espalhados por todo o mundo ficam e devem ficar fora da sua jurisdição. Recentemente a imprensa internacional revelou que os Estados Unidos estão dispostos a vetar a admissão da Palestina na ONU, entre outras coisas, para impedir que a Palestina possa denunciar Israel perante o TPI: seja como for, na prática quando não na teoria, deve ficar claro para todo o mundo que só os povos colonizados podem ser processados e condenados. A sequência temporal é em si mesma eloquente. 1999: apesar de não haver obtido autorização da ONU, a NATO começa a bombardear a Jugoslávia; pouco depois, sem perda de tempo, o TPI tratar de incriminar não os agressores e responsáveis da ruptura da ordem jurídica internacional estabelecida após a II Guerra Mundial e sim Milosevic. 2011: violentando o mandato da ONU, longe de se preocupar com o destino dos civis, a NATO recorre a todos os meios para impor a mudança de regime e ganhar o controle da Líbia. Seguindo uma pauta já ensaiada, o TPI trata de incriminar Kadafi. O chamado Tribunal Penal Internacional é uma espécie de apêndice judicial do pelotão de execução da NATO. Poder-se-ia dizer inclusive que os magistrados de Haia são como padres que, sem perder tempo a consolar a vítima, esmeram-se directamente em legitimar e consagrar o verdugo.
Uma última observação. Com a guerra contra a Líbia, perfilou-se numa nova divisão do trabalho no âmbito do imperialismo. As grandes potências coloniais tradicionais, como a Inglaterra e a França, valendo-se do decisivo apoio político e militar de Washington, centram-se no Médio Oriente e na África, ao passo que os Estados Unidos deslocam cada vez mais seu dispositivo militar para a Ásia. E assim voltamos à China. Depois de haver deixado para trás o século de humilhações que começou com as guerras do ópio, os dirigentes comunistas sabem que seria insensato e criminoso faltar pela segunda vez ao encontro com a revolução tecnológica e militar: enquanto liberta centenas de milhões de chineses da miséria e da fome a que os havia condenado o colonialismo, o poderoso desenvolvimento económico do grande país asiático é também uma medida de defesa contra a agressividade permanente do imperialismo. Aqueles que, inclusive na "esquerda", se põem a reboque de Washington e Bruxelas na tarefa de difamação sistemática dos dirigentes chineses demonstram que não se preocupam nem com a melhoria das condições de vida das massas populares nem com a causa da paz e da democracia nas relações internacionais.
23/Outubro/2011
O original em italiano : http://www.domenicolosurdo.blogspot.com/
Artigo em francês : Des guerres de l’opium aux guerres du pétrole
Este artigo traduzido em português encontra-se em http://resistir.info/
Domenico Losurdo is a frequent contributor to Global Research. Global Research Articles by Domenico Losurdo
"A morte de Kadafi é uma viragem histórica", proclamam em coro os dirigentes da NATO e do Ocidente, sem se incomodarem sequer em guardar distâncias em relação ao bárbaro assassinato do líder líbio e das mentiras desavergonhadas que proferiram os chefes dos "rebeldes". Sim, efectivamente trata-se de uma viragem. Mas para entender o significado da guerra contra a Líbia no âmbito do colonialismo é preciso partir de longe...
Quando em 1840 os navios de guerra ingleses surgem diante das costas e das cidades chinesas, os agressores dispõem de um poder de fogo de milhares de canhões e podem semear destruição e morte em grande escala sem temer a artilharia inimiga, cujo alcance é muito reduzido. É o triunfo da política das canhoneiras: o grande país asiático e sua civilização milenar são obrigados a render-se e começa o que a historiografia chinesa denomina acertadamente como "o século das humilhações", que termina em 1949 com a chegada ao poder do Partido Comunista e de Mao Zedong.
Nos nossos dias, a chamada Revolution in Military Affairs (RMA) criou em muitos países do Terceiro Mundo uma situação parecida com a que a China enfrentou no seu tempo. Durante a guerra contra a Líbia de Kadafi, a NATO pôde consumar tranquilamente milhares de bombardeamentos e não só não sofreu baixas como sequer correu o risco de sofre-las. Neste sentido a força militar da NATO, mais do que um exército tradicional, parece-se a um pelotão de execução. Assim, a execução final de Kadafi, mais do que um facto causal ou acidental, revela o sentido profundo da operação em conjunto.
É algo palpável: a renovada desproporção tecnológica e militar reaviva as ambições e as tentações colonialistas de um Ocidente que, a julgar pela exaltada auto-consciência e falsa consciência que continua a ostentar, nega-se a saldar contas com a sua história. E não se trata só de aviões, navios de guerra e satélites. Ainda é mais clara a vantagem com que Washington e seus aliados podem contar em capacidade de bombardeamento mediático. Também nisto a "intervenção humanitária" contra a Líbia é um exemplo de manual: a guerra civil (desencadeada, entre outras coisas, graças ao trabalho prolongado de agentes e unidades militares ocidentais e no decorrer da qual os chamados "rebeldes" podiam dispor desde o princípio até de aviões) apresentou-se como uma matança perpetrada pelo poder contra uma população civil indefesa. Em contrapartida, os bombardeamentos da NATO que até o fim assolaram a Sirte assediada, faminta, sem água nem medicamentos, foram apresentados como operações humanitárias a favor da população civil da Líbia!
