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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Análises
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
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Publicado em: http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article1600
Tradução do castelhano de MF
Colocado em linha em: 2013/02/17
O auge da luta socialista na China
Alberto Cruz *
Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013, por CEPRID
O XVIII Congresso do Partido Comunista Chinês é já história. As análises que lhe foram feitas abarcam quase todos os aspetos, menos um: o povo chinês. E um exame detalhado das resoluções deste congresso mostra um medo aberto da direção do Partido ao auge da luta socialista no país que, ao longo de 2012, adquiriu proporções desconhecidas nos últimos 30 anos. Há quem fale mesmo, com mais entusiasmo do que a realidade permite, de uma nova Revolução Cultural em amadurecimento e só esta menção faz com que um calafrio percorra a espinha dorsal da elite chinesa e do capitalismo ocidental.
É um facto que, em cada ano que passa, cresce o descontentamento social com as medidas económicas capitalistas impulsionadas pela direção do PCCh e o repúdio à introdução de métodos ocidentais de estudo nas universidades – multiplicaram-se as greves operárias, não só contra empresas estrangeiras, mas também nacionais (afetando setores informáticos ou da saúde), surgiram protestos dos jornalistas pelo «impacto corrosivo da comercialização» no tratamento da informação e continua o descrédito generalizado da grande maioria dos dirigentes civis. Estes são só alguns indicativos de que o melhor está para vir.
E é isto que preocupa tanto o «situacionismo» dos novos dirigentes como o dos académicos. Os primeiros viram-se obrigados a realizar uma série de gestos inabituais nos últimos 30 anos. Por exemplo, publicar a sua vida familiar (fotos da infância, adolescência e primeiros passos políticos), perfis na internet, ou percorrer as zonas mais pobres do país (as imagens do recém-eleito secretário-geral do PCCh no XVIII Congresso, Xi Jinping, a visitar as aldeias da província de Hubei, nos dias 29 e 30 de Dezembro1 e as suas dificuldades em caminhar sobre a neve e o barro são comovedoras). Gestos que vão acompanhados de uma maçadora insistência para se combater a corrupção (Jinping mostrou-se «indignado»2 ao comprovar, na sua visita às aldeias de Hebei, o desvio de fundos contra a pobreza) e de uma insólita exortação a todos os níveis do Partido para um comportamento exemplar. Os segundos publicaram uma carta aberta, advertindo que o
1 Diário do Povo, 31 de Dezembro de 2012.
2 Ibid.
2
país «corre o risco de uma violenta revolução» se o governo não responder à pressão pública e não acelerar as «reformas políticas suspensas»3 .
São reações da direita, porque são as políticas de direita pró-capitalistas que estão a ser fortemente contestadas. E são os representantes e defensores deste setor que têm medo do povo chinês. Em 2011, pela primeira vez em muito tempo, os chineses celebraram o nascimento de Mao com manifestações massivas e peregrinações à sua cidade natal. Milhões de chineses de todo o tipo, universitários, operários e camponeses realizaram por todo o país reuniões para comemorar «o legado do presidente Mao» e, a 9 de fevereiro de 2011 (dia de entrada do Ano Novo chinês), 700.000 pessoas acorreram a Shaoshan, a cidade natal de Mao, para «lhe render respeito e homenagem». O interessante é que foi uma celebração espontânea e, muitas vezes, desafiando os poderes locais. O facto foi tão surpreendente para o poder que o Diário do Povo teve de fazer eco deste fenómeno4, não sem certa surpresa. Mas, a partir daí, o poder aprendeu e agora junta-se ao coro, sem deixar de fazer uma crítica expressa ao maoísmo. Assim, por um lado, melhoraram as infraestruturas para facilitar a afluência de gente a Shaoshan e existe um grupo de voluntários municipais que atendem as pessoas que acorreram à homenagem a Mao na sua cidade – o seu nascimento foi a 28 de Dezembro de 1893 – com pratos de macarrão e carne5, enquanto, por outro lado, se multiplicaram os artigos e conferências de académicos e intelectuais sobre as «tragédias» que o Grande Salto em Frente ou a Revolução Cultural implicaram. É preciso referir que estas comemorações pró-Mao se verificaram durante dois meses, desde a data do nascimento até à celebração do ano novo chinês.
Mas o povo está disposto a surpreender e em cada aniversário surge um novo elemento com que o poder não conta. Nesta ocasião, as dezenas de milhares de pessoas reunidas em Shaoshan, no dia 28 de Dezembro, entoaram uma emblemática canção maoísta, «O Oriente é vermelho» (1965), o símbolo da Revolução Cultural que muitos interpretaram como uma claro desafio à contrapropaganda oficial face à celebração popular da data de nascimento de Mao.
É que Mao continua a desfrutar de uma grande estima entre uma enorme massa da população chinesa. Tanto que um dos «pequenos príncipes» do PCCh, Bo Xilai, não hesitou em utilizar elementos maoístas – com o que enfrentava o aparelho, já que desautorizava a prática de Deng Xiaoping – para impulsionar a sua política social e económica em Chongqing. Isso custou-lhe a sua destituição, em março de 2012, e mesmo a sua posterior expulsão do Partido (4 de novembro), depois de um processo que terminou, curiosamente, quatro dias antes do XVIII Congresso.
É preciso determo-nos no processo a Bo e no que ele representava para entender o que foi aprovado no XVIII Congresso. Bo Xilai era membro do Burô Político do PCCH e responsável do Partido em Chongqing. A sua queda em desgraça foi muito semelhante à de Lin Biao, em 1971 (considerado o herdeiro de Mao, mas que se foi distanciando deste quando o «grande timoneiro» colocou a aproximação aos EUA para enfrentar a URSS).
3 Reuters, 31 de dezembro de 2012.
4 Alberto Cruz, «China: exército, geopolítica e regresso a Mao» – http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article1205&lang=es
5 Diário do Povo, 28 de Dezembro de 2012.
3
Mas a diferença entre um e outro é que, enquanto Lin Biao era um militar preocupado com a geoestratégia, Bo Xilai tinha-se inclinado para a economia e tinha adotado o Modelo Chongqing, um sistema económico que contrastava de forma aberta com o Modelo Guangdong, impulsionado a partir do poder de Pequim. Não obstante, tanto Lin como Bo se preocupavam com a ideologia e pretendiam «revitalizar as ideias socialistas» a partir de diferentes perspetivas.
