sexta-feira, 20 de junho de 2014

A UTOPIA

Dez teses sobre a Utopia

Nozes Pires

1.        O nome de Utopia deriva, como é sabido, do título da obra ( 1515) de Thomas More, chanceler de Henrique VIII, cujo subtítulo é esclarecedor: “ Discurso de um homem eminente, Rafael Hitlodeu, sobre a melhor forma de comunidade política “- DE OPTIMO REIPUBLICAE  STATU HABUIT-“.
Originariamente foi o projecto de um Elogio da Sabedoria (Sophia), resposta e complemento da obra do seu amigo Erasmo : “Elogio da Loucura” ( Moria), 1509, dedicada a More com alguma ironia. Se  pretender-se compreender devidamente esta obra, no seu estilo, ideias e propósitos, dever-se-á interligar as duas obras e os dois autores. É devedora do modelo clássico imortalizado por Platão, A República, mas nada há ali que seja repetição ou cópia; aliás, não se deve ignorar que More foi um excelente leitor de S. Agostinho, o autor de A Cidade de Deus ( obra que considero milenarista, mas que não me repugna de modo algum colocar entre as utopias de pendor profético e escatológico do Ocidente europeu). A Utopia , de T. More ( ou Morus) é claramente um objecto típico do Renascimento, tanto na estrutura, como na tese principal que atribui aos homens a possibilidade, e o dever, de transformar a vida e a sociedade, aqui, na Terra. A sua ironia e uma forte pitada de cepticismo - que chamaríamos realismo - (  Amaurota, a capital, Cidade do Nevoeiro, localiza-se na margem do rio Anidro, o rio sem água, o Estado é governado por um príncipe sem povo, o país, habitado por cidadãos sem cidade, os seus vizinhos são os homens sem país ) em lugar de contrariarem a convicção humanista de More, dão-lhe uma tonalidade realista, racionalista, bem representativa dos melhores espíritos renascentistas. Esta capacidade inventiva e estilística para, por meio da ironia, permitir que o autor e o leitor se distanciem e, simultâneamente, se  interessem, como um desafio e uma refutação, que eu apelido de ingrediente superior da racionalidade, nem sempre perdurou em todas as utopias escritas posteriores, mesmo aquelas que quase a copiam. À obra magistral subjaz , assim, sempre esta interrogação : E se fosse assim? Vamos fazer de conta que sim, que tanto é possível imaginá-la como realizá-la, ou ainda melhor : que imaginá-la é já realizá-la. Quais seriam, então, os seus contornos e os seus efeitos? O valor e o método das utopias radica aqui. E a sua inevitabilidade.

2.        O  termo utopia é formado a partir de dois nomes gregos: ouk (abreviado em ou diante de uma consoante), que significa “não”, e que se tornou u e topos, que quer dizer “lugar”. Utopia é, por conseguinte, um neologismo, nem grego nem latino, que, até por isso mesmo, exprime magnificamente o sentido de “algures” que percorre toda a obra. Todavia, repare-se que este “ País de Parte Nenhuma” não equivale a “um país qualquer” mas, pelo contrário, sugere a construção do País da felicidade geral, da República óptima, e foi este significado que permaneceu até aos nossos dias. Contudo, desde logo importa porventura distinguir, embora não opor, dois géneros literários ( e eidéticos) que correm o risco de se confundir: A Abadia de Thélème, de Rabelais ( episódio do Pantagruel), que descreve uma terra de Cocagne ( em francês, “massa de bolo”) , onde o princípio que reina é “Faz o que quiseres”, por um lado e, por outro, o projecto detalhado, exposto com seriedade credível, da Utopia republicana. Certamente que a primeira ficção retoma a mesma antiquíssima metáfora utopista do ” rio do leite e do mel”, a ilha, as águas, as fontes por onde jorrará a abundância em suma ( tanto na perspectiva do Imaginário em geral, como da literatura, a recorrência de metáforas tece a continuidade) e exprime, a seu modo, a mesma aspiração à liberdade plena de todos em igualdade, se não absoluta pelo menos mutíssimo maior do que aquela que efectivamente reina ; porém, a construção é diferente ( provavelmente diferentes também os propósitos), e isso verifica-se desde  A República, de Platão, que se distingue dos cantos báquicos e dos mitos e se distingue também de A Cidade das Aves, comédia de Aristófanes. Alguns traços fortes das utopias tipificadas ajudarão a distinguir estas duas modalidades tão próximas, como nos permitirão articular mas não identificar, Uma História Verídica, de Luciano, ou Uma Viagem à Lua, de Cyrano, ou mesmo As Viagens de Gulliver, de Swift, por um lado, e A Utopia, de More, A Cidade do Sol, de Campanella, A Nova Atlândida, de Bacon, e por aí adiante. O estilo satírico e até burlesco, a comédia em suma, não é utilizado pelos mais famosos utopistas ocidentais da Era Moderna (  Rousseau, Morelly, Mably, Deschamps, Mercier, Babeuf, Fourier, Saint-Simon, Owen, Blanqui, Cabet, Weitling, L. Blanc, Lamennais, Proudhon, Bakunine, Bellamy, W. Morris).
Não é estulto, nem abusivo, estabelecer um paralelo entre u-topos e o termo topos empregue por Aristóteles como lugar do discurso. Neste caso, dir-se-á que o não-lugar (u-topos) seria um género de não-discurso, talvez  melhor : de meta-discurso; tanto uma forma de discurso que não é comum e usual ( estranho, insólito) como um dircurso-outro, paradoxal, contraditório ao comum, que se lhe opõe e o ultrapassa, que não respeita ( não parece respeitar- daí a ironia) a lógica, sobretudo os juízos de experiência ; pelo qual a essência se realiza pela força da possibilidade lógica ( e não se reduz à mera probabilidade que caracteriza o discurso retórico). Topologia diferente, alternativa, inventiva, imaginativa, discurso do desejo e do possível. Tal como era possível, ao tempo de Morus, descobrir novos mundos. Para alguns autores, utopia significa um lugar no Novo Mundo ( terra de todos os possíveis, virgem); para mim, julgo que, não eliminando essa influência, significa transportar para o Velho Mundo aquilo mesmo que o Novo Mundo parecia demonstrar : que os homens podem ser felizes porque são capazes de mudar as suas relações sociais, que não são eternas e “naturais”; a ilha da Utopia mostra que a felicidade radica no acordo com a natureza, tanto a natureza humana como a  demais. Creio que estas ideias as encontramos em todas as utopias, desde as mais antigas às mais modernas. É de reter, portanto, estes dois aspectos : primeiro - uma certa atitude idealista que acredita que a força e a estrutura do pensamento introduz realidade no real ( a essência identifica-se com a realidade); segundo- a crença racional de que existe um “fundo” nas coisas que as predispõe para um acordo, equivalente a uma determinada finalidade ( as utopias são avessas à casualidade, à contingência, ao acidente). Mas estes traços não são permanentes.

