segunda-feira, 7 de abril de 2014

Alain Badiou, filósofo francês


Alain Badiou: "O comunismo é a ideia da emancipação de toda humanidade"

O filósofo francês Alain Badiou é um homem que não teme riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Nesta entrevista à Carta Maior, Badiou define o processo político atual como uma “guerra das democracias contra os pobres” e diz que "o amor está ameaçado pela sociedade contemporânea".
Nesta entrevista à Carta Maior, Alain Badiou fala do amor e do resgate da palavra comunismo. Foto Hendrik Speck/Flickr
Alain Badiou não tem fronteiras. Este filósofo original é o pensador francês mais conhecido fora de seu país e autor de uma obra extensa e sem concessões. Filosofia, matemática, política, literatura e até o amor circulam em seu catálogo de produções e reflexões. Sua obra, de caráter multidisciplinar, traz uma crítica férrea ao que Alain Badiou chama de “materialismo democrático”, ou seja, um sistema humano onde tudo tem um valor mercantil.
Este filósofo insubmisso é também um homem de riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em sua pena, Badiou fala mais da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista” do que do sistema comunista em si. Segundo o filósofo francês, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado.
Defensor incondicional de Marx e da ideia de uma internacionalização positiva da revolta, o horizonte de sua filosofia é polifónico: os seus componentes não são a exposição de um sistema fechado, mas sim um sistema metafísico exigente que inclui as teorias matemáticas modernas – Gödel – e quatro dimensões da existência: o amor, a arte, a política e a ciência. Pensador crítico da modernidade numérica, Badiou definiu os processos políticos atuais como uma “guerra das democracias contra os pobres”.
O filósofo francês é um teórico dos processos de ruptura e não um mero panfletário. Ele convoca com método a repensar o mundo, a redefinir o papel do Estado, traça os limites da “perfeição democrática”, reinterpreta a ideia de República, reatualiza as formas possíveis e não aceites de oposição e coloca no centro da evolução social a relegitimação das lutas sociais.
Alain Badiou propõe um princípio de ação sem o qual, sugere, nenhuma vida tem sentido: a ideia. Sem ela toda existência é vazia. Com mais de 70 anos, Badiou introduziu em sua reflexão o tema do amor em um livro brilhante e comovente, no qual o autor de “O ser e o acontecimento” define o amor como uma categoria da verdade e o sentimento amoroso como o pacto mais elevado que os indivíduos podem firmar para viver. A sua lucidez analítica o conduz inclusive a dizer que o amor, porque grátis e total, está ameaçado pelo mundo contemporâneo.