Em síntese, o Modelo Guangdong pressupõe um mercado mais livre, um aumento da desigualdade social e um maior esforço produtivo dedicado à exportação. É o modelo em que se baseou o crescimento anual chinês, que colocou o país já como a primeira economia do mundo, como reconhece o próprio FMI, ao vaticinar que será assim sem qualquer dúvida em 2016. Ao contrário, o Modelo Chongqing acolhia medidas económicas com um maior controlo dos poderes públicos e medidas populares para um crescimento rápido e equilibrado.
O surpreendente do caso é que o Modelo Chongqing se aplicava apenas numa reduzida zona da China que, segundo o censo de 2010, tinha 32 milhões de habitantes (um número ridículo num país que roça os 1500 milhões). Logo, a explicação da queda em desgraça de Bo é muito simples: evitar que este modelo económico alternativo se consolidasse, que o seu promotor adquirisse mais poder no Burô Político e eliminar a possibilidade de uma mudança mais igualitária no «caminho para o desenvolvimento» da China.
Chongqing, a cidade vermelha
Chongqing é uma cidade conhecida em todo o país e o seu legado estuda-se nos livros de história, pois foi a capital chinesa durante a invasão japonesa e berço da luta antifascista entre 1937-46. Teve também um papel importante na fundação da República Popular da China, em 1949. A história da cidade foi tida em conta por Pequim na hora de lhe outorgar a categoria de municipalidade dependente do governo central, não do provincial (Sichuan), e, mais tarde, de a elevar à categoria de província, em 1997. O historial de lutas operárias na cidade é espetacular e esteve na vanguarda de muitas delas, especialmente contra a privatização de empresas estatais, até 2000.
Bo Xilai só chegou à cidade em 2003, mas soube captar muito bem o espírito combativo da sua população e encontrou um bom caldo de cultura para a sua experiência económica, ampliando significativamente o papel local na economia e tomando em mãos empresas que iam ser privatizadas. Ao mesmo tempo atribuiu pensões de reforma, construiu habitações públicas de aluguer a baixos preços – o que proporcionou que muitos migrantes rurais encontrassem rápido alojamento na cidade, ao contrário do que acontece no resto do país – e desenvolveu a educação, sobretudo a infantil, e os cuidados com a saúde. É o que ficou conhecido como «Os dez pontos da vida do povo», baseados em que 51% dos gastos do governo local eram destinados à melhoria do bem-estar público. A esquerda chinesa diz que Bo, entre outras coisas, soube «redirecionar» a conflitualidade na cidade com medidas deste tipo, daí que, como se verá, tenha apoiado muitas destas medidas e o Modelo Chongqing.
Isso não quer dizer que Bo Xilai desse primazia a esta componente em detrimento da
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outra. Era muito cuidadoso e sabia o que enfrentava. Enquanto melhorava o bem-estar da população na base destes parâmetros, oferecia facilidades para a instalação de empresas, como a Foxconn, que deslocalizou uma parte da sua produção de Shenzen. Mas enquanto que em Shenzen os protestos operários foram frequentes, em Chongqing evitaram-se, entre outras coisas graças ao programa de habitações sociais de aluguer, como se referia elogiosamente na Agência Xinhua6 quando Bo ainda não tinha caído em desgraça. Quando, em julho de 2010, os velhos revolucionários, personalidades que participaram na Grande Marcha e fundadores do PCCh, elaboraram uma carta pública de apoio às lutas operárias7 – precisamente o contrário do que fizeram agora uns quantos académicos – apenas se mencionava o tratamento que os operários da Foxconn recebiam em Shenzen, não em Chionqing.
Esta política impulsionada por Bo Xilai é o que se chamou «promover a prosperidade comum» e que agora, depois do XVIII Congresso, se assume oficialmente com um discurso diferente do de Bo, mas reconhecendo que não estava errado: «A China deve ser uma sociedade moderadamente próspera». Mas os matizes são importantes e, entre «prosperidade comum» e «sociedade moderadamente próspera» há uma diferença que põe em causa a essência do sistema.
A esquerda chinesa entende que para conseguir o primeiro, o governo tem de implementar uma série de medidas destinadas ao restabelecimento dos vínculos orgânicos do PCCh com as bases. Traduzido, luta massiva contra a corrupção - e não só contra a privada, mas também, e sobretudo, contra a estatal - e aplicação da «justiça revolucionária». Mas não adiantemos acontecimentos.
Bo tinha-se tornado um problema sério para o Partido. Por isso, quando foi destituído, em Março de 2012, Wen Jiabao – primeiro-ministro – criticou abertamente o Modelo Chongqing e acusou Bo Xilai de «reviver a Revolução Cultural». Curiosamente, enquanto que no interior da China apenas se voltou a falar de Bo até agosto – quando se iniciou o julgamento contra a sua mulher e as suas práticas corruptas – toda uma maquinaria internacional (Wall Street Journal, New York Times, Finantial Times e, até, a seita Falung Gong, todos eles têm páginas web em chinês e publicam suplementos semanais sobre a China) fez lenha da árvore caída, publicando uma saga de corrupção à volta do ex-dirigente de Chongqing. Era preciso extirpar um modelo económico que, num futuro não muito distante, poderia comprometer o capitalismo realmente existente e que adquiria a força do exemplo na China e um não oculto temor entre a classe dirigente, corrupta e pró-capitalista. E não falamos do Ocidente.
A esquerda chinesa: O Coletivo Utopia
Aqui é necessário falar da esquerda chinesa, agrupada à volta do Coletivo Utopia (a sua página web, www.wyzxsx.com, é bloqueada intermitentemente pelo poder e no momento de escrever este artigo estava inacessível). A Utopia tinha manifestado publicamente o seu
6 Xinhua, 27 de julho de 2011.
7 Li Chengrui, Xiantian Gong, Han Xiya, Rixin Liu y Zhao Guangwu: «China: Os velhos revolucionários tomam posição sobre a atual proliferação de greves de trabalhadores» http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article892
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apoio ao Modelo Chongqing, ainda que as suas propostas vão muito mais além, como a socialização da riqueza, a propriedade pública dos meios de produção e o fortalecimento da moral socialista. Mas tanto a Utopia como Bo Xilai coincidiam no impulsionar uma ampliação do setor público e do bem-estar social, assim como da recuperação dos valores culturais e morais da etapa maoísta. É o que em Chongqing se denominou «promover a cultura vermelha» e que consistia em recuperar as expressões artísticas maoístas – entoar «O Oriente é vermelho» no aniversário de Mao é uma manifestação de como este sentimento calou na população – e «fortalecer a moral socialista», para o que era imprescindível contar com os meios de comunicação. Aqui voltava a haver uma coincidência estratégica entre a Utopia e Bo Xilai, já que as propostas de ambos consistiam em firmar uma televisão e rádio populares, sem publicidade, e «com orientação didática».
E, de novo, o aparelho dirigente, juntamente com bloguistas seguidos no Ocidente – como alguns casos famosos em Cuba ou no Yemen, para mencionar os mais apelativos – e os meios ocidentais capitalistas voltaram a atacar este «projeto de renovação socialista», que equiparavam pura e simplesmente com a Revolução Cultural. Contudo, goste-se ou não, na China há memória e grande parte da população continua a considerar que o país era, sob Mao, um dos mais igualitários do mundo e agora é precisamente o contrário.
O poder sabe-o, e teme a reação social. Daí que, depois do XVIII Congresso do PCCh, «o socialismo com características chinesas» comece a abarcar aspetos como a luta contra a pobreza, a redução das desigualdades e o desenvolvimento sustentável, que não tinham sido tidos em consideração nestes 30 anos do caminho económico idealizado por Deng Xiaoping.
Iniciou-se uma tímida retificação por medo, não por necessidade, e nela influenciaram tanto as turbulências económicas que o mundo vive desde o início da crise capitalista, em 2008, como as respostas populares que se estão a verificar em toda a parte. A atitude do aparelho do PCCh face aos protestos não é muito diferente das que os governos direitistas de Madrid, Atenas ou o Cairo adotam: a repressão. Como um aviso à navegação, no dia 21 de dezembro, a polícia dissolveu com dureza uma manifestação de operários de uma fábrica de sapatos em Guangan (Sichuan), a cidade natal de Deng Xiaoping, que exigiam o pagamento de dois meses de salários. No dia 25 de Dezembro, a situação voltava a repetir-se em Wuhan (capital da empobrecida Hubei), quando os operários protestavam pelo não pagamento de salários e o encerramento da fábrica de papel em que trabalhavam. Mas os operários não só se manifestavam como ocupavam a Câmara Municipal. Quatro dias mais tarde, como se disse antes, o novo secretário-geral do PCCh visitava várias localidades de Hubei. E no mesmo dia 25 de dezembro, em Tongling (Anhui), centenas de médicos e enfermeiras de um hospital pertencente a uma importante empresa estatal, Tongling Nonferrous Metals, bloquearam todos os acessos à cidade, reclamando o pagamento dos seus salários.
Poder-se-ia relatar milhares destas manifestações e protestos. Em muitas delas, as pessoas levam os retratos de Mao como bandeira, sem outros slogans. Há um contínuo de lutas operárias e, ao mesmo tempo, constata-se um cerrar de fileiras entre o capital transnacional, o aparelho do PCCh, os meios de comunicação e um certo setor dos intelectuais e académicos (como os do manifesto citado acima), que farão todo o possível
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para as reconduzir ou para as reprimir. A viagem do novo secretário-geral do Partido a Hubei vai nessa direção e, ironia do destino, é algo que Bo Xilai tinha impulsionado: em Chongqing, os funcionários do Comité Local tinham de realizar visitas semanais às zonas rurais para observar a situação e receber as queixas e sugestões da população. Nessas visitas tinham de viver nas casas dos aldeãos e não podiam alojar-se em hotéis. Precisamente o que fez agora Xi Jinping, que partilhou comidas com aldeãos nas suas casas.
É altura de saber se neste momento o PCCh vai aplicar as resoluções do XVIII Congresso ou os gestos que agora está a fazer vão ser algo mais que gestos, uma mudança de rumo. Vem-se falando, desde 1996, da construção de uma «civilização socialista espiritual», que não é mais do que uma denominação cínica de um corrosivo enriquecimento da elite política e económica; e no anterior congresso, em 2006, foi aprovada uma resolução que defendia «o sistema socialista como um valor fundamental». Nada disso foi levado à prática até agora, à exceção de um fugaz momento, em 2011, por ocasião da comemoração do 90.º aniversário da constituição do PCCh. Terminados os festejos, terminadas as intenções. O PCCh, os líderes civis, para sermos exatos, poderão manter a promessa de defender a constituição socialista ainda vigente – mas só aplicada em parte – ou cair definitivamente no capitalismo neoliberal que têm desenvolvido nos últimos 30 anos. Perante si, têm uma base histórica operário-camponesa, a que agora se juntam universitários e jovens que apostam numa viragem à esquerda e num futuro socialista. Inclusivamente, o Coletivo Utopia e as suas propostas de «renovação socialista» chegaram mesmo a afirmar que o Modelo Chongqing era a única esperança para evitar uma «revolução violenta» na China, ainda que haja quem, como Sima Nan, um dos seus mais conhecidos integrantes, considere que foi um erro estratégico o identificarem-se demasiado com os postulados de Bo Xilai.
O capitalismo está em fase terminal, mas o processo acelerar-se-ia se na China houvesse uma viragem à esquerda. Daí o pânico que no Ocidente se sente perante iniciativas tão moderadas como as do Modelo Chongqing, ou perante a cada vez maior onda de protestos sócio-políticos do povo chinês contra o modelo imposto a partir de Pequim. Intui-se uma reorientação deste modelo nas resoluções do XVIII Congresso, pois não é em vão que se fala de uma reorientação da economia para deixar de estar centrada unicamente na exportação e começar a ter em conta o consumo interno, assim como na menção a uma «sociedade moderadamente próspera». Mais uma curiosidade que aparece nas resoluções: acontece que agora o poder chinês se apercebe de que é necessário «regular» o papel dos meios de comunicação, porque o que há «não se ajusta ao novo contexto» e «não pode separar-se da realidade política do país»8. Ou seja, o mesmo que Bo Xilai havia colocado, o que o Coletivo Utopia reclama e o que os jornalistas criticam pelo «impacto corrosivo da comercialização» no tratamento da informação.
Se se cumprir tudo o que foi decidido neste XVIII Congresso, e não for apenas outra demonstração mais de retórica, assistiremos a uma viragem gigantesca, ou no mínimo moderada, no conhecido até agora, uma vez que já não se legislará unicamente para a classe média urbana – e, sobretudo para a situada nas cidades costeiras – mas para todo povo. E isso, na China, é abarcar uma enorme massa de camponeses e operários muito descontentes com o modelo atual, que não os teve em conta.
Depois deste XVIII Congresso do PCCh o país está numa encruzilhada: ou se transforma num refúgio seguro do capitalismo global ou o enterra definitivamente. No interior do Partido há várias correntes que, sem ser expressamente maoístas, se opõem às medidas neoliberais. Algumas delas participaram nos atos comemorativos do nascimento de Mao, organizados pelo Coletivo Utopia, em Pequim – com a assistência de ex-funcionários do governo, generais do exército e reconhecidos maoístas9 – ainda que não esteja claro o que significa este passo e se ele é o início de uma corrente de esquerda dentro do Partido, ou o anúncio de uma maior resistência aos neoliberais, que continuam a desmantelar o sistema de bem-estar público. As bases – camponeses, operários, trabalhadores migrantes e pobres – já reagiram e começaram a passar à ofensiva. Um dado: a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece que, graças à luta operária, os salários na China triplicaram na última década e, para o corrente ano de 2013, subirão mais 9%10.
* Alberto Cruz é jornalista, politólogo e escritor. O seu último livro é «A violência política na Índia. Para lá do mito de Gandhi», editado por La Caída com la colaboração do CEPRID. Os pedidos podem ser dirigidos a libros.lacaida@gmail.com ou a ceprid@nodo50.org albercruz@eresmas.com
8 Diário do Povo
9 Global Times, 28 de Dezembro de 2012.
10 OIT, «Rapport mundial sur les salaires 2012/13: Salaires et croissance équitable», 7 de Dezembro de 2012
sábado, 16 de fevereiro de 2013


Ou as esquerdas se atualizam ou se tornarão cada vez mais irrelevantes
É preciso abandonar o conforto dogmático segundo o qual tudo na economia e na sociedade já foi resolvido pelos “clássicos”, bastando a nós repetir os textos como papagaios, sem consideração das imensas transformações pelas quais o mundo passou.
J. Carlos de Assis
Dizia Marx na “Sagrada Família” que nenhuma formação histórica pode dar lugar a outra mais avançada se “o velho não estiver ao ponto de cair sozinho e o novo não estiver pronto para substituí-lo”. A crise atual aponta para um capitalismo financeirizado virtualmente falido, mas me exaspera o fato de não ver um projeto de base social nas esquerdas que se apresente como maduro para ocupar seu lugar. Há, sim, em algumas correntes esquerdistas, uma espécie de confiança dogmática, filha do marxismo bastardo, na autodestruição do capitalismo, e nenhuma proposta consistente sobre como ocupar o espaço supostamente a ser deixado vago.
Num contexto histórico diferente, quando o capitalismo fordista estava em ascensão nos Estados Unidos e invadindo a Europa, Gramsci formulou o conceito de “guerra de posição”, que seria uma estratégia de ocupar espaços sucessivos em favor das massas no lugar de pregar uma revolução momentaneamente impossível. Noventa anos depois, é tempo de remontar à guerra de posição para aproveitar em melhores condições as fraquezas do capitalismo. Ou será que alguém acredita numa revolução classista nos Estados Unidos ou no Brasil capaz de destruir a burguesia como classe, o que tornaria inevitável sua destruição também física numa guerra civil?
A democracia moderna é uma invenção burguesa. Mas, como tudo na história, seu resultado contraditório foi abrir frestas crescentes de oportunidade para as massas, muito bem aproveitadas, em seu auge, pelas sociais democracias européias e, em parte, também nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. A conformação da atual crise – uma orgia especulativa privada nos países ricos que se converteu, para que num primeiro momento o sistema financeiro fosse salvo, numa crise fiscal sem precedentes – aponta diretamente para a destruição do estado de bem estar social (onde ele existe, ou onde ele é uma aspiração) financiado pelos orçamentos públicos.
A guerra de posição aqui significa, como prioridade máxima, salvar o que existe de estado de bem estar social. E o passo à frente significa radicalizar a democracia. É politicamente impossível, numa democracia de origem burguesa, destruir o direito de propriedade privada de todos os meios de produção. Mas é possível, primeiro, estatizar o sistema bancário, já que a emissão monetária e de crédito deveria ser uma prerrogativa exclusiva do Estado; segundo, é perfeitamente possível socializar a terra; e em terceiro lugar, é de todo conveniente, para a estabilidade social, que empresas produtivas estratégicas fiquem em mãos do Estado.
Não estou dizendo novidade: estou me remetendo às estruturas básicas do país mais bem sucedido econômica e socialmente nas últimas três décadas, a China. E em parte também à Índia, embora neste caso com menor brilho. Os dois países se beneficiam para um forte crescimento de planejamento centralizado, sistemas bancários públicos e grandes empresas estatais (ou nacionais) em setores estratégicos. Diante de um ciclo econômico de baixa, planeja-se, financia-se e executa-se o investimento e a inovação tecnológica no mesmo movimento. Não há vazamentos para fora do efeito multiplicador keynesiano como nos países onde vigora ampla liberdade de movimento de capitais.
Infelizmente, não tenho visto debates nessa linha entre as esquerdas. Vejo, sim, diagnósticos inflamados da crise e de seus culpados, o que é útil para formar uma opinião negativa sobre o capitalismo financeirizado, mas que não traz, em si, uma estratégia de superação. Daí a necessidade de romper com dogmatismos e forjar uma nova utopia. Antes que a direita o faça. Pois não pensem que o capitalismo, que na realidade é funcional da própria civilização em que vivemos, vai apodrecer sem reação num contexto democrático. O risco que corremos é vê-lo conduzir as reformas de cima para baixo, alienando uma vez mais as classes a ele subalternas.
Esse processo já está em curso pelo menos no campo da ideologia. Dois artigos recentes publicados pelo “Wall Street Journal”, o qual não se envergonharia de ser rotulado como porta-voz da ultra-direita norte-americana e mundial, mostram com clareza alguns movimentos táticos surpreendentes da classe dominante, vocalizada por seus intelectuais. Um dos artigos, relativo à Europa, é de Uri Dadush. Outro, sobre a situação atual norte-americana, é de Rex Nutting, da MarketWatch (também do Grupo Murdoch). Ambos foram publicados na edição de 1o de fevereiro.
Dadush se pergunta: Quem diz que a Crise do Euro acabou? E ele mesmo responde: “Mesmo que o euro sobreviva, a crise não acaba até que a periferia (europeia) comece a crescer e as pessoas comecem a encontrar empregos”. Por certo, são razões reais, mas não as do tipo que se encontra na imprensa da direita. Para 18 milhões de desempregados, diz ele, é espantoso o tom triunfalista com que o mercado reagiu à promessa do presidente do BCE, Mario Draghi, de que será comprado o que for necessário dos títulos dos governos dos países periféricos em crise. Isso é bom para os bancos, mas não gera necessariamente empregos.
Ele também cita um proeminente político de oposição de um dos países europeus atingidos pela crise que desmistifica a mudança de sentimento dos mercados em relação a essa promessa de Draghi, argüindo que as políticas correntes não levam a lugar algum. Quando perguntou a esse político como pensava que isso acabaria, ele respondeu com a alegoria da “rã fervida”: “se você põe uma rã em água escaldante, ele disse, ela saltará de lá. Mas se você a põe na água fria e vagarosamente aumenta a temperatura, ela ficará quieta, eventualmente sendo fervida até a morte.”
De fato, a Grécia está sendo fervida numa taxa de desemprego de 26,8%, a Espanha de 26,6%, Portugal de 16,3%, Irlanda de 14,6%, Itália de 11,1%, numa tendência ainda crescente. E é espantosa a divergência entre o desempenho da periferia em relação à Alemanha (desemprego de 5,4%) e os Estados Unidos (7,8%). Também o PIB italiano caiu 6% desde o nível pré-crise, enquanto o da Alemanha subiu 8% e os Estados Unidos 7%. Tudo isso, para Dadush, está longe de ser justificado por diferenciais de produtividade. Reflete principalmente a política econômica de agrilhoamento da zona do euro.
O artigo de Nutting é ainda mais surpreendente, considerando a obsessão da direita norte-americana com a redução do déficit e da dívida pública. Ele também se pergunta: O que poderia ser mais urgente que a redução do déficit? E imediatamente responde: Quase tudo. Nesse tudo ele relaciona cinco problemas maiores, pela ordem: desemprego (19 milhões de desempregados), mudança climática, infraestrutura, desigualdade, democracia (para ele a democracia americana está em retração).
Destaco alguns aspectos do problema da desigualdade, que tem sido justificadamente visados pelas esquerdas mas que não deixa de ser surpreendente aparecerem nas páginas do WSJ: entre 1979 e 2007, a renda média do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 277%, enquanto a dos 80% que representam a classe média aumentou apenas 38%. Essa tremenda desigualdade foi construída ao longo dos últimos 30 anos, não pela crise. Esta apenas o acentuou. Atualmente, o 1% mais rico da sociedade norte-americana detém 50% da riqueza do país.
Pode-se argumentar que esses comentaristas não representam o núcleo do pensamento de direita nos Estados Unidos e muito menos o grande capital. Contudo, saltando o Atlântico, o que se pode concluir do fato de que o principal representante do empresariado alemão, Hans-Peter Keitel, presidente da poderosa Federação das Indústrias Alemãs, tenha proposto um “plano Marshall” para a Grécia, em confronto direto com a estúpida política de estrangulamento fiscal imposto ao país pela chanceler Ângela Merkel, pelas mãos da Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia)?
Tudo isso significa que existe uma base comum de diagnóstico, imprescindível para algum nível de negociação entre os representantes de diferentes interesses sociais. Se as esquerdas quiserem ter relevância na formulação das políticas do futuro, elas terão de abandonar a utopia negativa da autodestruição do capitalismo e entrar no jogo da radicalização da democracia com o capitalismo regulado. A propósito: a crítica avassaladora que Nutting faz da regressão da democracia nos Estados Unidos, e que não tenho espaço para reproduzir aqui, está ao nível de qualquer intelectual radical de esquerda, o que é outra base comum de negociação!
Em suma, é preciso abandonar o conforto dogmático segundo o qual tudo na economia e na sociedade já foi resolvido pelos “clássicos”, bastando a nós repetir os textos como papagaios, sem consideração das imensas transformações pelas quais o mundo, e sobretudo o mundo industrializado, passou ao longo do último século. É preciso reconhecer na civilização contemporânea as lições objetivas de suas próprias contradições assumindo o risco de propor novas vias de ação em favor das massas mediante o aperfeiçoamento da democracia, não de sua destruição por alguma forma de ditadura “benigna” que a história tem provado sempre acabar em ditaduras sanguinárias.
P.S.: O Itamaraty está articulando a candidatura brasileira à diretoria geral da Organização Mundial do Comércio, OMC. Considerando que sua ala entreguista não conseguiu amarrar o Brasil à Alca, por oportuna oposição de Lula, pode ter aí três propósitos: 1) estourar o livre-cambismo por dentro; 2) subordinar de vez o país ao livre-cambismo; 3) arranjar empregos para diplomatas brasileiros em Genebra.
Num contexto histórico diferente, quando o capitalismo fordista estava em ascensão nos Estados Unidos e invadindo a Europa, Gramsci formulou o conceito de “guerra de posição”, que seria uma estratégia de ocupar espaços sucessivos em favor das massas no lugar de pregar uma revolução momentaneamente impossível. Noventa anos depois, é tempo de remontar à guerra de posição para aproveitar em melhores condições as fraquezas do capitalismo. Ou será que alguém acredita numa revolução classista nos Estados Unidos ou no Brasil capaz de destruir a burguesia como classe, o que tornaria inevitável sua destruição também física numa guerra civil?
A democracia moderna é uma invenção burguesa. Mas, como tudo na história, seu resultado contraditório foi abrir frestas crescentes de oportunidade para as massas, muito bem aproveitadas, em seu auge, pelas sociais democracias européias e, em parte, também nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. A conformação da atual crise – uma orgia especulativa privada nos países ricos que se converteu, para que num primeiro momento o sistema financeiro fosse salvo, numa crise fiscal sem precedentes – aponta diretamente para a destruição do estado de bem estar social (onde ele existe, ou onde ele é uma aspiração) financiado pelos orçamentos públicos.
A guerra de posição aqui significa, como prioridade máxima, salvar o que existe de estado de bem estar social. E o passo à frente significa radicalizar a democracia. É politicamente impossível, numa democracia de origem burguesa, destruir o direito de propriedade privada de todos os meios de produção. Mas é possível, primeiro, estatizar o sistema bancário, já que a emissão monetária e de crédito deveria ser uma prerrogativa exclusiva do Estado; segundo, é perfeitamente possível socializar a terra; e em terceiro lugar, é de todo conveniente, para a estabilidade social, que empresas produtivas estratégicas fiquem em mãos do Estado.
Não estou dizendo novidade: estou me remetendo às estruturas básicas do país mais bem sucedido econômica e socialmente nas últimas três décadas, a China. E em parte também à Índia, embora neste caso com menor brilho. Os dois países se beneficiam para um forte crescimento de planejamento centralizado, sistemas bancários públicos e grandes empresas estatais (ou nacionais) em setores estratégicos. Diante de um ciclo econômico de baixa, planeja-se, financia-se e executa-se o investimento e a inovação tecnológica no mesmo movimento. Não há vazamentos para fora do efeito multiplicador keynesiano como nos países onde vigora ampla liberdade de movimento de capitais.
Infelizmente, não tenho visto debates nessa linha entre as esquerdas. Vejo, sim, diagnósticos inflamados da crise e de seus culpados, o que é útil para formar uma opinião negativa sobre o capitalismo financeirizado, mas que não traz, em si, uma estratégia de superação. Daí a necessidade de romper com dogmatismos e forjar uma nova utopia. Antes que a direita o faça. Pois não pensem que o capitalismo, que na realidade é funcional da própria civilização em que vivemos, vai apodrecer sem reação num contexto democrático. O risco que corremos é vê-lo conduzir as reformas de cima para baixo, alienando uma vez mais as classes a ele subalternas.
Esse processo já está em curso pelo menos no campo da ideologia. Dois artigos recentes publicados pelo “Wall Street Journal”, o qual não se envergonharia de ser rotulado como porta-voz da ultra-direita norte-americana e mundial, mostram com clareza alguns movimentos táticos surpreendentes da classe dominante, vocalizada por seus intelectuais. Um dos artigos, relativo à Europa, é de Uri Dadush. Outro, sobre a situação atual norte-americana, é de Rex Nutting, da MarketWatch (também do Grupo Murdoch). Ambos foram publicados na edição de 1o de fevereiro.
Dadush se pergunta: Quem diz que a Crise do Euro acabou? E ele mesmo responde: “Mesmo que o euro sobreviva, a crise não acaba até que a periferia (europeia) comece a crescer e as pessoas comecem a encontrar empregos”. Por certo, são razões reais, mas não as do tipo que se encontra na imprensa da direita. Para 18 milhões de desempregados, diz ele, é espantoso o tom triunfalista com que o mercado reagiu à promessa do presidente do BCE, Mario Draghi, de que será comprado o que for necessário dos títulos dos governos dos países periféricos em crise. Isso é bom para os bancos, mas não gera necessariamente empregos.
Ele também cita um proeminente político de oposição de um dos países europeus atingidos pela crise que desmistifica a mudança de sentimento dos mercados em relação a essa promessa de Draghi, argüindo que as políticas correntes não levam a lugar algum. Quando perguntou a esse político como pensava que isso acabaria, ele respondeu com a alegoria da “rã fervida”: “se você põe uma rã em água escaldante, ele disse, ela saltará de lá. Mas se você a põe na água fria e vagarosamente aumenta a temperatura, ela ficará quieta, eventualmente sendo fervida até a morte.”
De fato, a Grécia está sendo fervida numa taxa de desemprego de 26,8%, a Espanha de 26,6%, Portugal de 16,3%, Irlanda de 14,6%, Itália de 11,1%, numa tendência ainda crescente. E é espantosa a divergência entre o desempenho da periferia em relação à Alemanha (desemprego de 5,4%) e os Estados Unidos (7,8%). Também o PIB italiano caiu 6% desde o nível pré-crise, enquanto o da Alemanha subiu 8% e os Estados Unidos 7%. Tudo isso, para Dadush, está longe de ser justificado por diferenciais de produtividade. Reflete principalmente a política econômica de agrilhoamento da zona do euro.
O artigo de Nutting é ainda mais surpreendente, considerando a obsessão da direita norte-americana com a redução do déficit e da dívida pública. Ele também se pergunta: O que poderia ser mais urgente que a redução do déficit? E imediatamente responde: Quase tudo. Nesse tudo ele relaciona cinco problemas maiores, pela ordem: desemprego (19 milhões de desempregados), mudança climática, infraestrutura, desigualdade, democracia (para ele a democracia americana está em retração).
Destaco alguns aspectos do problema da desigualdade, que tem sido justificadamente visados pelas esquerdas mas que não deixa de ser surpreendente aparecerem nas páginas do WSJ: entre 1979 e 2007, a renda média do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 277%, enquanto a dos 80% que representam a classe média aumentou apenas 38%. Essa tremenda desigualdade foi construída ao longo dos últimos 30 anos, não pela crise. Esta apenas o acentuou. Atualmente, o 1% mais rico da sociedade norte-americana detém 50% da riqueza do país.
Pode-se argumentar que esses comentaristas não representam o núcleo do pensamento de direita nos Estados Unidos e muito menos o grande capital. Contudo, saltando o Atlântico, o que se pode concluir do fato de que o principal representante do empresariado alemão, Hans-Peter Keitel, presidente da poderosa Federação das Indústrias Alemãs, tenha proposto um “plano Marshall” para a Grécia, em confronto direto com a estúpida política de estrangulamento fiscal imposto ao país pela chanceler Ângela Merkel, pelas mãos da Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia)?
Tudo isso significa que existe uma base comum de diagnóstico, imprescindível para algum nível de negociação entre os representantes de diferentes interesses sociais. Se as esquerdas quiserem ter relevância na formulação das políticas do futuro, elas terão de abandonar a utopia negativa da autodestruição do capitalismo e entrar no jogo da radicalização da democracia com o capitalismo regulado. A propósito: a crítica avassaladora que Nutting faz da regressão da democracia nos Estados Unidos, e que não tenho espaço para reproduzir aqui, está ao nível de qualquer intelectual radical de esquerda, o que é outra base comum de negociação!
Em suma, é preciso abandonar o conforto dogmático segundo o qual tudo na economia e na sociedade já foi resolvido pelos “clássicos”, bastando a nós repetir os textos como papagaios, sem consideração das imensas transformações pelas quais o mundo, e sobretudo o mundo industrializado, passou ao longo do último século. É preciso reconhecer na civilização contemporânea as lições objetivas de suas próprias contradições assumindo o risco de propor novas vias de ação em favor das massas mediante o aperfeiçoamento da democracia, não de sua destruição por alguma forma de ditadura “benigna” que a história tem provado sempre acabar em ditaduras sanguinárias.
P.S.: O Itamaraty está articulando a candidatura brasileira à diretoria geral da Organização Mundial do Comércio, OMC. Considerando que sua ala entreguista não conseguiu amarrar o Brasil à Alca, por oportuna oposição de Lula, pode ter aí três propósitos: 1) estourar o livre-cambismo por dentro; 2) subordinar de vez o país ao livre-cambismo; 3) arranjar empregos para diplomatas brasileiros em Genebra.
J. Carlos de Assis é economista, professor de economia internacional da UEPB e autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus” (ed. Civilização Brasileira).
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Gottfried LEIBNIZGottfried Wilhelm von Leibniz (Leipzig, 1 de julho de 1646 — Hanôver, 14 de novembro de 1716) foi um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão.
Princípios
Liberdade x determinação: Leibniz admitia uma série de causas eficientes a determinar o agir humano dentro da cadeia causal do mundo natural. Essa série de causas eficientes dizem respeito ao corpo e seus atos. Contudo, paralela a essa série de causas eficientes, há uma segunda série, a das causas finais. As causas finais poderiam ser consideradas como uma infinidade de pequenas inclinações e disposições da alma, presentes e passadas, que conduzem o agir presente. Há, como em Nietzsche, uma infinidade imensurável de motivos para explicar um desejo singular. Nesse sentido, todas as escolhas feitas tornam-se determinantes da ação. Cai por terra a noção de arbitrariedade ou de ação isolada do contexto. Parece também cair por terra a noção de ação livre, mas não é o que ocorre. Leibniz acredita na ação livre, se ela for ao mesmo tempo 'contingente, espontânea e refletida'.
A Contingência: A contingência opõe-se à noção de necessidade, não à de determinação. A ação é sempre contingente, porque seu oposto é sempre possível.
A Espontaneidade: A ação é espontânea, quando o princípio de determinação está no agente, não no exterior deste. Toda ação é espontânea e tudo o que o indivíduo faz depende, em última instância, dele próprio.
A Reflexão: Qualquer animal pode agir de forma contingente e espontânea. O que diferencia o animal humano dos demais é a capacidade de reflexão que, quando operada, caracteriza uma ação como livre. Os homens têm a capacidade de pensar a ação e saber por que agem.
As Mônadas: A contribuição mais importante de Leibniz para a metafísica é a sua teoria sobre as mônadas, expostas em sua obra Monadologia. As mônadas equivalem para a realidade metafisica, o que os átomos equivalem para os fenômenos físicos.As mônadas são os elementos máximos do universo.As mônadas são "formas substancias do ser com as seguintes propriedades: elas são eternas, indecompostas, individuais, sujeita as suas próprias leis, sem interação mútua, e cada uma refletindo o próprio universo dentro de uma harmonia preestabelecida (historicamente um exemplo importante de pampsiquismo). Mônadas são centros de forças; substância é força, enquanto o espaço, extensão e movimento são meros fenômenos.
A essência ontológica das mônadas é sua simplicidade irredutível.Assim como os átomos, as mônadas não possuem nenhuma matéria ou caráter espacial.Elas ainda se diferenciam dos átomos por sua completa mútua independência, assim as interações entre as mônadas são só aparentes.Em vez disso por força do principio da harmonia preestabelecida, cada mônada, segue uma instrução pré-programada, peculiar para si, assim uma mônada sabe o que fazer em cada situação. (Essas "instruções" podem ser análogas as leis cientificas que governam as partículas subatômicas). Pelo princípio dessas instruções intrínsecas, cada monada é como um pequeno espelho do universo.Mônadas não são necessariamente "diminutas"; e.g., cada ser humano é constituído por uma mônada, na qual o tema do livre-arbítrio é problematizado.Deus, também, é uma Mônada, e a existência de Deus pode ser inferida através da harmonia que se prevalece diante de todas as mônadas; Deus através de sua razão e vontade se afigura o universo através da harmonia preestabelecida.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Documentos históricos
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net ____________________________________________
Publicado em: http://grachev62.narod.ru/stalin/t14/t14_09.htm
Tradução do russo e edição por CN, em 2013/01/31
Colocado em linha em: 2013/02/03
O homem, o capital mais precioso (II)
I.V. Stáline
[Intervenção na recepção de uma delegação de metalúrgicos em Moscovo em 26 Dezembro de 1934 1]
Tínhamos muito poucas pessoas com preparação técnica. Ante nós colocava-se o dilema: começar pela formação técnica das pessoas nas escolas, e adiar em dez anos a produção e a utilização em grande escala de máquinas, enquanto das escolas não saíssem quadros tecnicamente preparados, ou iniciar de imediato a criação de máquinas e promover a sua utilização em grande escala na economia nacional, de modo a que, no próprio processo de produção e utilização das máquinas, se desse formação técnica às pessoas e se desenvolvessem quadros. Optámos pela segunda via.
Aceitámos aberta e conscientemente os custos e gastos suplementares decorrentes da falta de pessoas com preparação técnica, capazes de lidar com as máquinas. É verdade que durante este período se estragaram muitas máquinas. Em contrapartida ganhámos aquilo que é mais valioso: tempo; e criámos o que é mais precioso na economia: quadros. Em três ou quatro anos criámos quadros tecnicamente preparados tanto no domínio da produção de máquinas de todo o tipo (tractores, automóveis, tanques, aviões, etc.), como no domínio da sua utilização em grande escala. Conseguimos fazer em três ou quatro anos, grosso modo e no essencial, o que na Europa foi feito ao longo de décadas. Os custos e despesas suplementares, a perda de máquinas e outros prejuízos foram pagos com juros. Esta é a base da rápida industrialização do nosso país. Mas não teríamos estes resultados se a siderurgia não se tivesse desenvolvido, se ela não tivesse florescido no nosso país.
1 I.V. Stáline, Obras (em russo), t. 14, ed. Pissátel, Moscovo, 1997, pp. 48-50.
Este discurso, publicado no Pravda em 29 de Dezembro de 1934, como relato jornalístico, foi incluído numa brochura editada pelas Editions Sociales (Paris, 1952), com o título L'homme, le capital le plus precieux, aqui utilizado. Como informa a peça jornalística original, na data referenciada, assinalando a boa execução do plano anual da siderurgia, uma delegação de metalúrgicos, que incluía, directores de fábrica, pessoal técnico e operário, foi recebida em Moscovo por Stáline, na presença de Mólotov, presidente do Conselho de Comissários do Povo, e Ordjonikídze, comissário do povo da Indústria Pesada. A intervenção de Stáline seguiu-se às palavras do académico Bardine, director técnico da fábrica de Kuznietsk, que saudou o líder soviético pela grande vitória alcançada pela siderurgia em 1934. (N. Ed.)
2
Podemos falar de pleno direito dos grandes êxitos da siderurgia, que constitui a força fundamental da economia nacional. Vencemos, é verdade. Mas não devemos ufanar-nos com estes êxitos. O mais perigoso é quando nos regozijamos com os êxitos e esquecemos as insuficiências e as tarefas seguintes.
Em todos os países desenvolvidos a produção de aço é superior à produção de ferro fundido. Há países em que a produção de aço é 20 a 30 por cento superior à produção de ferro fundido. No nosso país, pelo contrário, a produção de aço é inferior à produção de ferro fundido. Por quanto tempo isto vai manter-se? Hoje já não se pode considerar que somos um país feito de madeira, que não existe sucata de ferro no país, etc. Hoje somos um país do metal. Não será tempo de acabar com esta desproporção entre o ferro fundido e o aço?
O problema seguinte é o atraso na assimilação e domínio da tecnologia dos fornos Martin2 e das linhas de laminação nas fábricas metalúrgicas.
Muitos compreenderam mal a consigna do partido: «A técnica no período da reconstrução decide tudo». Muitos compreenderam-na mecanicamente, isto é, compreenderam-na no sentido de que bastaria amontoar o maior número de máquinas, para que a consigna fosse inteiramente cumprida. Isto é errado. Não se pode separar a técnica das pessoas que a colocam em funcionamento. A técnica sem pessoas está morta. A consigna: «A técnica no período da reconstrução decide tudo», subentende não a técnica apenas, mas a técnica dirigida por pessoas que a dominam. Esta é a única interpretação correcta desta consigna. E uma vez que já aprendemos a valorizar a técnica, chegou a altura de declararmos abertamente que as pessoas que dominam a técnica são agora o principal. Daqui se infere que, se antes colocávamos unicamente a tónica na técnica, nas máquinas, agora temos de colocar a tónica nas pessoas que dominam a técnica. É isto que exige a nossa consigna sobre a técnica. Temos de cuidar de cada trabalhador apto e com capacidade de compreensão, temos de cuidar dele e fazê-lo crescer. É preciso tratar as pessoas com zelo e atenciosamente, como um jardineiro trata da sua árvore de fruto preferida. Educá-las, ajudá-las a crescer, abrir-lhes uma perspectiva, promovê-las a tempo, e transferi-las a tempo para outras funções quando não conseguem executar a sua tarefa, não esperando que fracassem completamente. Fazer crescer e qualificar as pessoas, colocá-las nos lugares certos e organizá-las na produção, definir os salários de modo a reforçar os elos decisivos da produção e incentivar as pessoas a obterem uma qualificação superior – eis o que precisamos para criar um exército numeroso de quadros técnicos da produção.
Ora, neste aspecto, nem tudo está bem nas vossas fábricas. Nos altos-fornos conseguiram formar e organizar razoavelmente pessoas tecnicamente experientes, mas nos outros sectores da metalurgia ainda não conseguiram fazê-lo. Precisamente por isso o aço e os laminados continuam atrás do ferro fundido. A tarefa consiste em eliminar finalmente esta lacuna. Tenham em conta que, a par do ferro fundido, precisamos de mais aço e laminados.
Pravda, 29 de Dezembro de 1934 – (Segundo o relato jornalístico)
2) Trata-se do forno Siemens-Martin, inventado por Pierre-Émile Martin, em 1864, que adaptou um procedimento de Carl Wilhelm Siemens, patenteado em 1856, à fundição de sucata de ferro. O interesse deste tipo de forno, muito utilizado até aos anos 60, residia na possibilidade utilizar ferro-velho na produção de aço de alta qualidade. (N. Ed.)
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