quinta-feira, 29 de maio de 2014

Europeias Só dois milhões de eleitores votaram em PS, PSD e CDS

Os partidos que assinaram o memorando de entendimento em a troika só atraíram cerca de 20% da população portuguesa, num total de pouco mais de dois milhões de eleitores, tendo em conta os valores da abstenção, indica o jornal i desta quinta-feira.
POLÍTICA
Só dois milhões de eleitores votaram em PS, PSD e CDS
DR
Portugal tem, de acordo com os últimos Censos, 10,5 milhões de habitantes. Destes, mais de nove milhões constam nos cadernos eleitorais. Mas só cerca de dois milhões de portugueses é que votaram nos partidos com maior representatividade nas eleições europeias.
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Ao todo, a coligação PSD/CDS e o PS tiveram o voto de pouco mais de 20% da população (9,4% para a coligação e 10,7% para o Partido Socialista).
As contas foram feitas pelo jornal i, tendo em conta a grande percentagem de portugueses que não votou em nenhum partido, quer optando pela abstenção (66%), quer pelos votos brancos ou nulos (8%).
Em suma, 6,6 milhões de portugueses não manifestaram preferência por nenhum partido. A restante fatia contribuiu para a representatividade dos restantes partidos, com destaque para o MPT, de Marinho Pinto, que conseguiu dois lugares no Parlamento Europeu.
Esta foi, de resto, a grande surpresa destas eleições, marcadas ainda por uma desatualização dos cadernos eleitorais, que incluem nomes de eleitores que já morreram ou emigraram, aumentando assim a abstenção.
in Notícias ao Minuto

quarta-feira, 28 de maio de 2014

David Harvey e o livro de sucesso de Piketty

Harvey: Reflexões sobre “O capital”, de Thomas Piketty

harveypikPor David Harvey.*
Thomas Piketty escreveu um livro chamado Capital no século XXI que causou uma tremenda comoção. Ele defende a taxação progressiva e a tributação da riqueza global como único caminho para deter a tendência à criação de uma forma “patrimonial” de capitalismo, marcada pelo que chama de uma desigualdade “apavorante” de riqueza e renda. Também documenta com detalhes excruciantes, e difíceis de rebater, como a desigualdade social de ambos, riqueza e renda, evoluíram nos últimos dois séculos, com ênfase particular no papel da riqueza. Ele aniquila a visão, amplamente aceita, de que o capitalismo de livre mercado distribui riqueza e é o grande baluarte para a defesa das liberdades individuais. Piketty demonstra que o capitalismo de livre mercado, na ausência de uma grande intervenção redistributiva por parte do Estado, produz oligarquias antidemocráticas. Essa demonstração deu base à indignação liberal e levou o Wall Street Journal à apoplexia.
O livro tem sido frequentemente apresentado como substituto para o século 21 do trabalho do século 19 de Marx, que leva o mesmo título. Piketty nega que fosse essa sua intenção, na verdade – o que parece certo, uma vez que seu livro não é, de modo algum, sobre o capital. Ele não nos conta por que razão ocorreu a catástrofe de 2008, e por que está demorando tanto para tanta gente se levantar, sob o fardo do desemprego prolongado e da execução da hipoteca de milhões de casas. Ele não nos ajuda a entender por que o crescimento é tão medíocre hoje nos EUA, em oposição à China, e por que a Europa está travada sob uma política de austeridade e uma economia de estagnação.
O que Piketty mostra estatisticamente (e estamos em dívida com ele e seus colegas por isso) é que o capital tendeu, através da história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Isso, para muitos de nós, é má notícia. Além disso, é exatamente a conclusão teórica de Marx, no primeiro volume de sua versão do Capital. Piketty fracassa em observar isso, o que não é surpresa, já que sempre clamou, diante das acusações da mídia de direita de que é um marxista disfarçado, que não leu O capital de Marx.
Piketty reúne uma grande quantidade de dados para sustentar sua argumentação. Sua descrição das diferenças entre renda e riqueza é persuasiva e útil. E faz uma defesa cuidadosa da tributação sobre herança, do imposto progressivo e de um imposto sobre a riqueza global como possíveis (embora quase certamente não politicamente viável) antídotos contra o avanço da concentração de riqueza e poder.
Mas, por que razão ocorre essa tendência ao crescimento da desigualdade? A partir de seus dados (temperados com ótimas alusões literárias a Jane Austen e Balzac), ele deriva uma lei matemática para explicar o que acontece: o contínuo aumento da acumulação de riqueza por parte do famoso 1% (termo popularizado graças, claro, ao movimento Occupy) é devido ao simples fato de que a taxa de retorno sobre o capital (r) sempre excede a taxa de crescimento da renda (g). Isso, diz Piketty, é e sempre foi “a contradição central” do capital.
Mas esse tipo de regularidade estatística dificilmente alicerça uma explicação adequada, quanto mais uma lei. Então, que forças produzem e sustentam tal contradição? Piketty não diz. A lei é a lei e isso é tudo. Marx obviamente teria atribuído a existência de tal lei ao desequilíbrio de poder entre capital e trabalho. E essa explicação ainda está valendo. A queda constante da participação do trabalho na renda nacional, desde os anos 1970, é decorrente do declínio do poder político e econômico, à medida que o capital mobilizava tecnologia, desemprego, deslocalização de empresas e políticas antitrabalho (como as de Margaret Thatcher e Ronald Reagan) para destruir qualquer oposição.
Como Alan Budd, um conselheiro econômico de Margaret Thatcher, confessou num momento em que baixou a guarda: as políticas anti-inflação dos anos 1980 mostraram-se “uma maneira muito boa de aumentar o desemprego, e aumentar o desemprego era um modo extremamente desejável de reduzir a força das classes trabalhadoras… o que foi construído, em termos marxistas, como uma crise do capitalismo que recriava um exército de mão de obra de reserva, possibilitou que os capitalistas lucrassem mais do que nunca.” A disparidade entre a remuneração média dos trabalhadores e dos executivos-chefes era cerca de trinta para um em 1970. Hoje está bem acima de trezentos para um e, no caso do MacDonalds, cerca de 1200 para um.
Mas no segundo volume de O capital de Marx (que Piketty também não leu, como alegremente declara) Marx apontou que a tendência do capital de rebaixar os salários iria, em algum momento, restringir a capacidade do mercado de absorver os produtos do capital. Henry Ford reconheceu esse dilema há muito tempo, quando determinou o salário de cinco dólares para o dia de oito horas dos trabalhadores – para aumentar a demanda dos consumidores, disse.
Muitos pensavam que a falta de demanda efetiva estava na base da Grande Depressão da década de 1930. Isso inspirou políticas expansionistas keynesianas depois da Segunda Guerra Mundial e resultou em alguma redução das desigualdades de renda (nem tanto da riqueza), em meio a uma forte demanda que levou ao crescimento. Mas essa solução apoiava-se no relativo empoderamento do trabalho e na construção do “estado social” (termo de Piketty) financiado pela taxação progressiva. “Tudo dito”, escreve ele, “durante o período de 1932-1980, durante cerca de meio século, o imposto de renda federal mais alto, nos EUA, era em média 81%.” E isso de modo algum prejudicou o crescimento (outra parte das evidências de Piketty, que rebate os argumentos da direita).
Ali pelo final dos anos 1960, ficou claro para vários capitalistas que eles precisavam fazer alguma coisa a respeito do excessivo poder do trabalho. Por isso, Keynes foi excluído do panteão dos economistas respeitáveis, o pensamento de Milton Friedman deslocou-se para o lado da oferta, e teve início uma cruzada para estabilizar, se não para reduzir a tributação, desconstruir o Estado social e disciplinar as forças do trabalho. Depois de 1980, houve uma queda nas taxas mais altas de imposto e os ganhos do capital – uma grande fonte de renda dos ultra ricos – passaram a ser tributados por taxas muito menores nos EUA, aumentando enormemente o fluxo de capital do 1% do topo da pirâmide.
Contudo, o impacto no crescimento era desprezível, mostra Piketty. Tal “efeito cascata” de benefícios dos ricos ao restante da população (outra crença favorita da direita) não funcionou. Nada disso era ditado por leis matemáticas. Tudo era política. Mas então a roda deu uma volta completa, e a pergunta mais importante tornou-se: e cadê a demanda?
Piketty ignora essa questão. Os anos 1990 encobriram essa resposta com vasta expansão do crédito, inclusive estendendo o financiamento hipotecário aos mercados sub-prime. Mas o resultado foi uma bolha de ativos fadada a estourar, como aconteceu em 2007-2008, levando consigo o banco de investimento Lehman Brothers, juntamente com o sistema de crédito. Entretanto, enquanto tudo e todos se davam mal, depois de 2009 as taxas de lucro, e a consequente concentração de riqueza privada, recuperaram-se muito rapidamente. As taxas de lucro das empresas estão agora tão altas quanto sempre estiveram nos EUA. As empresas estão sentadas sobre grande quantidade de dinheiro e recusam-se a gastá-lo, porque as condições do mercado não estão robustas. A formulação da lei matemática de Piketty camufla, mais do que revela a respeito da classe política envolvida. Como notou Warren Buffett, “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está lutando, e estamos vencendo.” Uma medida-chave de sua vitória são as crescentes disparidades da riqueza e renda do 1% do topo em relação a todo o resto da população.
Há, contudo, uma dificuldade central no argumento de Piketty. Ele repousa sobre uma definição equivocada de capital. Capital é um processo, não uma coisa. É um processo de circulação no qual o dinheiro é usado para fazer mais dinheiro, frequentemente – mas não exclusivamente – por meio da exploração da força de trabalho. Piketty define capital como o estoque de todos os ativos em mãos de particulares, empresas e governos que podem ser negociados no mercado – não importa se estão sendo usados ou não. Isso inclui terra, imóveis e direito de propriedade intelectual, assim como coleção de arte e de joias. Como determinar o valor de todas essas coisas é um problema técnico difícil, sem solução consensual. Para calcular uma taxa de retorno, r, significativa, temos de ter uma forma de avaliar o capital inicial. Não há como avaliá-lo independentemente do valor dos bens e serviços usados para produzi-lo, ou por quanto ele pode ser vendido no mercado.
Todo o pensamento econômico neoclássico (base do pensamento de Piketty) está fundado numa tautologia. A taxa de retorno do capital depende essencialmente da taxa de crescimento, porque o capital é avaliado pelo modo como produz, e não pelo que ocorreu em sua produção. Seu valor é fortemente influenciado por condições especulativas, e pode ser seriamente distorcido pela famosa “exuberância irracional” que Greenspan apontou como característica dos mercados imobiliário e de ações. Se subtrairmos habitação e imóveis – para não falar do valor das coleções de arte dos financiadores de hedge – a partir da definição de capital (e as razões para sua inclusão são bastante débeis), então a explicação de Piketty para o aumento das disparidades de riqueza e renda desabariam, embora sua descrição do estado das desigualdades passadas e presentes ainda ficassem em pé.
Dinheiro, terra, imóveis, fábricas e equipamentos que não estão sendo usados produtivamente não são capital. Se é alta a taxa de retorno sobre o capital que está sendo usado, é porque uma parte do capital foi retirado de circulação. Restringir a oferta de capital para novos investimentos (fenômeno que estamos testemunhando agora) garante uma alta taxa de retorno sobre o capital que está em circulação. A criação dessa escassez artificial não é só o que fazem as companhias de petróleo, para garantir a sua elevada taxa de lucro: é o que todo o capital faz quando tem oportunidade. É o que sustenta a tendência de a taxa de retorno sobre o capital (não importa como é definido e medido) exceder sempre a taxa de crescimento da renda. Esta é a forma como o capital garante sua própria reprodução, não importa quão desconfortáveis sejam as consequências para o resto de nós. E é assim que a classe capitalista vive.
Há muitas outras coisas valiosas nos dados coletados por Piketty. Mas, sua explicação de porque as tendências à desigualdade e à oligarquia surgem está seriamente comprometida. Suas propostas de solução para a desigualdade são ingênuas, se não utópicas. E ele certamente não produziu um modelo de trabalho para o capital do século 21. Para isso, ainda precisamos de Marx ou de seus equivalentes para os dias atuais.
Publicado em inglês em DavidHarvey.org, em maio de 2013.
A tradução é de Inês Castilho, para o Outras Palavras.

terça-feira, 27 de maio de 2014

ERNST BLOCH - A UTOPIA

PRINCÍPIO ESPERANÇA E A “HERANCA INTACTA DO
MARXISMO” EM ERNST BLOCH


Antonio Rufino Vieira
Professor associado no Departamento de Filosofia
da Universidade Federal da Paraiba
Participante dos GP/CNPq Filosofia da Praxis e Etica e Cidadania.