3.        No interior das utopias, há ainda uma outra distinção a efectuar: entre a utopia ( classificada também como eutopia- terra da felicidade) e a distopia ( situação anómala de qualquer coisa determinada), sendo que esta descreve , principalmente, a negatividade do que se observa, é uma crítica negativa, com tons, por vezes, negros, sombrios, sem saída esperançosa, uma espécie de cul-de-sac pessimista; esta orientação deu corpo no nosso século às anti-utopias ,  que enunciam e anunciam todas as desgraças contidas no bojo de determinadas doutrinas políticas (G. Orwell, Huxley, Zamiatine, Karel Kapek) ; não é difícil discernir, no plano do romance, a orientação positivamente utópica de A Nebulosa de Andrómeda, de Iván Efrémov, da intenção absolutamente adversária veiculada pela obra célebre de Orwell, separadas por um punhado apenas de anos. As anti-utopias possuem a sua história que entronca, no plano filosófico, num determinado cepticismo ( ao qual a tradição empirista anglo-saxónica não é alheia) ou até pessimismo ( alimentado pelas experiências realizadas) e, no plano da crítica, no confronto dialógico de ideias e soluções. Orientam-se deliberadamente contra um determinado tipo de pensamento, ao qual muitas vezes, e não é por acaso, acusam de meros sonhos, quimeras simplistas, “utopias” ( o positivismo é responsável em grande parte por este desdém). A crítica mordaz, por vezes caricatural, ao “estado de natureza” ( ao “bom selvagem”) de Rousseau e outros ( celebrizada por ele mas não sua invenção exclusiva) , no século dezoito, por círculos iluministas (uma das críticas mais contundentes viria até de um utopista, Dom Deschamps, que professava ele próprio uma nostalgia ruralista), insere-se neste quadro evolutivo da Razão. Contudo, já o democrata grego Aristófanes satirizava impiedosamente determinadas utopias filosóficas ( que veiculavam programas políticos adversários); o próprio Platão forja a sua República, conforme as faculdades naturais, contra a “utopia” democrática; Luciano de Samotrácia constrói diálogos perfeitamente absurdos entre os “filósofos” do seu tempo e a sua crítica dos mitos e utopias assume aspectos verdadeiramente alucinantes; S. Agostinho esforça-se por demarcar-se do maniqueísmo e do milenarismo; Cyrano de Bergerac , em L’Autre Monde, ridiculariza a ignorância dos poderosos e, brincando às utopias, não permite que dos mundos efabulados ( que tanto enaltecem o valor da imaginação barroca, como , pelo seu excesso de absurdo, impossibilitam, desde logo, a sua existência) se extraia uma alternativa coerente e sistemática; Dom Deschamps exclui liminarmente todas as “quimeras” que não são mais do que produtos dessa literatura e dessa cultura que ele deseja erradicar da sua sociedade sem classes de simples camponeses; Saint-Simon e Fourier mostram-se acérrimos adversários das outras utopias classificadas como charlatanices ( devolvendo este a acusação que lhe fazem de lunático); quanto a Marx e Engels são conhecidas as suas refutações dos “esquemas utópicos”, embora Marx houvesse tido uma sincera admiração por Saint-Simon, Owen e Weitling. No nosso século não se registou apenas a anti-utopia ( e a distopia), ao contrário do que por vezes se lê : o traço característico é até precisamente o predomínio da utopia ; o que sucedeu, porém, é que esta utopia ( comunista, socialista) foi combatida e é, por isso, que emerge a violenta denúncia de Georges Orwell; para os adversários do “comunismo” a utopia realizada, ou em marcha, encerrava todos os perigos e a utopia passou a ser sinónimo de “totalitarismo”. Curioso é verificar que A. Huxley, cujo “ Admirável Mundo Novo” se dirige contra o behaviourismo ( doutrina comportamentalista que triunfava na psicologia americana), imagina, ele próprio, uma admirável sociedade feliz em perigo de extinção ( “ A Ilha”).

4.        O livro de Platão, A República, é ainda uma obra de referência para diversos assuntos, desde o que é a filosofia e a que se dedica o filósofo até aos modos como devemos ( ou, pelo menos, podemos) imaginar uma sociedade governada pelo princípio da Justiça. O modelo da dedução lógica tem sido sucessivamente percorrido até aos nossos dias ( com este ou aquele apriorismo) , onde o vemos aplicado a jogos e dispondo de amplas possibilidades nos sistemas de informação. A ele soma-se, em Platão, a tese tão recorrente na filosofia, segundo a qual o que importa é formular um princípio claro, rigoroso e fundamental ( Descartes, Espinosa, Leibniz). O Princípio da Justiça, por exemplo. Vemos isto recentemente adoptado nas obras de John Rawls ( Uma Teoria sobre a Justiça). Na verdade, o pensador social que, em nossa opinião, melhor utilizou esta rica herança platonista, foi Proudhon. Neste “o progresso da humanidade é pois essencialmente um facto de ordem moral”, como escreveu o nosso Antero, segundo a sua convicção e a de Proudhon, seu mestre principal. O mesmo que redigiu o quarto dos manifestos socialistas , De la capacité politique des classes ouvrières, sendo o primeiro o “Manifesto dos Iguais” de Babeuf, o segundo o de Considérant, discípulo de Fourier, e o terceiro o “Manifesto comunista” de Marx e Engels. Como é sabido, a doutrina de Proudhon ( já formada em grande parte antes do “Manifesto comunista”) opôs-se ao pensamento político de Marx, muito embora este haja nutrido pelo genial tipógrafo autodidacta, mais velho dez anos, uma forte e especial admiração. Em 1846, cerca de seis meses antes de começar o escrito polémico contra Proudhon ( “Miséria da Filosofia”), ainda Marx convidava-o para uma “troca de ideias” pois “quanto à França, nós todos acreditamos que não podemos encontrar aí um melhor correspondente que vós” (1) e em 1844 passou com ele a discutirem muitos serões ( três meses depois, Proudhon escreve isto numa carta : “ Lorsque les contradictions de la communauté et de la démocratie, une fois dévoilées, seront allées rejoindre les utopies de Saint-Simon et de Fourier, le socialisme élévé à la hauteur d’une science, le socialisme, qui n’est autre que l’Économie politique, s’emparera de la société et la lancera vers ses destinées ultérieures avec une force irrésistible...Le socialisme n’a pas encore conscience de lui-même; aujourd’hui il s’apelle communisme” (2).

5.        A grande novidade que existe entre os modelos à Platão, deduzir a realidade a partir da essência ( ideia ou conceito), que nos remete para a trave mestra das metafísicas ( que culmina em Hegel, apesar de todas as modificações substanciais que este opera no método) e as utopias modernas ( que se seguem à de Morus ), encontra-se, a nosso ver, em dois aspectos : a ideia de igualdade ( que em Platão não é admitida para todos segundo a sua perspectiva de divisão do trabalho de acordo com a “natureza” ou as castas) e o esforço do projecto, isto é atender às condições da sua aplicação,  experimentação e prever os seus efeitos. Se sobre o primeiro aspecto não rareiam os bons estudos ( dos investigadores da ex-URSS, por exemplo), a segunda orientação nem sempre é evocada quando se ataca a utopia social como se ela fosse fatalmente um mero projecto teórico desprezando a acção. Este segundo aspecto não escapou à análise de Marx e Engels, que não regateavam elogios ao filantrópico homem de acção, ao seu talento de organizador, R. Owen, e viam em Proudhon, talvez por essa razão, um perigo nocivo ao trabalho político com as massas operárias ( conhecemos a grande influência dos proudhonianos na península ibérica).

6.         A diferença que nos parece fundamental entre Marx e outras utopias socialistas ( caso de Proudhon e Kropotkine) reside nisto: o socialismo constitui a etapa preparatória que visa atingir o comunismo, sendo que nessa etapa as tarefas decisivas são a tomada do poder ( pela Revolução) e a construção de um Estado centralizado. Não é a ideia, o projecto, de comunidade, e comunas, que os divide irremediavelmente, (neste sentido amplo não é o comunismo, se não atribuirmos a esta noção o património exclusivo pelo ideário marxista), mas talvez aquilo que Kropotkine declara nestas palavras : o desenvolvimento mais completo da individualidade deve “ combinar-se com o mais elevado desenvolvimento da associação voluntária sob todos os aspectos, em todos os graus possíveis, por todos os fins imagináveis: associação sempre modificável, transportando nela mesma os elementos da sua duração e revestindo as formas que, a cada momento, respondem pelo melhor às aspirações múltiplas de todos"”(3). "Utopicamente" dir-se-á, os projectos anarquistas ( que se dizem, por isso mesmo, "libertários") desejam instituir a liberdade ( de cada um na igualdade de todos) desde o início do processo, sem “constrangimentos do Estado centralizador”, enquanto que os propósitos de Marx e Engels apontam sem “utopias” para a organização da classe operária e seus aliados num Estado dirigido pela primeira , capaz de se defender e realizar as reformas revolucionárias. Acusa-se Marx de, deste modo, adiar para um futuro longínquo as metas que, em teoria pelo menos, exprimem um acordo de vários movimentos revolucionários, entrando mesmo em contradição nos termos. Por consequência, devolve-se a Marx a acusação que ele faz aos outros : uma mera utopia. Evitemos, desde já, formular juízos de valor a favor ou contra, para que assim seja possível reabrir-se um debate que nos parece oportuno, agora que terminou a experiência  nos países do Leste, nos moldes em que a conhecemos. E reservamos para outra ocasião a interrogação seguinte : na ex-URSS governou o socialismo utópico? Científico? ou a acumulação e apropriação do Capital pelo estilo autoritário expedito e pela vocação nacionalista de grande potência?

7.        O ponto de vista de Ernst Bloch é, julgamos, conhecido ( “O Princípio Esperança”). Este importante pensador alemão, que experimentou a edificação de um regime socialista, legou-nos uma  larga e profunda meditação sobre o fenómeno cultural multifacetado ( psicológico, sociológico, filosófico) que radica nas “imagens-desejo”. A Esperança é, dir-se-ia, um princípio vital e ontológico da espécie social que somos. Tão resistente e latente, que “ a impostura é obrigada ele própria, para se ser eficaz, a recorrer à esperança” (4). É da natureza mesma do homem pronunciar-se somente a partir do futuro: “ a esperança mentirosa é uma das maiores malfeitoras, uma das mais debilitantes que a espécie humana conhece; a esperança concreta e autêntica é a sua benfeitora mais séria” (5). Que significa, então, a esperança concreta? Significa orientar a filosofia para o futuro, para aquilo que ainda não é ( coisa rara nos filósofos até Hegel inclusive). A esperança com o seu correlato positivo: a determinidade da existência não conduzida até ao seu termo, para além de toda res finita. (6). “ A filosofia há-de possuir a consciência do amanhã, o parti pris do futuro, o saber da esperança, ou ela não possuirá saber algum” (7). “ Le thème fondamental de la philosophie qui est et demeure en devenant, c’est le Foyer ( die Heimat) non encore denenu, le lieu de l’identité avec soi-même et avec les choses ( Der Ort der Identität mit sich selbst und den Dingen), non encore réussi et tel qu’il prend forme, qu’il s’édifie dans la lutte dialectique-matérialiste du Nouveau et de l’Ancien” (8). No termo de páginas inolvidáveis sobre o pensamento dialéctico e práxico de Marx, Ernst Bloch escreve : ” c’est de lui que date l’unité de l’espérance et de la connaissance du processus, bref, le réalisme (...) le rêve consistant se rallie activement à ce qui est historiquement arrivé à échéance et dont l’avènement est plus ou moins entravé (...) le monde entier est parcouru par la grande idée d’une chose et par l’intention tendue vers le non-encore-advenu : l’utopie concrète est la théorie-praxis la plus importante de cette tendance” (9).

8.        O filósofo francês, Michel Vadée, numa obra excelente obra ( “ Marx, Penseur du Possible “) termina-a com esta citação de Bloch :
Le levier dans l’histoire humaine, c’est celui qui la produit – l’homme qui travaille, qui enfin n’est plus extériorisé, qui n’est plus aliéné, ni reifié, ni asservi au profit de ceux qui l’exploitent. Marx est le maître réalisé de cette abolition du prolétariat, de cette médiation possible, et en train de se réaliser, des hommes avec eux-mêmes et avec leur bonheur moral.(...) Marx est le maître essentiel de cette médiation qui nous rapproche incessamment du foyer de la production de l’ensemble de l’événement du monde ( Weltgeschehen), de ce que Engels appelle la métamorphose de la prétendue chose en soi en chose pour nous dans la mesure d’une humanisation possible de la nature. Un peuple libre, sur un fondement libre, tel est, saisi ainsi de façon paradoxale, le symbole final de la réalisation du réalisant, c’est-à-dire du contenu-limite le plus radical dans le possible objectivement réel en général.” (10)

9.        Seria preciso considerar a Utopia como uma forma de consciência social, uma manifestação histórica e social ( não apenas pessoal) concreta da Negação do homem daquilo que o aliena, oprime e revolta. Nas utopias exprimem-se as ideias e as aspirações de vastas camadas sociais. Não somente “sentimentos”, mas ideias e projectos; os utopistas, de uma maneira geral, souberam acompanhar o desenvolvimento das ciências e valorizar a Razão ( F. Bacon, Mably, Saint-Simon, Owen, Comte, Cabet...). E a sua heterogeneidade é tão grande que a utopia de Étienne Cabet ou de Bellamy não se confunde com a de Weitling, a de W. Morris com de Bellamy, a de Wells ( ou de J. Vernes) com a de Samuel Butler, a de Kropotkine com a de Proudhon, a de Owen com Fourier. A persistência da utopia, como fenómeno difuso e latente ou como texto filosófico ou de ficção-científica, testemunha a sua dimensão humana universal, latejando nos mitos às vezes, brotando, noutras, das margens da ciência . A fórmula utilizada por Marx na “Crítica do Programa de Gotha” que enuncia os princípios da sociedade comunista ( legados pelos utopistas), as teses de Lénine em “ O Estado e a Revolução” ( que re-inscreve como horizonte no ideário marxista-leninista as teses sobre o desaparecimento do Estado, comum a muitos utopistas; obra que se deve ler em articulação com as “ Teses de Abril”), figuram como textos emblemáticos de que o sonho mobilizador pôde marcar profundamente o nosso século. Não vejo como possa ser defensável a atitude contumaz de desprezar as utopias em nome de uma doutrina “ científica”. Onde está o “científico” : na Economia Política, na Sociologia, numa ontologia materialista? Na práxis política? Como pode opor-se o “realismo dos meios” à “utopia dos fins”? Não se ignore aquilo que mobiliza a massa humana, nem se despreze o papel que a subjectividade desempenha na transformação dos acasos e das possibilidades em necessidade. A essência dos fins devia encontrar-se também na opção por esta ou aquela possibilidade concreta.  O que nos une encontra-se nos fins, o que nos separa encontra-se nos meios. Em nome de quê decidimos este e não aquele meio ou etapa? O que significa ser-se comunista: possuírem-se princípios que contêm as finalidades – a sociedade comunista – ou fixar-se nesta ou naquela etapa ( que é ela própria uma resposta, melhor ou pior adequada, à correlação de forças internas e internacionais) e congelarem-se as metas? Pior ainda : bloquear-se a autonomia colectiva e individual, que é o bem supremo do socialismo comunista?
Cada época, cada tempo, produziu as suas utopias ( emergindo de tradições religiosas, míticas, de leituras diversas dos Evangelhos ou das Ciências, comprometidas com as lutas sociais e políticas dos respectivos países), a sua epistéme, o seu paradigma. A sua filosofia e a sua mentalidade. Não podemos trazer incólume para o nosso tempo as utopias de Rousseau, Morelly ou Deschamps, próprias da crise operada na França pela transição do feudalismo para o capitalismo contemporâneo. Na sua especificidade, outro tanto não devemos fazer com algumas determinações epocais da utopia marxiana ( o projecto da “ ditadura do proletariado”, por exemplo, exige uma leitura histórica, simultâneamente de apropriação e de distanciação ). As utopias também aprendem com a experiência. 

10.     A última consideração é sobre o 25 de Abril de 1974. É escassa, é certo, mas é esta data que me (nos) inspira Por causa dela merece bem a pena investigarmos quais as utopias que me (nos) inspiraram a oposição anti-fascista, aquelas que negámos e até combatemos, aquelas que perfilhámos, o pathos da Esperança, da acção que devia ser feita, que tinha de ser feita. E aquelas outras, ou as mesmas, que empolgaram grupos e classes sociais, jovens e menos jovens, proletários do campo ou da cidade, trabalhadores intelectuais, homens e mulheres das burguesias. O estudo documentado das suas linguagens e dos seus comportamentos ( textos teóricos, propaganda, manifestações artísticas, etc.) daria, dará, um volumoso volume. As linhas que dividiram, irremediavelmente, a esquerda revolucionária, as linhas que separaram esta daqueles que parafraseavam o maoísmo e pareciam confundir-se com o anarquismo na sua acção, mas que longe, ou contra, o valioso legado histórico e utopista deste, combatiam pelos  interesses da contra-revolução. As linhas que separaram ( e separam) a esquerda igualitarista ( que busca a expressão libertária da igualdade social ) daquela outra que elimina a equação mais dramática de todas as equações com a fórmula “ direito burguês + solidariedade social ”. Em cada momento, em cada acto concreto, se afere o valor das nossas utopias. Sabendo-se que, em cada momento, em cada acto, espreita a ideologia que se camufla em “cultura de massas”, em “espectáculo e expectativas” ,( e a “racionalização” psicanalítica) , pela qual a Realpolitik se auto-justifica. E a partir da qual lançam um olhar de condescendência pelos  coitados “sonhadores” órfãos e ressentidos...
Se a História da Humanidade toda foi abalada pela utopia concreta da Revolução de Outubro, então a Revolução Portuguesa abalou com certeza o pessimismo dos que já não tinham utopias.
Aquilo que as utopias, desde Platão, tratam ( e desafiam a nossa imaginação racional) é fundamentalmente o problema do Poder, ou seja, do Governo Justo. A Ideia de Justiça ( social) é o núcleo duro das construções utópicas, umas mais concretas do que outras. Não morreram por simples decreto de cientistas ou dos ideólogos. Seria estulto afirmarmos : “ A Utopia morreu! “, parafraseando Nietzche, “ Eis-nos condenados ao niilismo!”. O que tem de pior a  Filosofia contemporânea não é a meditação sobre a morte, é condenar a vida às possibilidades abstractas de um nada que carece de sentido.
Foi a Revolução Portuguesa uma utopia no quadro apertado da “geo-política” de então? Foi a Reforma Agrária uma utopia face a um país económica e politicamente completamente dividido? É uma utopia lutar-se pela ideia de um Portugal sem oligopólios, numa Europa com mais justiça social, travando o apetite imperialista ( que parece hoje omnipotente) dos E. U. ?
Quando a experiência está consumada é sempre mais fácil explicá-la. Neste sentido a Filosofia ( ou mesmo as ciências exactas ), é sempre um saber do presente, como queria Hegel. O Possível contido na Essência da Necessidade, resulta em grande parte da nossa ignorância de todas as determinações do Todo, como nos ensinou Espinosa, tanto o livre-arbítrio como a Providência. Recolhermo-nos comodamente nesta, ou lançarmo-nos cegamente no voluntarismo, creio ter sido este o dilema extremo de que nos advertiu   Marx. A mobilização das forças de que dispomos nesta ou naquela direcção, com vista a aproximarmo-nos de um governo cada vez mais justo, se há-de resultar de uma análise concreta das condições concretas, não resulta menos de uma ousada intuição. Transformar um resultado não totalmente previsto naqueles princípios que as massas populares querem puxar, por sua vez, até ao seu termo, eis a mais bela lição do 25 de Abril.


