terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Gottfried LEIBNIZGottfried Wilhelm von Leibniz (Leipzig, 1 de julho de 1646 — Hanôver, 14 de novembro de 1716) foi um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão.


Princípios

Liberdade x determinação: Leibniz admitia uma série de causas eficientes a determinar o agir humano dentro da cadeia causal do mundo natural. Essa série de causas eficientes dizem respeito ao corpo e seus atos. Contudo, paralela a essa série de causas eficientes, há uma segunda série, a das causas finais. As causas finais poderiam ser consideradas como uma infinidade de pequenas inclinações e disposições da alma, presentes e passadas, que conduzem o agir presente. Há, como em Nietzsche, uma infinidade imensurável de motivos para explicar um desejo singular. Nesse sentido, todas as escolhas feitas tornam-se determinantes da ação. Cai por terra a noção de arbitrariedade ou de ação isolada do contexto. Parece também cair por terra a noção de ação livre, mas não é o que ocorre. Leibniz acredita na ação livre, se ela for ao mesmo tempo 'contingente, espontânea e refletida'.
A Contingência: A contingência opõe-se à noção de necessidade, não à de determinação. A ação é sempre contingente, porque seu oposto é sempre possível.
A Espontaneidade: A ação é espontânea, quando o princípio de determinação está no agente, não no exterior deste. Toda ação é espontânea e tudo o que o indivíduo faz depende, em última instância, dele próprio.
A Reflexão: Qualquer animal pode agir de forma contingente e espontânea. O que diferencia o animal humano dos demais é a capacidade de reflexão que, quando operada, caracteriza uma ação como livre. Os homens têm a capacidade de pensar a ação e saber por que agem.
As Mônadas: A contribuição mais importante de Leibniz para a metafísica é a sua teoria sobre as mônadas, expostas em sua obra Monadologia. As mônadas equivalem para a realidade metafisica, o que os átomos equivalem para os fenômenos físicos.As mônadas são os elementos máximos do universo.As mônadas são "formas substancias do ser com as seguintes propriedades: elas são eternas, indecompostas, individuais, sujeita as suas próprias leis, sem interação mútua, e cada uma refletindo o próprio universo dentro de uma harmonia preestabelecida (historicamente um exemplo importante de pampsiquismo). Mônadas são centros de forças; substância é força, enquanto o espaço, extensão e movimento são meros fenômenos.
A essência ontológica das mônadas é sua simplicidade irredutível.Assim como os átomos, as mônadas não possuem nenhuma matéria ou caráter espacial.Elas ainda se diferenciam dos átomos por sua completa mútua independência, assim as interações entre as mônadas são só aparentes.Em vez disso por força do principio da harmonia preestabelecida, cada mônada, segue uma instrução pré-programada, peculiar para si, assim uma mônada sabe o que fazer em cada situação. (Essas "instruções" podem ser análogas as leis cientificas que governam as partículas subatômicas). Pelo princípio dessas instruções intrínsecas, cada monada é como um pequeno espelho do universo.Mônadas não são necessariamente "diminutas"; e.g., cada ser humano é constituído por uma mônada, na qual o tema do livre-arbítrio é problematizado.Deus, também, é uma Mônada, e a existência de Deus pode ser inferida através da harmonia que se prevalece diante de todas as mônadas; Deus através de sua razão e vontade se afigura o universo através da harmonia preestabelecida.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Documentos históricos


Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net ____________________________________________
Publicado em: http://grachev62.narod.ru/stalin/t14/t14_09.htm
Tradução do russo e edição por CN, em 2013/01/31
Colocado em linha em: 2013/02/03
O homem, o capital mais precioso (II)
I.V. Stáline

[Intervenção na recepção de uma delegação de metalúrgicos em Moscovo em 26 Dezembro de 1934 1]
Tínhamos muito poucas pessoas com preparação técnica. Ante nós colocava-se o dilema: começar pela formação técnica das pessoas nas escolas, e adiar em dez anos a produção e a utilização em grande escala de máquinas, enquanto das escolas não saíssem quadros tecnicamente preparados, ou iniciar de imediato a criação de máquinas e promover a sua utilização em grande escala na economia nacional, de modo a que, no próprio processo de produção e utilização das máquinas, se desse formação técnica às pessoas e se desenvolvessem quadros. Optámos pela segunda via.
Aceitámos aberta e conscientemente os custos e gastos suplementares decorrentes da falta de pessoas com preparação técnica, capazes de lidar com as máquinas. É verdade que durante este período se estragaram muitas máquinas. Em contrapartida ganhámos aquilo que é mais valioso: tempo; e criámos o que é mais precioso na economia: quadros. Em três ou quatro anos criámos quadros tecnicamente preparados tanto no domínio da produção de máquinas de todo o tipo (tractores, automóveis, tanques, aviões, etc.), como no domínio da sua utilização em grande escala. Conseguimos fazer em três ou quatro anos, grosso modo e no essencial, o que na Europa foi feito ao longo de décadas. Os custos e despesas suplementares, a perda de máquinas e outros prejuízos foram pagos com juros. Esta é a base da rápida industrialização do nosso país. Mas não teríamos estes resultados se a siderurgia não se tivesse desenvolvido, se ela não tivesse florescido no nosso país.
1 I.V. Stáline, Obras (em russo), t. 14, ed. Pissátel, Moscovo, 1997, pp. 48-50.
Este discurso, publicado no Pravda em 29 de Dezembro de 1934, como relato jornalístico, foi incluído numa brochura editada pelas Editions Sociales (Paris, 1952), com o título L'homme, le capital le plus precieux, aqui utilizado. Como informa a peça jornalística original, na data referenciada, assinalando a boa execução do plano anual da siderurgia, uma delegação de metalúrgicos, que incluía, directores de fábrica, pessoal técnico e operário, foi recebida em Moscovo por Stáline, na presença de Mólotov, presidente do Conselho de Comissários do Povo, e Ordjonikídze, comissário do povo da Indústria Pesada. A intervenção de Stáline seguiu-se às palavras do académico Bardine, director técnico da fábrica de Kuznietsk, que saudou o líder soviético pela grande vitória alcançada pela siderurgia em 1934. (N. Ed.)
2
Podemos falar de pleno direito dos grandes êxitos da siderurgia, que constitui a força fundamental da economia nacional. Vencemos, é verdade. Mas não devemos ufanar-nos com estes êxitos. O mais perigoso é quando nos regozijamos com os êxitos e esquecemos as insuficiências e as tarefas seguintes.
Em todos os países desenvolvidos a produção de aço é superior à produção de ferro fundido. Há países em que a produção de aço é 20 a 30 por cento superior à produção de ferro fundido. No nosso país, pelo contrário, a produção de aço é inferior à produção de ferro fundido. Por quanto tempo isto vai manter-se? Hoje já não se pode considerar que somos um país feito de madeira, que não existe sucata de ferro no país, etc. Hoje somos um país do metal. Não será tempo de acabar com esta desproporção entre o ferro fundido e o aço?
O problema seguinte é o atraso na assimilação e domínio da tecnologia dos fornos Martin2 e das linhas de laminação nas fábricas metalúrgicas.
Muitos compreenderam mal a consigna do partido: «A técnica no período da reconstrução decide tudo». Muitos compreenderam-na mecanicamente, isto é, compreenderam-na no sentido de que bastaria amontoar o maior número de máquinas, para que a consigna fosse inteiramente cumprida. Isto é errado. Não se pode separar a técnica das pessoas que a colocam em funcionamento. A técnica sem pessoas está morta. A consigna: «A técnica no período da reconstrução decide tudo», subentende não a técnica apenas, mas a técnica dirigida por pessoas que a dominam. Esta é a única interpretação correcta desta consigna. E uma vez que já aprendemos a valorizar a técnica, chegou a altura de declararmos abertamente que as pessoas que dominam a técnica são agora o principal. Daqui se infere que, se antes colocávamos unicamente a tónica na técnica, nas máquinas, agora temos de colocar a tónica nas pessoas que dominam a técnica. É isto que exige a nossa consigna sobre a técnica. Temos de cuidar de cada trabalhador apto e com capacidade de compreensão, temos de cuidar dele e fazê-lo crescer. É preciso tratar as pessoas com zelo e atenciosamente, como um jardineiro trata da sua árvore de fruto preferida. Educá-las, ajudá-las a crescer, abrir-lhes uma perspectiva, promovê-las a tempo, e transferi-las a tempo para outras funções quando não conseguem executar a sua tarefa, não esperando que fracassem completamente. Fazer crescer e qualificar as pessoas, colocá-las nos lugares certos e organizá-las na produção, definir os salários de modo a reforçar os elos decisivos da produção e incentivar as pessoas a obterem uma qualificação superior – eis o que precisamos para criar um exército numeroso de quadros técnicos da produção.
Ora, neste aspecto, nem tudo está bem nas vossas fábricas. Nos altos-fornos conseguiram formar e organizar razoavelmente pessoas tecnicamente experientes, mas nos outros sectores da metalurgia ainda não conseguiram fazê-lo. Precisamente por isso o aço e os laminados continuam atrás do ferro fundido. A tarefa consiste em eliminar finalmente esta lacuna. Tenham em conta que, a par do ferro fundido, precisamos de mais aço e laminados.
Pravda, 29 de Dezembro de 1934 – (Segundo o relato jornalístico)
2) Trata-se do forno Siemens-Martin, inventado por Pierre-Émile Martin, em 1864, que adaptou um procedimento de Carl Wilhelm Siemens, patenteado em 1856, à fundição de sucata de ferro. O interesse deste tipo de forno, muito utilizado até aos anos 60, residia na possibilidade utilizar ferro-velho na produção de aço de alta qualidade. (N. Ed.)

sábado, 2 de fevereiro de 2013


A razão à prova das grandes crises históricas

por Domenico Losurdo [*]
Tomada da Bastilha.Como explicar a grande crise histórica que principia com a Revolução Francesa e que, um quarto de século mais tarde, é concluída (provisoriamente) com o retorno dos Bourbons? Friedrich Schlegel e a cultura a Restauração não cessaram de denunciar a "doença política" e o "flagelo contagioso dos povos" que estrondeiam a partir de 1789; mas é o próprio Metternich que alerta contra a "peste" ou o "cancro" que devasta os espíritos [1] . Para sermos mais exactos – indo mais longe do que este outro ideólogo da Restauração que é Baader – estamos na presença de uma "loucura de possessão satânica"; ao derrube do Antigo Regime sucedeu não a democracia mais sim a "demonocracia" [2] , ou seja, o poder de Satã.

Mais tarde, após a vaga da revolução de 1848 e sobretudo da revolta operária, Tocqueville vai desenvolver a abordagem psicopatologisante: o que vai explicar a "doença da Revolução Francesa" é a propagação de um "vírus de uma espécie nova e desconhecida" [3] . Nos seusSouvenirs, referindo-se ao momento em que começa a subir a agitação que desembocará nas jornadas de Junho, o liberal francês faz dizer a "um médico de mérito que dirigia então um dos principais hospitais de loucos de Paris": "Que infelicidade e como é estranho pensar que são loucos, verdadeiros loucos, que provocaram isto! A todos operei ou tratei. Blanqui é um louco, Barbès é um louco, Sobrier é um louco, Huber sobretudo é um louco, todos loucos, senhor, que deveriam estar no meu [hospital de] Salpêtrière e não aqui". Tocqueville acrescenta a seguir: "Sempre pensei que nas revoluções e sobretudo nas revoluções democráticas, os loucos, não aqueles aos quais se dá este nome por cortesia, mas os verdadeiros, desempenharam um papel político muito considerável" [4] .

Tocqueville.A referência a forças de alguma forma infernais não faltará daí em diante: nas jornadas de Junho, Tocqueville ouve soar "uma música diabólica" nos bairros que se preparavam para resistir e que convocam os habitantes à luta tocando a "generala". Os habitantes ouvem e preparam-se com um "ar sinistro", perdendo seus traços humanos. Eis a agitar-se de modo insensato uma "velha" que parece uma feiticeira: "A expressão odiosa e terrível do seu rosto fez-me horror, tanto o furor das paixões demagógicas e a raiva das guerras civis estavam nele bem representados".

Na véspera da Comuna de Paris, a abordagem psicopatológica celebra o seu triunfo com Taine: 
"Se há para os corpos doenças epidémicas e contagiosas, há também para os espíritos e esta é então a doença revolucionária. Ela se encontra em simultâneo sobre todos os pontos do território e cada ponto infectado contribui para a infecção dos outros [...] Em todas as partes as mesma febre, o mesmo delírio e as mesmas convulsões indicando a presença do mesmo vírus, e este vírus é o dogma jacobina". [5] 
Não só a Comuna como todo o ciclo revolucionário francês é posto na conta do "vírus" e da "alteração do equilíbrio normal das faculdades" [6] . Lancemos um olhar a tal ou tal actor da revolução: "O médico reconheceria de imediato um destes loucos lúcidos que não encerra, mas que são os mais perigosos" (VII, 205). Com efeito, Marat comporta-se como "seus companheiros [do hospital] de Bicêtre" (VII, 208). Como se pode ver, passámos do Sapetrière de Tocqueville para o Bicêtre, mas a explicação das crises revolucionárias continua a ser procurada nos hospícios. Aos olhos de Taine também a loucura revolucionária tem algo de diabólico. Se Voltaire é um "demónio encarnado", Saint-Just e o protagonista de uma espécie de rito satânico: "Esmagar e subjugar torna-se uma voluptuosidade intensa, saboreada pelo orgulho íntimo, um fumo de holocausto que o déspota queima no seu próprio altar; neste sacrifício quotidiano, ele é em simultâneo o ídolo e o padre, e oferece-se vítimas para ter consciência da sua divindade" [7] .

O ciclo que principia na Rússia em 1905 é comparável ao ciclo revolucionário francês. A cultura dominante vai então reactualizar o "diagnóstico" já efectuado. O "vírus de uma espécie nova e desconhecida" migra da França para a Rússia: é assim, num retorno explícito a Tocqueville, que argumentam François Furet e o sovietólogo estadunidense Richard Pires [8] .

A leitura em termos psicopatológicos das grandes crises históricas está de tal modo difundida actualmente que até se pode observá-las nas categorias centrais do discurso político. Em 1964, Adorno vê no "totalitarismo psicológico" o fundamento do totalitarismo propriamente dito: há indivíduos que "não têm à sua disposição senão um eu fraco e em consequência têm necessidade, como substitut, da identificação com um grande colectivo e da sua cobertura". Não só desvanece-se assim a situação objectiva, a geopolítica e a história, mas os próprios ideólogos não desempenham qualquer papel: "Os caracteres submetidos à autoridade são avaliados de modo totalmente erróneo ainda que sejam construídos a partir de uma ideologia político-económica determinada" [9] .

'.A deriva psicologista acaba por emergir também em Arendt. Com efeito, é recorrente nas Origens do totalitarismo a denúncia do "desprezo totalitário pela realidade e pelos próprios factos", pela "loucura" que a "sociedade totalitária" demonstra. Esta não é a busca com métodos brutais e sem nenhum escrúpulo moral de objectivos em todo caso logicamente compreensíveis. Não, no totalitarismo tratamos dos "paranóicos" (10): "A agressividade do totalitarismo não nasce do apetite de poder e o seu expansionismo ardente não visa a expansão para si mesmo, não mais do que o lucro; suas razões são unicamente ideológicas: trata-se de tornar o mundo mais coerente, de provar o bom fundamento do seu mau entendimento" (p. 810). Por outras palavras, o totalitarismo é a loucura que quer a loucura.

Eis-nos chegados de alguma forma à cultura da Restauração, como se verifica a partir de um pormenor ulterior. Quanto aos "regimes totalitários" (não só o regime hitleriano como também o staliniano), Arendt faz intervir a categoria de "mal absoluto", que já não podem mais explicar "as vis motivações do interesse pessoal, da culpabilidade, da cobiça, do ressentimento, do apetite de potência e da covardia" (p. 811) e que portanto não pode ser explicado racionalmente. O Satã de que fala a cultura da Restauração é aqui tornado o mysterium iniquitatis. 

Mas porque a abordagem psicologisante deve ser considerada como errónea e mistificadora? Vejamos o que se passa nos Estados Unidos, nas vésperas da Guerra de Secessão, ou seja, deste trágico conflito que acaba por desembocar numa revolução abolicionista. Nos campeões do Sul escravocrata, comparam-se os abolicionistas aos jacobinos, eles próprios afectados pela loucura. Mas ocorre aqui uma novidade. Faz-se também um diagnóstico psicopatológico para os escravos. O número dos escravos fugitivos aumenta e os ideólogos da escravatura espantam-se: como é possível que pessoas "normais" se subtraiam a uma sociedade tão bem ordenada? Eis-nos claramente na presença de um espírito perturbado. Mas de que se trata? Em 1851, Samuel Cartwright, eminente cirurgião e psicólogo da Luisiânia, partindo do facto de que em grego clássicodrapetes é o escravo fugitivo, conclui triunfalmente que a perturbação psíquica que leva os escravos negros à fuga é precisamente adrapetomania [11] . Outros ideólogos constatam que os escravos não obedecem mais às ordens dos mestres com a mesma celeridade anterior. O diagnóstico psicopatologisante intervém de novo: a doença em questão é agora a "disestesia", ou seja, a incapacidade dos escravos para compreender e reagir com celeridade às ordens do mestre [12] .

'NietzscheNo século XIX vemos desenvolver-se uma outra revolução, a revolução feminista. E novamente caímos na denúncia da loucura e da degenerescência que estaria na base desta novidade incrível. É um grande filósofo, Friedrich Nietzche, que fala das protagonistas desta revolução como mulheres falhadas que desconhecem a sua natureza de mulheres e são mesmo incapazes de engendrar: "Emancipação da mulher – eis o que é o ódio instintivo da mulher falhada, ou seja, incapaz de procriar, contra a mulher de bom comportamento". A polémica contra o movimento feminista é tão rude que leva o filósofo a declarações de um filistinismo desarmante. As "emancipadas" seriam "mulheres fracassadas" ou então "aquelas que não o estofo para terem filhos" [13] . Pode-se tirar uma conclusão: historicamente, não se encontra desafio à opressão que não tenha sido taxado de loucura, de deformação da saúde e da normalidade.

De resto, o diagnóstico psicopatologisante caracteriza-se pelo seu lado arbitrário. Pode-se constatá-lo até nos grandes autores. Em 1950, ao publicar seus estudos sobre a "personalidade autoritária", Adorno sublinha a "correlação entre anti-semitismo e anti-comunismo" e acrescenta a seguir: "Durante os últimos anos todo o mecanismo de propaganda na América foi consagrado a desenvolver o anti-comunismo no sentido de um "terror" irracional" [14] . Naquele momento, aqueles que foram afectados por perturbações psíquicas eram os anti-comunistas; em 1964, em contrapartida, Adorno inserirá exactamente os comunistas, com os fascistas, entre as personalidades intrinsecamente autoritárias e inclinadas ao totalitarismo!

O diagnóstico psicopatologisante toma habitualmente como alvo os campeões da revolução, nunca os da guerra 

Também vale a pena notar que o diagnóstico psicopatológico toma habitualmente como alvo os campeões da revolução, nunca os da guerra. Os loucos são Robespierre e os jacobinos, mas não os girondinos feitores da guerra, cujas consequências devastadora para a liberdade civil e política são denunciadas de modo antecipado e com uma grande lucidez exactamente por Robespierre. Os loucos são os bolcheviques que invocam a Revolução para por fim à carnificina da Primeira Guerra Mundial, não aqueles que, prolongando a participação da Rússia nesta carnificina, não hesitam em sacrificar milhões de pessoas e em provocar no país uma crise política, económica e social de proporções espantosas. Mais ainda, a Primeira Guerra Mundial é saudada não só na Rússia mas em todo o Ocidente como um momento de regeneração espiritual exaltante e os maiores intelectuais da época empenham-se nesta obra de celebração e de transfiguração.