A utopia faz parte da estrutura histórica do homem: é esta a
mensagem da obra O Princípio Esperança do filósofo marxista alemão
Ernst Bloch (1885-1977), cujos 3 volumes acabam de ser traduzidos para
o português1. Bloch busca demonstrar que o espírito utópico, embora
pareça estar divorciado da realidade presente, vislumbra que o “aqui e
agora” é preocupante; isto é, a utopia deixa margem a uma real crítica do
presente (PE I, 16-20). Ernst Bloch é um pensador da utopia2, como diz
Laënnec Hurbon em seu ensaio sobre Bloch3, sendo considerado como
um dos críticos mais corrosivo da cultura ocidental-cristã.
Nesse sentido, por ser um pensamento essencialmente crítico, a
obra de Bloch permite estabelecer um real diálogo com a Filosofia latinoamericana
sob a ótica ligada à problemática do homem situado; isto é, às
questões político-econômico-tecnológicas. Assim, parece ser possível ler
a obra de Bloch a partir de uma ética material de vida, tal como é
desenvolvida por Enrique Dussel em sua Ética e libertação, “ética crítica
a partir das vítimas (pois) são as vítimas, quando irrompem na história,
que criam o novo”4. Eis aqui o campo fecundo da utopia. Encontrarmos
1 E. BLOCH. O Princípio Esperança. Vol. I (Tradução de Nélio Schneider), Vol II
(Tradução e notas de Werner Fuschs) e Vol. III (Tradução e notas de Nélio Schneider).
Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. UERJ, 2005 - 2006 (O Princípio Esperança foi escrito
durante o exílio no Estados Unidos, no período de 1938 à 1947, sendo revisto em 1953 e
1959, com publicação definitiva em 1959 pela Ed. Suhrkamp Velag de Frankfurt an
Main). Abreviaremos por PE, I; PE, II; PE, III, seguindo-se a respectiva página.
2 Em uma conferência proferida na Universidade de Tübingen, em 1967, dirigindo-se a
estudantes alemães desejosos de se iniciarem nos conceitos elementares de sua filosofia
da utopia, Bloch condensou ao máximo suas teses expressas nos três tomos de O
Princípio Esperança em uma linguagem simples e compreensível para todos: “o lugar, o
topos da utopia e a significação da utopia em geral” (apud A. MUNSTER. Figures de
l’utopie dans la pensée d’Ernst Bloch. Paris: Aubier, 1985, p. 45).
3 L. HURBON. Ernst Bloch, utopie et espérance. Paris: Cerf: 1974 p. 11.
4 E. DUSSEL. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis:
Vozes, 2000, p. 501.
em Bloch, portanto, uma reflexão aberta à realidade latino-americana,
permitindo que, como interlocutor, possamos nos situar quanto à prática
utópica dos que lutam por mudanças qualitativas da sociedade. É preciso,
portanto, que analisemos detalhadamente o conceito de esperança
concreta, pois assim podemos deixar de lado concepções idealistas, onde
o futuro é aguardado sem que o presente seja levado em consideração. A
esperança concreta tem suas raízes antropológicas nas insuficiências
humanas, por exemplo, na fome e no sonho. A fome, como pulsão básica
mais confiável que vida a autopreservação, pode levar à construção
(ideal) de uma sociedade onde a abundância e o bem-estar sejam
constantes para todos os homens (PE, I, 68-70); o sonho, por sua vez,
quando é sonho diurno, de-olhos-abertos, permite ao homem lançar-se
para o futuro, buscando o não existente, mas que poderá existir,
dependendo de seu engajamento para que se torne real (PE, I, 88-114).
O Princípio Esperança é um desafio para a necessidade de uma
recuperação do sentido positivo da utopia, passando desde as denúncias
dos utopistas do Renascimento até a prática político-social dos socialistas
utópicos (ver, especificamente no vol. II do PE, o cap. 36, “Liberdade e
ordem, esboço das utopias sociais”). Segundo a linha de reflexão de
Bloch, a utopia não é algo fantasioso, simples produto da imaginação,
mas possui uma base real, com funções abertas à reestruturação da
sociedade, obrigando a militância do sujeito, engajado em mudanças
concretas, visando à nova sociedade. Assim, a utopia se torna viável à
medida que possui o explícito desejo de ser realizada coletivamente.
Bloch defende que, embora as utopias estejam presentes na vida do
homem em todos os momentos, ela só se realiza plenamente no
marxismo; ali encontramos a base real para serem eliminados os
elementos puramente abstratos da utopia, sendo a única utopia capaz
de superar as profundas contradições do sistema capitalista. É, por isso
que, ao analisar a relação entre marxismo e antecipação concreta, Bloch
afirma que “engajar-se no pensamento do que é justo é uma
determinação que precisa persistir mais do que nunca” (PE, II, 174).
Todavia, são imprescindíveis que existam condições materiais para
a concretização do socialismo como utopia, superando, assim, as atitudes
abstratas por atitudes concreto-revolucionárias. Daí ser necessária uma
análise das possibilidades concretas de realização da revolução
socialista, a qual obriga, pelas funções de consciência antecipante, a um
otimismo militante para a construção do ainda-não-consciente (ver em
PE, I, 115-176, a discussão sobre “a descoberta do ainda-não-consciente”
e a análise sobre “a função utópica”). Bloch demontra que a realização do
ainda-não-consciente só ocorrerá na própria realidade a ser
transformada. Aqui se insere a bem fundamentada análise que Bloch faz
das teses de Marx sobre Feuerbach (PE, I, cap. 19 – “A transformação do
mundo ou as Onze Teses de Marx sobre Feuerbach”, p. 246-282.), onde
destaca, principalmente, a grande relevância dessas Teses para a
compreensão filosófica da práxis revolucionária, pois “a humanidade
2
2
socializada, aliada a uma natureza mediada por ela, significa a
reconstrução do mundo como pátria ou lar” (PE, I, 282) . A interpretação
de Bloch às teses sobre Feuerbach resgata uma tradição marxiana, qual
seja, a questão do humanismo. Daí a necessidade de se compreender o
para quê dessa práxis, que nos leva ao humanismo marxista: somente no