J. A . Nozes Pires







NOTAS :


(1)     Martin Buber, Utopie et Socialisme, p. 33, Paris, Aubier Montaigne, 1997.
(2)     (2) idem, p. 51.
(3)     (3) idem, p. 34.
(4)     (E. Bloch, Le Principe Espérance, T. I, p. 11.
(5)     Idem, p. 12.
(6)     Idem,p. 13.
(7)     Idem, p. 14.
(8)     Idem, p. 14.
(9)     Idem, p. 17.
(10)  Idem, pp. 214-215.
(11)   Michel Vadée, Marx Penseur du Possible, p. 500, Meridiens Klincksieck, 1992.



Bibliografia Principal :

Marx-Engels, Obras Escolhidas, Sobre Proudhon, As pretensas cisões na Internacional, Da Autoridade, Extracto dos comentários ao livro de Bakúnine, Crítica do Programa de Gotha, Do Socialismo utópico ao socialismo científico, Lisboa, Ed. Avante!, 1985.
Gian Mario Bravo, Les socialistes avant Marx, Maspero, 3 vol., 1970.
V. Volguine, Essais sur l’histoire des idées socialistes de l’antiquité à la fin du xviii siècle, Ed. du Progrès, Moscou, 1981.
Jean Servier, Histoire de l’utopie, Gallimard, 1967.
F. E. Manuel e F. P. Manuel, Utopian thought in the western world, The Belknap Press of Harvard University Press, 1979.
B Baczko, Les imaginaires sociaux, Payot, Paris, 1984.


 Curriculum:        José Augusto Nozes Pires, professor do ensino secundário, mestre em Filosofia e doutorando pela U. Clássica de Lisboa. Conferências e artigos sobre Utopia.

































quinta-feira, 19 de junho de 2014

A CRISE DA CRISE DO MARXISMO - PERRY ANDERSON

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terça-feira, 17 de junho de 2014


Sociólogo, filósofo, activista político alemão, naturalizado norte-americano

Herbert Marcuse

19/07/1898, Berlim, Alemanha
29/071979, Berlim, Alemanha
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
[creditofoto]
As idéias de Marcuse influenciaram as revoltas estudantis da década de 1960
Herbert Marcuse nasceu em Berlim, capital da Alemanha, filho de pais judeus. Estudou literatura e filosofia em Berlim e Freiburg, onde conheceu filósofos como Martin Heidegger, um dos maiores pensadores alemães na época. Aos 24 anos, ele voltou à cidade natal, onde trabalhou na venda de livros. Retornou a Freiburg para ser orientado por Heidegger em seu doutorado sobre o filósofo Hegel.

Quatro anos depois, em 1933, por causa do governo nazista, Marcuse não foi autorizado a completar seu projeto. Assim, foi trabalhar em Frankfurt, no Instituto de Pesquisa Social. Ainda no mesmo ano, ele imigrou da Alemanha para a Suíça, indo em seguida para os Estados Unidos, onde obteve a cidadania em 1940.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Marcuse trabalhou para o governo norte-americano, analisando relatórios do serviço de espionagem sobre a Alemanha, atividade que durou até 1951.

No ano seguinte, começou a carreira de professor universitário de teoria política, primeiro em Colúmbia e em Harvard, depois em Brandeis, onde ficou de 1954 até 1965. Já perto de se aposentar, foi lecionar na Universidade da Califórnia, em San Diego.

Suas críticas à sociedade capitalista, em especial na obra "Eros e Civilização", de 1955, e em "O homem unidimensional", de 1964, fizeram eco aos movimentos estudantis de esquerda dos anos 1960.

"O homem unidimensional" pode ser visto como uma análise das sociedades altamente industrializadas. Marcuse critica tanto os países comunistas quanto os capitalistas, por suas falhas no processo democrático: nenhum dos dois tipos de sociedade foi capaz de dar igualdade de condições para seus cidadãos.

Ele argumentava que a sociedade industrial avançada criava falsas necessidades que integravam o indivíduo ao sistema de produção e de consumo. Comunicação de massas e cultura, publicidade, administração de empresas e modos de pensamento contemporâneos apenas reproduziriam o sistema existente e cuidariam para eliminar negatividade, críticas e oposição. O resultado, dizia, era um universo unidimensional de idéias e comportamento, no qual as verdadeiras aptidões para o pensamento crítico eram anuladas.

Marcuse viveu para assistir e sentir os efeitos do que teorizou: tinha 70 anos quando eclodiu a Revolução Inesperada, a grande revolta estudantil de 1968 em praticamente todos os países do mundo.

Por sua capacidade de se engajar seriamente e apoiar os estudantes que protestavam contra a guerra do Vietnã (1961-1974) e queriam mudar a sociedade e a política, Marcuse logo ficou conhecido como o "pai da nova esquerda", apelido que ele rejeitava. Fez vários discursos engajados nos Estados Unidos e na Europa no fim da década e durante os anos 70. Morreu de infarto durante uma visita à Alemanha, dez dias depois de completar 81 anos.
in UOL - O melhor conteúdo

