terça-feira, 4 de setembro de 2012


Romper a opressão do poder ocidental

por Ismail Salami [*]
Já é tempo de os EUA cessarem de desempenhar o papel de guia, pensando e tomando decisões para outros países. Como um primeiro passo, os estados membro do Movimento dos Não Alinhados (MNA) deveriam fazer esforços para libertar o Conselho de Segurança da ONU do seu cativeiro servil aos EUA e seus aliados.

Apesar da deliberada desatenção do ocidente e do desprezo para com a Cimeira do Movimento dos Não Alinhados, em Teerão, não se pode negar o facto de que o evento provocou extremo desgosto em Washington e Israel e que o diálogo entre civilizações para alcançar a paz global ainda é uma poderosa factibilidade.

Exactamente na véspera da inauguração da cimeira do MNA, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu manifestou o seu cinismo típico e condenou o comparecimento de representantes de alto nível de mais de 120 países ao evento dizendo que este era "uma mancha sobre a humanidade". A causa da raiva desesperada de Netanyahu é contudo bem perceptível.

A 16ª Cimeira do MNA que foi oficialmente encerrada em Teerão na sexta-feira acabou com uma resolução que incluía mais de 700 cláusulas. A resolução final que foi lida pelo presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad manifestou apoio ao programa de energia nuclear do Irão, rejeitou as sanções unilaterais dos EUA contra a República Islâmica e apelou a maiores esforços para defender a causa palestina e cessar a discriminação racial por todo o mundo.

A cimeira do MNA tratou um certo número de questões espinhosas que o ocidente deturpa, tal como o programa de energia nuclear do Irão, ou menospreza, tal como a questão palestina e os não autorizados ataques com drones dos EUA que ceifaram as vidas de muitos civis no Paquistão, Afeganistão, Somália e Iémen.

Foi uma oportunidade para os participantes que já têm seus países agarrados pelo pescoço manifestarem as suas queixas. O ministro dos Estrangeiros paquistanês, Hina Rabbani Khar, exprimiu a preocupação do seu país para com os ataques ilegais de drones no Paquistão e instou Washington a por um fim imediato à sua máquina da morte no Paquistão.

"A posição do Paquistão é clara hoje e tem sido clara no passada. Nossa posição é que isto é algo contra-producente. É ilegítimo. É ilegal e portanto deve cessar. Foi isto que o parlamento do Paquistão declarou claramente", disse Rabbani Khar na quarta-feira.

Entretanto, central à cimeira foi o vigoroso discurso do Aiatola Seyyen Ali Khamenei , o líder a Revolução Islâmica que reiterou claramente a posição oficial da República Islâmica sobre algumas questões chave, incluindo armas nucleares, e clarificou que o Irão nunca pretendeu produzi-las, nunca avançará num caminho tão horrendo e que a execução, utilização e produção de tais armas é um pecado imperdoável. A sua análise profunda da política paradoxal de Washington merece a devida atenção. Apontando para "uma amarga ironia da nossa era", o Aiatola Khamenei reforçou o facto de que o governo dos EUA "possui a maior e mais mortal acumulação de armas nucleares e outras armas de destruição em massa, e o único país culpado pela sua utilização, está hoje ansioso por conduzir a bandeira de oposição à proliferação nuclear" e que o mesmo regime armou o regime usurpador sionista com armas nucleares e criou uma grande ameaça para esta região sensível".

De facto, Washington e Tel Aviv estão a jogar nas mãos do diabo nos seus esforços para dividir nações e colonizar seus países pela criação de "inimigos globais" e brutalmente mobilizar outros contra eles.

Em relação a isso, a Cimeira MNA pode desempenhar um papel vital desviando o papel destrutivo do governo dos EUA e outras potências ameaçadoras ao avançar com suas agendas globalistas para um papel construtivo sob a égide dos membros do MNA. Reagindo aos efeitos de uma cimeira com significado tão substancial, os media ocidentais censuraram a venda e coibiram-se de relatar os factos, o que de um modo ou de outro mostrou a sua agenda oculta. O blackout dos media no ocidente em relação à Cimeira de Teerão é o equivalente ao blackout da verdade e da fidedignidade, um sinal mórbido que indica claramente que esforços globais para alcançar a paz e a harmonia são afinal de contas empurrados para o abismo do fracasso. A fim de destruir o poderio da máfia dos media, o responsável da Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB), Ezzatollah Zarghami, sugeriu que o Movimento dos Não Alinhados estabelecesse um bloco alternativo de media. Tal iniciativa é na verdade louvável e deve ser considerada um meio eficaz para contrabalançar a cegueira enviesada dos media.

Com plena convicção, pode-se tristemente dizer que há mãos sabotadoras em acção para frustrar os esforços na luta pela paz global à luz de uma liderança unida. O que realmente deveria ser prioridade em futura cimeira do MNA é formular uma abordagem efectiva para resolver a crise global e lutar para conseguir um consenso internacional para reduzir a influência política de Washington e a sua auto-proclamada liderança ditatorial. Já é tempo de os EUA cessarem de desempenhar o papel de guru e de pensarem e tomarem decisões para outros países. Como primeiro passo, os estados membro do MNA deveria fazer esforços para libertar o Conselho de Segurança da ONU do seu cativeiro servil aos EUA e seus aliados.

Uma nova ordem mundial está a tomar forma. Nesta nova ordem mundial, o imperialismo começa a esvair-se e a ideia de crescentes expedições militares sob a bandeira de combater ao terrorismo ou ditar a democracia ocidental em breve evaporar-se-á. Esta ideia pode estar a grande distância da realidade mas não é uma impossibilidade. Ela pode ser transformada em realidade graças ao poder emanado dos esforços colectivos de todas as nações. É exactamente isto que o ocidente conduzido pelos EUA mais teme e o que o mundo mais precisa: uma vontade unida de nações a impor-se claramente face à injustiça e de acordo com o direito.
01/Setembro/2012

Ver também:
  • Why The Western Media Are Angry At Tehran NAM Summit
  • NAM summit set back U.S.-Israeli campaign to isolate Iran

    [*] Autor de vários livros e centenas de artigos, PhD em Estudos Shakespereanos, iranologista e lexicógrafo. Suas obras foram traduzidas em numerosas línguas. Antigo editor-chefe do Tehran Times, autor de Human Rights in Islam e Iran, Cradle of Civilization.