marxismo se visualisam as condições materiais objetivas para a
realização da utopia como humanismo concreto, questão que coroa a
análise blochiana de esperança (PE, III, cap. 55 – “Karl Marx e o espírito
humanitário”).
Bloch tem a coragem de reconhecer a necessidade de se repensar
o marxismo em pontos centrais. Segundo ele, a marcha para a
humanização, para o da Liberdade, exige uma libertação das classes
trabalhadoras, eliminando-se qualquer resquício de alienação. E Bloch é
contundente ao relacionar marxismo e humanismo:
O conceito de valor “humanidade” ainda é perfeitamente mantido por
Marx. (...) A expressão ‘humanismo real’, com que inicia o prefácio de A
sagrada família, é abandonado na Ideologia alemã, em conexão com a
rejeição do último resto da democracia burguesa, com a obtenção do
ponto de vista proletário revolucionário, com a criação do materialismo
histórico dialético. (...) Quanto mais científico o socialismo, tanto mais
concreta é justamente a sua preocupação com o homem como centro, e a
anulação real de sua auto-alienação como alvo (PE, I, 260-261).
Nesta citação encontra-se um dos exemplos comprovadores da
diferença entre a interpretação blochiana e a dos marxistas ortodoxos,
que buscam uma cientificidade, negando, muitas vezes, a validade de
serem levantadas questões sobre o homem e sobre a sociedade socialistahumanista,
prevista por Marx.
O prefácio de O Princípio Esperança (PE, I, 13-28) é verdadeira
síntese do pensamento de Bloch relativamente às questões da utopia e
esperança; ali está presente sua preocupação quanto ao problema de
saber qual o tipo de esperança que o marxismo inspira: de um lado, é
uma leitura científico-dialética da totalidade capitalista; de outro, vai
muito além, apontando para um futuro possível, sem com isso, reduzir-se
a uma visão idealista, numa mera contemplação da realidade existente. O
marxismo, segundo Bloch, é uma teoria que se orienta para a maior
realização humana, ou seja, a transformação qualitativa da sociedade,
vencendo as barreiras da opressão e da alienação.
Algumas condições básicas são necessárias para que essa
esperança não seja mais um termo jogado, ideologicamente, à classe
trabalhadora, visando mantê-la ainda mais dominada pelo capitalismo. A
utilização de um princípio abstrato, qual nova religião, afastaria as
classes trabalhadoras das lutas concretas por uma nova sociedade.
Evitando um tal tipo de interpretação, Bloch afirma que a esperança
concreta só é realizada com a participação da classe trabalhadora,
humanizando a própria sociedade. Já antecipando O Princípio Esperança,
3
3
Bloch escreve no Espírito da Utopia (1918, obra revista em 1923), que “é
penetrando no fenômeno da esperança do futuro que o mundo, no focus
imaginarius, na parte mais escondida e inteligível de nossa subjetividade,
faz sua aparição”5. O privilégio à imaginação, ao subjetivo, o apelo à
vontade do homem pela esperança, possibilia que teses desse nível
possam ser criticadas por um excesso de romantismo e idealismo. A
própria renovação, porém, atuando no marxismo, levanta temas como
subjetividade e futuro, apresentados de uma forma radical.
A nossa época é a primeira a possuir os pressupostos socioeconômicos
para uma teoria do ainda-não-consciente e do que está relacioado a ele no
que-ainda-não veio-a-ser do mundo. O marxismo sobretudo foi o pioneiro
em proporcionar ao mundo um conceito de saber que não tem mais como
referência essencial aquilo que foi ou existiu, mas a tendência do que é
ascendente. Ele introduz o futuro na nossa abordagem teórica e prática
da realidade (PE, I, 141).
Nessa mesma perspectiva, Bloch observa que “Marx investiu mais
de nove décimos de seus escritos na análise crítica do agora, abrindo
relativamente pouco espaço para adjetivações do futuro” (PE, II, 175).
Todavia, ressalta:
Faltam conscientemente as adjetivações propriamente ditas do futuro (...),
e faltam conscientemente pela exata razão de que toda a obra de Marx
serve ao futuro, sim, porque na realidade só pode ser compreendida e
concretizada no horizonte do futuro, mas não como futuro pintado em
cores abstrato-utópicas. Pelo contrário, como futuro que é iluminado de
forma materialista-histórica sob e a partir do passado e da atualidade,
portanto, das tendências atuantes e persistentes, a fim de ser dessa
maneira um futuro conscientemente moldável (PE, II, 175-176).
Críticos já haviam encontrado o caráter utópico do marxismo,
identificando-o como um utopismo abstrato, negativo. Bloch, em sua
tarefa revalorizadora da utopia, atribui, também, tal conceituação ao
marxismo; todavia, numa atitude positiva, pois o fundamental é o futuro,
um futuro que não se realiza por fatalidade, num historicismo vulgar, mas
por uma necessidade histórico-concreta. De um lado, a esperança não é
uma espera passiva, mas se dá através de uma construção, onde o
passado e o presente contribuem para o surgimento do novo; de outro,
exige a participação de todos os homens, engajados no processo
revolucionário. Na texto Direito natural e dignidade humana, de 1960,
Bloch precisa que o marxismo
descobre no ser social do próprio proletariado o processo do qual é
preciso tornar consciente a dialética real para chegar à teoria da prática
revolucionária e, pois, à práxis do ideal revolucionário. O ideal é aqui
5 E. BLOCH. L’esprit de l’utopie. Paris: Gallimard, 1977 (version de 1923, revue et
modifiée), p. 216.
4
4
posto pela tendência, não pela abstração de uma teoria, e retificada pela
práxis da tendência, a níveis mais e mais profundos da realidade.6
Bloch só admite a revolução criada pela imaginação, quando for
posta em prática, retificada, por sua vez, pela práxis (embora o ideal
revolucionário permaneça nesse processo). Quem anima a revolução é a
esperança que o homem tem de um mundo melhor.7 Permanece, assim, o