Brilhante análise sobre o Brasil de hoje

O escravo da Casa Grande e o desprezo pela esquerda

14.06.16_Mauro Iasi_Desprezo pela esquerdaPor Mauro Iasi. 
Malcom X comparou, certa vez, os negros que defendiam a integração na sociedade norte americana com escravos da casa. Para defender suas pequenas posições de acomodação na ordem escravista, buscavam imitar seus senhores, copiar seus maneirismos, usar suas roupas, sua linguagem, adotando o nome da família de seus senhores. Daí o “X” no lugar do sobrenome do revolucionário norte americano.
Não é de se estranhar que os escravos da Casa Grande se incomodassem com as revoltas vindas da Senzala, pois poderiam atrapalhar sua instável acomodação, sua sobrevivência subserviente.
Dois textos recentes me chamam a atenção, não sei se produzidos pela mesma pena, mas certamente movidos pelo mesmo ódio e desprezo contra a esquerda em nosso país. Um deles é de autoria do sociólogo Emir Sader neste blog (“Não é a Copa, imbecil, são as eleições), que recentemente comparou os manifestantes a cachorros vira-lata, outro é o editorial do Brasil de Fato de 03/06/2014 (“Eleições presidenciais e o papel do esquerdismo“) que, não contente em se aliar ao campo de apoio a Dilma, abriu as baterias contra a esquerda – aquela mesma que em muitas situações apoiou esse jornal, não apenas nas campanhas para sua sustentação, mas participando de seu conselho editorial e apoiando nos momentos mais difíceis.
Tanto o sociólogo como o jornal têm o direito de apoiar quem quiserem, de emitirem suas opiniões, mas o que nos chama a atenção é a necessidade de atacar a esquerda e a forma deste ataque. Como em todo o debate que busca fugir do mérito da questão (talvez pela dificuldade em realizar o debate neste campo) lança-se mão de estigmas. É preciso caracterizar os oponentes como “esquerdistas”, “minorias”, “intelectuais vacilantes da academia”, ou mais diretamente de “imbecis”.
Por vezes devemos aceitar o debate não pela qualidade dos argumentos ou a seriedade dos adversários, mas em respeito àqueles que poderiam se beneficiar do bom debate. Para isso temos que supor que o debate é sério e que há uma questão de fundo, ainda que para isso tenhamos que separar uma grossa camada de retórica que visa desqualificar o debate para não enfrentá-lo.
O argumento central da posição expressa nos textos citados, mas explícita e de forma mais clara no editorial do Brasil de Fato, poderia ser assim resumida: os governistas teriam uma “visão ampla da luta de classes”, que articularia três dimensões – a luta social, a ideológica e a institucional – atuando com “firmeza ideológica e flexibilidade tática”; enquanto os supostos esquerdistas “ignoram a correlação de forças” no Brasil e na America Latina e concentram muito mais nas criticas do que nas realizações dos governos “populares”. Isso porque subordinam suas posições, como “vacilantes intelectuais da academia” ou partidos “sem o mínimo peso eleitoral”, não a uma análise concreta de uma situação concreta, mas a uma “fidelidade” ao marxismo ortodoxo.
O resultado desta premissa, segundo a posição expressa, é o seguinte:
“Por isso, para serem condizentes com uma análise concreta de uma situação concreta, os partidos de esquerda sem o mínimo de peso eleitoral, que não conseguem enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares durante as eleições deveriam estar fortalecendo a candidatura de Dilma, mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular.
Mesmo na posição de um “vacilante intelectual do mundo acadêmico, fiel ao marxismo e de um partido sem peso eleitoral”, gostaria de iniciar o debate afirmando que nossos colegas deveriam seguir, antes de mais nada seus conselhos. Se não vejamos. O erro do “esquerdismo”, que o impediria de realizar uma análise concreta de uma situação concreta, é que “não conseguem identificar frações de classes e seus diversos interesses em torno do governo Dilma”.
Então vamos lá. Quais são as classes e frações de classe que se somam aos governos do PT? O PT produziu-se como experiência histórica da classe trabalhadora que acabou por projetar-se numa organização política que, sem perder a referencia passiva desta classe, assumiu posturas políticas que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores. Não se trata de uma questão de origem de classe, mas do caráter de classe da proposta política apresentada em nome dos trabalhadores.
É preciso explicar aos leitores que nós (intelectuais vacilantes fieis ao marxismo) não concebemos a classe social como mera posição nas relações sociais de produção e formas de propriedade, mas como uma síntese de determinações que partindo da posição econômica, devem se somar a ação política, a consciência de classe e outros aspectos. Dessa forma, um setor da classe trabalhadora, ainda que partindo originalmente deste pertencimento, pode em sua ação política e na sua intencionalidade, afirmar outro projeto societário que não aquele que nossa experiência histórica constitui como meta – o socialismo –, sendo capturado pela hegemonia burguesa, naquilo que Gramsci chamou de “transformismo”.
No caso do PT acaba por se consolidar um projeto que tem por principal característica quebrar as reivindicações sociais do proletariado e dar a elas uma feição democrática; despir as formas puramente políticas das reivindicações da pequena burguesia e apresentá-las como socialistas, e tudo isso para exigir instituições democráticas republicanas “não como meio de suprimir dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas como meio de atenuar a sua contradição e transformá-la em harmonia.” (Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, p. 63).
Assim o PT em seu projeto (e prática) de governo apresenta em nome da classe trabalhadora um projeto pequeno-burguês. Mas o PT não governa sozinho, têm razão nossos colegas. É necessário seguir nossa análise para responder quais classes e setores de classe compõem o governo Dilma. Como o centro do projeto político foi deslocado para chegar ao governo federal e lá se manter, são necessárias alianças e até mesmo o programa de reformas democrático-populares é por demais amplo (seria o que André Singer chama de “reformismo forte”), então, rebaixa-se o programa (um “reformismo fraco”) e amplia-se as alianças. Para qual direção?
Não podemos confundir a sopa de letrinhas do leque de alternativas partidárias com segmentos de classe, mas eles são um indicador das personificações desses interesses. As alianças inicialmente pensadas como um leque entorno da classe trabalhadora, setores médios e pequenos empresários, se amplia bastante agora no quadro de um Pacto Social. Vejamos:
“Um novo contrato social, em defesa das mudanças estruturais para o país, exige o apoio de amplas forças sociais que dêem suporte ao Estado-nação. As mudanças estruturais estão todas dirigidas a promover uma ampla inclusão social – portanto distribuir renda, riqueza, poder e cultura. Os grandes rentistas e especuladores serão atingidos diretamente pelas políticas distributivistas e, nestas condições, não se beneficiarão do novo contrato social. Já osempresários produtivos de qualquer porte estarão contemplados com a ampliação do mercado de consumo de massas e com a desarticulação da lógica financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econômico. Crescer a partir do mercado interno significa dar previsibilidade para o capital produtivo.”
Resoluções do 12.º Encontro Nacional (2001). Diretório Nacional do PT (São Paulo, 2001, p. 38).
Este pacto social com “empresários produtivos de qualquer porte” não deixaria de fora nem mesmo os “rentistas”, como se comprovou. A chamada governabilidade exigiria que as personificações partidárias destes interesses estivessem na sustentação do governo, de forma que o governo de “centro” (pequeno-burguês) buscou e conseguiu se aliar com siglas da direita (PMDB, PTB, PP, PSC e outras). Na composição física do governo vemos setores de classes diretamente representados, como o caso dos interesses dos grandes monopólios no Ministérios da Indústria, dos bancos no Banco Central, do agronegógio no Ministério da Agricultura, assim como o controle das agências reguladores e outros espaços formais e informais de definição da política governamental.