    O original encontra-se em www.presstv.ir/detail/2012/09/01/259325/nam-towards-breaking-western-monopoly/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .  
  • sábado, 1 de setembro de 2012

    Sobre A. Gramsci


    Ateísmo
    Umberto Cerroni
    “O ateísmo é uma forma puramente negativa e infecunda” (A. Gramsci, Cadernos do Cárcere,, p. 1.827), porque é ainda uma forma subalterna ou apenas polêmica. Marx já observara isto, ao dizer:
      “O ateísmo [...] não tem mais sentido, porque ele é uma negação de Deus e põe a existência do homem mediante esta negação. Mas o socialismo, como tal, não mais precisa desta mediação: ele parte da consciência sensível teórica e prática do homem e da natureza como o essencial” (Manuscritos econômico-filosóficos de 1844).

    quarta-feira, 29 de agosto de 2012

    Sobre A. GRAMSCI (iremos publicar aqui alguns textos sobre A. Gramsci (democracia e parlamentarismo, sufrágio universal, hegemonia e consenso, intelectual orgânico, etc.)



    Lincoln Secco

    Assim como Max Weber, Gramsci amplia a noção de Estado. Portanto, para ambos o poder ultrapassa a mera coerção. Gramsci aceita os tipos ideais de Weber como um ponto de partida, ainda que procure lhes dar corpo histórico e empírico. O tipo carismático, por exemplo, apareceu entre os socialistas (lassallianos, broussistas, marxistas, guesdistas, jauresistas, blanquistas, etc.). Gramsci chega a se perguntar se não “exista analogia entre os partidos políticos e as seitas religiosas e as ordens monásticas” (CC, v. 3, p. 161).
    Gramsci não só conhecia a obra de Weber, como a citou diversas vezes nos seus Cadernos. A crítica que faz da debilidade dos partidos na Itália compara-se à crítica que Weber faz no seu ensaio “Parlamentarismo e governo”, pois Gramsci acentua a ausência da elaboração intelectual de dirigentes políticos, a escassez de homens de governo, a miséria da vida parlamentar, a contínua cooptação pelo aparelho de Estado e a cultura mesquinha. Essas características do regime parlamentar italiano conduzem a burocracia a se forjar enquanto um “verdadeiro partido político”, substituindo a hierarquia intelectual por burocratas “apolíticos” com “formação mental puramente retórica, não-nacional” (Ib., p. 202).
    Gramsci e Weber aproximam-se, portanto, na crítica de uma sociedade burocrática, particularmente quanto à necessidade de uma ação genuinamente política sobre esta burocracia (vista por Weber como inevitável). Gramsci chega a admitir a possibilidade de um bonapartismo progressista, quando o chefe carismático (ou a força política “carismática”) se coloca a favor das forças sociais historicamente progressistas, contra um equilíbrio estático de partidos dominantes, cristalizados em posições burocráticas, pois a burocracia pode se tornar, na vida moderna, o pior dos partidos (Ib.).
    Gramsci afirma que o capo charismatico corresponde ao período de formação dos partidos de massa. O chefe carismático pode pertencer tanto a um partido autoritário quanto a um partido socialista ou um movimento anarquista e antiautoritário; essas combinações devem ser estudadas na história concreta, assim como o papel desses partidos na luta política. No que tange, entretanto, à burocratização dos partidos operários, Gramsci identifica um problema grave para o movimento socialista:
      “Os partidos socialistas, graças aos numerosos postos remunerados e honoríficos de que dispõem, oferecem aos operários (a certo número de operários, naturalmente!) uma possibilidade de fazer carreira, o que exerce sobre eles uma força considerável de atração (esta força se exerce, porém, mais sobre os intelectuais). “Complexidade progressiva da atividade política, em virtude da qual os líderes do partido se tornam cada vez mais profissionais e devem ter noções cada vez mais amplas, um tato, uma prática burocrática e, freqüentemente, uma esperteza cada vez mais ampla. Assim, os dirigentes se afastam cada vez mais da massa, dando margem à flagrante contradição que se manifesta nos partidos avançados entre as declarações e as intenções democráticas e a realidade oligárquica” (Ib., p. 166).
    Mas a solução para esta burocratização do movimento socialista não reside, para Gramsci, na simples afirmação literária da necessidade de um chefe carismático, e sim na formação de um estrato médio de intelectuais orgânicos que façam a ligação entre os líderes e as massas, impedindo os líderes de se desviarem nos momentos de crise e, simultaneamente, elevando o nível político das massas. Além disso, o chefe carismático não é uma forma de governo, mas uma função, que pode até surgir em governos parlamentares de coalizão que assumam a função cesarista. Cesarismo não é um apenas um conceito sociológico ou de ciência política nem um cânone de interpretação histórica – diz Gramsci – mas uma fórmula política que deve ser identificada concretamente em cada contexto histórico (Ib., p. 76-7).

    terça-feira, 28 de agosto de 2012

    por Juan José Millás

    Este artigo incendiou a Espanha.   Publicado a 14 de Agosto na secção de cultura de El Pais, em poucos dias tornou-se a peça mais lida de sempre naquele jornal e além disso teve milhares de acessos no Facebook.   O autor é um escritor espanhol comprometido com os anseios do seu povo.   Leia também a sua entrevista "Tornámo-nos uma colónia da Alemanha" em Dinheiro Vivo.
    Juan José Milas, cartoon de Fernão Campos. Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado tontos –, a economia financeira está para a economia real assim como o senhor feudal está para o servo, como o amo está para o escravo, como a metrópole está para a colónia, como capitalista manchesteriano está para o operário superexplorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de uma criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de a teres semeado. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, ainda que vás à merda se baixar. Se o baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que tenhas caído, ainda que não haja nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

    Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta geralmente compra é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um tabuleiro de jogos no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

    A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país, este no caso, pouco importa, e diz "compro" ou diz "vendo" com a impunidade com que aquele que joga Monopólio compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

    Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno de milhares ou milhões de pessoas que antes de irem para a labuta deixaram no infantário público, onde ainda existem, os seus filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas superprotegidos, é claro, por essa coisa a que temos chamado de Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres são desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

    E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, desviam-se num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro. Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem infantário ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos agora mera mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

    A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

    A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

    Aqui alteram o preço das nossas vidas a cada dia sem que ninguém resolva o problema, pior, enviando as forças da ordem contra quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as forças da ordem empenham-se a fundo na protecção desse filho da puta que te vendeu, por meio de um roubo autorizado, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste as poupanças reais de toda a tua vida. O grande porco vendeu-lhe fumaça com o amparo das leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

    Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passe a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do seu sequestrado.

    Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
    O original encontra-se em http://cultura.elpais.com/cultura/2012/08/13/actualidad/1344875187_015708.html
    e a tradução em http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO056741.html?page=0
    (foram efectuadas pequenas alterações)


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

    sábado, 25 de agosto de 2012


    Intelectual Impostures
    12 de Agosto de 2010 ⋅ Filosofia geral

    O rei vai nu

    Roberto Fernández
    Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont
    Lisboa: Gradiva, 1999, 300 pp.
    Rio de Janeiro: Record, 2006, 322 pp.
    “Impostura”, de acordo com o dicionário, significa “embuste, engano artificioso; afetação de grandeza; superioridade, orgulho, confinante com a empáfia e a bazófia”. Os cientistas Alan D. Sokal (Universidade de Nova Iorque) e Jean Bricmont (Universidade Católica de Lovaina, Bélgica) sustentam que intelectuais de renome, associados à corrente convencionalmente conhecida como “pós-modernismo”, têm incorrido sistematicamente em “abusos reiterados de conceitos e termos provenientes das ciências físico-matemáticas”, a ponto de constituírem verdadeiras imposturas intelectuais. Podem ser identificados quatro tipos de abusos:
    1. “Falar abundantemente de teorias das quais se tem, no máximo, uma vaga idéia”;
    2. “Importar noções das ciências exatas para as ciências humanas sem dar a menor justificação empírica ou conceitual”;
    3. “Exibir uma erudição superficial ao jogar, sem escrúpulos, termos especializados na cara do leitor, num contexto em que eles não têm pertinência alguma”; e
    4. “Manipular frases desprovidas de sentido e se deixar levar por jogos de palavras”.
    Neste polêmico livro, os autores fundamentam suas teses mediante numerosas citações, organizadas por autor (Lacan, Kristeva, Irigaray, Latour, Baudrillard, Deleuze e Guattari e Virilio) e por tema (caos, teorema de Gödel, relatividade restrita).
    Sokal e Bricmont não se atêm a pequenos erros ou imprecisões isoladas ou àquelas próprias de um uso metafórico no discurso literário ou poético. Pelo contrário, nos autores analisados, as teorias e conceitos científicos jogam um papel não marginal, seja porque são usados nos fundamentos das suas teorias (Lacan e Kristeva), seja porque são precisamente o objeto de estudo (Irigaray, Latour, Deleuze e Guattari); em todo caso, seu uso contribuiu para que fossem elogiados por seu “rigor”, “extrema precisão”, “erudição surpreendente” e juízos similares.
    A lista de exemplos é longa e bem documentada. Atribui-se ao psicanalista Jacques Lacan o abuso de tipo 2, quando declara, sem fundamentação lógica ou empírica, que o toro (estrutura topológica correspondente a um anel) é “exatamente a estrutura do neurótico” e que outras estruturas topológicas correspondem a outras patologias mentais. Seu uso dos números imaginários é declaradamente feito como metáfora, mas conduz a afirmações curiosas como: o “órgão eréctil (…) é igualável à raiz de -1”. Os textos em que Lacan recorre à lógica matemática, por outra parte, são considerados exemplos dos abusos 2 e 3 ao mesmo tempo: “Lacan exibe diante de não especialistas seus conhecimentos de lógica matemática; mas (…) a ligação com a psicanálise não está sustentada por lógica alguma”. Sokal e Bricmont absolvem Lacan dos abusos de tipo 1, ainda que em certos textos ele apresente uma definição incorreta de conjuntos abertos, definições sem sentido da noção de limite e de conjuntos compactos, e confunda números irracionais com imaginários.
    Os trabalhos sobre lingüística e semiótica de Julia Kristeva ilustram também exemplos de abusos de tipo 2 e 3. Conceitos matemáticos delicados são introduzidos sem que se explique sua possível relação com a lingüística e revelando óbvia falta de compreensão: o axioma da escolha, que justamente permite provar a existência de conjuntos sem construi-los explicitamente, é invocado como implicando uma “noção de construtividade”; a hipótese do contínuo é mencionada, se bem que o conjunto de todos os livros possíveis seja apenas enumerável, e o muito popular teorema de Gödel é interpretado exatamente ao contrário. A intelectual feminista Luce Irigaray, por sua vez, num ensaio sobre o “subdesenvolvimento” da mecânica dos fluidos (identificados com a feminilidade), confunde a dificuldade matemática para obter soluções das equações de Navier-Stokes com a “impotência da lógica” e demonstra não compreender que são derivadas usando aproximações que excluem sua aplicação a escalas moleculares.
    Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Paul Virilio valem-se de abusos de tipo 1 e 4. Sokal e Bricmont selecionam extensas citações, inclusive uma de quase três páginas, em que se justapõem numerosos termos científicos (atrator estranho, exponencial, fractal, caos, singularidade, energia potencial, superfície topológica, função, partícula etc.), em parágrafos intrincados e sem concatenação lógica de argumentos, num jogo de analogias baseadas nos diferentes sentidos vagamente atribuídos a esses termos na linguagem comum.
    Os escritos de Virilio são, talvez, os mais abertos à sátira. Por exemplo, no que diz respeito ao papel das velocidades, confunde velocidade com aceleração e quantidade de movimento com a equação logística. Mas Deleuze e Guattari providenciam ainda outro tipo de exemplo importante. Em suas análises de filosofia da matemática, retomam confusões devidas a Hegel (classificação errada de frações, noção de função superada há 150 anos) e fazem uma descrição obscura e complicada do cálculo infinitesimal, enquanto marcam a necessidade de uma “exposição rigorosa” de seus princípios. Aparentemente, ignoram que tal exposição existe desde o início do século passado.
    O capítulo dedicado a Bruno Latour é particularmente revelador, pois ilustra os riscos de se tentar uma análise profunda a partir de uma compreensão superficial. Com o propósito de demonstrar que a teoria da relatividade restrita é uma construção social, faz uma leitura semiótica do livro Relativity, de Einstein, no qual se apresentam os argumentos baseados em trens, observadores e sinais luminosos, que todo estudante de física conhece bem. Latour engana-se e centra sua análise em elementos puramente pedagógicos da exposição de Einstein. Por exemplo, atribui grande importância à existência de três sistemas de referência a uma só vez (isso pode acontecer ocasionalmente numa exposição didática, mas a teoria trata da relação entre dois sistemas) e ao fato de os observadores serem humanos (eles são humanos nos exemplos do livro de Einstein, mas na maioria dos experimentos e fenômenos os “observadores” são instrumentos, discos de computador e até partículas elementares), e confere um papel privilegiado ao “narrador” (a teoria não tem sistema privilegiado nem “narrador”, se bem que a exposição pedagógica precise de um).
    De fato, a teoria da relatividade conta com uma rica história de mal-entendidos por parte de filósofos. Os que se originam na interpretação errada de Bergson são especialmente persistentes, como fazem notar Sokal e Bricmont num capítulo muito claro e explícito. Henri Bergson, por razões puramente filosóficas, recusou-se a aceitar as noções einsteinianas de simultaneidade e tempo próprio e procurou estender o princípio de relatividade às acelerações. Seus argumentos conduzem a previsões que contradizem experiências atualmente conhecidas. No entanto, os erros bergsonianos reaparecem na obra de filósofos posteriores, como Jankélevich, Merleau-Ponty e Deleuze.
    A teoria do caos é outra vítima de maltrato em livros e ensaios bastante difundidos. Sokal e Bricmont expõem e clarificam os erros mais típicos: o caos, quer dizer, a sensibilidade às condições iniciais, não marca qualquer “limite” ou cul-de-sac da ciência; pelo contrário, tem aberto novas possibilidades de pesquisa. O caos não significa o fim do determinismo (aparece em equações perfeitamente determinísticas), ainda que obrigue a adotar um sentido probabilístico da previsibilidade comparável ao adotado em mecânica estatística no último século. O caos não significa um descrédito da mecânica newtoniana, mas sim o seu renascimento. De fato, esta última, considerada o paradigma do “pensamento linear”, leva a equações não-lineares, que algumas vezes exibem caos, se bem que a mecânica quântica, considerada mais próxima do “pensamento não-linear” preconizado pelos pós-modernistas, seja exatamente linear.
    O livro é escrito de forma direta, incisiva, sem ambigüidades, pedantismo, paráfrases ou elipses. Sokal e Bricmont não se interessam pelo vôo literário nem pelas sutilezas acadêmicas; querem apresentar seus pontos de vista sem dar lugar a dúvidas. Explicam pacientemente os aspectos científicos (com ajuda de uma lista de referências que pode ser de grande utilidade para os interessados em iniciar-se nesses temas) e expõem com franqueza suas intenções: “defender os cânones da racionalidade” e da honestidade intelectual. Sua posição filosófica contraria o relativismo cognitivo e questiona as teses de Popper, Quine, Kuhn e Feyerabend (que nutrem o ceticismo epistemológico) e do “programa forte” em sociologia da ciência. Essa franqueza algumas vezes chega ao limite da agressão verbal e introduz no livro um tom quase fundamentalista, que pode provocar discussões desnecessariamente marcadas pela emoção.
    Mas o legado mais importante deste livro é, precisamente, o catálogo de exemplos de erros, de falta de compreensão e até de preguiça intelectual de pensadores contemporâneos, quando analisam o conhecimento científico recente e não tão recente. É um mostruário sólido, convincente, irrecusável, que tem existência independente das opiniões dos compiladores. Está ali para que cada um ajuíze. Compreensivelmente, na polêmica gerada pelo livro, ninguém põe em dúvida o fato de que os erros apontados são realmente erros. As críticas referem-se antes à relevância desses escritos na obra dos autores considerados e às intenções finais de um livro como este. Sokal e Bricmont esclarecem que não ajuízam o resto das obras dos autores analisados, mas apenas as referências à física e à matemática (todavia, gostariam que outros, mais competentes, ajuizassem tendo em conta as imposturas apontadas), nem discutem se as imposturas são premeditadas ou de boa fé (o título do livro fala de “imposturas”, e não de “impostores”). E, se bem Sokal e Bricmont confessem intenções filosóficas e até políticas, elas não vêm ao caso.
    Os exemplos no livro falam por si. Para alguém com uma mínima formação científica, sugerem diversas questões para debate. Será que o hiato entre as “duas culturas” de Snow foi ampliado ou fossilizado? Será que todo um setor da intelectualidade, cuja atividade se baseia no discurso, nas argumentações teóricas, no confronto de pontos de vista, está perdendo a capacidade de compreender o método científico submetido ao controle inexorável dos experimentos? Será que a analogia injustificada e as “provas” por combinação de frases sugestivas são uma metodologia aceitável nas humanidades? Será que os argumentos baseados na precedência, inerentes às pesquisas nas humanidades, degeneraram-se num princípio de autoridade que acha os erros de Hegel mais confiáveis que 150 anos de desenvolvimento matemático? (Não é isso uma regressão aos tempos em que, quando as observações discrepavam da doutrina de Aristóteles, se preferia esta última?) Ou será que um verdadeiro menosprezo pela lógica e pelos desenvolvimentos científicos tem sido instalado em estratos visíveis da intelectualidade, perpetuado por círculos nos meios de comunicação inclinados a modas ou não qualificados e amparado na falta generalizada de formação científica, na indiferença (próxima ao pedantismo dos próprios cientistas) e numa tradição humanista de tolerância e não comprometimento, que deixa nas mãos do tempo a depuração do que vale?
    É indubitável que o trabalho de Sokal e Bricmont abre a oportunidade para um debate muito saudável e necessário, o qual, se for desenvolvido com grandeza, pode inclusive catalisar uma aproximação entre a ciência e as humanidades, em sua busca comum da compreensão da natureza e do espírito humano.
    Roberto Fernández
    Originalmente publicado na Folha de São Paulo, Jornal de Resenhas, 11 de Abril de 1998