próprio princípio da necessidade utópica de mudança: a esperança de um
futuro melhor, a nova sociedade. Bloch, ao mencionar o projeto de
esperança, o Novum, guiado pelos princípios fundamentais do marxismo,
apresenta o socialismo, como realização total da Nova Sociedade. Ele
indica limites no pensamento marxiano, quanto à ideais que, embora não
realizados, clamam por realização. A práxis transformadora exige, por
seu turno, uma inspiração obtida, sem dúvida, nesses ideais que, apesar
de não realizados, mantém seu grau de apelo, atraindo principalmente os
ofendidos e oprimidos em busca de justiça, liberdade, solidariedade.
Neste aspecto, a “herança tricolor: liberdade, igualdade e fraternidade” é
mais uma norma do que propriamente um fato histórico, embora se faça
presente aqui e ali, onde haja o processo revolucionário8.
Uma nova questão se impõe, quando se investiga como a esperança
concreta surge, se por um critério puramente subjetivo, ou se por
condições objetivas. A esperança, muito embora tenha um princípio
subjetivo, é fundada na práxis histórica, pois as condições sociais
apontam em direção ao futuro que, imaginando, se torna real a partir da
análise do presente e do passado. Partindo-se, portanto, da idéia de que a
esperança concreta não se esgota em uma realização particular, mas
estimula constantemente a ação do homem que constrói o futuro,
entende-se o porquê do predomínio do espírito utópico sobre o factual.
Não se pode, entretanto, permanecer apenas no aspecto da imaginação,
exigindo-se a sua realização, corrigida, posteriormente, por novas
realizações. Isso indica que a esperança concreta não realizada deixa um
vazio no homem. A esperança aparece nas mínimas atitudes humanas
(mesmo naquelas em que o sujeito, conscientemente, não aceita
mudança): na busca da alimentação, do vestuário, da habitação, do
direito ao trabalho, buscando-se atingir uma sociedade verdadeiramente
humana (questão central da ética material de vida).
A questão que hora se apresenta, um dos problemas fundamentais
do pensamento blochiano, é saber da possibilidade de compreender a
importância do aspecto subjetivo, no movimento objetivo da história. Se a
esperança é o princípio pelo qual o homem supera subjetivamente o
real, ultrapassando-o no momento que permite a tensão para o futuro,
isto não significa afirmá-la como princípio abstrato; embora seja um
6 E. BLOCH. Droit naturel et dignité humaine. Paris: Payot, 1976, p. 201-2.
7 Nesse sentido, Dussel, afirma, com razão, que “Bloch desenvolveu durante toda a vida
o momento crítico positivo do projeto de libertação” (E. DUSSEL, op. cit., p. 457 – grifo
nosso).
8 E. BLOCH. Droit naturel et dignité humaine, p. 158.
5
5
“vivido” subjetivo, o futuro deve ser construído objetivamente sobre
condições históricas. A questão se reveste de complexa dificuldade, pois
implica a relação dialética entre o sujeito e o objeto.9 No caso da
esperança, acrescenta-se um outro problema: compreender como um
estado subjetivo pode relacionar-se com o ainda não acontecido.
Uma das tarefas de Bloch consiste em explicitar o princípio
esperança como um instrumento objetivo para o homem construir um
futuro concreto. Se o futuro ainda-não-é-acontecido, como se esperar
pelo que não é, numa esperança correta? Se, como frisa Bloch, a
esperança por si só não é a garantia para o surgimento do novo, é porque
ela deve ser baseada em um processo transformador, o qual é
identificado como o otimismo militante. Donde se pode inferir que, se o
futuro não é algo que passivamente deve ser esperado, há um elemento
que intervém na esperança, orientando-a: a razão. Na fórmula blochiana:
“a razão não consegue florescer sem a esperança, a esperança não
consegue falar sem a razão; ambas associadas numa unidade marxista”
(PE, III, 453); indica assim, o papel ativo da esperança esperada. A
esperança pelo ainda não-ser implica num engajamento para sua real e
possível concretização, mediado, por conseguinte, por uma ativa e
racional esperança, a docta spes, a “esperança compreendida em
termos dialético-materialistas” (PE, I, 20).
Percebe-se, assim, que a esperança não é um princípio meramente
psicológico, mas uma fundamental determinação da realidade objetiva
em geral.10 Por que aspirar a mudança? Qual a origem desta aspiração?
Como ela se concretiza? Constantemente, existe a referência à esperança
concreta (numa clara oposição à crença cega, passiva) como algo
ontologicamente humano. Segundo Bloch, a esperança encontra-se no
limiar da insatisfação do homem perante a sua condição histórico-social.
É assim, por exemplo, que se pode afirmar, após analisar os limites
humanos, que é muito bom o homem ser imperfeito, diferenciar-se dos
animais por não ser acabado, pois só assim pode fazer algo11.
Esta contradição humana orienta o caminhar do homem: sentir-se
incompleto e, ao mesmo tempo, não saber para onde ir. A insatisfação
consigo mesmo faz com que a pessoa se oriente para o futuro, sem o qual
sua vivência se assemelharia à dos próprios animais. Como já observaram
Marx e Engels, os homens, diferentemente dos animais, produzem os
seus meios de existência, produzindo imediatamente a sua própria vida
material.12 A insuficiência orgânico-humana com que o ato de viver seja
um ato histórico, onde o ontem, o hoje e o amanhã não sejam apenas dias
que ocorrem sem sentido.
9 Veja-se o estudo de Bloch sobre Hegel (de 1949, com versão aumentada em 1962):
Sujet-objet : éclaircissements sur Hegel. Paris: Gallimard, 1977 (especialmente o Cap.
25 “Dialética e esperança”, p. 483 ss).
10 Sobre este tema, ver W. HUDSON. The marxist Philosophy of Ernst Bloch. London:
MacMillan Press , 1983.
11 E. BLOCH. Sujet-objet, p. 483.
12 cf. MARX e ENGELS. A Ideologia Alemã, I. Lisboa: Martins Fontes, p. 19.
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A esperança não é, para Bloch, conceito negativo que nasce do