Hoje em dia este trabalho de manipulação, além de contar com os meios de informação tradicionais de informação e desinformação, vale-se de uma revolução tecnológica que completa a Revolution in Military Affairs. Como expliquei em intervenções e artigos anteriores, são autores e órgãos de imprensa ocidentais próximos ao Departamento de Estado os que celebram que o arsenal dos EUA se enriqueceu com novos e formidáveis instrumentos de guerra. São jornais ocidentais e de comprovada fé ocidental que contam, sem nenhum sentido crítico, que no decorrer das "guerras internet" a manipulação e a mentira, assim como a instigação à violência de minorias étnicas e religiosas, também mediante a manipulação e a mentira, estão na ordem do dia. É o que está a acontecer na Síria contra um grupo dirigente mais acossado do que nunca por haver resistido às pressões e intimidações ocidentais e se ter negado a capitular diante de Israel e a trair a resistência palestina.
Mas voltemos à primeira guerra do ópio, que termina em 1842 com o Tratado de Nanquim. É o primeiro dos "tratados desiguais", ou seja, imposto com as canhoneiras. No ano seguinte chega a vez dos Estados Unidos. Também envia canhoneiras para arrancar o mesmo resultado que a Grã-Bretanha e inclusive algo mais. O tratado de Wahghia (nas proximidades de Macau) de 1843 sanciona o privilégio da extraterritorialidade para os cidadãos estado-unidenses residentes na China: mesmo que cometam delitos comuns, subtraem-se à jurisdição chinesa. O privilégio da extraterritorialidade, evidentemente, não é recíproco, não vale para os cidadãos chineses residentes nos Estados Unidos. Uma coisa são os povos colonizados e outra muito diferente a raça dos senhores. Nos anos e décadas posteriores, o privilégio da extraterritorialidade amplia-se aos chineses que "dissidem" da religião e da cultura do seu país e convertem-se ao cristianismo (com o que teoricamente passam a ser cidadãos honorários da república norte-americana e do Ocidente em geral).
Também nos nossos dias o duplo critério da legalidade e da jurisdição é um elementos essencial do colonialismo: os "dissidentes", ou seja, os que se convertem à religião dos direitos humanos tal como é proclamada de Washington a Bruxelas, os Quisling potenciais ao serviço dos agressores, são galardoados com o prémio Nobel e outros prémios parecidos depois de o Ocidente ter desencadeado uma campanha desaforada para subtrair os premiados à jurisdição do seu país de residência, campanha reforçada com embargos e ameaça de embargo e de "intervenção humanitária".
O duplo critério da legalidade e da jurisdição alcança suas cotas mais altas com a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI). Os cidadãos estado-unidenses e os soldados e mercenários de faixas e estrelas espalhados por todo o mundo ficam e devem ficar fora da sua jurisdição. Recentemente a imprensa internacional revelou que os Estados Unidos estão dispostos a vetar a admissão da Palestina na ONU, entre outras coisas, para impedir que a Palestina possa denunciar Israel perante o TPI: seja como for, na prática quando não na teoria, deve ficar claro para todo o mundo que só os povos colonizados podem ser processados e condenados. A sequência temporal é em si mesma eloquente. 1999: apesar de não haver obtido autorização da ONU, a NATO começa a bombardear a Jugoslávia; pouco depois, sem perda de tempo, o TPI tratar de incriminar não os agressores e responsáveis da ruptura da ordem jurídica internacional estabelecida após a II Guerra Mundial e sim Milosevic. 2011: violentando o mandato da ONU, longe de se preocupar com o destino dos civis, a NATO recorre a todos os meios para impor a mudança de regime e ganhar o controle da Líbia. Seguindo uma pauta já ensaiada, o TPI trata de incriminar Kadafi. O chamado Tribunal Penal Internacional é uma espécie de apêndice judicial do pelotão de execução da NATO. Poder-se-ia dizer inclusive que os magistrados de Haia são como padres que, sem perder tempo a consolar a vítima, esmeram-se directamente em legitimar e consagrar o verdugo.
Uma última observação. Com a guerra contra a Líbia, perfilou-se numa nova divisão do trabalho no âmbito do imperialismo. As grandes potências coloniais tradicionais, como a Inglaterra e a França, valendo-se do decisivo apoio político e militar de Washington, centram-se no Médio Oriente e na África, ao passo que os Estados Unidos deslocam cada vez mais seu dispositivo militar para a Ásia. E assim voltamos à China. Depois de haver deixado para trás o século de humilhações que começou com as guerras do ópio, os dirigentes comunistas sabem que seria insensato e criminoso faltar pela segunda vez ao encontro com a revolução tecnológica e militar: enquanto liberta centenas de milhões de chineses da miséria e da fome a que os havia condenado o colonialismo, o poderoso desenvolvimento económico do grande país asiático é também uma medida de defesa contra a agressividade permanente do imperialismo. Aqueles que, inclusive na "esquerda", se põem a reboque de Washington e Bruxelas na tarefa de difamação sistemática dos dirigentes chineses demonstram que não se preocupam nem com a melhoria das condições de vida das massas populares nem com a causa da paz e da democracia nas relações internacionais.
23/Outubro/2011
O original em italiano : http://www.domenicolosurdo.blogspot.com/
Artigo em francês : Des guerres de l’opium aux guerres du pétrole
Este artigo traduzido em português encontra-se em http://resistir.info/
Domenico Losurdo is a frequent contributor to Global Research. Global Research Articles by Domenico Losurdo
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