Revoluções árabes, movimento dos indignados, mobilização crescente dos grupos que estão contra a globalização, a luta ou a oposição contra as modalidades do sistema atual se multiplicaram e sofisticaram. Analisando o que ocorreu, o que você diria hoje a todos esses rebeldes do mundo para que sua ação conduza a uma autêntica construção?
Eu diria a eles que, para mim, mais importante que a consigna da anti-globalização, a qual parece sugerir que, por meio de várias medidas, pode-se re-humanizar a situação, incluindo a re-humanização do capitalismo, é a globalização da vontade popular. Globalização quer dizer vigor internacional. Mas essa globalização internacional necessita de uma ideia positiva para uni-la e não só a ideia crítica ou a combinação de desacordos e protestos. Trata-se de um ponto muito importante. Passar da revolta à ideia é passar da negação á afirmação. Somente no plano afirmativo poderemos nos unir de forma duradoura.
Um dos princípios de sua filosofia consiste em dizer que uma vida que não está regida pelo signo da ideia não é uma vida verdadeira. Agora, como defender hoje essa ideia sob a ameaça do hiper-consumo, das falsidades e injustiças da democracia parlamentar e num mundo onde a nossa relação com o outro passa pela relação com o objeto e não com as ideias ou com os indivíduos? No mundo contemporâneo, a ideia é o produto e não a relação humana.
A verdadeira vida é uma vida que aceita estar sob o signo da ideia. Dito de outro modo, uma vida que aceita ser outra coisa do que uma vida animal. Alguns dirão que há valores transcendentes, religiosos, e que é preciso submeter o animal; outros dirão, ao contrário, que devemos nos libertar desses valores transcendentes, que Deus está morto, que viva os apetites selvagens. Mas, entre ambas, há uma solução intermediária, dialética, que consiste em dizer que, na vida, através de encontros e metamorfoses, pode haver um trajeto que nos liga à universalidade. Isso é o que eu chamo “uma vida verdadeira”, ou seja, uma vida que encontrou ao menos algumas verdades.
Chamo "ideia" a esse intermediário entre as verdades universais, digamos eternas para provocar um pouco os contemporâneos, e o indivíduo. Que é então uma vida sob o signo da ideia num mundo como este? Faz falta uma distância com a circulação geral. Mas essa distância não pode ser criada só com a vontade, faz falta algo que nos ocorra, um acontecimento que nos leve a tomar posição frente ao que se passou. Pode ser um amor, um levantamento político, uma decepção, enfim, muitas coisas. Aí se põe em jogo a vontade para criar um mundo novo que não estará baseado na ordem do mundo tal como é, com a sua lei de circulação mercantil, mas sim num elemento novo da minha experiência.
O mundo moderno caracteriza-se pela soberania das opiniões. E a opinião é algo contrário à ideia. A opinião não pretende ser universal, é minha opinião e vale tanto quanto a opinião de qualquer outra pessoa. A opinião relaciona-se com a distribuição de objetos e a satisfação pessoal. Há um mercado das opiniões assim como há um mercado das ações financeiras. Há momentos em que uma opinião vale mais do que outra; mais tarde essa opinião quebra como um país. Estamos no regime geral do comércio da comunicação no qual a ideia não existe. Inclusive suspeita-se da ideia e dir-se-á que ela é opressiva, totalitária, que se trata de uma alienação. E por que isso ocorre? Simplesmente porque a ideia é grátis. Ao contrário da opinião, a ideia não entra em nenhum mercado. Se defendemos nossa convicção, o fazemos com a ideia de que é universal. Essa ideia é, então, uma proposta compartilhada, não se pode colocá-la à venda no mercado. Mas como tudo o que é grátis, a ideia está sob suspeita.
Pergunta-se: qual é o valor do que é grátis? Justamente, o valor do grátis é que não tem valor no sentido das trocas. O seu valor é intrínseco. E como não se pode distinguir a ideia do preço do objeto a única existência da ideia está em um tipo de fidelidade existencial e vital para a ideia. A melhor metáfora para isso é encontrada no amor. Se queremos profundamente a alguém, esse amor não tem preço. É preciso aceitar os sofrimentos, as dificuldades, o facto de que sempre há uma tensão entre o que desejamos imediatamente e a resposta do outro. É preciso atravessar tudo isso.
Quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo. Esse é o principal problema da vida contemporânea. Estabeleceu-se um regime de existência no qual tudo deve ser transformado em produto, em mercadoria, inclusive os textos, as ideias, os pensamentos. Marx havia antecipado isso muito bem: tudo pode ser medido segundo seu valor monetário.
Você é um dos poucos filósofos que defende o que você mesmo chama “a ideia comunista”. Como é possível defender a ideia comunista quando seu conteúdo histórico foi desastroso.
Penso que o conteúdo histórico das ideias sempre pode ser declarado desastroso. Os democratas nos falam da democracia, mas se olhamos de perto a história das democracias, ela está cheia de desastres. Para tomar o exemplo mais elementar, se tomamos a Primeira Guerra Mundial, ela foi lançada por democratas, democratas alemães, ingleses e franceses. Foi um massacre inimaginável, o qual já se demonstrou esteve ligado a apetites financeiros nas colónias africanas, apetites que não diziam respeito áqueles que seriam massacrados mais tarde. Houve milhões de mortos e de sacrificados em condições espantosas e, aceite-se ou não, isso é parte da história das democracias. Se interrogamos o conjunto das experiências históricas veremos que todo o mundo tem sangue até as orelhas.
No que se refere à palavra “comunista” em si, da mesma maneira que ocorre com a palavra “democracia”, sempre se pode argumentar que ambas tem sangue até as orelhas. Mas, por acaso, é preciso sempre inventar outra palavra? Tomemos, por exemplo, o cristianismo. O cristianismo é São Francisco de Assis, a santidade verdadeira, o advento da ideia de uma verdadeira generosidade para com os pobres, a caridade, etc.,etc. Mas, do outro lado, também é a inquisição, o terror, a tortura e o suplício. Por acaso vamos dizer que é um crime alguém se chamar de cristão? Ninguém diz isso. Eu defendo uma espécie de absolvição dos vocábulos. Eles têm o sentido dado pela sequência histórica da qual falamos.
De fato, o comunismo conheceu duas sequências histórias. A sequência histórica do século XIX, quando a palavra foi inventada e propagada para designar uma esperança histórica humana fundamental, a esperança da igualdade, da emancipação das classes oprimidas, de uma organização social igualitária e coletiva. Depois há outra sequência muito diferente onde se experimentou o comunismo, ou seja, se construiu uma forma de poder particular que buscou coletivizar a indústria e essas coisas, mas que, no final, se tornou uma forma de Estado despótico.
Eu proponho que não se sacrifique a palavra “comunismo” por causa desta segunda sequência, mas sim que ela seja resgatada com base na primeira sequência, possibilitando assim a abertura de uma terceira sequência.
Nesta terceira sequência, a palavra “comunismo” significaria o que sempre significou: a ideia de uma organização social totalmente distinta da que conhecemos e que já sabemos que está dominada por uma oligarquia financeira e económica absolutamente feroz e indiferente aos interesses gerais da humanidade. Eu proponho então voltar ao comunismo sob a forma da ideia comunista: a ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização económica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras.
Não esqueçamos que as fronteiras são uma grande característica do mundo contemporâneo. O comunismo é tudo isso. Se alguém inventar uma palavra formidável para designar tudo isso, que não seja a palavra comunismo, eu aceito. Mas a história da política não é a história das palavras, mas sim a história dos novos significados que podem ter as palavras. Em geral se opõe a palavra “democracia” à palavra “comunismo”. Eu digo que uma palavra não é mais inocente do que a outra. Não lutemos pela inocência das palavras. Discutamos sobre o que significam e o que significa aquilo que eu digo.
Agora chegamos a Marx, ou melhor dizendo, aos dois Marx: o Marx marxista e o Marx de antes do marxismo. Qual dos dois você reivindica?
Marx e marxismo têm significados muito distintos. Marx pode significar a tentativa de uma análise científica da história humana com base nos conceitos fundamentais de classe e de luta de classe, e também a ideia de que a base das diferentes formas que a organização da humanidade adquiriu no curso da história é a organização da economia. Nesta parte da obra de Marx há coisas muito interessantes como, por exemplo, a crítica da economia política. Mas também há outro Marx que é um Marx filósofo, que vem depois de Engels e que tenta mostrar que a lei das coisas deve ser buscada nas contradições principais que podem ser percebidas dentro das coisas. É o pensamento dialético, o materialismo dialético. No concreto, há uma base material de todo pensamento e este se desenvolve através de sistemas de contradição, de negação. Este é o segundo Marx. Mas também há um terceiro Marx que é o militante político. É um Marx que, em nome da ideia comunista, indica o que fazer: é o Marx fundador da Primeira Internacional, é o Marx que escreve textos admiráveis sobre a Comuna de Paris ou sobre a luta de classes na França.
Há pelo menos três Marx e o que mais me interessa, reconhecendo o mérito imenso de todos eles, é o Marx que tenta ligar a ideia comunista em sua pureza ideológica e filosófica às circunstâncias concretas. É o Marx que se pergunta pelo caminho para organizar as pessoas politicamente na direção da ideia comunista. Há ideias fundamentais que foram experimentadas e que ainda permanecem e, em cujo centro, encontramos a convicção segundo a qual nada ocorrerá enquanto uma fração significativa dos intelectuais não aceite estar organicamente ligada às grandes massas populares. Esse ponto está totalmente ausente hoje em várias regiões do mundo. Em maio de 68 e nos anos 70, este ponto foi abandonado. Hoje pagamos o preço desse abandono que significou a vitória completa e provisória do capitalismo mais brutal.
A vida concreta de Marx e Engels consistiu em participar nas manifestações na Alemanha e em tentar criar uma Internacional. E o que era a Internacional? A aliança dos intelectuais com os operários. É sempre por aí que se começa. Eu chamo então a que comecemos de novo: por um lado com a ideia comunista e, por outro, com um processo de organização sob esta ideia que, evidentemente, levará em conta o conjunto do balanço histórico, mas que, em certo sentido, terá que começar de novo.
Caído, derrotado no abismo ou simplesmente ferido? Na sua avaliação, em que fase se encontra o capitalismo: em seu ocaso, como acreditam alguns, ou somente vivendo um recesso devido a suas enormes contradições internas?
O capitalismo é um sistema de roubo planetário exacerbado. Pode-se dizer que o capitalismo é uma ordem democrática e pacífica, mas é um regime de depredadores, é um regime de banditismo universal. E digo banditismo de maneira objetiva: chamo bandido a qualquer um que considere que a única lei de sua atividade é seu próprio proveito. Mas um sistema como este que, por um lado, tem a capacidade de se estender e, por outro, de deslocar o seu centro de gravidade é um sistema que está longe de estar moribundo.
Não é o caso de acreditar que, pelo facto de estarmos em uma crise sistémica, nos encontramos à beira do colapso do capitalismo mundializado. Acreditar nisso seria ver as coisas através da pequena janela da Europa. Creio que há dois fenômenos que estão entrelaçados. O primeiro é a derrocada da segunda etapa da experiência comunista, a falência dos Estados socialistas. Essa falência abriu uma enorme brecha para o outro termo da contradição planetária que é o capitalismo mundializado. Mas também abriu novos espaços de tensões materiais. O desenvolvimento capitalista de países do porte da China e da Índia, assim como a recapitalização da ex-União Soviética tem o mesmo papel que o colonialismo no século XIX. Abriu espaços gigantes de manobra, de clientela de novos mercados.
Estamos a viver agora esse fenómeno: a mundialização do capitalismo que se fez potente e se multiplicou pelo enfraquecimento de seu adversário histórico do período precedente. Esse fenómeno faz com que, pela primeira vez na história da humanidade, se possa falar realmente de um mercado mundial. Esse é um primeiro fenómeno. O segundo é o deslocamento do centro de gravidade. Estou convencido de que as antigas figuras imperiais, a velha Europa, por exemplo, a qual apesar de sua arrogância tem uma quantidade considerável de crimes que ainda aguardam perdão, e os Estados Unidos, apesar do facto de ainda ocupar um lugar muito importante, são na verdade entidades capitalistas progressivamente decadentes e até um pouco crepusculares. Na Ásia, na América Latina, com a dinâmica brasileira, e inclusive em algumas regiões do Médio Oriente, vemos aparecer novas potências. O sistema da expansão capitalista chegou a uma escala mundial, mas o sistema das contradições internas do capitalismo modifica sua geopolítica. As crises sistémicas do capitalismo – hoje estamos numa grave crise sistémica – não têm o mesmo impacto segundo a região. Temos assim um sistema expansivo com dificuldades internas.
Mas esses novos polos se desenvolvem segundo o mesmo modelo.
Sim, e não creio que esses novos polos introduzam uma diferenciação qualitativa. É um deslocamento interno ao sistema que dá a ele margem de manobra.
Há duas versões de um de seus livros mais importantes: trata-se do Manifesto para a Filosofia. O primeiro Manifesto foi publicado há vinte anos, o segundo há dois. Se levamos em conta as revoluções árabes e as crises do sistema financeiro internacional, o que mudou fundamentalmente no mundo e no ser humano entre os dois manifestos?
O que mudou mais profundamente é a divisão subjetiva. As escolhas fundamentais às quais estiveram confrontados os indivíduos durante o primeiro período estavam ainda dominadas pela ideia da alternativa entre orientação revolucionária e democracia e economia de mercado. Dito de outro modo, estávamos na constituição do debate entre totalitarismo e democracia. Isso exige dizer quer todo o mundo estava sob o influxo do balanço da experiência histórica do século XX. O primeiro Manifesto foi publicado em 1989, quase ao final do século XX. Em escala mundial, esta discussão, que adquiriu formas distintas segundo os lugares, se focalizou em qual poderia ser o balanço deste século XX. Por acaso, temos que condenar definitivamente as experiências revolucionárias? É preciso abandoná-las porque foram despóticas, violentas? Neste sentido, a pergunta era: devemos ou não unir-nos à corrente democrática e entrar na aceitação do capitalismo como um mal menor?
A eficácia do sistema não consistiu em dizer que o capitalismo era magnífico, mas sim que era o mal menor. Na verdade, tirando um punhado de pessoas ninguém pensa que o capitalismo é magnífico. Mas o que se disse nesse período foi que a alternativa era desastrosa. Há 20 anos estávamos neste contexto, ou seja, a reativação da filosofia inspirada pela moral de Kant. Ou seja, não é o caso de ter grandes ideias de transformação política voluntaristas porque isso conduz ao terror e ao crime, mas sim velar por uma democracia pacificada dentro da qual os direitos humanos estarão protegidos. Hoje esta discussão está terminada e está terminada porque toda a gente vê que o preço pago por essa democracia pacificada é muito elevado. Toda a gente toma consciência que se trata de um mundo violento, com outras violências, que a guerra segue rondando todo o tempo, que as catástrofes ecológicas e económicas estão na ordem do dia e que, além disso, ninguém sabe para onde vamos.
Podemos imaginar que esta ferocidade da concorrência e esta constante submissão à economia de mercado durem ainda vários séculos? Toda a gente sente que não, que se trata de um sistema patológico. Foi revelado que este sistema, que nos foi apresentado como um sistema moderado, sem dúvida em nada formidável, mas melhor que todos os demais, é um sistema patológico e extremamente perigoso. Essa é a novidade. Não podemos mais ter confiança no futuro desta visão das coisas. Estamos numa fase de transição e incerteza. Introduziu-se a hipótese de uma espécie de humanismo renovado que poderíamos chamar de humanismo de mercado, o mercado, mas humano. Creio que essa figura, que segue vigente graças aos políticos e aos meios de comunicação, está morta. É como a União Soviética: estava morta antes de morrer. Creio que, em condições diferentes e num universo de guerra, de catástrofes, de competição e de crise, esta ideia do capitalismo com rosto humano e da democracia moderada está morta. Agora será preciso não mais escolher entre duas visões constituídas, mas sim inventar uma.
Dessa ambivalência provém talvez a sensação de que as jovens gerações estão perdidas, sem confiança em nada?
Isso é o que sinto na juventude de hoje. Sinto que a juventude está completamente imersa no mundo tal como é, não tem ideia de outra alternativa, mas, ao mesmo tempo, está a perder confiança neste mundo, está vendo que, na verdade, este mundo não tem futuro, carece de toda significação para o futuro. Creio que estamos num período onde as propostas de ideias novas estão na ordem do dia, mesmo que uma boa parte da opinião não saiba disso. E não sabe porque ainda não chegamos ao final deste esgotamento interno da promessa democrática. É o que eu chamo de período intervalo: sabemos que as velhas escolhas estão acabadas, mas não sabemos ainda muito bem quais são as novas escolhas.
Vários filósofos apontam o fato de que os valores capitalistas destruíram a dimensão humana. Você acredita, ao contrário, que ainda persiste uma potência altruísta no ser humano.
Devemos olhar o que ocorreu nas manifestações dos países árabes. Nunca acreditei que essas manifestações iam inventar um novo mundo de um dia para o outro, nem pensei que essas revoltas apresentavam soluções novas para os problemas planetários. Mas o que me assombrou foi a reaparição da generosidade do movimento de massa, quer dizer, a possibilidade de agir, de sair, de protestar, de pronunciar-se independentemente do limite dos interesses imediatos e fazê-lo junto a pessoas que, sabemos, não compartilham nossos interesses. Aí encontramos a generosidade da ação, a generosidade do movimento de massa, temos a prova de que esse movimento ainda é capaz de reaparecer e reconstituir-se. Com todos os seus limites, também temos um exemplo semelhante com o movimento dos indignados.
O que fica evidente em tudo isso é que estão aí em nome de uma série de princípios, de ideias, de representações. Esse processo, obviamente, será longo. O movimento da primavera árabe parece-me mais interessante que o dos indignados porque tem objetivos precisos, ou seja, o desaparecimento de um regime autocrático e o tema fundamental que é o horror diante da corrupção. A luta contra a corrupção é um problema capital do mundo contemporâneo. Nos indignados vimos a nostalgia do velho Estado providência. Mas volto a reiterar que o interessante em tudo isso é a capacidade de fazer algo em nome de uma ideia, mesmo que essa ideia tenha acentos nostálgicos. O que me interessa saber é se ainda temos a capacidade histórica de agir no regime da ideia e não simplesmente segundo o regime da concorrência ou da conservação. Isso para mim é fundamental. A reaparição de uma subjetividade dissidente, seja quais forem suas formas e suas referências, isso me parece muito importante.
Você publicou um livro sobre o amor, que é de uma sabedoria comovedora. Para um filósofo comprometido com a ação política e cujo pensamento integra as matemáticas, a aparição do tema do amor é pouco comum.
O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. No amor, o fundamental está em que nos aproximamos do outro com a condição de aceitá-lo na minha existência de forma completa, inteira. Isso é o que diferencia o amor do interesse sexual. Este se fixa sobre o que os psicanalistas chamaram de “objetos parciais”, ou seja, eu extraio do outro alguns emblemas fetiches que me interessam e que suscitam minha excitação desejante. Não nego a sexualidade, pelo contrário. Ela é um componente do amor. Mas o amor não é isso. O amor é quando estou em estado de amar, de estar satisfeito e de sofrer e de esperar tudo o que vem do outro: a maneira como viaja, sua ausência, sua chegada, sua presença, o calor de seu corpo, minhas conversas com ele, os gostos compartilhados. Pouco a pouco, a totalidade do que o outro é torna-se um componente de minha própria existência. Isso é muito mais radical que a vaga ideia de preocupar-me com o outro. É o outro com a totalidade infinita que representa e com o qual me relaciono em um movimento subjetivo extraordinariamente profundo.
Em que sentido o amor está ameaçado pelos valores contemporâneos?
Está ameaçado porque o amor é gratuito e, desde o ponto de vista do materialismo democrático, injustificado. Por que deveria me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro? O melhor seria extrair dele o que melhor corresponde aos meus interesses imediatos e aos meus gostos e descartar o resto. O amor está ameaçado hoje porque é distribuído em fatias. Observemos como se organizam as relações nestes portais de internet onde as pessoas entram em contato: o outro já vem fatiado em fatias, um pouco como a vaca nos açougues. Seus gostos, seus interesses, a cor dos olhos, o corte dos cabelos, se é grande ou pequeno, loiro ou moreno. Vamos ter uns 40 critérios e, ao final, vamos nos dizer: vou comprar este. É exatamente o contrário do amor. O amor é justamente quando, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que estou comprando.
E frente a essa modalidade competitiva das relações, você proclama que o amor deve ser reinventado para nos defendermos, que o amor deve reafirmar seu valor de ruptura e de loucura.
O amor deve reafirmar o facto de que está em ruptura com o conjunto das leis ordinárias do mundo contemporâneo. O amor deve ser reinventado como valor universal, como relação em direção da alteridade, daquilo que não sou eu e onde a generosidade é obrigatória. Se não aceito a generosidade, tampouco aceito o amor. Há uma generosidade amorosa que é inevitável. Sou obrigado a ir na direção do outro para que a aceitação do outro na sua totalidade possa funcionar. Essa é uma excelente escola para romper com o mundo tal como é. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvajaria; uma vez que, na sua intimidade mais poderosa, o amor exige uma espécie de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que este outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que tudo descrito acima é possível isso prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo.
A política não está muito afastada de tudo isso. Para você, há uma dimensão do amor na ação política?
Sim, inclusive pode resultar perigoso. Se buscamos uma analogia política do amor eu diria que, assim como no amor onde a relação com uma pessoa tem que constituir sua totalidade existencial como um componente de minha própria existência, na política autêntica é preciso que haja uma representação inteira da humanidade. Na política verdadeira, que também é um componente da vida verdadeira, há necessariamente essa preocupação, essa convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente de toda a humanidade. Do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua totalidade.
O que pode fazer um casal jovem e enamorado neste mundo violento, competitivo, onde o projeto do casal já está ameaçado pela própria dinâmica do consumo e da competição?
Creio que o projeto de um casal pode ser uma rama se não se dissolve, se não se metamorfoseia em um projeto que acabe se transformando, no fundo, na acumulação de interesses particulares. Na situação de crise e de desorientação atual o mais importante é segurar as mãos no leme da experiência pela qual estamos passando, seja no amor, na arte, na organização coletiva, no combate político. Hoje, o mais importante é a fidelidade: em um ponto, ainda que seja em apenas um, é preciso não ceder. E para não ceder devemos ser fieis ao que ocorreu, ao acontecimento. No amor, é preciso ser fiel ao encontro com o outro porque vamos criar um mundo a partir desse encontro. Claro, o mundo exerce uma pressão contrária e nos diz: “cuidado, defenda-se, não deixe que o outro abuse de ti”. Com isso está dizendo: “voltem ao comércio ordinário”.
Então, como essa pressão é muito forte, o fato de manter o leme no rumo certo, de manter vivo um elemento de exceção, já é extraordinário. É preciso lutar para conservar o excepcional que ocorre em nossas vidas. Depois veremos. Dessa forma salvaremos a ideia e saberemos o que é exatamente a felicidade. Não sou um asceta, não sou a favor do sacrifício. Estou convencido de que se conseguimos organizar uma reunião com trabalhadores e colocamos em marcha uma dinâmica, se conseguimos superar uma dificuldade no amor e nos reencontramos com a pessoa que amamos, se fazemos uma descoberta científica, então começamos a compreender o que é a felicidade. A felicidade é uma ideia fundamental. A construção amorosa é a aceitação conjunta de um sistema de riscos e de invenções.
Você também introduz uma ideia peculiar e maravilhosa: devemos fazer tudo para preservar o que nos ocorre de excepcional.
Aí está o sentido completo da vida verdadeira. Uma vida verdadeira configura-se quando aceitamos os presentes perigosos que a vida nos oferece. A existência nos traz riscos, mas, na maioria das vezes, estamos mais espantados que felizes por esses presentes. Creio que aceitar isso que nos ocorre e que parece raro, estranho, imprevisível, excepcional, quer seja o encontro com uma mulher ou o maio de 68, aceitar isso e suas consequências, isso é a vida, a verdadeira vida.
 

Entrevista de Eduardo Febbro, em Paris. Tradução: Marco Aurélio Weissheimer. Publicado em Carta Maior
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sábado, 5 de abril de 2014

História do Povo na Revolução Portuguesa, por Miguel Real, Jornal de Letras

“Belíssima investigação histórica, referência de futuras novas investigações, que tem o condão de trazer a lume, nestas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, muito do que o actual poder dominante não só quer esquecer como “perversidade” histórica como, sobretudo, gostaria que nunca tivesse havido – mas houve, e com que força, como o livro de Raquel Varela o prova insofismavelmente.”
Texto de Miguel Real, Jornal de Letras, 2 de Abril de 2014
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UM “OUTRO” 25 DE ABRIL
Ricardo Antunes, sociólogo da Universidade de S. Paulo, escreveu que “Raquel Varela é uma das mais brilhantes críticas sociais de Portugal dos nossos dias” e Jan Lucassen, fundador da história global do trabalho e membro da Academia Real de Ciências holandesa, considera Raquel Varela “uma investigadora sagaz e dedicada da história global do trabalho”, reafirmando que a sua obra tem sido uma “inspiração, em Portugal e a nível internacional, para os jovens investigadores desta área”. Com efeito, começando a publicar apenas em 2011, a obra Raquel Varela tem vindo a alterar equilíbrio de forças hermenêutico sobre a história do 25 de Abril pugnando por uma nova e diferente visão sobre a Revolução dos Cravos.
Tanto em Greve e Conflitos Sociais em Portugal no Século XX, que coordenou, como emA História do PCP na Revolução dos Cravos (tese de doutoramento), ambos publicados em 2011, Raquel Varela dá especial destaque às lutas populares, considerando a posição do PCP como a de um partido, não orientador das forças revolucionárias na tomada do poder político, mas, muito diferentemente, como a de um partido que asseguraria em Portugal a consolidação do regime democrático no quadro de um capitalismo moderno e regulado e no âmbito da esfera da influência da NATO. Neste sentido, ao contrário das interpretações mais difundidas sobre história pós-25 de Abril, não só nunca o PCP teria almejado mudar a natureza de classe do Estado em Portugal (acusação que lhe é feita pelos actuais historiadores do regime neo-liberal, segundo os quais o PCP bloqueou o progresso económico alcançado na década de 1960; entregou as colónias aos movimentos de libertação e intentou substituir uma ditadura por outra), como a sua função terá sido, segundo Raquel Varela, a de perseguir uma via original para o socialismo integrada no quadro do Estado burguês e, neste sentido, de, em conjunto com a Intersindical, ter constituído a máxima força de bloqueio dos movimentos populares e revolucionários que, estes sim, organizada ou espontaneamente, intentaram, fracassadamente, revolucionar a natureza de classe do Estado.
Combatendo as vertentes ideológicas mais conservadoras do actual Estado Português, Raquel Varela, em 2012 e 2013, publicou dois estudos por si coordenados que lobrigavam provar que quem pagava o Estado Social eram os trabalhadores (Quem Paga o estado Social, 2012) e que A Segurança Social é Sustentável (2013).
Deste modo, Raquel Varela tem provado que se pode aliar a combatividade no plano da História com o ofício de historiador e a defesa de teses alternativas à ideologia oficial dominante sem se deixar o rigor, a objectividade e a disciplina de consulta de fontes. Para tal, Raquel Varela faz menos a história do Estado e da luta política partidária e mais a história do povo, isto é, dos verdadeiros sujeitos positivos da História, a “história dos resistentes, dos «sem voz», daqueles que habitualmente não ficam na história [oficial, a dos manuais das escolas], soterrados por decretos, declarações diplomáticos, jogos de bastidores e lutas políticas. Não encontrarão aqui uma história da guerra colonial, mas a história da resistência ao trabalho forçado ou a história da resistência à guerra. Não descobrirão aqui a história da queda dos governos provisórios, mas a história do controlo operário (…); não lerão aqui a indispensável história dos partidos políticos, mas sim a dos trabalhadores, em sentido amplo…” (p. 17), isto é, a história das “organizações de base dos trabalhadores” e das suas realizações (organizações militares, poder operário de base, comissões de trabalhadores, ocupação de casas, ocupação de terras…).
  1. – A História do Povo na Revolução Portuguesa. 1974 – 75

Este livro responde à visão da história da autora e a interrogações levantadas por esta já em 2012. Escrevia então Raquel Varela: “Passados mais de 35 anos da revolução portuguesa não existe em Portugal uma história do movimento operário na revolução portuguesa. (…) Por exemplo: até onde foi a força dos trabalhadores em 1974 – 1975? Exagera-se ou não o papel dos trabalhadores durante a revolução, ou, por outras palavras, mistifica-se a classe operária e seus aliados? Qual o grau de espontaneidade das suas acções? Quais eram as organizações que tinham mais força junto dos trabalhadores? Em que fábricas e em que áreas geográficas as acções foram mais radicalizadas? (…) Qual foi a política dos principais partidos políticos, do PCP e do PS, para os trabalhadores? Qual o grau de autonomia do MFA face aos partidos e face aos trabalhadores? Porquê em 1974-75 a maioria da classe operária aceitou ser dirigida por PCP/PS/MFA, confiando que o MFA dirigiria a mudança de regime, a «caminho do socialismo»? Porquê o 25 de Novembro, depois de um processo tão radicalizado, desferiu um golpe na revolução com tão pouca resistência popular e operária? O que aconteceu ao Estado na revolução portuguesa? Ou até onde foram os organismos de duplo poder? Qual foi a real força das classes em Portugal naquele biénio e como actuaram as suas direcções?” (Raquel Varela, “Conflitos ou coesão social? Apontamentos sobre a história e memória da Revolução dos Cravos”, in AA. VV. (coord. R. Varela), Revolução ou Transição, 2012, pp. 202-203).
História do Povo na Revolução Portuguesa. 1974-75 responde a estas interrogações pondo o acento tónicos nos movimentos populares, na criação das comissões de trabalhadores, na resistência à guerra colónia, na tentativa de instauração de um controlo operário, na relação entre a intelectualidade e o movimento laboral e na influência que este terá operado na queda dos sucessivos governos provisórios até ao 25 de Novembro de 1975.
Neste sentido, todo o estudo é atravessado pelo levantamento rigoroso e pormenorizado da pluralidade de movimentos sociais tendentes (ainda que goradamente) a alterar a natureza de classe do estado português, segundo a perspectiva histórica da existência de uma diferença radical entre a génese revolucionária do estado democrático, uma democracia conquistada nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nos quartéis, não outorgada pelo Estado, e o quadro político actual, profundamente neo-liberal.
Deste modo, sendo um livro fundado em lutas é, porém, um livro que opera o levantamento do grande fracasso da revolução socialo em curso durante o biénio referido. Neste sentido, para o leitor socialmente empenhado é um livro de pesar, de constatação melancólica de quão diferente poderia ter sido o Portugal de hoje caso os movimentos sociais referidos tivessem triunfado.
Raquel Varela postula que, com o 25 de Abril são lançadas as “sementes de uma revolução social encetada como uma revolução política democrática que se deu em poucos dias ou semanas, ou seja, a substituição do regime político da ditadura por um regime democrático estava praticamente assegurada e estavam já lançadas as bases de uma outra revolução, que lutava pela igualdade social” (p. 43). Se a primeira se confundia com o desejo de Liberdade, a segunda augurava atingir as bases de um plano de Igualdade social. Por isso, acrescenta Raquel Varela, “estas bases são lançadas pelo sujeito social que atrás do Exército (e por isso sem medo) entra na história – a classe trabalhadora e os sectores populares estudantis. Quando entra na história, dá um salto para a frente desse Exército e passa a ser a vanguarda da revolução, deixando o MFA a tentar compor o Estado” (ibidem).
Raquel Varela divide o seu livro em dois planos distintos – o plano da teoria, evidenciando tanto as suas ascendências intelectuais (Hobsbawn, Howard Zinn e Chris Harman) quanto o que entende conceptualmente por “povo”, diferenciando-se radicalmente, do ponto de vista da hermenêutica, das posições de Rui Ramos (último capítulo: pp. 455 ss.), estatuindo este autor num plano político neo-liberal, e o plano historiográfico propriamente dito, fazendo, neste campo, uma verdadeira síntese relativamente pormenorizada dos movimentos colectivos mais importantes entre 1974 e 1975: as greves, apontando três picos essenciais do movimento grevista (p. 52), com profundas incidências no plano do Estado, a pequena história das comissões de trabalhadores e o fracasso da sua unificação nacional devido à oposição da Intersindical (p. 209); os quatro factores de ocupação das empresas pelos trabalhadores (p. 191), o controlo operário (pp. 270 ss.)e a auto-gestão , e o seu fracasso, não devido à imperícia organizativa dos trabalhadores, mas ao efeito da crise económica mundial de 1973 (p. 197); a natureza histórica da Intersindical e a sua diferenciação antes e depois do 25 de Abril (p. 211)…, concluindo pela existência de uma “dualidade de poder” (p. 424) que teria caracterizado este período revolucionário: poder democrático dos trabalhadores versus poder democrático eleitoral.
Belíssima investigação histórica, referência de futuras novas investigações, que tem o condão de trazer a lume, nestas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, muito do que o actual poder dominante não só quer esquecer como “perversidade” histórica como, sobretudo, gostaria que nunca tivesse havido – mas houve, e com que força, como o livro de Raquel Varela o prova insofismavelmente.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Nota dos Editores

Sobre as eleições em França

Os Editores
02.Abr.14 :: Editores


Os resultados das eleições locais em França justificam algumas notas.
Não pode ser ignorada a especificidade de eleições que envolvem mais de 3 mil municípios e factores locais que terão sido em vários casos determinantes. Mas tanto o sentido geral dos votos expressos como a elevada abstenção são lidos como uma severa penalização do PSF, da presidência de François Hollande que prossegue e em alguns aspectos agrava os posicionamentos do seu antecessor. Da sua governação “austeritária” contra os trabalhadores e o povo e de concertação com o grande patronato; da sua crescente participação e iniciativa em aventuras imperialistas em particular em África; do seu papel, em conjunto com a Alemanha e outras potências económicas europeias, no directório que conduz a UE pelo rumo antipopular, antioperário e antidemocrático actualmente em curso.
É significativo de uma situação política, social, económica e democrática degradada que essa penalização tenha beneficiado forças políticas mais à direita que o próprio PSF. No quadro de um sistema eleitoral perverso desenhado para privilegiar as forças políticas ditas “centrais”, o partido de extrema-direita consegue um significativo progresso, alimentado também pela indisfarçável simpatia com que é tratado pelos grandes meios de comunicação social.
Esse sistema eleitoral inculcou na sociedade francesa um confronto “esquerda/direita” cuja linha de demarcação não corresponde a diferenças substanciais nos planos económico e social, e uma concepção de “esquerda” inteiramente desprovida de conteúdo político de classe. Tal situação desorienta amplas camadas populares (na 1ª volta das eleições a abstenção entre os sectores operários foi a mais alta: 51%) e abre caminho às campanhas – das quais a extrema-direita é beneficiária - que visam desacreditar “a política” e “os políticos” no seu conjunto. Do mesmo modo, afasta a grande massa dos eleitores e em particular dos mais jovens da participação política: 59% de abstenção na faixa entre os 18 e os 24 anos, 53% na faixa entre os 25 e os 34 anos na 1ª volta (IPSOS).
A reacção do PSF perante estes resultados foi uma remodelação governamental que tudo indica situará o governo ainda mais à direita. É nesse quadro que, mais do que o destaque que possa ser dado a este ou aquele aspecto dos resultados, a observação fundamental a fazer sobre eles é que não só a social-democracia não constitui hoje qualquer alternativa à restante direita como não existe alternativa real – incluindo no plano democrático - enquanto os trabalhadores e o povo não tomarem em mãos a tarefa de romper com tal alternância, instalada pela classe dominante como parte do seu sistema de dominação.
Os Editores de odiario.info

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Historiadora Raquel Varela- Entrevista

Entrevista Sobre História do PCP na Revolução dos Cravos

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Um das questões ligada a este livro foi a polémica com José Manuel Fernandes, ex-director do Público. Ele leu uma entrevista sua e levantou uma série de problemas à entrevista. E faz uma série de comentários às motivações políticas de Raquel Varela. Que tem a dizer sobre as motivações políticas de que ele fala?
Pelo menos três coisas. Não é sério comentar um livro sem o ler. A segunda é que o José Manuel Fernandes faz um duplo comentário aqui, um à minha profissão e outro à polémica em torno do livro. O da minha profissão eu não lhe reconheço, claro, legitimidade. Estou há 12 anos a ser avaliada em várias universidades, sou avaliada semestralmente com artigos pelos meus pares e tenho anos e anos de avaliações como historiadora e não é JMF que está em posição de questionar isso.
Ele está em posição de ter uma opinião sobre um livro, que seria muito mais sólida se o tivesse lido. Ter uma opinião sobre um livro sem o ler é estranho sobretudo vindo de quem teve responsabilidades num jornal que se quer sério. Acho que essas opiniões devem ser a opiniões sobre o livro e não sobre a pessoa que escreveu o livro porque no fundo o que se está aqui a fazer é uma espécie de macartismo é pedir que se ponha uma legenda quando se entrevista um cientista sobre determinado tema, que essa pessoa tenha uma ficha política. Isso é uma característica de regimes que perseguem politicamente as pessoas ou de situações onde as regras básicas da democracia não são respeitadas. Isso não é feito aliás com nenhum historiador em Portugal. Se o fizéssemos havíamos de descobrir que a esmagadora maioria dos historiadores em Portugal são militantes e com toda a legitimidade. Ser militante de uma organização é um direito básico reconhecido pela Constituição.
Quando fala de militância está a falar de militância partidária?
O Rui Ramos é militante, o Tiago Moreira de Sá é do PSD, creio mesmo que até é eleito por uma freguesia, o Fernando Rosas deputado do Bloco de Esquerda e um dos melhores historiadores portugueses e nunca ninguém questionou a sua excelente produção académica pela sua militância no Bloco de Esquerda. Se fossemos por aqui iríamos questionar o trabalho de se calhar centenas de pessoas em Portugal que é um trabalho meritório e sujeito às mais duras avaliações anuais, que nós hoje temos nas universidades. Acho que isso é ilegítimo e que lhe fica muito mal.
Essa militância pode ser vista como uma forma de subjectivar esta escrita da história? No caso de um Rui Ramos, no seu caso?
Acho que a militância é um dos elementos que nós devemos conhecer das pessoas até porque abre uma clareza porque a história não é neutra, nunca foi, mas pode e deve ser séria. E isso não é aferido pela militância das pessoas mas pelas fontes e pelo tratamento das fontes que é dado, pela metodologia, pelo suporte teórico. Por uma série de itens que não têm a ver com as escolhas políticas. Pode haver um encontro entre as escolhas políticas das pessoas e a sua análise teórica e metodológica e há-o em todos os casos.
Historiadores liberais tendem a aproximar-se muito de uma história muito institucionalista. Historiadores marxistas de uma história que tem o conflito social como núcleo explicativo do processo histórico, que é o meu caso. Alguns dos melhores historiadores do mundo são historiadores marxistas, a começar pelo Hobsbawn, durante vários anos membro do Partido Comunista Inglês. Grande parte dos historiadores que conheço, não se filiando em nenhuma organização política, defendem uma história mais pós-moderna, muito ligada à análise dos discursos, que tem a ver com o seu posicionamento político – neste caso o não querer assumir um posicionamento é também assumir um posicionamento político.
É muito fácil estabelecer uma relação, mas isso não é o critério de análise de uma obra. O critério é uma interpretação minimamente coerente das fontes, é o suporte metodológico e teórico e, claro, é uma série de provas que as pessoas passam extraordinariamente difíceis.
E nessas provas existe gente de todos os quadrantes?
Claro. Basta ver que na minha tese, no meu júri de doutoramento, havia seis historiadores e só um era um historiador marxista. E as provas terminaram com louvor e distinção.
O JMF critica o facto de defender que Cunhal nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal, nunca existiu o risco de o PCP tomar o poder em Portugal em 1974 e 1975. Como defende este ponto de vista?
Os documentos estão todos citados, são 400 páginas.
E não existe enviesamento? Não há grande peso de jornais como o Avante?
Muitas citações são do Avante e d’O Militante e outras publicações ou textos do próprio PCP. Há dezenas de documentos do PS, centenas de documentos de arquivos estrangeiros, imprensa da mais variada cor política, do centro de documentação 25 de Abril. Há um constante diálogo entre as fontes.
O discurso é um discurso defendendo a revolução socialista mas repare um discurso que defendendo a revolução socialista vai às portas das fábricas distribuir folhetos para acabarem com a greve, porque as greves são contra os Governos Provisórios onde o PCP está em aliança com o PS e o PPD. Carlos Carvalhas aprova dois documentos contra o controlo operário que existia de facto nas fábricas dizendo que o controlo operário não podia pôr em causa a economia nacional e a economia nacional tinha 92% da mão-de-obra trabalhando na economia privada, cuja propriedade não é questionada pelo PCP. É um discurso em defesa da revolução socialista que põe fim ao V Governo porque diz que o V Governo não pode avançar, tem de haver uma coligação com o PS, com o sectores do Grupo dos Nove, tem de haver uma reconstituição do MFA.
O importante não é o que o PCP diz mas sim o que faz. Quem põe fim ao V Governo é o PCP, quem impede a Intersindical de sair é o PCP, quem impede os fuzileiros de sair no 25 de Novembro é o PCP. A história política do PCP não se pode fazer sem as fontes. Como se pode analisar a politica do PCP nas fábricas se não vemos os panfletos que as células do PCP fizeram nessas fábricas?
Mas refuta a tese que tem sido dominante de que o PCP foi responsável por uma série de excessos revolucionários e uma tentativa de criar aqui um campo socialista real?
Isso nunca se passou e eu creio que o meu livro põe um ponto final nessa questão. O PCP nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal. Isso não significa que o PCP não tenha querido ocupar lugares no aparelho de estado, quis e muito, e o PS também. Até Setembro de 1975 ocupou muitos lugares no aparelho de estado e partir dai há um volte-face e é o PS que passa a ocupar esses lugares, de tal maneira que Cunhal tem um texto onde diz que “o nosso apoio ao VI Governo diminui consoante os lugares que nos dão no Governo e consoante nos abrem ou fecham a torneira do Estado”
Quando Cunhal se refere à torneira do estado refere-se aos ministérios das Finanças e da Agricultura, que controlavam a reforma agrária e as empresas nacionalizadas. Há uma disputa por ocupar lugares no aparelho de Estado pelo PCP e pelo PS clara. Daí a concluir-se que o partido quer tomar o poder e expropriar a burguesia e tomar o poder dirigindo órgãos de duplo poder pelos trabalhadores… Estamos a falar de um partido que defende a batalha da produção, que defende que os trabalhadores devem aumentar a produtividade no quadro da propriedade privada. O PCP defende que se deve parar de fazer greves nesse quadro dos 92 % da propriedade privada e aumentar a produtividade do país.
Mas são muitas vezes acusados de até terem nacionalizado barbearias.
Mas é um discurso que não corresponde à realidade. O sector empresarial do Estado (SEE), depois das nacionalizações, fica inferior ao da Alemanha e da França. 8 % da mão-de-obra trabalha no sector empresarial do Estado, depois das nacionalizações, e na Alemanha e na França entre 10 e 12%. Tomar um sector nacionalizado do Estado como prova irrefutável de uma política revolucionaria é errado. Por essa lógica a Alemanha também estaria em transição para o socialismo, pois tinha mais empresas nacionalizadas que Portugal.
Eu acho que as nacionalizações são a prova de uma revolução em curso mas não são a prova de que o PCP quis fazer uma revolução. Uma boa parte das nacionalizações nasce do desejo de impedir o controlo operário das fábricas. As fábricas vão para as mãos do Estado para saírem das mãos dos trabalhadores. Para evitar a duplicidade de poder nas fábricas. Aliás vimos agora nacionalizações. Os regimes burgueses nacionalizam e nacionalizam sem problema nenhum. Nacionalização não é sinónimo de revolução socialista.
JMF acusa-a de fazer do PCP um cordeirinho pascal e de falar numa revolução sem mortos, esquecendo os mortos junto à PM, no 25 de Novembro.
Sim, há três mortos no assalto dos comandos à Polícia Militar. Quando falo na contra-revolução sem mortos refiro-me à tese de Cunhal de que em Portugal apenas seria possível uma contra-revolução a la Pinochet. Uma contra-revolução feita sob as botas de uma ditadura militar sangrenta, e aquilo a que nós assistimos é uma contra-revolução democrática, ou seja há um golpe militar, rapidamente se evolui para um processo eleitoral, tudo isso se faz sem um banho de sangue. Não há um confronto armado entre classes sociais antagónicas e a única justificação para isso é o recuo do PCP no 25 de Novembro. A disponibilidade do PCP não fazer avançar nem os trabalhadores organizados, na Intersindical, nem as unidades militares por si controladas, que do ponto de vista do equilíbrio militar as unidades de esquerda até tinham mais força que as de direita. A tese de Álvaro Cunhal de que Portugal nunca poderia ser uma democracia burguesa no Rumo à Vitória e que depois é desenvolvida em 74 e 75 ruiu. Portugal é uma democracia burguesa relativamente estável há quase 40 anos e não foi preciso um banho de sangue para instituir a ditadura. Cunhal disse muitas vezes que isto ou será uma ditadura ou uma revolução socialista e o 25 de Novembro é uma contra-revolução democrática que depois será aplicado de forma ainda mais estável em Espanha e depois com a doutrina Carter na América Latina, as revoluções (transições) negociadas no Brasil, no próprio Chile já na década de 80, na Argentina e noutros países. A possibilidade de que as instituições democráticas canalizem as transições, de evitarem rupturas que levem a um estado de guerra civil.
Porque acha que o PCP evitou essas rupturas. Equilíbrio de forças?
Não creio que tenha a ver com isso. Tem a ver com a estratégia do partido que não tem como objectivo a revolução socialista. Tem como estratégia que Portugal fosse uma democracia no quadro da divisão do Mundo pactuada em Ialta e Potsdam, no final da II Guerra Mundial. Portugal estaria na esfera da Aliança Atlântica. Por isso, o PCP não defende a saída de Portugal da NATO.
Mas agora defende.
Mas também defendia no Rumo à Vitória e em 1976, mas em 74 e 75 é contra a saída da NATO, é aliás contra a manifestação que pede a saída de Portugal da Nato dizendo que tem de haver equilíbrio de forças com sectores democráticos e com partidos burgueses.
Acusa-a de fazer do PCP um cordeirinho pascal.
Eu não sei o que é um cordeirinho pascal, isso não é um termo histórico.
O PCP é parte da construção da democracia e não uma ameaça à democracia. É parte do regime e dentro do regime disputa os trabalhadores organizados e melhores condições para os trabalhadores e fê-lo em 1974 e 1975, não questionando o regime, não questionando o sistema político. Estou plenamente convencida disso e quem ler o livro rapidamente chega a essa conclusão.
Nalguns meios do PCP não se convive bem com essa tese. Há quem fale mesmo na questão dos equilíbrios de força, entre o desejo do PCP de querer uma revolução socialista mas evitar o banho de sangue.
O PCP considera que não havia um equilíbrio de forças favorável a uma vitória da esquerda num eventual confronto civil armado. É também a teoria de Álvaro Cunhal na altura.
E se tivesse a certeza teria avançado?
Não sei, isso é uma especulação histórica.
Alguns sectores do PCP não se sentem particularmente lisonjeados com a ideia de que não teriam avançado se tivessem outras hipóteses.
Tem de perguntar isso aos comunistas. Tenho tido um diálogo muito fraterno com várias pessoas do PCP sobre a minha tese, no sentido que de havendo concordâncias e discordâncias elas são feitas com base em argumentos. Acho que o PCP convive bem com a tese pois é a prova de que o PCP é parte da construção do regime democrático e não uma ameaça ao regime democrático, poderá eventualmente conviver mal pois o partido quis ficar, como diz o ditado francês, com a manteiga e com o dinheiro da manteiga. Não é possível historicamente em 1975 ter estado dos dois lados. Quem esteve do lado do 25 de Novembro ou impediu os trabalhadores de tomarem o papel ou pelo menos de disputarem a hegemonia em 1975 é parte da construção da democracia, mas não é parte da construção do socialismo. O PCP fez um acordo com o Grupo dos Nove no dia 25 de Novembro alegando que a revolução continuava. Em 1976 Cunhal diz que a revolução continua e só em 1999 escreve que o 25 de Novembro foi o fim da revolução. Em 1976 nem sequer considera o 25 de Novembro um golpe, considera sublevações militares que permitiram ao PCP reagrupar-se novamente com o Grupo dos Nove e isolar a Esquerda Militar. É o que o PCP escreve em Novembro e Dezembro de 1975. É talvez das coisas mais interessantes do livro.
Álvaro Cunhal vai ao Campo Pequeno no dia 7 de Dezembro de 1975 dizer que o 25 de Novembro até foi uma contribuição para isolar a esquerda militar e voltar a pôr o PCP em contacto com o Grupo dos Nove e com sectores com que o PCP tinha estado desavindo. O PS sim parece conviver muito mal com esta tese, que defendia o socialismo e teve de fazer uma aliança com todos os sectores mais à direita da sociedade e dar um golpe que põe fim à revolução. Convive muito mal com essa tese e JMF é a expressão disso, como o são os autores liberais.
JMF contesta essa sua tese de que o PS se aliou aos sectores mais reaccionários da sociedade.
Quem de facto convive mal com essa tese são os sectores mais liberais e ideológicos, no sentido em que convivem mal com a verdade histórica. Pois esta tese vai ao arrepio de uma mentira mil vezes repetida de que o PS teve de abandonar a luta pelo socialismo por o PCP ameaçar fazer de Portugal um satélite soviético. O que é ao arrepio de toda a documentação nacional e estrangeira. A CIA, pode ler isso no livro do Tiago Moreira de Sá, estava convencida de que o PCP não queria mudar o poder. A URSS estava convencida de que o PCP não queria tomar o poder. Só o PS tem essa teoria.
Mas há uma narrativa que diz que o PCP queria tomar o poder e entregar as colónias à URSS.
Mas essa é uma teoria jornalística. Não é uma teoria histórica, deixe-me dizer-lhe com todo o respeito que tenho pelos jornalistas. Aliás o clube dos jornalistas publicou a minha entrevista e diz que «teoria de historiadora refuta teoria de jornalistas». É um censo comum construído junto de órgãos de comunicação social mas não corresponde aos trabalhos históricos nem sequer dos historiadores que não são marxistas. Se for ver livros de outros historiadores que escreveram sobre a revolução, verá que as conclusões não são muito diferentes das minhas.
Mas de quem por exemplo?
Por exemplo, da Maria Inácia Rezola ou Maria Manuela Cruzeiro.
Mas Maria Manuela Cruzeiro talvez tenha uma linha ideológica mais de esquerda
Eu não sei o que é uma linha ideológica de esquerda.
Não? Não há diferenças?
Quando falamos de política falamos de linhas ideológicas. Na historiografia, não. Falamos de sustentação teórica. Que pode ir de encontro ao marxismo ou de uma série de outras vertentes.
Quando me fala de um historiador marxista está-me a falar de um modo de análise ou das convicções pessoais sobre o tema?
Estou a falar de um método de análise da realidade. Olho muito mais para o 11 de Março como resultado do aumento das ocupações de terra e de fábricas e de casas pelas comissões de trabalhadores e de moradores do que como um golpe e contra-golpe que se resolve ao nível das instituições. O marxismo olha para os processos revolucionários como processos em que existe crise de estado e a entrada das massas na cena histórica e há uma tensão permanente e um conflito de que a história é um resultado. E não como sucessão de decretos, governos ou instituições. Depois há o papel das crises económicas. O papel da crise económica na nossa revolução é indiscutível se for ler os textos de dois autores completamente distintos do ponto de vista ideológico, Silva Lopes, que foi ministro das Finanças, próximo do PS, e de Eugénio Rosa, hoje economista da CGTP. A crise de 1973 impõe um aumento brutal do desemprego que inclui abandonos de fábricas ao qual os trabalhadores respondem ocupando-as. Essa ocupação leva ao desenvolvimento da consciência de classe e ao enfrentamento político. Silva Lopes diz que as nacionalizações são feitas para dar enquadramento institucional a uma situação criada pelos trabalhadores.
Como avançou para este tema?
Estou muito ligada aos estudos da Europa do Sul. E havia histórias dos partidos comunistas nos processos de fim de regime em todo o lado menos em Portugal. E nós continuávamos a ser confrontados nos jornais e em todo o lado com mentiras mil vezes repetidas sem que alguém alguma vez tivesse feito aquele trabalho pesado de estar anos PCP está feito para o período de 1974/75. Agora estou mais voltada para a história do movimento operário.
O PCP nesse fluxo acaba por ser uma vanguarda ou por receber o fluxo das massas?
Normalmente está atrás das políticas dessas massas. Nos primeiros dois meses da revolução o PCP não apoiou uma única greve, ao ponto de ter feito uma manifestação contra as greves no dia 1 de Junho de 1974, no parque Eduardo VII, com a Intersindical. Uma manifestação reclamada na primeira página do Avante, e o Avante não é um documento interno do « Não à Greve pela Greve». No dia 28 de Maio publicam um texto onde dizem que as greves são reaccionárias («fazem o jogo da reacção»), que são esquerdistas, que são provocatórias, que tem de se apoiar o Governo Provisório.
Por estar no Governo?
Por estar no Governo e por ter uma política de conciliação, que visa evitar a radicalização das massas mas ao mesmo tempo conseguir conquistas sociais. E esse equilíbrio é o dos 19 meses da política do PCP entre 1974 e 1975.
Teve muitas surpresas com esta tese?
Ia convencida, por vivermos no meio de uma intelectualidade que veio muito dos partidos maoístas, de que os partidos de extrema-esquerda no movimento estudantil eram um problema para o PCP. Agora estou convencida de que o PCP tinha muito pouca preocupação com o que se passava nas universidades. Se a extrema-esquerda dirigia uma fábrica como a Lisnave isso era problema para o PCP, que apontava para aí toda a energia.
E porquê esse desinteresse pelos estudantes?
Creio que Cunhal achava que o movimento estudantil era policlassista e que não seria a partir daí que se construiria o partido mas sim a partir do movimento sindical organizado e a partir da construção de uma central sindical única, a Intersindical, dirigida pelo PCP, e uma fonte constante de financiamento e de quadros para o partido. Nesse quadro, o movimento estudantil era absolutamente secundário. O PCP não «acordava de manhã» a pensar no que os maoístas iam fazer no Técnico, na faculdade de Letras ou em Direito. Mas «ficava acordado a noite inteira» para saber o que se passava na Lisnave.
O trabalho da direcção do PCP assenta num colectivo ou Cunhal destacava-se?
Há um trabalho colectivo forte. O comité central do PCP é de grande coesão interna, onde a maioria é funcionários do partido há 10, 20 anos ou mais. Todos juntos os seus membros estiveram 308 anos presos. Extremamente centralizado, monolítico. O partido não é monolítico de maneira nenhuma. A imagem contrária é uma imagem errada. O PCP faz aprovar documentos onde impede a criação de novas células por dizer que não tem controlo sobre os militantes. O comité central vem do Estado Novo, entra no processo revolucionário, o Partidp cresce de 2 mil para cem mil militantes e não muda a direcção.
Como cresce tanto o PCP?
Julgo que se deve ao facto de ser o único partido organizado quando se dá o processo revolucionário, está em melhores condições para no imediato dirigir a revolução. Tinham quadros e experiência. E tinha o prestígio de ser o único, dos que sobreviveram, que sempre resistiu ao fascismo, pagando por isso um preço elevadíssimo. Nos dias a seguir à revolução há uma série de câmaras municipais cujos dirigentes pró-Estado Novo são expulsos e substituídos pelos do PCP e do MDP-CDE. O PS em 1973 «cabia num táxi». Mário Soares vai a Bona no dia 2 de Maio pedir dinheiro para formar o partido pois acredita que se houver eleições imediatamente o PCP ganha. Até 1974 o PCP não era um partido de massas, era um partido de vanguarda com influência de massas. Os 2000 militantes do PCP são referidos por vários autores e Cunhal escreveu que o partido nunca mais teve tantos militantes como a seguir à II guerra, quando terá atingido os cinco mil.
O PCP é visto como tendo papel no Cerco da Constituinte (Helena Matos)?
O PCP publica um comunicado no dia 13 onde apoia a manifestação mas diz que é contra o cerco.
Mas essa não é a imagem que prevalece?
A imagem publicada é uma imagem errada, distorcida, não corresponde à realidade histórica. Os historiadores não têm de estar a fazer história em função daquilo que se escreve nos jornais. Não podem estar dependentes do que o senso comum cria porque a ciência é a antítese do senso comum. Por isso é que o historiador demora anos a fazer um trabalho, que obriga a uma pesquisa muito cuidada no tratamento das fontes, e de muitas fontes, que não é o mesmo que escrever um artigo ou uma crónica de opinião com um prazo muito curto.
Esta entrevista foi realizada em Maio de 2011 pela revista Sábado e nunca foi publicada.

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA