quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ensaios políticos e documentos

O Estado e a violência

13.10.16_Mauro Iasi_O estado e a violênciaPor Mauro Iasi.
“Nosso objetivo final é a supressão do Estado,
isto é, de toda a violência, organizada e sistemática, 
de toda coação sobre os homens em geral”
Lenin
A maior de todas as violências do Estado é o próprio Estado. Ele é, antes de tudo, uma força que sai da sociedade e se volta contra ela como um poder estranho que a subjuga, um poder que é obrigado a se revestir de aparatos armados, de prisões e de um ordenamento jurídico que legitime a opressão de uma classe sobre outra. Nas palavras de Engels é a confissão de que a sociedade se meteu em um antagonismo inconciliável do qual não pode se livrar, daí uma força que se coloque aparentemente acima da sociedade para manter tal conflito nos limites da ordem.
A ideologia com a qual o Estado oculta seu próprio fundamento inverte este pressuposto e o apresenta como o espaço que torna possível a conciliação dos interesses que na sociedade civil burguesa são inconciliáveis. A contradição existe no corpo da sociedade dividida por interesses particulares e individuais, enquanto o Estado, ao gosto de Hegel, seria o momento ético-politico, a genericidade como síntese da multiplicidade dos interesses. A este momento político universal se contrapõe o dissenso, a rebeldia, o desvio e este deve ser contido nos limites da ordem, do que resulta que todo Estado é o exercício sistemático da violência tornada legítima.
Desde Maquiavel que a teoria política moderna sabe que a violência não pode ser o instrumento exclusivo do Estado, o uso adequado da violência (para Maquiavel aquele que atinge o objetivo de conquistar e manter o Estado) deve ser combinado com as formas de apresentá-lo como legítimo, o que nos leva à síntese entre os momentos de coerção e consenso, a famosa metáfora maquiaveliana do leão e da raposa. Poderíamos dizer que a violência só é eficaz quando envolvida por formas de legitimação da mesma forma que os instrumentos de consenso pressupõem e exigem formas organizadas de violência. O leão e a raposa são igualmente predadores, suas táticas é que diferem.
A separação entre violência e consentimento, entre coerção e consenso, serve às vestes ideológicas que procuram apresentar o Estado como uma função necessária e incontornável da sociabilidade humana. Nesta leitura ideológica, uma vez constituída a sociabilidade sobre as formas consensuais expressas no ordenamento jurídico, nas normas morais e imperativos éticos aceitos e compartilhados, a violência fica como uma espécie de reserva de segurança para conter os casos desviantes. Assim, a violência é apresentada como exceção e o consentimento como cotidianidade. O Estado é a garantia que a violência será coibida.
Nada mais enganador. A violência é resultante da contradição inconciliável que fundamenta nossa sociabilidade e portanto ela é cotidiana, onipresente e inevitável. Ainda que disfarçada de formas não explícitas como nos consensuais procedimentos legais e fundamentos jurídicos, como valores morais ou formas aceitas de ser e comportar-se. Até Durkheim sabia disso quando afirmava que as formas de ser, agir e pensar são impostas coercitivamente e se não percebemos esta coerção nas formas cristalizadas como hábitos não é porque ela não exista, mas porque já foi realizada com eficiência.
Mesmo a violência explícita é cotidiana. Ela é explícita e invisível, se mostra para ocultar-se. No preconceito que segrega, na miséria que aparta, na polícia que prende, tortura e mata, na moradia que se afasta, nas portas que se fecham, nos olhares que se desviam. Na etiqueta de preço nas coisas feitas em mercadorias que proíbem o acesso ao valor de uso, no mercado de carne humana barata na orgia de valorização do valor, sangue que faz o corpo do capital manter-se vivo.
Mas ela também é explícita e visível. No tapa da cara do trabalhador na favela dado por um homem de farda e armado. Na fila de cara para o muro sendo apalpados, nos flagrantes forjados ou não, no saco de plástico na cabeça, na porrada, no chute na cara, no choque nos testículos. Na cabeça para baixo, olhos para o chão, mãos na cabeça, coração acelerado. Na humilhação de ser jogado no camburão, na delegacia, como carga de corpos violentados nos presídios, longe de direitos e mesmo de procedimentos elementares, muito longe de recursos e embargos infringentes.
Um doente aidético, chora em sua cama na enfermaria do antigo presídio do Carandiru e atrapalha o sono do agente penitenciário. É espancado em sua cama com um cano de ferro. O cano da arma na boca da criança que dorme nos degraus da igreja na Candelária. O viciado arrastado à força para o “tratamento”. O louco impregnado de medicamentos. A família que vê o trator derrubar sua casa na remoção para viabilizar a Copa do Mundo de futebol. A mãe que reconhece o corpo de seu filho assassinado no mato e ouve do delegado para deixar quieto e não fazer ocorrência. Ela parou de falar, obedeceu.
Mas haveria uma ligação entre esta violência dispersa e multifacetada e o Estado como garantia da ordem burguesa? O Estado parece deixar-se distante disso tudo. Certo que são seus agentes que operam esta violência cotidiana, mas o Estado trata, como cabe a uma universalidade abstrata, de abstrações. Ele traça os planos, as metas, as políticas. Ele elabora o PRONASI, um programa nacional de segurança e cidadania, no qual os objetivos são moralmente aceitos, os meios os melhores e as intenções louváveis, mas os corpos começam a aparecer nas UPPs. O prefeito chora em Copacabana quando o Rio é escolhido para sediar o grande evento esportivo e o trator começa a derrubar casas. A presidente aprova a usina hidroelétrica e as árvores e índios começam a perder seus espíritos e raízes.
Há três anos, depois do primeiro turno das eleições nas quais o PT apoiou a candidatura de Sérgio Cabral ao governo do Rio de Janeiro, Lula discursando na inauguração de uma plataforma de petróleo da Petrobras em Angra disse:
“O Rio de Janeiro não aparece mais nas primeiras páginas dos jornais pela bandidagem. O governo fez da favela do Rio um lugar de paz. Antes, o povo tinha medo da polícia, que só subia para bater. Agora a polícia bate em quem tem que bater, protege o cidadão, leva cultura, educação e decência”.
Três anos depois um pedreiro sai de um boteco na Rocinha “pacificada”. É abordado pela polícia militar e levado para averiguações na sede da UPP. Sua cabeça é coberta por um saco plástico, é espancado e toma choques. Epilético, não resiste e morre. Os policiais desaparecem com o corpo. Dez policiais são indicados pelo crime, o governador Cabral e o secretário de segurança Beltrame não estão entre eles. O Estado no seu reino de metafísico está protegido pela muralha da universalidade abstrata, no cotidiano da sociedade civil burguesa onde se estraçalham as particularidades pode-se sempre acusar o erro humano, o desvio de conduta, a corrupção. O Estado então promove seu ritual de encobrimento: vai ser aberta uma sindicância e serão feitas averiguações. Evidente que os dez acusados ou suspeitos não serão sequestrados, suas cabeças enviadas em sacos plásticos e seus corpos desaparecidos.
Na abstração dos direitos somos todos somos iguais. Na particularidade viva da sociedade burguesa somos pobres, pretos, favelados, facilmente identificados para receber práticas discriminatórias em nome da ordem a ser mantida. Ordem e tranquilidade. Na ordem garantida os negócios e acordos são garantidos sem sobressaltos, a acumulação de capitais encontra os meios de se reproduzir com taxas adequadas, o Estado é saneado financeiramente destruindo as políticas públicas e garantindo a transferência do fundo público para a prioridade privatista. A ordem garante que a exploração que fundamenta nossa sociabilidade se dê com tranquilidade.
No entanto as contradições desta ordem, por vezes, explodem em rebeldia e enfrentamentos. Não apenas como nos protestos que presenciamos desde junho, mas também por pequenas explosões e caóticas resistências que vão desde o enlouquecimento e a miserabilidade que se torna incomodamente visível, até o crime.
Professores, universitários do ensino público federal ou da rede estadual e municipal de ensino, que resolvem não aceitar a imposição de um plano de carreira; jovens que se recusam a pagar o aumento das passagens, mulheres exibindo seus seios e jovens se beijando, escudos, vinagres e máscaras; são apenas a expressão mais contundente e parcial da contradição (esperamos ainda que despertem metalúrgicos, petroleiros e outros). Além destas manifestações já estavam lá no corpo doente da cidade, os bolsões de miséria, as favelas, as famílias destruídas, os jovens sem futuro acendendo seus isqueiros para iluminar um segundo de alegria.
O Estado é a trincheira de proteção estratégica da ordem da propriedade privada e da acumulação privada da riqueza socialmente produzida. No centro desta zona estratégica está a classe dominante, a grande burguesia monopolista dona de fábricas, bancos, empresas de transporte, controlando o comércio interno e externo, o agronegócio, as indústrias farmacêuticas e das empresas de saúde, etc. São cerca de 124 pessoas que controlam mais de 12% do PIB do Brasil, os 10% mais ricos que acumulam 72,4% de toda a riqueza produzida. Em seu entorno estão seus funcionários, um exército de burocratas, políticos, técnicos e serviçais de toda ordem que erguem em defesa deste círculo estratégico de uma minoria plutocrata as esferas do poder público e seus aparatos privados de hegemonia.
Na forma de um terceiro círculo de defesa, mas que se articula a este segundo, está um exército de funcionários que executam o trabalho (limpo ou sujo) de manutenção da ordem. Como extrato baixo da burocracia Estatal não compartilha dos altos salários e benesses do segundo círculo, mas isso não os faz diretamente membros da classe trabalhadora por receberem baixos salários e terem que trabalhar e viver nas condições de nossa classe. O ato de um policial militar que estapeia o rosto de um trabalhador na favela é o ato pelo qual ele abdica de sua condição de classe, se alia aos nossos algozes e se torna nosso inimigo.
Contraditoriamente, o ato pelo qual uma corporação, como os bombeiros, se levanta em greve por condições de trabalho e salários, é o ato pelo qual rompe com seus chefes e busca aliar-se a sua classe para constituí-la enquanto classe. “O bombeiro é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo”, gritam os trabalhadores que lhes abrem os braços com a infinita solidariedade que constitui a liga sólida que nos faz classe.
Um taxista pega um grupo de professores e pergunta se eles estavam na manifestação contra o Prefeito Eduardo Paes e seus planos de carreira. Diante da resposta positiva o taxista diz: “então não vou cobrar esta corrida, fica como contribuição para a luta de vocês”.
O Estado precisa reprimir e criminalizar toda e qualquer dissidência pelo simples motivo de que por qualquer pequena rachadura da ordem pode brotar a imensa torrente que nos unirá contra a ordem que o Estado garante. Ainda que muitos de nós ainda não saibamos disso, o Estado e a classe que ele representa sabem.
A ridícula minoria de exploradores e os círculos de defesa que se formam em torno deles, está cercado por nós, a maioria. Primeiro pelos trabalhadores recrutados pelo capital para valorizar o valor, depois um enorme contingente de trabalhadores que garantem as condições indiretas de produção e reprodução da força de trabalho e logo em seguida pela massa de uma superpopulação relativa cujo papel e pressionar os salários para baixo para manter a saúde da acumulação de capitais. Por isso eles estão armados até os dentes, por isso tem tanto medo de nós.
Fica evidente o motivo pelo qual a classe dominante precisa do Estado, a grande pergunta é: para que nós precisamos do Estado?
A justificativa ideológica quer nos fazer crer que a complexidade da sociedade contemporânea exige um grau de planejamento, técnica, procedimentos sem os quais seria impossível a vida em sociedade e mergulharíamos no caos da guerra de todos contra todos. Ora, como diria Einstein: defina caos! Estamos mergulhados na guerra da burguesia monopolista e imperialista contra todos! Brecht já dizia em seus poemas sobre a dificuldade de governar: “Todos os dias os ministros dizem ao povo como é difícil governar. Sem os ministros o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. Nem um pedaço de carvão sairia das minas.”
Quem somos nós e porque precisamos deles? Somos trabalhadores, sabemos plantar alimentos, construir casas, fazer roupas e meios de transporte, calçados e todos os tipos de ferramentas, ensinamos e cuidamos de nossa saúde, e como não somos de ferro fazemos músicas e poemas, trazemos a vida para telas e palcos, damos forma ao mármore e ao bronze, nos olhamos e nos apaixonamos e temos filhos tão humanos, tão humanos que carregam a vã esperança de que podemos ser melhores.
Mas isso é utópico, a natureza humana… a natureza humana! Nos gritam os ideólogos. Temos contradições, é verdade. Nós brigamos, divergimos, conhecemos a maldade e os canalhas de toda a espécie. A ordem da propriedade e da mercadoria e o poder que inevitavelmente a ela se acopla transformam nossas contradições em contradições inconciliáveis e criam formas de poder que consolidam uma ordem de exploração. Não querermos abolir as contradições queremos desvesti-las da forma histórica da propriedade e vivê-las humanamente.
Quando tivermos superado esta ordem e um trabalhador hipoteticamente encontrar em um banco de praça o Cabral e o Paes, despidos de toda a autoridade de seus cargos, nus de todo poder com o qual a ordem do capital os ungiu, vai colocar a mão no ombro deles e dizer: “vocês são uns bostas, canalhas mesmo, minha vontade é chamar aquele meu amigo black bloc e te encher de porrada… mas eles não batem em gente, só em coisas. O lanche é às 16 horas e a festa às 20 horas lá na praia, passa lá para a gente vaiar vocês… pelos maus tempos”.
É lógico que eles e seus patrões verdadeiros não vão permitir que isso aconteça, por isso temos que nos constituir como um poder tão grande e definitivo que ninguém possa questionar. Destruir o Estado da Burguesia e construir o Estado dos Trabalhadores que prepare as condições para superar as contradições que exigem um poder separado da sociedade até que consigamos eliminar as classes e constituir uma sociedade sem Estado, autogovernada.
Não precisamos deles (podemos começar fechando o Senado que não vai fazer falta). Não é possível que não possamos fazer melhor que esta porra que está aí. Vai do nosso jeito… nosso porto, por exemplo, pode não ser um “porto maravilha”, porque maravilha para eles é esta cidade horrorosa, desigual e injusta cheia de prédios enormes de cimento e vidro e vazios por dentro à noite, cemitérios com seus túmulos sem ninguém que os habite.
Nosso porto teria casas, algumas modestas com o reboco por consertar e a pintura gasta, com janelas abertas e dentro delas pessoas que as fazem humanas. De lá sairiam crianças alegres, saudáveis e alimentadas, indo para as escolas, parques e museus, e nós sairíamos para o trabalho para fazer todas as coisas que sabemos e a noite voltaríamos para nossas casas e cada um trabalharia de acordo com sua capacidade e receberia de acordo com sua necessidade.
Nós chamamos isso de comunismo, porque somos comunistas. Chamem do que quiser: socialismo, sociedade libertária, anarquismo, plena democracia… não importa, não somos fetichistas das palavras. Queremos apenas, e conquistamos este direito, participar da luta por ela e em sua construção. Afinal, é isso que nós comunistas fazemos… a mais de 160 anos.
Até quando o mundo será governado pelos tiranos?Até quando nos oprimirão com suas mãos cobertas de sangue?Até quando se lançarão povos contra povos numa terrível matança?Até quando haveremos de suportá-los?
Bertolt Brecht

sexta-feira, 18 de outubro de 2013


Filósofo francês

Henri Bergson

18 de outubro de 1859, Paris (França)
4 de janeiro de 1941, Paris (França)

[creditofoto]
O filósofo Henri Bergson recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1927
Filósofo francês, Henri Bergson nasceu em Paris, a 18 de outubro de 1859 e morreu na mesma cidade a 4 de janeiro de 1941. Filho de pais judeus de origem polaca, apesar de sua excepcional aptidão para as ciências, optou pela filosofia. Ensinou em Angers e, depois, em Clermont, até 1888. Retornando a Paris em 1889, ensinou no Liceu Henri 4º, na École Normale Supérieure e no Collège de France.

Bergson é um marco na filosofia moderna: substituindo pela visão biológica a visão materializante da ciência e da metafísica, ele representa o fim da era cartesiana. Exprime, em nível filosófico, um novo paradigma baseado na consciência, adquirido pela cultura de seu tempo, das conexões entre a vida orgânica e a vida social e psíquica. Chamando a sua metafísica de "positiva", ele dá a essa palavra um significado tão original quanto o que atribui ao "dado imediato".

Sua originalidade reside, fundamentalmente, no tipo de ruptura que ele introduz no racionalismo do século 17. Enquanto outros oporiam ao racionalismo a subjectividade ou a história, Bergson tem uma visão nova (que também o distancia de Hegel) da dialéctica e da existência.
 

Quatro idéias fundamentais

Bergson constrói a sua filosofia sobre quatro ideias fundamentais: a "intuição", a "durée", a "memória" e o "élan vital". Para ele, a filosofia não só se distingue da ciência, como mantém com as coisas uma relação que é o oposto da relação científica. Uma é o conhecimento do absoluto, e outra, do relativo. Um absoluto não poderia ser dado senão numa intuição, ao passo que todo o resto depende da análise.

Bergson chama de "intuição" essa espécie de simpatia intelectual pela qual nos transportamos ao interior de um objecto para coincidir com aquilo que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível. Ao contrário, a análise é a operação que liga o objecto a elementos já conhecidos, isto é, comuns a esses objectos e a outros. Portanto, analisar consiste em exprimir uma coisa em função daquilo que não é ela.

Essa forma de conhecimento interior e absoluto contraria a tendência espontânea de nosso espírito. A inteligência, a ciência, a técnica, a vida social, etc., nos afastam das coisas e de sua interioridade, porque esta representa o ser contraído (tensão), enquanto aquelas actividades não podem organizar-se senão sobre o ser em repouso (distensão).

Para Bergson, a inteligência conceitual desloca a realidade do tempo para o espaço, suprimindo o fluxo que a constitui e fixando-lhe contornos precisos e permanentes, através dos quais ela se torna susceptível de ser "definida" e "utilizada". Nesse caso, a "durée" é materializada.

A matéria, na opinião de Bergson, é uma das metades da natureza, pela qual esta se distende e se faz conhecer fora de si mesma. A oposição entre matéria e espírito, entre tensão e distensão, não é concebida, aqui, em termos dualistas, mas como impulsos constitutivos da mesma "durée". Para ir de um a outro, a "durée" percorre uma série de alterações qualitativas.

Só podemos conhecer a "durée" instituindo-a no momento global e unido que compreende a sua trajectória. O seu fraccionamento em instantes separados - em "paradas" ou imobilidades sucessivas - representa a espacialização do que é temporal. O tempo é "durée" na medida em que ele próprio constitui a substância, isto é, na medida em que "substância" é "alteração".

Depois de estudar a alteração, através da qual a "durée" se diversifica, Bergson procura identificar o processo oposto: o da unificação, o "reencontro do simples como uma convergência de probabilidade". O "élan vital" é a virtualidade da "durée". Como uma "gerbe" (um feixe), cria direções diferentes pelo simples fato de crescer. A "memória" integra os diferentes momentos da "durée", absolutamente diferentes entre si, mas unificados numa totalidade movente.

Henri Bergson recebeu o Prémio Nobel de literatura em 1927.
in UOL Educação

segunda-feira, 14 de outubro de 2013


PROFESSOR DE ECONOMIA POLÍTICA

Livro de Mark Blyth defende que a "austeridade é perigosa"

por Lusa, publicado por Luís Manuel Cabral
O professor de Economia Política Mark Blyth defende que a austeridade é um modelo que não funciona, "é uma ideia perigosa" e está a destruir os Estados expostos à crise.
Mark Blyth no livro 'Austeridade -- A história de uma ideia perigosa', que vai ser lançado em Portugal na quarta-feira, explica que não existe "nenhuma teoria da austeridade bem elaborada" no pensamento económico.
"A austeridade é uma forma de deflação voluntária em que a economia se ajusta através da redução de salários, preços e despesa pública para 'restabelecer' a competitividade, que (supostamente) se consegue melhor cortando o Orçamento do Estado, promovendo as dívidas e os défices" (página 16), escreve Blyth realçando que não se verificam à escala mundial casos que tenham sido solucionados com políticas de austeridade.
"Os poucos casos positivos que conseguimos encontrar explicam-se facilmente pelas desvalorizações da moeda e pelos pactos flexíveis com sindicatos (...) A austeridade trouxe-nos políticas de classe, distúrbios, instabilidade política, mais dívida do que menos, homicídios e guerra" (páginas 337-338), escreve o autor do livro.
O escocês Mark Blyth, professor de Economia Política no departamento de Ciência Política da Universidade de Brown, em Providence, Estados Unidos refere que o facto de a austeridade "pura e simplesmente não funcionar" é a primeira razão pela qual a austeridade "é uma ideia perigosa".
"Mas também é uma ideia perigosa porque o modo como a austeridade está a ser apresentada, tanto pelos políticos como pela comunicação social -- como o retorno de uma coisa chamada 'crise da dívida soberana' supostamente criada pelos Estados que aparentemente 'gastaram de mais' -- é uma representação fundamentalmente errada dos factos", defende Blyth.
O académico recorre aos exemplos norte-americano e europeus para afirmar que se pressupunha que as políticas de austeridade dessem estabilidade aos países da zona euro e não que os minassem. Por isso, recorda que Portugal, Itália, Grécia e Espanha lançaram duros pacotes de austeridade desde o início da crise financeira, em 2008.
"Estes problemas, incluindo a crise dos mercados de obrigações, começaram com os bancos. A confusão atual não é uma crise da 'dívida soberana' gerada por gastos excessivos seja de quem for, à exceção dos gregos", (página 117) sublinha.
"Quanto aos outros (países), o problema são os bancos pelos quais os fundos soberanos têm de se responsabilizar, especialmente na zona euro, O facto de lhe chamarmos 'crise da dívida soberana' sugere uma política muito interessante de engodo e desvio em ação", acusa o professor de Economia Política enfatizando que estamos expostos a problemas do setor privado que acabam por destruir o Estado Social.
"O que eram essencialmente problemas de dívida do setor privado foi rebatizado como 'a Dívida' gerada por despesa pública 'descontrolada'", sublinha, exemplificando "a teoria da austeridade perigosa" com os casos dos países europeus, incluindo Portugal "que já estava com problemas antes de 2008".
"Portugal e Itália estão na mesma relação que Espanha e Irlanda. Exceto não estarem ligados por uma crise imobiliária e bancária. Portugal e Itália estão unidos por uma combinação de baixo crescimento, envelhecimento, baixa produtividade e esclerose institucional" (página 110), escreve Mark Blyth.
Para o autor, o desejo de aplicar a austeridade não é apenas ideológico, "embora também o seja", afirmando que existem boas razões materiais para a continuação da aplicação da austeridade, especialmente na Europa, para que seja criado espaço nas contas dos fundos soberanos em caso de um dos bancos da região, "que são demasiado grandes para falir" ameaçar falência.
"Resgatar levou à dívida. A dívida levou à crise. A crise levou à austeridade" (página 340), indica Blyth que na conclusão do estudo conjetura que o modelo de negócio da banca de investimento "pode estar a morrer".
"Se assim for, todo o dinheiro que gastamos e perdemos na recessão foi desperdiçado num sistema que pode estar, de qualquer modo, em declínio terminal", defende, recordando que a austeridade demonstra a incapacidade das sociedades em "concordarem com uma distribuição equitativa do fardo fiscal".
Como alternativa o autor da investigação defende a "repressão financeira" e um esforço renovado para se receberem impostos "sobre os mais ganhadores", a nível mundial, assim como a procura de riqueza que se encontra "escondida em 'offshores'" e que os Estados "sabem" onde está.
"Na verdade, um novo estudo da Tax Justice Network calcula que haja 32 mil biliões de dólares, que é mais duas vezes o total da dívida nacional dos Estados Unidos, escondidos em 'offshores', sem pagar impostos" (página 358), conclui Mark Blyth.
"Austeridade -- A história de uma ideia perigosa" de Mark Blyth (editora Quetzal, 416 páginas) chega às livrarias no dia 18.
A CARTA RESPOSTA AO ARTIGO DO SECRETÁRIO DE ESTADO DA ADMINISTRAÇÃO 
PÚBLICA QUE O JORNAL “PÚBLICO” NÃO DIVULGOU E A NOVA CENSURA QUE SE 
INSTALOU EM PORTUGAL QUE DÁ VOZ APENAS AO GOVERNO 

O Secretário de Estado da Administração Pública, Hélder Rosalino, na sua cruzada 
empenhado contra os trabalhadores da Função Pública divulgou no jornal “Público” de 2-
10-2013 mais um artigo de ataque a estes trabalhadores. Agora insurge-se contra 
aqueles (e “naqueles” estou naturalmente incluído) que afirmam que “ a situação de 
insustentabilidade financeira da CGA é imputável ao Estado porque, por um lado, fechou 
o regime, a partir de 2006, a novos subscritores e, por outro lado, não assumiu ao longo 
dos tempos as suas responsabilidades contributivas como empregador”. E termina o seu 
artigo de opinião, como não podia deixar de ser, com o velho ataque aos trabalhadores 
da Função Pública sobre “ a histórica disparidade de benefícios entre os aposentados da 
CGA e os reformados do Regime Geral da Segurança Social, que o governo visa corrigir 
com a sua proposta de lei, ou sobre a desproporção entre o esforço contributivo que foi 
pedido aos atuais pensionistas da CGA no passado e as prestações que recebem”. E isto 
apesar de que já termos provado a Hélder Rosalino de que não era verdadeira a 
afirmação que a pensão correspondente ao tempo de serviço feito até 2005 obtida com 
base nas regras da CGA seja superior à que se obtém utilizando as regras da Segurança 
Social, e o que é verdadeiro é que a alteração da formula de cálculo da pensão da CGA, 
que o governo pretende agora impor, determinará que a pensão da CGA passe a ser 
bastante inferior à da Segurança Social (na última reunião que tivemos na Secretaria de 
Estado entregamos um documento ao S.E. Hélder Rosalino com cálculos que provavam 
tudo isto, e até a esta data ele e a sua numerosa equipa técnica não foi capaz de rebater 
esses cálculos): 

Para que os leitores não ficassem a conhecer apenas a versão (“verdade”) do governo 
enviamos, em 6-10-2013, à diretora do jornal “Público” uma resposta ao Secretário de 
Estado da Administração Pública para que os leitores deste jornal, confrontando a versão 
de Hélder Rosalino com os nossos argumentos, pudessem formular a sua própria 
opinião. 

No entanto, o “Publico” decidiu, até a esta data, não publicar o nosso artigo, dando a 
ideia aos seus leitores que a “verdade do governo” é a única aceitável. Um 
comportamento muito semelhante ao que se verificava antes do 25 de Abril, onde a única 
“verdade” permitida era do governo. Os processos são diferentes mas os resultados são 
iguais: dificultar ou mesmo impedir qualquer opinião diferente. Mais uma vez a 
associação do poder politica e económico (aqui o grupo Sonae que controla o “Público”) 
ficou clara. Ao recusar publicar a nossa resposta, o Público prestou um serviço que 
agradou o governo, mas é certamente é um mau serviço ao jornalismo e aos seus 
leitores que só ficaram a conhecer a “verdade” única do governo. 

CARTA ENVIADA À DIRETORA DO JORNAL “PÚBLICO” EM 6-10-2013 QUE 
ACOMPANHAVA O NOSSO ARTIGO RESPOSTA QUE TRANSCREVEMOS A SEGUIR QUE O 
“PUBLICO” NÃO DIVULGOU 

Exma. Sra. Directora do Jornal "Publico" 

O "Publico" divulgou na sua edição de 2-10-2013 um artigo do sr. Secretario de Estado da 
Administração Pública onde ele apresentava a versão do governo sobre as causas do 
desequilibrio financeiro da CGA, que está a ser utilizado para justificar os cortes nas pensões dos 
trabalhdores e aposentados da Função Pública. 

Como participei, como assessor dos sindicatos nas negociações entre os sindicatos da Função 
Pública e o governo sobre essa matéria (e até sou visado nesse artigo) e na convicção que o 
"Público" defende uma informação objetiva, o que pressupõe o contraditório, solicito a publicação 
do pequeno artigo que envio( penso com uma dimensão inferior à do SE), que contém uma outra 
versão diferente da governamental das causas das dificuldades atuais da CGA, para permitir aos 
leitores formular a sua opinião com base numa análise de diferentes opiniões. 

O debate público informado foi também um desafio que o SE fez no seu artigo e que eu gostaria 
de responder 

Agradeço que me informem no caso de decidirem não publicar 
Com consideração 
Eugénio Rosa 

domingo, 13 de outubro de 2013

Demócrito de Abdera
Nascido 460 AC em Abdera (Grécia)
Falecido 370 AC (local desconhecido)
Demócrito de Abdera
Demócrito
460-370 AC



Demócrito de Abdera é certamente mais conhecido por sua teoria atómica, mas ele também foi um excelente geómetra. Pouco sabe-se de sua vida, mas sabemos que ele foi discípulo de Leucipo.
Demócrito foi um homem viajado. Historiadores apontam sua presença no Egito, Pérsia, Babilónia e talvez mesmo Índia e Etiópia.
O próprio Demócrito escreveu:
De todos os meus contemporâneos, fui eu quem cobriu a maior extensão em minhas viagens, fazendo as mais exaustivas pesquisas; eu vi a maioria dos climas e paises e ouvi o maior número de homens sábios.
Conta-se que certa vez, tendo indo a Atenas, Demócrito desapontou-se porque ninguém na cidade o conhecia. Qual não seria sua surpresa hoje ao descobrir que o acesso principal da cidade passa pelo Laboratório Demócrito de Pesquisa Nuclear!
Muito de Demócrito é conhecido por meio de sua física e filosofia. Apesar de não ter sido o primeiro a propor uma teoria atômica, sua visão do mundo físico foi muito mais elaborada e sistemática do que a de seus predecessores. Do ponto de vista filosófico, sua teoria atômica deu origem a uma teoria ética, baseada em um sistema puramente determinístico, eliminando assim qualquer liberdade de escolha individual. Para Demócrito, liberdade de escolha era uma ilusão, já que não podemos alcançar todas as causas que levam a uma decisão.
Já sua matemática é pouco conhecida. Sabemos que ele escreveu sobre geometria, tangentes, aplicações e números irracionais, mas nenhum desses trabalhos chegou ao nosso tempo.
O que podemos afirmar com certeza é que ele foi o primeiro a propor que o volume de um cone é um terço do volume de um cilindro de mesmas base e altura, e que o volume de uma pirâmide é um terço do volume de um prisma de mesmas base e altura.
Outro fato curioso proposto por Demócrito (como relatado por Plutarco), é o seguinte dilema geométrico:
Se cortarmos um cone por um plano paralelo a base, como serão as superfícies que formam essas seções? São elas regulares ou não? Se forem irregulares, farão o cone irregular, com reentrâncias e degraus; mas, se são regulares, as seções serão todas iguais, e o cone terá a mesma propriedade do cilindro, de ser feito de círculos similares, o que é um absurdo.
Esta página foi baseada, com a permissão dos autores, no The MacTutor History of Mathematics archive, página de história da Matemática.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Documentos