Evidente que haverá participação dos “trabalhadores”, mas há aqui uma diferença essencial. Enquanto os setores do grande capital monopolista levam suas demandas à política de governo e as efetivam, as demandas dos trabalhadores são, por assim dizer, filtradas. Enquanto a CUT defendia suas resoluções em defesa da previdência pública, um ex-presidente da entidade assume o ministério para implementar a reforma da previdência, assim como a luta pela reforma agrária é tolerada, mas filtrada e peneirada em espaços intermediários para que os militantes comprometidos não cheguem aos espaços de decisão sobre a questão fundiária e agrária, estes reservados aos representantes do agronegócio.
Podemos ver militantes e personificações de segmentos importantes da classe trabalhadora em áreas como a saúde, a assistência social e outras, no entanto, o espaço efetivo de implementação de políticas ficaria constrangida pelas áreas de planejamento e a lógica da reforma do Estado para produzir a subserviência à lei de responsabilidade fiscal e a política de superávits primárias que tanto agrada aos banqueiros.
Recentemente a presidente Dilma, através da deputada Kátia Abreu (aquela mesmo!!!) da bancada ruralista, garimpava apoio entre os diferentes setores do agronegócio (gado, soja, milho, etc.), enquanto Paulo Maluf posava sorridente ao lado do candidato do PT ao governo de São Paulo em troca de alguns minutos no tempo de TV.
O governo de pacto social com os setores da grande burguesia monopolista e a pequena burguesia que sequestrou a representação da classe trabalhadora, implica nos limites da ação de governo, isto é, impedem o “reformismo forte” e impõe um “reformismo fraco”. Para atender as exigências da acumulação de capital dos diversos segmentos da burguesia monopolista, as demandas dos trabalhadores têm que ser contingenciadas, focalizadas, gotejadas, compensatórias.
Queria-se acabar com a fome e a miséria, mas devemos nos contentar em combater as manifestações mais agudas da miséria absoluta. Queríamos uma reforma agrária (e mais que isso, não é, uma nova política agrícola e de abastecimento, etc.), mas devemos nos contentar com crédito para assentamentos competirem com o agronegócio e assistência para os que não conseguem. Não se revertem as privatizações realizadas e cresce a lógica privatista com as fundações público privadas, as OSs e outras formas diretas ou indiretas de privatização.
O problema é que, mesmo assim, dando tanto à burguesia monopolista e tão pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com várias alternativas, e, na época das eleições, vai ameaçar, chantagear e negociar melhores condições para dar sua sustentação. O leque de alianças da governabilidade petista não implica fidelidade dos setores do capital monopolista, adeptos do amor livre, entendem o apoio ao governo do PT como uma relação aberta. Por isso aparecem na época das eleições na forma de suas personificações como partidos de “oposição”.
Tal dinâmica produz um movimento interessante. Amor e união com a burguesia monopolista durante o governo e pau na classe trabalhadora (combinada com apassivamento via políticas focalizadas e inserção como consumidores); e briga com a burguesia e promessas de amor com os trabalhadores na época de eleição!
A abertura da Copa e a hostilização vinda da área VIP contra a presidente funciona aqui como uma metáfora perfeita: eles fazem a festa para os ricos, enchem o estádio com a elite branca e rica, esperando gratidão, mas a elite xinga a presidente.
A artimanha governista é circunscrever a propalada análise concreta de uma situação concreta à conjuntura da eleição e não do período histórico em que esta conjuntura se insere. Graças a esta mágica, desaparece o governo real entre no lugar um mito que resiste ao neoliberalismo contra as forças do mal igualmente mitificadas e descarnadas de sua corporalidade real. É o odioso “neoliberalismo”, que vai retroceder nos incríveis ganhos sociais alcançados e desestabilizar os governos progressistas na America Latina. Vejam, nos dizem, como são piores que nosso governo, precisamos derrotá-los para evitar o retrocesso e as privatizações. Mas uma vez derrotados eleitoralmente os adversários de direita… quem privatizou o Campo de Libra? Colocando exército para bater em manifestantes? Quem aprovou a lei das fundações público-privadas que abriu caminho para a privatização da saúde e outras? Quem aprovou a lei dos transgênicos, o código florestal e de mineração?
Não são iguais, é verdade. São duas versões distintas disputando a direção do projeto burguês no Brasil. Um o capitalismo com mais mercado e menos Estado, outro o capitalismo com mais Estado para garantir a economia de mercado.
Precisamos circunscrever a análise da correlação de forças ao momento eleitoral para evitar a derrota do governo Dilma, vejam, “mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular”!
Então, comecemos por aí: o atual governo NÃO É UM ALTERNATIVA POPULAR! Já é um bom começo. Mas tenho uma péssima notícia… também não é neodesenvolvimentista, seja lá o que isso queira dizer. É um governo de pacto social que, partindo de um programa e uma concepção pequeno-burguesa, crê ser possível manter as condições para a acumulação de capitais o que leva a uma brutal concentração de renda e riqueza nas mãos de um pequeno grupo, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco e muito lentamente, apresenta a limitada intenção de diminuir a pobreza absoluta e incluir os trabalhadores na sociedade via capacidade de consumo (bolsas, salários e crédito, etc.).
Ora, o que deve fazer a esquerda “sem o mínimo de peso eleitoral, que não consegue enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares”? Dizem os governistas: votar na Dilma. No entanto, desculpe a insistência de quem faz análise concreta de situação concreta não só quando chegam as eleições e água bate na bunda; mas, e se for exatamente este processo de pacto social e de implementação de um social-liberalismo que está impedindo o “avanço da consciência de classe”? Depois de 12 anos de governos desta natureza a consciência de classe está mais avançada que estava nos anos 80 e 90? Nos parece que não.
Se somos tão insignificantes, irrelevantes e idiotas… por que é necessário bater desta forma na esquerda? Pelo simples fato que nossa existência, a existência de uma ESQUERDA (não a pecha de esquerdismo que tenta se impor contra nós como estigma), é a denuncia explícita dos limites e contradições que o governismo e seus lacaios querem jogar para debaixo do tapete.
Para manter a “imagem” do governo petista (Sader está preocupado com a imagem) é preciso uma operação perversa: atacar quem denuncia os limites desta experiência, não importando o quanto desqualificado e hipócrita seja o ataque, estigmatizando, despolitizando o debate. Primeiro foi necessário destruir a esquerda dentro do PT e sabemos os métodos que foram usados nesta guerra suja. Na verdade o que vemos agora contra a esquerda fora do PT é uma projeção do ataque vil e brutal que companheiros da esquerda petista sofreram e (aqueles que ainda resistem lá no PT) ainda sofrem (esquerdistas, isolados das massas, sem expressão eleitoral, irresponsáveis, etc.). E depois que conseguirem isolar, estigmatizar e satanizar a crítica de esquerda a essa experiência centrista e rebaixada de governo? Quando forem atacados pela direita que não guarda nada a não ser desprezo para com os escravos da casa grande?
As manifestações seriam, segundo os governistas, uma ofensiva da direita para sujar a imagem bela e idealizada do governo e o esquerdismo joga água neste moinho. Interessante que a necessidade de uma análise concreta de uma situação concreta, da correlação de forças e das classes não é necessária quando se trata das manifestações. MTST, garis, metroviários, professores, são todos imbecis marionetes da direita, manipulados por ela e quando pensam lutar por seus direitos e demandas estão fazendo o jogo da direita. Somos nós que fazemos o jogo da direita… tem certeza?
De nossa parte, não nos incomodamos, porque não esperamos nada mais que isso como consequência do progressivo, e triste, processo de descaracterização e rebaixamento político. Não será a primeira vez que a política pequeno-burguesa, que se diz representante de todo o povo, se alia ao trabalho sujo da direita para combater a esquerda.
Respondemos àqueles que acreditam que estamos isolados com as palavras de Lenin, com quem aprendemos a fazer análise concreta de uma situação concreta:
Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um caminho melhor? Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro é precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque também nós somos “livres” para ir aonde nos aprouver, livres para combater não só o pântano, como também aqueles que para lá se dirigem!
(Lenin, Que fazer?, São Paulo: Expressão Popular, 62).
in Boitempo.blog