sentimento da importância humana; ela se manifesta no próprio
movimento do sujeito para o ainda-não-consciente, o “que ainda-não-veioa-
ser”, confrontado com os antagonismos e contradições do presente.
Este confronto confere à esperança a concretude, pois o seu conteúdo só
pode ser encontrado , não em uma transcedência, onde os absurdos o
mundo são explicados, mas nas próprias contradições históricas da
humanidade. O Novum, assim, deixa de ser algo puramente esperado,
numa atitude cômoda de aguardar, mas é buscado com afinco, através do
esforço construtor, por algo que valha realmente a pena fazer: uma
morada digna do homem. É a esperança animando todo e qualquer
movimento social dos oprimidos, pois eles sabem que algo melhor é
possível. Como precisa Bloch, “o que é desejado utopicamente guia todos
os movimentos libertários” (PE, I, 18). A esperança é instrumento
objetivo, ajudando o homem a superar o medo das conseqüências de um
possível ato libertador, além de ajudá-lo a superar a atitude niilista de
negação do mundo.
Como vimos, segundo Bloch, a esperança é algo tipicamente
humano, pois permite que o homem transcenda o real ao superá-lo. Os
limites da esperança encontram-se na própria imperfeição humana.
Assim, aqueles sonhos escapistas tentam resolver uma questão
fundamental para o homem; encontrar uma sociedade onde não haja a
fome. Por outro lado, os sonhos diurnos permitem aspirar,
concretamente, por uma sociedade justa. A esperança, atuando sobre
uma realidade objetiva que virá, permite ao homem uma saída para o
futuro. Bloch deixa claro, porém, que essa saída não ocorrerá
gratuitamente, mas por um processo, onde estejam engajados todos os
militantes, entre eles os filósofos, para a construção do devir. Segundo
ele, os princípios da esperança abrem caminho para a compreensão
ontológica do ainda-não-consciente, permitindo verdadeiras
antecipações do futuro. Para Bloch, “o marxismo foi o único que
promoveu a teoria prática de um mundo melhor, não para esquecer o
mundo presente, como era comum na maioria das utopias sociais
abstratas, mas para transformá-lo em termos dialético-econômicos” (PE,
III, 456).
A análise dos princípios originários da esperança permite-nos
compreender que ela é constitutiva do ser humano, não como uma
espécie de essência abstrata, mas sim acontecendo na prática social
daqueles que buscam modificar o estado de coisa vigente. Assim, a
esperança concreta é fundada na realidade humana, sem, contudo, negar
as contradições que pertencem à própria condição histórica do homem.
Este é o conteúdo ético da utopia.
O marxismo de Bloch é melhor entendido como crítica à tradição
marxista ortodoxa, a qual, em nome da prática revolucionária, degrada,
num esquematismo pragmatista, a imaginação revolucionária; tal atitude
leva a degenerar o marxismo em um dogma, tomando-se o pensamento
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de Marx apenas pela metade ao privilegiar um naturalismo cientificista
das “leis da história”. Neste sentido, as mudanças são reduzidas apenas
às dimensões do economicismo. Essa posição acarreta, assim, uma
profunda desvalorização do próprio homem, à medida que ele é reduzido
a mero objeto determinado do processo histórico. Para corrigir esta
distorção da tradição do marxismo, Bloch pretende “reabilitar
radicalmente a utopia como uma categoria fundamental, política e
filosófica”.13 Ele visa, portanto, ao destacar a importância da imaginação
revolucionária, “encontrar a herança intacta” do marxismo14. Como
precisa Raulet, Bloch, ao encontrar o método que permite afirmar uma
“esperança materialista e dialética”, “constitui uma obra prima ao
colocar em vigor a racionalidade marxista” que “é a mais forte campanha
empreendida até os dias de hoje para ultrapassar a racionalidade
dominante”15. Não restam, dúvidas de que sem Bloch o marxismo
contemporâneo estaria bem pobre. Concordando com C. Luzenberger16,
observamos que a filosofia de Bloch é um projeto ambicioso que não se
limita à crítica da ideologia determinista burguesa, mas contribui para
uma verdadeira e própria cosmologia e ontologia utópica de cunho
marxista.
A obra de Bloch pode ser lida, quanto a este aspecto, esperando
nela encontrar, não a “luz” para interpretar a realidade latino-americana,
mas sim um instrumento válido, que auxilie o filósofo a engajar-se mais e
mais na árdua tarefa da humanização da sociedade; na prespectiva da
ética material de vida a “herança tricolor: liberdade, igualdade,
fraternidade” não é apenas um ideal vazio de conteúdo, mas indica o
caminho da libertação: ajudar o homem latino-americano a descobrir as
causas de sua alienação. Como precisa Hurbon “cremos que nas tarefas
urgentes de desconstrução do imperialismo ocidental, a filosofia da
utopia elaborada por Bloch oferece perspectivas favoráveis aos militantes
dos países do Terceiro Mundo que querem romper com o código da
racionalidade ocidental”.17 A abordagem filosófica dos marxistas
heterodoxos, dentre ela a de Bloch, é muito sugestiva para os pensadores
latino-americanos; ela não vem tolher nem limitar as suas “raízes
autóctones”, mas é um instrumento válido, para que eles reflitam
dialéticamente sobre o ainda-não-consciente, sobre o Novo. É essa,
também, a contribuição que se deve procurar na obra blochiana, válida
para a ética material de vida.
13 W. HUDSON , op. cit., p. 49.
14 E. BLOCH. L’esprit de l’utopie, p. 11.
15 G. RAULET. Humanisation de la nature, naturalisation de l’homme : Ernst Bloch ou le
projet d’une autre rationalité. Paris: Klincksieck, 1982 p. 19-20.
16 C. LUZENBERGER. Narrazione e utopia : saggio su Ernst Bloch. Magliano: LER,
2002, p. 147.
17 L.HURBON. Op. cit., p. 136.
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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Žižek: A contradição principal da nova ordem mundial

Conhecer uma sociedade não é apenas saber suas regras explícitas. É também compreender como funciona sua aplicação: saber quando usar e quando violar as normas, saber quando recusar uma escolha oferecida e saber quando fingir que está se fazendo algo por livre escolha quando trata-se efetivamente de uma obrigação. Considere o paradoxo, por exemplo, das “ofertas-feitas-para-serem-recusadas”. Quando sou convidado a um restaurante por um tio rico, ambos sabemos que ele cuidará da conta, mas devo mesmo assim insistir em rachar ela – imagine minha surpresa se meu tio simplesmente dissesse: “Ok, então, pode pagar!”
Houve um problema semelhante durante os caóticos anos pós-soviéticos do governo Yeltsin na Rússia. Embora as regras legais fossem sabidas – e eram em larga medida as mesmas que vigoravam sob a União Soviética , desintegrou-se a complexa rede de regras implícitas, tacitamente aceitas, que sustentava o edifício social. Na União Soviética, se você quisesse, digamos, um tratamento hospitalar melhor, ou um apartamento novo, se você tivesse uma reclamação sobre as autoridades, havia sido convocado ao tribunal ou queria que seu filho fosse aceito em uma escola concorrida, você sabia as regras implícitas. Sabia com quem falar ou a mão de quem molhar, o que se podia e não se podia fazer.
Depois do colapso do poder soviético, um dos mais frustrantes aspectos do cotidiano para as pessoas comuns era que esse espaço de regras não-ditas tornou-se seriamente esfumaçado. As pessoas simplesmente não sabiam como reagir diante de regulações legais explícitas, o que podia ser ignorado, onde o suborno funcionava. (Uma das funções do crime organizado era justamente a de fornecer uma espécie de legalidade ersatz, substituta. Se você possuísse um pequeno negócio e um cliente o devia dinheiro, você ia ao seu protetor da máfia para lidar com o problema, já que o sistema legal do Estado era ineficiente.)
A estabilização da sociedade sob o regime Putin se deve em larga medida à transparência que se estabeleceu dessas regras não-ditas. Agora as pessoas compreendem novamente, de modo geral, o complexo emaranhado de interações sociais.
Não chegamos ainda a esse estágio no plano da política internacional. Na década de 1990, um pacto silencioso regulava a relação entre a Rússia e as grandes potências ocidentais. Os Estados ocidentais tratavam a Rússia como uma grande potência na condição de que a Rússia não agisse como uma. Mas e se o sujeito para quem a “oferta-feita-para-ser-recusada” realmente aceitar ela? E se a Rússia realmente começar a agir como uma grande potência? Uma situação como essa é propriamente catastrófica, ameaçando todo o tecido de relações existente – como ocorreu cinco anos atrás na Geórgia. Cansada de apenas ser tratada como uma superpotência, a Rússia de fato agiu como uma.
Como chegamos a isso? O “século americano” acabou, e entramos num período em que múltiplos polos do capitalismo global vêm se formando. Nos EUA, na Europa, na China e talvez na América Latina também, sistemas capitalistas desenvolveram com colorações específicos: os EUA representam o capitalismo neoliberal, a Europa o que resta do estado de bem estar social (Welfare State), a China o capitalismo autoritário e a América Latina o capitalismo populista. Com o fracasso da tentativa estadunidense de se impor como a única superpotência mundial – a policiadora universal –, há agora a necessidade de estabelecer as regras de interação entre esses polos locais no que diz respeito aos seus interesses conflitantes.
É por isso que nossos tempos são potencialmente mais perigosos do que podem parecer. Durante a Guerra Fria, as regras de comportamento internacional eram claras, garantidas pela loucura da Destruição Mútua Assegurada (MAD) das superpotências. Quando a União Soviética violou essas regras não-ditas ao invadir o Afeganistão, ela pagou caro por essa infração. A guerra do Afeganistão foi o começo de seu fim. Hoje, as novas e velhas superpotências estão se testando, tentando impor sua própria versão de regras globais, experimentando com elas através de proxies (guerras por procuração) – que são, é claro, outras pequenas nações e estados.
Karl Popper certa vez elogiou o teste científico das hipóteses, dizendo que, dessa forma, permitimos que nossas hipóteses morram ao invés de nós. Nos testes de hoje, as pequenas nações se ferem no lugar das maiores – primeiro a Geórgia, agora a Ucrânia. Embora os argumentos oficiais sejam altamente morais, girando em torno de direitos humanos e liberdades, a natureza do jogo é clara. Os eventos na Ucrânia parecem algo como “a crise na Geórgia, parte II” – a próxima etapa de uma luta geopolítica por controle em um mundo multipolar, não regulado.
Chegou definitivamente a hora de ensinar alguns modos às superpotências, velhas e novas. Mas quem vai fazer isso? Obviamente, apenas uma entidade transnacional poderá dar conta de uma tarefa como essa. Mais de duzentos anos atrás, Immanuel Kant viu a necessidade de uma ordem legal transnacional fundada na emergência da sociedade global. Em seu projeto para paz perpétua [Zum ewigen Frieden. Ein philosophischer Entwurf, 1795], ele escreveu:
“Avançou-se tanto no estabelecimento de uma comunidade (mais ou menos estreita) entre os povos terrestres que, como resultado, a violação do direito em um ponto da terra repercute em todos os demais, a ideia de um Direito Cosmopolita não é uma representação fantástica nem extravagante.”
Isso, no entanto, nos traz ao que é talvez seja a “contradição principal” da nova ordem mundial (se pudermos usar esse velho termo maoista): a impossibilidade de criar uma ordem política global que corresponda à economia capitalista global. E se, por razões estruturais, e não apenas devido a limitações empíricas, não puder haver uma democracia ou um governo representativo mundial? E se a economia global de mercado não puder ser diretamente organizada como uma democracia liberal global com eleições mundiais?
Hoje, em nossa era de globalização, estamos pagando o preço por essa “contradição principal”. Na política, fixações da era passada, e identidades particulares, étnicas, religiosas e culturais retornaram com força total. Nosso predicamento hoje é definido por essa tensão: a livre circulação global de mercadorias é acompanhada por crescentes separações na esfera social. Desde a Queda do Muro de Berlim e a ascensão do mercado global, novos muros começaram a emergir por toda a parte, separando povos e suas culturas. Talvez a própria sobrevivência da humanidade dependa da resolução dessa tensão.
Publicado em inglês no The Guardian.  A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

domingo, 18 de maio de 2014

Um dos chefes da SIC estás convertido num fervoroso neoliberal. Com direito exclusivo a tempo de antena, vai debitando sentenças num estilo frenético que as tornam - aparentemente - mais credíveis e sumamente originais

Gomes Ferreira quer salários baixos num país que já tem dos salários mais baixos da Europa do Euro. "Estado Social"? Puff! só despesa...Sugerimos-lhe a experiência do desemprego, da emigração, do trabalho precário sem direitos, dos salários em atraso, etc.

"O subdiretor de Informação da SIC esclareceu, em conversa com o Notícias ao Minuto, que conforme foram crescendo as economias nos países desenvolvidos, foram sendo criados esquemas de proteção social, numa primeira instância dedicados à criação de riqueza mas que, nos últimos quinze a vinte anos, deixaram de corresponder a esse propósito.
“É uma economia de ficção que parece que é muito dinâmica mas que é baseada sobretudo na geração de riqueza de outros setores tradicionais, que por sua vez estão em combate direto com outras zonas do globo e estão a perder. Continuam a perder”, sustenta Gomes Ferreira.
E se a opção for fechar a economia?
Qual é a solução para este impasse? A resposta parece simples: “Ou essas zonas do globo, esses blocos económicos (Europa, EUA e países da OCDE), se fecham em relação aos outros para manter certo nível de rendimentos e de preços e, por consequência, de prestações sociais, ou então abrem-se e têm que desvalorizar ou as moedas ou os fatores de produção, entre os quais os salários”.
E se a opção for fechar a economia? “Sempre na história da vida da humanidade os países e as zonas do globo que se fecharam, estagnaram e depois definharam. O melhor é procurar um equilíbrio no meio disto tudo”, esclarece o jornalista, e concretiza: "Ou desvalorizamos o próprio custo de trabalho ou fechamo-nos".
“Os governos não podem gastar tanto para não dar sinais errados à economia”
Para Gomes Ferreira, a solução estará em encontrar um equilíbrio entre a desvalorização dos custos de trabalho (em conjunto com alterações às legislações) e o investimento em inovação e competitividade.
“Por um lado tem que haver uma relativa diminuição de direitos laborais, relativa não exageremos, por outro os empregadores tem que apostar muito mais na inovação e em processos tecnológicos que permitam aumentar a produtividade. A gestão das empresas e das organizações tem que se modernizar e modificar no sentido da agilidade e no sentido da eficácia, e os governos não podem gastar tanto para não dar sinais errados à economia”.
O jornalista termina afirmando que “no meio é que está a virtude” e que em questões de grande magnitude como a macroeconomia a solução passa sempre “por se reduzir a três ou quatro coisas de bom senso e de realismo”.

Não gosto do regime da Coreia do Norte mas desprezo as mentiras. Este pequeno país, acossado e boicotado, é um dos alvos preferidos da propaganda do imperialismo, como o são o Irão, a Síria, Cuba, etc. E como o foram a URSS e outros regimes socialistas durante a Guerra Fria.

Defesa Rodman viu tio e ex-namorada executados por Kim Jong-un

Amigo próximo de Kim Jong-un, o ex-basquetebolista Dennis Rodman diz que é mentira que este tenha mandado executar o tio e a ex-namorada e que este apenas quer manter boas relações com os norte-americanos, conta o The Independent.
MUNDO
Rodman viu tio e ex-namorada executados por Kim Jong-un

Dennis Rodman afirma que as notícias que diziam que a ex-namorada e o tio do ditador norte-coreano Kim Jong-un tinham sido executados, são mentira.
Numa entrevista ao DuJour, o ex-jogador de basquetebol afirma que as supostas vítimas estavam atrás dele durante a sua visita ao país em Janeiro deste ano.
“Eu poderia dizer qualquer coisa sobre a Coreia do Norte aqui que toda a gente iria acreditar. A última vez que lá fui, diziam que tinham morto a namorada e o tio de Kim Jong-un, que os tinham dado de comer aos cães... Eles estavam mesmo atrás de mim”, afirma o atleta.
Recorde-se que Jang Song Thaek, de 67 anos, foi executado a 12 de Dezembro de 2012, por traição ao país. O homem, diz-se, foi comido por mais de uma centena de cães. Já em Agosto do ano passado, afirmava-se que a cantora e ex-namorada de Kim, Hyon Song-wol, foi executada  a tiro.
O jogador do NBA considera o líder norte-coreano um amigo para a vida e defende-o de todas as acusações de que é alvo.
“Nunca disse isto a ninguém, mas a última vez que estive no país, eles disseram o que gostariam dos americanos. Eles gostariam de reescrever o tratado de paz entre os dois países e gostavam que retirássemos os navios do país. Ele diz que não quer bombardear ninguém mas que mantém as armas nucleares guardadas porque são um país muito pequeno e aquela é a unica forma que têm para se defender. Eles querem que se saiba que não odeiam os americanos”, diz.

Coreia do Norte Ex-namorada de Kim Jong-un aparece do 'mundo dos mortos'

Passou cerca de um ano, desde que a ex-namorada de Kim Jong-un foi executada junto a uma banda por terem gravado e vendido pornografia. No entanto, a cantora reapareceu para surpresa de todos. Numa entrevista a um canal de televisão, a mulher aparece a sorrir e muito satisfeita.
17:05 - 17 de Maio de 2014 | Por 
Os factos desde a suposta execução ao seu reaparecimento não são conhecidos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014


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"A nossa soberania, perdida apenas durante o domínio filipino, está outra vez em perigo. Vivemos num País que não tem a liberdade de fixar o salário mínimo nacional; ou sequer de restabelecer a linha aérea Lisboa-Bragança. São exemplos menores de um mal maior. Ao perdermos autonomia monetária e económica, abdicámos da soberania. E novas ameaças se perfilam. O passo seguinte é submeter os orçamentos de estado à aprovação de Bruxelas. E passarmos anos ao serviço dos interesses germânicos por termos uma dívida superior a 60% do PIB.
Hoje ameaça-nos uma legião de burocratas europeus. Usam outras armas, legislativas e económicas. E, comandados por uma omnipotente Alemanha, empurram o Velho Continente para um perigoso federalismo, que castigará pesadamente as nações mais fracas".
Em Defesa da Independência Nacional é o manifesto patriótico de um professor de Economia. Mostra o que nos conduziu aqui. E apresenta a solução. Permanecer na Europa é inevitável – mas não é inevitável a permanência na zona euro. Viver num mundo globalizado pode ser uma oportunidade – mas enquanto nação soberana e não como uma junta de freguesia da UE.


in Resistir.info

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

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Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

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