1
Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net
_____________________________________________
Publicado em: http://resistir.info/franca/armas_quimicas.html
Colocado em linha em: 2013/10/04
As armas químicas e os dadores de
lições: pequena pedagogia do horror
Chems Eddine Chitour
"Não compreendo estas reticências quanto ao uso do gás. Sou fortemente
favorável à utilização do gás tóxico contra as tribos bárbaras... O efeito
moral será bom. Será difundido um terror permanente..."
Sir Winston Churchill a propósito dos rebeldes curdos.
O mérito de Churchill é ter sido franco. Ele não tinha qualquer estado de alma em
gazear populações e insurge-se contra aqueles que estão contra isso. Explica-lhes que
não há razão uma vez que são tribos bárbaras que se deve desmoralizar pelo terror.
De passagem, Winston Churchill sem estados de alma sabe que fala do terror, mas
apesar disso persiste e assina. Nesta contribuição para descrever os factos, vamos
falar dos justiceiros actuais que impõem uma doxa1 ocidental. Ela repousa, como nos
bons velhos tempos, sobre o feito do príncipe – príncipes, pode-se dizer – e da carta
oficial determinando o destino dos aldeões, uma versão actual da expedição punitiva
a que os socialistas eram particularmente afeiçoados ao ponto de dela usar e abusar.
Isto aconteceu desde Guy Mollet, que partia em guerras com a sua cúmplice, a pérfida
Albion (e com a incontornável Israel), sempre que se tratasse de por na ordem os
árabes, até à "punição" prometida à Síria por Hollande, o cavaleiro destemido e sem
mácula, frustrado por não se poder destrinçar sem a protecção do guarda-chuva
americano.
A história da utilização das armas químicas
Descrevemos numa contribuição anterior a história da utilização das armas químicas
remontando aos fogos gregos que um certo Callinicus havia desenvolvido. O fogo
grego baseava-se na associação de um comburante, o salitre, com as substâncias
combustíveis, como as resinas. Bem mais tarde, é a Alemanha que utiliza primeiro as
armas químicas em 1915-17: cloro líquido e fosgénio, depois gás vesicatório e
asfixiante de mostarda (ou iperite). Em resposta, a Grã-Bretanha e a França
produziram também elas este gás letal. O gás nervin Tabun, que provoca a morte por
1 Doxa (δόξα) é uma palavra grega que significa crença comum ou opinião popular e de onde
originaram as palavras modernas ortodoxo e heterodoxo. – [NE]
2
asfixia, foi descoberto em 1936 por investigadores da sociedade alemã I.G. Farben.
Em 1930, a Itália utiliza armas químicas na Líbia e em 1936 na Etiópia.
Os países ocidentais que lançam urros de escândalo devem lembrar-se que foram eles
os inventores e os vendedores destas armas de morte trágica. Camus escreveu a
propósito em Agoravox: «(...) Quanto à tragédia do gaseamento da aldeia curda de
Halabja em 1988, conviria sem dúvida recuperar do esquecimento o que escrevia
Barry Lando, da cadeia americana CBS, em Le Monde, de 27/Outubro/2005, que
era preciso recordar "que as armas químicas iraquianas eram fornecidas
principalmente por sociedades francesas, belgas e alemãs, cujos engenheiros e
químicos sabiam exactamente o que Saddam preparava. E que os Estados Unidos
haviam anteriormente fornecido a Saddam imagens de satélite que lhe permitiam
atacar as tropas iranianas com armas químicas"».[1]
Quando Winston Churchill aprovava o gás de combate
Antes de se tornar o ícone da resistência ao nazismo, lê-se numa contribuição
publicada no Guardian, Winston Churchill foi um fervoroso defensor do império
britânico e um anti-bolchevique convicto. Ao ponto de preconizar o recurso aos gases
que haviam sido o terror das trincheiras. (...) Churchill, então secretário de Estado da
Guerra, afasta os seus escrúpulos com um gesto de mão. Desde há muito partidário
da guerra química, está decidido a servir-se dos gases contra os bolcheviques na
Rússia. Durante o Verão de 1919, 94 anos antes do ataque devastador na Síria,
Churchill prepara e faz lançar um ataque químico de envergadura. Não foi a primeira
vez que os britânicos recorreram ao gás de combate. No decorrer da terceira batalha
de Gaza [contra os otomanos] em 1917, o general Edmund Allenby mandou atirar 10
mil obuses com gases asfixiantes sobre as posições inimigas. Entretanto, foi
desenvolvido um novo gás extremamente tóxico, o difenilaminecloroarsine, descrito
como "a arma química mais eficaz já concebida".[2]
Em 1919, Winston Churchill, então secretário de Estado da Guerra, decide utilizar os
grandes meios. Lemos o que escreveu Camus: «Um programa executado ao pé da
letra pelo tenente-coronel Arthur Harris que foi louvado nestes termos: "Os árabe e
os curdos sabem agora o que significa um verdadeiro bombardeamento... Em 45
minutos somos capazes de arrasar uma aldeia e de matar ou ferir um terço da sua
população". Vinte e cinco anos mais tarde, Winston Churchill, fiel a si mesmo,
defendia ideias quase idênticas a propósito do Reich nacional-socialista (...)
Acrescentemos por honestidade que a utilização britânica dos ataques aéreos com
gás mostarda (iperite), nomeadamente em Suleimanié, no Curdistão, junto à
fronteira iraniano-iraquiana, em 1925 – um ano após a assinatura do Protocolo de
Genebra proibindo "o emprego na guerra de gases asfixiantes, tóxicos ou
semelhantes e de meios bacteriológicos" – não foi uma prática totalmente isolada:
os espanhóis no Rif marroquino [1921-1927] e os japoneses na China não se
privaram de a eles recorrerem"».[1]
A França e seu "savoir-faire" nas armas químicas
3
Tal como todos os países ocidentais, a França desenvolveu de modo intenso os gases
de combate, nomeadamente a partir da Primeira Guerra Mundial. O seu know-how
foi exportado para vários países. Apesar de todas as convenções assinadas, ela
manteve na Argélia uma base de experimentações. Fabrice Nicolino escreveu a
respeito: «A França gaullista esqueceu as armas químicas de B2 Namous. A França
socialista esqueceu os 5000 mortos de Halabja. Em 16 de Março de 1988, Mirages
made in France lançam sobre a cidade curdo-iraquiana de Halabja foguetes cheios
de um cocktail de gás sarin, tabun e mostarda. 5000 mortos. (...) A urgência é
apoiar Saddam Hussein, raïs do Iraque, contra os mulás de Teerão. E que se saiba,
nem uma palavra de Hollande, nesse tempo um dos peritos do Partido Socialista. É
verdade que tão cedo eles não darão explicações sobre a base secreta B2 Namous,
antiga base de experimentação de armas químicas & bacteriológicas (...) De Gaulle
tem a obsessão que se sabe: pela grandeza, pela potência. A nossa primeira bomba
atómica explode em 13 de Fevereiro de 1960 na região de Reggane, no centro de um
Saara então o francês. O que é menos conhecido é que o poder gaullista negocia a
seguir com a Argélia de Ahmed Ben Bella para conservar no Saara bases militares
secretas. Os ensaios nucleares franceses, passados a subterrâneos, continuaram no
Hoggar, próximo de In Ecker, até 1966. A França assinou em 1925 uma convenção
internacional proibindo a utilização de armas químicas, mas o que valem os
pedaços de papel? Entre 1921 e 1927, o exército espanhol trava uma guerra de pavor
químico contra os insurrectos marroquinos do Rif. E sabe-se agora que a virtuosa
França havia formado os "técnicos" e vendido fosgénio e iperita Madrid.»[3]
Fabrice Nicolino fala-nos a seguir dos acordos de Evian, que permitem à França
manter bases militares que eles devolveram no seu estado natural. «Além de Reggane
e In Ecker, B2 Namous, um polígono de 60x10 quilómetros ao Sul de Béni Ounif, não
longe da fronteira marroquina. Numa nota do estado-maior francês pode-se ler:
"As instalações de B2-Namous foram realizadas com o objectivo de efectuar tiros
reais de obuses de artilharia ou de armas de saturação como produtos químicos
tóxicos persistentes, ensaios de bombas de aviação, pulverizações de agressivos
químicos e ensaios biológicos". Em 1997, o ministro da Defesa Alain Richard declara:
"A instalação de B2 Namous foi destruída em 1978 e devolvida ao estado natural".
Em Fevereiro de 2013, o jornalista de Marianne, Jean-Dominique Merchet, revela
que um acordo secreto foi concluído entre a França e a Argélia. Ele trata da
despoluição de B2 Namous, "devolvida ao estado natural" trinta anos antes».[3]
A utilização de armas químicas pelos Estados Unidos
É impossível descrever as numerosas circunstâncias nas quais foram utilizadas armas
químicas. Basta-nos informar a filosofia do maior apologista destas armas do horror.
"Decididamente, lê-se no Agoravox pela pena de Camus, como se fosse preciso
estabelecer distinções abstrusas entre mortos despedaçados sob bombas
convencionais ou asfixiados com gás de nervos. E depois os anglo-americanos
deveriam começar por lavar a sua roupa suja ao invés de brincar de indignados e
de santos inocentes. (...) Não foi Washington que se dedicou a uma impiedosa
guerra química no Vietname entre 1961 e 1971 com pulverizações maciças – 80
milhões de litros – de Agente Laranja, um desfolhante com dioxina? Foram 2,1 a 4,8
4
milhões os vietnamitas afectados por este composto altamente mutagénico, cujos
efeitos se fazem sentir ainda hoje". [1]
Massimo Fini interroga-se por sua vez quanto à autoridade moral dos Estados Unidos:
«(...) Mas o que eu gostaria de compreender é de onde exactamente vem esta
autoridade moral dos Estados Unidos que se permitem traçar "linhas vermelhas"
sobre a utilização de armas químicas. Foram eles, contudo, que em 1985
abasteceram Saddam então no poder e em luta contra os iranianos, e a seguir
contra os curdos. (...) Aquando da guerra contra a Sérvia, os EUA utilizaram
bombas de urânio empobrecido. (...) Imagina-se facilmente o efeito deste "urânio
empobrecido" sobre os civis sérvios e sobretudo sobre as crianças que andam a 1
metro do solo e estão habituadas a tocar tudo. Em 2001, para capturar Ben Laden,
os americanos submergiram as montanhas do Afeganistão sob bombas de urânio e
o ministro da Defesa, Donald Rumsfeld, declarou que "para apanhar os terroristas,
nós utilizaremos também gases tóxicos e armas químicas". Vêem-se hoje os
resultados. Um camponês afegão, chamado Sadiay, conta: "Um ataque da NATO
destruiu a minha casa, matou minha mulher e três dos meus filhos. Mas quando vi
nascer meu sobrinho sem braços e sem pernas, então compreendi que os
americanos nos haviam roubado até o nosso futuro"».[4]
O segredo dos gases israelenses
«Foram, escreve Thierry Meyssan, as investigações israelenses sobre as armas
químicas e biológicas que historicamente pressionaram a Síria a rejeitar a
Convenção proibindo armas químicas. É a razão porque a assinatura por Damasco
deste documento arrisca-se a revelar a existência, e eventualmente o
prosseguimento, de investigações sobre armas selectivas destinadas a matar
apenas populações árabes. (...) Um documento da CIA descoberto recentemente
revela que Israel também desenvolveu o seu próprio arsenal de armas químicas.
Responsáveis da informação em Washington estimam que o Estado judeu fabricou e
armazenou secretamente armas químicas e biológicas desde há décadas para
completar o seu presumido arsenal nuclear. Num relatório secreto da CIA de 1983:
Satélites espiões americanos detectaram em 1982 "uma fábrica produtora de gás
químico e uma unidade de armazenagem no deserto do Negev"».[5]
Para Jean Shaoul, a condenação pelos Estados Unidos da utilização de armas
químicas não se aplica a Israel. Ele escreve: "Contudo, nenhuma obrigação moral
desta espécie é mencionada em relação a Israel, país que detém o mais importante
stock de armas químicas, biológicas e nucleares no Médio Oriente e que é o único
Estado a não ter assinado o tratado de não proliferação nuclear. Como revelou o
sítio web Foreign Policy em 9 de Setembro, não só os Estados Unidos sabem desde
há dezenas de anos da existência das armas químicas israelenses como têm mantido
silêncio a respeito. Não se trata simplesmente de Israel possuir um importante
arsenal de armas químicas. Israel serviu-se delas contra os palestinos na
Cisjordânia e em Gaza, contra o Líbano e Gaza durante os assaltos militares de
2006, e durante a operação "Chumbo endurecido" em Gaza em 2008-2009. (...) Um
protocolo da convenção de 1980 sobre as armas convencionais proíbe a utilização
do fósforo branco enquanto arma incendiária (...) O relatório do inquérito da ONU,
5
o relatório Goldstone, reafirmou as conclusões de numerosos inquéritos
internacionais respeitados, confirmado a utilização desproporcionada por Israel da
força sobre os palestinos, e as acusações de crime de guerra contra Israel e o
Hamas assim como "prováveis crimes contra a humanidade" incluindo a utilização
de fósforo branco por Israel. Ali se afirma que as forças israelenses comportaramse
de modo "sistematicamente irresponsável" na sua utilização de fósforo branco
nas zonas construídas, citando o ataque israelense contra o edifício da Agência de
Cuidados de Saúde da ONU na cidade de Gaza, o ataque ao hospital Al Quds e ao
hospital Al Wafa.[6]
Fala-se frequentemente da "Pax Americana" para designar a ordem resultante da
hegemonia dos Estados Unidos. Esta posição de força não é uma garantia de
equilíbrio e de paz à escala mundial. É assim que os Estados Unidos intervêm de
modo crónico em defesa dos seus interesses estratégicos. Pela história, isso começou
em 1846: Guerra americano-mexicana, em que anexam a Califórnia. Foi também,
sem ser exaustivo, a Guerra da Coreia (1950-1953), do Vietname (1968-1975). Isso
continuou no período recente após a guerra do Vietname, onde centenas de
toneladas de agentes químicos laranja foram dispersos criando a morte e a
desolação durante dezenas de anos, será a sequência da Guerra do Iraque (2003), o
folhetim iraquiano da democracia aerotransportada à razão de dezenas de mortos
por dia não se encerrou com o enforcamento desumano de Saddam Hussein. Em
2011 foi o saqueio da Líbia e o linchamento abjecto de Kadafi. No total, sessenta e
seis intervenções externas, na maior parte sangrentas».
Charles de Gaulle escrevia na sua época que "as armas torturaram mas também
moldaram o mundo. Elas cumpriam o melhor e o pior, dando nascimento ao infame
e também à maior grandeza, alternativamente cravada no horror ou brilhante na
glória. Vergonhosa e magnífica, sua história é aquela dos homens". A guerra de
todos contra todos nunca é limpa, é de facto o fracasso da palavra desarmada que é a
empatia para com a miséria dos fracos. Seguramente, a humanidade corre para a sua
perda.
25/Setembro/2013
1. Camus, 17/09/2013, http://www.agoravox.fr/tribune-libre/article/guerres-chimiquespages-
d-histoire-140994
2. http://www.courrierinternational.com/article/2013/09/13/quand-winston-churchillapprouvait-
les-gaz-de-combat The Guardian , 13/09/2013
3. Fabrice Nicolino, fabrice-nicolino.com/index.php/?p=1608
4. Massimo Fini, http://www.agoravox.fr/actualites/international/article/veto-sur-lesarmes-
chimiques-sauf-135436, 4 de maio de 2013
5. Thierry Meyssan, resistir.info/moriente/gas_israelense.html , 2013
6. Jean Shaoul, http://www.mondialisation.ca/la-condamnation-par-les-etats-unis-delusage-
des-armes-chimiques-ne-sapplique-pas-a-israel/5350557
O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/les-armeschimiques-
et-les-donneurs-de-lecons-petite-pedagogie-de-l-horreur.html

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Filósofo, historiador e economista inglês

David Hume

7 de maio de 1711, Edimburgo (Escócia)
25 de agosto de 1776, Edimburgo (Escócia)
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
[creditofoto]
Hume, para quem o fundamento sólido da ciência só pode vir da experiência e da observação
De família escocesa, David Hume nasceu em 7 de maio de 1711, em Edimburgo, e morreu na mesma cidade em 25 de agosto de 1776. Em 1734 viajou para a França, depois de uma experiência sem sucesso no comércio, atividade a que se dedicou com a intenção de recuperar-se de um intenso esgotamento intelectual. Permaneceu na França até 1737, completando a redação de seu "Tratado", iniciado com pouco mais de vinte anos de idade.

Retornando à Grã-Bretanha, ocupou cargos públicos, incluindo o de secretário de Estado (1768). Antes, entre 1763 e 1765, serviu na França como secretário da embaixada inglesa. Ao falecer, revelou extraordinária tranqüilidade diante da morte.

A posição doutrinária assumida por Hume pode ser explicada pelo subtítulo do "Tratado": "Ensaio para introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais". Diz ele, na introdução, que, assim como a ciência do homem é o único fundamento sólido para as outras ciências, assim o único fundamento sólido que podemos dar à ciência do homem repousa necessariamente sobre a experiência e sobre a observação.
 

Fenomenismo e ceticismo

Toda a obra de Hume pode ser explicada pela preocupação de implantar nas ciências morais a posição metodológica assumida por Isaac Newton no domínio da astronomia e da física, posição que se define como positiva no sentido de que se abstém de toda hipótese que não resista à verificação experimental.

Como conseqüência de obedecer, com rigor, à orientação metodológica de Newton, resultavam excluídas as especulações sobre a natureza da alma, assim como os discursos sobre o absoluto e o "a priori". Tanto a nosso respeito quanto a propósito do mundo, apenas poderíamos conhecer aquilo que se pudesse oferecer à observação e à experiência, promovendo-se, assim, a eliminação das hipóteses inverificáveis.

É dessa posição que resulta o fenomenismo de Hume, tão mal interpretado. Conforme observa Lévy-Bruhl, o fenomenismo de Hume não se funda em razões metafísicas. Na verdade, Hume nunca pretendeu resolver o problema da coisa em si. Em relação a esse problema e na medida em que lhe fosse proposto, quer por idealistas, quer por realistas, simplesmente o recusaria e se declararia cético.

O fenomenismo de Hume é puramente metodológico. É da mesma ordem do que se instituiu em relação à ordem física, quando se limitou o objeto da ciência ao que se revela acessível à observação e à experiência. Hume somente se propõe a estudar os fenômenos, sem que essa decisão implique nem direta, nem indiretamente, na solução de qualquer problema metafísico.
 

Rompendo com a metafísica

Muito dos filósofos contemporâneos ainda discutem as teses de Hume sobre a religião, sobretudo as expostas no ensaio "Dos milagres", de 1758, e em "Diálogos sobre a religião natural", publicado postumamente, em 1779. Com o seu habitual ceticismo, rompendo definitivamente com a tradição metafísica ocidental, Hume nega a possibilidade de se verificar, por meio de testemunhos históricos, os milagres (que, supostamente, suspendem as leis da natureza). Para Hume, não é possível se admitir nenhuma prova da existência de Deus nesta existência.

Hume também é importante como historiador: escreveu a primeira moderna "História da Grã-Bretanha", que abrange o período que vai de Júlio César até 1688. Quanto à economia, Hume desenvolveu muitas idéias, até hoje importantes - que influenciaram, entre outros, Adam Smith -, sobre a propriedade intelectual, a inflação e o comércio exterior.
 
Enciclopédia Mirador Internacional

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

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Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

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CLAUSTROFOBIA

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