    sexta-feira, 24 de agosto de 2012


    Sobre o autor de "Imperio"

    Antonio Negri ou a evaporação da dialéctica

    por Rubén Dri [*]

    "Ao alcançar o nível global, o desenvolvimento capitalista encontrou-se directamente confrontado com a multidão, sem qualquer mediação. Daí que se evaporasse a dialéctica, a ciência do limite e a sua organização". (Antonio Negri, Imp p. 222).
    . O arco-íris global imperial

    Antonio Negri, ou Toni Negri, é o novo intelectual da moda que nos chega da Europa com as suas novas categorias ou jargões e que nestas paragens, sempre ávidas de receber de forma acrítica o que nos de lá vem, causa furor. Não é a primeira vez que isso acontece, nem será a última. Antes foi Althusser. Quem podia então falar da situação nacional, da revolução, da ideologia, se não tivesse lido Althusser e não usasse categorias como Aparelho Ideológico do Estado e o escrevesse AIE, e não soubesse o que era o "corte epistemológico?".

    Althusser passou, não sem deixar fundas sequelas na militância, que é o aspecto que me interessa nestas reflexões. Depois de Althusser chegaram outros como Foucault , Nietzsche e uma caterva de pensadores, todos com novidades, mas que, transformados muitas vezes em fetiches, mais que ajudar-nos a conhecermo-nos, à nossa sociedade e aos seus problemas, apenas serviam como palas para não nos vermos.