domingo, 15 de junho de 2014

As tácticas subversivas do imperialismo

Pelo Socialismo
Questões político-ideológicas com atualidade
http://www.pelosocialismo.net


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Publicado em 2014/05/06, em: http://www.contrainjerencia.com/?p=88596
Tradução do castelhano de PAT
Colocado em linha em: 2014/06/13

China: a verdadeira história de Tiananmen

Brian Becker

A histeria gerada pelo "massacre" da Praça de Tiananmen foi baseada
num relato fictício sobre o que realmente aconteceu e isso comprovou-se
quando o governo chinês limpou finalmente a praça de manifestantes,
em 4 de junho de 1989.
A demonização da China foi muito eficaz. Quase todos os setores da sociedade dos
EUA, incluindo a maior parte da "esquerda", aceitaram a apresentação imperialista
do que lá se passou.
Naquela altura, a versão oficial do governo chinês sobre os acontecimentos foi, de
imediato, rotulada de propaganda falsa. A China informou que umas 300 pessoas
morreram em confrontos, no dia 4 de junho, e que muitos dos mortos eram soldados
do Exército Popular de Libertação (EPL). A China insistiu em que não houve
massacre de qualquer estudante na Praça de Tiananmen e, de facto, os soldados
limparam a Praça de manifestantes sem qualquer disparo.
O governo chinês também afirmou que os soldados desarmados, que estavam na
Praça Tiananmen nos dois dias anteriores a 4 de junho, foram queimados e linchados
e os seus cadáveres pendurados dos autocarros. Outros soldados foram incinerados
quando os veículos militares foram incendiados com eles lá dentro, pois não se
podiam escapar, e muitos outros foram severamente espancados por ataques de
turbas violentas.
Essas histórias eram verdadeiras e bem documentadas. Não seria difícil imaginar
como o Pentágono e as agências policiais dos Estados Unidos teriam reagido
violentamente, se o movimento Occupy, por exemplo, tivesse, de forma idêntica,
encurralado com fogo soldados e polícias e os tivessem linchado quando o governo
estava a tentar limpar os espaços públicos.
Num artigo de 5 de junho de 1989, o Washington Post descreveu como foram
organizados os combatentes antigovernamentais em formações de 100 a 150 pessoas.
Estavam armados com coquetéis molotov e bastões de ferro para enfrentarem o EPL,
cujos soldados, no entanto, estavam desarmados antes do dia 4 de junho.
2
O que aconteceu na China, que custou a vida aos opositores do governo e aos
soldados, em 4 de junho, não foi um massacre de estudantes pacíficos, mas uma
batalha entre soldados do EPL e destacamentos armados do chamado movimento
pró-democracia.
"Numa avenida, no oeste de Pequim, os manifestantes atearam fogo a um comboio
militar inteiro de mais de 100 camiões e veículos blindados. Fotos aéreas do
incêndio e colunas de fumo reforçaram poderosamente os argumentos do governo
[chinês] de que as tropas foram as vítimas, não os verdugos. Outras fotos mostram
cadáveres e manifestantes a disparar com espingardas automáticas contra os
soldados, que não ofereciam resistência ", admitiu o Washington Post, numa história
que era favorável à oposição e contra o governo, em 12 de junho de 1989.
The Wall Street Journal, a voz líder da luta contra o comunismo, serviu como uma
claque ao movimento "pró-democracia". No entanto, a sua cobertura, depois de 04
de junho, reconheceu que muitos "manifestantes radicalizados, alguns agora
armados com armas de fogo e veículos apreendidos nos confrontos com os
militares" se estavam a preparar para maiores lutas armadas. A reportagem do Wall
Street Journal sobre os acontecimentos de 04 de junho retrata um quadro vivo:
"À medida que as colunas de tanques e dezenas de milhares de soldados se
aproximaram de Tiananmen, muitas tropas foram atacadas por multidões
enfurecidas ... Dezenas de soldados foram retirados de camiões, severamente
espancados e deixados a morrer. Numa interseção a oeste da praça, o corpo de um
jovem soldado, que havia vencido a morte, foi despido e pendurado de um lado de
um autocarro. Outro cadáver de um soldado foi pendurado numa cruz, a leste da
praça.”
O massacre que não existiu
Nos dias imediatamente após o 4 de junho de 1989, as manchetes, artigos e editoriais
do New York Times referem que "milhares" de ativistas pacíficos foram massacrados,
quando o exército enviou tanques e soldados para a praça. O número de mortos
estimado pelo Times foi de 2.600. Este número foi apresentado como o de estudantes
ativistas que foram baleados em Tiananmen. Quase todos os média dos EUA
relataram "muitos milhares" de mortos. Muitos deles disseram que cerca de 8.000
tinham sido sacrificados.
Tim Russert, chefe do departamento de Washington da NBC, que aparece mais tarde
no programa Meet the Press, disse que "dezenas de milhares" morreram na Praça de
Tiananmen.
A versão ficcional do "massacre" foi mais tarde corrigida, mas pouco, pelos
jornalistas ocidentais que tinham participado nas fabricações e estavam dispostos a
retocar o registo para poderem dizer que fizeram "correções". Mas, então, já era tarde
demasiado tarde e eles também o sabiam. A consciência do público já tinha sido
formada. A falsa história converteu-se no discurso dominante. Haviam massacrado
os factos com sucesso, para os ajustar às necessidades políticas do governo dos EUA.
3
"Naquela noite, a maioria das centenas de jornalistas estrangeiros, inclusive eu,
estavam noutras partes da cidade ou foram retirados da praça para que não
pudessem testemunhar o último capítulo da história dos estudantes. Os que
tentaram ficar perto dos dramáticos acontecimentos são aqueles que, em alguns
casos, reforçaram o mito de um massacre de estudantes ", escreveu Jay Mathews,
primeiro chefe do escritório do Washington Post, em Pequim, num artigo de 1998, no
Columbia Journalism Review.
O artigo de Mathews, que inclui a sua própria admissão de usar a terminologia do
massacre da Praça Tiananmen, veio nove anos depois dos factos e reconheceu que as
correções posteriores tiveram pouco impacto.
"Os acontecimentos de Tiananmen são conhecidos há muito tempo. Quando Clinton
visitou a praça, em junho deste ano, o diário The Washington Post e o The New York
Times explicaram que ninguém morreu ali [na Praça de Tiananmen] durante a
repressão de 1989. Mas foi uma breve explicação, depois de muitos e longos artigos.
Duvido que eles tenham feito muito para acabar com o mito".
Naquela altura, todas as informações sobre o massacre dos estudantes diziam
basicamente o mesmo e, portanto, parecia que deveria ser a verdade. No entanto, tais
informações não se basearam em depoimentos de testemunhas presenciais.
O que realmente aconteceu
Nas sete semanas anteriores a 4 de junho, o governo chinês conteve-se
extraordinariamente para não enfrentar aqueles que paralisaram a zona central da
capital da China. O Primeiro-ministro reuniu-se diretamente com os líderes do
protesto e a reunião foi transmitida pela televisão nacional. Tal não distendeu a
situação, antes encorajou os líderes do protesto, que sabiam que tinham o apoio total
dos Estados Unidos.
Os líderes do protesto erigiram uma enorme estátua, que se parecia com a Estátua da
Liberdade dos Estados Unidos, no meio da Praça de Tiananmen. Estavam a indicar a
todo o mundo que as suas simpatias políticas eram com os países capitalistas e, em
particular, com os Estados Unidos. Proclamaram que continuariam os protestos até
que o governo fosse derrubado.
Sem um final à vista, a liderança chinesa decidiu pôr fim aos protestos, limpando a
Praça de Tiananmen. As tropas entraram na praça desarmadas a 2 de junho e muitos
soldados foram espancados, alguns foram assassinados e os seus veículos militares
incendiados.
Em 4 de junho, o EPL entrou de novo na praça, com armas. De acordo com as
informações dos média dos Estados Unidos da época foi então que os soldados do
EPL, com metralhadoras, balearam os protestos pacíficos de estudantes, num
massacre de milhares de pessoas.
A China disse que os relatórios do "massacre" na Praça de Tiananmen foram uma
invenção criada pelos meios de comunicação ocidentais e pelos líderes do protesto,
4
que se serviram daqueles disponíveis meios como uma plataforma para uma
campanha de propaganda internacional, no interesse de ambos.
A 12 de junho de 1989, oito dias após o confronto, o New York Times publicou um
"exaustivo" relatório, mas, na verdade, totalmente fabricado por um estudante
chamado Wen Wei Po, de testemunhas presenciais do massacre de Tiananmen.
Estava cheio de historietas detalhadas da brutalidade, assassinatos em massa e
heroicas batalhas de rua. Disse que havia metralhadoras do EPL no telhado Museu da
Revolução, com vista para a praça, onde os estudantes foram baleados. Este relatório
foi acolhido, em todo o lado, pelos média dos EUA.
Embora tratado como o evangelho e uma prova irrefutável de que a China estava a
mentir, o relatório de 12 de Junho da "testemunha" Wen Wei Po era tão exagerado e
era tão provável que desacreditasse o New York Times na China, que o
correspondente do Times em Pequim, Nicholas Kristoff, que serviu como porta-voz
dos manifestantes, pôs em causa os pontos principais do artigo.
Kristoff escreveu num artigo de 13 de junho: "A questão do local onde houve tiroteio
é importante, devido à afirmação do Governo de que ninguém foi baleado na Praça
de Tiananmen. A televisão estatal mostrou mesmo o vídeo dos estudantes a sair
pacificamente da praça pouco depois do amanhecer, como prova de que não se
tinham sacrificado."
"O quadro central do artigo da [testemunha] é de tropas a metralhar estudantes
desarmados reunidos em torno do Monumento aos Heróis do Povo, no centro da
Praça de Tiananmen. Várias outras testemunhas, tanto chinesas como estrangeiras,
dizem que isto não aconteceu", escreveu Kristoff.
"Tão-pouco há evidências de posições de metralhadoras no telhado do museu de
história, que foram relatadas no artigo Wen Wei Po. Este repórter foi direto à zona
do museu e não viu ali metralhadoras. Outros jornalistas e testemunhas nos
arredores também não conseguiram vê-las."
“O tema central do artigo de Wen Wei Po era o de que as tropas espancaram e,
posteriormente, os estudantes foram metralhados, na zona em torno do monumento
e que uma linha de veículos blindados lhes cortou a retirada. Porém, as testemunhas
dizem que os veículos blindados não cercaram o monumento – ficaram no extremo
norte da praça – e que as tropas não atacaram os estudantes agrupados em torno
do mesmo. Vários jornalistas estrangeiros estavam também perto do monumento
essa noite e não se sabe de nenhum que tenha relatado que os estudantes foram aí
atacados", escreveu Kristoff no artigo de 13 junho de 1989.
A versão do governo chinês reconhece que houve combates de rua e confrontos
armados em bairros vizinhos. Dizem que, nessa noite, morreram cerca de trezentas
pessoas, incluindo muitos soldados, mortos com disparos, coquetéis molotov e
espancamentos. No entanto, insistiram em que não houve nenhum massacre.
Kristoff também diz que houve confrontos em várias ruas, mas refuta a informação
da "testemunha" sobre um massacre de estudantes na Praça Tiananmen,
5
"... Em vez disso, os estudantes e uma cantora pop, Hou Dejian, negociaram com os
soldados e decidiram sair da praça de madrugada, entre as 5 e as 6 horas. Os
alunos saíram todos juntos. A Televisão chinesa mostrou os estudantes a sair da
praça de forma pacífica até ficar vazia."
Objetivo da contrarrevolução na China
Na verdade, o governo dos EUA tinha-se envolvido ativamente na promoção dos
protestos "pró-democracia", através de uma extensa campanha, bem financiada,
coordenada a nível internacional com a máquina de propaganda que lança rumores,
meias-verdades e mentiras, desde o momento em que os protestos começaram, em
meados de abril de 1989.
O objetivo do governo dos EUA foi o de realizar uma mudança de regime na China e
derrubar o Partido Comunista da China, o partido no poder desde a revolução de
1949. Dado que muitos ativistas no movimento progressista de hoje não estavam
vivos ou eram crianças na momento do incidente de Tiananmen, em 1989, o melhor
exemplo recente de como funciona uma operação imperialista de mudança e
desestabilização de regime é revelado no recente derrube do governo ucraniano. Os
protestos pacíficos no centro da praça recebem apoio internacional, o financiamento
e apoio dos média dos Estados Unidos e das potências ocidentais; depois, entra em
cena a liderança dos grupos armados, que são aclamados como combatentes da
liberdade pelo Wall Street Journal, a Fox News e outros meios de comunicação; e,
finalmente, o governo eleito pela CIA para ser derrubado será totalmente demonizado
se utiliza a polícia ou o exército.
No caso dos protestos "pró-democracia" na China, em 1989, o governo dos EUA
tentou criar uma guerra civil. A Voz da América aumentou as suas emissões em
chinês para 11 horas diárias e orienta a emissão "diretamente para 2.000 antenas
parabólicas na China, na sua maioria operadas pelo Exército Popular de
Libertação" (New York Times, 09 de junho de 1989).
As transmissões da Voz da América para as unidades do EPL estavam cheias de
relatos de que algumas unidades do EPL estavam a disparar contra outras, e de que
diferentes unidades eram leais aos manifestantes e outras estavam com o governo.
A Voz da América e os meios de comunicação dos Estados Unidos trataram de criar a
confusão e o pânico entre os partidários do governo. E, precisamente, antes de 4 de
junho, quando foi noticiado que o primeiro-ministro da China, Li Peng, havia sido
baleado e que Deng Xiaoping estava à morte.
A maioria no governo dos EUA e nos média esperava que o governo chinês seria
derrubado pelas forças políticas pró-ocidentais, como estava a começar a acontecer
naquela altura (1988-1991) com o derrube de governos socialistas em toda a Europa
central e oriental, após a introdução reformas pró-capitalistas por Gorbatchev na
União Soviética em 1991.
Na China, a "pró-democracia", movimento de protesto, foi liderada pelos estudantes
privilegiados, bem relacionados com as universidades de elite, que pediam
6
expressamente a substituição do capitalismo pelo socialismo. Os líderes estavam
especialmente ligados aos Estados Unidos. No entanto, outros milhares de estudantes
que participaram nos protestos estavam na praça porque tinham motivos de queixa
contra o governo.
Porém, a liderança imperialista, ligada ao movimento, tinha um plano explícito para
derrubar o governo. Chai Ling, que foi reconhecido como o líder máximo dos
estudantes, deu uma entrevista aos jornalistas ocidentais, na véspera de 4 de junho,
em que reconhecia que o objetivo dos dirigentes era levar a população a uma luta
para derrubar o Partido Comunista da China, o que só seria possível, explicou, se
pudessem provocar com êxito o governo para que este atacasse com violência as
manifestações. Essa entrevista foi emitida da "Porta da Paz Celestial". Chai Ling
também explicou por que não podiam dizer ao resto dos manifestantes estudantis os
efetivos planos dos líderes.
"A busca da riqueza é parte do impulso para a democracia", explicou outro dos
líderes estudantis, Wang Dan, numa entrevista ao Washington Post, em 1993, no
quarto aniversário dos incidentes. Wang Dan esteve em todos os média dos EUA,
antes e depois destes incidentes de Tiananmen. Era conhecido por explicar porque é
que os elitistas líderes estudantis não queriam que os trabalhadores chineses se
unissem ao seu movimento. Afirmou que "o movimento não está pronto para a
participação dos trabalhadores, porque a democracia deve primeiro ser absorvida
pelos estudantes e os intelectuais, antes que possa influenciar os demais".
Vinte e cinco anos mais tarde: os EUA continuam a procurar
uma mudança de regime e a contrarrevolução na China1
A medida tomada pelo governo chinês para dispersar o chamado movimento pródemocracia,
em 1989, foi recebida com amarga frustração dentro da classe política
dos EUA.
Os EUA, ao princípio, impuseram sanções econômicas à China, mas o seu impacto foi
mínimo, e a classe política de Washington e os bancos de Wall Street deram-se conta
de que as empresas e os bancos norte-americanos seriam os grandes perdedores, na
década de 1990, se se fosse isolar completamente China, quando a China estava a
abrir ainda mais o seu mercado de trabalho e as matérias-primas nacionais ao
investimento direto de empresas ocidentais. Os grandes bancos e as empresas
colocam em primeiro lugar as suas próprias margens de lucro, e os políticos de
Washington seguiram o exemplo da classe multimilionária sobre esta questão.
Mas a questão da contrarrevolução na China levantará de novo a cabeça. As reformas
económicas lançadas após a morte de Mao abriram o país ao investimento
estrangeiro. Esta estratégia de desenvolvimento foi projetada para superar
rapidamente o legado de pobreza e o desenvolvimento insuficiente em tecnologia
1 Hoje, na nossa opinião, a China posiciona-se como um polo imperialista, o que questiona a referência
do autor, no último parágrafo, ao “choque entre o imperialismo mundial e a República Popular da
China”. – [NE]
7
estrangeira importada. Em troca, as corporações ocidentais receberam mega lucros. A
liderança pós-Mao no Partido Comunista calculou que a estratégia beneficiaria a
China, em virtude de uma rápida transferência de tecnologia do mundo imperialista
para a China. E, de facto, a China fez grandes progressos económicos. Mas, além de
desenvolvimento econômico, também desenvolveu uma grande classe capitalista na
China e uma parte importante dessa classe e os seus filhos estão a ser cortejados por
todo o tipo de instituições financiadas pelo governo dos EUA – as instituições
financeiras e os centros acadêmicos dos Estados Unidos.
O Partido Comunista da China divide-se também em fações e tendências próamericanas
e pró-socialistas.
Hoje, o governo dos EUA está cada vez mais a aplicar pressão militar sobre a China.
Está a acelerar-se a luta contra a ascensão da China ao consolidar novas alianças
militares e estratégicas com outros países asiáticos. Também esperam que, com uma
pressão suficiente sobre alguns membros da liderança chinesa, que são a favor do
abandono da Coreia do Norte, se possa obter algo.
Se a contrarrevolução tivesse êxito na China, as consequências seriam catastróficas
para o povo chinês e o país. Na China aconteceria o que aconteceu na União Soviética,
quando foi derrubado o Partido Comunista da União Soviética. O mesmo destino teve
a ex-Jugoslávia. A contrarrevolução e o desmembramento da China trariam um
retrocesso a toda a velocidade. Seria travar o espetacular ascenso pacífico da China,
vinda do subdesenvolvimento. Durante décadas, produziu-se um debate sério dentro
do institucionalismo da política externa dos EUA sobre o desmembramento da China,
o que enfraqueceria a China como nação e permitiria aos Estados Unidos e às
potências ocidentais apoderar-se das suas partes mais lucrativas. Este é precisamente
o cenário que a China apresentava no seu século de humilhação, quando as potências
capitalistas ocidentais dominaram o país.
A revolução chinesa passou por muitas etapas: as vitórias, os recuos e os reveses. As
suas contradições são inumeráveis. No entanto, continua aí. No choque entre o
imperialismo mundial e a República Popular da China, os progressistas devem saber
qual a sua posição – e não é a de estar à margem do problema.

Templo dórico, Viagem à Sicília, Agosto 2009

Templo grego clássico da Concórdia

Templo grego clássico da Concórdia
Viagem à Sicília

Teatro greco-romano

Teatro greco-romano
Viagem à Sicília

Pupis

Pupis
Viagem à Sicília Agosto 2009

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz: nele pereceram 4 milhôes de judeus. Depois dos nazis os genocídios continuaram por outras formas.

Viagem à Polónia

Viagem à Polónia
Auschwitz, Campo de extermínio. Memória do Mal Absoluto.

Forum Romano

Forum Romano
Viagem a Roma, 2009

Roma - Castelo de S. Ângelo

Roma - Castelo de S. Ângelo
Viagem a Roma,2009

Roma-Vaticano

Roma-Vaticano

Roma-Fonte Trévis

Roma-Fonte Trévis
Viagem a Roma,2009

Coliseu de Roma

Coliseu de Roma
Viagem a Roma, Maio 2009

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Vaticano-Igreja de S.Pedro

Grécia

Grécia
Acrópole

Grécia

Grécia
Acrópole

Viagem à Grécia

Viagem à Grécia

NOSTALGIA

NOSTALGIA

CLAUSTROFOBIA

CLAUSTROFOBIA