Finalmente. Vimos Tocqueville identificar na obra de um "vírus de uma espécie nova e desconhecida" a causa do interminável ciclo revolucionário francês. Mas porque o autor desta explicação não poderia ser submetido, também ele, a um diagnóstico psicopatológico? Para demonstrar a loucura da "raça de revolucionários que parece nova no mundo" e que está a actuar em França, ele observa que esta "não só pratica a violência, o desprezo do direitos individuais e a opressão das minorias, mas, o que é novo, professa que assim deve ser" (II, 2, p. 337). E vejamos agora como o liberal francês celebra a primeira guerra do ópio:
"Trata-se de um grande acontecimento, sobretudo se se sonha que não é senão a sequência, o último termo de uma multidão de acontecimentos da mesma natureza que, todos eles, empurram gradualmente a raça europeia para fora da sua casa e submetem sucessivamente ao seu império e à sua influência todas as outras raças [...]; é a submissão de quatro partes do mundo pela quinta. Não difamemos nosso século e nós próprios; os homens são pequenos mas os acontecimentos são grandes".
Ou então vejamos qual comportamento Tocqueville sugere ao exército francês empenhado na conquista da Argélia:
"Destruir tudo o que se pareça a uma agregação permanente de população, ou por outras palavras, a uma cidade. Creio da mais alta importância não deixar subsistir ou elevar-se nenhuma cidade nos domínios de Abd-el-Kader" (o líder da resistência)." [15]
.Nestas duas declarações ressoa esta celebração da violência e da lei do mais forte de que se censura a "raça dos revolucionários" em acção em França. Por outras palavras, é de modo não só arbitrário mas também dogmático que procedem os fazedores da abordagem psicopatológica: eles não aplicam a si mesmos os critérios que fazem valer para os outros.

Poder-se-ia objectar com Furet que o carácter patológico da violência jacobina (e bolchevique) reside no facto de que ela devora os seus próprios filhos. Se não fosse a dialéctica de Saturno que está bem presente na Reforma protestante na primeira revolução inglesa e que se manifesta também, com modalidades particulares, na revolução americana. Por ocasião da Guerra de Secessão, os dois campos reclamam-se da luta pela independência conduzida em conjunto contra a Coroa inglesa. Os abolicionistas referem-se ao princípio proclamado pela Declaração de independência segundo a qual "todos os homens foram criados iguais" e ao incipit solene da Constituição de Filadelfia na qual o "povo dos Estados Unidos" declara querer ulteriormente "aperfeiçoar a União". A propaganda da Confederação reivindica a herança da luta dos patriotas contra um poder central opressivo, sublinha a centralidade do tema dos direitos de cada estado singular no processo de fundação e na tradição jurídica do país, e observa que Washington, Jefferson e Monroe eram todos proprietários de escravos. Os dois campos opostos declaram avançar no rastro dos Pais Fundadores, mas isso não evita o choque e o torna mesmo mais rude. Não há dúvida: também neste caso, Saturno devora os seus filhos.

É preciso notar igualmente que os colonos americanos protagonistas da guerra de independência contra o governo de Londres são definidos pelos seus contemporâneos ingleses, quer num julgamento positivo ou negativo, como "os dissidentes do desacordo". E se Burke denuncia a "doença" francesa desde a primeira da revolução [16] , Mallet du Pan põe em causa nesta revolução a "inoculação americana" [17] . Como se vê, a remessa à dialéctica de Saturno e à psicopatologia para explicar as revoluções não esperou o jacobinismo para vir à luz!

Mas coloquemos agora uma pergunta: qual é o ponto de partida da loucura ideológica que teria assolado primeiro o ciclo revolucionário francês e depois o ciclo revolucionário russo? Furet, tal como Pipes, partem da França das Luzes e das sociedades de pensamento. E é do mesmo modo que argumenta Taine, que vimos criticar Voltaire como demónio incarnado e que vê a França revolucionária "intoxicada pela má aguardente do Contrato Social" de Rousseau [18] . Pode-se agora considerar como terminada a investigação para trás das origens do maldito vírus revolucionário? Nada disso! Bem antes da revolução que em França liquida o Antigo Regime, verifica-se na Alemanha a Guerra dos Camponeses que, conduzidos por Müntzer, insurgem-se contra os senhores feudais e querem abolir a servidão de gleba. Os protagonistas desta revolução são estigmatizados por Lutero como "profetas loucos" (tolle Propheten) que excitam a "populaça louca" (tolle Pöbel), como "visionários" (Schwärmerer, Geister, Schwarmgeister), loucos que perderam totalmente o sentido da realidade [19] . Mas esta campanha contra o ex-discípulo que se tornou louco não impede Lutero de ser por sua vez classificado por Nietzche entre os "espíritos doentes", a saber, entre os "epilépticos das ideias" (com Savonarole, Luther, Rousseau, Robespierre et Saint-Simon) ( O Anticristo, 54).

Taine.Sim, segundo Nietzche, para encontrar as primeiras origens da doença revolucionária convém remontar bem mais para trás do que o fazem os críticos habituais da revolução: a loucura que desejaria o advento de um mundo perfeito e igualitário e que condena a riqueza e o poder enquanto tais começou a manifestar-se já com o cristianismo e mesmo, ainda antes, com os profetas judeus. Convencido da longa duração do ciclo revolucionário que assola o Ocidente, Nietzche convida a proceder finalmente ao acerto de contas com "estes milhares de anos de um mundo de choças" e com as "doenças mentais" que o assolam a partir do "cristianismo" (O Anticristo, 38). Poder-se-ia ler esta conclusão como a involuntária reductio ad absurdum da interpretação psicopatologisante do conflito político e, em particular, das grandes crises históricas. Mas não esqueçamos que Nietzche declara ter "passado pela escola de Tocqueville e de Taine" (B, III, 5, p.28), e que tem com este último relações epistolares marcadas por uma estima recíproca [20] .

Nos nossos dias, igualmente, na esteira do filósofo alemão, um ilustre historiador das religiões (Mircea Eliade) e um eminente filósofo (Karl Löwith) explicam a loucura sanguinária do século XX partindo de longe, de muito longe: tudo teria começado em tempos bastante recuados com a recusa do mito do retorno eterno e com o advento da visão unilinear do tempo e da fé no progresso que a acompanha: tudo teria começado com, uma vez mais, a afirmação da cultura judia e cristã. A tendência para liquidar as grandes crises históricas (e em última análise a história universal) enquanto expressões de loucura caracteriza a cultura actual de modo talvez ainda mais forte do que a cultura da Restauração.