    Para nossa desgraça, agora aparece Antonio Negri com categorias como "império", "multidão", "contra-poder" (palavra sagrada entre todas). Não me interessa por aí além o pensamento de Toni Negri, mas preocupa-me o efeito que causa na prática política militante, como noutro tempo me preocupou pela mesma causa o pensamento de Althusser.

    A tese central de Negri diz que a etapa do imperialismo, essa que Lenine caracterizou como "fase superior do capitalismo", terminou, e, em seu lugar, tomou relevância "o império". Na fase do imperialismo havia Estados nacionais fortes, que constituíam verdadeiros centros de poder. Havia um interior e um exterior. O capitalismo não tinha aínda conseguido incorporar toda a humanidade no seu interior. Esse passo foi agora dado pelo império.

    De agora em diante já não há mais centros, menos aínda, centro. “Os Estados Unidos não constituem – e na realidade, nenhum Estado – nação pode hoje constituir – o centro de um projecto imperialista. O imperialismo acabou. Nenhuma nação será líder mundial como o foram as nações europeias modernas” (Imp p. 15).

    Esta é uma meia verdade e, como tal, um erro. É certo que a liderança exercida por determinadas nações na modernidade recente, como a Holanda primeiro e depois a Inglaterra, já não poderá ser exercida da mesma maneira, porque o poder dos grupos económicos, os gigantescos monopólios e oligopólios, aumentou desmesuradamente. Mas daí a concluir que os Estados Unidos não constituem o centro do poder imperial, é falso.

    É certo que os poderes económicos manifestam uma certa independência do poder político, mas é um facto que os imensos poderes económicos actuais se concentram nas nações mais poderosas, ou seja, EUA, União Europeia (com destaque para a Alemanha) e Japão.

    “O Estado-nação e as empresas que funcionam com estas nações-Estados são agora mais fortes que nunca. Estados e multinacionais funcionam assim numa relação sinérgica” (PG p. 27).

    Para Negri todo o centro de poder se esfumou, se desterritorializou, de maneira que não se pode situar em lugar algum, pois desloca-se de um lado para outro. Derrida, o grande desconstrutor convida-nos a saltar do centro para a periferia e desta para o centro. Tudo é difuso acima, tudo são fluxos que vão e vêm, não há onde os apanhar, não há onde atacar. Dispersão absoluta, à qual responderá outra dispersão, a “multidão”.

    O império fez praticamente desaparecer o que antes, na etapa do imperialismo se denominava primeiro mundo, segundo mundo e terceiro mundo, porque “se misturaram de tal forma que continuamente encontramos o Primeiro Mundo no Terceiro, o Terceiro no Primeiro e já quase não encontramos o Segundo em parte alguma. O capital parece estar a braços com um mundo uniforme ou, em realidade, com um mundo definido por novos e complexos regimes de diferenciação e homogeneização, desterritorialização e reterritorialização” (Imp. pp. 14-15).

    Essa desaparição dos mundos, dita desta maneira, configura igualmente um erro. Em primeiro lugar, porque sempre no primeiro mundo houve terceiro mundo e vice-versa. O novo, neste sentido, é a fissura que se fez desses mundos ou sub-mundos no seio de qualquer dos mundos. Em segundo lugar, afirmar que Haiti, Bolívia, Argentina, o Congo pertencem ao mesmo primeiro mundo que os Estados Unidos é, no mínimo, uma asneirada.

    Isto é óbvio, algo que não devia ter sequer discussão. A questão é que teorias como estas produzem efeitos por vezes terríveis. Como sucedeu na Argentina, onde o governo de Menem “comprou” essa teoria do mundo único que, pelos vistos, era o que antes se denominava “primeiro mundo” e viveu-se uma década nessa ficção que, ao desmoronar-se, nos deixou nas franjas inferiores do terceiro mundo.

    A dialéctica, ideologia burguesa, evaporou-se.
    Um dos eixos do pensamento de Negri é a sua negação da dialéctica, apesar de se considerar marxista e de tomar partido por Marx, pois afirma pensar “com Marx e para lá de Marx” (Kam p. 11). Consegue, assim, aquilo em que fracassaram já outros dignos precursores como Althusser, Della Volpe e Colletti. Negri combina negações cortantes da dialéctica com outras, em que lhe concede algum alcance que definitivamente terminou com o advento do império.

    Este é um tema central, a raíz dos desvarios da concepção de Negri, no qual me deterei um pouco, passando primeiro revista aos antecedentes citados. A discussão sobre o tema da dialéctica no pensamento de Marx gira em torno dos conceitos de ciência e de materialismo.

    Efectivamente, se o “científico” é o que corresponde ao conceito de ciência natural, é lógico que não pode haver uma “dialéctica científica”. E não pode porque a dialéctica não pertence aos objectos ou coisas como entes separados da sua relação intrínseca com os seres humanos. Uma pedra ou uma mesa, se as considero em si mesmas, fazendo abstracção da sua inserção nas relações sociais, não podem ser dialécticas.

    Simplesmente “são”. Isto leva-nos, por sua vez, ao materialismo. Se o que se entende por tal é a matéria em si, é a pedra, a mesa, os átomos, aqui não pode haver dialéctica. Simplesmente são. Um físico que estuda a composição da água, descobre leis, composição e decomposição de elementos, nada más. Aí não intervém a dialéctica.

    Intelectuais marxistas como Althusser e Poulantzas, em França e Della Volpe, Colletti e Cerroni, em Itália, reflectiram, debateram e discutiram longamente sobre o estatuto “científico” do marxismo, entendido este como pensamento de Marx [1] , e esbarraram na dialéctica e na relação de Marx com Hegel. Mas, para todos eles, a ciência era a ciência natural, a que surgiu nos alvores da modernidade, com fundamento matemático, e que tantos êxitos havia logrado.

    Para Althusser o marxismo é a ciência da história que rompeu com toda a ideologia. Como ciência da história, denomina-se “materialismo histórico”. Distingue-se do marxismo como filosofia, reduzida esta a uma epistemologia que traça o limite entre a ciência e a ideologia, e recebe o nome de “materialismo dialéctico”.

    Como o conceito de ciência de Althusser é o que foi elaborado na base da epistemológica matemática, o mesmo que aceitava plenamente Kant e do qual partia para examinar as bases de todo o conhecimento verdadeiro, tropeça no problema da dialéctica que, de nenhum modo admitem, quer as matemáticas, quer a física, as duas ciências que Kant apontava como conhecimentos fundamentais.

    Começa portanto a realizar uma tarefa depuradora dos textos de Marx, para descobrir e eliminar os “restos” –assim supunha– feuerbachianos e, sobretudo, hegelianos, que impediam o aceso ao conhecimento científico. Em dado momento deu-se na elaboração do pensamento de Marx a célebre “ruptura epistemológica”, depois da qual põe de lado Hegel e a dialéctica e funda a ciência da história.

    Em Itália foi tentada uma empresa parecida, ou seja, descobrir o Marx científico, não dialéctico. O livro mais importante de Della Volpe diz claramente: “Lógica como ciência histórica”, onde começa afirmando que “com a presente investigação o autor chega àquela filosofia-ciência, cujos primeiros fundamentos metodológicos foram estabelecidos por Marx na sua crítica dos processos viciosos do idealismo hegeliano, assim como dos da “metafísica” da economia política' (Log p. 15) [2] .

    A empresa, como afirma Colletti, consiste na “relação entre dialéctica e materialismo. Trata-se, naturalmente, do materialismo em gnoseología, ou seja, daquela fracção de realismo que se encontra, de facto, implícita na ciência”. A conclusão a que chega Della Volpe é que “aplicar a dialéctica à realidade é idealismo. A dialéctica, com efeito, é “negação da negação”. Pretender dialectizar os factos, as coisas, é reproduzir uma concepção “negativa” ou platónica da matéria (a matéria como “não ser”)”. Mas então é absurdo reclamar-se do materialismo" (TraM p. 84).

    Segundo Della Volpe, o método de Marx é plenamente científico, na medida em que transpôs para a sociedade a lógica das ciências empíricas. As contradições da sociedade que Marx analisa em “O Capital”, não seriam contradições mas sim contrariedades, oposições sem contradição, motivo pelo qual Della Volpe apelida Marx o Galileu do mundo histórico-social.

    Colletti, numa primeira fase, seguiu a corrente dellavolpiana, até se ver obrigado a confessar: “ Os meus males começaram quando me dei conta que (e, em boa verdade não se pedia muito; mas o facto é que para mim se pedia) a dialéctica está também em O Capital" TraM p. 149), do que evidentemente Negri parece não se ter dado conta.

    É evidente que se nos referimos às coisas, aos factos, como se houvesse factos isolados que não se encontrem inseridos em relações sociais, como se fossem algo estático e não movimentos, aí não encontraremos dialéctica. Esta apenas se encontra, e não pode deixar de se encontrar, no âmbito dos sujeitos ou, por outras palavras, no âmbito social. O capital é dialéctico na medida em que se move com a subjectividade que lhe concede o sujeito seu criador.

    As categorias classificatórias em filosofia são relativas. Servem pedagogicamente para ordenar os pensadores e as correntes de pensamento segundo determinadas categorias hegemónicas, mas de nenhum modo nos dão uma ideia cabal dos ditos pensadores e correntes de pensamento. Marx é sempre colocado no rubro “materialismo”, embora ele nunca dissesse que o era. Pode ser colocado nesse rubro apenas se “materialista” aí quiser significar “praxis”, prática transformadora, como oposição a ideia pura.

    Se materialismo significa coisas, factos, não pode aí haver dialéctica. Mais ainda se quem defende tal concepção se confessa "nominalista", como o faz Negri. Nessa tarefa tinha sido precedido por Hobbes, a quem Negri odeia, embora talvez se trate do materialista mais consequente. Só que, como todo o materialista nominalista, cai na contradição e termina elaborando um sistema, o qual é impossível se o que existe é apenas matéria.

    Os materialistas nominalistas, Negri afirma taxativamente ser nominalista e reclama-se absolutamente do conceito, "estão forçados a derivar tudo o que existe de um princípio determinado, de um princípio material como generalidade suprema, mas ao mesmo tempo, a matéria deve caracterizar aquilo que precisamente não é um princípio, que não é a figura mais geral do pensamento, mas antes o que não é redutível puramente a pensamento”(TF p. 179).

    Sem dúvida que o materialismo de Negri, de acordo com as suas próprias afirmações, é o da praxis, não o dos factos isolados ou das coisas: “o meu propósito é, nestas lições, desenvolver a filosofia da praxis, o materialismo da praxis, insistindo sobre a dimensão da temporalidade como substrato ontológico do materialismo" (Kam p. 32). Dessa forma, colocar-se-ia na corrente seguida pelo jovem Lukács, Korsch, Gramsci, Mariátegui, Che Guevara. Como pode, então, negar a dialéctica?

    Pretender praxis, ou seja, prática - consciência, sem dialéctica é como pretender fogo sem calor. A chave, ou uma chave, talvez, é-nos dada pelo próprio Negri ao interpretar a praxis como força – vis – na esteira do espinozismo: “dizer praxis é dizer força (vis) que constrói (ou transforma) a coisa em nome e o nome em coisa' (Kam p. 38).

    O que é essa 'força' capaz de transformar a coisa em nome? Tem isso algum sentido? Toda a força provoca uma reacção, de maneira que se forma um "sistema de forças". O que não se vê é como a mera força possa transformar a coisa em nome e vice-versa. Isto é um aranzel, um jogo de palavras. A praxis não é mera força, mas sim prática-consciência, transformação consciente.

    No estudo que dedica a Spinoza, Negri traça a maldita senda dialéctica que vai de Kant a Hegel, através de Rousseau, enquanto deixa livre de tal maldição a via Maquiavel, Spinoza, Marx. Como consegue recuperar um Marx sem dialéctica é um verdadeiro mistério, como o é o de sustentar a criação ex nihilo .

    Precisamente um dos motivos, ou o motivo da negação da dialéctica é que esta não consente tal criação: "A dialéctica, enquanto forma do pensamento transcendental, refuta decididamente o poder de gerar ex nihilo (de produzir, plena, pleníssima de ser, no vazio, contra o vazio)' (Kam p. 159).

    Negri refuta o axioma da filosofia e da teologia clássicas que sustentam que ex nihilo, nihil fit . Não apenas a dialéctica, mas todo o sentido comum e todo o pensamento sensato sustenta que do nada, nada se cria. Para o fazer, seria necessário um poder omnipotente como sempre defendeu a teologia. Defender que se pode produzir a partir do nada, do vazio, é má teologia.

    Para Negri, a dialéctica é uma espécie de capuz que os filósofos idealistas da burguesia como Kant, Rousseau e sobretudo Hegel envergaram, e que lhes serviu para legitimar mentirosamente o seu domínio, mas que desaparece, se evapora, quando a multidão confronta directamente o império. Evidentemente, Marx não se tinha dado conta de semelhante armadilha burguesa.

    De maneira que a dialéctica seria um verdadeiro obstáculo para ver a realidade, um antolhos que nos impediria de ver, porque “ser e não ser se afirmam e se negam simplesmente, discretamente, imediatamente. Não há dialéctica. O ser é o ser, o não ser é o nada” (AS p. 361). Já dizia o velho Parménides: o ser é, o não ser não é. Mas Parménides tirava a consequência lógica que se assim é, do ser nada se pode pensar nem dizer. Não é o que pensa Negri, que não pára de falar do ser.

    O povo desagregou-se na multidão
    Uma das categorias fundamentais de toda a filosofia da praxis e de toda a sociologia criada na América Latina é a de “povo”. Quando nos referimos ao povo, queremos dizer que não se trata da massa, duma simples multidão de átomos, de simples grupos fragmentados, mas de um sujeito, de uma totalidade que não implica a anulação de indivíduos e grupos, mas sim a sua articulação num projecto comum.

    Não é fácil para um povo constituir-se como tal, criar-se como povo. O dominador sempre fará todos os esforços possíveis para o fragmentar, dividir, atomizar, numa palavra, para o reduzir a uma multidão. O caminho deve ser da multidão para o povo e não ao contrário como propõe Negri. A sua visão europeia fá-lo ver o povo como uma construção do “racismo colonial'”, de tal maneira que “os conceitos de nação, povo e raça nunca estão muito afastados entre si" (Imp p. 105).

    É provável que, na óptica dos centros de poder donde emana a visão de Negri, as coisas sejam encaradas dessa maneira. O povo francês ou italiano pode achar-se superior aos povos do Terceiro Mundo, aos latino-americanos, digamos, mas isso não corresponde essencialmente ao conceito de povo. Não vemos assim as coisas nos países da periferia. Afirmar-se como povo na periferia significa afirmar-se como sujeito, significa não aceitar ser tratado como um objecto.

    Para Negri o povo é uma “síntese constituída”, enquanto a multidão é “constituinte”. Toda a síntese simplesmente constituída é tratada como objecto. O dominador colonialista entrou com violência assassina genocida em comunidades e povos, desagregando-os, escravizando-os, impondo-lhes novos limites territoriais, novas leis, nova constituição política. Dessa forma, os povos são “sínteses constituídas", como diz Negri. Esta não é senão a acção e a visão do dominador.

    Para nós, habitantes do Terceiro Mundo, que continua a existir apesar do que Negri diga, o povo foi muitas vezes transformado em objecto, mas nas suas lutas constitui-se como sujeito. O que fez o Terrorismo de Estado foi precisamente destruir os sujeitos políticos e sociais, cuja articulação nos constituía como povo capaz de resistir aos embates neo-liberais e de avançar em projectos libertado, pulverizando o povo em multidão.

    O povo nunca é senão um fazer-se povo, ou seja, sujeito. Ser povo significa ter uma vontade comum como articulação de milhares de milhões de vontades expressas, não meramente de indivíduos, de particulares, mas de colectividades, de grupos que se constroem como sujeitos.

    Quando se instalou a ditadura de Onganía em 1966, a resistência que a impediu de se impor não foi obra da multidão, mas antes do sujeito colectivo no qual se articulavam os diversos sujeitos colectivos, como os sindicatos de classe, a CGTA, os sindicatos combativos, a juventude peronista, as organizações armadas, o movimento villero. Quando, através do Terrorismo primeiro, a impunidade depois e a hiper-inflação por fim, quebrou o sujeito popular e o reduziu a multidão, o neo-liberalismo globalizador menemista passou como um furacão, não deixando nada na sua passagem.

    ________
    Notas:
    (1) Digo "o marxismo como pensamento de Marx", porque distingo entre o marxismo como ideologia ou interpretação que praticam os mais diversos movimentos e partidos que se reportam a Marx, do próprio pensamento de Marx. Para não criar confusões, emprego o termo “marxiano” quando me refiro ao pensamento de Marx e “marxismo” quando aludo a uma sua interpretação ou desenvolvimento. Como os autores citados não fazem diferença na terminologia e falam sempre de marxismo, tenho de indicar quando se referem ao pensamento de Marx ou a alguma interpretação.
    (2) Traduzo directamente do texto italiano. Kairós, Alma Venus, Multitudo é a exposição da visão filosófica de Negri, a sua versão do materialismo. Entendo que não existe tradução para estas expressões.

    Siglas:
    AS — A anomalia selvagem
    Log — Lógica como ciência histórica
    PG — Globaloney
    Imp — Império
    Kam — Kairós, Alma Venus, Multitudo
    TF — Terminología filosófica
    TraM — Tra marxismo e no (Entre marxismo e não)

    Bibliografia citada:
  • Adorno, Theodor, W.: Terminología filosófica. Taurus Ediciones, Madrid, 1977.
  • Colletti, Lucio: Tra marxismo e no. Laterza, Torino, 1999.
  • Della Volpe, Galvano: Logica come scienza storica. Editori Riuniti, Roma, 1969.
  • Hegel, G.W.F.: Fenomenología del espíritu. Fondo de Cultura Económica, México, 1973.
  • Negri, Antonio: La anomalía salvaje. (Ensayo sobre poder y potencia en B. Spinoza). Ed. Anthropos, Barcelona, 1993.
  • Negri, Antonio: Imperio. Editorial Paidós, Buenos Aires, 2002.
  • Negri, Antonio: Kairós, Alma Venus, Multitudo. Manifesto Libri, Roma, 2000.
  • Petras, James: Globaloney (El lenguaje imperial, los intelectuales y la izquierda). Editorial Antídoto, Buenos Aires, 2000.
    [*] Rubén Dri é professor e investigador de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires. Foi sacerdote e escreveu, entre outros livros, 'Racionalidad, Sujeto y Poder' (Biblos).

    O original foi difundido pela Argenpress . Tradução de Carlos Coutinho.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info .  

  • Um governo a serviço do grande capital

    – Pacote da privataria petista é o "kit felicidade" do empresariado

    por PCB
    Almas gémeas. A Comissão Política Nacional do PCB avalia que o recente pacote econômico anunciado pelo governo, envolvendo recursos no valor de R$ 133 bilhões [1] para obras de infraestrutura da malha ferroviária e rodoviária, consolida e aprofunda a opção do governo do PT pelo grande capital e amplia de maneira acelerada o processo de privatização da economia brasileira, sob os disfarçados nomes "concessões", "parceria público-privada".

    Esse pacote é apenas a primeira etapa do chamado Programa de Investimento em Logística, que ainda vai abranger os setores de energia, portos e aeroportos e vem consolidar a linha iniciada com a privatização dos três principais aeroportos do País e de uma rodovia que liga o Rio de Janeiro ao Espírito Santo.

    Esta medida representa o escancaramento de uma linha política muito semelhante à do governo Fernando Henrique Cardoso, de entregar o patrimônio público para a iniciativa privada; tanto que o próprio PSDB publicou matéria paga nos jornais cumprimentando a presidente Dilma pelo novo programa de privatizações. Além disso, todo o empresariado comemorou o pacote e fez coro em elogios à presidente, chegando ao ponto de Eike Batista, o empresário mais rico do País, ter definido o pacote como o "kit felicidade" para o empresariado.

    O chamado choque de capitalismo – um volume colossal de concessões à iniciativa privada, como bem definiu a revista reacionária Veja – vai privatizar 7,5 mil quilômetros de rodovias, muito mais que todas as concessões do governo passado, que atingiram pouco mais de 5 mil quilômetros, e ainda 10 mil quilômetros de ferrovias. Como informa orgulhosamente o jornal O Globo, porta-voz dos interesses do grande capital, o Brasil, com 23,4 mil km de rodovias com pedágio [2] , passa a ser recordista mundial dessa forma de privatização, à frente até da Alemanha e Estados Unidos.

    Para facilitar ainda mais a vida do empresariado, o governo se encarregou de garantir a compra de toda a capacidade de transporte de carga das novas empresas concessionárias, o que significa que esses empresários não correrão qualquer risco de prejuízo em caso de baixa demanda por transporte de carga.

    Além disso, ainda dentro do pacote de bondades ao empresariado, ficou acertado que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiará cerca de 80% dos projetos de privatização, num processo também semelhante ao do governo FHC. É o dinheiro público, mais uma vez, financiando os investidores privados. E, para que não se tenha dúvida dos objetivos do governo, este ainda vai conceder incentivos (renúncias fiscais) aos consórcios vencedores das privatizações das rodovias e ferrovias e divulgar nas próximas semanas novas medidas privatizantes na área de portos e aeroportos.

    O governo, anuncia com alegria a imprensa burguesa, também concederá "incentivo" adicional aos vencedores das concessões: a desoneração da folha salarial nos setores de transporte aéreo e de carga, navegação de cabotagem, transporte marítimo, navegação de apoio marítimo e portuário, e manutenção e reparação de aeronaves, motores e componentes (renúncia de cerca de R$ 900 milhões [3] ). Ganha a burguesia e perdem os trabalhadores, pois estes setores deixam de contribuir com 20% da folha de pagamentos à Previdência Social, e passam a recolher uma alíquota de 1% ou 2% sobre o faturamento bruto.

    Trata-se, portanto, da consolidação de um modelo radical de construção de um estado máximo para o grande capital e mínimo para os trabalhadores. Não é essa a essência do que se chama de neoliberalismo? Mais uma vez fica demonstrado o caráter de classe do governo Dilma: enquanto nega reajuste de salários aos 400 mil funcionários públicos e professores universitários em greve e endurece as negociações com os trabalhadores, abre os cofres do governo, via BNDES, para os empresários adquirirem o próprio patrimônio público. O mais vergonhoso é que a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outras centrais pelegas [4] , que deveriam estar ao lado dos trabalhadores grevistas, avaliaram as medidas privatizantes como positivas e deram seu aval às privatizações, o que demonstra a completa degeneração tanto do sindicalismo chapa branca [5] quanto do sindicalismo pelego [6] no Brasil.

    Não precisamos esperar que os vencedores das concessões sejam anunciados para saber, a priori, que, além das empreiteiras e dos novos ricos escolhidos pelo governo, os fundos de pensão ligados ao sindicalismo oficial e pelego (como Previ, Petros e Funcef) estarão entre os principais beneficiários da decisão do governo. Mais uma vez, o "PT Patrão" estará representado nos conselhos de administração das grandes empresas que serão criadas, em novos setores estratégicos da economia brasileira.

    Com esse pacote de privatizações, o governo do Partido dos Trabalhadores (e seus aliados à esquerda e à direita) tira a máscara definitivamente e sepulta as ilusões dos ingênuos e daqueles que ainda acreditavam que esse governo possuía alguma dimensão popular. Além disso, confirma as avaliações que o PCB vem fazendo a respeito do PT desde 2005, quando rompemos com o governo e passamos a ter uma posição independente, mesmo com a incompreensão de vários setores da esquerda. Afinal, o critério para avaliar um governo é a sua relação com os interesses dos trabalhadores. E, nesse caso, essa é uma administração que governa essencialmente para o capital, que articula e financia seus negócios, e dá apenas migalhas para os trabalhadores, de quem ainda quer retirar o pouco que têm, com a proposta de flexibilização para baixo de direitos trabalhistas, que em breve enviará ao Congresso Nacional.

    PCB – Partido Comunista Brasileiro

    Comissão Política Nacional, agosto de 2012
    [1] €53 mil milhões
    [2] Pedágio: portagem
    [3] €359 milhões
    [4] Centrais pelegas: centrais amarelas
    [5] Chapa branca: cor da matrícula dos carros oficiais
    [6] Sindicalismo pelego: sindicalismo amarelo


    O original encontra-se em pcb.org.br/...

    Esta declaração encontra-se em http://resistir.info/ .  

    Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

    Templo grego clássico da Concórdia

    Templo grego clássico da Concórdia
    Viagem à Sicília

    Teatro greco-romano

    Teatro greco-romano
    Viagem à Sicília

    Pupis

    Pupis
    Viagem à Sicília Agosto 2009

    Viagem à Polónia

    Viagem à Polónia
    Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

    Viagem à Polónia

    Viagem à Polónia
    Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

    Forum Romano

    Forum Romano
    Viagem a Roma, 2009

    Roma - Castelo de S. Ângelo

    Roma - Castelo de S. Ângelo
    Viagem a Roma,2009

    Roma-Vaticano

    Roma-Vaticano

    Roma-Fonte Trévis

    Roma-Fonte Trévis
    Viagem a Roma,2009

    Coliseu de Roma

    Coliseu de Roma
    Viagem a Roma, Maio 2009

    Vaticano-Igreja de S.Pedro

    Vaticano-Igreja de S.Pedro

    Grécia

    Grécia
    Acrópole

    Grécia

    Grécia
    Acrópole

    Viagem à Grécia

    Viagem à Grécia

    NOSTALGIA

    NOSTALGIA

    CLAUSTROFOBIA

    CLAUSTROFOBIA