Mas como explicar o facto de que as explosões de loucura manifestam-se mais frequentemente e numa escala mais vasta em certos países do que em outros? Conhece-se em Tocqueville a tendência para celebrar um sentido moral e prático superior e um mais forte apego à liberdade que caracterizariam os cidadãos estado-unidenses, em oposição aos franceses. Quer dizer que a leitura psicopatológica do conflito tende a desembocar numa leitura de cariz etnológico (e de tendência racial). É uma tendência que se manifesta também fortemente na historiografia e na cultura contemporânea. Segundo Norman Cohn (2000, p. 21), a Inglaterra "faz-se notar por uma ausência quase total de tendências chiliásticas" e de " chiliaísmo revolucionário", que em contrapartida assolam a França e a Alemanha [21] . Mais radical na deriva etnológica (e, em última análise, racial) é Robert Conquest (2001, p.15), que vê na França e na Rússia (e na Alemanha) os lugares das "aberrações mentais", das quais em contrapartida estão imunes as revoluções inglesa (não se fala senão da Revolução Gloriosa de 1688) e americana. Além disso, a civilização autêntica encontra sua expressão mais acabada na "comunidade de língua inglesa" e o primado desta comunidade tem seu fundamento étnico preciso, constituído pelos "angloceltas" [22] . Então coloca-se aqui uma questão: por o culto dos "angloceltas" deveria ser mais aceitável do que o culto dos "arianos", particularmente caro aos nazis?

Pois. Para se dar conta do absurdo da remessa à psicopatologia basta reflectir no facto de que o carácter catastrófico da crise revolucionária na Rússia foi previsto com décadas de antecipação por autores muito diferentes entre si. Em 1811, na São Petesburgo ainda abalada pela revolta camponesa de Pugatchev, Maistre vê perfilar-se uma revolução (desta vez apoiada por "Pougatcheve de Universidade", isto é, por intelectuais de origem popular) de uma amplitude e de uma radicalidade de fazer empalidecer a Revolução Francesa. Em 1859 previne: se a nobreza continuar a se opor a uma emancipação real dos camponeses, emergirá um cataclismo social "sem precedentes na história". Em 1905, mesmo o primeiro-ministro russo Serge Witte exprime-se em termos semelhantes!

Podem-se fazer considerações análogas para a crise que na Alemanha acabou no advento de Hitler ao poder. Pouco tempo após a assinatura do Tratado de Versalhes, o marechal Ferdinand Foch observa: "isto não é a paz, isto não é senão um armistício para vinte anos". O imperialismo alemão não ia tardar em tentar a sua desforra; e ele vai tanto mais facilmente obter um consenso de massa na medida em que os vencedores da Primeira Guerra Mundial se mostram vindicativos e míopes. Neste mesmo período o grande economista John Maynard Keynes, que fez parte da delegação inglesa em Versalhes, põe em guarda contra as consequências de uma "paz cartaginesa":
"A vingança, ouso prever, não tardará. Nada poderá então retardar por muito tempo esta guerra civil final entre as forças da reacção e as convulsões revolucionárias desesperadas; face a que os horrores da última guerra alemã desaparecerão no nada e destruirão, qualquer que seja o vencedor, a civilização e o progresso da nossa geração". [23]
Portanto: "Que o céu nos proteja a todos!" Uma prova de força ia-se perfilando para a hegemonia ainda mais brutal e bárbara que do que aquela que se havia desencadeado no decorrer do primeiro conflito mundial.

O nazismo caracteriza-se também por sua pretensão a retomar a tradição colonial para realizá-la também, nas suas formas mais bárbaras, na Europa oriental. Pois bem, a partir já do século XIX a cultura europeia mais avançada colocou-se uma questão angustiante: o que teria acontecido se os métodos de governo e de guerra em acção nas colónias tivessem acabado por se impor também nas metrópoles? O próprio genocídio dos judeus não acontece de modo de algum de modo improvisado. Basta-nos dizer que na Rússia devastada pela guerra civil, os judeus, estigmatizados como fantoches do bolchevismo, tornam-se as vítimas de massacres desencadeados pelas tropas brancas apoiadas pela Entente: isto é o prelúdio – observam eminentes historiadores – do que será a seguir a "solução final" [24] .

Concluamos. A leitura psicopatologisante das grandes crises históricas permite por um lado liquidar como uma expressão de loucura o gigantesco processo de emancipação que vai da Revolução Francesa (das Luzes mesmo) à Revolução de Outubro; por outro lado, ela atribui o Terceiro Reich a uma personalidade doente individual (Hitler), absolvendo indirectamente o sistema político-social e a tradição ideológica que o produziram. A crítica da leitura psisopatologisante (mesmo demonológica) das grandes crises históricas é um hoje um dever essencial da crítica da ideologia e da luta pela razão.
[1] cf. Heinrich von Treitschke, Deutsche Geschichte im neunzehnten Jahrhundert, Leipzig, 1879-1894, vol. III, p. 153.
[2] Benedikt F. X. von Baader, Sämtliche Werke, présenté par F. Hoffmann et alt. (Leipzig 1851-1860), réédition anastatique, Scientia, Aalen, vol. 6, pp. et 26.
[3] Alexis de Tocqueville, Œuvres complètes, présentées par J. P. Mayer, Gallimard, Paris, 1951 et suivantes, vol. XIII, 2, pp. 337-38.
[4] Pour les Souvenirs nous renvoyons le lecteur à l'anthologie de Tocqueville de F. Mélonio et J. C. Lamberti, Laffont, Paris, 1986, pp. 798 et 812.
[5] Hippolyte Taine, Les origines de la France contemporaine (1876-94), Hachette, Paris, 1899, vol. 6, p. 64.
[6] Ibidem., vol. 5, pp. 21 et suivantes.
[7] Ibidem.,vol. 7, pp. 205, 208 et 347-8 et vol. 1, p. 295.
[8] Domenico Losurdo, Le révisionnisme en histoire. Problèmes et mythes, traduit de l'italien par Jean-Michel Goux, Albin Michel, Paris, 2006, chap. 1,1.
[9] Theodor W. Adorno, Eingriffe. Neun kritische Modelle, Suhrkamp, Frankfurt a. M., 1964, pp. 132-3.
[10] Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism (1951) Harcourt, Brace & World, New York, 3° ed., 1966, pp. 457-9.
[11] Cf. Emily Eakin, Is Racism Abnormal ? A Psychiatrist Sees It as a Mental Disorder, in International Herald Tribune du 17 janvier 2000, p. 3.
[12] Wyn C. Wade, The Fiery Cross. The Ku Klux Klan in America, Oxford University Press, New York-Oxford, 1997, p. 11.
[13] Ecce Homo, « Pourquoi j'écris de si bons livres ».
[14] Cf. Theodor W. Adorno, Studies in the Authoritarian Personality, in Id., Gesammelte Schriften, Suhrkamp, Frankfurt a. M., vol. 9, 1, p. 430.
[15] Alexis de Tocqueville, Œuvres complètes, cit., vol. 2, 2, p. 337 ; vol. 6, 1, p. 58 et vol. 3, 1, p. 229.
[16] Domenico Losurdo, Controstoria del liberalismo, Laterza, Roma-Bari, 2005, chap. VIII, § 7.
[17] Alphonse Aulard, Histoire politique de la Révolution française (1926), Scientia, Aalen (reproduction anastatique), 1977, p. 19, note 1.
[18] Cf. Hippolyte Taine, Les origines de la France contemporaine, cit., vol. 4, p. 262.
[19] Martin Luther, Ermahnung zum Frieden auf die zwölf Artikel der Bauernschaft in Schwaben (1525), in Die Werke, présenté par Kurta Aland, Klotz-Vandenhoeck & Ruprecht, Stuttgart-Göttingen, 1967, vol. 7, pp. 165, 168, 174 et 180 ; Martin Luther, Daß diese Worte : Das ist mein Leib etc. noch feststehen. Wider die Schwarmgeister (1527), in Werke, présenté par Diaconus Dr. Buchwald et alt., Schwetschke, Braunschweig, 1890, vol. 4, pp. 342 et suivantes.
[20] Domenico Losurdo, Nietzsche, il ribelle aristocratico. Biografia intellettuale e bilancio critico, Bollati Boringhieri, Torino, 2002, cap. 28, § 2 .
[21] Cf. N. Cohn, The Pursuit of the Millennium (1957), tr. it., de Amerigo Guadagnin, I fanatici dell'Apocalisse, Comunità, Torino, 2000, p. 21.
[22] R. Conquest, Reflections on a Ravaged Century (1999), tr. it., de Luca Vanni, Il secolo delle idee assassine, Mondadori, Milano, 2001, pp. 15, 275 et suivantes et 307.
[23] John M. Keynes, The economic consequences of the peace (1920), Penguin Books, London, 1988, pp. 56 et 267-68.
[24] Cf. Domenico Losurdo, Staline. Histoire et critique d'une légende noire, traduit de l'italien par Marie-Ange Patrizio, Aden, Bruxelles, 2011, chap. 3, 1 et 5, 6. 


[*] Professor de história da filosofia da Universidade de Urbino (Itália). Dirige desde 1988 a Internationale Gesellschaft Hegel-Marx für Dialektisches Denken e é membro fundador da Associazione Marx XXIesimo secolo.

Extracto de Psicopatologia e demonologia: A leitura das grandes crises históricas da Restauração aos nossos dias, ensaio publicado na revista Belfagor. Rassegna di varia umanità, dirigida por Carlo Ferdinando Russo, Editions Leo S. Olschki, Florence, Maço 2012, p. 151-172.
Como se sabe, a Belfagor encerrou. Com esta homenagem agradeço ao meu amigo Carlo Ferdinando Russo e a toda redacção pela hospitalidade que me foi seguidamente oferecida. Domenico Losurdo.

O original encontra-se em http://domenicolosurdo.blogspot.fr/ e a versão em francês em http://www.voltairenet.org/article177087.html 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 27 de janeiro de 2013

Filosofia - THOMAS HOBBES






Thomas Hobbes foi um filósofo que nasceu (em Wesport 5/4/1588) e faleceu na Inglaterra (em Hardwick Hall, 4/12/1679). Hobbes ficou sob os cuidados do seu tio, visto que seu pai, um vigário, teve de ir embora depois de participar de uma briga na porta da igreja onde trabalhava. Estudou em Magdalen Hall de Oxford e, em 1608, foi trabalhar com a família Cavendish como mentor de um de seus filhos, a quem acompanhou pelas suas viagens pela França e Itália entre 1608 e 1610. Quando seu aluno morreu, em 1628, voltou à França, desta vez para se tutor do filho de Gervase Clifton.
Permaneceu na França até 1631, quando os Cavendish o solicitaram novamente para ser mentor de outro dos seus filhos. Em 1634, acompanhado de seu novo aluno, realizou outra viagem ao continente, ocasião que aproveitou para conversar com Galileu Galilei e outros pensadores e cientistas da época. Em 1637, voltou à Inglaterra, mas a situação política, que anunciava a guerra civil, o levou a abandonar seu país e a estabelecer-se em Paris em 1640.
Pouco tempo antes, Hobbes tinha feito circular entre seus amigos um exemplar manuscrito de sua obra: Elementos da lei natural e política, apresentados em dois tratados distintos, foram editados em 1650. Em 1651, abandonou a França e voltou à Inglaterra, levando consigo o manuscrito do Leviatã, sua obra mais conhecida e que seria editada em Londres, naquele ano.
Os contatos que Hobbes teve com cientistas de sua época, que foram decisivos para a formação de suas ideias filosóficas, o levaram a fundir sua preocupação com problemas sociais e políticos com seu interesse pela geometria e o pensamento dos filósofos mecanicistas. Seu pensamento político pretende ser uma aplicação das leis da mecânica aos campos da moral e da política. As leis que regem o comportamento humano, segundo Hobbes, são as mesmas que regem o universo e são de origem divina. De acordo com elas, o homem em estado natural é antissocial por natureza e só se move por desejo ou medo. Sua primeira lei natural, que é a autoconservação, o induz a impor-se sobre os demais, de onde vem uma situação de constante conflito: a guerra de todos contra todos, na qual o homem é um lobo para o homem.
Para poder construir uma sociedade é necessário, portanto, que cada indivíduo renuncie a uma parte de seus desejos e chegue a um acordo mútuo de não aniquilação com os outros. Trata-se de estabelecer um contrato social, de transferir os direitos que o homem possui naturalmente sobre todas as coisas em favor de um soberano dono de direitos ilimitados. Este monarca absoluto, cuja soberania não reside no direito divino, mas nos direitos transferidos, seria o único capaz de fazer respeitar o contrato social e garantir, desta forma, a ordem e a paz, exercendo o monopólio da violência que, assim, desapareceria da relação entre indivíduos.
Em 1655, publicou a primeira parte dos Elementos de filosofia e, em 1658, a segunda parte. Durante os últimos anos de sua vida, fez uma tradução em verso da Ilíada e da Odisséia e escreveu uma autobiografia em versos latinos.

in infoescola

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013



ANA, grávida da nova Lisboa

Publicado em 2013-01-03
Ah, sim, o discurso de Cavaco. Talvez, talvez, depende, "eu avisei". Sempre tarde. Adiante. Falemos de coisas concretas e consumadas: o casamento da ANA, uma historieta que tem tudo para sair muito cara. Passo a explicar: a ANA geria os aeroportos com lucros fabulosos para o seu pai, Estado, que, entretanto falido,leiloou a filha ao melhor pretendente. Um francês de apelido Vinci, especialista em autoestradas e mais recentemente em aeroportos, pediu a nossa ANA em casamento. E o Estado entregou-a pela melhor maquia (três mil milhões de euros), tornando lícita a exploração deste monopólio a partir de uma base fabulosa: 47% de margem de exploração (EBITDA).
O Governo rejubilou com o encaixe... Mas vejamos a coisa mais em pormenor. O grupo francês Vinci tem 37% da Lusoponte, uma PPP (parceria público-privada) constituída com a Mota-Engil e assente numa especialidade nacional: o monopólio (mais um) das travessias sobre o Tejo. Ora é por aqui que percebo por que consegue a Vinci pagar muito mais do que os concorrentes à ANA. As estimativas indicam que a mudança do aeroporto da Portela para Alcochete venha a gerar um tráfego de 50 mil veículos e camiões diários entre Lisboa e a nova cidade aeroportuária. É fazer as contas, como diria o outro...
Mas isto só será lucro quando houver um novo aeroporto. Sabemos que a construção de Alcochete depende da saturação da Portela. Para o fazer, a Vinci tem a faca e o queijo na mão. Para começar pode, por exemplo, abrir as portas à Ryanair. No dia em que isso acontecer, a low-cost irlandesa deixa de fazer do Porto a principal porta de entrada, gerando um desequilíbrio turístico ainda mais acentuado a favor da capital. A Ryanair não vai manter 37 destinos em direção ao Porto se puder aterrar também em Lisboa.
Portanto, num primeiro momento os franceses podem apostar em baixar as taxas para as low-cost e os incautos aplaudirão. Todavia, a prazo, gerarão a necessidade de um novo aeroporto através do aumento de passageiros. Quando isso acontecer, a Vinci (certamente com os seus amigos da Mota-Engil) monta um apetecível sindicato de construção (a sua especialidade) e financiamento (com bancos parceiros). A obra do século em Portugal. Bingo! O Estado português será certamente chamado a dar avais e a negociar com a União Europeia fundos estruturais para a nova cidade aeroportuária de Alcochete. Bingo! A Portela ficará livre para os interesses imobiliários ligados ao Bloco Central que sempre existiram para o local. Bingo!
Mas isto não fica por aqui porque não se pode mudar um aeroporto para 50 quilómetros de distância da capital sem se levar o comboio até lá. Portanto, é preciso fazer-se uma ponte ferroviária para ligar Alcochete ao centro de Lisboa. E já agora, com tanto trânsito, outra para carros (ou em alternativa uma ponte apenas, rodoferroviária). Surge portanto e finalmente a prevista ponte Chelas-Barreiro (por onde, já agora, pode passar também o futuro TGV Lisboa-Madrid). Bingo! E, já agora: quem detém o monopólio e know-how das travessias do Tejo? Exatamente, a Lusoponte (Mota-Engil e Vinci). Que concorrerá à nova obra. Mas, mesmo que não ganhe, diz o contrato com o Estado, terá de ser indemnizada pela perda de receitas na Vasco da Gama e 25 de Abril por força da existência de uma nova ponte. Bingo!
Um destes dias acordaremos, portanto, perante o facto consumado: o imperativo da construção do novo grande aeroporto de Lisboa, em Alcochete, a indispensável terceira travessia sobre o Tejo, e a concentração de fundos europeus e financiamento neste colossal investimento na capital. O resto do país nada tem a ver com isto porque a decisão não é política, é privada, é o mercado... E far-se-á. Sem marcha-atrás porque o contrato agora assinado já o previa e todos gostamos muito de receber três mil milhões pela ANA, certo? O casamento resultará nisto: se correr bem, os franceses e grupos envolvidos ganham. Correndo mal, pagamos nós. Se ainda estivermos em Portugal, claro.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Documentos históricos



Notas Sobre a Revolução Russa

António Gramsci

29 de Abril de 1917


Primeira Edição: : Il Grido del Popolo, 29 de Abril de 1917.
Fonte: Gramsci, António. Arquivo em espanhol do Marxists Internet Archive, 2000. (Digitalizado em espanhol por Aritz em Setembro de 2000)
Tradução para o português da Galiza: José André Lôpez Gonçâlez. Junho, 2007.
HTML de: Fernando A. S. Araújo, Julho, 2007.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

Porque é que a Revolução russa é uma revolução proletária?
Pola leitura dos jornais, pola leitura do conjunto de notícias que a censura deixa publicar, não se compreende muito bem. Sabemos que a revolução foi feita por proletários (obreiros e soldados), sabemos que existe um comitê de delegados operários que controla o trabalho das entidades administratrivas que foi necessário manter para solução dos assuntos ordinários. Mas, basta que uma revolução seja feita por proletários para ser uma revolução proletária? A guerra é feita também por proletários e não por isso se considera um facto proletário. Para que tal aconteça é necessário, portanto que intervenham outros factores, factores de ordem espiritual. É preciso que o facto revolucionário demonstre ser, além de fenómeno de poder, de fenómeno de costumes, um facto moral. Os jornais burgueses têm insistido sobre o fenómeno do poder, têm-nos dito que o poder da autocracia foi substituído por outra poder, ainda não bem definido e que eles esperam seja o poder burguês. E imediatamente fizeram o paralelismo: Revolução russa, Revolução francesa, concluindo que os factos se assemelham. Mas só superficialmente os factos se assemelham, tal como um acto de violência se assemelha a outro acto de violência e uma destruição se assemelha a outra destruição.
Entretanto, nós estamos convencidos que a Revolução russa é, além dum facto, um acto proletário, que irá desembocar naturalmente no regime socialista. As poucas notícias realmente concretas, não permitem uma demonstração exaustiva. Todavia, temos alguns elementos que nos permitem chegar a esta conclusão.
A Revolução russa não conheceu o jacobinismo. A revolução tinha de liquidar a autocracia; não teve de conquistar a maioria pola violência. O jacobinismo é um fenómeno puramente burguês, que caracteriza a revolução burguesa da França. A burguesia quando fez a revolução não possuía um programa universal; servia interesses particularistas, os interesses da sua classe, e servia-os com uma mentalidade fechada e mesquinha, a dos que tendem a conquistar fins particulares. O facto violento das revoluções burguesas é duplamente violento: destrói a velha ordem e impõe a ordem nova. A burguesia impõe a sua força e as suas idéias não só à casta que dominava antes, mas também ao povo que se prepara para dominar. É um regime autoritário que vem substituir outro regime autoritário.
A Revolução Russa destruiu o autoritarismo e substituiu-o polo sufrágio universal, estendendo-o também às mulheres. Substituiu o autoritarismo pola liberdade, a Constituição pola voz livre da consciência universal. Porque é que os revolucionários russos não são jacobinos, isto é, não substituem a ditadura dum só pola ditadura duma minoria audaciosa e decidida a tudo para fazer triunfar o seu programa? Porque eles têm um ideal que não poder ser só dum pequeno número, pois têm a certeza de que ao interrogarem todo o proletariado a resposta não pode ser dúbia: ela está na consciência de todos e transformar-se-á em decisão irrevogável logo que se possa exprimir num ambiente de liberdade espiritual absoluta, sem que o sufrágio seja pervertido pola intervenção da polícia e pola ameaça da força ou do exílio. O proletariado industrial está preparado para a passagem, mesmo culturalmente; o proletariado agrícola, que conhece as formas tradicionais do comunismo comunal, está também preparado para passar a uma nova forma de sociedade. Os revolucionários socialistas não podem ser jacobinos. Têm hoje na Rússia a missão que controlar os organismos burgueses (a Duma, os Zemtsvos) para evitar que actuem jacobinamente e tornem equívoca a resposta do sufrágio universal e para evitar que o facto violento reverta a favor dos seus interesses.
Os jornais burgueses não deram qualquer importância a este outro facto. Os revolucionários russos abriram os cárceres não só aos presos políticos, mas também aos condenados por delitos comuns. Numa prisão, os condenados por delitos comuns, quando lhes comunicaram que estavam livres, responderam que não tinham o direito de aceitar a liberdade porque tinham de expiar as suas culpas. Em Odessa reuniram-se no pátio da prisão e voluntariamente juraram que iam ser honestos e viver do seu trabalho. Esta notícia tem mais importância para os objectivos da revolução do que a expulsão do czar e dos grão-duques. É que o czar foi também expulso polos burgueses, enquanto para os burgueses estes condenados por delitos comuns foram sempre os adversários da sua ordem, os pérfidos inimigos das suas riquezas, da sua tranqüilidade. A sua libertação tem para nós este significado: a revolução criou na Rússia um novo tipo de comportamento. Não só substituiu o poder polo poder, mas um tipo de comportamento por outro, criou uma nova atmosfera moral, instaurou além da liberdade do corpo a liberdade de espírito. Os revolucionários não tiveram medo de pôr em circulação homens que a justiça burguesa marcara com o selo infame de criminosos, que a ciência burguesa catalogara nos vários tipos de criminosos e delinqüentes. Só numa apaixonada atmosfera social, quando os costumes as atitudes mudam, pode acontecer semelhante cousa. A liberdade faz livres aos homens, alarga o horizonte moral, faz do pior malfeitor em regime autoritário um mártir do dever, um herói da honestidade. Dizem num jornal que numa prisão os malfeitores recusaram a liberdade e elegeram entre eles os seus guardas. Porque é que nunca fizeram isto antes? Porque é que as prisões estavam rodeadas de grandes muros e as janelas com grades? Os que foram libertá-los deviam ser muito diferentes dos juízes dos tribunais e dos carcereiros, e devem ter ouvido aqueles malfeitores palavras muito diferentes das habituais, para que tal transformação se processasse nas suas consciências, para que se tornassem tão livres, a ponto de poderem proferir a segregação à liberdade e impor-se a si próprios, voluntariamente, uma expiação. Devem ter sentido que o mundo mudara, que também eles, os recusados da sociedade, eram qualquer cousa, que também eles, os segregados, podiam escolher.
Este é o fenômeno mais grandioso jamais produzido pola actividade humana. O homem malfeitor comum transformou-se na revolução russa, no homem de Emmanuel Kant, teorizador da moral absoluta, tinha anunciado, o homem que diz: a imensidade do céu para além de mim, o imperativo da minha consciência dentro de mim. É a liberdade dos espíritos, a instauração duma nova consciência moral que estas pequenas notícias nos revelam. É o advento duma ordem nova, que coincide com tudo o que os nossos mestres nos tinham ensinado. E mais uma vez a luz vem do Oriente e irradia sobre o velho mundo ocidental, o qual fica assombrado e não sabe opor-lhe senão as banais e tolas anedotas dos seus escribas venais.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

JOHN LOCKE



IntroduçãoJohn Locke foi um importante filósofo inglês. É considerado um dos líderes da doutrina filosófica conhecida como empirismo e um dos ideólogos do liberalismo e do iluminismo. Nasceu em 29 de agosto de 1632 na cidade inglesa de Wrington. 
Biografia de John Locke
Locke teve uma vida voltada para o pensamento político e desenvolvimento intelectual. Estudou Filosofia, Medicina e Ciências Naturais na Universidade de Oxford, uma das mais conceituadas instituições de ensino superior da Inglaterra. Foi também professor desta Universidade, onde lecionou grego, filosofia e retórica.

No ano de 1683, após a Revolução Gloriosa na Inglaterra, foi morar na Holanda, retornando para a Inglaterra somente em 1688, após o restabelecimento do protestantismo. Com a subida ao poder do rei William III de Orange, Locke foi nomeado ministro do Comércio, em 1696.Ficou neste cargo até 1700, onde precisou sair por motivo de doença.

Locke faleceu em 28 de outubro de 1704, no condado de Essex (Inglaterra). Nunca se casou ou teve filhos.

Empirismo filosófico de Locke

Para John Locke a busca do conhecimento deveria ocorrer através de experiências e não por deduções ou especulações. Desta forma, as experiências científicas devem ser baseadas na observação do mundo. O empirismo filosófico descarta também as explicações baseadas na fé.

Locke também afirmava que a mente de uma pessoa ao nascer era uma tábula rasa, ou seja, uma espécie de folha em branco. As experiências que esta pessoa passa pela vida é que vão formando seus conhecimentos e personalidade. Defendia também que todos os seres humanos nascem bons, iguais e independentes. Desta forma é a sociedade a responsável pela formação do indivíduo.

Visão Política de Locke

Locke criticou a teoria do direito divino dos reis, formulada pelo filósofo Thomas Hobbes. Para Locke, a soberania não reside no Estado, mas sim na população. Embora admitisse a supremacia do Estado, Locke dizia que este deve respeitar as leis natural e civil.

Locke também defendeu a separação da Igreja do Estado e a liberdade religiosa, recebendo por estas idéias forte oposição da Igreja Católica.

Para Locke, o poder deveria ser dividido em três: Executivo, Legislativo e Judiciário. De acordo com sua visão, o Poder Legislativo, por representar o povo, era o mais importante.

Embora defendesse que todos os homens fossem iguais, foi um defensor da escravidão. Não relacionava a escravidão à raça, mas sim aos vencidos na guerra. De acordo com Locke, os inimigos e capturados na guerra poderiam ser mortos, mas como suas vidas são mantidas, devem trocar a liberdade pela escravidão.


Principais obras de John Locke

- Cartas sobre a tolerância (1689)
- Dois Tratados sobre o governo (1689)
- Ensaio a cerca do entendimento humano (1690)
- Pensamentos sobre a educação (1693)
Frases de John Locke
- "Não se revolta um povo inteiro a não ser que a opressão é geral."
- "A leitura  fornece conhecimento à mente. O pensamento incorpora o que lemos".
- "As ações dos seres humanos são as melhores intérpretes de seus pensamentos". 

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA